30 junho 2010

Do absurdo e do sinistro



Mais uma vez, num telejornal. Mais uma vez, o espanto. Mais uma vez, se alguma coisa ainda me pudesse espantar neste país.
Numa instituição de ensino pré-escolar. No Restelo. Uma actividade para crianças na média geral dos quatro anos de idade. Um Projecto Pedagógico de Intervenção Paisagística. Objectivo?
Levá-las a saber como plantar flores, arbustos, alfaces... Saber como cuidar daquilo que se plantou, o que fazer, em que devida altura...
Ensinar às crianças tudo isto deveria fazer parte do ensino obrigatório. Ensinavam-no antigamente muitos avós aos seus netos. Muitos pais. Muitos seus familiares. Por acharem que fazia parte do estojo de sobrevivência, por necessidade económica, para alargamento de horizontes e desenvolvimento intelectual, como forma de educação cívica através do trabalho, como forma de abertura à noção de poesia...
Coisas que "as mais avançadas pedagogias" ao serviço do Estado, menosprezaram, no seu incremento e na sua implementação dos novos obscurantismos. Os dos cegos que conduzem outros. Mas, mesmo começando já a haver sinais do início da sua agonia, o ferrete com que distorceram a educação das mais recentes gerações mantém-se nos mais simples aspectos das coisas mais simples.
Projecto Pedagógico de Intervenção Paisagística...! Haverá melhor e maior sinal do carácter medíocre e bimbo, tosco e mistificador, massificador e desumanizante, absurdo e repressor do ensino em Portugal do que ouvir pronunciar o nome desta disciplina pela boca das crianças? O simples nome de uma disciplina escolar basta para que se revele, subtil e sinistramente, o estado a que tudo chegou.

28 junho 2010

Voyeurismo socialista?


Fui ontem surpreendido - se é que alguma coisa ainda me pode surpreender neste país e neste governo - com a notícia surgida no telejornal a que eu assistia, segundo a qual será obrigatório responder, no próximo censo populacional, à pergunta sobre qual a "orientação" sexual do "censado".
Demorei uns segundos a voltar a fechar a boca. O mesmo Estado que se recusou, noutro censo, realizado anos atrás, a incluir uma utilíssima e indispensável pergunta sobre o tipo e o grau de deficiência ou deficiências dos cidadãos, é o mesmo que agora pretende devassar a vida pessoal e a intimidade daqueles que, supostamente, deveria servir e proteger.
Por acaso, a minha "orientação" é a mais comumente instituída, sou um heterossexual impenitente. Mas afirmo, desde já, que me recusarei a responder à pergunta. Sejam quais forem as consequências que isso me acarretar. E que incitarei os meus concidadãos a fazê-lo.
Como diria uma conhecida personagem política, por acaso o sr. primeiro-ministro: "Era o que faltava...!". Era o que nos faltava, um Estado voyeur...!

27 junho 2010

Só mais um dia...


Volto amanhã. Deixo aqui entretanto, um poema de Armindo Rodrigues, hoje tão esquecido, mesmo pelos seus camaradas de partido, apostados em Saramago. O poeta que, como dizia David Mourão-Ferreira era "um carro de combate carregado de flores".
LIBERDADE
Ser livre é querer ir e ter um rumo
e ir sem medo,
mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
transformar o fumo
do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,
só ver portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar teimosamente do caminho
sonhos de sol
com fúrias de raiz.
É estar atado, amordaçado, em sangue, exausto
e, mesmo assim,
só de pensar gritar
gritar
e só de pensar ir
ir e chegar ao fim.
Nota
Não sei porquê, mas a grafia do poema não sai correcta no post. O poema tem duas estrofes, a segunda das quais começa em "É estar atado, ....).
As minhas desculpas.

23 junho 2010

Pois é...


... a "coisa" não tem andado fácil. Nem para terminar um textículo que, como já disse atrás, alinhavei vai para duas semanas, tenho tido disponibilidade. Mas voltarei no domingo. Palavra de escuteiro.
Até lá.

