
15 abril 2011
Até à próxima sexta-feira...

14 abril 2011
Terror islâmico no Brasil

TERROR ISLÂMICO ATACA ESCOLA NO BRASIL
1.
A manchete acima foi até agora negada ao público brasileiro por uma mistura tóxica de ignorância, incompetência, provincianismo e “político-corretismo”, sem os quais ela seria evidente ou necessária. O que isso diz da sociedade e do jornalismo brasileiros deixo para o leitor. Vamos aos fatos.
Num subúrbio carioca, um homem de 23 anos volta à escola onde estudou muito bem armado, com dois revólveres, cinto de munição e recarregador rápido, além de um plano tático: aproveitar as comemorações dos quarenta anos da escola para, na condição de ex-aluno, entrar numa sala de aula para uma “palestra”. A partir daí, por dez minutos, ele dará 66 tiros, matará doze pré-adolescentes, sendo onze meninas, ferirá outra dezena e depois se matará.
As explicações subsequentes logo se cristalizam num quadro narrativo segundo o qual se trata de um esquizofrênico-paranoico, filho de uma esquizofrênica clínica, que além disso sofreu bullying na mesma escola.
Não há portanto responsáveis e, muito, menos culpados: de um lado, trata-se de inatismo e de doença, pois ele sofria de esquizofrenia. Porém não é correto acusar e/ou estigmatizar os doentes mentais. A doença mental, afinal, não é responsável: pois se ele não tivesse sofrido bullying, obviamente não faria o que fez.
Conclusão: deve-se combater o bullying com educação, e ao mesmo tempo dar mais atenção aos doentes mentais (se esta expressão não for “politicamente incorreta”). Trágico, mas compreensível. Além do mais, tudo isso possui certo fatalismo moderno, pois é algo que “acontece” em muitos países, principalmente nos mais desenvolvidos. Certo, há um problema de descontrole do acesso às armas de fogo no país, mas isso não é ou foi determinante. Ao menos, não como a esquizofrenia paranoica e o bullying. Por fim, como se trata de um evento raro, imprevisível e incontrolável, nada havia nem há a ser feito, como aumentar a segurança nas escolas, tornado-as assim “policialescas” quando devem, ao contrário, ser “abertas” e “integradas” às “comunidades” das quais são parte.
Essa pós-narrativa do massacre da escola de Realengo é, bem vistas coisas, ad hoc, ou seja, feita sob medida. E ver bem ou um pouco melhor os fatos é o que pretendo aqui.
2.
O medicalismo dos comportamentos quanto o modismo pedagógico do bullying, além do “politicamente-correto” do pobre homem nascido doente e “corrompido” pela sociedade agressiva, bem como a escola “comunitarista”, são devidamente contemplados. E o são não por tecerem a melhor explicação possível, porém a mais confortável, a mais simples, a mais indicada. A verdade, neste caso, é feita de outros ingredientes, deliberadamente ignorados ao se descrever a posteriori tal “receita”.
Em primeiro lugar, o pretenso diagnóstico de esquizofrenia paranoica, repetido por incontáveis psiquiatras, psicólogos e em seguida investigadores, não se sustenta. Sem entrar em detalhes diagnósticos (mas também sem deixar de registrar que estudei medicina, para que os profissionais de plantão não tentem desconsiderar estas observações pela saída fácil do desdém especialista), ela não se sustenta porque uma de características principais da esquizofrenia paranoica é o delírio ou a alucinação. Esta tem um componente sensitivo e cognitivo, ou sendo mais claro, implica em confundir imaginação com realidade, “vendo” e “ouvindo” o que não está no mundo, mas na mente. Em termos populares, trata-se de “ouvir vozes”. O assassino da escola do Realengo jamais demonstrou esta ou qualquer outra característica distintiva da esquizofrenia paranoica. Nenhum relato de parentes, colegas de trabalho ou vizinhos faz qualquer referência a isso, assim como não há quaisquer indícios nos documentos deixados pelo assassino: um vídeo e vários bilhetes de próprio punho.
Em compensação, ele demonstrou de vários modos e por muitos meios, incluindo o vídeo feito dois dias antes do massacre, que era um psicopata.
Há enormes e profundamente significativas diferenças. Em primeiro lugar, se um esquizofrênico não é responsável por seus atos, pois em função dos delírios não pode, por definição, distinguir o que é real do que não é, um psicopata não tem delírios, e além de distinguir perfeitamente o real do irreal, também distingue o certo e o errado, o legal e o ilegal, o moral e o imoral. Por isso os psicopatas, ao contrário dos esquizofrênicos, são legalmente imputáveis nos países sérios, como EUA, Canadá e membros da UE (nos não sérios, como o Brasil, a justiça é um teatro ruim, logo, o que faz ou deixa de fazer não segue regras compreensíveis).
Um psicopata não tem disfunções cognitivas, mas apenas emotivas. Em resumo, ele é incapaz de empatia.
Empatia (de pathos, sofrimento, acometimento, experiência) significa, na prática, sentir em si o que o outro sente: “processo de identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base em suas próprias suposições ou impressões, tenta compreender o comportamento do outro”. É a empatia que está na base da moralidade, cuja antiga “regra de ouro” diz: “Não faça aos outros o que você não quer que façam a você”. Ao serem incapazes de empatia, psicopatas são criminosos natos.
A ideia de um criminoso nato fere fundo a crença ideológica dos politicamente corretos segundo a qual só existe a possibilidade de seres humanos nascidos bons. O problema é que a existência de criminosos natos foi empiricamente demonstrada de maneira incontornável em diversos países, dos EUA à Rússia, onde pesquisadores há anos se dedicam a estudar os psicopatas em geral e os assassinos em série em particular.
A indiscutível natureza inata da radical falta da empatia que caracteriza os psicopatas (e que no Brasil sequer é verdadeiramente debatida, pois o país adotou uma interdição ideológica tácita a se discutir os criminosos inatos, ficando voluntária e burramente de fora de todo um moderno campo do conhecimento, e assim incapaz de identificar seu objeto, fechando o círculo de sua cegueira pragmático-conceitual), leva então alguns “liberais” ou “humanistas radicais”, na Europa e nos EUA, a reeditar o mito rousseauniano do “bom selvagem”. Pois se se trata de uma incapacidade inata, o indivíduo dela portadora não poderia ou não deveria ser responsabilizado criminalmente por suas consequências. Seria afinal semelhante ao esquizofrênico, que age movido por alucinações, e que não é imputado pelos crimes cometidos. O problema é que um sujeito submetido a alucinações, por definição, não sabe o que faz. E que um amoral o sabe. Na verdade, o psicopata é, neste sentido, mais semelhante ao pedófilo.
