
23 outubro 2010
A escola da pobreza e da sujeição

18 outubro 2010
Jura...!!!

Transcrevo parte da notícia (para a ler na totalidade, clicar aqui):
"O Banco de Portugal publicou hoje um retrato da população portuguesa no que a literacia financeira diz respeito.
As conclusões do Inquérito à Literacia Financeira de 2010, realizado pelo banco central, dão conta de uma população com fracos hábitos de poupança e despreocupada num conjunto alargado de hábitos financeiros, desde a gestão da conta bancária à comparação de produtos na hora de investir.
Poupança
O estudo do Banco de Portugal nota que "uma percentagem muito significativa (89%) dos inquiridos considera ‘importante' ou ‘muito importante' planear orçamento familiar", apesar de apenas 52% o fazer.
Os sinais de alarme aparecem quanto 54% considera como poupança o dinheiro deixado na conta à ordem para gastar mais tarde, quando 88% dos que não poupam dizem não ter rendimentos para o fazer e quando apenas 20% dos inquiridos garante poupar numa lógica de médio e longo prazo.
"As decisões quanto à poupança são determinadas também, em grande medida, por restrições financeiras: a maioria dos inquiridos que não poupam (88%) refere rendimento insuficiente como principal razão", lê-se no documento."
(...)
Sublinhados meus.
07 outubro 2010
Imagens do futuro que nos espera

Antes de lerem o que se segue, seria conveniente terem em atenção este excelente texto.
Todos (?) nos lembramos do enorme escândalo internacional que atingiu o centro mundial de estudos e pesquisa sobre as alterações climáticas, o efeito de estufa provocado pelo CO2, o alargamento dos buracos do ozono e por aí fora, há menos de um ano. Todos (?) nos lembramos da dificuldade que os seus responsáveis tiveram em negar convincentemente que as actividades do instituto adquiriram um carácter verdadeiramente mafioso, com tentáculos espalhados pelo seu tão bem-amado planeta. Desde manipulação de dados ou mesmo a sua eliminação, com vista à confirmação das “realidades” apocalípticas consequentes à” feroz e irracional exploração capitalista”, até à ameaça física aos cientistas que os contestavam, passando pela extorsão disfarçada às empresas que os não financiassem, de tudo se pôde encontrar nos arquivos que julgavam inexpugnáveis.
Ao descrédito e à desconfiança vieram somar-se os cada vez mais numerosos e patentes dados sobre a vigarice planetária perpetrada e os sempre zelosos órgãos de comunicação, quando se trata de explorar o filão d’ “o drama, a tragédia, o horror” (conforme a expressão do inigualável Artur Albarran) começaram a perceber que era melhor mudarem de esquina e de peditório, pelo menos até o burburinho acalmar e, assim, poderem começar a inverter o discurso e a retórica. As coisas, porém, não são assim tão simples, nem se ficaram nem ficarão por aqui. Se os hackers, infinitamente mais do que quaisquer dados, vieram desmascarar iniludivelmente a natureza dos “climatologistas” e afins concentrados em diferentes universidades e institutos, sustentados por chorudos subsídios oficiais e particulares, minando-lhes a credibilidade e a influência, isso não significa que os desmandos produzidos pela sua acção desapareçam tão depressa como se desejaria.
Um primeiro factor diz respeito ao facto da “ciência” ecológica ser, no primarismo dos seus pressupostos, de fácil e leve digestão - umas noçõezitas básicas de biologia, de física, acompanhados de uns quantos slogans e está formada, finalmente, a sabedoria a sério, nada daquelas coisas abstractas e secantes que nos querem impingir na escola, agora é que eles vão perceber que não brincam connosco, que a gente sabe muito bem o que quer. Em suma, uma ciência que proporciona, ao ego de quem não se quer maçar muito com isso do rigor no conhecimento e do correspondente trabalho de investigação, um curso de formação rápida em profetismo - ainda por cima, com estatuto “científico” - que o eleva acima da massa ignorante, crédula, incauta e, sobretudo, consumista como, ainda por cima, nos dá uma arma de ataque “àqueles gajos”.
