30 novembro 2008

Por solidariedade...

Mário Botas, Os passeios de um sonhador

... dei uma mãozinha neste texto.

29 novembro 2008

É só fazer as contas

Sem dúvida!!!

Quadro de Arcimboldo
Solidarizo-me por inteiro!

Ficam convidados...


... a, enquanto não volto mais regularmente, a lançarem aqui alguma luz sobre aquilo que julgam estar na origem de coisas deste tipo, impensáveis aqui há uns anos.

25 novembro 2008

No dia em que decidi desalinhar-me...


... e ficar em casa, a descansar, deixo-vos aqui uma gravura, sem título, do notável, saudoso e esquecido Mário Botas, bem como um seu poema que me foi enviado por Nicolau Saião, a quem ele o ofereceu no decorrer de um encontro promovido por MANDRÁGORA - Centro de Cultura e Pesquisa de Arte, em Lisboa, em 1980, onde também participaram Mário Cesariny e Manuel de Almeida e Sousa.


“Seldom we find” says Solomon Don Dance
“Half an idea in the profoundest sonnet”
E.A.Poe


A fisionomia, o carinho das coisas impalpáveis,
o balbuciar, todo em amarelo, dos limões...
Cintura na pedra,
correio subtil de Lesbos para Marte.

Antinous visitou-me. Deixou a casa desarrumada
e um projecto em mim demasiadamente longo.
No frágil da memória eu durmo e sou eu
deuses de papelão sentando-se a meu lado.

No leito fluvial por onde dorme o cisne
chamam por mim os outros príncipes. Todos
irmãos.

Escuridão nova na velha escuridão,
efeito de luz nas janelas do poema...
O meu cão dorme. He is a poet, isn’t he?

Às vezes ainda dá gosto...


24 novembro 2008

22 novembro 2008

Em plena crise de tempo...

Maria Keil, pormenor de um mural
... só me dá para aconselhar o que outros vão dizendo, isto, por exemplo, e mais isto. Penso que lá para quarta ou quinta-feira começarei a ter mais alguma disponibilidade para tourear umas quantas coisas.

19 novembro 2008

Se...


... isto for verdade (e tudo indica que o seja), então estaremos perante um procedimento inaceitável, ao melhor nível do Estado Salazarento. Não apenas porque constitui uma forma digna do filho do Manholas (alcunha do pai de Salazar) de conseguir argumentos, no sentido de afirmar que os professores cumprem e estão de acordo com o que foi determinado pelo Ministério, como também contraria o que é por ele estipulado para essa mesma avaliação quando estabelece, tanto quanto eu conheça do assunto, que os OI (objectivos individuais) têm um carácter pessoal e que, por questões de funcionalidade, com excepção dos casos litigiosos ou suspeitos, eles constituem somente matéria para o professor-avaliador.
José Sócrates é, sem dúvida, neste momento, o primeiro-ministro de um poder político que atingiu o sinistro ao nível do ridículo.

