31 dezembro 2010

Notícias que não surgem por cá


Mas que, seja qual for a posição de cada um de nós, deverão ser divulgadas e discutidas.

29 dezembro 2010

Maria! Vamo-nos deitar....


Um email de Nicolau Saião

Estes quadros, tal como se faz em certas comunidades civilizacionais com o Tarot, se colocados na ordem certa, aleatória ou não (isso depende da imaginação de quem os contemplar) ordenam o futuro imediato, anual e consistente (não estou a brincar).

Essa sequência revisita os velhos mitos, que vão do antigo imaginário Caldeu aos códices secretos dos Maias (os iniciáveis perceberão o que quero dizer, os iniciados não precisam de dica nenhuma. Mas ambos podem colher pistas incontornáveis, sub rosae...).

E siga a dança, que vai ser aliás muito peculiar. Vão por mim...

ns


As ilusões desfeitas


Viagem a Aldebaran


Falta pouco para chegarem


Os pequenos mundos


Coisas da minha rua

27 dezembro 2010

Só quem leu...


... O Homem Eterno, sabe quanto Chesterton estará divertido com isto.

Cinco anos atrás...


... num outro blogue que encerrei para iniciar este, eu disse mais ou menos o mesmo. Perdi o texto numa malfadada avaria do computador, pelo que faço meu o coice do Jumento.

26 dezembro 2010

Três poemas a propósito do Natal

São três belíssimos poemas de Nicolau Saião, do seu Escrita e o seu contrário, que ontem tencionava publicar conjuntamente com os dois trabalhos plásticos, mas dos quais, no meio da azáfama do costume, me esqueci. Deliciem-se.


Dali, Cristo de São João em Pathmos


RECEITA PARA UM NATAL

Primeiro, ficar parado

durante um momento, de pé

ou sentado, numa sala ou mesmo

noutra dependência do lar.

Depois preparar

os olhos, as mãos, a memória

e outros utensílios indispensáveis. A seguir

começar a reunir

coisas, por ordem bem do interior

do coração e do pensamento:

a ternura dos avós, uma mancheia;

rostos de primos distantes, uma pitada;

sons de sinos ao longe, quanto baste;

a recordação duma rua, uns bocadinhos

um velho livro de quadradinhos

duas angústias mais tardias, alguns restos de azevias,

a lembrança de vizinhos ainda vivos mas ausentes

e de uns já passados.

Quatro beijos de seres amados ou de parentes

um cachecol de boa lã cinzenta aos quadrados

e um pouco de azeite puro e fresco

igual ao que a mãe usava noutro tempo saudoso.

Mexe-se bem, leva-se ao forno

e fica pronto e saboroso

- mesmo que, nostálgica, se solte uma pequena lágrima.


UM NATAL ÀS CORES

Em geral estava frio. Um frio límpido e seco

com um tom de cobalto muito escuro no horizonte, quando

surgiam no céu os primeiros luzeiros de Orion ou da

Ursa Maior. Para os lados de Ocidente, a seguir à noitinha, um clarão

débil propagava-se sobre o bosque de castanheiros: e eram as luzes

da cidade acocorada no princípio da aba da Serra, estendida

no pequeno vale para lá das colinas e dos pinhais.

Às vezes

chegava alguém até ao muro da azinhaga – primeiro sinal

de casas e de gente: e eram vizinhos das quintas em volta, alguns bufarinheiros

com a sua mala de corre-mundos, um que outro mendigo mais afeito

aos campos e à sua generosidade em que as Estações

se sucediam com figos, castanhas, laranjas ardentes de sumo e de cor, o bom pão dormido e coberto de toucinho rechinante ou rescendente de frescura

com o queijo duro e a manteiga entre duas capas de presunto. Porque à gente

de boa paz nunca se negava, por vontade do Pai e da Mãe,

o aconchego do estômago e uma que outra placa desviada ao serviço

de domésticas, económicas utilizações. E havia o tio Noitinhas

que, contava-se, fora rico e decaíra; o tio Chico do Mel (esse levava sempre, porque tinha o meu nome, um pedaço de chouriço ou de paio, de reforço);

a ti’ Ana Grila, que corria Ceca e Meca desbastando por dentro

a saudade de um filho e de um marido que lhe haviam morrido de desastre

lá para as lisboas da construção civil; e o tio Martinho,

sempre com um canito à ilharga: figura e retrato escarrapachado

do homem-do-saco que tantas vezes me faria

comer o prato sem tardança, ele que era manso e sereno

como um irmão de Heliópolis e cuja voz,

tirante as barbaças de monge, era suave posto que rouca e mais afeita

a dialogar com o rafeiro que a assustar fosse quem fosse.

Mas as crianças, já se sabe, vêem o tempo

com olhos maravilhados e sobre a sua imaginação corre uma brisa

deslumbrante e divina que lhes permite ver um emissário de mistérios e segredos

num pobre pedinte alentejano.

E depois, quase de repente, era Natal. Com todas as suas

maravilhas incógnitas: o grão cozido e pisado para o recheio

das azevias largas como uma palma de mão

ou diminutas

como um ninho de andorinha-do-mar; o bacalhau que o Pai trouxera

da cidade de juntura com misteriosos embrulhos

encaminhados à socapa para as secretas geografias das gavetas

da cómoda grande; a Tia cortando o pão

para a sopa de cação apaladado de alho

e demais ervas próprias, a Mãe estendendo o manto

das filhós depois fritas com cuidados e saberes de alquimista, a Mana

que ajudava neste e naquele trabalho para depois saber

quando crescesse com filhos e responsabilidades por dentro

e nas mãos operosas. E, pela noite,

vinham então a vizinha Mari'José, o vizinho Manuel Planeta, as filhas

Jacinta e Júlia e, às vezes, a minha Avó das histórias

com seu saquinho de malhas, lá de longe das Arronches,

e no meio duma conversa, dum riso, duma garfada, dling dlong

e era já meia-noite? Já, a missa do galo sentida por cima dos pinheiros, chegada

da capela de S. Cristóvão ainda não havido o Atalaião?