18 junho 2010

Nicolau Saião, hoje, no TriploV



Da hipocrisia como uma das Belas Artes

Morreu Saramago e, como sempre, os habituais hipócritas ou interesseiros, vêm-lhe festejar o cadáver. Nunca o apreciaram, mas dizem-se pesarosos. É o habitual. Eu também nunca o apreciei - quer como escritor, quer como pessoa. Como escritor, a despeito dos galardões, achei-o sempre limitado. Como pessoa era envinagrado e pedante (leiam-se as memórias do comunista, mas consistente, Orlando Neves, um dos melhores poetas lusos, e ficar-se-á esclarecido sobre a personagem). Mas nunca o ofendi, como muitos que agora fingem desgosto. Outros, por dever militante, tentam forçá-lo a prestar um último serviço... à "causa". Chamam-lhe homem livre. De facto, foi um estalinista, um apreciador de ditadores (quem esqueceu o elogio a Fidel e a Stalin, que segundo ele foi um homem de pulso?) e um homem de obediências cegas.
Mas era um ser humano, que merecia que não lhe babujassem o cadáver com fingimentos.

17 junho 2010

Viva a toda a gente!



Era, de facto, para ter recomeçado na 2ª feira, escrevinhei um post e tudo. Mas, uma vez mais, a minha disponibilidade foi-se em poucas horas e manter-se-á ausente até ao próximo sábado. Domingo, estarei de volta.
Até lá, fiquem com aquela que é, para mim, uma das grandes canções (embora das menos conhecidas) de Djavan.

10 junho 2010

Volto na segunda-feira, mas...


... deixo aqui, entretanto, um pequeno texto de Chesterton, numa tradução do meu caro Nicolau Saião.