Não se pode querer mais de uma ciência ao alcance de qualquer “mente razoável” e, naturalmente, bem-intencionada, senão que seja o veículo que proporciona a uns quantos serem os olhos da multidão predadora - cega, oprimida ou simplesmente cobarde e desprezível. Os “cientistas do ambiente” multiplicaram-se mais depressa do que os cogumelos, do café à internet e, inevitavelmente, foram recebidos de braços abertos pela esquerda, que, mesmo nas barbas da ASAE, aproveita tudo para derrubar o “imundo sistema capitalista”.
Mas a simples pregação da mensagem ecológica não conseguiu demover a maioria das consciências adormecidas ou renitentes em aceitar as evidências dos pecados cometidos contra a Mãe-Natureza. E , se bem que a democracia seja, por definição, o sistema assente no diálogo e o ecologista se considere a si mesmo como que o único e universal (porque tem em conta todos os seres vivos) democrata e pacifista, quando o apocalipse vem aí e a Palavra que traz a Luz por mais que se ele esforce não penetra, há que recorrer à acção directa e etc.. O “ecologista” torna-se militante, endurece o discurso e os propósitos. Há que travar o matricídio, há que cumprir a missão que a Mãe-Terra lhe confiou de a preservar inalterada e inalterável, para que, para sempre, possa continuar a dar-nos o leite e o mel. Venha a Green Peace da Humanidade eterna! Formemos “o Partido”, sejamos “os Verdes” e conquistemos o Poder, pela acção reforçaremos as nossas reivindicações nos Parlamentos!
A este primeiro factor, composto por tão altos e nobres desígnios, junta-se um outro, bem mais prosaico. As empresas criadas para produzirem e comercializarem as diferentes mercadorias “verdes”, essas, no entanto, têm continuado as suas actividades altruístas, apoiadas quase sempre pelos diferentes governos, “preocupados com o bem-estar e o futuro saudável dos cidadãos”, acompanhados por banda e foguetório eleitoralista, criando uma rede de interesses e de dependências políticas e económicas. Tais empresas, como quaisquer outras, visam fazer valer os seus produtos sobre os restantes existentes no mercado, pelo que assentam no alargamento do número de consumidores desses produtos. Nesse sentido, estão, muitas delas, em vantagem concorrencial com as “tradicionais”, uma vez que os governos se servem delas como meio de propaganda de imagem, subsidiando, por diferentes meios, esses produtos.
Em estreita ligação com os dois factores anteriormente referidos vem a “ideologia” verde, entretanto imposta às escolas pelos pedagogos de serviço desses mesmos governos. E lá se decretou a “ciência verde” como atitude a inserir na formação cívica, permitindo às crianças e aos adolescentes papaguear sabiamente uma teoria “à la Disney”, fundada em dados cuja real compreensão se encontra muito para além das suas possibilidades de análise e sistematização. E, uma vez mais, inflando e modelando um ego em construção, o ego de uma cidadania responsável. Tudo em nome do melhor dos mundos. E da, a cada dia mais facilitadora (ora, pois…!), Escola do Saber dos Dias Melhores.
Assim se logra uma educação ainda mais “harmoniosa” pela interacção entre propaganda e clientela políticas, ilusão sobre a posse de um conhecimento visionário ou, pelo menos, real, e garantia de um permanente alargamento futuro da clientela das referidas empresas que o Estado acalenta. Já há bastante tempo que um conhecido escritor de FC, entretanto falecido, escreveu um romance sobre uma tramóia mafiosa assente no alarido sobre as catastróficas e iminentes alterações da “saúde” do planeta. A rede estendeu-se, porventura, ainda mais para além do que a imaginação lho permitiu perspectivar. Estamos perante um 1984 de risonha face democrática.
Junte-se, por fim, o factor que cimenta tudo isto, aquilo que é conhecido da natureza humana e que se chama autodefesa do ego. Toda a acção desenvolvida pela dupla mistificadora constituída pelos interesses político-económicos e respectivo sucesso tem por base a fraca exigência da escola em relação ao que é uma rigorosa compreensão dos conceitos fundamentais a reter por parte dos “aprendentes” e sua organização e a preguiça generalizada quanto ao alargamento e aprofundamento de conhecimentos pela generalidade dos cidadãos. Não há democracia sem conhecimento e, por isso, não existirá democracia sem uma escola exigente. Uma escola “facilitadora” é um sinal de alarme para a ditadura que se prepara na sombra.
