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07 novembro 2010

Saudades de Mário Cesariny


Homenagem a Cesário Verde

Aos pés do burro que olhava o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!

in Pena Capital

Até quarta-feira, continuarei a postar mais irregularmente. Espero que, a partir daí, possa voltar ao ritmo anterior.

06 novembro 2010

Para que o hoje tenha sido da poesia...

... ainda dois poemas de Mário Quintana:


PROJETO DE PREFÁCIO

Sábias agudezas... refinamentos...
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.


O AUTO-RETRATO

No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!

Sebastião da Gama


Há poetas que, pela brevidade da sua vida ou por alterações mais ou menos súbitas e radicais das sociedades em que viveram e se construíram ou ainda pelas modas que se vão sucedendo nos meios ditos intelectuais e artísticos, são esquecidos durante demasiados anos. Os exemplos são demasiados para se dar conta de todos eles num só blog e de uma só vez. Decidimos, assim, Nicolau Saião e eu, de comum acordo relembrar, hoje, um desses casos: o de Sebastião da Gama, falecido aos 27 anos, em 1952, cujos poemas, não se enquadrando em nenhum dos movimentos de maior influência do século XX, mais rapidamente ainda desapareceram dos projectos editoriais, das referências de críticos literários e das preferências dos pedagogos oficiais.
Cada um de nós deixa, pois, aqui um poema de diferente natureza, pretendendo, deste modo, abrir caminho ao interesse de quem não conhece a sua obra e à sua revisitação, por quem já desfrutou dela. O primeiro, aquele que seleccionei; o segundo, aquele que o inimitável Dr. Jagodes enviou ao indomável monfortino, conforme missiva em anexo.

***

Do nosso colaborador Doutor José Jagodes recebemos o seguinte "poema" que passamos a reproduzir.

De acordo com o Dr. Jagodes, que obteve a revelação do mestre universitário Prof.Doutor Pamplinas Miragaia, o nome do signatário é um evidente pseudónimo. Conforme investigações de ponta do ilustre Mestre alfacinha-coimbrão, a versalhada, claramente subversiva da Situação, teria sido produzida por um opositor descarado do governo em exercício, visando quiçá ajudar a "derrubar a gestão do senhor primeiro-ministro", conforme declarou ontem aos jornais, referindo-se ao ambiente geral de euforia, o festejado ministro Vieira da Silva, famoso não só pelas suas semi-barbas de alferes dos tempos de D'Artagnan mas também pela célebre tirada sobre a "espionagem política" a que alegadamente o nosso Alberto João se entregaria em conjunto com cerca de duzentos membros dos serviços secretos nacionais (aliás já reconhecidos no Diário do Governo, de acordo com a SIP e TVY).

Em vista do prestígio do Prof. Pamplinas, fica portanto liminarmente afastada a hipótese de a peça lírica ser dum aliás referenciado revolucionário satânico, já falecido, residente à época no Largo da Esperança nº 2 da conceituada e graciosa cidade de Estremoz, que usava para se disfarçar o nome suposto de Sebastião da Gama. E o panfleto subversivo (poesia, isto? Nááááh...) é assim:

Poesia depois da chuva

Depois da chuva o Sol - a raça.
Oh! a terra molhada iluminada!
E os regos de água atravessando a praça
- luz a fluir, num fluir imperceptível quase.

Canta, contente, um pássaro qualquer.
Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça.
O fundo é branco - cai fresquinha no casario da praça.
Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar.

Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado
antes do Sol, não duvidava agora.)
Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual
às manhãs do princípio!

E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro.
Grácil, tão grácil!... Pura imagem da tarde...
Flor levada nas águas, mansamente...

(Fluida a luz, num fluir imperceptível quase...
)



Meu país desgraçado!...

E no entanto há sol a cada canto

e não há Mar tão lindo noutro lado.

Nem há Céu mais alegre do que o nosso,

nem pássaros, nem águas...

Meu país desgraçado!..

Por que fatal engano?

Que malévolos crimes

teus direitos de berço violaram?

Meu Povo

de cabeça pendida, mãos caídas,

de olhos sem fé

- busca, dentro de ti, fora de ti, aonde

a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos

que te deram a terra, o Sol, o Mar,

fere-a sem dó

com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!

Ah! visses tu, nos olhos das mulheres,

a calada censura

que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,

meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!

- olha a censura muda das mulheres!

