31 março 2011

Em cima da marcação de eleições


Pouco a pouco, Paulo Portas (o puto que, nos debates, irritava Mário Soares) tem vindo a afirmar-se, mesmo entre os seus adversários ou os da sua área política, como o único estadista que existe em Portugal. Confirmou-o, a meu ver, na intervenção que teve a seguir à comunicação de Cavaco Silva.
Goste-se ou não se goste dele, concorde-se ou não com a sua linha, haja um, neste desgraçado país!

E acrescenta ainda António Barreto...


... segundo o que aqui se diz:

"Estamos a pedir em más condições, depois de um golpe de Sócrates que provocou eleições para tentar continuar no deslize e no agravamento em que estávamos", afirmou Barreto, que preside à Fundação Francisco Manuel dos Santos, em declarações à agência Lusa, à margem do lançamento do livro de Vítor Bento, "Economia, Moral e Política".

António Barreto acrescentou ainda que o momento actual do país "corresponde à ideia do primeiro-ministro, de provocar uma crise na qual ele possa, eventualmente, passar por vítima".

O Presidente da República ouve hoje o Conselho de Estado, numa reunião que tem como único ponto "pronunciar-se sobre a dissolução da Assembleia da República", no quadro da crise política que se seguiu à demissão, há uma semana, do primeiro-ministro.

O presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos acusou ainda José Sócrates de "caluniar" as entidades internacionais "a quem pede ajuda" e de "caluniar os credores" depois de pedir empréstimos.

"Esta duplicidade é um péssimo sinal para o exterior", acrescentou António Barreto, referindo que, se Portugal tivesse pedido ajuda externa há mais de um ano, teria estado em melhores condições para o fazer, e em melhores condições para cumprir eventuais programas de reformas económicas.

Os juros exigidos pelos investidores no mercado secundário para deter títulos de dívida soberana portuguesa a dois anos superaram hoje o preço da dívida a dez anos, pela primeira vez desde 2006.

A 'yield' (remuneração total) exigida no mercado para comprar dívida a dois anos atingiu os 8,17 por cento, acima dos 8,092 por cento cobrados pela dívida a 10 anos, de acordo com a agência de informação financeira Bloomberg.

"Agora estamos em situação praticamente desesperada", disse ainda o sociólogo, que insistiu na necessidade de realizar uma auditoria às contas públicas.

"Se não se realizarem auditorias, há dois problemas. O primeiro é que damos mais um sinal negativo ao exterior, isto é, que temos algo a esconder. Em segundo lugar, perante o eleitorado português, perante os cidadãos, é um factor de deslealdade inadmissível", concluiu António Barreto.

"Aleluia!"


É o título do artigo de opinião de Vasco Graça Moura publicado no Diário de Notícias e que transcrevo de seguida (via Fiel Inimigo):

Ninguém se lembra de ter visto, nos últimos anos, algumas figuras gradas de extracção socialista a chamarem a atenção do Governo de José Sócrates para as barbaridades que estavam a arrastar Portugal para o abismo e para a irresponsabilidade da governação. Deviam tê-lo feito pelo menos dia sim, dia não, mas não o fizeram.

O país ia-se arruinando, os portugueses iam resvalando para o beco sem saída em que se encontram hoje, o Governo ia garantindo exactamente o contrário daquilo que se estava a passar e dando provas de uma incompetência e de uma desfaçatez absolutamente clamorosas, mas esses vultos tão veneráveis abstinham-se de fazer a crónica dessa morte anunciada, não se mostravam grandemente impressionados com ela e sobretudo não sentiam o imperativo patriótico de porem cá para fora, preto no branco, numa guinada veemente e irrespondível, o que bem lhes podia ter ido na alma e pelos vistos não ia assim tanto.

Devo dizer que não fiquei nada impressionado com os apelos recentes e vibrantes de algumas dessas egrégias personagens, em favor da manutenção do satu quo ante em nome do mesmo interesse nacional que as terá remetido ao mutismo mais prudente sempre que a governação socialista dava mais um passo em frente para estatelar Portugal.

Sou levado a concluir que foram sensíveis, não ao descalabro a que a governação socialista acabou por conduzir o país, mas ao desmoronamento do PS enquanto partido de governo. Não lhes faz impressão nenhuma que Portugal esteja na merda por causa dos socialistas. O que os impressiona deveras é que o PS se arrisque a ficar na merda por causa de tudo o que fez. E então, então sim, apressam-se a invocar alvoroçadamente o interesse nacional, secundados por todo o bicho careta lá do clube que se sinta vocacionado para dar o dito por não dito e o mal feito por não feito e também, está claro, para fazer sistematicamente dos outros parvos.

Tal apelo surge todavia no ensejo menos adequado. Hoje, só faz sentido invocar o interesse nacional para esperar que o PS seja varrido impiedosamente de qualquer lugar de preponderância política e que a ignomínia da governação socialista fique bem à vista para a conveniente edificação das almas.

Os responsáveis por tudo isto e os seus porta-vozes já se começaram a esfalfar, a acusar desvairadamente os outros de terem criado um impasse irremediável para Portugal, a passar uma sórdida esponja de silêncio e manipulação sobre o que foi a actuação dos Governos socialistas desde 1996 e, em especial, desde 2005, a fazer esquecer que é ao PS e ao seu Governo que se devem coisas tão sugestivamente picantes como a crise, o aumento delirante dos impostos, o aperto asfixiante do cinto, a subida incomportável do custo de vida, o desemprego sem esperança, o fim da dignidade nacional.

Nessas virtuosas indignações da hipocrisia socialista, já se vê quanta gente do PS anda já por aí a desmultiplicar-se, na rádio, em blogues, um pouco por toda a parte e até aqui nos comentários aos artigos, a jogar na inversão e na distorção de todos os factos e de todos os princípios. Alguns ingénuos talvez deixem mesmo de se perguntar mas afinal que canalha é essa que se diz socialista, para sustentar o insustentável e defender o indefensável.

Já toda a gente percebeu que o país só sai desta se tiver uma verdadeira "ditadura da maioria", expressão que, como é sabido, causava calafrios democráticos ao dr. Soares. Amanhã, se nessa maioria entrasse o macabro PS que ele ajudou a fundar, tal conceito ficaria, apesar de tudo, esquecido entre as brumas da memória. E se, como é de esperar e de desejar, o PS for reduzido a cisco em eleições, não nos admiremos por assistirmos em breve à recuperação grandiloquente do chavão.

Já se percebeu que a Europa o que quer é que Portugal não faça mais ondas e volte a ser o bom aluno que os próceres socialistas escarneciam tão displicentemente. Deve recordar-se ao dr. Sampaio que, no estado de porcaria pantanosa a que isto chegou e que ele não denunciou a tempo, hélas!, afinal não há muito mais vida para além do orçamento. E mesmo a pouca que houver se vai pagar muito caro.

Eu, cá por mim, com a queda desta gente execrável, só posso exclamar: - Aleluia!

30 março 2011

Notícias do futuro visto de um presente poucochinho

Nausícaa! Luís Dolhnikoff! Preparem a feijoada...


