19 julho 2007

Isto...

Edvard Munch

O primeiro-ministro congratulou-se ontem com a actividade desenvolvida pelo grupo parlamentar do Partido Socialista, a qual terá correspondido por inteiro às suas expectativas.
Sem dúvida!

... e isto...


... também (é para ler até ao fim, em especial o que já está para lá da apreciação da prova) - ver o post com esta mesma data.

18 julho 2007

Até amanhã!


Seguramente descurando as suas principais actividades - desancar inocentes e pacíficos palestinianos, árabes e restantes vizinhos e dominar, mais ou menos subreptícia e perfidamente, a economia e as finanças internacionais - um grupo de técnicos israelitas passou uns dias em Trás-os-Montes, no sentido de procurar melhorar o aproveitamento local da água para fins agrícolas. Chegaram à conclusão de que os indígenas da região gastam três vezes mais do que é preciso ou, de outra maneira, que ela chega perfeitamente para se produzir o triplo do que se produz hoje, coisa que, para quem tem o hábito de transformar o deserto em áreas férteis, deve ter sido, no mínimo, doloroso.
Vi isto ontem, num telejornal qualquer, onde, entre outras coisas, se falou ainda dos gestores portugueses como estando internacionalmente classificados abaixo do medíocre, e de um senhor que, certamente para estimular a economia através do consumo interno e garantir uma boa morte aos portugueses, só vê como solução aumentar os impostos e subir o IVA (não confundir com IVG) para 25%.
Ah! E o PS continua a falar em vitória na Cãmara de Lisboa e declina qualquer responsabilidade no vergonhoso nível de abstenção. O que, diga-se de passagem, também é bem feito para os portugueses.

16 julho 2007

Paco & Filho



Chopin por Horowitz



Quanto a mim...


... para além de todas as jogadas partidárias internas do PSD que terão contribuído para a percentagem de votos que obteve, o efectivo vencedor das eleições em Lisboa (onde, aliás, não resido) é Carmona Rodrigues.
Parabéns.

Mais do mesmo



Helena Roseta falou, a meu ver, muito bem, quando atribuiu à desilusão e ao consequente desinteresse o nível de abstenção que explodiu nas eleições para a Câmara de Lisboa. E que a candidatura que ela encabeçou era, entusiasmantemente, composta por gente que tinha vindo de todos os lados, de todos os partidos.
Só fiquei apreensivo ao ouvi-la dizer de seguida: "Eu até nem conhecia a maioria dos meus candidatos...!".

15 julho 2007

"O rebanho"

A preocupação com o arrogante autoritarismo no Governo começa a passar. Não admira. A liberdade pública e, sobretudo, a liberdade individual nunca especialmente comoveram os portugueses. Desde sempre que nos perseguimos com veneno e brutalidade. A "festa" do "25 de Abril" foi uma "festa" de intimidação e de arbítrio. E ainda ontem, numa espécie de votação "popular", o país mostrou o seu amor por Salazar e por Cunhal, enquanto Soares (como Sá Carneiro) desaparece pouco a pouco da memória coectiva. O facto é que, por um velho hábito de obediência e servidão, o indígena gosta de ser mandado. Gostou de ser mandado por Cavaco, que era, se bem se lembram, infalível, e gosta agora de ser mandado pelo eng. Sócrates, que é, segundo consta, decidido e determinado.
De resto, o mundo que aí está não favorece a liberdade. O Estado-providência entrou no mais remoto recanto das nossas vidas, fiscalizando, proibindo e punindo. A "Europa" não pára de se intrometer (sem utilidade visível) no que antes se deixava à história e às tradições de cada um. Em Portugal (e pelo Ocidente inteiro), a concentração urbana exige uma vigilância policial sem precedente. O igualitarismo, o fim daquilo a que se chamava "deferência" e o enfraquecimento irremediável da Igreja e da família produziram, ou permitiram que se criasse, uma ideologia oficial, que ninguém se atreve a contestar ou a infringir. E a democracia, que tanto e tão ardentemente se gaba, é na realidade uma prisão, com um regulamento estrito e, às vezes, brutal.
Os "construtores" deste admirável "modelo" acham que os prisioneiros são felizes. Mas serão? O eng. Sócrates diria que sim. Como os seus colegas do Governo e da "Europa" ou, pelo menos, de alguma "Europa". Eles só nos querem fazer bem e o que fazem é para nos fazer bem. O sr. ministro Santos Silva quer fazer bem ao jornalismo, quando o ameaça e oprime. O eng. Sócrates quer com certeza fazer bem ao país, quando tolera a delação para correr com funcionários que ousam criticar o Governo.. E o dr. Cavaco concorda obviamente com eles, quando, perante o "saneamento político" e o abuso de poder, se limita a um comentário equívoco e genérico. O que se compreende. A liberdade dia a dia negada nas mais simples coisas deixou de contar. Os benfeitores tratarão do rebanho, como entenderem e como lhes compete."

Vasco Pulido Valente, PÚBLICO, ontem, sábado, 14 de Julho

Diz quem sabe


"Hoje há um approach salazarista em vários partidos. O realismo político dele, por exemplo, é adoptado por pessoas do PS."
Jaime Nogueira Pinto, no Diário de Notícias (citação retirada do PÚBLICO de hoje)

13 julho 2007

Que horas são?


Não é a primeira vez, desde há alguns anos a esta parte, que -como de novo aconteceu ontem à noite - as selecções de futebol dos mais jovens dão espectáculos vergonhosos de indisciplina, de comportamentos violentos e de eufórico vandalismo nos balneários. Nada disto é de estranhar.
Basta que entrem na escola, pública de preferência, para que a sua "educação" decorra nesse sentido. Nas salas de aula, que repugnam aos jovens estudantes vindos directamente dos PALOP's ou do leste europeu, espantados com o facto de "isto" se permitir e que afirmam não se conseguir aprender seja o que for em tais condições. Nos pátios, onde praguejar, nos termos mais violentos, é tolerado, esquecendo-se que a instalação da agressividade se inicia, desde logo, pela linguagem.
Mas, principalmente, basta-lhes nascerem e entrarem na família, que remete para as instituições públicas a responsabilidade da formação dos futuros cidadãos, ao mesmo tempo que, portas adentro, ensina e, frequentemente, age mesmo em sentido oposto.
Tudo em nome da liberdade e do respeito pelo indivíduo.
Não há comunidade que se consiga manter, desta maneira, por muito tempo. A sua desagregação é inevitável e poderá assumir as mais diferentes, repulsivas e dolorosas formas. Os portugueses do futuro não o serão porque não serão nada, incapazes, com as excepções que confirmam a regra, de tomar consciente e determinadamente conta das suas vidas. Os jovens de hoje, em Portugal, por detrás de toda a algazarra que possam fazer na 24 de Julho e noutros locais de "convívio" e "lazer", são seres humanos profundamente entristecidos, bisonhos, confusos porque desencontrados de si próprios, com horizontes à medida dos escassos conhecimentos adquiridos, doutrinados por morangos de estufa e, por isso, de facto privados da liberdade que uma ditadura estreita lhes recusou e que a estupidez oportunista do 26 de Abril lhes tem roubado. Continuam a ser, dois séculos depois, o "povo de escravos" de que falava Byron.
E não vale a pena dizer "É a Hora!". O Pessoa já o disse e não resultou.


Este post é delicioso!


Encontrei-o mesmo agora, referenciado pelo Range-o-Dente.