Ninguém determina sua própria orientação sexual ou suas preferências. Ter por objeto sexual crianças ou bebês é algo a que os pedófilos são submetidos pela própria natureza de seu desejo. Já a realização de tal desejo significa necessariamente um estupro, pois crianças e bebês não participam voluntária e conscientemente de um ato sexual. Pedófilos são condenáveis e condenados não por seu desejo sexual, mas por sua materialização no estupro de uma criança. Psicopatas não são condenáveis por sua amoralidade, mas pelos atos decorrentes, como assassinatos sem motivos (ou seja, para satisfazer qualquer desejo ou impulso pessoal). E têm de sê-lo, entre outras coisas porque ao contrário de esquizofrênicos em estado de alucinação (que aliás muitíssimo raramente cometem crimes), um psicopata sabe o que faz. Daí não haver psicopatas, apesar do inatismo de sua falta de empatia, cometendo crimes em praça pública e à luz do dia. Psicopatas têm falta de empatia, não de racionalidade. Eles se escondem porque sabem de seus crimes.
O vídeo gravado pelo assassino de Realengo dois dias antes do massacre demonstra três coisas:
1) Não há qualquer indício de delírio ou de alucinação;
2) há todos os indícios de falta absoluta de empatia, a começar da completa inexpressividade: o sujeito apenas mexe a boca enquanto fala, sem que nenhum dos músculos da face, fonte natural de manifestação de emoções em humanos, se mexa uma única vez;
3) ele prova o planejamento, a premeditação e o engodo, logo, a racionalidade, ao referir como, entre outras providências, visitou a escola dias antes para preparar o ataque, além de para isso ter raspado a barba, a fim de não chamar a atenção.
E aqui chegamos ao fator islâmico.
3.
A prova mais importante surgida até agora das motivações do assassino, o vídeo e algumas anotações de próprio punho achadas em sua casa, simplesmente não foram analisadas com a devida atenção, muito menos com a necessária conexão, no misto de ignorância, incompetência e provincianismo referido de início.
VÍDEO DE ATIRADOR NÃO INTEGRA INQUÉRITO, DIZ POLÍCIA (Agência Estado, http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia/2011/04/13/video-de-atirador-nao-integra-inquerito-diz-policia.jhtm).
Não bastasse a polícia, mais de um psiquiatra afirmou que as afirmações “desconexas” do vídeo, principalmente sobre o fato de o sujeito estar agora sem barba, “provam” o delírio – logo, a esquizofrenia paranoica. Na verdade, tais afirmações não são desconexas, apenas desconectadas, em uma investigação pulverizada e amadorística que, para começar, é incapaz de conectar os fatos e os dados.
O assassino, no vídeo, fala diretamente para um sujeito sobre a falta de sua barba. E esse sujeito é “irmãos”. Ele tem, portanto, também uma razão para explicar a falta da barba: a expectativa de certos “irmãos”. Ora, “irmãos” não significa “marcianos verdes”. Pois é perfeitamente compreensível:
1) a irmã do perpetrador declarou que ele ultimamente usava barba (habitual entre muçulmanos praticantes) e que fazia várias referências ao islã;
2) “irmãos” é o modo habitual dos ativistas islâmicos se referirem entre si (como “camaradas” era o modo dos comunistas, e “companheiros” é o dos petistas).
Conclusão: é perfeitamente possível que ele estivesse, não delirando, mas explicando aos seus “irmãos” muçulmanos porque aparecia no vídeo de despedida sem a barba.
O que era possível torna-se então factual quando se acrescenta à equação os bilhetes de próprio punho encontrados em sua casa. Pois ali se explicita o fato de que, até pouco tempo, ele fazia parte de um “grupo”, e que esse grupo era islâmico.
Meus pais por não seguirem a religião com devoção sempre desconfiam d mim [...]. Já errei com minha família mas aí mudei com o Alcorão. [...] Tive uma briga com o Abdul por causa do Phillip. [...] Resolvi falar sobre a menina q me convido a ir a igreja dela e antes d eu terminar ele já foi se exaltando dizendo que eu era para cortar ela logo no início ao invés de ouvi-la. Depois disso ele me ligou umas vezes e eu disse q estou saindo por respeito ao grupo. Eu também me considero errado por ouvi-la... [...] Essa minha saída do grupo me deu forças para reconhecer q agi errado em escuta aquela mulher. Eu não gostei d sair mas sei q é o certo. [...] Eu estou fora do grupo mas faço todos os dias minha oração do meio dia q é a d reconhecimento a Deus e as outras 5 q são d dedicação a Deus e umas 4 h do dia passo lendo o Alcorão. Não o livro pq ficou com o grupo mas partes que eu copiei para mim e o resto do tempo eu fico meditando no lido e algumas vezes medito no 11/09 (Daniel Milazzo “Veja trechos dos manuscritos do atirador de Realengo encontrados pela polícia do Rio”, UOL Notícias, http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/04/12/veja-trechos-dos-manuscritos-de-atirador-do-realengo-encontrados-pela-policia-do-rio.jhtm).
As inferências não são difíceis. Foi dito pelos parentes e confirmado por vizinhos que o assassino não fazia outra coisa além de usar a internet. Sabe-se que a internet é uma das ferramentas mais utilizadas pelos militantes islâmicos para fazer e manter contatos. Foi a internet, portanto, que permitiu a um Wellington do subúrbio carioca entrar em contato com indivíduos fora de seu meio social e cultural, os Abdul e Phillip de quem ganhou um exemplar do Corão depois devolvido. Mas não foi apenas um exemplar do Corão que ele recebeu. Ele também recebeu uma formação devidamente islâmica: apenas muçulmanos praticantes e estudiosos ou interessados sabem, por exemplo, que a prática do islã implica na prática de cinco rezas diárias, sendo a do meio-dia a mais importante, assim como na leitura e no estudo do Corão. O assassino de Realengo não tirou tudo isso de sua própria cabeça “delirante”, mesmo porque, tudo isso está islamicamente correto.
Além de se poder presumir que o suburbano carioca localizou algum grupo islâmico na internet (e não que o grupo o tenha localizado, pois se tratava de um anônimo), os bilhetes provam acima de qualquer dúvida razoável que o contato foi feito (ele portanto não aprendeu a ser muçulmano num “curso a distância” pela internet). Não é difícil inferir, então, que tal grupo tenha identificado no futuro assassino suas características psicopáticas mais do que evidentes, e partido para sua instrumentalização. Tais grupos, afinal, existem para isso. O vídeo, em todo caso, pela forma como aborda o ataque, demonstra que os “irmãos” esperavam pela ação, apesar do recente desligamento do grupo.