... que nós estamos voltando!!! E não esqueçam a Brahma! Estupidamente gelada!

"O rastilho de pólvora árabe explodirá na Síria?"


É o título de um novo texto de Luís Dolhnikoff, cuja atenção e interesse agradeço uma vez mais.


1. O silêncio antes da explosão

Tunísia, Egito, Iêmen, Jordânia, Bahrein, Marrocos, Líbia... E em meio a todos eles, e através da fumaça radioativa encobrindo e espalhando as notícias sobre o Japão, esquecemos da Síria. Força do hábito: pois a Síria, antiga aliada da ex-URSS, após a queda do Muro, manteve sua própria “cortina de ferro”, mais isolada e aparentemente mais distante do resto do mundo do que pressupõe sua localização no âmago do Oriente Médio.

Tunísia, Egito, Iêmen, Jordânia, Bahrein, Marrocos, Líbia... E enquanto isso, longe dos olhos e ouvidos da mídia mundial, já há quase um mês um forte movimento popular vem desafiando o governo sírio, e sendo pelo governo sírio fortemente reprimido, com mortos e feridos a mancheias.

Tunísia, Egito, Iêmen, Jordânia, Bahrein, Marrocos, Líbia... E eis que de repente chega a notícia da queda do gabinete sírio – e da provável renúncia próxima do presidente Bashar al Assad. Mais do que nos demais países árabes, é o fim de uma era. Um fim muito abrupto de uma era tão duradoura quanto dura.

Bashar al Assad herdou o poder de seu pai, o “grande” Hafez al Assad. Hafez al Assad, por sua vez, era um dos principais herdeiros da principal corrente política árabe dos anos 1940-50, o nacionalismo pan-arabista. O nome de seu partido, que até hoje governa o país, é Baath. Onde já ouvimos isto antes? Na queda de Saddam Hussein. Pois o partido que até então governava o Iraque se chamava... Baath. Pois havia um Baath iraquiano e um Baath sírio – ou melhor, ainda há um Baath sírio. Considerados partidos irmãos, sua ideologia comum se baseava no conceito do pan-arabismo, segundo o qual todos os árabes constituem um só povo, divididos primeiro pelo Império Otomano e depois pelos impérios britânico e francês. Daí a aparente contradição de um nacionalismo pan-arabista, pois se é pan-arabista, não tem como objeto um só Estado-nação, mas vários. Ou não, se se considerar, justamente, que a nação (árabe) é na verdade uma só, e os Estados em que atualmente se divide são artificiais, pois de origem colonial (além de negadores da unidade árabe original dos tempos do Califado).

Tendo no “herói” do pan-arabismo, o egípcio Gamal Nasser, sua figura maior, essa outrora poderosa doutrina geopolítica tem como último representante importante o governo sírio. Uma das principais implicações de seu fim histórico, no bojo do fim desse governo, advém do fato de que o pan-arabismo era fortemente nacionalista e radicalmente laico. Eventualmente com algumas tinturas “socialistas”, em função do alinhamento à ex-URSS no contexto do confronto com Israel e da Guerra Fria, o pan-arabismo foi, ao longo da segunda metade do século 20, a grande força alternativa e antagônica ao islã político no mundo árabe. Seu último bastião cai agora.

A se confirmar sua renúncia, é evidente que Assad estará adotando a saída egípcia, de entregar os anéis para não perder os dedos. Neste caso, deixar o poder junto com toda a cúpula do partido Baath para entregá-lo ao exército, a fim de que este tente comandar e controlar a transição política. Os riscos são, literalmente, explosivos. Pois pode ser muito pouco e muito tarde.

O islã é uma força política relevante em todos os países muçulmanos. Há porém variações de intensidade, podendo-se pôr num extremo, por exemplo, Irã, Arábia Saudita e Paquistão, e no outro Tunísia, Marrocos e Jordânia. O caso sírio é hoje uma incógnita quanto a essa intensidade, em função do poder particular do aparato repressivo montado nas últimas décadas pelo Baath sírio. A repressão à oposição islâmica foi ali especialmente intensa, extensa e brutal, justamente pela força potencial dessa oposição. Essa situação se resume na famosa e infame “regra de Hama”.

2. A “regra” (e o fantasma) de Hama

Em fevereiro de 1982, o exército sírio cercou com tanques a pequena cidade de Hama, selando-a, enquanto a aviação síria pulverizava tudo e todos que ali se encontravam, de casas a cães e bebês, passando por homens, mulheres e crianças. Foi o (anti)clímax de uma revolta islâmica liderada pela Irmandade Muçulmana síria, iniciada em 1976. Hama era uma vila que se tornara o centro de ação da Irmandade Muçulama. Os números de mortos variam entre 10 mil e 30 mil, com algumas estimativas chegando a falar em 80 mil. O que não se discute é ter sido o evento de Hama o maior massacre pontual praticado por um governo árabe contra seu próprio povo na história recente.

Do massacre surgiu a infame “regra de Hama”, forma amargo-irônica de dizer que esse era o modo como os autocratas árabes costumavam lidar com o problema do islã político (ou segundo os mais cínicos, como deveriam lidar).

Tanto o caso de Hama quanto a particular rigidez do governo sírio, até aqui interpretada como força, levam a crer que o fim do status quo será ali explosivo. A população síria, ao identificar a brutal repressão das últimas décadas com o agressivo laicismo baatista, e instigada pelo ódio dos islamistas sírios remanescentes, tem tudo para querer se livrar de tudo de uma vez e de uma vez por todas, e agir então não de modo revoltoso ou reformista, como tunisianos e egípcios, mas francamente revolucionário, como os iranianos em 1979.

A isso se deve juntar o fato de a Síria ser um dos países árabes menos influenciados e influenciáveis pelo Ocidente, ou por qualquer outro país, em função de seu histórico isolamento. Seu único aliado importante é hoje o Irã.

Se essa análise estiver correta, o resultado final (ainda que não o inicial) da débâcle do establishment sírio seria uma revolução não-porosa a controles externos, e de provável caráter islâmico.

A Síria faz fronteira com o Líbano, sobre o qual tem enorme influência, e com Israel, com quem tem um contencioso geopolítico-militar nas colinas de Golã. Isolada do mundo árabe por sua política de antagonismo agressivo ante Israel (contra o qual já participou de três guerras) desde a assinatura do acordo de paz de Israel com o Egito em 1979, uma Síria teocrática contaria hoje com a aliança do Irã e com as armas do Hizbolá no Líbano e do Hamas em Gaza, seus aliados inevitáveis.