12 julho 2007

O subliminar na "Comunicação Social"


Há pouco, no telejornal da RTP1, noticiava-se o "escândalo Marques Mendes".Em duas frases sucessivas da peça, a locutora de serviço atirava-nos aos ouvidos:
Marques Mendes recebeu no ano tal 4.400 contos e, no ano seguinte, 21.000 euros. A coisa acabava, porém, na segunda frase, por ficar pelos 700 contos mensais (salvo erro).
Estranha, esta rápida flutuação entre os euros e os defuntos escudos?
Talvez não.
É que o que fica subliminarmente na mente de quem escutou a notícia é, em primeiro lugar, a sugestão de um aumento de cerca de 500% do primeiro para o segundo ano de actividade (4.400 para 21.000), quando, de facto, fazendo a conversão de uma moeda para a outra, representa uma diminuição de 1.000 euros ou, se se preferir, de 200 contos.
A passagem dos montantes, agora de euros para escudos, na segunda frase, continua no sentido de apresentar subliminarmente o valor como o mais alto possível. Com efeito, atendendo à faixa etária maioritária da população portuguesa e ao hábito de épocas, é mais "pesado" falar em 700 contos do que em 3.500 euros por mês.
Quem terá redigido o texto?

Miles Davis, Human Nature





11 julho 2007

Fala com ela/O pianista



Declarou!


O sr. Eng. José Sócrates Pinto de Sousa afirma-se chocado com os dois casos de professores cuja reforma foi negado por juntas médicas e prometeu medidas urgentes.
Ficam sempre bem estas declarações, num primeiro-ministro atento às pessoas do país que governa. E só o facto de andar atarefado com a presidência europeia é que terá sido a causa de tanta demora em proferi-las.

Sete anos no ensino secundário


Enviaram-ontem este texto, por email. Limito-me a reproduzi-lo, tal e qual como me chegou.
Opinião

Querido Sócrates, encolhi-lhes as carreiras...
Ruy de Carvalho, um dos melhores actores portugueses de sempre, cumpre, esta semana, 60 anos da sua brilhante e celebrada carreira.
Tem sorte Ruy de Carvalho em não ser professor pois, caso o fosse, estaria a celebrar, em vez de seis décadas, apenas sete anos dessa longa carreira...
Passo a explicar com mais detalhe, pois, eu próprio, também ainda não percebo muito bem mais uma das muitas maquiavelices do Ministério, alegadamente, da Educação.
Como é do conhecimento geral, o Ministério dividiu a carreira dos professores em duas, sendo uns, poucos, professores titulares e os restantes, a grande maioria, uns meros acólitos, a partir de agora vulgar, rasca e simplesmente tratados por professores!
Feita esta divisão no papel, havia que organizar o concurso para que os professores do último escalão progredissem para professores titulares. Embora desconfiando das promessas da benemérita ministra, nunca os professores (nos quais me incluo, nos professores e nos desconfiados!), repito, nunca os professores pensaram ser tão pouca e tão pobre a esmola com que nos quer obsequiar.
Então como funciona esse concurso para professor titular?Desde já digo que é fácil, é barato e não é para milhões.Pela Internet, os professores enviam os formulários onde registam os passos das suas carreiras, os seus cargos e os seus desempenhos a diferentes níveis. Mas aqui começa a grande embrulhada, salpicada com muita dose de má-fé, de cinismo e de falta de respeito pelos professores, que a senhora ministra teima em não ver como parceiros, mas como inimigos.E tudo isto porque o Ministério pretende fazer uma análise curricular de uma carreira... somente pelos últimos sete, repito, sete anos!
Ou seja, só conta, diz-nos tão pedagógica figura, o que fizeste nos últimos sete anos. A nossa carreira vale apenas isso...sete anos!
A título de exemplo, vejamos o meu caso (como o meu haverá os de muitos colegas): tenho 28 anos de serviço, onde fui tudo o que se pode ser numa escola. Enumero algumas para que a vergonha possa cobrir a cara de quem manda: fui presidente do Conselho Directivo durante seis ou sete anos, presidente do Conselho Pedagógico, presidente do Conselho Administrativo, coordenador dos directores de turma, director de turma, delegado de disciplina, acompanhante da prática pedagógica, exerci, durante dez anos, funções docentes como Leitor de Língua e Cultura Portuguesas, do Instituto Camões, nas Universidades de Portsmouth (Reino Unido) e de Estocolmo (Suécia), escrevi manuais didácticos, fiz investigação na área das Aprendizagens e das Novas Tecnologias, apresentei bastantes comunicações (não foram nem uma, nem duas) em conferências internacionais (desde Espanha ao México, passando pelo Brasil, Inglaterra, Suécia, etc.), fiz várias actualizações em diversos domínios, tirei uma pós-graduação, criei e lancei um Clube de Rádio numa escola, fui, durante estes 28 anos, professor com P grande, professor com toda a alma e com todo o coração... E vem agora uma senhora ministra, dizem, da Educação!, comunicar-me (comunicar-nos!) que isto de nada vale, que fui um tolo em ter feito tanta coisa, que uma vida como professor se resume simplesmente a sete anos?! Que a análise curricular para se poder aceder a professor titular, se baseia, unicamente, numa fracção da minha vida toda como docente? Que análise curricular é esta?Que fraude me querem impor?
Dentro da trapaça imensa que é este concurso, há situações em que o Ministério ora acha que algo tem efeitos retroactivos, ora acha que não. Neste último, já vimos que vinte e um anos (21) da minha carreira não contam! Mas contam as faltas, qualquer que tenha sido o seu motivo! Por exemplo, o Ministério que me mandou fazer formação e me deu dispensa para a frequentar, vem agora penalizar-me porque obedeci e a frequentei!Mas isto não é de doidos?Isto não é uma atitude não só provocatória como de desprezo em relação à actividade docente? Afinal onde está o prémio pelo mérito, pelo esforço e pela excelência?E o que fazem agora os professores?Lutam contra esta iniquidade ou andam já a contar os pontinhos para aceder ao Olimpo?
E qual é a posição dos professores que são, neste momento, deputados?PS, PSD, CDS, PCP, Verdes, BE? Preciso (precisamos) de saber o que pensam para podermos) retribuir, em conformidade, na hora das decisões.
Apetece-me convocar Almada Negreiros e parafrasear o seu Manifesto: uma geração, que consente deixar-se representar por [esta monstra] é uma geração que nunca o foi! (...) Se [esta ministra é portuguesa], eu quero ser espanhol!
PIM-PAM-PUMH
FERNANDO JOSÉ RODRIGUES Professor, escritor, 28 anos de serviço reduzidos a 7
PS: Vejam bem que não há só gaivotas em terra, quando um homem se põe a pensar! (José Afonso)
Fonte: Jornal de Leiria; Páginas: 17; Autor: FERNANDO JOSÉ RODRIGUES