Sinal de fraternidade na noite subitamente silenciosa.

Um Natal às cores. Com as cores do passado. Fotografado

pela memória da infância e da recordação agradecida.


NATAL ZERO OITO

Quem fala de Natal perde palavras

à entrada do Inverno, na secura dos dias

no vasto frio das noites, tão lúcidas e antigas

tão de infância e de Agosto. O fogo

misturado: árvores, luzes, fantasmas

e as doces mãos das Avós. E ainda

um postal velho velho cheio de vento e de memórias.

Quem fala de Natal perde palavras, ganha

e perde as demais coisas que as palavras edificam.

Quem grita no Natal? E Deus

não os fulmina? “. Quem mergulha os seus pulsos

na fria água do rio? Com seus chapéus à banda

em barcos engalanados

os anjos vão passando, dizendo amores esquecidos

dizendo estranhas frases, assombrando as moradas

onde afinal não nasce o tal de Nazareth. O sal e o

pão terrenal dos que ainda não foram

pelo ar, pela vida, pelos túmulos vazios.

Sim, pelo Natal as pobres casas em ruínas.

Para ser do Natal é preciso possuir

uma lembrança ardente, um brinquedo estripado

e muita tristeza feita nos anos em leilão

dos retratos tombando com um nó na garganta.

Para ser do Natal é preciso morrer

e viver de seguida com o sangue nos braços

esperando a estrela fixa do brusco espanto nocturno

junto à porta perdida dum milagre adiado.

Ah falar de Natal! Quem o consente?

O pão e o sal

talvez

de toda a gente. E um olho de animal

pairando no poente. Decisivo, visceral. E Deus, pobre dele

abrindo a água lustral (no bem, no mal)

frente ao horror da morte

terrena e inocente.

Por isso, no Natal

os segredos demoram

e tudo muda e tudo se envolve num pano branco barato

para que ninguém esqueça um corpo ferido que por debaixo jaz

uma nova e desconhecida espécie de cadáver achado na ilha

dos animais inominados

e outras diversas coisas que por desespero se não apontam.

No Natal treme a casa, a casa

sempre caiada, como um sepulcro sem número e sem nome.

E o inventário dá, se estiver certo:

um coração ardido todo azul

uma recordação minúscula que se guardou num bolso

um riso salutar ensanguentado

uma pequena ironia desenhada a tinta de colegial

uma apenas esboçada mão posta sobre um antebraço

o lenço de cabeça duma tia que desapareceu na manhã

um gato tranquilamente dormindo ao cimo das escadas

uma rosa e uma palavra que a si mesmas se julgaram

duas mãos de pedra tremendo atravessadas por uma ferida

numa cruz de pólo a pólo

um hálito que soprado no peito nos enlouquece

um arrepio, uma agonia

uma tarde a fechar-se repleta de amargura e de alegria.

Talvez o Natal seja um rosto

ou uma madrugada de outono

ou um avião nocturno

ou um verão por detrás das coisas aparentes

ou um combatente jazendo de borco numa pia baptismal

ou os bramidos de dois seres abandonados encarando-se de súbito

numa rua da cidade

no escuro muito escuro de uma cidade do universo

quer dizer – luminosa e aterrada. E talvez

que tudo afinal esteja a mais, que tudo afinal

se resuma a filhós e azevias de um outrora

a canecas de café familiar

algures num horizonte, numa idade, num momento

no imenso murmúrio de uma voz sulcando o tempo.

E a chuva que diabo irá cobrindo tudo

no infinito Natal dos mundos desaparecidos.



Dali, A persistência da memória

Dúvidas minhas


Cavaco Silva terá dito, irritado, aos restantes candidatos a PR, que será preciso nascerem duas vezes para serem tão honestos como ele.
E ele? Conseguirá finalmente ser mesmo Presidente da República se lhe derem um segundo mandato?

Das transformações das pulsões de defesa em prisões ideológicas


Ontem ao final da noite, dando uma volta pelos blogues do meu Miradouro, encontrei, na República das Santas Bicicletas, um post em que se transcrevem alguns dos poemas - belos poemas! - feitos, no Al-Andaluz, por poetas que viveram no que depois veio a ser o território a que se chama Portugal. Post que começa com uma citação de Fernando Pessoa, retirada do texto Da Ibéria e do Iberismo:

“Nós Ibéricos, somos o cruzamento de duas civilizações – a romana e a árabe. Somos, por isso, mais complexos e fecundos… Vinguemos a derrota que os do Norte infligiram aos Árabes nossos maiores. Expiemos o crime que cometemos, ao expulsar da Península os árabes que a civilizaram”.

Após tê-los lido, deparei com este comentário, assinado por Nuno Alves Pereira:

"Um dos truques agora da propaganda islamita é tentar dar os que invadiram a Europa por duas vezes como grandes civilizadores. Os de cá seriam uns bárbaros e os de Mafoma uns tipos sensacionais, civilizados e artistas, etc.
Basta ler-se a Históia dos Árabes na Espanha para se ver que o seu domínio de moderado e bonzinho nada teve.
Pelos vistos, nem este blogue já escapa à insidiosa propaganda.
Água mole em pedra dura…Pois é.
Os que por laxismo vão dando o rabo aos do Islão têm feito um belo trabalho.
Que pena."

Ao qual contrapus o que se segue:

"Caro Nuno Alves Pereira:

Se por acaso tem passado pelo meu blog e lido os textos que escrevi até à data, penso que não lhe restará qualquer dúvida quanto à minha posição relativamente ao que o Islão representa no mundo actual e à ameaça que ele constitui para a humanidade. Porque é um texto susceptível de interpretações perigosas para todos nós, inclusive para os verdadeiros crentes. Ao contrário do cristianismo, que tem vindo a depurar-se, lentamente e aos solavancos em zig-zag, dos ferra-braz que o utilizaram e continuam a procurar utilizá-lo, o islamismo tem reforçado, com ou sem verdadeiras razões, o lado matarruano do mundo. E isto porque o próprio texto, repito, o permite, num grau superior ao que é possível fazê-lo com os Evangelhos, muito mais claros e taxativos na explicitação dos seus princípios, permitindo uma maior e livre contestação das posições das hierarquias superiores. Basta, para o comprovar, realizar um verdadeiro estudo comparado das histórias internas do Cristianismo e do Islamismo.