“Educado” na falta de rigor, no facilitismo e na indisciplina, o carácter humano tende a cair no laxismo moral e mesmo na perversidade. Agostinho da Silva, professor que, como Einstein e tantos outros, desde sempre esteve contra a escola surgida no século XVIII, considerava, no entanto, ser um dever frequentá-la. Justificava-o, lembrando que as crianças teriam, desde cedo, que compreender as noções de necessidades e deveres partilhados por todos (pais, trabalhando nas suas empresas; filhos, trabalhando nas escolas para adquirirem conhecimentos que lhes permitissem ser pessoas), para que pudéssemos viver humanamente. E, também a exemplo de outros, nesse sentido afirmou - e percebe-se muito bem porquê, face ao descalabro vivido por Portugal a este nível - que “mais importante que educar é não deixar deseducar”.
Quanto menos sabedor e pouco disciplinado no saber e na persistência da sua busca, menos se é permeável a novas ideias ou sequer à sua reformulação - na medida em que tal acarreta, inevitavelmente, uma mudança no estar e, provavelmente, no modo de ser daquele que as muda ou reformula. Assim, o militante de base do “ecologismo” tenderá a persistir cegamente no que já se viu não coincidir com a realidade. A exemplo da esquerda, na qual frequentemente milita ou de que é simpatizante e votante, faz orelhas moucas a tudo o que contrarie os seus “princípios” e a sua “ciência contestatária” (“daqueles gajos”), o seu estatuto messiânico, mesmo o que o mais elementar bom senso lhe aponte uma realidade bem diferente dos pressupostos que lhe moldam o raciocínio. Ou isso ou, por falta de norte, cai numa dolorosa desorientação para o ego e na mais que provável depressão. Reagir implica conhecer a sério e isso dá muito trabalho e exige um treino da atenção - que não tem e em que a escola, pouco rigorosa, não o iniciou suficientemente no tempo em que a frequentou.
Eis porque a bola de neve, embora abrandando, continua ainda o seu percurso destrutivo de uma verdadeira e necessária política ambiental - ninguém, por exemplo, fala dos desmandos ambientais e económicos que são permitidos à construção civil, ocupando com betão hectares e hectares de terras excelentes para a agricultura, tendo ao lado outras, pedregosas e estéreis. Porque está formado o seu núcleo, difícil de desmantelar: o que diz respeito à inércia e ao medo. E é esse núcleo, facilmente manobrável, que os poderes político e económico, numa comunhão de interesses apoiada no “prestígio universitário” que subsidiam, não descuram nem cessam de alimentar. Em nome da sua incessante e sincera luta pela vida dos cidadãos. Confirmando-a na educação que dão aos futuros cidadãos. Na escola. Sempre na escola, campo aberto à socialmente indispensável e democrática militância pelo futuro.
A que propósito vem tudo isto? A propósito desta notícia, que se pode ler na página 15 da edição do PÚBLICO do passado domingo, a qual transcrevo integralmente de seguida e que não diz respeito à Al-Quaeda:
«Campanha Mundial para cortar CO2 suspende filme polémico
O objectivo era difundir ainda mais a campanha 10:10, lançada em 2009 no Reino Unido e que convida cidadãos, empresas e outras entidades a, com atitudes simples, cortarem dez por cento das suas emissões de CO2 num ano. Mas o filme, que seria lançado nas televisões e nos cinemas, foi engavetado no mesmo dia da sua antestreia em alguns sites da Internet, na sexta-feira.
Com cerca de quatro minutos, o filme mostra inicialmente uma cândida professora estimulando os seus alunos a juntarem-se à campanha. “Não se sintam pressionados”, diz ela. Alguns dizem que não e a professora, com o premir de um botão, explode-os literalmente. A cena, misturando humor e realismo, repete-se num escritório, num treino de futebol e num estúdio de gravação.