As variáveis e os perigos envolvidos na atual tempestade de areia que varre os governos árabes são inúmeros, e alguns potencialmente catastróficos. Uma Síria explodindo numa revolução popular contra as forças de segurança, deixadas para trás pelo grupo de Assad para tentar manter o que resta, será uma Síria cujo governo, cujo partido governante e cujo aparato de segurança terão sido sequencialmente destruídos, restando no lugar um enorme e enormemente perigoso vazio de poder, pronto para ser ocupado não necessariamente pelos mais populares, sequer pelos mais difusamente influentes, mas pelos mais assertivos e ousados. O modelo, mais uma vez, é o dos bolcheviques de Lênin a dar um golpe voluntarista dentro da revolução popular russa. Um dos principais candidatos potenciais, com o apoio reverso do Hizbolá líbio e do Irã, são os islâmicos sírios, há décadas aguardando para se vingar dos “infiéis” da família Assad em geral e do massacre de Hama em particular. Eles já têm seus mártires, seus heróis, seus inimigos, seus aliados e seu projeto político alternativo. Outros tomaram o poder com muito menos.

29 março 2011

Da ignorância...


A seguir com...


Notícias de um Universo vivo


Viriato e a solidariedade dos crápulas

Nicolau Saião, Figuras

O título é o de um e-mail que me chegou de uma qualquer central de opinião sediada no território de um qualquer computador situado no universo de liberdade da net. Aqui fica o restante.

Dois detalhes noticiosos têm, nos últimos dias, recheado as folhas-de-couve e outros órgãos de comunicação social: por um lado, a chamada de atenção "sensata e prudente" para a necessidade de os partidos "responsáveis" colaborarem entre eles em vista à "salvação nacional" da pátria posta em palpos de aranha pela mediocridade, o desleixo ou a deliberada e nefasta acção dos sucessivos governos. Por outro, a trombeteada convicção de que a bambochata eleitoral que se aproxima vai caracterizar-se por uma "campanha suja" norteada por acusações mútuas, golpes de teatro difamatórios e outras habilidosas encenações pelas quais a depauperada e desacreditada "política portuguesa" se caracteriza por ser esse, salvas as devidas excepções, o seu estilo e o seu "corpus constitutivo" como através de décadas se tornou patente.

Ou seja: no fim, a nosso ver todos eles se porão de acordo, mais coisa menos coisa. Mas, até lá, reinará ora aquilo a que Ignazio Silone, num livro muito recomendável (A escola dos ditadores) chamou "a solidariedade dos crápulas" ora "o fundo dos répteis", para usarmos a expressão não menos famosa de Bismarck.

Assim sendo, cremos que interessará ao leitor, para se precaver, ter alguns conhecimentos de contra-informação, ainda que fornecidos de maneira sucinta e, dada a complexidade do tema, em estilo "curso rápido de elucidação".

Tratado pelo nosso NS, antigo operacional do ramo, leia aqui o bloco "DETRÁS DA CORTINA – A Contra Informação, Subsídios para um conhecimento", exarado no TriploV e que consta de 3 partes... pelo menos inquietantes ou divertidas!".

28 março 2011

27 março 2011

A fechar o domingo, uma cortesia de Nausícaa

Da falta de senso (ou de vergonha?)



Deficiência nos Censos

Em crónica de 17 de Março trouxe ao assunto os Censos de 2001. Ainda não conhecia o "Questionário dos Censos" de 2011.

Nesta quero chamar a atenção para a mais que certa indefinição dos resultados que virão a ser apurados pelos Censos de 2011, no que respeita à deficiência.

Vejamos: Os Censos de 2001 apuraram 636.059 pessoas com deficiência, representando 6,1% da população residente em Portugal, e tipificaram por tipo de deficiência: 25,7 % de deficiência visual; 24,6% motora; 13,2% auditiva; 11,2% de deficiência mental; 2,4% de paralisia cerebral e 23% de outras deficiências.

Quanto ao grau de incapacidade, os Censos de 2001registaram que mais de metade da população com deficiência não possuía qualquer grau de incapacidade atribuído. A população restante estava classificada por cinco níveis de incapacidade escalonados por percentagem.

No respeitante à ocupação, revelaram taxas de ocupação muito baixas, particularmente no respeitante à deficiência mental e paralisia cerebral.

Dava percentagens das pessoas com deficiência economicamente activas e os que viviam de pensões de reforma. E dava percentagens dos que viviam "a cargo das famílias".

Os dados apurados mereceram muitas reservas, porque se considerou que não retratavam a realidade social.

Os questionários para os Censos de 2011suscitam apreensões. Não foram feitos para clarificar o que nos de 2001 ficou por esclarecer.

Não me parece que possam radiografar a realidade social da deficiência quando o "Questionário" funciona por questões como: "Não tem dificuldade ou tem pouca" em ver; "Tem muita dificuldade" em ver; "Não consegue" ver. Os mesmos itens para o "ouvir", para o "andar e subir degraus", de "memória ou concentração", de "tomar banho sozinho", de "compreender os outros ou fazer-se compreender". Como enquadrar por aqui os graus de incapacidade, tipificados por percentagens?

Pelas respostas às questões não vamos ficar a saber a origem das "dificuldades" e o arrumar dos resultados só forçando nos dará a tipologia das deficiências. Fica de fora se a pessoa com deficiência alguma vez passou por um serviço que procedesse à classificação do grau de incapacidade.

Também o campo 23 do "Questionário Individual", por omissão de uma pequena explicação, conduzirá a resultados pouco ou nada clarificadores. Quantos conseguem viver com o rendimento de uma reduzida pensão? E o que fica a "cargo da família"?

As pessoas com múltiplas deficiências, situação muito frequente, também ficam às escuras.

Para clarificar algumas dúvidas do "Questionário Individual", servi-me da "Linha de apoio", (chamada grátis): 800 22 20 11, INE. Perante a complexidade das questões, transferiram a chamada para atendimento por técnico da especialidade. Quando apresentei os valores da pensão por "incapacidade permanente para o trabalho", recebi uma resposta de orientação: Se a "pensão" não chega", "responda-se que está "a cargo da família"". De facto está a "cargo da família".

Para clarificar as dúvidas sobre grau de incapacidade e tipologia da deficiência procuraram convencer-me que os Censos pretendem radiografar a sociedade nos aspectos mais globais. Para situações específicas da sociedade, será necessário utilizar outros meios de diagnóstico. Compreensível.

O informar das vidas das pessoas terá de passar por outros processos. A observação e a vivência dão outro conhecimento e despertam outro modo de ver e de sentir.

Para atingir esse objectivo, é necessário fazer sair do silêncio as pessoas com deficiência, para que se saiba como vivem.

É necessários que gritem alto para que se saiba que não aceitam pensões 207,06 congeladas.

Autoria: Miranda Manel

No Dia Mundial do Teatro

Nicolau Saião, Teatri Mundum

Diz Nicolau Saião:

“O teatro tal como o entendo é um exorcismo contra o absurdo e a infelicidade da vida breve, contra a senilidade social e a barbárie que nos querem impor através de mecanismos de disfarce disseminados habilidosamente em descargas pretensamente cómicas ou dramáticas. Tal pressupõe uma chamada de atenção, se assim o quiserem, para a ética e não para a moral.

Num mundo que já não sabe bem onde está a realidade, o teatro é uma parte da receita contra a incapacidade de multiplicação da visão clara que se pode ter das coisas. Repõe no seu verdadeiro contexto os dados da questão primordial: se somos alguma coisa, o que somos necessita de máscara? Se viemos de algum lugar, esse lugar onde está? Se vamos para algum lado, porquê fazer a caminhada duma forma que nos angustia, mas não nos permite utilizar as pistas que temos?