Deixando de lado estes assuntos, porém, julgo que o Nuno Alves Pereira comete um erro próximo do mesmo tipo que pretende repudiar com o seu comentário. Quando Fernando Pessoa afirma que os Árabes civilizaram a Península não quer com isso dizer mais do que aquilo que quer significar ao afirmar, noutro passo, que o grande inimigo de Portugal é a França. De outra maneira: a França, a cultura francesa, não possui a experiência interior profunda e a riqueza que foram trazidas à Península pela influência cultural e religiosa de povos do Médio Oriente que nela se integraram, passando a fazer parte de uma subtileza de alma que não se encontra nos povos do centro da Europa, de raiz românica e bárbara. Ao tornar-se dominante, por motivos de ordem histórica, essa cultura centro europeia aspira a abafar tudo o que não seja ela própria como forma de dominar efectivamente, o que só se consegue, como é sabido, moldando as mentalidades à medida do que é necessário ao dominador. A concepção de racionalidade que desembocará no Iluminismo do século XVIII tem como base ser a razão o instrumento e a medida do que deve ser considerado válido, verdadeiro: a razão interpretada desse modo auto-avalia-se como o único instrumento de descoberta e determinação do real; o que cai fora desse conceito de razão não pode ser considerado racional, logo, real. Trata-se de um argumento circular, popularmente conhecido como o argumento da "pescadinha de rabo na boca". Este cartesianismo, que extravasa o próprio Descartes, está na origem da autojustificação que a si mesmos deram as elites, regimes e sistemas políticos europeus dominantes desde os meados desse século até aos nossos dias (até ao século XVII, quando se falava em cultura, falava-se em Península Ibérica)

Pessoa compreendia isto muito bem, daí considerar a França como o inimigo por excelência do modo de estar português, resultante de uma vivência dispersa -frequentemente demasiado dispersa- e de carácter ecuménico, se assim podemos dizer, no sentido que Agostinho da Silva dá ao termo. E daí também que considerasse os Árabes como civilizadores dos portugueses, enquanto essa herança nos distingue dos restantes que connosco partilham e são provenientes do tronco comum romano. Com todas as consequências, positivas e negativas, que tal acarretou e acarreta -e aqui chamo de novo a atenção para Agostinho da Silva.

Falar de poesia islâmica ibérica, divulgá-la, não é, pois, fazer a apologia do que se passa no islamismo actual nem no Islão, mas simplesmente olharmos para nós mesmos e vermo-nos integral e dignamente. O resto é atraiçoarmo-nos e perdermo-nos nos meandros em que nos querem encerrar. Seria, isso sim, cedermos à tirania dos que atraiçoam toda e qualquer religião ou sistema de pensamento."

Deixo isto aqui como uma mera introdução, insuficiente e incompleta, a algo que, pouco a pouco, procurarei abordar mais explícita e profundamente no futuro.

Um bom exercício de humor


Aqui, no Jumento. E esta República também lhe dá bem...

25 dezembro 2010

Porque é Natal

Nicolau Saião, Anunciação



Nicolau Saião, Um Natal de Natal

24 dezembro 2010

Pontos nos is em noite de consoada

Ontem liguei a tv, era para aí um quarto para a uma da tarde. Na RTP1, em diálogo com Jorge Gabriel e Sónia Araújo, sentados lado a lado, estavam, também lado a lado sentados, Bagão Félix e Júlio Machado Vaz. Falava-se da crise - a económica, mais, a talhe de foice, como sempre, as outras que ela arrasta consigo. Como tenho algum respeito pela opinião de ambos os convidados, fiquei a ouvir. Para, pouco depois, ficar a perceber como duas pessoas lúcidas (embora, como se sabe, com pontos de vista divergentes sob bastantes aspectos) também podem escorregar, de vez em quando, na cartilha das perspectivas mais superficiais e perigosas do saber académico de estatísticas feito e, com isso, descaírem para posições humanamente pouco elegantes.

Veio à baila, como exemplo da mentalidade consumista que infectou, em geral, o comportamento dos portugueses e do que isso representa em termos do viver somente para o presente, o enorme acréscimo de vendas de automóveis registado no final de 2010 em Portugal e, sobretudo, na Grécia, devido ao aumento de preço que, pela subida do IVA em 2%, sofrerão no próximo ano. Sem que ninguém, aparentemente, se lembre das dificuldades e percalços que poderão surgir em consequência dos desenvolvimentos imprevisíveis da conjuntura económico -financeira actual, lembraram ambos.

É interessante que nem um nem outro se dêem conta de um importante elemento em jogo: o da necessidade que muitos portugueses têm de conjugar mais do que um emprego para fazer face à crise e de, para se deslocarem de um para o outro local de trabalho, não poderem contar nem com a abundância nem com a rapidez nem com um preço razoável dos transportes públicos. E que lhes vale muito mais comprar um novo, ou o seu primeiro, automóvel, não apenas porque de outro modo lhes seria impossível acumulá-los como também porque as reparações sucessivas de carros mais velhos e com maior desgaste lhes sairia mais dispendioso do que pagar as prestações de um outro, novinho em folha. Exemplos? Certamente, muitos dos professores a quem o ME atribuiu lugares em duas escolas em simultâneo, a distâncias entre os 30 e os 60 ou mais km uma da outra e em horários que exigem uma rápida deslocação entre ambas. Mas nem é preciso ir por aí: conheço dois não-professores - um deles, meu familiar - que acabaram de comprar carro por questões de sobrevivência semelhantes, acarretando com a respectiva prestação mensal durante os próximos cinco anos. Os quais, por sua vez, conhecem outros em idêntica situação. E por aí fora.