09 julho 2007

Três histórias de pura ficção

Cândido da Costa Pinto

Comecemos por imaginar a possibilidade de uma história destas acontecer numa escola secundária:
Um dia, o Conselho Executivo é surpreendido pela chegada, sem aviso prévio, de um grupo de inspectores. Estes, porém, tranquilizam desde logo toda a gente: trata-se de uma visita integrada na formação de inspectores estagiários e nada mais, pelo que não haverá qualquer avaliação oficial seja do que ou de quem seja. Nada de anormal tendo sido detectado ao nível administrativo ou da documentação pedagógica, solicitam, de seguida, permissão para assistirem a uma aula de um docente, a designar pelos próprios órgãos directivos da escola, os quais indicam, compreensivelmente, um professor de comprovada competência científica e sucesso pedagógico.
Este inicia a aula como de costume e tudo decorre normalmente. A certa altura, porém, começa a ouvir-se um zunzum estranho, que vai aumentando a pouco e pouco, levando-o a suspender por momentos a leccionação e a comentar: “Vocês hoje estão muito irrequietos…!” Para seu espanto, é o orientador de estágio dos inspectores a pedir desculpa, lá do fundo da sala, pelo facto de estarem a conversar e, assim, a perturbar o bom funcionamento da aula.
Contudo, o mais absurdo há-de vir depois, quando a escola toma conhecimento do relatório feito pelo grupo de estágio. Nele se pode ler, em apreciação à referida aula, que esta não decorrera bem… por o professor ser demasiado directivo! Conhecedor da situação, o Conselho Executivo protesta, mas o relatório nunca virá a ser alterado.
Imaginemos ainda esta outra, a de um inspector que, depois de nada ter detectado ao nível da documentação pedagógica, mas que encontrou uma falha em dois sumários escritos no livro de ponto, chama a atenção do correspondente professor, afirmando categoricamente que o sumário é talvez o instrumento mais importante de uma aula.
Para terminar, suponhamos a possibilidade de, em consequência do novo Estatuto da Carreira Docente, um professor de reduzida competência pedagógica e que já recebeu queixas de pais e alunos, vir a ser promovido a titular, mercê da antiguidade e dos pontos acumulados em diversas funções que desempenhou. Esse professor, que todos conhecem na escola pelo seu carácter vingativo e dissimulado, passará a ter a seu cargo, entre outras, a tarefa de avaliar pedagogicamente colegas que o criticaram ou que simplesmente inviabilizaram as suas opções, mais ou menos disparatadas.
Poder-se-á dizer que isto é pura ficção. Mas… e se vier a acontecer? Para onde iria o ensino em Portugal? E o que dizer da sociedade portuguesa e dos seus dirigentes políticos?

07 julho 2007

Impunidade até quando?


Poucos anos atrás, tendo-me sentido algo indisposto, na sequência de um problema respiratório, fui, por insistência de familiares, ao SAP do Centro de Saúde de Oeiras. Saí de lá numa ambulância para o Hospital de S. Francisco Xavier, por estar à beira de uma paragem cardíaca. E só ao final de uns bons meses a situação ficou definitivamente controlada, embora não tivesse chegado a ser internado.
Diga-se que não me ocorreria (nem sequer aos meus familiares) dirigir-me ao hospital, pela aparente pequena gravidade dos sintomas. No S. Francisco Xavier, dado o enorme afluxo de doentes, tive que esperar pela atenção de médicos, assoberbados de trabalho e incapazes, por isso, de acorrer de imediato até mesmo àquilo que era visivelmente urgente. Valeram-me as medidas prévias tomadas no Centro de Saúde para travar momentaneamente a degradação da situação. Devo, portanto, em primeiro lugar aos médicos de serviço no SAP nessa noite estar hoje ainda vivo.
O que o sr. Correia de Campos não refere, porque muito provavelmente não serve à lógica das suas intenções nem às do sr. eng. José Sócrates Pinto de Sousa, é que os Serviços de Atendimento Permanente, se não estão (e não deveriam estar?) equipados para responder a (pelo menos algumas) situações mais graves, também não são apenas retardadores da sua resolução, antes, como no meu caso, a possibilitam ou alertam para a urgência imediata de medidas adequadas.
Vem isto a propósito de me terem dito que o SAP do Centro de Saúde de Oeiras, que serve mais do que uma freguesia de um dos mais populosos concelhos do país, fechou a meio da passada semana. Não terão sido apenas os utentes a serem apanhados de surpresa pela medida, mesmo alguns dos médicos terão sabido dela somente na véspera, ao início da tarde.
O Hospital de S. Francisco Xavier, que fica a cerca de 15 km, não possui nem pode possuir estruturas que viabilizem uma resposta adequada e suficiente ao afluxo acrescentado que o encerramento deste serviço de urgência traz consigo.
De quantos crimes se permitirá que esta gente fique impune?

02 julho 2007

Alguém viu?


Ao final desta noite de domingo, no programa Câmara Clara, esteve Helder Macedo. Pela clareza, pelo despretensiosismo, pelo humor e pela argúcia e profundidade do que diz, aquele que foi ministro da Cultura do governo de Maria de Lurdes Pintasilgo (o primeiro de sempre, portanto), em 1979, é (ainda) um dos raros portugueses que surge em órgãos de comunicação deste país, cada vez menos reconhecível.

01 julho 2007

Fumo sem fogo


Hoje, em grande destaque na primeira página do Diário de Notícias, a notícia de que os pilotos dos aviões de combate a incêndios ganham o triplo do que ganham os pilotos das FAP.
Para que não se gerem dúvidas infundadas nem insinuações torpes, conviria dar uma vista de olhos ao que se passa no Serviço de Protecção Civil, começando, talvez, pelo Diário da República. E também, é claro, aos diplomas dos diferentes responsáveis dos diversos sectores.
Para que não se denigra a imagem do Governo e de António Costa, enquanto ex-ministro e actual candidato à Câmara Municipal de Lisboa.

30 junho 2007

Como é possível?!


Durante a tarde, numa pausa enquanto trabalhava, ao mudar de canal de televisão deparei-me com um documentário a ser transmitido pela SICNotícias, sobre o problema das incursões dos Israelitas no Líbano.
O cicerone de visita às ruinas provocadas pelos bombardeamentos, com a entoação e a postura serenas de um homem de paz a falar para um meio de comunicação internacional, a que se juntavam as expressões e os testemunhos resignados dos pacíficos habitantes do lugar, afirmava desconhecer as razões pelas quais Israel, com tantos meios tecnológicos, se encarniçava contra gente que nada tinha a ver com o problema existente entre eles e o Hezbollah.
Como é possível dar-se voz a tamanha hipocrisia?!

Subscrevo por inteiro!


Transcrevo de seguida este texto exemplar de António Barreto, inserido, dias atrás, numa edição do PÚBLICO.

