16 agosto 2007

Será do Simplex?


A comunicação social portuguesa que, no ano passado, noticiava o simples acender de um fósforo, raramente nos deu, até agora, o espectáculo de um incendiozito em Portugal. Só na Europa e nos Estados Unidos.
Tch! Tch!...

Avante circular


Encontrei hoje na minha caixa do correio um folheto da próxima festa do Avante!. Folheto em que se anunciam coisas tão interessantes como uma homenagem ao Frank Zappa que, aqui há uns anos, era não um autor "cuja obra, para além de invulgarmente extensa e extraordinariamente multifacetada, possui ainda várias outras características que a tornam única no panorama musical da segunda metade do séc. XX", mas mais uma anarquizante personagem da cena do espectáculo burguês, destinada a afastar os jovens da revolução. E em que Sam the Kid, debitador de discursos machistas e reaccionários de um primarismo confrangedor, é incluído nas cabeças de cartaz.
A esquerda (toda ela) é hoje uma mosca tonta em volta de um pedaço de qualquer alimento que lhe permita o prolongamento do estertor próprio do fim a que se condenou.

14 agosto 2007

Lembrando

António Gedeão

ESTATÍSTICA
Quando eu nasci havia em Portugal
(em Portugal continental
e nas ridentes,
verdes e calmas
ilhas adjacentes)
uns seis milhões e umas tantas mil almas.
Assim se lia
no meu livrinho de Corografia
de António Eusébio de Morais Soajos.
Hoje, graças aos progressos da Higiene e da Pedagogia,
já somos quase dez milhões de gajos.

07 agosto 2007

Ainda antes de ir de férias por uma semana...

Henri Rousseau
... uma chamada de atenção para este texto, cujo interesse vai muito para além dos interesses e das áreas profissionais de cada um.

Volto na próxima terça-feira. Até lá, fiquem em óptima companhia: Anna Netrebko e Rolando Villazón





Há qualquer coisa que me escapa...


Pelo menos metade da população portuguesa deve ser accionista do BCP. Isto, a avaliar pela importância que a comunicação social tem vindo a dar às lutas internas no banco. A não ser que seja ao contrário: se calhar serão apenas eles e mais uns quantos, os únicos portugueses...

06 agosto 2007

Inch Allah!


No Iraque, um bombista-suicida matou cerca de quarenta pessoas, a maioria das quais crianças. Allah (louvado para sempre seja o seu nome!) abençoou-os com o privilégio de não terem sido mortos pelo exército de Israel. Mas para não se dizer que Ele é injusto, também não lhes deu o mesmo destaque na comunicação social.
Nha, nha-nha, nha-nha, nha!

O Bom Selvagem


Esqueça o pequeno castigo físico do estalo ou palmada, ainda que seja só um gesto simbólico "para sacudir o pó" da roupa do seu filho. O Conselho da Europa, em que Hammarberg é comissário dos direitos humanos, quer acabar com isso, tanto em casa como na escola, aconselhando uma prática que já existe na Suécia. São sinais destes que fazem a evolução das sociedades.
É nestes termos que o PÚBLICO de ontem fala da intenção do sr. Thomas Hammarberg, a quem atribui uma setinha em sentido ascendente.
Falta agora à Europa , sob a égide de Rousseau, legislar sobre o amor de mãe.
Comentarei desenvolvidamente o assunto, logo que tenha oportunidade para tal.

05 agosto 2007

Ainda a propósito de alterações climáticas


Ontem, passei o dia em Tomar. Um calor desgraçado! Seco. Daquele que eu detesto!
Na volta para Lisboa, ao passar por Alhandra, gotas grossas caem sobre o pára-brisas. Não, não é o carro da frente a lavar os vidros, é chuva mesmo! Uma nuvem negra, quase sozinha, no céu, pela qual ninguém dera, desfazia-se por cima da A1! Espanto da prole!
E diz a minha tia (aquela de quem falei aqui recentemente): "Nunca ouviram o ditado: 1º de Agosto, 1º de inverno?".