Machado Vaz referiu-se ainda, a propósito da diferença e da urgência de mudança de mentalidades, a um estudo comparativo entre os naturais dos países do Norte da Europa e os portugueses, no que respeita ao que é ou não essencial para o bem-estar económico, pessoal e colectivo e, em geral, para se viver. Para os nórdicos, o essencial será, quanto ao primeiro aspecto, a permanente aquisição e aprofundamento de competências profissionais; quanto ao segundo, a existência de condições para o exercício da cidadania (!). Para o portuga, o essencial é, em ambos os casos, o apoio recebido, desde a família ao Estado, passando pelos amigos. Retirava daí Machado Vaz a conclusão, apoiada por Bagão Félix, de que a sociedade portuguesa continua a funcionar com base no conhecimento, na “cunha” e no apadrinhamento, ou melhor: a não funcionar, e que é indispensável alterar esta mentalidade se quisermos sair situação em que nos encontramos.

Não poderia eu estar mais de acordo com ambos quanto à urgência e ao carácter decisivo da mudança de mentalidade. Mas sem que me esqueça, igualmente, da multidão de gente licenciada, bem como daqueles que apostaram numa cada vez maior especialização, concluindo mestrados e doutoramentos, a trabalhar, dentro das fronteiras, em áreas e lugares que nada têm a ver com o seu percurso e habilitações académicas; e dos que, aos milhares, emigraram e continuarão a emigrar para conseguirem singrar ou simplesmente iniciar as actividades profissionais para que se prepararam devidamente. Nem daqueles que apenas o conseguiram fazer “cá dentro” porque… “alguém mexeu os cordelinhos”.

Nem que me esqueça de que uma boa parte desses licenciados, mestres e doutorados, o são em áreas que, embora vitais para qualquer país (só a “merceeirada” da política julga que não o são), apenas podem ser desenvolvidas em número proporcional naqueles em que reine a abundância, isto é, onde haja dinheiro que sobre em quantidade suficiente para as financiar devidamente. Falo, obviamente, das chamadas Ciências Humanas, cujos cursos se multiplicaram como cogumelos (frequentemente, de qualidade duvidosa) no ensino superior particular, cursos “de papel e lápis”, que exigiam menor investimento por parte dessas instituições e que espalharam drs. por todo o Portugal. Porque o que era preciso era ser dr. e semear drs., para que houvesse dinheiro para os Doutores & Outrem e Portugal pudesse ser o raio de um dr. de um país...!

O dr. Bagão Félix fez parte, como (salvo erro) Secretário de Estado das Finanças, dos Governos da responsabilidade do Professor Cavaco Silva, o qual permitiu esta bagunçada sob a batuta inicial do seu primeiro Ministro da Educação, o sr. Engenheiro Roberto Carneiro. Tivesse ou não sido pessoalmente concordante com esse processo de mais do que previsíveis resultados, ficar-lhe-ia bem agora não calcar as vítimas aos pés. Quanto a Júlio Machado Vaz, conhece suficientemente bem os meandros do ensino superior português para não dizer o que disse com tal leveza.

Vasco Pulido Valente escreveu, duas semanas atrás, numa das suas crónicas no jornal PÚBLICO, uma frase lapidar sobre este assunto: “Um país não é rico porque é educado, um país é educado porque é rico”, embora, acrescentava, seja costume afirmar-se o contrário. Termino, pois, com ela o que nesta véspera do último Natal da primeira década do século e do milénio a estrear achei por bem dizer, de uma só penada e sem qualquer revisão de texto. A família que, legitimamente, reclama a minha presença limitou-me o tempo destinado aos desabafos que, em noite de Paz e Amor, irei amaciar, já de seguida, com uma bela e tradicional ceia, temperada com um tinto de Portalegre, digo-vos: de estalo!

Bom Natal a todos!

Não fui eu que inventei...!



Em pleno Natal, o título é "Não interessam nem ao Menino Jesus".

23 dezembro 2010

Dos cidadãos portugueses com deficiências

Intervenção de Eduardo Jorge, do blog Tetraplégicos, no 10º Congresso Nacional de Deficientes, recentemente realizado. Vale a pena ouvir.

22 dezembro 2010

21 dezembro 2010

Recebido por email (e é tudo por hoje)


Um homem, voando num balão, dá-se conta de que está perdido. Avista um homem no chão, baixa o balão e aproxima-se:

- Pode ajudar-me? Fiquei de encontrar-me com um amigo às duas da tarde. Já tenho um atraso de mais de meia hora e não sei onde estou...

- Claro que sim! - responde o homem. O senhor está num balão, a uns 20 metros de altura, algures entre as latitudes de 40 e 43 graus Norte e a longitude de 7 e 9 graus Oeste.

- É consultor, não é?

- Sou sim senhor! Como foi que adivinhou?

- Muito fácil: deu-me uma informação tecnicamente correcta, mas inútil na prática. Continuo perdido e vou chegar tarde ao encontro porque não sei o que fazer com a sua informação...

- Ah! Então o senhor é socialista!

- Sou! Como descobriu?

- Muito fácil: O senhor não sabe onde está nem para onde ir, assumiu um compromisso que não pode cumprir e está à espera de que alguém lhe resolva o problema. Com efeito, está exactamente na mesma situação em que estava antes de me encontrar. Só que agora, por uma estranha razão, a culpa é minha!...

19 dezembro 2010

O Candidato Certo...


... é um blog cujo endereço, enviado por uma amigo, indiquei aqui anteontem num post e que está, a meu ver, cada vez mais delicioso. Deixo-o, portanto, a partir de agora, visível no Miradouro.