«A saída de António Costa para a Câmara de Lisboa pode ser interpretada de muitas maneiras. Mas, se as intenções podem ser interessantes, os resultados é que contam. Entre estes, está o facto de o candidato à autarquia se ter afastado do governo e do partido, o que deixa Sócrates praticamente sozinho à frente de um e do outro.
Único senhor a bordo tem um mestre e uma inspiração. Com Guterres, o primeiro-ministro aprendeu a ambição pessoal, mas, contra ele, percebeu que a indecisão pode ser fatal. A ponto de, com zelo, se exceder: prefere decidir mal, mas rapidamente, do que adiar para estudar. Em Cavaco, colheu o desdém pelo seu partido. Com os dois e com a sua própria intuição autoritária, compreendeu que se pode governar sem políticos.
Onde estão os políticos socialistas? Aqueles que conhecemos, cujas ideias pesaram alguma coisa e que são responsáveis pelo seu passado? Uns saneados, outros afastados. Uns reformaram-se da política, outros foram encostados. Uns foram promovidos ao céu, outros mudaram de profissão. Uns foram viajar, outros ganhar dinheiro. Uns desapareceram sem deixar vestígios, outros estão empregados nas empresas que dependem do Governo. Manuel Alegre resiste, mas já não conta. Cravinho emigrou. Jorge Coelho está a milhas de distância e vai dizendo, sem convicção, que o socialismo ainda existe. António Vitorino, eterno desejado, exerce a sua profissão. Almeida Santos justifica tudo. Freitas do Amaral reformou-se. Alberto Martins apagou-se. Mário Soares ocupa-se da globalização. Carlos César limitou-se definitivamente aos Açores. João Soares espera. Helena Roseta foi à sua vida independente. Os grandes autarcas do partido estão reduzidos à insignificância. O Grupo Parlamentar parece um jardim-escola sedado. Os sindicalistas quase não existem. O actual pensamento dos socialistas resume-se a uma lengalenga pragmática, justificativa e repetitiva sobre a inevitabilidade do governo e da luta contra o défice. O ideário contemporâneo dos socialistas portugueses é mais silencioso do que a meditação budista.
Ainda por cima, Sócrates percebeu depressa que nunca o sentimento público esteve, como hoje, tão adverso e tão farto da política e dos políticos. Sem hesitar, apanhou a onda. Desengane-se quem pensa que as gafes dos ministros incomodam Sócrates. Não mais do que picadas de mosquito. As gafes entretêm a opinião, mobilizam a imprensa, distraem a oposição e ocupam o Parlamento. Mas nada de essencial está em causa. Os disparates de Manuel Pinho fazem rir toda a gente. As tontarias e a prestidigitação estatística de Mário Lino são pura diversão. E não se pense que a irrelevância da maior parte dos ministros, que nada têm a dizer para além dos seus assuntos técnicos, perturba o primeiro-ministro. É assim que ele os quer, como se fossem directores-gerais. Só o problema da Universidade Independente e dos seus diplomas o incomodou realmente. Mas tratava-se, politicamente, de questão menor. Percebeu que as suas fragilidades podiam ser expostas e que nem tudo estava sob controlo. Mas nada de semelhante se repetirá.
O estilo de Sócrates consolida-se. Autoritário. Crispado. Despótico. Irritado. Enervado. Detesta ser contrariado. Não admite perguntas que não estavam previstas. Pretende saber, sobre as pessoas, o que há para saber. Deseja ter tudo quanto vive sob controlo. Tem os seus sermões preparados todos os dias. Só ele faz política, ajudado por uma máquina poderosa de recolha de informações, de manipulação da imprensa, de propaganda e de encenação. O verdadeiro Sócrates está presente nos novos bilhetes de identidade, nas tentativas de Augusto Santos Silva de tutelar a imprensa livre, na teimosia descabelada de Mário Lino, na concentração das polícias sob seu mando e no processo que o Ministério da Educação abriu contra um funcionário que se exprimiu em privado. O estilo de Sócrates está vivo, por inteiro, no ambiente que se vive, feito já de medo e apreensão. A austeridade administrativa e orçamental ameaça a tranquilidade de cidadãos que sentem que a sua liberdade de expressão pode ser onerosa. A imprensa sabe o que tem de pagar para aceder à informação. As empresas conhecem as iras do Governo e fazem as contas ao que têm de fazer para ter acesso aos fundos e às autorizações.
Sem partido que o incomode, sem ministros politicamente competentes e sem oposição à altura, Sócrates trata de si. Rodeado de adjuntos dispostos a tudo e com a benevolência de alguns interesses económicos, Sócrates governa. Com uma maioria dócil, uma oposição desorientada e um rol de secretários de Estado zelosos, ocupa eficientemente, como nunca nas últimas décadas, a Administração Pública e os cargos dirigentes do Estado. Nomeia e saneia a bel-prazer. Há quem diga que o vamos ter durante mais uns anos. É possível. Mas não é boa notícia. É sinal da impotência da oposição. De incompetência da sociedade. De fraqueza das organizações. E da falta de carinho dos portugueses pela liberdade.»

29 junho 2007

Remodelação à vista no governo


A futura indigitação de Correia de Campos para a pasta da Cultura torna-se cada vez mais previsível. Com efeito, o actual ministro da Saúde vem revelando desde há tempos a sua vocação para crítico de teatro. Esta faceta ficou patente ainda há dias, não apenas na jocosidade ácida como avaliou o carácter, a seu ver, teatral de uma questão que lhe foi posta, mas também na demissão da directora do teatro, perdão!, do Centro de Saúde onde era tradição de um ou mais médicos, ao que parece, fazer teatro-jornal. Tal medida, de carácter inequivocamente cultural, foi, no entanto, travestida de medida admnistrativa ao nível da saúde, ao nomear para o mesmo cargo um médico de bom estômago, vereador eleito pelo seu partido para a autarquia.
Dias radiosos se avizinham, pois.

27 junho 2007

Na sequência...

Brueghel, O Triunfo da Morte

... de intervenções incompletas, mais ou menos metafóricas e nem sempre explicitamente coerentes (ai! o tempo que não chega!) que tive em alguns comentários feitos no blog Portugal Contemporâneo desde há uns quinze dias a esta parte, deixo aqui, enquanto não me posso demorar em exposições mais claras, um pequeníssimo excerto de Contingência, ironia e solidariedade, de Richard Rorty, no intuito de sugerir que a mudança do âmbito em que os debates de ideias têm decorrido talvez ajudasse a esclarecer a verdadeira natureza das questões. Para evitar quaisquer conclusões apressadas, devo avisar desde já que não me identifico com a posição de fundo de Rorty, embora considere que os seus pontos de vista devam indispensavelmente ser tomados em conta.

"Na sociedade liberal ideal os intelectuais (...) Não sentiriam mais necessidade de responder às perguntas «Porque é liberal? Porque se preocupa com a humilhação de estranhos?» do que o cristão médio do século XVI sentia necessidade de responder à pergunta «Porque é cristão?» ou do que a maior parte das pessoas hoje em dia sentem necessidade de responder à pergunta «Está salvo?» (1) . Uma pessoa assim não precisaria de uma justificação para o seu sentido de solidariedade humana, uma vez que não era educada para jogar o jogo de linguagem em que se pergunta e se obtém justificações para esse tipo de crenças. A cultura dessa pessoa é uma cultura em que as dúvidas sobre sobre a retórica pública da cultura são respondidas não por pedidos socráticos de definições e de princípios, mas sim por pedidos deweyanos de alternativas e programas concretos. Tal cultura, quanto me é dado ver, poderia ser tão autocrítica e tão dedicada à igualdade humana quanto o é a nossa cultura liberal familiar e ainda metafísica - se não até mais.

(1) Nietzsche afirmou, com desdém, que «a Democracia é o Cristianismo tornado natural» (Will of Power, nº 215). Retire-se o desdém e Nietzsche estava bastante certo"

24 junho 2007

Minha Nossa Senhora!


Será que os responsáveis pelo Santuário conhecem alguém de maior devoção à Senhora de Fátima?!

Baboso!


Uma professora obrigada a trabalhar já moribunda?
Um professor demitido das suas funções por ter dito mal do primeiro-ministro?
Um bloguista visitado pela polícia e processado pelo mesmo motivo?
Uma funcionária castigada por um administrador da empresa onde trabalhava por ter enviado um e-mail particular, em que questionava um alegado perdão fiscal a essa mesma empresa?
Alto e abençoado o desígnio de ser casto! Consegui engravidar a Posteridade!
Portugal, meu filho!, meu orgulho!, meu herdeiro!

20 junho 2007

O Desejado


Quando subiu ao trono, D. João II, filho do esbadanado D. Afonso V, ironizou, dizendo que o seu pai o deixara rei das estradas e caminhos de Portugal. Em dez anos, porém, abriu caminho a todo um país futuro.
O governo do sr. (engº) José Sócrates quer deixar à Brisa a exploração das estradas portuguesas por 100 anos!
Confesso que prefiro o Dinis... mas volta, João!!!