03 agosto 2007

Los tienen en su sitio!

Lawrence Argent, Colhões
Face a uma praga de ratos estimada em 350 milhões de bicheza motivada por um inverno mais quente, os agricultores de Leão e (salvo erro) Castela organizaram uma marcha de protesto, pelo facto de as autoridades espanholas não terem tomado providências na devida altura. É que ele há ratos por todo o lado, devorando as colheitas, ou mortos, aos milhares, nos rios! E começam a surgir diversos casos da designada "febre dos coelhos"...!
No meio da manifestação, uma criança transportava um cartaz onde se lia: "De topos y ratones/ estamos hasta los cojones!" - "De toupeiras (estúpidos) e de ratos/ estamos até aos colhões!".
Felizmente que se trata de espanhóis... Por cá, os agricultores ainda correriam o risco de serem demitidos de qualquer coisa e processados por perversão de menores.
... da-se..!

Nota final de hoje


Depois de ter publicado o post abaixo, dei conta de que Alf, do blog Outra Margem (cujo link passou, a partir de hoje, a estar disponível aí ao lado) tinha, entretanto, publicado dois textos sobre temas interligados com o que escrevi: este, referido ontem, segundo verifiquei, por Range-o-Dente, e também este outro, com a data de hoje.
Daqui envio um abraço para ambos, pelo excelente trabalho feito ao longo da existência dos respectivos blogs.
Entretanto, a propósito do tema de um post que publiquei hoje, sobre o afastamento da directora do Museu Nacional de Arte Antiga, vejam também este, no 31 da Armada.

02 agosto 2007

A minha tia, o azeite e o CO2

Hyeronimus Bosch, O Jardim das Delícias (painel central)

Escrevi este texto quase de jacto. Não tive tempo para o burilar nem para o complementar devidamente.Mas decidi publicá-lo mesmo assim, remetendo essa fase para respostas a eventuais comentários. É que já deveria estar em férias, caramba!