Em falta com eles e comigo

António José Forte

O texto, acompanhado da mensagem que o antecede, foi-me enviado por Nicolau Saião cinco dias atrás, 14 de Dezembro, portanto. Entretanto já publicado na República das Santas Bicicletas, nele lembra Saião um outro poeta que me é caro, pela força da sua poesia. Aos dois, as minhas desculpas por não os haver divulgado em devido tempo, mas confesso que, no meio da multidão de pequenas coisas pelas quais a minha atenção foi obrigada a dispersar-se, só hoje reparei que estava em falta - com eles e comigo mesmo. Aqui fica, portanto.

Caros/s amigas/os e confrades:

É esta a minha lembrança de Natal para todos.

E quem levará a mal que ela consista fundamentalmente na evocação de um Poeta que morreu faz amanhã precisamente 22 anos?

O tempo é um cavalo - dizia um meu amado familiar. E é verdade. Será um lugar-comum? Não importa, a verdadinha é que os dias se evolam como... Mas cá estou eu a divagar, pecha que sempre me acompanhou - e agora já dela não vou desistir, quem me comeu a carne que me roa os ossos como diz o ditado e... Mas adiante!

Conferirão de pronto que faz sentido recordar este Poeta, como fará sentido, lá para o outro ano, relembrar outros e dos maiores. A talho de foice: Irene Lisboa, essa maravilhosa "lupa refrangível" como lhe chamou Raul de Carvalho, outro que, também ele, os podões bem colocados têm posto fora da carroça, o que se entende perfeitamente. (A velha questão das sombras, 'tão a topar?), Afonso Duarte, José Blanc de Portugal, José Cutileiro...Mas basta por ora, o que for soará se antes não me der o vento suão...(safa! como dizia com graça o nosso Presidente).

Atalhando razões, que daqui a pouco me vou embora a preparar a viagem da Quadra: que tudo vos corra bem neste tempo de alegrias festivas e algumas nostalgias propiciadas, creio eu, pela realidade da aventura de viver. Que a todos (excepto alguns felizardos) toca. Et comment!, como dizia o Outro.

Mas isso é outra estória, que agora (pelo menos agora, carago!) não vem a capítulo...

Recebam o abraço bem firme do vosso

n.



LEMBRANÇA DE NATAL

SOBRE A POESIA DE ANTÓNIO JOSÉ FORTE (Póvoa de Santa Iria, 6 de Fevereiro de 1931 – Lisboa, 15 de Dezembro de 1988)

Dizia Ernesto Sampaio em “A única real tradição viva” que “É esta a orla de um tempo onde todo o pensamento grande e rigoroso vai dar ao Inferno”.

Noutro continente, por seu turno, referia Chesterton que “Todo o encadeamento de palavras leva ao êxtase, todos podem levar ao país das fadas”. É pois entre florestas e sombras inquietantes ou surpreendentes que se movem as vozes dos Poetas, uma vez que a razia social, se acaso consente a maravilha, muito mais desejaria essas vozes perenemente sob um sol negro de amargura. Nestes tempos do fim como lhes chamou André Coyné, a Poesia move-se com dificuldade e é deslocando-se entre Sila e Caríbdis que a nave poética busca chegar a bom porto.

Não tenhamos ilusões: o Poeta que o é e não simples abonador de prestígios em verso para maior glória dos seus donos, tem sempre pela frente a insídia das horas do quotidiano policiado – mesmo sendo homem de paz – da intolerância social das aparelhagens sediadas nos pólos onde a avidez, o interesse orientado, a mesquinhez, a corrupção judicial e a fraude pública ditam as suas leis.

Para os que persistem em opor aos desvigamentos sociais do dia-a-dia uma palavra alta e clara, já Gilbert Proteau nos esclareceu qual o destino mais provável: a corda, o punhal, o garrote, as difamações geralmente impunes, o calabouço e, nos casos mais suaves, a marginalização. Aos que acaso escapam, resta em geral uma vida de dificuldades que, entre nós, se cifra na “apagada e vil tristeza” dum mundo que não pode e não quer consentir a liberdade luminosa de ser-se “profeta e aedo num país onde só querem que haja lapuzes e vilões”, para citar Manuel Carreira Viana.

A poesia de António José Forte, falecido em meados de 1989, ilustra de maneira perfeita o trajecto de quem não cede e persiste em procurar a casa encantada em cujo telhado crescem floridas excrescências carnosas, o “palácio ideal” que Cheval levou à prática e tantos outros tentam erguer ora aqui ora ali, entre bosques primordiais e estranhas muralhas de granito.

Desde o seu primeiro livro “Trinta noites de insónia de fogo nos dentes numa girândola implacável” até aos poemas finais dados a lume na Editorial Estampa, passando pelo texto que tinha como personagem nuclear Daniel Cohn-Bendit vindo a público na revista “Grifo”, imediatamente retirada de circulação pela PIDE que impediu a publicação de novos números, sente-se perpassar uma grande inquietação temperada, todavia, pela ternura dos seus melhores momentos. As imagens encadeiam-se de forma inusitada, sempre muito próximas de um “real absoluto” que punha em destaque o amor e o conhecimento do mundo onde as figuras estendiam salutarmente de mão em mão os objectos comuns como um cigarro ou uma chave.

Lembro, das conversas havidas ao velejar dos minutos ao fim da tarde ou já na noite colectiva, o interesse que Forte tinha pelos grandes mistérios da existência (pirâmides de Tenochtitlan, as construções desenhadas na planície desértica de Nazca…) e, em contraponto, os enigmas contidos na existência quotidiana habitual, que lhe pareciam ultrapassar os outros em fascínio e estranheza. Esse quotidiano onde ele “passasse a fumar/ e o fumo fosse para se ler”.