Estas são perguntas legítimas. E são muito. São, com efeito, quase tudo”

ns.

26 março 2011

Voltei ainda para chamar a atenção...


... para isto. (via Lisboa-Telaviv)

E para terminar por hoje...


... algo de que toda a gente parece andar esquecida desde há uns dois anos e que se encontra em estudo adiantado, com financiamentos provenientes de todo o mundo, inclusive da UE. Qual será a treta alarmante que os "ecologistas" (da treta) inventarão e espalharão a seguir para manterem as suas cátedras, institutos e negócios?

Podes crer, meu!...

(imagem obtida aqui)

Terceira postagem de hoje: Science-fiction

(imagem obtida aqui)

Título de mais um texto que me foi enviado por Nicolau Saião:

TER RAZÃO ANTES DO TEMPO…

Aí há uns 3 meses, numa entrevista que dei a um órgão de informação espanhol, a dada altura respondi da forma que vai a seguir.

Não me felicito por ter acertado.

Para os mais cépticos, direi mesmo: “Claro que foi por acaso, os meus dons de análise ou de previsão não chegam aos calcanhares do Lourenço ou do Marcelo – apesar de estes, até agora, se terem enganado em tudo…”. E acrescentarei, com ironia carinhosa:”Visto isto, ao ainda primeiro-ministro e, principalmente, aos poderosos interesses de apaniguados que o rodeiam, vivendo agora no temor de que se abra algum inquérito ou alguma auditoria que definitivamente os desmascare e ponha à beira do calabouço, só resta mesmo quando fizer falta o golpe de estado “constitucional…”.

E nos mentideros julga saber-se, segundo se pensa que se sabe, que alguns sectores da poderosa Irmandade Irregular estão já a trabalhar nisso activamente.

E hoje por hoje um golpe de Estado desse cariz não é difícil, basta que se tenha o apoio (já se tem) das venetas da chanceler Merkl e dos colegas de estudos, da complacência do presidente Obama (para esse está tudo sempre certo, desde que o sangue derramado não seja em demasia nem muito ostensivo) e do “compagnon de nacionalité” Barroso (que também foi um “convidado” do Bilderberg Group).

Se se proceder na altura própria, discretamente, a algumas prisões cirurgicamente colocadas chamando a atenção para os superiores interesses nacionais, se se levarem a efeito alguns estratégicos safanões a tempo como dizia Salazar, se certa gente for judiciosamente aconselhada a ter tento na língua – a coisa irá nas calmas.

E os mais altos próceres do sistema judicial lá estarão para dar a melhor cobertura. E os secretas para cobrir alguma falha.

A bem da Pátria, é claro, pois só os move o amor de Portugal… E o exército estará caladinho, já todos ficaram fartos de vinte e cincos de Abril.

Cavaco? Você falou-me em Cavaco? Ora, ora…

Pois não…!

*

Creio que o jogo de José Sócrates é evidente a quem tenha umas luzes de contra-informação e que só engana os primários... e os orientados pelo interesse e a propaganda governamental: provocar eleições antecipadas e, contando com o "esmagamento de crâneos", ("bourrage de crânes" como dizem os especialistas franceses) que o ter quase toda a imprensa na mão e uma poderosa máquina de propaganda lhe permite calcular, ganhar outra maioria absoluta que o certifique e cimente como "deus ex-machina" do regime.

No entanto creio que as contas lhe sairão furadas, pois o Povo está, no que lhe diz parte, em fase de o repudiar. Sente-se claramente que a nação começa a estar farta dele e da sua arrogância primária.

Em breve serão os seus colegas de partido que o sentirão como um estorvo.

Tenho para mim, com o devido respeito, que a História vai ser dura para José Sócrates.

À História, como diz num conhecido texto o historiador e mestre coimbrão Prof. Amadeu Carvalho Homem, eles não escapam.

Faço minhas as suas lúcidas palavras.”

n.

N´Os Cafeínicos


... além deste e deste pequeno apontamento, Sextus Gerardo Oliveira publicou o texto que a seguir transcrevo, sem quaisquer comentários adicionais:

O governo de salvação nacional ou a falácia narrativa de braço dado com a Lusitânia-cacânia

Lentamente, vai-se desenrolando o processo da apreensão da sociedade portuguesa da particularidade histórica do momento. Como se sabe, apreensão é diferente de compreensão e o importante fosso que as separa pode trasvetir-se de variadas formas. Entre o assustador da primeira fase e o desenvolvimento da acção, há um período, que na Lusitânia oscila entre o muito largo e o infinito, de reflexões metodológicas. As gazetas de maior circulação – sem saber bem porquê, Sextus tem pudor em nomeá-los por jornais – vão propalando a aposta de um importante grupo luso-cacânico na formação de um governo de consenso alargado, que vai da miséria de incluir o partido socialista até ao humor de incluir o partido comunista, chamando-lhe de governo de salvação nacional.

Esta falácia narrativa, só vendável quando se restringe à fase sincrética e animal da apreensão, do governo de salvação nacional não resiste ao menor esforço de análise. Sextus não quer ser injusto em recordar o triste destino dos governos de salvação nacional fora dos tempos de guerra, tal é-o por inerência. Quando se lida com situações ditas de salvação nacional, nunca a história registou a capacidade do grupo que estava no poder, logo determinante da situação que levou à necessidade de salvação, em atingir esse nobre objectivo, o que se passou foi algo mais salvífico, o afastamento mais ou menos cruento desse grupo que clama pela salvação por outro grupo, que até aí nem sequer podia subir à varanda do poder e que não clama por salvação mas age e move-se para a substituição.
A procura da salvação nacional é sempre a tentativa da manutenção restrita de um status quo, Sextus compreende perfeitamente que a susbstituição que se anuncia na governância lusitana nada tem a ver com a substituição do grupo dominante, apenas se trata de diferença de sub-grupo – a decadência do ocidente prossegue o seu curso, mas ainda tem boas décadas de involução á sua frente. O clamor pela salvação nacional é sempre o apelo inseguro do grupo dominante á adesão do maior número de sub-grupos possíveis a um plano de inacção o mais completo que for sustentável.