Uma tia minha, de 81 anos, sempre me disse que o pai dela, meu avô materno, lhe ensinara que os anos - as condições meteorológicas - se repetem a cada quatro décadas. Camponês, ligado à agricultura, teria ele próprio adquirido este conhecimento por transmissão dos mais velhos. O meu pai, que também viveu numa aldeia do sul do país até aos 25 anos, nunca se esquecia de registar de que lado estava o vento no dia “da Sra. das Candeias”, em Janeiro: conforme a direcção em que soprasse, assim se seguiriam 40 dias de chuva ou de seca. E eu próprio, que vivi com ele no que foi, por poucos tempo, uma região agrícola dos arredores de Lisboa, antes de passar a dormitório, habituei-me, no decorrer desse período, a observar empiricamente as regularidades e as variações climáticas da região da foz do Tejo.
Qualquer amador de psicologia tem conhecimento de que a memória humana é, em geral, muito fraca no que respeita ao clima e que, talvez como em nenhum outro dos seus sectores, ela constrói os seus arquivos à medida dos desejos, conveniências e expectativas dos sujeitos. E que, por outro lado, o desejo de estabilidade, que em certa medida nos comanda, origina a criação de abstracções como a uniformidade e a perenidade de um padrão de condições climatéricas que caracterizaria, por exemplo, cada uma das quatro estações do clima temperado. Daí que tenhamos raríssimas recordações reais de qualquer uma delas lhe corresponder verdadeiramente.
A tia de que comecei por falar, dona de uma memória invulgar a este nível e que tem as suas anotações em dia, de cada vez que ouve falar em catástrofes do clima, assanha-se. Apela para os registos que fez (só para ver se o pai e os “antigos” tinham razão!). Para ela, as pessoas têm má memória, gostam muito de se alarmar e “eles”, por sua vez, têm que arranjar notícias para ganharem dinheiro! “Então não se lembram do que aconteceu na altura tal de há não sei quanto anos?! Aquele ciclone que…” E desenrola o tecido das recordações.
É claro que as regularidades existem, mas só em certa medida. Nem mesmo a minha tia está convencida de um determinismo inexorável quanto aos anos e aos meses em que se deverá abrir ou fechar o guarda-chuva ou o guarda-sol. “Ora, então, as coisas não são como a gente quer…!, diz ela com a resignação de quem viu morrer-lhe a única filha, deixando-lhe a saudade e o consolo nos netos. E, na sua pequena sabedoria, nem sequer suspeita de que informaram o sobrinho, quando ele andava no secundário, de que as regras do clima já foram outras e que, segundo apontavam os estudos científicos, a partir de 1980 (que precisão!) entraríamos numa outra era glaciar, o que representaria novas alterações. E também que encontramos por todo o lado, nas rochas, vestígios de espécies desaparecidas há milhões de anos e outras até que parecem ter reaparecido e desaparecido outra vez após o primeiro desaparecimento. Nem sabe que a serra de Sintra já foi uma ilha ou que a fome - um dos principais justificativos da necessidade da conquista de uma Ceuta rica em cereais, em 1415, e elemento omnipresente nos contos populares portugueses - tem por raiz as inúmeras e terríveis secas que, pelo menos desde há séculos, o território português sofreu. E ainda dessa coisa do CO2.
O CO2, tem variado, ao longo da minha vida, em sentido inverso ao do azeite. Da respeitabilidade e do estatuto económico e cultural de gordura tradicionalmente usada na alimentação e não só, o azeite passou em poucos anos ao ostracismo, por via do vá de retro dos médicos que, no período do desenvolvimento da indústria das margarinas, o consideraram, vá-se lá saber porquê, como um perigoso inimigo público da saúde, raiz única de diferentes enfermidades e achaques. Eu, à altura inocente criança, apreciadora do seu sabor nas batatinhas e saladas, bem protestei contra a sua substituição por aquela gordura pastosa execrável - que a minha mãe, em questões de saúde, era quase inabalável - mas não tive sorte nenhuma e só depois de me tornar independente pude voltar ao saudoso azeitinho. De súbito, anos atrás, estudo americano dixit, e a dieta mediterrânica passou ao topo do recomendável e, com ela o meu querido azeite. Gozei o triunfo, claro.