A poesia de António José Forte foi-me dada pela primeira vez a ler por Donato Faria, seu companheiro de emprego nas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, numa das nossas habituais reuniões (já Forte saíra de Portalegre para ir trabalhar na Casa mãe) na pensão da Rua 31 de Janeiro, frente à taberna Capote e cujas janelas de terceiro andar deitavam para o Largo da Sé – sempre repleto de gente, principalmente rapazes e raparigas alunos da Escola do Magistério Primário, nesses anos em que a cidade não mergulhara ainda na desertificação que hoje a caracteriza em geral e no casco histórico em particular.

Foi ali que este me mostrou os “Cadernos Pirâmide” da responsabilidade de Carlos Loures e Máximo Lisboa. Era a segunda vaga surrealista, que trazia nela autores como Manuel de Castro, o magnífico poeta de “Estrela Rutilante” que teria como pares, no desenho e na pintura, as explosões singulares de Mário Botas e José Escada, posto que actuassem por outras bandas.

Mergulhando inelutavelmente no sonho de todas as horas, interiores e exteriores, a poesia surrealista desses tempos, seguidos logo de outros onde mais autores se forjavam, forçava por libertar-se dos enleios do hábito, do conformismo imposto por condottieri exteriores, geralmente literatos subidos ao poder administrativamente e nele mantidos pelos mandantes dentro e fora dos órgãos de comunicação e das estantes desses lugares de massacre que demasiadas vezes são os “estabelecimentos de ensino” de alto coturno. E em que o lirismo, mais que ser apenas “um epigonismo da prisão de ventre” como Cesariny dizia com justa ferocidade, seria luz revelada na noite geral.

O lirismo de Forte, separado – por uma brusca mutação interior – daquele que ainda hoje se expande em revoadas de folhas propiciadas por tanto vate de ocasião (ou, o que ainda é pior, por operadores de safada carreira cimentada por áulicos), aspirava à realidade, essa realidade outra (surrealidade) em que as mãos, por exemplo, já não são objectos para prender os movimentos alheios mas sinal palpável de fraternal sabedoria alcançada, pomo finalmente liberto abrindo fulgores diferentes e mais autênticos.

Contra a quinquilharia que frequentemente fere o viajante, a sua poesia é susceptível de criar em quem a lê um apetite de melhor e menos banal. A sua adjectivação, que nunca bordeja as margens do efémero ou do destrambelhadamento pseudo-original, que nunca reside e se deixa cair na redundância pretensiosa mas é antes um sublinhar de adequadas iluminações, faz passar de estrofe para estrofe símbolos que extinguem a inutilidade das escritas que acatitam a leitura.

Dizia Étienne de Sénancour: “O homem é perecível; pode ser…Mas pereçamos resistindo e se, ao fim, o que nos espera é o vazio e o nada façamos com que isso seja uma injustiça”. A poesia de António José Forte, que permanece nos nossos ouvidos e na nossa cabeça muito depois de ser lida, ilustra de forma soberana como é possível lançar, aos deuses programados e programadores, o grande desafio dos que sabem ser e dar-se a si mesmos como penhor de que não foi em vão a passagem dum Poeta pelas planícies do tempo destroçado.

ns


TRÊS POEMAS DO LIVRO UMA FACA NOS DENTES


AINDA NÃO

Ainda não

não há dinheiro para partir de vez

não há espaço de mais para ficar

ainda não se pode abrir uma veia

e morrer antes de alguém chegar

ainda não há uma flor na boca

para os poetas que estão aqui de passagem

e outra escarlate na alma

para os postos à margem.

ainda não há nada no pulmão direito

ainda não se respira como devia ser

ainda não é por isso que choramos às vezes

e que outras somos heróis a valer

ainda não é a pátria que é uma maçada

nem estar deste lado que custa a cabeça

ainda não há uma escada e outra escada depois

para descer à frente de quem quer que desça

.

ainda não há camas só para pesadelos

ainda não se ama só no chão

ainda não há uma granada

ainda não há um coração


POEMA

Alguma coisa onde tu parada

fosses depois das lágrimas uma ilha,

e eu chegasse para dizer-te adeus

de repente na curva duma estrada

alguma coisa onde a tua mão

escrevesse cartas para chover

e eu partisse a fumar

e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte

beijasses nos olhos os navios

e eu rasgasse o teu retrato

para vê-Io passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses

numa rua com portas para o mar

e eu morresse

para ouvir-te sonhar


O BOM ARTÍFICE

Entretanto

dez séculos mais tarde no local do drama

o diabo

diante do seu fomo

levanta por instantes seus doces olhos

para quatro mil cadafalsos

Vêde

mais além o bom artífice

mostrando

anjos

ou

batéis

ainda uma canção

se gostais

de belas torturas

não ouvireis nada

(Prefácio de Herberto Helder
Parceria A.M. Pereira
Livraria Editora, Lda.)

Da... saúde como uma das Belas-Artes ?


Um texto que me foi enviado por Nicolau Saião:
Em geral não vejo televisão.
Por duas razões: a televisão portuguesa, com pequeníssimas excepções, é um lugar onde campeia a mediocridade - seja nos programas seja nos protagonistas - o que é, consabidamente, não por incapacidade, mas sim por acto deliberado de quem controla esse lugar de desmiolação,como já lhe chamou Irving Dobbs num inspirado artigo, depois crescido em livrinho. E, ainda, porque calhamos de ter, obsessivamente, com frequência em frente dos olhos as figuras desenvergonhadas de mandantes e alquiladores da traquibérnia em que a Nação foi por eles transformada.
Assim sendo, como os detesto - mas muito mais os desprezo - não vou conviver com eles, nem mesmo na pequena janela de vidros tão mal lavados.
Vejo, contudo, poemas por cabo, e não me esquivo a ouvir e ver as notícias veiculadas por emissoras estrangeiras democráticas.
Mas, de vez em quando, se isso se nos aconselha, vejo um que outro programa exalado dos estúdios lusos.
Hoje, por exemplo. Suscitado por um familiar, estive durante algum tempo a ver o Natal dos Hospitais, pegado na RTP 1 e tendo como anfitrião o hoje já menos pernóstico e empafiado Jorge Gabriel, acompanhado por uma senhora cujo nome não fixei.
Lá fui ouvindo, assistindo às performances dos artistas.
E a certa altura, tendo ido num intevalinho fazer chichi, quando voltei quem havia de estar a ser entrevistada, com aquela sua voz de engripada que tão bem lhe fica e até parece fazer parte do "papel do cargo"? Pois a senhora ministra da Saúde.
E eu digo apenas: este governo, com a sua incompetência lavada pela propaganda intensiva, tem prejudicado fortemente os doentes deste país (e nem falo nos sãos...).
Não podia a senhora ministra, ao menos hoje, não ter aparecido - em jeito do que se fazia nos tempos marcelistas - no teatro das operações (operações sem ser de medicina cirúrgica...)?
Mas não, tinha de nos dar o prazer de olharmos o seu simpático rosto. E de ouvirmos a sua melodiosa voz.
Eles nunca perdem uma ocasião de aparecer - aparecer nas televisões que, se muito pouco mostram dos valores e coisas importantes, estão sempre de perna aberta (como diz a expressão popular) para exibirem estas senhoras da saúde...