Sextus não acha que a lusitãnia necessite de salvação nacional, está convicto de que precisa sim de um bom governo. Na realidade, do que se pede à lusitânia é a implementação de um programa de reorientação e diminuição dos recursos postos à discricionaridade da máquina estatal. Os dois principais problemas são a incapacidade de criar emprego e a insustentabilidade das dívidas pública e privada. Para resolver estes problemas é necessário um governo de salvação nacional (GSN)?
Para renunciar ao novo aeroporto e ao TGV é necessário um GSN?
Para parar um tresloucado plano rodoviário nacional é necessario um GSN?
Para reaproveitar a terra é necessário um GSN?
Para aproveitar os recursos marítimos é necessário um GSN?
Para diminuir a carga fiscal progressivamente para níveis adequeados ao nosso desenvolvimento, algo à volta de 25% (em contraponto com os actuais 36%) é necessário um GSN?
Para fazer a contracção dos códigos judiciais, informados por dois princípios, justiça sem tempo é uma caricatura de mau gosto e se a justiça não consegue avançar ao fim de um certo período, termina um processo, reconhecendo humildemente que nem sempre os homens podem administrar justiça, é preciso um GSN?
Para rearranjar o mapa administrativo é preciso um GSN? (Neste campo, para extinguir os governos civis é necessário um GSN?).
Para contrair o grupo de gestores de um hospital de mais de trinta para seis, como o foi durante anos, é necessário um GSN?
Para diminuir o número de vogais de uma EPE é necessário um GSN?

Não é necessário um GSN, é necessário um empenho de uma elite dirigente com capacidade decisional e comunicacional. Obviamente, uns vão ao aderir, outros não, mas não foi sempre assim, não é o género humano pertença do grupo dos primatas e não dos ungulados (saúdo-te delicioso javali)?

Sextus sabe que é pedir muito a esta elite lusitana, que tem tudo de lusitana e quase nada de elite, mas tem esperança numa reflexão de uma ministra das finanças de um governo recente, os portugueses só mudam com o garrote financeiro no pescoço.
O garrote já nos foi colocado; ainda não está claro quantas vão ser as voltas do parafuso.

Nota de fim de semana – torna-se necessário aderir a alguns pressupostos duros: aumentar impostos numa recessão é inevitavelmente seguido do aprofundamento de uma recessão; o que o PSD deve fazer é baixar ordenados e baixar os impostos até onde for suportável, mantendo, dentro do cumprimento dos acordos internacionais, uma taxa maior nos produtos sem incorporação nacional. Apesar disso, não será possível escapar ao drama espanhol: desmprego altíssimo em recessão, desemprego moderado quando em expansão.

"A loira do regime"...


... foi o epíteto com que Luís Filipe Menezes mimoseou Pacheco Pereira, tempos atrás. Ontem, o deputado do PSD foi o único, entre a oposição, a votar contra o fim do actual modelo de avaliação dos professores e a respectiva suspensão do processo, já no presente ano lectivo. Justificou a sua posição com dois argumentos principais: o primeiro, pela necessidade de os docentes serem avaliados; o segundo, afirmando que esta suspensão devolvia as escolas ao domínio dos sindicatos. O que significa, afinal, que Pacheco Pereira, mau-grado as suas qualidades como historiador, não sabe rigorosamente nada do que se encontra em jogo no que respeita ao primeiro ponto; e que, por outro lado, está predominantemente atento aos aspectos da política mais básica e não ao que verdadeiramente interessa, isto é, aos interesses dos cidadãos que nele votaram (interpostamente), nomeadamente os que fazem parte da celebrada "comunidade educativa".

Pior: Pacheco Pereira revela, mediante a posição que assumiu, uma total incompetência política no combate à ideologia da esquerda posta em prática através da acção sindical, nomeadamente ao Partido Comunista. Porque o resultado, ao fim de seis anos, da imposição autoritária de medidas desconchavadas, injustas e altamente prejudiciais para qualquer docência (e discência) digna desse nome, é os sindicatos terem hoje reforçado a sua audiência entre a os professores, embora a maioria não se identifique com a estreiteza e o claro oportunismo partidário da sua actuação.

A explicação mais plausível para tudo isto é que, na verdade, Pacheco Pereira não se terá libertado por completo das atitudes e vícios de comportamento de extrema-esquerda que herdou do seu passado marxista-leninista, atitudes e vícios que ainda manifesta com frequência nas posições que toma e nas medidas que propõe, no autoritarismo e na pequenez da incidência das suas escolhas no plano da luta política. Daí que o epíteto que lhe aplicou o Presidente da Câmara de Gaia, para cuja demissão do cargo de presidente do PSD ele tanto contribuiu, não lhe seja, a meu ver, completamente ajustado. Eu preferiria designá-lo como "a ruiva do regime". Sem ofensa.

Entretanto, complementando o que escrevi, leia-se isto.

Em complemento à resposta que dei a Nausícaa...


... aqui, reproduzo a primeira página do jornal Expresso de hoje.

Adenda: Segundo os telejornais de há bocadinho (meio-dia de hoje, sábado) nem Cavaco Silva está interessado em as pedir - por medo das repercussões que os resultados dessa auditoria possam ter no plano da credibilidade externa do país - nem Bruxelas deseja fazê-lo - pelo medo do que pode ser assacado à UE em termos da fiscalização quanto ao destino e gestão das verbas de apoio. O que é que se esperaria?

25 março 2011

O gráfico da culpabilidade


Em período de menor disponibilidade para vir até aqui dizer o que penso...


... vale-me S. Nicolau Saião com desarrincanços como este, que eu subscrevo por inteiro:

O FOGO SECRETO

Como quase toda a gente sabe, há nos EUA uma expressão, que depois foi passando para a sabedoria das nações, que reza: “Não deve deixar-se aos incendiários a tarefa de apagar os fogos”.

É, a meu ver, uma formulação lapidar, simultaneamente simples e sensata. A mediana compreensão e o pacífico bom-senso recomendam-na, creio eu, inteiramente.

É tão simples como isto: ninguém de lúcido pensar entregaria a educação e a formação interior duma criança a um pedófilo, assim como nenhum cidadão com razoável tento daria responsabilidades a um surripiador para lhe guardar a herdade.

Às vezes faz-me espécie como é que certa gente não medita um pouco que seja nestes conceitos que, bem vistas as coisas, são perfeitos lugares-comuns. Ou, dizendo doutra forma, filosofias tão pragmáticas, tão quotidianas, que entram, se bem o digo, na mais acabada evidência.

Mas no mundo político, que é como se sabe e sente um mundo onde pode vigorar por vezes a insensatez apoiada numa aridez ou num arrivismo de criar sustos, não há barreiras para o oportunismo crítico mesclado de desconchavo primarizante.

Nos últimos dias, isso tem sido uma constante.

Começou pela súplica, aliás muito pensada e muito hábil, a seu ver, do antigo presidente e primeiro-ministro de não muito feliz memória Mário Soares, a pedir, com angústia assumida exarada num periódico, ao Presidente que um mês antes enxovalhara cortesmente e com aquele tom ardiloso-político que se lhe conhece de ginjeira, que interviesse e salvasse o governo da demissão.

Passou a seguir pelo pânico encenado – mas real para eles, no fundo – em que os tenores do partido que tem apoiado o futuro ex-primeiro ministro e do qual este surdiu, que trejuravam que se não se deixasse estar quem estava no lugar em que devia estar, cairia o Carmo, a Trindade (além de S.Bento, claro…).

E agora, num exercício de pensamento – geralmente para esquecer e passar adiante – e de estilo que conforme me contam os próprios militantes do seu partidão olham com sarcasmo, veio o ensaísta Pacheco Pereira (ensaísta de valor, atente-se na sua história do PC) propor uma coligação ampla, do CDS ao PS, passando pelo seu dele PSD.