Os irmãos observaram que eu raspei a barba. Foi necessário, porque eu já estava planejando ir ao local para estudar, ver uma forma de infiltração. [...] Como eu precisava ir ao local e interagir com pessoas, para não chamar atenção, eu decidi raspar a barba (“Atirador justifica massacre em Realengo em vídeo”, UOL Notícias, http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/04/12/atirador-justifica-massacre-em-realengo-em-video-mostra-telejornal.jhtm).
A conclusão lógica, e inevitável, a partir dos dados disponíveis, ou seja, da incorporação necessária de todos os dados disponíveis, é que algum grupo de ativistas islâmicos, não importa quão pequeno ou importante, de alguma forma serviu de gatilho para que um psicopata pobre, isolado e desmotivado de um subúrbio brasileiro decidisse perpetrar um massacre.
Nesse contexto mais completo, tanto o bullying que, de fato, o assassino sofreu no passado (mas num passado já distante) quanto seus agora notórios problemas sexuais seriam ingredientes integrados à sua instrumentalização: foram elementos necessários mas não suficientes, como o prova a própria instrumentalização – cujo caráter afinal se revela terrorista pelo resultado da cadeia de eventos. Mesmo o fato de o alvo preferencial terem sido pré-adolescentes do sexo feminino permite a integração dessas variáveis, pois aos problemas sexuais do assassino se junta a brutal misoginia do islamismo radical.
10 abril 2011
05 abril 2011
"Mas por que não se pode queimar o Corão?"

Título deste novo e EXCELENTE texto que Luís Dolhnikoff acabou de me enviar "a quente":
No dia 11 de setembro de 2010, um pastor evangélico norte-americano anunciou que queimaria 200 exemplares do Corão, para lembrar a ligação do islã com a queima do World Trade Center em 2001, e a morte de 3000 inocentes. Houve reações planetárias. Da Casa Branca ao Vaticano, passando pela Interpol e o comandante norte-americano no Afeganistão, todos pediram ao pastor que recuasse, porque isso levaria a reações violentas de fanáticos muçulmanos e daria munição a terroristas islâmicos. De fato, houve inúmeras manifestações no mundo islâmico. Incomparavelmente maiores e mais contundentes, em sua quantidade e em sua indignação, do que aquelas registradas no próprio dia 11 de setembro de 2001. Para o mundo muçulmano, parece, queimar edifícios (ao menos edifícios ocidentais) é menos grave e ofensivo do que queimar livros, ou ao menos, exemplares do Corão.
Eis que agora o mesmo pastor volta à carga (ou às chamas) e, mais modesto, queima não 200, mas um exemplar do Corão. Em reação, fanáticos muçulmanos no Afeganistão invadem uma missão da ONU e matam por linchamento nove funcionários. Além dos assassinatos vis, há inúmeras manifestações de condenação violenta da queima do livro, tanto por autoridades políticas do mundo muçulmano quanto do Ocidente, além de autoridades religiosa islâmicas. As manifestações de repúdio à queima são maiores e mais frequentes, ou ao menos mais audíveis, do que a condenação aos assassinatos.
Qual o problema, porém, de se queimar o Corão?
Não se trata, em todo caso, de algo semelhante aos antecedentes mais célebres, os autos-de-fé medievais, em que a Igreja queimava livros proibidos, ou seus equivalentes nazistas: porque estes eram atos de exercício do poder político, no contexto da censura oficial a esses mesmos livros. Tampouco é semelhante a famosos e infames atos históricos de barbarismo, como o do
comandante árabe que no ano de 642, depois de ter entrado em Alexandria [até então uma cidade cristã], mandou que todos os livros da grande biblioteca fossem queimados. O que está nela e também no Corão, teria dito, não precisa ser conservado; o que está nela e não está no Corão, não serve para nada (D. J. Struik, “Por que estudar a história da matemática”, in Ruy Gama (org.), História da técnica e da tecnologia, São Paulo, Edusp, 1985, p. 191).
Qual é então, afinal, o problema de se queimar o Corão? Tenho um exemplar do Corão na minha biblioteca (Alcorão Sagrado, trad. Samir El Hayek, São Paulo, Marsam, 2001). Se um dia eu decidir me desfazer dele, não posso, portanto, jogá-lo no lixo? Principalmente se decidir queimar nesse dia o meu lixo? Ou seja, o que eu decidir fazer ou não com o exemplar do Corão de minha propriedade, que faz parte, com o resto dos meus livros, da minha biblioteca particular, diz respeito ao islã em geral e aos muçulmanos em particular?
Do ponto de vista islâmico, surpreendentemente, sim, porque o islã não conhece, ou não reconhece, a separação entre vida religiosa e vida civil, portanto, entre a esfera pública e a privada, marcas definidoras da modernidade ocidental. Por isso, preciso tomar cuidado com o que faço com meu próprio exemplar do Corão em minha casa, assim como uma mulher não pode fazer com o seu próprio corpo o que queira (inclusive escolher o modo de se vestir). Por isso, também, o islã se comporta, como regra, como um corpo estranho na sociedade aberta ao estilo ocidental: pois o fundamento dela é a lei civil, que além de laica, tem como objetivo primordial a defesa do indivíduo e de sua liberdade individual, inclusive contra ações do próprio Estado, que dirá das religiões.
Quando eu era mais jovem, vi muita gente enrolar cigarros de maconha em páginas da Bíblia. Porque o famoso papel-bíblia, por sua finura, servia como um substituto palatável ao papel de cigarro, quando este faltava. Mas além do aspecto pragmático, havia também no gesto uma clara dimensão cultural, ou melhor, contracultural: pois ao ato de se consumir uma substância ilícita que alterava a consciência se acrescentava a queima de páginas das Escrituras sagradas. A soma da cena era, em suma, a afirmação de que não há nada mais sagrado do que a própria liberdade individual.
A sacralidade da liberdade individual versus a sacralidade da religião: na história ocidental, a modernidade é, de certa forma, o resultado da vitória sócio-político-cultural da primeira sobre a segunda, a partir do fim da Idade Média, marcada pela predominância do poder da Igreja, limado e eliminado com a ascensão do laicismo republicano e da sociedade aberta. No mundo islâmico, a sacralidade da religião ainda não foi historicamente posta em xeque. Daí ela ser uma questão política e social, e não meramente da esfera privada. Daí a liberdade individual, como a de manifestação antirreligiosa, poder ser vista como afronta à religião, quando, na verdade, é a religião não-reformada, não-modernizada e não-privatizada que afronta a liberdade individual e a modernidade.