Mais correio


Sócrates entregou Magalhães só para a fotografia
Por Margarida Davim
José Sócrates esteve na Escola do Freixo, em Ponte de Lima, a entregar computadores aos alunos do 1.º ciclo. Mas, depois de o primeiro-ministro ir embora, as crianças tiveram de devolver os Magalhães
A Escola do Freixo, em Ponte de Lima, foi o palco escolhido por José Sócrates, na passada quarta-feira, para mais uma acção de promoção dos computadores da JP Sá Couto para o 1.º ciclo. Sócrates chamou os jornalistas e distribuiu os Magalhães pelas crianças. Mas, terminada a cerimónia oficial, os portáteis tiveram de ser devolvidos. Contactado pelo SOL, o conselho executivo da Escola do Freixo explicou que as crianças não puderam ficar com os computadores, «porque há questões administrativas a tratar».
A mesma fonte – que não se quis identificar – assegura que os Magalhães «estão na escola», mas explica que isso não significa que os alunos do Freixo vão receber os portáteis mais depressa do que as crianças de outros estabelecimentos de ensino. «Não sabemos quando é que os computadores vão ser distribuídos», admitiu, acrescentando que a entrega «depende da logística administrativa». Antes da entrega real dos equipamentos, a escola vai ter de «preencher toda a papelada e os pais que não estiverem abrangidos pelo 1.º escalão da acção social escolar vão ter de fazer o pagamento do computador». Um processo que a escola admite desconhecer quanto tempo poderá demorar. Fica também por esclarecer se os Magalhães que Sócrates já deixou na escola serão suficientes para todas as crianças.
A Escola do Freixo tem 185 alunos inscritos no 1.º ciclo, mas o conselho executivo diz não saber quantos portáteis foram entregues na cerimónia que contou com a presença do primeiro-ministro. «Não sei quantos computadores cá ficaram», disse ao SOL um elemento do conselho executivo. Ao que o SOL apurou, foi explicado a alguns alunos que os computadores tinham de ser devolvidos no final da visita de Sócrates por terem problemas nas baterias. No entanto, o conselho executivo da Escola do Freixo garante que «as crianças sabiam» que não iam ficar com os Magalhães naquele dia, porque lhes «foi explicado que era preciso realizar alguns procedimentos administrativos».

Mas, já agora:


Deixou Santos Silva a dúvida sobre se por palavras ou se por actos...

É que...


... porra!, não me dão uns minutos de folga para desabafar! E há tanto para dizer neste momento...!
Volto antes do fim-de-semana, mas não sei quando. Entretanto, vão lendo este texto.

15 novembro 2008

Chamada de atenção


No dia em que mais uns milhares de professores (os não-alinhados com os sindicatos) se manifestaram em Lisboa e em que os inspectores do Ministério da Educação vieram dizer que este modelo de avaliação é inexequível, chamo a atenção para este post.

13 novembro 2008

Da autoridade


Naturalmente que este último ponto não oferecerá dúvidas, a não ser que os actuais governantes tenham amigos verdadeiros, daqueles que dizem o que pensam e que deste modo lhes estejam a apontar o caminho digno da demissão. Mas não me parece crível que isso pudesse acontecer. Apontaria até, reforçando o que afirmou o sr. Secretário de Estado, para que se trate igualmente de um caso de plágio de procedimentos, pois o Ministério também já, em outras ocasiões, contratou actores e figurantes para tomarem o lugar de alunos de verdade em acções de propaganda, perdão!, de divulgação de medidas em prol da grei.
O dr. Jorge Pedreira tem, sem dúvida, autoridade suficiente para suspeitar de algo neste campo e não serei eu a contestá-la.

Correio


Nicolau Saião (que não conheço pessoalmente), poeta da velha guarda surrealista, alentejano de todos os costados, enviou-me um texto que apenas hoje li devido às confusões em que tenho andado metido. Aqui o deixo, à consideração de todos os que por cá passam.

Tempos de Novo Apólogo

“Fátima Felgueiras absolvida de 22 crimes de que vinha acusada e condenada em 3 anos e 3 meses de pena suspensa por apropriação de 177 Eur de ajudas de custo e utilização por diversas vezes de um carro da autarquia” - Dos jornais