Nas suas palavras, caso não se faça isso entregar-se-á a rua ao PC e ao BE e o país ao caos (juro que ele falou mesmo em caos, no bom estilo marcelista/poujadista). E o povo, nisto tudo, é mera paisagem?

Ou seja: propõe que entre nesta curiosa salsada de gente política, muita dela desavinda, tanto os que se propõem salvar o país (CDS e PSD), como os que o têm afundado (o PS capturado por Sócrates e os seus áulicos, hoje um socialismo de escada-abaixo que os socialistas mais esclarecidos ou militantes de anos escorreitos – eu mesmo sou e sempre fui socialista, mas não de obediência arrivista como o dos parvenus sedentos de prebendas e de cargos – reprovam ou rejeitam).

Claro que o que diz Pacheco Pereira pouco peso tem no inner circle do mais capaz e adequado saber político operativo. Mas tem valor sociológico, para além de constituir um ersatz de confusionismo que é claramente prejudicial. E, o que é pior, é que pode ser emanação plantada por gentes, essas sim, com peso, que com o devido respeito falam/manobram pela boca deste homem bom e de talento literário mas que sempre foi um has been enquanto vigoroso homem-no-terreno.

O caos? Upa, upa… Madurezas de cultivador literário, com cenários apocalípticos de opereta.

E o resto é conversa…

n.

Vá lá...


24 março 2011

Opinião construtiva e cultural

É o título de mais um texto enviado por Nicolau Saião. Quanto a mim, volto amanhã.

Quando alguma coisa cai, mesmo que seja um governo, sinto-me nostálgico. Vá-se lá saber porquê...

Interrogando-me ligeiramente penso que é pela velha sensação de que algo terminou e o tempo não volta p'ra trás.

E isso, num manguelas relativamente sensível, parece que não mas faz cócegas na melancolia de viver.

Desta vez lembrei-me do seguinte: claro que os senhores futuros ex-ministros não vão ficar no desemprego, decerto das duas uma: ou voltam para o antigo lugar que ocupavam ou, como são talentosos e bons profissionais, depressa arranjam lugarito.

Não nos preocupemos - solidários que somos no entanto com toda a gente.

De uma coisa, entretanto, me lembrei. Uma boa ideia, creio, para passar à srª futura ex-ministra da Educação:

Não sei se já se reformou ou se ainda é professora, ou assim. Sei, embora nunca tenha lido nenhum mas por alguém de seguro gosto mo ter afiançado, que tem livros e de qualidade, que é uma espécie de Enyd Blyton lusa. Livros muito conhecidos e postos sob o título geral de "Uma aventura".

E a minha sugestão é: porque não, agora que terá tempo p'ra isso, calculo, escrever baseada na sua experiencia e puxando da bela imaginação, o "Uma aventura no Conselho de Ministros"? Hein?

Está-me cá a parecer que devia ser um magnífico best-seller!

n.

23 março 2011

Um pequeno Everest

(imagem obtida aqui)

É o título do que, uma vez mais em cima da hora, escreve Nicolau Saião:

Cansaço. Nojo. Um pouco de estupefacção à mistura. No fim de umas horas de contemplação do pequeno écran, foi o que senti na verdade ao chegar finalmente o minuto do homem encarrilhar o seu goodbye.

Uns dirão: como assim? Estupefacção? Mas o cinismo final do homem já se esperava. Foi, como é de uso dizer-se nas boas folhas-de-couve habituais, igual a si próprio. De carinha adoçada por anos de experiência (de velhacaria política?) a lidar com as pequenas e grandes misérias e truques da governança num país de pobre gente manipulada uma, atoleimada outra, impotente na maior parte, resignada ou apática, aqui e ali esbravejando sem grandes consequências práticas, veio até nós com conversa à sua altura…

Assim o ainda primeiro-ministro compôs o seu comunicado ao país, espécie de jaculatória para um fim de linha sem grandeza.

Claramente saiu mais cedo do redondel da assembleia para ir congeminar a sua encenação com os comparsas da contra-informação que lhe dão arrimo e discursata. Numa derradeira manifestação de desprezo e má-educação pelos que se dizem, e são-no formalmente, representantes da Pátria.

Leia-se: enxovalhou, através deles e com este gesto, a mesma Pátria de que se pretendeu encarnação genial e única. Não pode ter sido por acaso.

Lente de más lições, nada parece ter aprendido nestes anos em que reinou incólume, escorado não digo por sicários mas por áulicos - tementes, veneradores e obrigados. Entrou pesporrente e arrogante e assim saiu, pese à maquilhagem discursiva utilizada. O olhar tenso e fuzilante desmentia a face simuladamente calma e as palavras de timbre ronronante.

Deixa o País em maus lençóis. Deixa a Nação em cacos. Deixa-nos a todos, à maioria! – mal-feridos e indignadamente revoltados.

E o pior de tudo, o mais inquietante de tudo – é que com um fenomenal descaramento (irresponsabilidade?) ameaça, promete voltar!

É imperioso impedirmos o seu retorno com um vigoroso manguito!

n.

O massacre


Neste momento, rejeitado o PEC IV, José Sócrates dirige-se para o Palácio de Belém, onde, supõe-se, apresentará a sua demissão a Cavaco Silva (como, muito provavelmente, planeara já, admitindo que tudo isto não haja sido produto da sua inegável estupidez arrogante). Só que Cavaco tem, como eu disse aqui, logo após a sua reeleição, a faca e o queijo na mão. Entre outras coisas, detém poderes que lhe permitem não aceitar essa demissão, reconduzindo-o no cargo. O que constituiria uma vingança do mais refinado e terrível que se poderia imaginar.
Pior do que um "entalanço", seria um verdadeiro massacre.

Um texto em cima da hora


Nicolau Saião:

ELISABETH E O DOPING

Vi a foto da Elisabeth Taylor, mortinha de fresca data (morreu hoje), quase ao mesmo tempo em que vi a do treinador Carlos Queiroz, enquadrada pela notícia de que o TAS, ao qual recorrera num arroubo de homem que se sentia injustiçado, lhe dera razão e o absolvera.

Sempre gostei de ver a Liz actuar, sempre gostei do talento de treinador de Carlos Queiroz. E nunca gostei de gente estatal que, com ademanes, vem nos mídias tentar fazer justiça governamental. Digamos assim. E isto porque sei como os tentáculos do Estado podem ser temíveis, por injustos e autoritários.

E também sei como é que se efectuam campanhas para derribar um ser humano, seja ele treinador, seleccionador, actor ou actriz. Tenha bom ou mau feitio.

A Liz, no seu tempo de menina e moça, de jovem estuante de vida, também teve de se bater contra quem tentava dar-lhe cabo da vida: que era temperamental, que se metia nos uísques, que casava muito e gostava de homens viris e papossêcos, enfim – a panóplia clássica dos beatos falsos que usam cilindrar quem não lhe pape a hóstia…à sua medida.