18 junho 2007

Coisas que não percebo 3



Um país...
... cujas forças policiais conduzem automóveis sem o seguro de que o Estado não dispensa os cidadãos;
- que obriga os agentes da autoridade a pagar todos os custos derivados de acidentes de viação ocorridos em serviço (sendo eles próprios que se determinam como culpados ou não culpados);
- em que os treinos de perícia e de segurança de condução automóvel dos referidos agentes são por eles pagos aos sindicatos que os representam, os quais se vêem obrigados a organizá-los por o Estado o não fazer;
- em que as companhias de seguros dão os coletes de segurança que o Estado também não fornece a esses agentes;
- em que os polícias têm que pagar as balas que dispararem em serviço...
... existe?


17 junho 2007

Vamolá, dêlícià!





Qualquer comparação...

... é pura coincidência fedorenta.

16 junho 2007

14 junho 2007

Richard Rorty

Richard Rorty (1931-2007)

Vi há momentos a notícia da morte de Richard Rorty, autor de uma das obras filosóficas mais notáveis do século XX. Existem muito poucos textos seus traduzidos em Portugal e as elites universitárias, presas de "conflitos ideológicos" provincianos ou dos tradicionais (igualmente provincianos) preconceitos quanto ao que vem dos Estados Unidos, raramente o têm incluído sequer nos seus programas.

13 junho 2007

Homenagem


Tenho estado afogado em trabalho. Mas, no meio da confusão tive a sorte de assistir àquele que considero ter sido o silêncio mais prolongado, significativo e dramático a que alguma vez assisti na televisão portuguesa, provocado pelas (poucas) palavras de José Rentes de Carvalho no Prós e Contras desta segunda-feira. Toda a história e condição deste país desde há, pelo menos, quatro séculos ficou, crua e impiedosamente, perante a consciência daqueles que as ouviram. Pela coragem, pela lucidez e pelo despretensiosismo com que disse o que disse, merece ser lembrado como um dos patriotas (no sentido mais rigoroso e nobre do termo) maiores.

11 junho 2007

A propósito...

... do inenarrável psicólogo Eduardo Sá e das tiradas pedagógicas mais do que bacocas que nos afogam, deixo aqui um soquéte (interpretado por Maria Rueff e Manuel Marques) do actual programa do Hora H, de Herman José, que, a par de momentos menos conseguidos, tem tido também alguns momentos de crítica extrema e violentamente hilariante aos figurões e instituições deste país - não é por acaso que o programa só vai para o ar quase à meia-noite.
Para amenizar, deixo a seguir um exemplo (primeiro andamento do concerto para cravo e orquestra) da música daquele que continuará a ser, talvez, o nosso melhor compositor: Carlos Seixas.




10 junho 2007

Vamolá djinovo!

Duas versões das Bachianas Brasileiras nº5, de Heitor Villa Lobos. Emocionem-se, comovam-se, deliciem-se.



08 junho 2007

07 junho 2007

Mandaram-me isto hoje por e-mail


Desconheço o autor e o título é
Escrito por um português que não tem vergonha de o ser!
"Tenho-me mantido calado em relação ao desaparecimento ou rapto da menina inglesa, porque acho que há gente a mais a dizer alarvidades sobre o assunto.
Tenho-me abstido de manifestar a minha repugnância pelo procedimento asqueroso da imprensa inglesa em relação à actuação da polícia portuguesa, porque acho que vozes de burro não chegam ao céu.
Tenho optado por não manifestar o meu desacordo pelas conferências de imprensa que a PJ dá em inglês, num abjecto acto de subserviência em relação a esta classe de gente (e gente não é, certamente, que gente não procede assim), porque reconheço que do alto da sua arrogância, apenas têm contribuído para revelar ao Mundo a mentalidade de merda que existe por dentro daquelas cabecinhas loiras.
Agora o que não vou engolir é que um filho de puta inglês, que se diz ser o arquitecto da casa onde mora o principal suspeito, que reside em Portugal há cerca de trinta anos e não fala uma palavra de português, tenha o descaramento de criticar a GNR porque, segundo afirma o cretino, tentou dar informações pelo telefone e foi atendido por um agente que não falava inglês. Pior ainda, disse a besta com todo o ar de desdém que lhe coube naquelas fuças de porco inglês, foi quando, algumas horas depois voltou a telefonar e quem o atendeu sabia apenas algumas palavras da língua de sua majestade, a rainha da casa da maior pouca vergonha a que o Mundo assistiu nos últimos anos.
Estes ingleses não se mancam, mesmo.
Estes ingleses merdosos, que já no tempo da guerra afirmavam que a Europa estava completamente isolada pelo nevoeiro, estes ilhéus provincianos que em pleno século XXI continuam a conduzir fora de mão e a alimentar uma realeza de putaria, estes negreiros sem vergonha que espalharam e deixaram escravatura e racismo pelos quatro cantos do Mundo, estes arruaceiros de merda que espalham o terror pelos campos de futebol da Europa, têm o topete de viver trinta anos num país que lhes oferece um sol radioso, como eles nunca imaginaram existir, sem se darem ao trabalho de aprender uma palavra da nossa língua, ainda têm tempo de antena num canal de televisão nacional para falarem mal de nós?
Mas afinal que trampa de república de bananas é esta, que beija a mão a quem nunca respeitou um aliado, que parece ter esquecido o célebre mapa cor-de-rosa, com que nos roubaram metade de África, e fica impávida e serena, a ouvir os desabafos destes alarves, sem ao menos um protesto oficial.
Por onde é que anda o "gasolineiro" de Boliqueime quando a honra do país necessita ser defendida?
Onde é que está o "inginheiro" feito à pressa, sempre tão lesto a acariciar os "tomates" aos amigos trabalhistas?
Já não resta nem um pouco do orgulho nacional?
Depois admiram-se que meia dúzia de gatos-pingados, apreciadores de concursos televisivos, reabilitadores de apresentadeiras escorraçadas da política, façam do maior ditador do século vinte, o maior português de sempre.
Ao fundo com a Inglaterra e puta que pariu os ingleses!"

Na sequência do que escrevi logo num dos primeiros posts que publiquei, subscrevo em grande medida. E relembro o que José Mourinho dizia, há uns dias, numa entrevista a um canal de televisão: "Neste país (Inglaterra), ou nos suicidamos (devido à pressão xenófoba, para não dizer racista, verdadeiramente selvática, da comunicação social e não só) ou nos adaptamos. Ora como eu não penso suicidar-me..."
Aproveito, já agora, para chamar a atenção para este post de Range-o-Dente.

Hmm...?!


Contaram-me hoje o seguinte:
Face aos maus resultados registados entre os alunos de Matemática em Israel, o governo comprou todos os manuais da disciplina editados no mundo e decidiu-se por adoptar o que é utilizado em Singapura, país que apresenta o melhor aproveitamento escolar nesta área.
Singapura, hmm...?!
Israelitas, hmm...?!

05 junho 2007

Entendamo-nos!