Com o dióxido de carbono foi ao contrário. No secundário, além de me instruírem, perdão!, educarem sobre a respectivas composição química e fórmula molecular, disseram-me que a fotossíntese, que liberta o oxigénio vivificador para a atmosfera, era realizada pela sua presença e fixação. Mais: falaram-me de que ele também é indispensável à vida e que as bolhinhas dos diversos refrigerantes, e mesmo das águas minerais, são de CO2. Nada acerca da sua influência no clima (do buraco no ozono, nem sequer se suspeitava, os registos são de fresca data). E, de repente, “não mais que de repente”, bum!!!, aí está o aquecimento global e o dióxido de carbono, tão ligado à preservação da vida segundo me haviam dito, andava nas bocas do mundo como inimigo número um da mesma. Embora não entrevisse nenhuma margarina metida na coisa, compreenderão a instintiva desconfiança que isto me provocou, agravada por já ter visto entretanto “O último tango em Paris”. Não por ele ter influência climática, o que é óbvio: são inúmeros os factores que determinam o clima, daí a pouca rigorosidade das ciências que o estudam. Refiro-me ao facto de, exactamente por isso e tal como o azeite, ele servir para explicar tudo. O que é a antítese de uma postura científica ou sequer sensata. E, ao fim de alguns anos, continuo a pensar o mesmo: aqui há gato…!
Em primeiro lugar, relembre-se que aquilo a que, a partir da segunda metade do século XIX, chamámos “ciência” em vez de, como até lá, “filosofia natural” (termo, se calhar, mais exacto) assenta no princípio de que as regularidades da sucessão causal dos fenómenos observáveis pelos nossos sentidos e respectivos prolongamentos (microscópios, telescópios, detectores de infra-sons, etc., etc.) correspondem a uma estrutura que os explica e justifica e, por isso, permite prever a sua continuidade. Essa estrutura nada mais é do que um conjunto de ritmos estabelecidos, isto é, de um sistema de proporções, portanto de relações do tipo que o nosso intelecto classifica como matemáticas (deixo de lado a etimologia da palavra). “Fazer ciência” significa, sob este ponto de vista, determinar as condições estruturantes desse dinamismo que designamos global e comummente por Natureza ou Universo, noção de que nós próprios somos parte (neste sentido, o termo “meio ambiente” é incorrecto). Mas, “fazer ciência” significa assim, implicitamente, na mesma perspectiva, encontrar o lado “mecânico” dessa mesma Natureza ou Universo e, em consequência, do ser humano.
É no século XVII que encontramos explicitado pela primeira vez (julgo eu) o conceito de corpo enquanto máquina. Não por acaso, numa das obras de Descartes, matemático e estudioso do sistema da circulação sanguínea e dos corpos em geral (honni soit qui mal y pense!), além de filósofo futuramente influentíssimo no pensamento ocidental. A noção de “o meu corpo” é estranha à medievalidade, que não encarava o ser humano desse modo. Daí as conhecidas tentativas do século XVIII de criar o primeiro autómato, que culminam, no plano literário e com uma inflexão já romântica, em Frankenstein. Mas no monstro saído da imaginação de Mary Shelley - ou não se tratasse de uma mulher! - encontramos já presente, associado à inteligência, o par “emoção-vontade”, característica do organismo vivo que lhe confere um comportamento apenas muito parcialmente previsível, algo que Descartes ignorou, ao ligá-la estritamente à racionalidade, entendida como capacidade lógica operatória. O carácter de menor rigor que as chamadas ciências humanas inevitavelmente possuem deriva do seu objecto de estudo ter uma vontade que se espelha na infinita variedade de respostas que podem dar ao mesmo estímulo.
Deixando de lado (uff!) as contradições e, consequentemente as sementes e os caminhos da contestação (emergidos no terceiro quartel do século XIX, com Husserl ou Nietzsche) que o próprio pensamento cartesiano gerou relativamente à perspectiva que tomava forma no seu tempo e de que era, sem o saber, porta-voz, a física do século XX chegou, através da teoria quântica, a conclusões semelhante, em certa medida, às dos vitalistas. O comportamento da própria “matéria não viva” não era totalmente determinável e os princípios matemáticos não traduziam por inteiro a sua estrutura. O (pelo menos, por nós) imprevisto, existe. Nem sabemos se jogar aos dados é ou não parte intrínseca do ser divino.