SE NÃO FOSTE TU FOI O TEU FILHO
Durante anos, a pretexto de diversas razões intimidatórias, foram feitas contra Fátima Felgueiras verdadeiras campanhas de difamação e de calúnia.
Nomeadamente em órgãos de informação que deviam ser responsáveis e alinharam naquilo a que Unamuno chamou "a solidariedade dos crápulas".
Uma monstruosidade, sim, porque o enquadramento real é este: como é que esta sanha foi possível num país civilizado ou que tem foros de o dever ser?
Para camuflar outros casos, esses sim vergonhosos e gritantes?
Durante anos segui este caso e escrevi sobre ele em Portugal e no estrangeiro. Muitas vezes, sabendo o que sabia de todo este assunto, me perguntei: como é que Fátima Felgueiras aguenta tanta pressão? De tentarem compará-la a um Al Capone, quando eu via olhos nos olhos que era apenas uma mulher determinada a não se deixar esmagar?
Condenada por umas ajudas de custo...por utilização de um carro...
Tenho a certeza de que em recurso se provará a sua completa inocência.
Mas o ódio contra ela, pelos vistos continua.
Não é ela o vosso inimigo, portugueses. Esse - são sim outros!
Em breve virei a lume num jornal estrangeiro, de maneira mais aprofundada, tratar este assunto de forma alongada e com pormenores como por exemplo este: por diversas vezes me foram feitos telefonemas anónimos injuriando-me, ameaçando-me de me “limparem o sarampo” (textual).
Mas porquê, perguntar-se-á? É muito simples: porque o meu filho mais velho, pessoa que como não é covarde nem gosta de sangue na praça pública, que é o que os caluniadores, os falsos moralistas e os difamadores gostam (eles “sabiam” que Fátima Felgueiras tinha roubado milhões, assim como “sabiam” que um carro que comprei com muito custo e continuo a pagar tinha sido outorgado para me taparem a boca - chegaram a esta infâmia) dizia, porque esse filho, de nome João Garção, revoltado com as calúnias concorreu e foi eleito por maioria absoluta como vereador na equipa camarária da “criminosa”. A ele ofertaram-lhe o mimo de difundirem que tinha fugido com o cofre da Escola Superior onde era director; mas não tinha fugido sózinho e sim com duas espanholas de Vigo... Depois, quando tal enxovalho foi desmascarado, fizeram soar que como era de famílias ricas, sempre que se sentia em apertos refugiava-se na paterna herdade de Évora...
Como qualquer ser medianamente culto saberá, a minha herdade é sim em Arronches. E, provavelmente por causa do calor alentejano, ou do frio alentejano, encolheu – e é hoje um simples quintal nas traseiras duma simples casa que uma tia me deixou e que com custo mandei recuperar e ando a pagar – porque, ao contrário do Estado português, que deve mil milhões aos militares além de outros pequenos trocos por aqui e por ali, pago as minhas contas e por isso todos os dias almoço sem ser de cara rebaixada!
Mas o mais vergonhoso é que a sanha odienta de Torquemadas de pacotilha não foi apenas propalada por primários e por gente sem gabarito. Gente houve (lembram-se de comentadores da nossa santa TV, etc?) que, eivados de santíssima sabença (conheciam o processo...sem nunca o terem lido!) deblateravam, deblateraram – e não davam direito de resposta – como aquele conhecido santarrão das letras que disse que as pessoas que concorriam com a autarca eram apenas lixo.
Ou seja: sou, com muita honra e assumidamente, pai dum bocado de lixo. Um bocado de lixo que, todavia, demonstrou de outras formas, publicamente, que é menos lixo e tem mais talento e vergonha numa mão do que o conspícuo indivíduo tem no corpo todo.
Foi esta, durante dez anos, a democracia de tais senhores. A da cobarde injúria. E não me refiro a quem, como era seu direito, analisava e comentava ponderadamente o caso!
Mas sim a essa récua de gente que, como dizia Cesariny, vê os argueiros dos outros sem ver as esguelhas próprias...
Simplesmente.

NICOLAU SAIÃO

12 novembro 2008

Aos que ainda têm paciência para vir até aqui


Ando cheio de aflitos com várias coisas que me sucederam ao mesmo tempo (só chatices, incluindo a possibilidade de ter que pagar uma conta de água de mais de 2.000 euros por rotura de canalizações!!!). Volto dentro dos próximos três dias.

09 novembro 2008

Respondendo...