A destruição de um livro por um indivíduo (assim como de uma bandeira), como manifestação de opinião pessoal ou ato performático de qualquer tipo, é um direito individual inalienável, indiscutível. “Comprar” os argumentos religiosos, de que se trata de afronta à religião, e que por isso seria condenável, é questionar a liberdade de manifestação. Não por não se tratar de uma afronta à religião: mas porque se pode, sim, afrontar religiões, assim como se pode afrontar qualquer sistema de ideias, ou seja, questioná-las. Religiões não são indivíduos, são crenças, e crenças são objetos perfeitos de questionamento no embate das ideias. Daí decorre que o outro argumento, de que tais atos incitam o ódio religioso e mesmo racial, é falso. Em primeiro lugar, nada aí de “racial”. Muçulmanos não são uma “raça”. Em segundo lugar, o que na verdade incita o ódio religioso é a própria religião, não seus questionamentos. Ou seja, é a impermeabilidade das religiões e dos religiosos ao questionamento, manifestada por reações de ódio a esses mesmos questionamentos, o que alimenta e realimenta o ódio religioso, e esse ódio se volta afinal contra a liberdade expressão, que é a liberdade de questionamento.
O assassinato, por outro lado, principalmente o movido por ódio (no caso, o ódio religioso) é que se constituí aqui o único e verdadeiro crime – um crime vil, infame, indefensável, que deve ser condenado do modo mais claro e inquestionável possível.
04 abril 2011
O Brasil e o terrorismo islâmico

Exclusivo: documentos da CIA, FBI e PF mostram como age a rede do terror islâmico no Brasil
A POLÍCIA FEDERAL TEM PROVAS DE QUE A AL QAEDA E OUTRAS QUATRO ORGANIZAÇÕES EXTREMISTAS USAM O PAÍS PARA DIVULGAR PROPAGANDA, PLANEJAR ATENTADOS, FINANCIAR OPERAÇÕES E ALICIAR MILITANTES
Khaled Hussein Ali nasceu em 1970, no leste do Líbano. Seguidor da corrente sunita do islamismo, prestou serviço militar. Depois, sumiu. No início dos anos 90, reapareceu em São Paulo. Casou-se e teve uma filha. Graças a ela, obteve, em 1998, o direito de viver no Brasil. Mora em Itaquera, na Zona Leste paulistana, e sustenta sua família com os lucros de uma lan house. Ali leva uma vida dupla. É um dos chefes do braço propagandístico da Al Qaeda, a organização terrorista comandada pelo saudita Osama bin Laden. De São Paulo, o libanês coordena extremistas em dezessete países. Os textos ou vídeos dos discípulos de Bin Laden só são divulgados mediante sua aprovação. Mais: cabe ao libanês dar suporte logístico às operações da Al Qaeda. Ele faz parte de uma rede de terroristas que estende seus tentáculos no Brasil.
Tratado como “Príncipe” por seus comparsas, Ali foi seguido por quatro meses pela Polícia Federal, até ser preso, em março de 2009. Além das provas de terrorismo na internet, a Polícia Federal encontrou no computador de Ali spams enviados aos Estados Unidos para incitar o ódio a judeus e negros. Abordado por VEJA, Ali negou sua identidade. Esse material, no entanto, permitiu que a Polícia Federal o indiciasse por racismo, incitação ao crime e formação de quadrilha. Salvou-se da acusação de terrorismo porque o Código Penal Brasileiro não prevê esse delito. O libanês permaneceu 21 dias preso. Foi liberado porque o Ministério Público Federal não o denunciou à Justiça. Casos como o de Ali alimentam as divergências do governo americano com o Brasil.
30 março 2011
"O rastilho de pólvora árabe explodirá na Síria?"

É o título de um novo texto de Luís Dolhnikoff, cuja atenção e interesse agradeço uma vez mais.
1. O silêncio antes da explosão
Tunísia, Egito, Iêmen, Jordânia, Bahrein, Marrocos, Líbia... E em meio a todos eles, e através da fumaça radioativa encobrindo e espalhando as notícias sobre o Japão, esquecemos da Síria. Força do hábito: pois a Síria, antiga aliada da ex-URSS, após a queda do Muro, manteve sua própria “cortina de ferro”, mais isolada e aparentemente mais distante do resto do mundo do que pressupõe sua localização no âmago do Oriente Médio.
Tunísia, Egito, Iêmen, Jordânia, Bahrein, Marrocos, Líbia... E enquanto isso, longe dos olhos e ouvidos da mídia mundial, já há quase um mês um forte movimento popular vem desafiando o governo sírio, e sendo pelo governo sírio fortemente reprimido, com mortos e feridos a mancheias.
Tunísia, Egito, Iêmen, Jordânia, Bahrein, Marrocos, Líbia... E eis que de repente chega a notícia da queda do gabinete sírio – e da provável renúncia próxima do presidente Bashar al Assad. Mais do que nos demais países árabes, é o fim de uma era. Um fim muito abrupto de uma era tão duradoura quanto dura.
Bashar al Assad herdou o poder de seu pai, o “grande” Hafez al Assad. Hafez al Assad, por sua vez, era um dos principais herdeiros da principal corrente política árabe dos anos 1940-50, o nacionalismo pan-arabista. O nome de seu partido, que até hoje governa o país, é Baath. Onde já ouvimos isto antes? Na queda de Saddam Hussein. Pois o partido que até então governava o Iraque se chamava... Baath. Pois havia um Baath iraquiano e um Baath sírio – ou melhor, ainda há um Baath sírio. Considerados partidos irmãos, sua ideologia comum se baseava no conceito do pan-arabismo, segundo o qual todos os árabes constituem um só povo, divididos primeiro pelo Império Otomano e depois pelos impérios britânico e francês. Daí a aparente contradição de um nacionalismo pan-arabista, pois se é pan-arabista, não tem como objeto um só Estado-nação, mas vários. Ou não, se se considerar, justamente, que a nação (árabe) é na verdade uma só, e os Estados em que atualmente se divide são artificiais, pois de origem colonial (além de negadores da unidade árabe original dos tempos do Califado).
Tendo no “herói” do pan-arabismo, o egípcio Gamal Nasser, sua figura maior, essa outrora poderosa doutrina geopolítica tem como último representante importante o governo sírio. Uma das principais implicações de seu fim histórico, no bojo do fim desse governo, advém do fato de que o pan-arabismo era fortemente nacionalista e radicalmente laico. Eventualmente com algumas tinturas “socialistas”, em função do alinhamento à ex-URSS no contexto do confronto com Israel e da Guerra Fria, o pan-arabismo foi, ao longo da segunda metade do século 20, a grande força alternativa e antagônica ao islã político no mundo árabe. Seu último bastião cai agora.