Curiosamente, o desejo de compreensão, no sentido da estabilidade e segurança, chegou à conclusão de que nada é estável nem seguro. Mas o desejo permanece, empurrando-nos para a busca de níveis de conhecimento cada vez mais alargados e aprofundados. Mesmo as culturas do extremo-oriente, desde sempre assentes na ideia de eterna impermanência e dinamismo do todo, foram arrastadas pela evolução social e histórica no sentido do saber científico. Esse desejo é o mesmo que origina a formação das diferentes comunidades e do poder que lhes garante a observação das regras que as proporcionaram e lhes dão continuidade. E é aqui que a coisa se complica.
O poder assenta num consenso sobre o conjunto de saberes admitidos como definitivamente verdadeiros e que alguns conhecem melhor do que todos os outros, até mesmo o valor e a oportunidade da violência e da opressão. Representa o domínio de uma concepção que se pretende definitiva e, por isso, é, sob esse ponto de vista, reaccionário. Durante mais de dois séculos, as universidades ibéricas contemporâneas da descoberta da existência de outras terras e outros seres, continuaram a ensinar o que qualquer marinheiro sabia que era errado. As coisas só se alteraram com a progressiva aceitação e adopção do modelo newtoniano, que permitia uma nova fundamentação respeitável do exercício do poder, um novo “mapa”.
O poder contemporâneo, porém, cada vez menos pode esconder a impermanência e a contingência. Ela está por todo o lado, à vista de todos e reflectindo-se, em última instância, na falta de valores únicos e cimentadores, a começar nos que dizem respeito a algo tão elementar como o consumo. A contestação, clara ou oculta, é cada vez maior e ameaça os fundamentos de qualquer corpo social. E a consciência planetária, quer dizer, da solidariedade humana enquanto espécie em direcção a um futuro que passa pela sua expansão para outros habitats, é algo que só passa pela cabeça de uns quantos, formados em sociedades que lhes permitiram maiores possibilidades de pensarem em tal coisa (as sociedades ocidentais). Face à nova situação, o poder adoptou, a meu ver, uma jogada aparentemente suicida.
Popper tinha em comum com um primo meu, agricultor, o ficar com os cabelos em pé quando ouvia falar de ecologistas. Para o filósofo, os ecologistas não passavam de hipócritas que escamoteavam, entre outras coisas, o factor decisivo do excesso de população; para o Chico, aquele amor pela natureza - que ele também tem, note-se - é demasiado, cheira-lhe a manias de pessoal da cidade, que pensa que “a outra gente é estúpida”. Para além da quota-parte de razão e de erro que ambos possam ter, penso que as coisas podem ainda ser vistas por outro lado.
Os ecologistas foram, no seu início, vistos com desconfiança e mesmo com hostilidade pelo poder político. Eles iam contra a “lógica do desenvolvimento”, portanto, dos interesses económicos movimentadores da iniciativa privada descontrolada e inconsciente e, sob esse aspecto, a sua luta era justificável. O problema é que, desde o começo, essa luta se encontrava inquinada pelo conceito cultural milenar do mundo como “jardim do Homem”, um jardim de características de eternidade, isto é, de modelo imutável. Um jardim de que o ser humano trataria como seu, a morada da sua imortalidade. E isto redundou não apenas no tipo de conceitos e de acções opostos aos que deveriam ser os de um movimento ecologista atento ao dinamismo do universo, como na sua rejeição por parte do poder político, a quem estragava os conluios e as negociatas, permitidas pela religião do “progresso”.
O mal-estar pela perda de um idealizado e obscuro paraíso perdido, fosse ele o dos atlantes, o dos hebreus, dos hiperbóreos, do bom selvagem, dos extraterrestres, da infância mitificada ou qualquer outro, aumentou ao longo da década de 70 e, dessa maneira, a ecologia tornou-se facilmente num escape para as multidões descontentes e desorientadas com a instabilidade e efervescência dos tempos, bem como com as perspectivas e a monotonia do tipo de vida que lhe é proporcionado pela sociedade ocidental (o consumo de drogas é outro escape para a pressão resultante da falta de um “mapa”). "Se não podes vencê-los, junta-te a eles - o suficiente, pelo menos para te manteres o domínio da situação" tornou-se então na nova estratégia política para enfrentar a situação.