Magritte, Golconde

... aos comentários do Mestre Carranza:
Será que a ministra, segundo Sócrates, "rosto do governo" considerará a manifestação por via eleitoral que lhe permitiu, três anos atrás, chegar ao cargo, como a forma de uma parte dos portugueses chantagear outra? Pertencerão então os 120.000 que se manifestaram à parte chantageada? Terá a ministra contabilizado os votos recebidos por José Sócrates para ver se aqueles que o fizeram poderiam pertencer na totalidade a essa minoria ou se, pelo contrário, poderiam pertencer também aos seus (agora ex-) apoiantes ou incluí-los? E, assim, entenderá a manifestação como mais ou menos significativa do ponto de vista da legitimidade da acção que tem desenvolvido e das medidas que tem tomado?
Finalmente: deverá o governo pedir um empréstimo para financiar as contas públicas? É que um conjunto de instituições que, na boca da ministra, conta com, pelo menos ao que parece, um mínimo de 120.000 accionistas é mais do que um parceiro social, é um verdadeiro parceiro económico...!

... ao comentário do RoD:
Pois. Mas até que ponto ia esse acordo? Também gostaria de estar informado. Por ambas as partes.

A coisa está cada vez mais divertida


Aaah...! Isto explica o que me aconteceu um ano atrás e, ao que parece, se mantém no hospital onde estive!
Entretanto, os reitores das universidades denunciam a miséria económica - bem como a que dela decorre - das instituições de ensino superior e, no caso da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (salvo erro), o dinheiro já nem chega para cobrir os subsídios de Natal.
O Carnaval vem a seguir.

08 novembro 2008

Mais baixo, cada vez mais baixo...

Fotografia obtida no Sapo
A alegada ministra da Educação do alegado governo do alegado primeiro-ministro disse, num telejornal, que os bastante mais de cem mil professores que hoje se manifestaram contra este modelo de avaliação o fizeram como forma de chantagear, pela intimidação, os restantes (mais ou menos 20%).
Não descobriram ainda em Sociologia, ou não lho terão ensinado durante o curso, que o poder, quando cai na disformidade do ridículo e da má-fé, cai mais baixo ainda do que a rua?

TENHAM VERGONHA!!!


DEMITAM-SE!!!


07 novembro 2008

04 novembro 2008

Não é óbvio?

Magritte, O duplo segredo
À pergunta sobre o que achava da nacionalização do BPN, Alberto João Jardim respondeu com a sua estranheza quanto ao facto de serem tão constantes e rigorosos no que respeita à fiscalização das contas da Madeira e não terem dado por nada do que se passava mesmo ao pé "deles".
Limitou-se a lembrar o óbvio.
Paulo Portas, pelo seu lado, sugere a Vítor Constâncio que se demita do Banco de Portugal, dado o desempenho que teve até à data e que culminou com este caso, que, segundo as suas declarações, lhe era totalmente desconhecido.
Limitou-se a sugerir o que é óbvio quanto ao que é uma postura honrada e digna.
Teixeira dos Santos afirmou que a nacionalização do banco tinha por objectivo proteger os depositantes e os accionistas. Não referiu os (salvo erro) 900.000.000 de euros que o Estado lá movimenta, escamoteando esse outro motivo, menos altruísta, da sua decisão.
Limitou-se a confirmar o que é óbvio quanto aos governantes que temos.
Manuela Ferreira Leite exigiu que o governo peça desculpa ao PSD por recusar a medida do seu partido de pôr o Estado a pagar as suas dívidas às empresas, como forma de revitalizar a economia, para depois vir anunciar essa mesma medida com grande e filantrópico estardalhaço. E falou das políticas de José Sócrates como "políticas de ilusionismo".
Limitou-se, também ela, ao óbvio.
Menos óbvio, porém, repito, ao que parece, para os militantes do Partido Socialista.
É que estar no poleiro, mesmo interpostamente, sempre confere, para si próprio, alguma credibilidade e importância.
Mais ou menos como, antes do 25 de Abril, qualquer miserável em Portugal se orgulhava de ter um império em África.

Ainda sobre o estado da Educação...