Vai-te de novo ao Mar!

Reganha tuas barcas, tuas forças

e o direito de amar e fecundar

as que só por Amor te não desprezam!

in Cabo da Boa Esperança

18 outubro 2010

Ficam para amanhã...


... as respostas prometidas para hoje a alguns comentários. Recordo, em contrapartida, este poema de António Gedeão. Para que ninguém esqueça.

Homem

Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.

Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.

14 outubro 2010

Pessoa em linha recta

Almada Negreiros, Fernando Pessoa

Poema em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Que me confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que me contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

10 agosto 2010

Conhecem?



António Simões na Bienal de Poesia de Silves 2008.

27 junho 2010

Só mais um dia...


Volto amanhã. Deixo aqui entretanto, um poema de Armindo Rodrigues, hoje tão esquecido, mesmo pelos seus camaradas de partido, apostados em Saramago. O poeta que, como dizia David Mourão-Ferreira era "um carro de combate carregado de flores".
LIBERDADE
Ser livre é querer ir e ter um rumo
e ir sem medo,
mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
transformar o fumo
do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,
só ver portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar teimosamente do caminho
sonhos de sol
com fúrias de raiz.
É estar atado, amordaçado, em sangue, exausto
e, mesmo assim,
só de pensar gritar
gritar
e só de pensar ir
ir e chegar ao fim.
Nota
Não sei porquê, mas a grafia do poema não sai correcta no post. O poema tem duas estrofes, a segunda das quais começa em "É estar atado, ....).
As minhas desculpas.

28 março 2010

Pois...


Este meu período de assoberbamento das possíveis combinações entre problemas de saúde com uma multiplicidade de pequenos problemas que, a não serem resolvidos, poderão alcançar dimensões indesejáveis tem vindo a prolongar-se desde há um ano. Daí que, por hoje, acabe por publicar apenas um poema de Nicolau Saião e que só lá para 4ª feira possa voltar aqui.
Até lá.

U L I S S E S

I

A minha saudade, disse o velho, é como um sonho
e o meu sonho, por seu turno, faz aparecer o vento.
Nos meus antigos rastos há um vestígio que não reconheço
de coisas que toquei ao acaso e que eram simples como uma planta
ressequida e posta junto ao meu leito
(Leito onde não repousei
onde eram exíguas as presenças da morte
onde havia pássaros como em gaiolas familiares
com estranhos roteiros e silhuetas
tal qual os passos que alguém deixa
inscritos na terra húmida
ou nos ladrilhos do chão duma casa devastada).
No primeiro andar daquele prédio além
sente-se tenuemente um vago odor de corpos
de gente vestida como para uma festa
que não chegará nunca (bonecos de porcelana quebrados
e cobertos de pó, ao lado
de um copo sujo de café) - assim o velho, agora definitivamente desperto
continuou, como se as palavras existissem -
O fogo e o suor geram nas suas entranhas o momento
de andar por estas ruas como por país conquistado.

O orvalho é como uma gota de vinho sobre o tampo da mesa
e não há por detrás nem espírito nem melancolia. Era já noite quando alguém
andrajoso foi pé ante pé junto da porta
a segunda porta, onde os retratos reluzem
entre os breves fulgores da aurora.

II

Abre-te ao meu desgosto, acolhe
em tuas mãos sarcasmo e incerteza. É necessário
saber que o horizonte nestas montras
é o mesmo que paira sobre esqueletos e corpos vivos
- o horizonte impreciso aonde o sol
traça como que a linha já desfeita
dum rosto, frutos, mistérios. Que esta manhã, ao menos
oferte a quem a busca
outras recordações.

O vento está em ti como um soluço
As ramadas das árvores, no parque
são como a geometria que esquecêmos
de diferentes lugares, de quartos que habitámos
e que vivem em nós como sementes
crescendo no negrume. Ficaremos aqui
nas veredas percorridas em silêncio

olhando ao longe pinhais e nuvens errantes
retocadas a lápis, vagamente
como laranjais ao crepúsculo
E mil bocas serão a nossa boca
além do muro de pedra onde a nossa mão repousou
ou apenas ficou por um minuto
como dedos dobrados
sobre amarfanhados tecidos. Como a escrita
de alguém já morto já transformado em nome. Ninguém

semeou o trigo que comeste
o pão já ressequido, já esquecido
em momentos de febre ou de amargura
em horas abandonadas, sobrepostas
e em repouso e de novo abandonadas
- imagem que incansavelmente se procura
em pessoas e coisas, em instantes
perdidos para sempre. Refaz de novo o tempo
que humildemente foi

raiz, montanha o vácuo.