Supostamente, o filme deveria ser visto com humor, mas assim que foi pré-publicado na net, nos sítios do diário Guardian e da campanha 10:10, choveram reacções negativas.
Ao fim da tarde de sexta-feira, o filme foi retirado do sítio da campanha e substituído por um pedido de desculpas. “Com as alterações climáticas a tornarem-se cada vez mais ameaçadoras e cada vez menos faladas nos media, queríamos encontrar um modo de trazer este assunto crítico de volta às manchetes e, ao mesmo tempo, fazer as pessoas rirem”, argumenta o texto. “Muitas pessoas consideraram o resultado extremamente engraçado, mas algumas não, infelizmente, e pedimos sinceras desculpas a quem se tenha ofendido.”
Cerca de 90 mil pessoas já aderiram à campanha 10:10. Em Portugal, onde a iniciativa arrancou este ano, há já cerca de 900 inscritos, mais duas dezenas de empresas.»
O resto é com todos nós. Como, aliás, não poderia deixar de ser.
NOTA: Uma vez mais, não tive tempo para corrigir o texto, escrito, como o anterior, de rajada. As minhas desculpas. Fica a intenção.
29 setembro 2010
Notícias dos construtores do Universo

Um perfeito inútil no seu melhor!

28 setembro 2010
Auxiliar de memória
Ontem à noite, estendi-me frente à televisão e por ali fiquei a ruminar o que ia ouvendo. A partir de certa altura, dada a habitual falta de interesse da programação dos diversos canais quanto a filmes e séries (estava a dar televisão em todos, como diria o Quino pela boca da Mafaldinha), lá fui parar, contrariado, aos habituais canais de informação e aos generalistas. E acabei por me fixar, primeiro na SICNotícias, depois, na RTP1. No Jornal das 9 e no Prós e Contras.
Pousei no Jornal das 9 na altura em que falava já Henrique Neto, velho e digno membro do Partido Socialista. Que não tem por hábito mandar recados por ninguém. E que referia o facto, impensável no Portugal de há duas décadas atrás, face ao nível político e intelectual dos dirigentes de então, de vermos um secretário-geral da OCDE em Lisboa a dizer-nos o que havemos de fazer. E que, prosseguindo, lembrava a intervenção que tivera no congresso do seu partido, ao tempo de Guterres, no qual, contrariando as sonoras proclamações triunfalistas de que a economia ia de vento em popa, afirmara, no meio das sorrisos depreciativos de quem o alcunhava de “derrotista” e de “velho do Restelo”, que, pelo contrário, ela se encontrava em declínio, pelos mesmos motivos que hoje servem para justificar a crise.
E que disse mais: que as suas intervenções estavam registadas para quem as quisesse ler, só que ninguém as lia nem estava interessado em lê-las. E que, quando isso acontecia, eram, em geral, convenientemente deturpadas. E que ao país não será nada fácil encontrar uma saída para o actual estado de coisas. Porquê? Porque a quem está no poder não interessa mudar seja o que for. E quem está no poder? Os boys do PS, para cujo perigo que constituíam Guterres alertava o próprio partido (ingenuidade ou puro desespero?, pergunto eu), dominando a máquina do Estado, emperrando-a, sempre que necessário, para manter o seu estatuto social e económico. Disse-o. Desassombrada e tristemente.
Uma hora e tal depois, eis que aterro no programa da Fátima Campos Ferreira. Desta vez, no momento em que ela punha uma questão ao Professor Jacinto Nunes, ex-ministro de um governo da iniciativa de Ramalho Eanes (em 1977 ou 78, nem eu nem ele nos lembrávamos já) e ex-governador do Banco de Portugal. Jacinto Nunes, que foi sempre um exemplo de competência, seriedade e isenção. E de dignidade. E que respondeu à pergunta da moderadora, sobre se a actual crise política poderia ser atenuada com um governo da iniciativa de Cavaco Silva da seguinte maneira: seria completamente desaconselhável um tal recurso, pois que nenhum partido apoiaria esse governo, já que todos eles se preocupam somente com o seu lugar, influência e poder na política portuguesa, a exemplo do que sucedera àquele de que fizera parte e aos restantes promovidos por Eanes.