Em certa altura – espanto dos espantos - porque a Liz dissera umas coisas depois de ter entrado num filme sobre o Terceiro Mundo, até a suspeitaram de ser comunista…!

Era o que de pior podiam chamar na altura a uma pessoa que lhes fugisse do redil. Gente canalha, sem imaginação, sem o saberem davam uma publicidade pateta aos apaniguados do Estaline, que não era melhor que eles. Mas como o intuito era difamar…

Mas bem: o que eu quero dizer, finalmente, é que a história da contenda sobre o Carlos Queiroz e a dopagem sempre me cheirou a esturro. Achei-lhe sempre um tom de execução que não me agradava nada.

Não sei se Queiroz é mavioso ou se é de rude trato. Nem me interessa. O que sei é que, num país de Direito, por ser-se – digamos em gíria – um pouco “bota da tropa” isso não autoriza a atirar-se um cidadão para os infernos das punições.

As quais, aliás, deve buscar-se que tenham sempre uma certa elegância. Para não parecerem coisa de mau tratamento.

E ponto.

ns


A propósito do Bahrein


Luís Dolhnikoff teve a gentileza de me enviar um seu artigo, inédito, para eventual publicação neste blog. Transcrevo-o integralmente de seguida, fazendo-o acompanhar pelos meus agradecimentos e pela devida chamada de atenção para um tema de tanta importância como aquele de que o texto trata.


BAHREIN, O UMBIGO INFLAMADO DO MUNDO

1. O que está em jogo no Bahrein

Há algumas semanas, conversando com uma historiadora, previ a invasão saudita do Bahrein, recém-concretizada. Infelizmente, não documentei minha previsão, mas isso não é o mais importante. O importante é compreender como essa previsão foi possível: a invasão era inevitável. Além disso, esclarece algumas das principais questões em jogo no Oriente Médio em particular e no mundo árabe em geral.

O Bahrein é uma pequena ilha no golfo Pérsico. O golfo Pérsico, por sua vez, é um verdadeiro lago cujas margens pertencem, em sentido horário a partir do sudeste, a Omã, aos Emirados Árabes, à Arábia Saudita, ao Qatar, ao Bahrein, ao Kuwait, ao Iraque e, finalmente, já na margem oriental, ao Irã. A peculiaridade desse “lago” é que se abre, através do golfo de Omã, para o mar da Arábia e o oceano Índico, e daí para a Ásia, e contornando a “bota” da Península Árabe, a oeste, para o Mar Vermelho, e daí para o canal de Suez e o Mediterrâneo. Em suma, a maior parte do petróleo do mundo converge para o golfo Pérsico antes de se espalhar para o resto do planeta.

Outra peculiaridade do golfo Pérsico é possuir quatro “portas”. A primeira, entre o Bahrein e o literal iraniano. A segunda, entre o Qatar e o litoral iraniano. A terceira, entre os Emirados Árabes e o litoral iraniano. A quarta, entre Omã e o litoral iraniano.

As particularidades do Bahrein são, por sua vez, duas: localizar-se na primeira “porta” do golfo, ou seja, na primeira passagem a ser cruzada pelos petroleiros de saída. A segunda particularidade é ter uma maioria xiita – porém um governo sunita.

Quando previ, naquela conversa, que a Arábia Saudita invadiria o Bahrein, raciocinei por exclusão. No grande tsunami político que ora varre os governos autocráticos e/ou monárquicos árabes, o Bahrein é o único caso a também envolver, diretamente, a questão sectária. Pois como a maioria da população da ilha é xiita, e a minoria, que detém o poder, é sunita, contestar e afinal derrubar o governo implica em trocar um governo sunita por um xiita.

O resultado seria que a primeira “porta” de saída do golfo Pérsico, a passagem entre o Bahrein e o litoral do Irã, se tornaria uma “porta” xiita. Os xiitas, portanto, deteriam potencialmente as chaves do mercado mundial de petróleo.

Ocorre que uma das diferenças fundamentais entre o sunismo e o xiismo está no fato de o segundo defender doutrinariamente a ligação entre religião e política (enquanto no sunismo essa ligação é possível mas não necessária). Isso significa que um eventual governo xiita no Bahrein será provavelmente uma teocracia – muito mais provavelmente do que nos demais países árabes. O golfo Pérsico não apenas seria controlado por teocracias xiitas (a do Bahrein de um lado, a do Irã do outro), como seria controlado por Estados ideológicos.

2. O que não está mais em jogo no Bahrein

Estados são movidos, como regra, por interesses, não por valores (incluindo seus próprios valores ideológicos). Chamo a esses Estados “normais” de Estados políticos. Existem, porém, ainda que como exceções, Estados ideológicos. Os Estados ideológicos se distinguem dos Estados políticos por serem movidos por seus interesses tanto quanto por seus valores (que não são necessariamente, sequer como regra, positivos). Para efeito de comparação, a URSS era um estado ideológico, enquanto a Rússia é um estado político; o III Reich era um estado ideológico, enquanto a República Federal da Alemanha é um estado político; a China de Mao era um estado ideológico, enquanto a China atual é um estado político. A diferença prática é que os Estados ideológicos não seguem, ou seguem ainda menos, a racionalidade política. Hitler manteve parte importante do sistema ferroviário alemão operando para alimentar a máquina de morte dos campos de extermínio até os últimos dias da guerra, apesar do próprio esforço de guerra e da derrota iminente; Mao Tse Tung destruiu a economia chinesa (e matou milhões de chineses) duas vezes, primeiro com seu Grande Salto, depois com a Revolução Cultural. O mundo não pode, e não irá, conviver com um golfo Pérsico ideológico.

Isso vai muito além do que as pequenas mentes maniqueístas do economicismo vulgar afirmam, ou seja, que tudo se explica pelo petróleo, isto é, pelo alto consumo dos EUA. Um golfo Pérsico ideológico é um problema para os EUA, mas também para a Europa, a China, o Japão e, na verdade, para todo o mundo, pois implica tirar a geopolítica local do campo da racionalidade dos Estados políticos para mergulhá-la no pântano da irracionalidade dos Estados ideológicos. Isto é, em si, um fator de enorme desconfiança, logo, de aumento de preços. O que afeta o conjunto da economia mundial.

Mas para além da desconfiança, Estados ideológicos são problemáticos de fato (o que aliás está na origem da desconfiança), levando, constantemente, a situações de crise e/ou de conflito, o que só piora o mesmo quadro.

Mas se o Bahrein tem uma maioria xiita, e se essa maioria está nas ruas, reivindicando o fim do governo monárquico sunita, no contexto das atuais revoltas árabes, o que fazer?

Os EUA têm no Bahrein a sede de sua poderosa Quinta Frota. Seria porém inimaginável, hoje, que as forças norte-americanas deixassem suas bases ali para impedir a formação de um governo xiita. O mesmo não se aplica às forças armadas sauditas – que estão virtualmente tão próximas quanto as da Quinta Frota, pois o Bahrein é uma ilha ao largo da Arábia Saudita, à qual se liga por uma ponte. Se o exército saudita entra no Bahrein chamado pelo governo, é muito mais difícil questionar a intervenção. Trata-se de árabes e muçulmanos reprimindo muçulmanos e árabes, e não ocidentais, muito menos americanos. Além disso, como o governo saudita é monárquico e autocrático, não responde senão a si mesmo. Como o mundo não pode, e por isso não irá, conviver com um Bahrein xiita, mas como o governo local, minoritário, está ameaçado pela revolta popular, a última, única e melhor opção é uma intervenção saudita. Daí eu tê-la previsto naquela conversa.