III

Convosco se divide não apenas a alegria
mas também o que perdura em quanto se acha
e é pequeno ou talvez iluminado -
a fruta devorada em tempo vário
ou apenas tabaco, fina ardósia
da memória deposta em estranhos dias
alheias algibeiras. Chorando
ora na manhã, ora na noite
(a noite e a manhã palavras
que nada dizem, nada significam
entre ilha e ilha
onde as flores de acanto equivalem perfumes mais terrenos
Maderas del Oriente brise de soie palmolive)
gemendo
se não vinha a frase mais certeira
- um tanto ao norte um tanto ao sul -
do teu para o meu rosto. Mansamente
ali rejuvenesce a nossa voz
Sob os ramos da casa, junto à triste
lembrança olhada a medo, mal rompera
a luz cruzada na colina.

Mãe
ou pai -
em todo o caso pessoas que não esquecem
agora que sussurra contra o leme
este vago Oceano -

iria ser, de brancos cabelos tecendo
ora a ternura ora um fino tédio. Garatujas
numa pedra ou numa parede suja
Momentos que gravaram dentro em nós
se este afinal dizer não é algo excessivo
na saleta em penumbra ante as imagens que dançam

pranto, riso, ciúme ou fria chuva.

IV

Esta foi a casa que sempre procurei
Nela coloquei minha memória, os livros, duas camisas
velhas Nela irei aguardar os símbolos zodiacais
visitas de família, um gato. Sem veredas em torno
- sem vento, inda p’ra mais, que a vela enfune -
acharei no Inverno seu perfil
de manhã solitária, enevoada
pela figura cujos passos soam
como que pressentidos. Aqui e ali porei
resíduos de conversas, a sombra da mão
dum cadáver que vi na infância - primeiro cadáver
como uma ferida fumegante, corpo morto farol
de incontáveis navegações -
tronco ou cabeça, sovaco, perna, pé
que nunca pude esquecer
E luzes, luzes como reflexos numa janela fechada
(No páteo, entre os cavalos de Heliodoro
Manuel da Silva Pericão os lençóis ondulavam
porque era sua Mãe estalajadeira
também servia refeições para fora)
solene, tumultuosa, às vezes aberta
para as meninas verem a procissão
dos que a Creta voltavam os que aprendiam a morrer
quem sabe por vezes numa auto-estrada
E será como um grande mundo atravessando os minutos
de par a par, perenemente reconhecível.

Aqui e ali um bicho um coelho, um retrato
de um primo montado num burro, um banco de madeira
perdido há muitos anos e de repente o som dum objecto partindo-se
sozinho, e em meu redor nem sonhos nem temor.

No quarto mais sombrio, ou seja
mais tranquilo
entre a espada que protegeu as minhas treze viagens
e um boneco de pano oferta da TWA
um odor bem diferente: as velhas flores do quintal abandonado
e uma cadeira com cadernos em cima, um som de água repentino.
Vale dizer: aqueles que à beira do Outono morrem
têm, presume-se, a tarefa facilitada -


quietude, doce lembrança para anos de fome
mágoa, página tão profunda, tão maneirinha
silêncio, bússola para todos os instantes
Serenas companhias envolvendo a nossa fadiga
presenças que o nosso amor forçou a adormecer.
O pasmo há-de envolver as ramagens em torno das paredes
há-de, no tecto, brilhar qualquer coisa fugidia.
Há-de haver, ao largo de Corinto, um som de sino rachado.

A noite, a noite que é fria, que fende com seu lume profundo
há-de encontrar-me algures, com velhas palavras caindo

como flocos de neve ora azuis, ora vermelhos.

21 março 2010

No Dia Mundial da Poesia

Quadro de Paul Delvaux
Recebi mesmo agora a notícia de que a minha amiga de juventude Raquel Seabra Pinto, a quem ouvi alguns dos poemas mais autênticos de que me lembro, mas que desde muito cedo se remeteu ao silêncio, faleceu hoje, no IPO, devido a um linfoma. Aqui deixo um desses seus poemas, sem mais quaisquer outras palavras.