René Magritte


A existência de um curso superior denominado por Ciências da Educação supõe que elas existam, isto é, que constituam um saber específico e creditado ao nível de quaisquer outros que são ministrados em Universidades.
Daí se depreende a obrigatoriedade, determinada desde há muitos anos pelos sucessivos ministérios da Educação, de qualquer licenciado num ramo científico possuir e obter aprovação numa formação complementar de dois anos em matérias pedagógicas, se quiser ingressar na carreira docente. Com isto, pretende-se que a leccionação que venha a realizar assente em bases sólidas, provindas de conhecimentos especializados.
O facto de alguém possuir um conjunto de conhecimentos especializados pressupõe que ele conheça, melhor do que todos aqueles que os não possuem, as formas adequadas de trabalhar nessa área e de resolver os problemas que lhe são inerentes. Eu, por exemplo, que não sou engenheiro, não me possso arrogar de ser capaz de resolver, ou sequer avaliar, as questões que se colocam nesse âmbito.
Um engenheiro, porém, não lida com o mesmo tipo de materiais com que lida um professor. Um calhau, por menos aprendente que seja, possui um grau de complexidade nas variáveis que determinam o seu comportamento infinitamente superior, por exemplo, às ligas de materiais com que um engenheiro trabalha. O que torna o ofício de mestre-escola simultaneamente mais difícil e ainda menos avaliável por não-especialistas do que o ofício de engenheiro.
Se a ponte cai, bem!, pergunta-se pelo irresponsável que planeeou a obra, ou pelos que estiveram à frente da sua execução e fiscalização; e se, por acaso, o falhanço se deveu a micro-estruturas internas dos materiais impossíveis de detectar ou a qualquer outra coisa desse tipo, engole-se em seco e reconhece-se a contingência geral da vida e do género humano (afinal, "viver é não conseguir", como dizia o Pessoa).
No caso do professor, porém, a coisa é muito mais complicada, na medida em que o aluno possui uma vontade e que, no que respeita às estruturas que determinam a sua formação e aos caminhos que escolhe, a escola e a acção do professor estarão muito longe de serem as mais importantes. A avaliação do trabalho que um professor desenvolve com um aluno ainda mais difícil se tornará, assim, por parte de quem não esteja documentado nem possua formação em algo de tão complexo. A começar pela avaliação a fazer pelos próprios pais, possuidores de um saber pedagógico ao nível do mero senso-comum, segundo o que a existência de umas Ciências da Educação permite concluir. E isto na melhor das hipóteses, quer dizer, quando eles sequer possuam conhecimentos científicos ao nível do que a escola exige aos seus filhos.
Tudo o que disse atrás me leva, portanto, a concluir que ou o Ministério da Educação, ao determinar a obrigatoriedade de uma avaliação aos pais pelos professores, está a reconhecer implicitamente que não existe ciência em matéria de educação, mas apenas alguns conjuntos de técnicas, mais ou menos coerentes e ao alcance da compreensão de qualquer elemento da espécie humana, que as aplicará diferentemente consoante as variáveis que as circunstâncias apresentem - e então deverá extinguir o curso; ou que, caso contrário, deverá reforçar a autoridade dos professores em matéria de avaliação e o consequente nível de exigência aos alunos.
Ou, quem sabe!?, ambas as coisas.

01 junho 2007

Coisas que não percebo 2


Aqui há uns tempos atrás, o prémio do Euromilhões chegou aos 111 milhões euros, o maior de sempre para um jogo deste tipo. Pela mesma altura, noticiava-se também o montante, ligeiramente inferior, que atingiria a construção do Metro do Porto.
Hoje veio à baila, nos telejornais da hora do almoço, a divulgação oficial, feita pelo Tribunal de Contas, de que terão sido gastos ilegalmente, pelo Estado, 700 milhões. Interrogado pelos jornalistas sobre o que teria a dizer sobre o assunto, o sr. Ministro das Finanças desvalorizou-o, esclarecendo que esses 700 milhões representam apenas 1% do total do orçamento e que constituem até um avanço no rigor da administração pública.
As contas são simples de fazer: o dinheiro gasto de forma ilegal daria, pelos vistos, para construir sistemas de transporte subterrâneos pelo menos em seis das principais cidades portuguesas e ainda sobraria dinheiro para fazer um sétimo, mais pequeno - em Ranholas ou em A-dos-Cabrões, por exemplo.
Não consigo, por isso, perceber se o sr. Teixeira dos Santos percebe aquilo que disse.

30 maio 2007

Sem título


"... será que não faremos senão confirmar
a incompetência da América católica,
que sempre precisará de ridículos tiranos?!"

Caetano Veloso, Podres Poderes

http://www.youtube.com/watch?v=WSqer0lVy7s

29 maio 2007

Mentalidades...!

(imagem retirada de http://rindodospoliticos.blogspot.com)

Disseram-me que, logo depois do 25 de Abril, podia ler-se nas paredes de muitas estações de caminho-de-ferro: "Abaixo as carruagens de primeira!". Um amigo de quem mo disse, recém-chegado de França, terá comentado: "Aqui está bem patente a mentalidade do povo português! Escrevem 'Abaixo as carruagens de primeira!' em vez de escreverem 'Abaixo as carruagens de segunda!'. Estamos tramados!".
Passados 32 anos, como os Centros de Saúde não estão suficientemente apetrechados, fecham-se. Como não há possibilidade de pagar tantas reformas, deixa-se os velhos em maior perigo de morrer. Como o esforço necessário para desenvolver o interior é maior do que continuá-lo no litoral, concentra-se quase tudo neste.
Estamos tramados!!!

28 maio 2007

Coisas que não percebo 1


É do domínio público e da observação quotidiana que o número de filhos por casal em Portugal tem vindo a descer desde há muitos anos. Neste momento é 1,qualquer coisa, salvo erro.
A sra. Ministra da Educação nem sequer é engenheira, é mesmo socióloga e, portanto, sabe-o.
O Ministério que dirige aumentou para seis o número de anos durante os quais um manual deverá ser de uso obrigatório pela escola que o adoptou.
A justificação para essa medida assenta na necessidade de poupar as famílias às despesas excessivas com o material escolar, que assim poderia passar de irmão para irmão; e, secundariamente, para os professores poderem trabalhar melhor os manuais.
Terá a sra. Ministra informações sobre, por exemplo, alguma tendência, espontânea ou induzida, da população para se agregar segundo um escalonamento etário dos seus descendentes e, quem sabe, criar até Comissões de Prédio (ou quaisquer outras unidades habitacionais) para a Utilização de Manuais Escolares? Ou registos de qualquer planificação temporal de nascimentos entre os diferentes membros de uma ou mesmo de diferentes famílias, associações culturais ou clubes desportivos locais, etc., nesse sentido por todo o país? Por mim, confesso, a esse respeito, uma total ignorância e desconhecimento.
Quanto aos professores penso que, se achassem que deveriam trabalhar melhor o manual por eles próprios seleccionados, bastar-lhes-ia escolhê-lo uma segunda vez. Digo eu, não sei.
Nisto tudo apenas consigo ver como únicos verdadeiramente beneficiados os editores escolares, os quais garantem o escoamento do seu produto, e os consequentes ganhos, por um prazo significativamente mais alargado.
Vejo, mas não acredito.

26 maio 2007

E não se pode exterminá-los?!


"Acham que procederam bem, deixando os vossos filhos sozinhos enquanto jantavam?": a pergunta feita pela jornalista ao casal, durante uma peça transmitida no jornal de hoje, à hora do almoço, na RTP1, justificaria, a meu ver, não apenas a recusa de continuar a entrevista por parte daqueles, como - pelo menos! - a expulsão da mesma a pontapé. Justificaram-se os pais, com a maior dignidade, dizendo que não precisavam que lhes fizessem perguntas daquelas, porque ninguém se pode sentir mais responsáveis por tudo do que eles próprios.
É difícil ser-se mais perverso, mais abjecto, descer-se mais baixo do que acontece com 90% da "comunicação social" a que estamos sujeitos! Diria mesmo que é dos problemas mais graves do nosso tempo!

24 maio 2007

Idoneidades...!



No PÚBLICO de domingo faz-se uma chamada de atenção, na contra-capa, para uma peça jornalística inserida na pág. 20. A mesma refere-se àquilo que a referida chamada de atenção já adianta, a saber: à "depredação urbanística que vandalizou as paisagens de Espanha", devido à publicação, dez anos atrás, da "Lei dos Solos que permitia às autarquias converter com toda a facilidade terrenos rústicos em terrenos urbanizáveis". A publicação desta lei gerou uma "crise política alimentada por intermináveis casos de corrupção".