A se confirmar sua renúncia, é evidente que Assad estará adotando a saída egípcia, de entregar os anéis para não perder os dedos. Neste caso, deixar o poder junto com toda a cúpula do partido Baath para entregá-lo ao exército, a fim de que este tente comandar e controlar a transição política. Os riscos são, literalmente, explosivos. Pois pode ser muito pouco e muito tarde.
O islã é uma força política relevante em todos os países muçulmanos. Há porém variações de intensidade, podendo-se pôr num extremo, por exemplo, Irã, Arábia Saudita e Paquistão, e no outro Tunísia, Marrocos e Jordânia. O caso sírio é hoje uma incógnita quanto a essa intensidade, em função do poder particular do aparato repressivo montado nas últimas décadas pelo Baath sírio. A repressão à oposição islâmica foi ali especialmente intensa, extensa e brutal, justamente pela força potencial dessa oposição. Essa situação se resume na famosa e infame “regra de Hama”.
2. A “regra” (e o fantasma) de Hama
Em fevereiro de 1982, o exército sírio cercou com tanques a pequena cidade de Hama, selando-a, enquanto a aviação síria pulverizava tudo e todos que ali se encontravam, de casas a cães e bebês, passando por homens, mulheres e crianças. Foi o (anti)clímax de uma revolta islâmica liderada pela Irmandade Muçulmana síria, iniciada em 1976. Hama era uma vila que se tornara o centro de ação da Irmandade Muçulama. Os números de mortos variam entre 10 mil e 30 mil, com algumas estimativas chegando a falar em 80 mil. O que não se discute é ter sido o evento de Hama o maior massacre pontual praticado por um governo árabe contra seu próprio povo na história recente.
Do massacre surgiu a infame “regra de Hama”, forma amargo-irônica de dizer que esse era o modo como os autocratas árabes costumavam lidar com o problema do islã político (ou segundo os mais cínicos, como deveriam lidar).
Tanto o caso de Hama quanto a particular rigidez do governo sírio, até aqui interpretada como força, levam a crer que o fim do status quo será ali explosivo. A população síria, ao identificar a brutal repressão das últimas décadas com o agressivo laicismo baatista, e instigada pelo ódio dos islamistas sírios remanescentes, tem tudo para querer se livrar de tudo de uma vez e de uma vez por todas, e agir então não de modo revoltoso ou reformista, como tunisianos e egípcios, mas francamente revolucionário, como os iranianos em 1979.
A isso se deve juntar o fato de a Síria ser um dos países árabes menos influenciados e influenciáveis pelo Ocidente, ou por qualquer outro país, em função de seu histórico isolamento. Seu único aliado importante é hoje o Irã.
Se essa análise estiver correta, o resultado final (ainda que não o inicial) da débâcle do establishment sírio seria uma revolução não-porosa a controles externos, e de provável caráter islâmico.
A Síria faz fronteira com o Líbano, sobre o qual tem enorme influência, e com Israel, com quem tem um contencioso geopolítico-militar nas colinas de Golã. Isolada do mundo árabe por sua política de antagonismo agressivo ante Israel (contra o qual já participou de três guerras) desde a assinatura do acordo de paz de Israel com o Egito em 1979, uma Síria teocrática contaria hoje com a aliança do Irã e com as armas do Hizbolá no Líbano e do Hamas em Gaza, seus aliados inevitáveis.
As variáveis e os perigos envolvidos na atual tempestade de areia que varre os governos árabes são inúmeros, e alguns potencialmente catastróficos. Uma Síria explodindo numa revolução popular contra as forças de segurança, deixadas para trás pelo grupo de Assad para tentar manter o que resta, será uma Síria cujo governo, cujo partido governante e cujo aparato de segurança terão sido sequencialmente destruídos, restando no lugar um enorme e enormemente perigoso vazio de poder, pronto para ser ocupado não necessariamente pelos mais populares, sequer pelos mais difusamente influentes, mas pelos mais assertivos e ousados. O modelo, mais uma vez, é o dos bolcheviques de Lênin a dar um golpe voluntarista dentro da revolução popular russa. Um dos principais candidatos potenciais, com o apoio reverso do Hizbolá líbio e do Irã, são os islâmicos sírios, há décadas aguardando para se vingar dos “infiéis” da família Assad em geral e do massacre de Hama em particular. Eles já têm seus mártires, seus heróis, seus inimigos, seus aliados e seu projeto político alternativo. Outros tomaram o poder com muito menos.
23 março 2011
A propósito do Bahrein

Luís Dolhnikoff teve a gentileza de me enviar um seu artigo, inédito, para eventual publicação neste blog. Transcrevo-o integralmente de seguida, fazendo-o acompanhar pelos meus agradecimentos e pela devida chamada de atenção para um tema de tanta importância como aquele de que o texto trata.
BAHREIN, O UMBIGO INFLAMADO DO MUNDO
1. O que está em jogo no Bahrein
Há algumas semanas, conversando com uma historiadora, previ a invasão saudita do Bahrein, recém-concretizada. Infelizmente, não documentei minha previsão, mas isso não é o mais importante. O importante é compreender como essa previsão foi possível: a invasão era inevitável. Além disso, esclarece algumas das principais questões em jogo no Oriente Médio em particular e no mundo árabe em geral.
O Bahrein é uma pequena ilha no golfo Pérsico. O golfo Pérsico, por sua vez, é um verdadeiro lago cujas margens pertencem, em sentido horário a partir do sudeste, a Omã, aos Emirados Árabes, à Arábia Saudita, ao Qatar, ao Bahrein, ao Kuwait, ao Iraque e, finalmente, já na margem oriental, ao Irã. A peculiaridade desse “lago” é que se abre, através do golfo de Omã, para o mar da Arábia e o oceano Índico, e daí para a Ásia, e contornando a “bota” da Península Árabe, a oeste, para o Mar Vermelho, e daí para o canal de Suez e o Mediterrâneo. Em suma, a maior parte do petróleo do mundo converge para o golfo Pérsico antes de se espalhar para o resto do planeta.
Outra peculiaridade do golfo Pérsico é possuir quatro “portas”. A primeira, entre o Bahrein e o literal iraniano. A segunda, entre o Qatar e o litoral iraniano. A terceira, entre os Emirados Árabes e o litoral iraniano. A quarta, entre Omã e o litoral iraniano.
As particularidades do Bahrein são, por sua vez, duas: localizar-se na primeira “porta” do golfo, ou seja, na primeira passagem a ser cruzada pelos petroleiros de saída. A segunda particularidade é ter uma maioria xiita – porém um governo sunita.