... transcrevo aqui um texto de António Barreto no PÚBLICO deste domingo, que um amigo me enviou por e-mail.
Se antes era preciso estudar as causas dos maus resultados em Matemática, agora é urgente estudar as causas do milagre
O ano lectivo de 2007/2008 ficará para sempre na história da educação em Portugal. Nunca saberemos exactamente o que se passou. Mas a verdade é que ocorreu um milagre nos resultados dos exames (do básico e do secundário) e na avaliação das escolas e dos estudantes. Centenas e centenas de escolas viram as suas médias saltar, é esse o preciso termo, de negativas e medíocres níveis para positivas e gloriosos escalões. Mais de 400 escolas que hoje exibem médias positivas em todos os exames nacionais encontravam-se há um ano na lista negra das negativas. Considerando as vinte disciplinas do secundário com mais inscritos, mais de 82 por cento das escolas têm agora médias positivas. A média nacional dos exames de Matemática, negativa há um ano, é agora de mais de 12 valores! Há um ano, apenas 200 escolas conseguiam média positiva a Matemática. Agora, são mais de mil! Mais de 90 por cento das escolas têm agora média positiva a Matemática. Há escolas com médias a Matemática de 18 valores! No conjunto das duas disciplinas, Matemática e Português, 97 por cento obtiveram média positiva! Nas oito disciplinas principais do secundário, a média positiva foi atingida por 87 por cento das escolas!
As médias da Matemática, crónico cancro do sistema, eram o quadro da desonra de uma população manifestamente incapaz de contar. Pois bem! São hoje o certificado de honra e talento de um povo para o qual as equações e as derivadas deixaram de ser mistério. É possível que muitas escolas portuguesas, para já não dizer a média de todas, se situem hoje entre as mais competentes do mundo em Matemática!
Muita gente ficou feliz. Professores gratificados, estudantes recompensados e pais descansados podem comemorar o feito. Nas universidades, esperam-se agora massas de alunos motivados e qualificados. Nos empregos, sobretudo na banca, nos seguros, nas empresas de engenharia e nos laboratórios científicos, esfregam-se as mãos na expectativa de receber, dentro de poucos anos, profissionais extraordinariamente preparados para as contas, o cálculo e o raciocínio abstracto. Nos jornais e nas televisões, onde os jornalistas confundem milhares com milhões e não sabem calcular uma percentagem ou uma taxa de variação, teremos, brevemente, dados exemplares e contas limpas. Começa uma nova era!
O problema é que ninguém acredita! Os interessados não escondem um sorriso matreiro! Os outros, com sobrolho enrugado, desconfiam. Como foi possível? Tanto melhoramento em tão pouco tempo? De um ano para o outro? Melhores professores? Melhores alunos? Novos métodos? Programas renovados? Mais tempo de aulas? Manuais mais bem elaborados? Nova organização curricular? Professores mais empenhados e disponíveis para passar mais horas a ensinar Matemática? Mais explicações privadas? Todas estas perguntas têm necessariamente resposta negativa. Nada disso era possível num ano, nem para a maioria dos alunos e das famílias. Quem desconfia tem razão. E só encontra três explicações: os exames foram incompreensivelmente fáceis; as regras de avaliação foram extraordinariamente benevolentes; ou houve ingerência administrativa para corrigir as notas. O ministério e o Governo não escapam a estas hipóteses e, se estivessem realmente interessados em conhecer o que se passa na escola, teriam impedido este bodo, não se teriam mostrado beatamente satisfeitos e teriam já procurado saber as razões do milagre. A não ser, evidentemente, que o tenham preparado e encenado.
Se, até há dias, era indispensável estudar as causas e as consequências dos maus resultados em Matemática (assim como do Português, da Física e da Química), agora passa a ser urgente estudar as causas e as consequências deste milagre. Teria sido essa, aliás, a atitude honesta de um ministério e de um Governo preocupados com a educação dos cidadãos. Se ambos são estranhos a esta hipertrofia de resultados, se nenhum teve qualquer influência no processo de avaliação e se ambos estão de boa-fé, então teríamos uma decisão oficial que, de imediato, se propusesse saber as razões e os fundamentos de tal facto. Ninguém duvida de que educar mal é tão pernicioso quanto não educar. Em certo sentido, é pior. Preparar profissionais, técnicos, cientistas e professores num clima de complacência e facilidade pode ter resultados desastrosos. As expectativas criadas não são satisfeitas. As capacidades presumidas são falseadas. O desperdício social e económico é enorme. E é criada uma situação fictícia onde fazer de conta se transforma em virtude. Para tranquilidade dos contemporâneos e para desgraça das gerações futuras.
A publicação de todos os resultados nacionais, seguida da elaboração dos rankings respectivos, transformou-se num hábito, em breve será uma tradição. Ainda hoje há erros de avaliação, de apuramento e de classificação, além de que alguns tentam distorcer os resultados para dramatizar o panorama. Com o tempo, as coisas vão melhorando. Mas, depois de resistências de toda a ordem, a começar pelas de ministros, funcionários e professores, o gesto anual faz parte do calendário educativo. Tem tido consequências positivas. Há escolas, autarquias, professores e pais realmente preocupados com a percepção que todos temos deles. Querem melhorar e querem que se saiba. Não desejam ser conhecidos como as ovelhas ronhosas. Mas o efeito mais perverso foi inesperado. Tudo leva a crer que este milagre é um resultado colateral da abertura de informação. Se os resultados continuassem secretos, talvez os governantes não se tivessem ocupado do assunto. O próximo mistério é este: como conseguirão o Governo e o ministério convencer a comunidade internacional (já que, pelos vistos, a nacional não lhes interessa) da justeza e da bondade destes resultados?