Sobre a planura as suas asas espraiando
o anjo vigia e guarda.
À noite as águas silenciosas da laguna
reflectem-lhe o dorso, curvado sobre as
árvores frias.
Mãos invisíveis tecem-lhe nos cabelos
segredos antigos
que os homens esqueceram há muito
ou nunca sequer souberam
E parte, por sobre as nuvens
recortadas a luz ardente.
Irremediavelmente, parte.

Da poesia

António Aleixo

Nicolau Saião, de quem tenho recebido uns quantos belos (alguns, belíssimos!) textos, cujo conjunto publicarei num único post durante esta semana (estejam, portanto, atentos), enviou-me há bocadinho um excerto de uma entrevista dada pelo professor e ensaísta brasileiro Luís Costa Lima à revista Sibila, publicada no Brasil e EUA, na qual afirma isto, que eu subscrevo inteiramente (quanto à fotografia do Aleixo, bem... não será difícil perceber, pois não?):

"Estou plenamente de acordo em que o melhor incremento à mediocridade invasora está no que chamo de “doença senil do ‘espírito 68’”. Por preguiça, comodismo, covardia, se não mesmo por ignorância, aceitamos como poesia o que não passa de uma balbúrdia de associações livres ou lembranças eróticas ou sentimentais passíveis de ser reconhecidas por qualquer um. Se o autor de tais banalidades encontrar um canal que o difunda e um marqueteiro de prestígio, poderá estar seguro de ser reconhecido como poeta. Duas coisas ademais o ajudarão a se manter neste infame panteão: por um lado, desde que os critérios oficiais foram desmoralizados pelo êxito das vanguardas do começo do século XX, os que se dedicam à apreciação da poesia e da pintura passaram a temer ser reconhecidos como caretas, conservadores e quadrados; por outro, há muito pouco espaço para que discussões de nível se estabeleçam. Por isso, repito, mais importante que a conversa que aqui estabelecemos é a sua própria iniciativa".

13 fevereiro 2010

Em falta


Deixo-vos hoje este belo poema de Nicolau Saião (entretanto já publicado no Fundação Velocipédica e que ele mesmo, à data, me enviou também), embora sem a ilustração de Pedro Sevylla de Juana que o acompanha originalmente, a qual, com pena minha, não consigo transpor para o post. Em sua substituição, deixo esta fotografia, recolhida aqui.

AS COISAS

As coisas multiplicam-se
muito mais que as pessoas. Só elas
possuem o segredo de tranquilamente jazer
entre as ervas, as águas, as ruínas
ausentes e presentes. A sua pele
é mais fina que a casca dos minutos
e contudo, sob o lume e o vento
sob a terra em que os passos já não soam
ou no deserto violento das palavras
as coisas repousam
ou, subitamente iluminadas
gritam e falam-nos com movimentos graves
adejando como estranhos pássaros nocturnos
ou como trémulos animais interditos.

As coisas
sofrem
elas sofrem como se existissem noutra esfera
próxima de nós
como uma Lua oculta, como um peixe fantasma
como uma flor solitária numa casa abandonada
como um gato que no sono se agita pleno de medo
As coisas
minúsculas, gigantescas, iguaizinhas a nós
ensanguentadas pelo nosso terror e a nossa cólera
sob as nossas mãos
entre os nossos cabelos
repousando junto a nós quando dormimos
calmas como o ruído dum comboio numa cidade matutina
As coisas
respirando devagarinho nas nossas memórias
andando junto às nossas recordações como se fossem
um elefante, um rato, um cão fiel
feitas de barro, as coisas
de madeira ou de cera, de vidro ou de cimento
feitas de cristal e de platina, de celulóide
do fresco celofane, de aço e de papel
pobres coisas num rés-do-cão amontoadas
esquecidas como um trapo manchado
livres e belas
nosso testamento, papiro para milénios a vir
As coisas
sempre atentas, sempre dormindo esperando o despertar
o silencio luminoso
As coisas

nossas irmãs de mundo, nossas filhas, nosso sinal perfeito
neste universo que é o nosso resumido encontro
com a sua

eternidade acontecida.
in Os Objectos Inquietantes

03 janeiro 2010

Do tempo


«O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei. No entanto, digo com segurança que sei que, se nada passasse, não existiria o tempo passado, e, se nada adviesse, não existiria o tempo futuro, e, se nada existisse, não existiria o tempo presente. De que modo existem, pois, esses dois tempos, o passado e o futuro, uma vez que, por um lado, o passado já não existe, por outro, o futuro ainda não existe? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse a passado, já não seria tempo, mas eternidade. Logo, se o presente, para ser tempo, só passa a existir porque se torna passado, como é que dizemos que existe também este, cuja causa de existir é aquela porque não existirá, ou seja, não podemos dizer com verdade que o tempo existe senão porque ele tende para o não existir».