E que disse, também ele, mais: disse que os diferentes grupos políticos de hoje se caracterizam pela grosseria, pela má-educação e pela falta de horizontes culturais e cívicos, pela estreiteza de vistas, pela agressividade mútua. Não o disse exactamente por estas palavras, mas aquelas com o que o exprimiu estavam carregadas deste mesmo sentido e nelas ressoavam a tristeza, a amargura e a indignação. Ressoavam discretamente, porque o Professor Jacinto Nunes só deixa transparecer a sua educação, mesmo quando a desilusão lhe amarfanha a alma.
E, finalmente, quando hoje se pôde ouvir, na comunicação social, a senhora ministra da Educação, dizer, com a mais completa impunidade, que considerava o caso do aluno que entrou com vinte valores no Ensino Superior, bem como outros casos semelhantes, “absolutamente normal”, fiquei a pensar que se abrira mais um alçapão, e que aquilo que se julgara ser o fundo, afinal ainda não o era. Para, logo de seguida, sentir que um segundo se abrira, ouvindo-a proclamar a maior fraude de que tenho conhecimento ao nível do ensino, um verdadeiro crime de lesa-pátria designado por Novas Oportunidades, como sendo um “ensino de qualidade”. E, aí, já não pensei em mais nada.
Escrevi isto. Só para eu próprio ter perante mim, sem dó nem piedade, o Portugal em que nos tornámos. Para que a minha memória não esqueça.
17 setembro 2010
08 julho 2010
Santana Castilho, no PÚBLICO

No livro que acaba de lançar, Maria de Lurdes Rodrigues cita Max Weber para justificar a sua acção política, movida, diz ela, pela "ética das convicções". Atentem, generosas leitoras e leitores, ao naco de prosa que a ex-ministra escolhe para caracterizar quem tem vocação para a política (no caso, ela própria):
"... Só quem está certo de não desanimar quando ... o mundo se mostra demasiado estúpido ou demasiado abjecto para o que ... tem a oferecer ... tem vocação para a política ..." (in A Escola Pública Pode Fazer A Diferença, p. 18)
Freud ensinou-nos que nenhuma palavra ou pensamento acontecem por acidente. Uma coisa são os erros comuns, outra, os actos falhados. É falhado o acto que leva Maria de Lurdes Rodrigues a citar, assim, Weber, para justificar a sua acção política. E fez tudo o que fez, confessou-nos no circo do lançamento, com grande alegria, qual pirómana que se baba de prazer ante as cinzas da escola pública que deixou.
Eis as entranhas de uma coisa que não é pessoa, que não tem alma, e que não aguenta mais que 18 páginas para dizer, de modo obsceno, o que pensa dos que esmagou com sofrimento.
O livro é híbrido e frio, como a autora. É um relatório factual e burocrático sobre as suas tenebrosas medidas de política educativa. A excepção a este registo está na introdução, um arremedo ensaísta de alguém que chegou a ministra sem nunca ter percebido o que é uma escola e para que serve um sistema de ensino. Permitam-me duas notas factuais a este propósito e a mero título ilustrativo:
1. A autora introduz, como grande tema de debate sobre políticas educativas, o nível de conhecimentos adquiridos na escola. Interroga-nos assim: "... Os adultos que fizeram a quarta classe da instrução primária no tempo dos nossos avós sabiam mais do que os jovens que hoje concluem o 9.º ano? ..." (obra citada, p. 11). A questão é intelectualmente pouco honesta. Porque compara quatro anos de escolaridade com nove. Porque é formulada por alguém que contribuiu definitivamente para que não se possam hoje comparar resultados escolares, coisa que, apesar das dificuldades, se podia fazer na época a que alude.
2. A ex-ministra diz que não fez uma reforma da educação, que tão-só concebeu e aplicou medidas. Se é surpreendente o conceito ("reforma" foi palavra-chave citada até à exaustão na vigência do Governo que integrou), entra em delírio surrealista quando escreve (p. 15): "... Não se pode considerar que o conjunto das medidas configurem uma reforma da educação, porque de facto não foi introduzida uma mudança nos princípios de funcionamento do sistema educativo, ou uma mudança na sua estrutura e organização ...". Não mudou princípios de funcionamento do sistema educativo, nem mudou a sua estrutura e organização? E os estúpidos somos nós? Enxergue-se e tenha decoro.