Quando previ, naquela conversa, que a Arábia Saudita invadiria o Bahrein, raciocinei por exclusão. No grande tsunami político que ora varre os governos autocráticos e/ou monárquicos árabes, o Bahrein é o único caso a também envolver, diretamente, a questão sectária. Pois como a maioria da população da ilha é xiita, e a minoria, que detém o poder, é sunita, contestar e afinal derrubar o governo implica em trocar um governo sunita por um xiita.
O resultado seria que a primeira “porta” de saída do golfo Pérsico, a passagem entre o Bahrein e o litoral do Irã, se tornaria uma “porta” xiita. Os xiitas, portanto, deteriam potencialmente as chaves do mercado mundial de petróleo.
Ocorre que uma das diferenças fundamentais entre o sunismo e o xiismo está no fato de o segundo defender doutrinariamente a ligação entre religião e política (enquanto no sunismo essa ligação é possível mas não necessária). Isso significa que um eventual governo xiita no Bahrein será provavelmente uma teocracia – muito mais provavelmente do que nos demais países árabes. O golfo Pérsico não apenas seria controlado por teocracias xiitas (a do Bahrein de um lado, a do Irã do outro), como seria controlado por Estados ideológicos.
2. O que não está mais em jogo no Bahrein
Estados são movidos, como regra, por interesses, não por valores (incluindo seus próprios valores ideológicos). Chamo a esses Estados “normais” de Estados políticos. Existem, porém, ainda que como exceções, Estados ideológicos. Os Estados ideológicos se distinguem dos Estados políticos por serem movidos por seus interesses tanto quanto por seus valores (que não são necessariamente, sequer como regra, positivos). Para efeito de comparação, a URSS era um estado ideológico, enquanto a Rússia é um estado político; o III Reich era um estado ideológico, enquanto a República Federal da Alemanha é um estado político; a China de Mao era um estado ideológico, enquanto a China atual é um estado político. A diferença prática é que os Estados ideológicos não seguem, ou seguem ainda menos, a racionalidade política. Hitler manteve parte importante do sistema ferroviário alemão operando para alimentar a máquina de morte dos campos de extermínio até os últimos dias da guerra, apesar do próprio esforço de guerra e da derrota iminente; Mao Tse Tung destruiu a economia chinesa (e matou milhões de chineses) duas vezes, primeiro com seu Grande Salto, depois com a Revolução Cultural. O mundo não pode, e não irá, conviver com um golfo Pérsico ideológico.
Isso vai muito além do que as pequenas mentes maniqueístas do economicismo vulgar afirmam, ou seja, que tudo se explica pelo petróleo, isto é, pelo alto consumo dos EUA. Um golfo Pérsico ideológico é um problema para os EUA, mas também para a Europa, a China, o Japão e, na verdade, para todo o mundo, pois implica tirar a geopolítica local do campo da racionalidade dos Estados políticos para mergulhá-la no pântano da irracionalidade dos Estados ideológicos. Isto é, em si, um fator de enorme desconfiança, logo, de aumento de preços. O que afeta o conjunto da economia mundial.
Mas para além da desconfiança, Estados ideológicos são problemáticos de fato (o que aliás está na origem da desconfiança), levando, constantemente, a situações de crise e/ou de conflito, o que só piora o mesmo quadro.
Mas se o Bahrein tem uma maioria xiita, e se essa maioria está nas ruas, reivindicando o fim do governo monárquico sunita, no contexto das atuais revoltas árabes, o que fazer?
Os EUA têm no Bahrein a sede de sua poderosa Quinta Frota. Seria porém inimaginável, hoje, que as forças norte-americanas deixassem suas bases ali para impedir a formação de um governo xiita. O mesmo não se aplica às forças armadas sauditas – que estão virtualmente tão próximas quanto as da Quinta Frota, pois o Bahrein é uma ilha ao largo da Arábia Saudita, à qual se liga por uma ponte. Se o exército saudita entra no Bahrein chamado pelo governo, é muito mais difícil questionar a intervenção. Trata-se de árabes e muçulmanos reprimindo muçulmanos e árabes, e não ocidentais, muito menos americanos. Além disso, como o governo saudita é monárquico e autocrático, não responde senão a si mesmo. Como o mundo não pode, e por isso não irá, conviver com um Bahrein xiita, mas como o governo local, minoritário, está ameaçado pela revolta popular, a última, única e melhor opção é uma intervenção saudita. Daí eu tê-la previsto naquela conversa.
Hillary Clinton condenou, em termos não particularmente veementes, a invasão saudita do Bahrein. É jogo de cena. Silenciar seria apoiar, e apoiar seria pôr-se contra as massas árabes. E não há como justificar politicamente a defesa das revoltas tunisiana, egípcia, líbia etc., mas defender a repressão, principalmente externa, da revolta bareiniana. Portanto, nem silêncio nem defesa, mas condenação. Porém uma condenação “para os árabes verem”. Os sauditas, com o aval do próprio governo do Bahrein e dos demais países do golfo, ficarão ali enquanto for necessário.
Mas, então, a revolta popular no Bahrein, ao contrário da tunisiana e da egípcia, e apesar delas, está fadada ao fracasso? Provavelmente sim. Apenas os simplistas imaginaram que as revoltas árabes envolvem simplesmente ditadura versus democracia, opressão versus liberdade, injustiça versus justiça e outras dicotomias ideais. No caso do Bahrein, envolve também uma disputa sectária entre sunitas e xiitas. Como, aliás, é o caso crônico do Líbano, que por isso mesmo não consegue sair de um perpétuo estado de pré-guerra civil.
O Bahrein é, ao mesmo tempo, um ponto central e um ponto de virada nas atuais revoltas árabes, ainda mais do que a Líbia. A questão líbia é evidentemente maior, nos dois sentidos, maior e mais evidente, mas não tão central. Se a Líbia é igualmente vital no mercado mundial de petróleo, não pela quantidade de sua produção, mas pela qualidade de seu petróleo, e se em termos geopolíticos é a chave para conter uma imigração em massa de africanos para a Europa, além de em termos políticos ser fundamental para conter a expansão da teocracia islâmica no norte da África, tem um impasse solucionável. O problema líbio, ao menos no quadro das revoltas árabes, resume-se à força militar de Muamar Kadafi. Uma vez que o Ocidente saia de sua indecisão e resolva apoiar os rebeldes, haverá a transição líbia como houve a tunisiana e a egípcia (o que em si não garante nada além do fim da atual autocracia). O caso do Bahrein é diferente: a transição da monarquia autocrática para qualquer outra forma de governo, inclusive uma monarquia constitucional, acaba de ser abortada. As mudanças dependerão, agora, da derrota da revolta. Ou seja, acontecerão quando e se os governos do Bahrein e da Arábia Saudita julgarem que podem controlá-las. Caso contrário, seriam afinal controladas pelo Irã.