17 dezembro 2010

Eu assino já!



Um amigo meu enviou-me este endereço, há alguns minutos:


E só vos digo! Eu assino já!

16 dezembro 2010

Dos inimigos da liberdade

Passados todos estes dias após o post em que me propus falar sobre o WikiLeaks, penso que já tudo foi dito sobre o assunto. Das opiniões que foram pedidas pelos órgãos de comunicação e de que eu tive conhecimento, a que mais coincidiu com o que penso pertenceu ao general Loureiro dos Santos. Por isso, em forma de pergunta-resposta, acrescentarei apenas o seguinte:

- O que foi divulgado pelo sr. Assange e seus amigos corresponde a alguma prática desconhecida ou fora do âmbito das actividades diplomáticas mais comezinhas desde o Paleolítico?

Não, só ingénuos, simplórios, papalvos e hipócritas se podem estarrecer com o que até hoje tem sido revelado e o que mais venha a revelar-se. Bastar-lhes-ia, aliás, lembrarem-se das suas relações familiares, amorosas, de vizinhança ou laborais. E de que o mundo é uma grande família, com as consequentes e habituais confusões.

- O mundo ficará melhor depois destas “revelações”? Melhorará o ambiente internacional?

Evidentemente que não, pelo contrário, piorará. Basta pensar o que sucederia se, na nossa própria família (em sentido lato), alguém desatasse a “desbroncar” sobre as faltas, pecadilhos e infâmias de maior ou menor grau que todos nós, por mau feitio ou por força das circunstâncias, cometemos ao longo da vida. O que não se complicaria ou reacenderia, depois de já ultrapassado ou mesmo sanado, à conta das susceptibilidades…! Ninguém gosta de ver as cuecas que julgara ter perdido exibidas em público. Ainda por cima se, por acaso, isso pode dar azo a insinuações verdadeiramente erradas.

- A acção do WikiLeaks contribuiu para uma maior transparência futura da vida pública?

Não, a partir de agora tudo se tornará ainda mais secreto e obscuro, mais fora de qualquer controlo do cidadão. Naturalmente.

- A transparência é um requisito e uma finalidade da democracia?

Não, só dos regimes totalitários e opressivos. A democracia é o regime do bom-senso, quando se não recusa realidade à perenidade das fraquezas humanas e se pretende minorar a sua influência. É de regra ser quem mais age na sombra quem mais exige que tudo venha à luz... para depois, melhor poder continuar a manobrar na sombra. Assim procederam todos os regimes totalitários, com os seus dirigentes incentivando os jovens a denunciar os pais, em nome da clareza e da pureza da vida pública.

- O grupo da WikiLeaks é um conjunto de pessoas bem-intencionadas, embora ingénuas?

- Não me cabe fazer um processo de intenções, limito-me aos factos e às suas consequências. Pela sua prática e definição de objectivos, classifico-o, sem sombra de dúvida, como um grupelho fascista ou cripto-fascista, que deveria ser sujeito a tribunal militar devido aos perigos que trouxe já à Humanidade e que declara tencionar aumentar. Sem esquecer quem esteja a financiá-lo e que, eventualmente, os utilize em seu proveito. Não é curioso (ou será, afinal, significativo) que apenas no Ocidente e nas suas instituições haja terríveis segredos a revelar?

Volto lá mais para o fim da noite


Entretanto, leiam isto.

15 dezembro 2010

A loja do euro e meio


Veja aqui.

A Bem da Nação número qualquer-coisa


Notícias do Estado Social: Snif kit (via Fiel Inimigo).
E já agora, pergunto eu, para quando o devido apoio social aos tatuados arrependidos?

14 dezembro 2010

Amanhã volto ao tema WikiLeaks


Antes, porém, chamo a atenção para este óptimo texto acerca do "site justiceiro". O post de ontem terá também, por sua vez, continuação em breve.

13 dezembro 2010

Uma tristeza de candidato


Discursando no lançamento do “Movimento Já”, o movimento de jovens apoiantes da sua campanha, o candidato apoiado pelo PS e pelo BE acusou, de novo, Cavaco de utilizar o cargo para benefício da sua própria campanha eleitoral e voltou a lembrar que foi um resistente - não vá o país esquecer-se disso, ignorando o seu devido valor.

Na sua intervenção, Manuel Alegre manifestou-se “chocado” com as palavras do Presidente da República que, na sexta-feira, considerou que os portugueses têm de se sentir “envergonhados” por existirem em Portugal pessoas com fome, um “flagelo” que se tem propagado pelos mais desfavorecidos de forma “envergonhada e silenciosa”. Acrescentando que “nós somos um país que tem um problema estrutural, que é o problema da pobreza, apesar da nova geração de políticas sociais deste Governo, a pobreza estrutural é ainda muito forte, temos 18 por cento de portugueses que vivem no limiar da pobreza, e se destruíssem as prestações sociais poderiam passar a ser 40 ou mais, esse é um problema muito grave, mas não é um problema para poder ser aproveitado para campanha eleitoral”. E ainda que este “não é um problema para ser tratado no Casino do Estoril”, local onde Cavaco Silva esteve e fez aquela declaração.