03 novembro 2008

O que me assusta...


... nem sequer é Sócrates e a sua corte, mas a tremenda irresponsabilidade de que dão mostras os portugueses militantes do Partido Socialista, quer por seguidismo, quer por conivência quer por demissão.

Mais um aviso...


Até que a casa caia
Entrou-se numa espécie de loucura pedagógica e as disciplinas onde se transmitem saberes foram perdendo importância. Os humoristas são regra geral umas almas soturnas. A graça, quando a têm, extingue-se-lhes mal acabam os espectáculos. E desistam aqueles que esperam que, no meio dum jantar de amigos, eles façam de animadores, pois habitualmente são os menos divertidos dos convivas. Para desconsolo geral, declaram que nem sabem contar anedotas e passam rapidamente aos assuntos que os interessam como a poesia, a política internacional ou o futebol. Mas sempre num registo de grande preocupação.
Talvez por causa dessa apreensiva quando não angustiada forma de estar devamos a José Pedro Gomes, precisamente o da Conversa da Treta, uma das mais sérias chamadas de atenção para a situação do ensino em Portugal. Talvez pela obrigação do ofício lhe tenha parecido estranho ouvir o bastonário da Ordem dos Engenheiros declarar que "apenas quatro politécnicos exigem Matemática como disciplina específica para acesso aos cursos [de Engenharia]. Os restantes alunos podem entrar com negativa, sem Matemática, porque não é exigido". Infelizmente, e ao contrário do que aparentemente parecia, o bastonário da Ordem dos Engenheiros, Fernando Santo, não estava a contar anedotas. Estava, sim, a dar conta da degradação real do ensino em Portugal. E foi sobre isso que José Pedro Gomes escreveu num artigo de opinião para um jornal.
Creio, contudo, que José Pedro Gomes teria sido mais bem sucedido se tivesse resolvido encenar anedotas sobre engenheiros que não estudam Matemática. Pelo menos toda a gente se ria do desconchavo e elogiavam a imaginação do artista. Naturalmente todos se achavam muito sagazes, pois os portugueses, como todos os povos que exercem mal os seus direitos, sempre gostaram de fazer de conta que a eles ninguém os engana nem censura porque interpretam melhor que ninguém as entrelinhas das anedotas. Assim, sem anedota, apenas com factos, nem se riram nem se preocuparam. Olharam para o lado. Um lado com bom ângulo que os poupe a ver aonde nos tem conduzido essa conversa da treta a que temos chamado reforma da educação, paixão pela educação, pedagogia do sucesso...
Nos últimos anos, nos ensinos básicos e secundário, institucionalizou-se uma espécie de loucura pedagógica. As disciplinas onde se transmitem saberes foram perdendo importância. Se eram difíceis, tornavam-se fáceis ou dispensáveis, como agora se viu com a Matemática. Simultaneamente todos os dias se repetia (e repete!) que os conteúdos têm de ser apelativos, pois supostamente o ensino deve ser lúdico e os alunos devem aprender sem esforço. À conta desta política de promoção do sucesso, entra-se em Engenharia sem ter