O caso do Bahrein demonstra algumas coisas. Uma delas, que as ilusões de que os países árabes estão ou estarão em breve migrando para governos democráticos não passam disso, ilusões. Tanto quanto os desdobramentos finais do acidente nuclear de Fukushima, os desdobramentos finais do abalo sísmico político no mundo árabe são inteiramente imprevisíveis. E podem ir desde um alarme injustificado até a verdadeira tragédia. Ou não ir para lugar algum, como no Bahrein, o pequeno grande paradoxo geopolítico da enorme incógnita das revoltas árabes.
3. O que ainda está em jogo no Bahrein
O Irã, ecoando Hillary Clinton, também condenou, e com mais veemência, a invasão saudita do Bahrein. Não, imagino, porque esteja preocupado com a morte no nascedouro da democracia bareiniana, mas porque está preocupado com a morte no nascedouro da teocracia xiita bareiniana.
O Irã é o maior país xiita, a Arábia Saudita, o mais importante país sunita (ainda que não o maior; este é a Indonésia, enquanto o maior país árabe é o Egito). Ambos estão frente à frente no golfo Pérsico. A revolta popular no Bahrein, ao ser também uma revolta xiita, era do interesse do Irã, enquanto a derrota da revolta, que é uma vitória do governo sunita, é obviamente do interesse da Arábia Saudita.
Já a democracia árabe em geral e a bareiniana em particular provavelmente não perdem nada, pois uma revolta xiita apoiada pelo Irã, apesar de envolver a maioria oprimida, aponta para a substituição de uma ditadura por outra, como aliás aconteceu no próprio Irã, com a troca da ditadura do xá pela ditadura dos aiatolás.
Mas se a Arábia Saudita ganha e se a democracia árabe não perde, perde o Irã. Como, então, reagirá?
Apesar do irracionalismo característico dos Estados ideológicos, eles raramente chegam à irracionalidade completa do suicídio político. O governo iraniano pode desafiar o mundo com seu programa nuclear mais do que suspeito (apesar de toda inocência útil do governo Lula), seu presidente pode fazer discursos políticos irracionais e obscenos, negando o Holocausto e pedindo a destruição de Israel (logo, o genocídio de sua população), eles podem apoiar com palavras as revoltas populares árabes e reprimir pela força sua própria oposição popular (com o devido apoio do governo Lula), mas não irão invadir o Bahrein para se contrapor ao exército saudita.
O Irã se limitará, portanto, ao que é possível e pouco arriscado. Assim, usará seus instrumentos de sempre, o Hamas na Faixa de Gaza e o Hizbolá no Líbano, para dar mais uma volta momentânea no parafuso da instabilidade regional, o que não é do interesse do conservador, em todos os sentidos, governo saudita. Assim, deve-se assistir, proximamente, ou a declarações provocativas ou a atos de agressão vindos dos dois grupos terroristas, seja dentro do Líbano ou contra Israel. Ao mesmo tempo, tratará de tentar manter viva a resistência no Bahrein.
A Arábia Saudita é, de certa forma, um grande Bahrein às avessas. Uma vasta maioria sunita, representada pela casa real, governa sobre uma minoria xiita. O aumento da instabilidade regional, principalmente envolvendo diretamente questões sectárias, é na verdade um pesadelo particular para o governo saudita. O Irã fará tudo para alimentar esse pesadelo. Felizmente, para o governo saudita, esse tudo não é muito.
O que nos leva a outro paradoxo. Pois o governo saudita é um dos mais condenáveis do mundo. Na verdade, é no mínimo tão condenável quanto o do Irã, do qual é uma espécie de alma gêmea. Na prática, a Arábia Saudita é uma teocracia islâmica de tipo sunita, enquanto o Irã é, de fato, uma teocracia de tipo xiita. Se o clero não governa diretamente na Arábia Saudita, nem por isso as leis deixam de ser as da shariá, o código islâmico. Ali, como no Irã, mulheres são subcidadãos, gays são condenáveis à morte, não há liberdade de reunião, de expressão, de culto etc. A vitória sunita no Bahrein não é, afinal de contas, melhor do que uma vitória xiita. Enfim, se o Irã perde, o mundo nada ganha.
22 março 2011
19 março 2011
16 março 2011
05 março 2011
"A exceção tunisiana"

Este o título de um novo texto de Luís Dolhnikoff publicado na revista Sibila, que passo a transcrever integralmente:
«Por que na Tunísia? Esta é a segunda pergunta mais importante para compreender a atual revolta pan-árabe. A primeira é: por que agora? As duas perguntas fornecem as principais respostas e os melhores esclarecimentos para a ebulição do mundo árabe.
Começando, então, pelo final. Por que agora? A resposta esclarece o fato de que não se trata de revoltas por democracia, segundo afirma, espera e crê o filtro mental ocidental. Fosse isso, haveria antes disso os líderes, as personalidades, os ativistas, as vozes, os nomes. Mas não há nenhum Vaclav Havel tunisiano, nenhum Andrei Sakharov líbio, nenhum Lech Walesa egípcio. Não há líderes democráticos conhecidos porque não há lideres democráticos que mereçam o nome. E não líderes democráticos porque não há movimentos democráticos prévios às revoltas, dos quais elas sejam então a expressão final. O que há, enfim, não são movimentos políticos no sentido estrito, mas revoltas populares. Isto posto, revoltas contra o quê? E por que agora?
As massas árabes não acordaram certo dia sob o forte sol norte-africano com uma repentina vontade de democracia. Mas com certeza acordaram com fome. Mais exatamente, com desespero e desesperança por não poder garantir suas necessidades mais básicas, pois a crônica crise internacional das commodities (fruto em grande parte das crescentes demandas chinesas e indianas), somada à aguda crise financeira de 2008, torna impossível manter os níveis de subsídios governamentais para produtos como o trigo. Sem trabalho, porque o alto desemprego é endêmico nas anêmicas economias árabes, sem perspectivas de melhoras futuras, porque não havia nada sendo construído neste sentido, e agora sem pão. A vida torna-se insuportável, e o status quo, insustentável. A resposta, então, é: agora, porque o status quo acabou de (e terminou por) fracassar profunda e irremediavelmente – portanto, contra ele, não necessariamente a favor da democracia. A democracia emerge, então, não como um fim em si ou necessário, mas como uma entre outras possibilidades. Porque ela não foi o objeto primeiro ou central das revoltas. Onde estão mesmo os Vaclav Havel tunisianos, os Andrei Sakharov egípcios, os Lech Walesa líbios?