O que achei nas algibeiras

Uma única vez, no decorrer da minha vida, fui ao bolso de um fulano e, de certezinha por distracção, acontece que esse bolso era o meu…
Com propriedade o acto pode descrever-se dessa forma, no mínimo, porque ao tirar coisas das algibeiras fui sentindo as emoções do gatuno: a total ignorância sobre o que ia achar e uma curiosa excitação pelo que ia encontrando…
Estava bem fechadinho num autocarro de terceira e a viagem ia ser longa. Caía a tarde e, no exterior, a terra e o céu eram tão monótonos como uma tela na qual o pincel molhado da chuva houvesse imprimido uma descolorida melancolia. Não levava comigo nem jornais nem livros. Nas paredes do veículo não havia nenhum cartaz de publicidade sobre o qual pudesse efectuar um estudo apurado – isto porque qualquer acervo de palavras impressas é suficiente para me sugerir as infindáveis complexidades do humano engenho mental. Assim, por exemplo, quando me encontro frente às palavras “Sabão Sol” fico capaz de esgotar todos os aspectos do culto solar, de Apolo e da poesia do verão, antes de entrar no assunto propriamente dito e menos transcendente do sabão…
Mas no compartimento que ocupava não se viam nem imagens nem palavras em que pudesse deter o olhar, nada havia para além da inexpressiva madeira, no interior e, lá fora, a paisagem coberta de humidade
Ora, sempre me tenho negado com energia a admitir que haja coisas que não possuam qualquer interesse. Assim sendo, pus-me a olhar os encaixes das tábuas das paredes e dos assentos, meditando profundamente no empolgante tema que é a madeira. E no exacto momento em que começava a entender porque é que Jesus Cristo fora carpinteiro e não pedreiro ou mesmo padeiro, vieram-me de repente à ideia as minhas algibeiras. Sem disso ter consciência, carregava comigo um tesouro desconhecido! Aquelas ninharias que sempre se trazem distribuídas por todo o corpo, por aqui e por ali. E comecei a tirar coisas dos bolsos.
O que primeiro de lá saiu foram uns quantos bilhetes de eléctrico da carreira de Battersea, os quais me deram de imediato o material impresso de que estava a precisar: no verso de cada um deles lia-se um curto mas incisivo ensaio científico sobre certas pílulas medicinais. Dada a minha modesta condição económica desse tempo, os ditos bilhetes de eléctrico podiam considerar-se como uma minúscula mas selecta biblioteca científica. Continuasse eu a viajar daquela forma mais alguns meses – o que, na época, era muito de admitir – e estaria dentro em breve mergulhado com empenho numa polémica sobre os defeitos e as virtudes das pílulas, armando réplicas e tréplicas ora contra ora a favor, baseado nos dados que os bilhetes me facultavam.
Depois tirei do bolso um canivete. Um canivete, digamo-lo desde já, é objecto que só por si faz jus a um volume considerável de meditações morais. Pois a faca é um elemento típico de uma das primaciais origens práticas em que assenta, como sobre curtos e grossos pilares, a civilização humana. Os metais, o mistério daquilo a que chamamos ferro e aço, levaram-me a uma espécie de sonho arrebatado. Mediante a fantasia penetrei no âmago de bosques húmidos e escuros onde o homem primitivo topou, entre outras pedras, com esse estranho calhau. Vi-me no meio de uma escaramuça violenta e vaga, na qual os machados e os facalhões de sílex se quebravam, se estilhaçavam contra algo de novo que reluzia e que um dos furiosos combatentes empunhava. Escutei todos os martelos malhando em todas as bigornas do mundo; vi todas as espadas das guerras feudais e todas as engrenagens da batalha industrial.
Porque a faca é apenas uma espada curta; e o canivete é uma espada oculta. Abri-o – e pus-me a contemplar essa língua luzente e temível a que se dá o nome de lâmina; e concebi que talvez ela fosse o símbolo da mais antiga necessidade do homem…Mas no momento seguinte percebi que me enganara., pois o objecto que logo após me saiu do bolso era uma caixa de fósforos. Visionei então o fogo, que ainda é mais poderoso do que o aço; a chama, essa antiga coisa feminina e feroz, que todos amamos mas em que não ousamos tocar…
Veio a seguir um bocado de giz; e vi nele a arte toda, os murais de todos os tempos e de todos os lugares. Depois extraí do bolso uma moedinha de parco valor; e nela vi não só a efígie do nosso próprio imperador mas também a soma de todos os governos e da ordem, desde que o mundo é mundo.
Mas falta-me espaço para arrolar agora a lista completa de objectos que, num longo e esplêndido corrupio de símbolos poéticos, continuou a escorrer-me das algibeiras.
Uma coisa, contudo, posso assegurar-vos: nelas não consegui achar o bilhete do autocarro…

04 junho 2010

Uma carta de Nicolau Saião


Caros/as confrades

Os tempos, de repente, aqueceram - e juro que não me refiro às perrices político-sociais em que certos cavalheiros e certas obscuras irmandades têm mergulhado o país para melhor nos envinagrarem, rapando-nos harmoniosamente as algibiras.
Hoje refiro-me mesmo ao Verão.
Então aqui, pelo Alentejo, tem sido de atabafar.
" - Mas o que é que este quererá, hoje com esta conversa sobre o Tempo e o Clima?" - perguntará ali o confrade/a confradesa do canto, que é atilado/a e indagador/a?
Não, não é por isso, pelo que ressalta das palavras de Marco Aurélio ("Os que não têm nada para dizer, quando se encontram ou falam do tempo ou do clima...ou dos anos em que eram meninos"). Que eu até tinha coisas para dizer. Muitas coisas. Mas se me ponho a desbobinar, deixando a voz ao correr da pena...lembrando-me por exemplo daquele senhor que o povão começou por estimar, depois - pelas suas arteirices velhacas passou a detestar...e agora, mercê das suas videirices, acaba por desprezar (o que há dias, a propósito do anúncio de apoio a uma candidatura, achou que era um erro por ser fala prematura - colocando assim a ética política, com a hipocrisia que lhe é própria, ao nível apenas do timing...), se me ponho dizia a desbobinar, correrei o risco de vos aborrecer por encher muito o discurso.
Queria ressaltar, apenas, que deveremos entrar em breve na oficial (!?) época dos fogos!
E assistiremos, decerto, a muitas reportagens galvanizantes nas TVs - se acaso o nosso premier, com a inteligencia pragmática que se lhe conhece e o robusto bom senso de "animal político" como se auto-designou numa feliz tipificação, não der indicações de silêncio nas fileiras, para não alarmar as consciências já de si alavarintadas das lusas gentes. Como fez no ano transacto, em que os fogos não diminuiram mas todos ficámos muito mais descansados...
"Olhos que não vêem, coração que não sente" , como diz o Outro.
E pronto, uma vez esclarecida a pequena dúvida, resta-me desejar-vos bom fim-de-semana. Por mim, garanto que o vou ter! Cá por coisas. Contos largos. Mas lá um pouco mais para diante vos contarei. Yep!
... E já me esquecia, mas emendo já a mão: o envio de hoje, dedico-o aos Bombeiros lusos, tantas vezes a contas com a gandulice societária de gente que nem sequer lhes dá os materiais de que precisam para fazerem o seu trabalho meritório.
Abrqs do
n.

