31 agosto 2007

A propósito...

... da leitura, no mesmo jornal, de um texto de Nuno Pacheco sobre o falecimento de Daniel Morais, adido cultural da embaixada portuguesa em Caracas, velho opositor do Estado Novo, companheiro de Soares no MUD, e que, ao contrário deste, não sentia nenhuma espécie de simpatia por Chávez, lembrei-me de duas notícias que li aqui há uns tempos, quando ainda não blogava, de uma das quais, pelo menos, todos se recordarão. Refiro-me ao célebre gesto de Bush, apontando com a mão para cima em resposta à pergunta sobre de onde provinha o aconselhamento que recebia nos momentos em que deveria tomar decisões cruciais. Imediatamente os comentadores de esquerda, Mário Soares inclusivé, lhe caíram em cima, falando em fanatismo religioso e mesmo em desiquilíbrio. O alarido foi de ordem tal que faz hoje parte do anedotário que qualquer pateta alegre debita sobre o homem.
Tenho a certeza de que todos os sábios e honestos ideólogos, mais ou menos ateus, que se preocuparam em denunciar às massas de cidadãos o secreto significado do gesto imperialista o fizeram também já em diversas circunstâncias, querendo com ele referir-se à sua intuição ou a um salto para a incerteza, pela imprevisibilidade das consequências de um acto numa situação cuja evolução depende de uma miríade de pormenores encadeados. Mas admito a possibilidade da interpretação segundo a qual, com o gesto, Bush se estivesse a referir a uma sua tentativa de, tal como o Papa, apelar para o espírito divino, único verdadeiro conhecedor do Bem, de modo a evitar um erro trágico. Admito e não me escandaliza. Uns agem em nome da razão (seja lá o que for que isso queira dizer) outros, em nome de Deus (dependendo do Deus de que falem), outros ainda em nome da Bondade Universal (e aí manda o conceito de "universo"). Só espero que, honestamente, façam o que melhor lhes parecer.
A segunda notícia vem complicar um pouco mais tudo isto. É que, pouco tempo depois, o presidente pré-vitalício da Venezuela discursou na ONU, no dia imediatamente seguinte àquele em que falara o presidente americano. Hugo Chávez começou por dizer: "Ontem esteve aqui o Diabo."
E a esquerda aplaudiu o fino, subtil e intrépido sentido de humor de que ele, uma vez mais, deu mostras. Mas, cá para mim, Chávez é mesmo fanático. Ou ainda pior.

Setinha para cima...


Os hospitais convertidos em entidades públicas empresariais viram os seus prejuízos reduzir-se em 50 por cento no primeiro semestre. Alguns, como o S. João, do Porto, deram até lucros. À partida, o ministro da Saúde está de parabéns pelos resultados apresentados. Resta agora saber se dependem da eficácia do novo modelo de gestão ou da diminuição da qualidade dos serviços prestados.
Este é o texto do PÚBLICO de hoje, incluído na rubrica "Sobe e desce", ilustrado com uma fotografia de Correia de Campos e com uma seta no sentido ascendente. Mas se, tal como é dito, não se sabe a que ou quem atribuir estes números, porquê esta "subida" que o jornal dá ao sr. ministro? Será que lhe deve favores?
Setinha a descer para o PÚBLICO...

24 agosto 2007

Mas ainda antes de ir: Maria João e Mário Laginha



Volto na próxima sexta-feira

Henri Rousseau

Até lá, entre tudo o mais que vos apeteça, leiam este novo e excelente texto do Alf, no Outra Margem.

Équelé por todó lado!