Hillary Clinton condenou, em termos não particularmente veementes, a invasão saudita do Bahrein. É jogo de cena. Silenciar seria apoiar, e apoiar seria pôr-se contra as massas árabes. E não há como justificar politicamente a defesa das revoltas tunisiana, egípcia, líbia etc., mas defender a repressão, principalmente externa, da revolta bareiniana. Portanto, nem silêncio nem defesa, mas condenação. Porém uma condenação “para os árabes verem”. Os sauditas, com o aval do próprio governo do Bahrein e dos demais países do golfo, ficarão ali enquanto for necessário.

Mas, então, a revolta popular no Bahrein, ao contrário da tunisiana e da egípcia, e apesar delas, está fadada ao fracasso? Provavelmente sim. Apenas os simplistas imaginaram que as revoltas árabes envolvem simplesmente ditadura versus democracia, opressão versus liberdade, injustiça versus justiça e outras dicotomias ideais. No caso do Bahrein, envolve também uma disputa sectária entre sunitas e xiitas. Como, aliás, é o caso crônico do Líbano, que por isso mesmo não consegue sair de um perpétuo estado de pré-guerra civil.

O Bahrein é, ao mesmo tempo, um ponto central e um ponto de virada nas atuais revoltas árabes, ainda mais do que a Líbia. A questão líbia é evidentemente maior, nos dois sentidos, maior e mais evidente, mas não tão central. Se a Líbia é igualmente vital no mercado mundial de petróleo, não pela quantidade de sua produção, mas pela qualidade de seu petróleo, e se em termos geopolíticos é a chave para conter uma imigração em massa de africanos para a Europa, além de em termos políticos ser fundamental para conter a expansão da teocracia islâmica no norte da África, tem um impasse solucionável. O problema líbio, ao menos no quadro das revoltas árabes, resume-se à força militar de Muamar Kadafi. Uma vez que o Ocidente saia de sua indecisão e resolva apoiar os rebeldes, haverá a transição líbia como houve a tunisiana e a egípcia (o que em si não garante nada além do fim da atual autocracia). O caso do Bahrein é diferente: a transição da monarquia autocrática para qualquer outra forma de governo, inclusive uma monarquia constitucional, acaba de ser abortada. As mudanças dependerão, agora, da derrota da revolta. Ou seja, acontecerão quando e se os governos do Bahrein e da Arábia Saudita julgarem que podem controlá-las. Caso contrário, seriam afinal controladas pelo Irã.

O caso do Bahrein demonstra algumas coisas. Uma delas, que as ilusões de que os países árabes estão ou estarão em breve migrando para governos democráticos não passam disso, ilusões. Tanto quanto os desdobramentos finais do acidente nuclear de Fukushima, os desdobramentos finais do abalo sísmico político no mundo árabe são inteiramente imprevisíveis. E podem ir desde um alarme injustificado até a verdadeira tragédia. Ou não ir para lugar algum, como no Bahrein, o pequeno grande paradoxo geopolítico da enorme incógnita das revoltas árabes.

3. O que ainda está em jogo no Bahrein

O Irã, ecoando Hillary Clinton, também condenou, e com mais veemência, a invasão saudita do Bahrein. Não, imagino, porque esteja preocupado com a morte no nascedouro da democracia bareiniana, mas porque está preocupado com a morte no nascedouro da teocracia xiita bareiniana.

O Irã é o maior país xiita, a Arábia Saudita, o mais importante país sunita (ainda que não o maior; este é a Indonésia, enquanto o maior país árabe é o Egito). Ambos estão frente à frente no golfo Pérsico. A revolta popular no Bahrein, ao ser também uma revolta xiita, era do interesse do Irã, enquanto a derrota da revolta, que é uma vitória do governo sunita, é obviamente do interesse da Arábia Saudita.

Já a democracia árabe em geral e a bareiniana em particular provavelmente não perdem nada, pois uma revolta xiita apoiada pelo Irã, apesar de envolver a maioria oprimida, aponta para a substituição de uma ditadura por outra, como aliás aconteceu no próprio Irã, com a troca da ditadura do xá pela ditadura dos aiatolás.

Mas se a Arábia Saudita ganha e se a democracia árabe não perde, perde o Irã. Como, então, reagirá?

Apesar do irracionalismo característico dos Estados ideológicos, eles raramente chegam à irracionalidade completa do suicídio político. O governo iraniano pode desafiar o mundo com seu programa nuclear mais do que suspeito (apesar de toda inocência útil do governo Lula), seu presidente pode fazer discursos políticos irracionais e obscenos, negando o Holocausto e pedindo a destruição de Israel (logo, o genocídio de sua população), eles podem apoiar com palavras as revoltas populares árabes e reprimir pela força sua própria oposição popular (com o devido apoio do governo Lula), mas não irão invadir o Bahrein para se contrapor ao exército saudita.

O Irã se limitará, portanto, ao que é possível e pouco arriscado. Assim, usará seus instrumentos de sempre, o Hamas na Faixa de Gaza e o Hizbolá no Líbano, para dar mais uma volta momentânea no parafuso da instabilidade regional, o que não é do interesse do conservador, em todos os sentidos, governo saudita. Assim, deve-se assistir, proximamente, ou a declarações provocativas ou a atos de agressão vindos dos dois grupos terroristas, seja dentro do Líbano ou contra Israel. Ao mesmo tempo, tratará de tentar manter viva a resistência no Bahrein.

A Arábia Saudita é, de certa forma, um grande Bahrein às avessas. Uma vasta maioria sunita, representada pela casa real, governa sobre uma minoria xiita. O aumento da instabilidade regional, principalmente envolvendo diretamente questões sectárias, é na verdade um pesadelo particular para o governo saudita. O Irã fará tudo para alimentar esse pesadelo. Felizmente, para o governo saudita, esse tudo não é muito.

O que nos leva a outro paradoxo. Pois o governo saudita é um dos mais condenáveis do mundo. Na verdade, é no mínimo tão condenável quanto o do Irã, do qual é uma espécie de alma gêmea. Na prática, a Arábia Saudita é uma teocracia islâmica de tipo sunita, enquanto o Irã é, de fato, uma teocracia de tipo xiita. Se o clero não governa diretamente na Arábia Saudita, nem por isso as leis deixam de ser as da shariá, o código islâmico. Ali, como no Irã, mulheres são subcidadãos, gays são condenáveis à morte, não há liberdade de reunião, de expressão, de culto etc. A vitória sunita no Bahrein não é, afinal de contas, melhor do que uma vitória xiita. Enfim, se o Irã perde, o mundo nada ganha.