O mesmo Nicolau Saião de quem poderão ler Flauta de Pan, se clicarem aqui.
Até já.

De decreto em decreto


O Governo (o termo mantém-se, por comodidade de designação) vai, pouco a pouco, prosseguindo na tarefa em que se empenhou do apodrecimento definitivo do sistema de ensino português. Agora, os alunos retidos no 8º ano e com mais de 15 anos poderão transitar directamente para o 10º ano, se tiverem êxito num conjunto de exames que deverão realizar.
Os professores, como qualquer pessoa de bom-senso, atendendo às características que esses alunos apresentam na sua quase totalidade, têm as maiores dúvidas (?) em que eles o consigam. Dizem-no retoricamente, é claro. Porque sabem que, na devida altura, mesmo que os exames sejam exames reais, algo em que, evidentemente, ninguém acredita, surgirão ordens de serviço "orientadoras", lembrando a necessidade de uma "compreensão facilitadora do processo de ensino-aprendizagem", algo cuja não-observância indicará a menor competência profissional ou o "carácter retrógrado, elitista e desactualizado" do docente, com as respectivas consequências. Desde logo por parte do CE, que terá que apresentar números (eleitorais) ao ME.
Pidescos, sinistros, com a arrogância própria da irresponsabilidade e do oportunismo político, Sócrates e o seu grupo vão desagregando o país. De decreto em decreto.
Até à vitória final?

03 junho 2010

Uma aventura na escola


Ontem, numa escola dos arredores de Lisboa:
Um aluno cara-pálida procura separar três colegas africanos-de-segunda-geração que lutam, no pátio, por causa de uma anterior luta, no pátio, das respectivas namoradas.
Hoje, na mesma escola:
Um grupo de sete indivíduos africanos-de-segunda-geração invade as instalações, agride uma funcionária, procura o aluno referido e espanca-o violentamente.
Os colegas, amedrontados, não reagem.
O aluno cara-pálida é salvo de um muito provável homicídio por um conjunto de professores e alguns amigos de diferentes colorações, que o protege, fazendo uma barreira à sua volta.
Os agressores eram amigos de um dos três outros colegas que ele separara no dia anterior e que não gostou da intromissão.
O aluno cara-pálida foi assistido no hospital e recusa-se a fazer queixa, por medo de represálias.
O CE da escola, logo se verá, não haja, além de represálias dos mesmos (que já ameaçaram quem falou em divulgar o caso), inquéritos à segurança do estabelecimento por parte ME.
Os alunos obtiveram excelentes ensinamentos sobre o que deverá vir a ser o seu comportamento como cidadãos portugueses.
É esta a verdadeira escola, uma escola portuguesa que prepara para sociedade portuguesa.
Uma escola para sobreviventes de uma sociedade para sobreviventes.
Na qual, perante um outro caso de agressão ocorrido há pouco tempo, um aluno que nada tinha a ver com o que sucedera, passou junto do colega caído e o pontapeou também. E que, interpelado por um companheiro, espantado com a sua atitude, respondeu:"'Tão...! Se é para bater, é para bater...".