Disse mais Alegre que “não é um problema que se resolva com restos de restaurantes, essas são imagens que me chocaram, o problema da pobreza resolve-se resolvendo os problemas estruturais do país e esse é um problema que não é susceptível de poder ser aproveitado por um Presidente da República para fazer a sua campanha eleitoral”. E apelou: “Levem esta mensagem, eu já dei a volta a todo o país, estive em todos os distritos, nas regiões autónomas, na emigração, em Paris e em Bordéus, e em todos os lados eu estive muito bem acompanhado, em todos os lados tive centenas de pessoas, salas cheias, já falei a milhares de portugueses, por muito que isso desagrade aos fazedores de opinião, as pessoas estão mobilizadas à volta da minha candidatura, não vem nas notícias mas estão no terreno, estão aqui, em todo o país, e no dia 23 de Janeiro vão estar lá, vão estar lá!”.

Começo por declarar solenemente que não votei nem votarei no actual Presidente de Todos os Portugueses, e que embirro até com a personagem. Mas que estou em total acordo com Cavaco Silva quando ele afirma que a pobreza é um motivo de vergonha para Portugal. Como o é, aliás, para qualquer país. É que a pobreza de um povo reflecte, afinal, o seu nível de imaturidade, o seu grau de incapacidade para se prover a si próprio, numa palavra, o fracasso em ser isso mesmo: um povo, e não uma soma de pessoas que se mantêm juntas por meras contingências históricas, situação da qual todas procuram obter somente o maior número de vantagens individuais ou de clã.

A pobreza de um país carrega, além disso, os seus cidadãos - pobres e ricos, por diferentes motivos – com a incómoda vergonha de lhe pertencerem. Repito: a pobres e a ricos. Recorrendo à gíria marxista, nenhum burguês luso se sente em pé de igualdade com os seus congéneres europeus; nenhum proletário portuga se sente em pé de igualdade com os seus camaradas que habitam para lá da fronteira. Porque ninguém consegue verdadeiramente suportar, impávido, o peso que o ser-se português traz consigo, desde a inépcia demonstrada pelos nossos egrégios avós até à persistência actual na desorganização e na miséria, principal ou mesmo única herança que estes parecem ter legado ao património genético nacional. Apresentar-se como português no estrangeiro é atrair sobre si uma atenção condescendente para com o subdesenvolvimento e a suspeita de corrupção, que Mourinho e Cristiano Ronaldo, mais do que atenuarem, reforçam pela diferença na competência e na tenacidade.

Ultrapassar a pobreza é, assim, algo de vida ou morte para Portugal, não apenas enquanto algo que diga respeito à prosperidade e ao desafogo económico, mas ao soçobrar da alma de um destino comum de mais de oito séculos, com reflexos ímpares ao nível planetário. E isso, em diferentes graus de responsabilidade e de decisão, respeita a todos, do Casino Estoril à Cova da Moura. Se não fossem reveladoras de um oportunismo inaceitável e nada inocente, as palavras do sr. Alegre seriam apenas as de um pateta-alegre que quisesse ser presidente da república. Mas que ele as diga, sendo um candidato com tal visibilidade, dá apenas conta da tragicomédia decadente a que o país assiste.

Manuel Alegre deveria, para que o seu discurso tivesse coerência (algo para ele difícil, atendendo aos antecedentes), definir, antes do mais, o que entende dever ser legitimamente abordado, no decorrer do período de candidatura e durante a campanha, por um presidente da república que se recandidata em exercício no cargo e o que qualquer outro candidato deverá fazer no mesmo período. Porque, afinal, do que fala um "candidato a presidente" de que não fala um" presidente em exercício"? O “candidato a presidente” pode afirmar-se contra a pobreza e a fome (o contrário é que soaria estranho, não...?), mas como “presidente em exercício” tem que fazer silêncio sobre o assunto em período de eleições, para os restantes candidatos se afirmarem preocupados e lembrarem que o “ainda presidente” não toca no tema? E o “ainda presidente” não deveria também, então, encerrar-se no palácio de Belém até às eleições, para que os órgãos de comunicação não passassem a sua imagem, salvo nos momentos em que assumisse o papel de candidato, de modo a ficar em pé de igualdade com os restantes? Irei mesmo mais longe: nesta perspectiva, deveria haver um presidente da república durante todo este período?

Diz ainda Alegre que a pobreza continua a ser um flagelo apesar das medidas sociais "nouvelle vague" deste governo... que ele critica acerbamente pela sua insensibilidade social. Ora eu pensava que a pobreza não se combate com medidas sociais, mas com medidas estruturais para facilitar e incrementar a produção de riqueza que possa ser distribuída. Alegre quer acabar com a pobreza distribuindo o que cada vez menos há? E, para isso, não lhe serve as sobras dos restaurantes? Ou essa já seria uma medida meritória, exemplo da iniciativa e da solidariedade de que é capaz a sociedade civil, se por acaso viesse ele a ser o presidente "justo, solidário e fraterno" que a apadrinhasse?

Diz, por fim, o candidato do PS e do BE que andou pelo país inteiro e pelas comunidades de emigrantes, que falou com milhares de pessoas, e apela aos jovens (ah! a rebeldia dos jovens, o seu desejo de mudança…!) para que espalhem a “mensagem”. Pois. Mas eu aproveito, já agora, para o informar, a ele, que tanto canta a flor do verde pinho com que as naus eram feitas, de que o Estoril fica também em Portugal. Junto à embocadura do Tejo, exactamente por onde elas entraram no oceano, a caminho da Índia. Sob o comando de poderosos do reino e levando nelas o povo, muito dele a contra-gosto. Infelizmente.