Pode-se afinal responder: por que a Tunísia, ou seja, por que a Tunísia primeiro? Porque entre todos os Estados árabes, era a única que apresentava as condições mínimas para a implantação da democracia.
O paradoxo se explica. Entre essas condições, está a estrutura econômica, mas também as circunstâncias sociais e culturais.
Não é coincidência a revolução ter começado na Tunísia, onde temos um nível elevado de educação, uma classe média considerável e um maior grau de igualdade de gênero. Nós tínhamos todos os ingredientes da democracia, menos a democracia em si. Isso não poderia durar (Khadija Cherif, ex-presidente da Associação Tunisiana de Mulheres Democráticas, in Katrin Bennhold, “Um ponto forte a favor da Tunísia: suas mulheres”, Herald Tribune,http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/herald/2011/02/23/um-ponto-forte-a-favor-da-tunisia-suas mulheres.jhtm).
A revolta começou na Tunísia porque ali havia as forças mais organizadas do mundo árabe para demandar por reformas democráticas, que por isso o fizeram. Sem essas forças organizadas da sociedade civil, vale dizer, sem essa sociedade civil, nem haveria os elementos políticos para agir nem os objetivos democráticos a buscar. Por isso aconteceu ali.
Mas não aconteceu só ali. Porém, se o que aconteceu na Tunísia serviu de inspiração para o que aconteceria em seguida no Egito, não pode lhe servir de modelo, pois no Egito nem um nível elevado de educação, nem uma classe média considerável, nem um maior grau de igualdade de gênero são verdadeiros. Portanto, não se tinha no Egito “os ingredientes da democracia menos a democracia em si”. Tem-se, na verdade, a falta de democracia junto com a falta de elementos sociais, políticos e afinal ideológicos que demandam e sustentam a democracia. Eis o grande paradoxo das atuais revoltas árabes: o exemplo inicial não é, na verdade, exemplar, mas sim uma exceção.
Daí a revolução egípcia ter sido menos marcadamente política do que a tunisiana, e mais marcadamente econômica: “Fora Mubarak”, pois queremos melhores condições de vida. Mas se os egípcios estão certos em identificar no velho líder e seu sistema a causa imediata de seu fracasso, estão muito menos certos em saber qual o melhor caminho alternativo. Os tunisianos parecem ter atingido a expectativa de que, havendo já alcançado o que alcançaram durante a ditadura, o governo representativo, no qual de certa forma a própria sociedade civil se autogoverna, era sua melhor alternativa futura. Mas com uma sociedade civil muito menos desenvolvida e organizada, o Egito não tem e não pode ter tal certeza. A democracia é a expressão política institucional de uma sociedade civil organizada. A democracia, portanto, vem depois da sociedade civil, e não contrário. Foi assim na Tunísia e foi assim nos países da Europa Oriental em 1989. Foi também assim na Revolução Francesa, a prototípica. As comparações com a Europa de 1989 devem, então, ser repensadas. O mundo árabe de 2011 não é a Europa Oriental de 1989. Se nesta a democracia era quase uma fatalidade, naquele é quase uma impossibilidade.
O Egito, maior país árabe, enfrenta o enorme desafio de construir uma cultura civil. Como dizia uma opositora de Mubarak: “Uma cultura não militar, não religiosa, mas civil”. [Mas] como construir um Estado laico moderno para pessoas religiosas? (Francisco G. Basterra, “Enquanto a Europa cochila”, El País,http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2011/02/19/enquanto-a-europa-cochila.jhtm).
O caso líbio é ainda pior.
A Líbia não tem nem sequer uma frente oposicionista significativa e organizada. O único partido político autorizado no país é o Congresso Geral do Povo, comandado pelo governo e onipresente nas administrações locais e regionais. A Irmandade Muçulmana, grupo fundado no vizinho Egito, tem uma filial na Líbia, mas suas ações políticas e sociais foram severamente reprimidas pelo regime. Grupos religiosos líbios se uniram ontem para divulgar comunicado dizendo que é obrigação de todos os muçulmanos se rebelarem contra Gaddafi [...]. Mas as lideranças islâmicas líbias estão divididas e não têm grande representatividade nem notoriedade. O mesmo ocorre com grupos políticos dissidentes radicados no exterior. Entre eles estão o Movimento Líbio por Reforma, com sede em Londres, a Aliança Nacional Líbia, no Cairo, e a Frente Nacional pela Salvação da Líbia, em Cartum. “Qualquer período pós-Gaddafi estará repleto de incertezas”, afirmou à agência de notícias Reuters Philip McCrum, analista e consultor britânico especializado em Oriente Médio.
“A oposição no exílio é pequena e descoordenada. Portanto, será preciso um longo período para que uma nova ordem política se estabeleça, e enquanto isso as tensões políticas serão fortes entre os diversos grupos rivais, entre os quais tribos, o Exército, os movimentos islâmicos e os liberais, todos disputando o poder” (“Oposição à ditadura líbia é incipiente e fragmentada”,http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2202201103.htm).
O mesmo vale para o Iêmen, e em grau apenas um pouco menor, para a Argélia, para o Bahrein, para... É fácil esquecer que, na Europa dos ventos democráticos de 1989, houve a tempestade do fim da ditadura iugoslava, que levou ao fim da própria Iugoslávia e às guerras civis da Bósnia e de Kosovo. Na Europa Oriental, a Iugoslávia foi a exceção catastrófica em meio a uma mar de sucessos relativos. No mundo árabe, infelizmente, o mais provável é se dar o inverso: uma exceção de relativo sucesso, a Tunísia, em meio a um mar – ou um vasto deserto – de catástrofes políticas e humanitárias. Muamar Kadafi (esse ex-herói da esquerda internacional) que o diga.»
04 março 2011
02 março 2011
Sem quaisquer considerações

O assassinato deveu-se a uma polémica no país de maioria muçulmana provocada pela tentativa de reformar a lei que prevê pena de morte em casos de blasfémia.
No início de Janeiro, um polícia da tropa de elite matou, em plena rua, um governador que defendia publicamente uma cristã condenada à pena capital por ter insultado o profeta Maomé.
Nesta quarta-feira, homens armados abriram fogo contra o veículo do ministro num bairro de classe média alta da capital paquistanesa, informou à AFP o polícia Abdul Majid.
"Ele chegou morto ao hospital", declarou o médico Azmatullah Qureshi, porta-voz de um dos principais hospitais de Islamabad.