Poucas horas atrás, num Pingo Doce situado dentro de um pequeno centro comercial da área de Lisboa, depois de ter feito as minhas compras meti-me na fila para uma das caixas, onde fiquei atrás de um casal na casa dos cinquenta, ele numa cadeira de rodas. Dada a pequena dimensão do supermercado, nenhum dos que já se encontravam anteriormente na fila se apercebeu da aproximação dos três, situados ainda no corredor entre as prateleiras.
Conversando entre si, o casal aguardava a sua vez de ser atendido, embora a caixa estivesse destinada a atendimento prioritário de grávidas e deficientes. De súbito, irrompendo por trás de mim, uma senhora dirige-se a ambos, vociferando: “O senhor não precisa de estar aqui à espera! O senhor tem o direito de ser atendido em primeiro lugar! Vá, passe à frente!” E avançou em direcção aos outros clientes, apanhados de surpresa: “Desviem-se! Vá, avance!”.
Tanto ele como ela, igualmente surpreendidos pelo tornado de olhos arremelgados e voz comicieira, só tiveram tempo para dizer: “Não é preciso, obrigado! Não estamos com pressa! Deixem-se estar!”, recusando delicadamente e com um sorriso a passagem ao primeiro lugar da fila. Mas a mulher insistia, voltava atrás e abria caminho, agora em direcção a outra caixa, chamando o casal com acenos para aí serem atendidos em exclusivo, continuando a clamar pelos direitos de que ele deveria usufruir.
Perante a notória falta de disposição de ambos para acatarem a direcção da sua justa iniciativa, já depois de duas funcionárias, alarmadas pelo alarido, os haverem inquirido sobre o assunto, a mulher voltou para junto deles. Foi então que o homem, aproveitando uma pausa na respiração lhe disse: “Minha senhora, eu faço valer os meus direitos excepcionais, quando isso me é necessário, o que, de momento, não é o caso. Por isso, hoje aguardo a minha vez como qualquer dos outros que aqui estão.”
A senhora engasgou-se, tartamudeou qualquer coisa, mas não se deu por vencida e continuou: “Pois… mas deve exigir os seus direitos! Tem que exigir os seus direitos! Tem que exigir os seus direitos”. E afastou-se, a voz a diluir-se pelos corredores, deixando um rasto de comentários, mais ou menos favoráveis.
Esta cena lembrou-me uma outra que presenciei há uns anos, desta vez num hipermercado, também com um casal com as mesmas características. Ele deslocava-se ao lado dela, que empurrava um carrinho a transbordar, tendo passado à frente dos restantes elementos da fila. Quando já se encontravam longe da caixa, uma cliente comentou para uma outra, que a acompanhava: “Na próxima vez que vier às compras, também trago um deficiente…”.
Não é apenas no que respeita aos transgénicos que a tacanhez e a má-fé deste país se manifestam.

O assédio...

... sexual de que Macário Correia é acusado por um funcionária superior da Câmara de Tavira, surge num momento de assédio ao poder dentro do PSD. O caso tem, só por isso, fora o resto que é relatado no Diário de Notícias sobre o assunto, contornos nebulosos. Mas, lá por isso, não se resiste ao sentido de humor deste post!

Contrariamente à opinião da maioria...

... penso que os Gato Fedorento deixam muito a desejar como humoristas. Mas, de vez em quando, têm uma arrancada das (muito) boas. É o caso deste texto de Ricardo Araújo Pereira, publicado na revista Visão, de que tive conhecimento via Caldeirada de Neutrões (pensava eu - ver caixa de comentários).

23 agosto 2007

Razões deste post


Miguel Portas publicou ontem o seguinte texto:
Noticia o DN a execução da 400ª sentença de morte dos últimos 30 anos em Huntsville, Texas.A senhora Michelle Lyons, do departamento de justiça criminal, afiança tratar-se de “uma cidade muito simpática” onde vivem, pasme-se, “professores, artistas, reformados e estudantes”.Dave Atwood, da coligação para a abolição da pena de morte, pensa de modo bem diferente. Segundo este advogado, “os texanos parecem ter uma relação de amor com a pena de morte”. Agora percebo melhor o texano dos texanos, G.W.Bush. No fundo, lá bem no fundo, é tudo uma questão de amor…

Deixei-lhe hoje, à porta, este recado:
"Caro Miguel Portas:
Não se iluda. Se fizesse um inquérito de rua sobre o assunto no Portugal do século XXI…
A sério, nunca lhe passe pela cabeça propor um referendo sobre a pena de morte, está bem?
É que se o Vasco Graça Moura decidir fazer um poema sobre o assunto, bem… estamos num país de poetas, sabe disso.
Só para para evitar equívocos: sou absolutamente contra a aplicação da pena de morte.
Mas, lá por isso, não utilizo o meu ponto de vista para fabricar maniqueísmos políticos."
Fi-lo com algum desgosto.
Daí este post.