Aos poucos, já se haviam entretanto formado partidos ecologistas da ou ligados à esquerda política, capitalizando estes factores para os seus objectivos de ataque ao capitalismo. Ao mesmo tempo, porém, as preocupações “ecológicas” começaram a fazer parte da propaganda eleitoral de todos os partidos. Até que chegaram aos programas de governo. E, obvia e necessariamente, ao saber oficial, à educação.
Poder-se-ia falar, melhor dizendo, de endoutrinação. No primeiro ciclo de ensino, as crianças recebem hoje, desde logo, noções básicas de “conservação” do meio ambiente, à mistura com conceitos fundamentais que perspectivam a Terra como “terra prometida”. O planeta não é apresentado com parte de um dinamismo de que o universo é expressão e de que, portanto, a nossa acção faz ela própria parte; o ser humano assume o estatuto de guardião de um equilíbrio, mais ou menos inalterável. E, no restante ensino básico bem como no secundário, em simultâneo e contraditoriamente com a informação sobre o dinamismo da natureza, observável nas suas constantes transformações, repetem-se, aprofundam-se e consolidam-se as informações ideologicamente orientadas, transmitidas na primeira fase.
É aqui que entra em cena o CO2. Seria difícil explicitar ao comum dos cidadãos toda a complexidade das relações entre os factores envolvidos no aquecimento global. O CO2, produzido pelo ser humano em maior quantidade do que nunca até hoje, está assim mesmo a jeito para servir de bode expiatório: a sua fórmula constitui uma sigla publicitária (propagandística?) de alta eficácia, unifica e simplifica o tipo de protestos e a qualidade das atentas medidas dos atentos governantes em prol dos governados. Além disso, permite o estabelecimento de certezas, que dão auto-estima a quem as possui, ao mesmo tempo que os investe de um poder semi-divino sobre um mundo transitório.
A argumentação é profundamente anti-científica. Nunca, como referi no início, uma tão grande complexidade de uma tão enorme gama de fenómenos é produzível e explicável por apenas um dos elementos em jogo, ainda por cima, devido à falta de registos anteriores, sem qualquer prova de uma efectiva relação de causa-efeito, em situações passadas. E torna-se patético ver os mesmos estudantes que mal sabem soletrar e que chumbam massivamente nos exames de física e de química, que terão mesmo dificuldade em explicar a fórmula molecular do dióxido de carbono, enrolar a língua nos piercings do escândalo e da proibição paternas na rebeldia institucionalizada da enumeração de todos os malefícios do CO2.
A “ideologia” religiosa bíblica transfere-se, assim, cada vez mais para a do jardineiro profano, os saberes e os cuidados com a “qualidade de vida” e com a construção do “ambiente ideal” servindo hoje, à falta de melhor, de suporte ao poder que por todos vela e que, do mesmo golpe, as pode desrespeitar de vez em quando, se a isso o obrigarem interesses maiores daqueles a quem serve. É claro que, no meio disto, ficam de fora as medidas verdadeiramente importantes, as da adaptação necessária à continuidade da espécie humana no meio das transformações em curso. É claro que, a partir de certa altura, o poder se assemelhará a alguém que já não tem braços que cheguem para acudir a tanto rombo. E depois é que vão ser elas. Mas, por agora, vai dando para o gasto.
Veio tudo isto a propósito das inundações em Inglaterra. Após a situação ter acalmado, uma manifestação (claramente encenada para os órgãos de comunicação social que, gostosamente e no cumprimento da missão a que se propuseram, lhe davam o devido relevo) gritava: “enough!” e uma das manifestantes, interrogada sobre o motivo de ali estar, afirmava que era porque estavam “zangados”. Não disse com quem, mas é evidente que era com “eles”.
Vou ver se falo disto ao Chico e à minha tia.