O comentário desde logo possível a esta notícia é o de que os detentores do chamado "poder local", aqueles que estão mais próximos das populações e que elas, em teoria, melhor deveriam poder conhecer e controlar, parecem afinal estar tão impunes a esse controlo como os órgãos nacionais - ou até talvez mais. Se, além disso, compararmos o procedimento desses autarcas com os de outros países - os do Norte da Europa, por exemplo, em que o sentido de responsabilidade e de comprometimento com o real desenvolvimento do país é um facto tão evidente como a economia e as condições de vida que os seus governantes e dirigentes conseguiram gerar ao longo de umas poucas décadas -, então a actuação dos autarcas espanhóis (e, ao lado, a dos seus colegas lusos) é demonstrativa de um comportamento cívico e político alarmantes.

A descentralização admnistrativa é uma medida que, hoje em dia, quer a direita quer a esquerda propõem como suas, face às necessidades inerentes aos novos tempos. A prova é que tendo a lei sido publicada pelo governo do PP, os socialistas não a mantiveram em vigor. Os problemas referir-se-ão sempre, por isso, não à ideologia dos candidatos, mas à sua idoneidade moral.

Mas ainda há mais: a chamada de atenção que envia para a peça informativa encontra-se na rubrica "Sobe e Desce" de diferentes personalidades e instituições e, como seria natural, na coluna com a setinha para baixo. O que é curioso é o PÚBLICO haver inserido nela uma fotografia, não de qualquer autarca ou da sede de uma qualquer respectiva associação proeminente... mas do anterior primeiro-ministro!

Duas perguntas se põem de imediato.

A primeira: se Aznar fez a lei que Zapatero manteve e sobre a qual Juan Carlos nada disse, porque é que é Aznar que está em queda?

A segunda: qual é a idoneidade dos responsáveis pelo PÚBLICO?

NOTA- Já agora: nunca gostei do Aznar por aí além.




23 maio 2007

A escola da tolerância e do desenvolvimento harmonioso

Na sexta-feira passada, na sala de espera do Hospital Egas Moniz, onde um familiar meu havia sido internado, encontrei um puto daqueles de que a gente diz que gostaria de ter como filho, neto, vizinho... Melhor dito, ele encontrou-me. Curioso, de raciocínio rápido, com um excelente sentido de humor, comunicativo até à exaustão, informado de tudo um pouco, incrivelmente afável. Ficámos amigos, é claro, ele propôs-se para, no dia seguinte, levar o tabuleiro de xadrez para uma partidinha e eu , emprestar-lhe um livro de BD. Assim foi.
No meio do turbilhão dos assuntos abordados veio à baila, inevitavelmente, a escola. Bem, 5º ano, mas tinha mudado de escola a meio do ano: "Fui vítima de bulling".
- Foste vítima de quê?!
- De bulling. É aquilo... os outros alunos agrediam-me. Por isso, tive que mudar de escola. A minha mãe mudou-me, na escola disseram-me que era melhor eu mudar -diz-me ele com ar conformado.
- Olha lá, então e os outros, os que te chateavam? Ficaram?! Esses é que estavam lá a mais, acho eu! Eles é que deviam sair, ou não é?! Então não sabias quem era, ninguém sabia quem era?
- Oh! Pois! Mas não dava... Mesmo dentro da aula e tudo... Atiravam-me borrachas, lápis, depois não se sabia quem é que o tinha feito... Foi melhor assim. E eu até gosto mais desta escola. Fica é mais longe de casa. Agora, por causa do meu pai estar aqui, é que não dá muito jeito..
Hoje, num dos telejornais da hora do almoço (mas disseram-me que o assunto veio à baila noutras estações) referiu-se o caso de um aluno de uma escola do norte do país, que está há mais de dois meses em casa, com uma crise depressiva. O rapaz, que teve que ser submetido a tratamentos devido a (segundo me pareceu) um tumor cerebral e sofre de deficiência auditiva grave, era perseguido por colegas que lhe gritavam ao ouvido: "Surdo!", e "Porco!", por não poder utilizar os balneários. Foi aconselhado à mãe da criança que a mudasse de escola, nem sequer de turma!
Há uns tempos atrás, a minha sobrinha, aluna do 1º ano, foi gozada pelas colegas porque estava... a vomitar. A professora, pedagogicamente, admoestou-as brandamente: que isso é feio...
É esta a escola, centrada no aluno, promotora dos valores da cidadania, da justiça, da democracia? Ou a que mais profundamente deseduca e nega esse mesmo sentido?
Valha-me seja lá quem for, que já não se aguenta tanta estupidez, tanta hipocrisia, tanto pavão inchado de pedagogia!!!

20 maio 2007

19 maio 2007

Atã pois...!




Dizia, dois dias atrás, um elemento (feminino) do governo de Israel, que o novo foco de conflito em Gaza só foi possível pelo facto de os países ocidentais encararem a situação de permanentes escaramuças e atentados na zona fronteiriça do país como normal.

E então?! A senhora não sabe que o judeu, para o ocidental o reconhecer na sua condição, tem que estar sempre a jeito de levar, pelo menos, uns calduços de vez em quando?

Guterres e o pântano



Segundo a mais recente sondagem da Universidade Católica, se houvesse hoje eleições, o PS voltaria a ganhá-las, agora com 46%.

O desempenho do primeiro-ministro, porém, obtém a classificação de 10.1, numa escala de 0 a 20. Os dirigentes máximos da oposição, nem à positiva chegam.

A melhor classificação conseguida por dirigentes políticos nacionais em lugares de topo é a do novo presidente de todos os portugueses, com... 13,qualquercoisa!

Antóno Guterres foi enganado em toda a linha pelos portugueses, até mesmo no motivo que o levou à saída definitiva.

16 maio 2007

A pornografia como problema filosófico

Nude on a table, John Currin


Dois vídeos do filósofo brasileiro Paulo Ghiraldelli (http://www.ghiraldelli.pro.br/):




Conhecem?

Filomena Moretti, nascida em 1973, em Sassari, na Sardenha. Tudo o mais que se acrescente é irrelevante. Ouçam-na! Em CD, no canal Mezzo: Albeníz, Villa-Lobos... Agora, chiuuuu!

http://www.youtube.com/results?search_query=Filomena+Moretti



Os rejeitados

Cristo carregando a cruz, Hyeronimus Bosch

O PS escolheu António Costa - derrotado, há uns anos, em Loures - para candidato à Câmara de Lisboa. O PSD, Fernando Negrão, derrotado em Setúbal. O PCP e o BE, os do costume, desde sempre claramente rejeitados pela população. O PP, ainda não se sabe, mas também não se vislumbra que personalidade "de peso" possa apresentar. Helena Roseta durou um mandato em Cascais e continua a desgraça do costume.
Pobres lisboetas! Pobre país!

14 maio 2007

Esta não me sai da cabeça!


Cheguei agora a casa e comecei a ver o Prós e Contras, onde se afirma que, muito provavelmente, a menina inglesa terá mesmo sido raptada por uma rede pedófila, um dos membros da qual se acoita, muito bem instalado, no Algarve, depois de ter sido condenado no seu país, Reino Unido, por crime de mutilação sexual.
Ainda anteontem (?), o criminologista de serviço do telejornal do Canal1 afirmava que existem 150 pedófilos ingleses assinalados em território português pela PJ, que, no entanto, não foi informada do facto pela polícia britânica, obviamente conhecedora do facto.
Limito-me a deixar aqui uma dolorosa interrogação: a de saber se as crianças portuguesas estarão em condições de satisfazer o mínimo legitimamente exigível pelo pior dos súbditos de Sua Eterna Majestade.
A bem do turismo e da hierarquia que Deus estabeleceu entre os homens.