22 agosto 2007

O caso das borboletas trapalhonas


É este o título do texto de Vasco Graça Moura (de quem não gosto particularmente) publicado no Diário de Notícias de hoje e que transcrevo parcialmente de seguida:
O nº 3 do artº 255 do Código de Processo Penal manda fazer exactamente o contrário daquilo que a GNR fez no caso dos transgénicos: em flagrante delito, primeiro procede-se à detenção e, se o procedimento criminal depender da queixa e esta não for apresentada, depois é que a detenção é levantada.
A GNR não deteve ninguém. O ministro da Administração Interna ignorou a questão do flagrante delito!
A GNR identificou seis pessoas. Deixou escapar uma dezena de criminosos estrangeiros, mascarados e surpreendidos em flagrante delito, apesar de se dever pensar que 18 dos seus agentes deviam chegar para deter e identificar a horda. (…)
A destruição de uma coisa de valor elevado é um crime de dano qualificado. O artº 202 do CP diz-nos que o valor elevado, aqui, é o que excede 50 unidades de conta, ou seja, actualmente 4800 euros.
O ministro não explicou como é que a GNR pode ter avaliado no local se o valor da coisa danificada era ou não elevado… mostrou-se candidamente convencido de que a GNR percebe mais de áreas de milho, de toneladas produzidas e de cotações no mercado, do que do cumprimento dos seus próprios deveres.
Esqueceu-se ainda de que só foi destruído um hectare, mas a plantação tem mais 49. dando de barato que a horda obedeceu à GNR e cessou as malfeitorias logo que intimada por ela (ministro dixit), torna-se evidente que, sem a intervenção da autoridade, a destruição teria sido levada a toda a propriedade.
Logo, estar-se-ia sempre, pelo menos, perante a forma tentada de um crime de destruição de coisas de valor consideravelmente elevado.
E isto, para não falar de outras tipificações penais em que vários factos poderiam ser subsumidos, como as de instigação pública ao crime, apologia pública desse crime, participação em motim, ou incitamento à desobediência colectiva.(…)
As espertezas saloias não ficam por aqui. O ministro da Agricultura precipitou-se a garantir o apoio do Estado ao proprietário.
Luís Grifo, o técnico que presta assistência àquela plantação de milho, dissera à Lusa que a parcela destruída deveria produzir cerca de 30 toneladas.
Mas o ministro da Agricultura pôs-se a engrossar rapidamente umas contas para concluir que 17 toneladas de milho esperado deveriam corresponder a um prejuízo de uns 3900 euros!
Assim, o primeiro e prestimoso apoio do Estado consistiu em barbear nada menos de 13 toneladas à normal expectativa do produtor…
Porquê? Porque era preciso fazer tudo para se ficar muito abaixo dos 6900 euros, que excederiam o valor elevado de que fala o artº 213 do Código Penal. De outro modo, a GNR ficava logo em xeque.(…)
Na sua arrogância, o Governo achou que não precisava de fazer mais do que um comunicado pateta.
Mas o PR deu-lhe um puxão de orelhas a doer, afirmando que quem tem o poder de fazer cumprir a lei não pode deixar de utilizá-lo.(…)
E Sócrates mostrou até que ponto é medroso. Não tem só medo de ir à Madeira, que é uma parte integrante do território nacional onde ele não ousa pôr os pés. Tem medo de aparecer a dar a cara perante os portugueses.(…)
Foi por isso que o Governo pôs dois ministros a fazerem assim uma figura de de borboletas desastradamente esvoaçantes e caricatamente trapalhonas..

21 agosto 2007

Continuando a blogar...


... encontrei dois posts - este e este - com muito interesse e, o que é bastante importante, escritos com (bom) humor.

Andres Segovia: Heitor Villa-Lobos e J. S. Bach



O chefe recomenda...

Arcimboldo


... os pitéus abaixo indicados:
- no 31 da Armada, este e também este;
- no Caldeirada de Neutrões, este;
- no Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos , este;
- n' O Jumento, este.

20 agosto 2007

A ser verdade...


Na segunda página do jornal Associação, editado pela Associação Portuguesa de Deficientes, que me deram hoje a ler, chama-se a atenção para o facto da proposta de Lei de Aposentação do Governo não contemplar nenhum regime de excepção para pessoas com deficiência.
A ser verdade, não há que temer as palavras: um governo que propõe algo deste calibre não passa de um bando de canalhas, a quem deveriam ser retirados todos os direitos políticos.

Ainda Luciana Souza: cantando Neruda e com a Maria Schneider Orchestra



A descobrir: Luciana Souza e Romero Lubambo

19 agosto 2007

Já agora...

Henri Rousseau, O sonho
... quero referir este e mais este post publicados no Outra Margem. Tratam de um tema muito caro ao já falecido grande físico e autor de textos de ficção científica Fred Hoyle, para o qual chamo frequentemente a atenção de quem me ouve. Pela oportunidade e pela clareza dos textos, um abraço de parabéns ao Alf.

Tinha de dizer isto!


O energúmeno representante de qualquer coisa verde que acabei de ouvir no telejornal da 2 afirmou que não houve violência por parte dos “ecologistas”, que se “limitaram a destruir” parte da plantação de milho transgénico, abandonando o local quando as autoridades a tal os intimaram. Violência “até certo ponto compreensível”, continuou a aberração, foi a do comportamento do agricultor e dos amigos, por questões “emocionais”. E não vê a necessidade de abrir um inquérito público por causa de uma coisa destas.
E se calhar ainda há quem diga que é um gajo bem intencionado!

Hoje não faço um...


... volto amanhã.