Segue-se o Diário da República narrado aos papalvos por 20 euros e 19 cêntimos. Registam-se apoios, listam-se colaboradoras e colaboradores e referem-se reuniões. Nenhuma dúvida, nenhum apreço pelo contraditório que lhe foi oposto, muito menos qualquer riqueza dialéctica. Um deserto, numa imensa auto-estrada de propaganda.
Ao longo dos últimos cinco anos, fundamentei nesta coluna de opinião a oposição a cada uma das 24 medidas que o livro distingue, pelo que tão-só recordo as mais emblemáticas das que a autora refere: a aberração pedagógica e social, que nacionalizou crianças e legitimou a escravização dos pais, baptizada como "escola a tempo inteiro"; o logro do ensino profissional (Maria de Lurdes fala de 28.000 alunos em 2005, para dizer que os quadruplicou em 2009. Mas conta mal.
No ano lectivo de 2004-05 tinha 92.102 alunos no conjunto dos cursos que ofereciam formação profissional); a demagogia de prolongar para 12 anos o ensino obrigatório (na Europa a 27 só cinco países foram por aí) sub-repticiamente sustentada pela grosseira manipulação estatística que lhe permite afirmar que no ensino secundário temos um professor para cada 8,4 alunos (p. 90), pasmem quantos conhecem a realidade; a insistência no criminoso abandono de milhares de crianças com necessidades educativas especiais, por via da decantada aplicação da Classificação Internacional de Funcionalidade; a engenharia financeira e administrativa (depois veremos aonde nos conduzirá), que está a transferir para a propriedade de uma empresa privada, por enquanto detida pelo Estado, todo o património edificado; e, "the last, but not the least", a fraude pedagógica imensa que dá pelo nome de Novas Oportunidades, forma de diplomar a ignorância na hora, gerando injustiça e semeando ilusões.
Na cerimónia do lançamento do livro que acabo, sumariamente, de analisar, Sobrinho Simões, um cientista de grande gabarito e um homem de muitos méritos, referiu-o como "o mais sólido" que leu até hoje. Quem dedicou a vida a combater o cancro com o rigor da ciência não podia, estou seguro, afirmar o que afirmou, se tivesse analisado a produção técnica e legislativa que sustenta a racionalidade do livro que elogiou. Mas a vida actual é assim. Muitos sucumbem, adaptando-se a esta sociedade doente. Continuo felizmente de saúde. Por isso choro quando vejo cair os melhores.
30 junho 2010
Do absurdo e do sinistro

26 junho 2010
04 junho 2010
De decreto em decreto

03 junho 2010
Uma aventura na escola

04 maio 2010
Intervalo forçado

Como já se deverá ter percebido, os impedimentos a que eu torne aqui com a regularidade que desejaria voltar a manter têm sido mais que muitos. Embora já não se devam (uff!) a problemas de saúde, não deixam de me retirar demasiado tempo para o fazer. Divulgo, entretanto, um e-mail que me foi enviado por um amigo, professor do Ensino Secundário, no qual se dá conta de uma participação feita por uma sua colega, de uma escola do Norte do país. Para que conste.
PARTICIPAÇÃO DISCIPLINAR MUITO GRAVE
Professora agredida: Leonídia Marinho
Grupo Disciplinar: 10º B - Filosofia
Agressor:
Contextualização:
Dia vinte e seis de Março de 2010. Último dia de aulas. Às 14 horas dirigi-me à sala 15 no Pavilhão A para dar a aula de Área de Integração à turma 10º DG do Curso Profissional de Design Gráfico. Propus aos alunos a ida à exposição no Polivalente e à Feira do Livro, actividades a decorrer no âmbito dos dias da ESE. A grande maioria dos elementos da turma concordou, com excepção de três ou quatro elementos que queriam permanecer dentro da sala de aula sozinhos. Deixar que os alunos fiquem sozinhos na sala de aula sem a presença do professor é algo que não está previsto no Regulamento Interno da Escola pelo que, perante a resistência dos alunos que não manifestavam qualquer interesse nas actividades supracitadas decidi que ficaríamos todos na sala com a seguinte tarefa: cada aluno deveria produzir um texto subordinado ao tema "A socialização" o qual me deveria ser entregue no final da aula. Será preciso dizer qual a reacção dos alunos? Apenas poderei afirmar que os alunos desta turma resistem sempre pela negativa a qualquer trabalho porque a escola é, na sua perspectiva, um espaço de divertimento mais do que um espaço de trabalho. Digamos que é uma Escola a fingir onde TUDO É PERMITIDO!