Santo Agostinho, Confissões, XI 14


«En aquel pasaje de la Enéadas que quiere interrogar y definir la naturaleza del tiempo, se afirma que es indispensable conocer previamente la eternidad, que- según
todos lo saben – es el modelo y arquetipo de aquél… Leemos en el Timeo de Platón que el tiempo es una imagen móvil de la eternidad; y ello es apenas un acorde que
a ninguno distrae de la convicción de que la eternidad es una imágen hecha com substancia de tiempo.Una de las oscuridades, no la más árdua pero no la menos
hermosa, es la que impide precisar la dirección del tiempo. Que fluye del pasado hacia el porvenir es la creencia común, pero no es más ilógica la contraria, la fijada en
el verso español por Miguel de Unamuno:
Nocturno el rio de las horas fluye desde su manantial , que es el mañana eterno… »

Jorge Luis Borges, Historia de la eternidad

17 dezembro 2009

Mais um email


RANCHÃO DE NATAL

É de casca o meu barquinho
E é de lixo esta cidade;
Aqui manda e segue a estrada
A louca erguida na tarde.

Pede esmola o tipo rasca
Pede ardor a fresca nata,
E em Lisboa, praça fora,
Dois irmãos a dar à pata.

«Cavaleiro, a tipa goza,
O meu quisto na cueca”
Para ti, real pateta
Da poesia a grande seca

II

E já brocha, aquela Santa,
Na igreja e a preceito:
Sua chuva, casa tonta,
Faz-nos vir com tudo feito

Esta missa em Sol e dós
E a burrice prò santão…
Eis que me venho p’ra vós,
Da fundura do caixão.

Natal o metes p’ra lá
Antes do sol-pôr chegar
Natal o metes p’ra cá
Pondo o bento a defecar

O silêncio é de cerimónia
neste Natal de toilette
Com santos à dependura
Nos fulgores duma retrete

Se a lua nos desse fruto
Se o sol nos desse conchego
Se Portugal fosse o luto
Dum fato posto no prego

Que o rito que alguns nos dão
Faz arrotar devagar
Depois da missa do galo
Com todo a gente a chorar

Não quero a religião
nem quero enganos a esmo
quero só a liberdade
inda que feito em torresmo.

ELÓI SARNADAS

11 dezembro 2009

Mesmo para quem viu e ouviu Fernando Lemos...


... faz depois de amanhã duas semanas no programa "Câmara Clara", na RTP2, aqui fica uma entrevista que deu ao blog http://artephotografica.blogspot.com/. É que é sempre um prazer estar com alguém inteligente.

11 setembro 2009

Ele voltou


Soneto VIII

Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

Jorge de Sena, autor deste soneto, um dos mais belos escritos em língua portuguesa, voltou, 30 anos depois de morto, a habitar terra portuguesa. Jorge de Sena, que dizia que o emprego principal dos portugueses, desde o século XVI, era o de exilado.
Morto. Com grande suspiro de alívio para os actuais caciques. Espera-se, assim, os habituais discursos. E um funeralzito de Estado, que cai sempre bem e fica baratucho. Mário Soares há-de lá estar.

15 junho 2009

Relembrando Herberto Helder


Fonte - I

Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.

Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.

Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
Sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
Era a fonte.

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maçã tomava um princípiode esplendor.

Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.

14 junho 2009

Relembrando António Gedeão

Poema do alegre desespero

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,


ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.


Compreende-se.


E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.


Compreende-se.


Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.


Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.


E o nosso sofrimento para que serviu afinal?

21 abril 2009

Segunda introdução a um desabafo: poema de Pessoa...

Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...
Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.
Mas enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho
Nem até
Café.
... a propósito disto.

24 janeiro 2009

Chamo a vossa atenção...


... para dois posts no Fundação Velocipédica: este e este.
Parabéns ao Nicolau Saião e ao Almeida e Sousa!
Volto amanhã, domingo.