08 maio 2007

Novo vómito


Desta vez, pela crueldade como a comunicação social portuguesa foca e acentua a responsabilidade dos pais da menina inglesa desaparecida. E, já agora, para o reafirmado tom xenófobo da das terras de Sua Majestade, pindérica deserdada do império.

06 maio 2007

Desta vez, a Câmara de Oeiras



Ao fundo da página 27 do PÚBLICO de hoje, insere-se a seguinte notícia:

"Há, na forma de estar do dr. Isaltino Morais, sempre um olhar para o amanhã, o que me é grato, porque acho que este país perde tempo demais a olhar para ontem. Desse ponto de vista, tenho aprendido alguma coisa." A declaração, que consta de uma entrevista de duas páginas publicada na última edição do boletim municipal de Oeiras, pertence a Emanuel martins, um dos dois vereadores que o PS tem na Camara de Oeiras.

O autarca aceitou no ano passado os pelouros oferecidos por Isaltino Morais, juntamente com o seu companheiro de lista Carlos oliveira, e desempenha, também por convite de Isaltino, o lugar de presidente do conselho de administração da empresa intermunicipal Laboratório de Ensaios de Materiais de Obras.

Na entrevista ao boletim municipal Oeiras Actual, Emanuel Martins afirma que, "mesmo correndo o risco de ser criticado", quer "dizer exactamente" aquilo que sente. E que sente, garante, é uma "surpresa" na sua experiência de trabalho com Isaltino. "A pessoa que eu conheci está diferente e confesso que para melhor, do ponto de vista funcional", salienta. "(...) superou a expectativa que tinha quando decidimos aceitar pelouros, opinião que é partilhada pelo meu colega de vereação", acrescenta.

Nas últimas eleições Martins foi o cabeça de lista do PS e grande parte da sua campanha assentou no ataque a Isaltino Morais por estar acusado de corrupção pelo Minstério Público.


Na sequência do artigo de opinião de Pacheco Pereira a que me referi ontem, faço ainda notar que:

-Não é este, longe disso, o primeiro mandato de Emanuel Martins como vereador da Câmara Municipal de Oeiras;

-Foi o PS quem, através de Martins, viabilizou este executivo de Isaltino, como lembrou Marques Mendes na semana passada a Judite de Sousa, a propósito do diferente posicionamento dos socialistas em relação a Carmona Rodrigues, o qual, contrariamente a Isaltino Morais, não só não foi acusado formalmente, como, a vir a sê-lo, o será por motivos bem menos graves do que os deste;

-Por razões desconhecidas, o Partido Socialista nunca nomeou candidatos de peso para a disputa de uma das câmaras mais importantes do país, nem sequer quando, anos atrás, Isaltino se encontrava politicamente mais fragilizado.

05 maio 2007

Ainda a Câmara de Lisboa


Ao contrário de Vasco Pulido Valente, penso que a imagem de Carmona Rodrigues sai reforçada de todo esta triste situação na Câmara Municipal de Lisboa. E que, por suspeição ou constatação, a da classe política ligada quer à direita quer à esquerda, sofre novo e alarmante golpe junto da opinião pública, nela incluída a dos funcionários que ontem se manifestaram. Sob esse aspecto, o artigo de opinião de José Pacheco Pereira, no PÚBLICO de hoje, é de uma lucidez exemplar, a que se junta um travo subjacente inequívoco de amargura e de desilusão.

"Depois da fome e da guerra/ da prisão e da tortura/ vi abrir-se a minha terra/ como um cravo de ternura!": o poema que Ary dos Santos, utilizando a palavra de ordem da esquerda chilena massacrada meses antes ("O povo unido jamais será vencido!"), começa com um equívoco. É que se a guerra tinha acabado, o mesmo não podia dizer-se ainda da fome - e, em certa medida, nem hoje. Com igual gravidade, podemos também hoje constatar que se acreditou que, com a abolição do partido único, adviria a participação política espontânea de todos os cidadãos, associados em partidos que exprimiriam o resultado da livre discussão, isto é, que a liberdade se consubstanciaria na construção de instituições e máquinas partidárias. E nem os cidadãos se empenharam na medida necessária, nem os partidos fizeram muito mais do que transformarem-se em maiores ou menores Uniões Nacionais, negociando entre si ao sabor das conveniências que a entrada para a União Europeia veio trazer. As condições alteraram-se, as mentalidades, pouco; e o que vemos na Câmara nada mais é do que o espelho de tudo isto.


Por este motivo, esqueceu-se (e houve desde o início quem ajudasse a fazer esquecê-lo, a menosprezá-lo ou a dificultá-lo e a colocar-lhe entraves) a participação dos "independentes", isto é, dos cidadãos discordantes ou não directamente dependentes dessas estruturas, pedra de toque de uma verdadeira democracia. É que o independente pode tornar-se para eles num empecilho ou num "empata". A postura do presidente da Câmara de Lisboa, descontando todos os erros que possa ter cometido durante o ano e meio que leva de mandato e aqueles em que incorreu nestes últimos dias, não é a de um político "à portuguesa", é essa exactamente: a de um "empata". E por isso mesmo é que ao cidadão comum, farto da corrupção e da intriga política que diariamente lhe dói no bolso e na paciência com que leva o existir, interessa, contrariamente ao que diz Pulido Valente, a subtileza da distinção entre arguido e acusado. O mais provável é que sejam "esses malandros" que estão a tornar "o gajo, que até é simpático e parece que é competente" no bode expiatório" das sempres entrevistas "negociatas". E seria (será?) muito interessante, aliás, ver a votação dos lisboetas, se Carmona Rodrigues se candidatasse à margem de qualquer partido.


Penso ter esboçado o suficiente acerca do meu ponto de vista, nestas linhas escritas à pressa. Tenciono voltar a ele brevemente, com maior detalhe e aprofundamento.

Coerência


Segundo uma notícia de primeira página da edição de hoje do jornal PÚBLICO, "Licínio Soares Basto, um dos empresários portugueses detidos no Rio de Janeiro no âmbito da Operação Furacão, é dos maiores financiadores do PS no Brasil e suportou grande parte das despesas da campaha no círculo fora da Europa nas legislativas de 2005. O empresário é também proprietário do imóvel onde está instalada a sede do PS no Rio de Janeiro." A operação policial levou à prisão de "um grupo acusado de negociar sentenças judiciais e decisões políticas para benificiar casas de bingo e de máquinas de jogo de azar. Licínio Soares Bastos também fora nomeado cônsul honorário de Portugal em Cabo Frio, um ano depois de Sócrates chegar ao poder, mas o processo nunca foi formalizado junto do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. A Polícia Federal brasileira suspeita que o português fosse o intermediário do grupo nas negociações para abrir casinos em Portugal e no Brasil."

Haja coerência!
Demita-se José Sócrates e o seu governo!
Auto-dissolva-se o Partido Socialista!

Quanto é que somos homens?! Hmmm?!

Povunido


Inicia-se este blog com uma saudação aos 400 funcionários do edifício central da Câmara Municipal de Lisboa, que expressaram publicamente o seu apreço por Carmona Rodrigues, enquanto, no dizer de um deles à RTP, "foi a única pessoa honesta" que até hoje passou por aquela casa. Não poderia a classe política portuguesa, da direita à esquerda, levar uma maior bofetada.