É muito fácil não ter problemas com os alunos. Basta concordar com eles e obedecer aos seus caprichos. Esta não é, para mim, uma solução apaziguadora do meu estado de espírito. Antes pelo contrário. A seriedade é uma bússola que sempre me orientou mas tenho que confessar, não raras vezes, sinto imensas dificuldades em estimular o apetite pelo saber a alunos que têm por este um desprezo absoluto. As generalizações são abusivas. Neste caso, não se trata de uma generalização abusiva mas de uma verdade inquestionável. Permitam-me um desabafo: os Cursos Profissionais são o maior embuste da actual Política Educativa. Acabar com estes cursos? Não me parece a solução. Alterem-se as regras.
Factos ocorridos na sala de aula:
Primeiro Facto: Dei início à aula não sem antes solicitar aos alunos que se acomodassem nos seus lugares. Todos o fizeram exceptuando o aluno ***********, que fez questão de se sentar em cima da mesa com a intenção manifesta de boicotar a aula e de desafiar a autoridade da professora.
Dei ordem ao aluno para que se sentasse devidamente e este fez questão de que eu o olhasse com atenção para verificar que ele, ***********, já estava efectivamente sentado e ainda que eu não concordasse com a sua forma peculiar de se sentar no contexto de sala de aula, seria assim que ele continuaria: sentado em cima da mesa. Por três vezes insisti para que o aluno se acomodasse correctamente e por três vezes o aluno resistiu a esta ordem.
Reacção da maioria dos elementos da turma: Risada geral.
Reacção do aluno *********: Olhar de agradecimento dirigido aos colegas porque afinal a sua "ousadia" foi reconhecida e aplaudida.
Reacção da professora: sensação de impotência e quebra súbita da auto-estima.
Senti este primeiro momento de desautorização como uma forma que o aluno, instalado na sua arrogância, encontrou de me tentar humilhar para não se sentir humilhado.
Como diria Gandhi, "O que mais me impressiona nos fracos, é que eles precisam de humilhar os outros, para se sentirem fortes..."
Saliento que neste primeiro momento da aula a humilhação não me atingiu a alma embora essa fosse manifestamente a intenção do aluno.
Segundo Facto: Dei ordem de expulsão da sala de aula ao aluno **********, com falta disciplinar. O aluno recusou sair da sala e manteve-se sentado em cima da mesa com uma postura de "herói" que nenhum professor tem o direito de derrubar sob pena de ter que assumir as consequências físicas que a imposição da sua autoridade poderá acarretar.
Nem sempre um professor age ou reage da forma mais correcta quando é confrontado com situações de indisciplina na sala de aula. Deveria eu saber fazê-lo? Talvez! Afinal, a normalização da indisciplina é um facto que ninguém poderá negar. Deveria ter chamado o Director da Escola para expulsar o aluno da sala de aula? Talvez...mas não o fiz. Tenho a certeza de que se tivesse sido essa a minha opção a minha fragilidade ficaria mais exposta e doravante a minha autoridade ficaria arruinada.
Dirigi-me ao aluno e conduzi-o eu própria, pelo braço, até à porta para que abandonasse a sala. O aluno afastou-me com violência e fez questão de se despedir de uma forma tremendamente singular: colocou os seus dedos na boca e em jeito de despedida absolutamente desprezível, atirou-me um beijo que fez questão de me acertar na face com a palma da mão. Dito de uma forma muito simples e SEM VERGONHA: Fui vítima de agressão. Pela primeira vez em aproximadamente vinte anos de serviço.