estudado Matemática e a disciplina de Química corre o risco de desaparecer no ensino secundário porque os alunos não a escolhem. Idem para o Latim e para a Filosofia. Adeus equações, declinações e pensamento racional. Estuda-se um bocadinho de Psicologia e o resultado é o mesmo. Uma vez na faculdade, logo se vê. E se os engenheiros ainda vão estudando Matemática durante o curso - embora não a suficiente, porque mais de metade dos licenciados pelos 316 cursos de Engenharia existentes em Portugal chumbam no exame que a Ordem dos Engenheiros exige para o exercício da profissão - no caso dos antigos cursos de Letras, transformados cada vez mais numa versão literária das antropologias e sociologias, corre-se o risco de ver desaparecer os departamentos de Estudos Clássicos.
Noutras disciplinas, como a Física, baixou-se o nível de exigência nos exames nacionais de modo a que as estatísticas melhorassem. Mesmo nas línguas estrangeiras a opção pelo que se acha mais fácil pode levar a que se troque o francês pelo espanhol. A memorização tornou-se uma expressão maldita e arreigou-se a convicção de que o saber nasce das entranhas das crianças num fenómeno equivalente à intervenção do Espírito Santo que fez dos Apóstolos poliglotas. Os desaparecidos Trabalhos Manuais e Oficinais deram lugar às doutas tecnologias e áreas disto e daquilo, sendo que nestas disciplinas os alunos tanto podem levar o ano a fazer caixinhas de papel tipo pasteleiro, pintar cartazes para salvar a água, estudar, com detalhe, nas etiquetas da roupa a simbologia do torcer e lavar a seco, confeccionar bolos com pouco açúcar ou usar abundantemente as teclas "seleccionar-copiar-colar" da sala dos computadores. E para quê queimar as pestanas a estudar Química? Não existe, em alternativa, uma panóplia de disciplinas muito mais fáceis que, diz o "pedagoguês", desenvolvem "novas competências e dinâmicas de interactividade"? Quanto aos professores, sobretudo com o actual modelo de avaliação, é sem dúvida bem mais fácil e propiciador de sucesso na carreira ser "ensinante" de Área de Projecto, nas quais os alunos invariavelmente obtêm melhores resultados, do que meter mãos à tarefa de dar aulas de Física ou Matemática.
A degradação do ensino não começou com este Governo. O que este Governo trouxe de novo foi a capacidade de transformar essa degradação, que os anteriores procuravam negar, num sinal de modernidade e progresso. Entrar em Engenharia sem ter feito exame a Matemática deixa de ser uma aberração e passa a "inovação". Os conteúdos não contam, o que conta é o embrulho tecnológico com que chegam às mãos dos alunos. O Ministério da Educação há muito que vive num universo de ficção. O que Maria de Lurdes Rodrigues conseguiu foi que assumíssemos que essa ficção é do domínio do grotesco e que já não nos indignemos com isso. Só o humorista, honra lhe seja feita, deu pelo sério da questão. E tratou de nos avisar que um dia a casa vem abaixo.
Helena Matos, na edição do PÚBLICO de 28-10-2008