Intensidade Física da agressão: Média (sem marcas).
Intensidade Psicológica e Moral da agressão: Muito Forte.
Reacção dos alunos: Riso Nervoso.
Reacção do aluno **********: Ódio visível no olhar.
Reacção da professora: Humilhação.
Ainda que eu saiba que a humilhação é fruto da arrogância e que os arrogantes nada mais são do que pessoas com complexos de inferioridade que usam a humilhação para não serem humilhados, o que eu senti no momento da agressão foi uma espécie de visita tão incómoda quanto desesperante. Acreditem: a visita da humilhação não é nada agradável e só quem já a sentiu na alma pode compreender a minha linguagem.
Terceiro Facto: O aluno preparava-se para fugir da sala depois de me ter agredido e, conforme o Regulamento Interno determina, todos os alunos que são expulsos da sala de aula terão que ser conduzidos até ao GAAF, Gabinete de Apoio ao Aluno e à Família. Para o efeito, chamei, sem êxito, a funcionária do Pavilhão A, que não me conseguiu ouvir por se encontrar no rés-do-chão. Enquanto tal, não larguei o aluno para que ele não fugisse da escola (embora lhe fosse difícil fazê-lo porque os portões da escola estão fechados).
Mais uma vez, o aluno agrediu-me, desta vez, com maior violência, sacudindo-me os braços para se libertar e depois de conseguir o seu objectivo, começou a imitar os movimentos típicos de um pugilista para me intimidar. Esta situação ocorreu já fora da sala de aula, no corredor do último piso do Pavilhão A.
Reacção dos alunos (que entretanto saíram da sala para assistir à cena lamentável de humilhação de uma professora no exercício das suas funções): Risada geral.
Reacção do aluno ********: Entregou-se à funcionária que entretanto se apercebeu da ocorrência.
Reacção da Professora: Revolta e Dor contidas que só o olhar de um aluno mais atento ou mais sensível conseguiria descodificar. Porque, acreditem: dei a aula no tempo que me restou com uma máscara de coragem que só caiu quando a aula terminou e sem que nenhum aluno se apercebesse. Entretanto, a funcionária bateu à porta para me informar que o aluno queria entrar na aula para me pedir desculpa pelo seu comportamento "exemplar".
Diz-se que um pedido de desculpas engrandece as partes: quem o pede e quem o aceita. Não aceitei este pedido por considerar que, fazendo-o, estaria a pactuar com um sistema em que os professores são constantemente diabolizados, desprestigiados e ameaçados na sua integridade física e moral. Em última análise, a liberdade não se aliena. O aluno escolheu o seu comportamento. O aluno deverá assumir as consequências do comportamento que escolheu e deverá responder por ele. É preciso PUNIR quem deve ser punido. E punir em conformidade com a gravidade de cada situação. A situação relatada é muito grave e deverá ser punida severamente. Sou suspeita por estar a propor uma pena severa? Não! Estou simplesmente a pedir que se faça justiça.
Vamos ser sérios. Vamos ser solidários. Vamos lutar por uma Escola Decente.
Ps: Este caso já foi participado na Polícia e seguirá para Tribunal.
Ermesinde, 30 de Março de 2010
A Professora _________________________
16 março 2010
Os santos demagogos, perdão!, pedagogos

05 dezembro 2009
25 novembro 2009
Justiça azeda
O anjo da decadência 04 novembro 2009
Sem tirar nem pôr

"Isto não é matéria de opinião, são factos. O modelo de avaliação dos professores é medíocre e humanamente desprezível. É um instrumento que só pode ter uma solução: o caixote do lixo", defendeu Santana Castilho, que falava como orador convidado num debate sobre Educação organizado pelo PSD.
Para o docente universitário, o actual modelo de avaliação resulta de políticas elaboradas "por quem não sabe pensar a Educação" e por isso não é passível de ser melhorado.
02 novembro 2009
A Encarregada da Educação

03 outubro 2009
Afinal...
Fotografia de Willy Ronis02 outubro 2009
Já era tarde e, olha!...
... passei-me dos carretos, pronto!