O ouvido da arquitecta

Helena Roseta ironizou, a propósito do BE, dizendo que agora "já se sabe a quem é que o Zé fazia falta".
Aconselho-lhe uma ida urgente ao otorrino. É que Mário Soares está farto de dar com a língua nos dentes e desde há muito tempo!

Tristes continuidades

Brueghel, A expulsão dos Anjos Rebeldes
A directora do Museu da Arte Antiga de Lisboa não foi reconduzida no cargo, por criticar a política do governo no plano desse tipo de instituições. Os responsáveis políticos do Partido Socialista são a caricatura do parolismo autoritário, trôpego e bacoco, do 24 de Abril.
Jorge de Sena dizia que, desde há cinco séculos, a principal profissão dos portugueses é a de exilado. Manuel Bandeira definia o brasileiro como um português à solta.
Em vez de subsídios à maternidade, não seria melhor que José Sócrates tivesse olhado para os números em que situa de novo a emigração e os atribuísse àqueles que decidirem ficar?

01 agosto 2007

Erros

Brueghel, O Triunfo da Morte
Os americanos cometeram um erro, ajudando a armar as petromonarquias? Sem dúvida. Mas resta saber se, atendendo à postura dos europeus em todo o processo da evolução da situação no Médio Oriente e no Afeganistão desde há muitos anos, Bush teria qualquer outra solução. A culpa não morre solteira nem monógama.
E Israel, no meio disto tudo? Há já quem ande por aí a esfregar as mãos de contente. E não são apenas os magnatas do armamento.

31 julho 2007

A quem venha visitar-me

Não prometo nada de especial para hoje e amanhã: vou estar a trabalhar, felizmente em algo que me agrada. Espero voltar mais "em força" na quinta-feira.
E, já agora, sabem quem é o Edson Cordeiro? Se não sabem, vão ao post abaixo. E procurem ver o extraordinário espectáculo que deu em Paris, em 2003.

Edson Cordeiro

30 julho 2007

Ora eis aqui...

Henri Matisse


... um bom texto.

Ando cá desconfiado...

"Acho injusto que Manuel Alegre olhe para o melhor Governo que se formou em Portugal depois do 25 de Abril com olhos de cego", disse Emídio Rangel no Correio da Manhã.
Na tragédia clássica, a cegueira é acompanhada de clarividência. E eu sempre desconfiei de que o sr. Rangel é zarolho. Porque isto, em terra de cegos...

Antes assim...


... do que assado!

29 julho 2007

28 julho 2007

Sonhos maus

Goya, Disparates
Uma peça informativa transmitida há pouco na RTP1 dava conta, através das palavras do jornalista e de diversos estudantes dos PALOP's que frequentam a Universidade Lumumba, de Moscovo, da atitude racista dos russos. A Universidade encontra-se sob vigilância permanente, saídas do recinto, só em grupo; conseguir emprego, nem pensar; namorada eslava, muito arriscado.
Em menos de 20 anos, foi-se o internacionalismo inculcado durante sete décadas de educação comunista? A solidariedade para com os pobres e subdesenvolvidos passou a constituir um rasto minoritário?
Ou, como tantos crentes desiludidos que de lá voltaram antes da perestroika (conheci alguns) nos deram testemunho, tudo não passou de uma encenação revoltante?
E há outras.

Então não é?!

Chirico, Os Puritanos


Tivesse já o Governo legalizado a prostituição e Fernando Charrua nunca seria suspenso. Considerando que actividade de trabalhadora do sexo é vista (com ou sem razão) como sendo desenvolvida por mão-de-obra não qualificada e, portanto, de menores recursos económicos, o professor poderia mesmo ser elogiado por, implicitamente, ter sugerido que o sr. primeiro-ministro, pesasse embora a sua origem humilde, é pessoa de enormes virtudes e méritos, ao lograr alcandorar-se a um dos mais altos cargos da vida pública. Haver-se-ia deste modo evitado que Portugal passasse por tão terrível sobressalto e, em vez de rictus de desgosto e amargura, ter-se-iam visto sorrisos de pura luz nos rostos dos portugueses ao ouvirem a expressão modelar de Charrua, pela visão de futuro que um tal governante lhes sugeriria.
Apela-se, pois, ao sr. eng. José Sócrates que, na trilha do Simplex e com objectivo de libertar o país de algumas das inutilidades que lhe atravancam o progresso, entopem os tribunais, diminuem o estatuto da mulher e lançam o opróbio sobre os governantes, legalize em breve aquela que, incompreensivelmente, sendo tida como a mais velha profissão do mundo, é, talvez, a menos reconhecida.
A bem da nação!

27 julho 2007

Efemérides confrangedoras


Neste país
em diminutivo
juizinho
é que é preciso.
Alexandre O'Neill escreveu este poema há cerca de quarenta anos.

Não é bem assim...


"José Sócrates é uma espécie de Alberto João Jardim da União Europeia.", escreveu anteontem João Miranda, no Blasfémias.
Penso que a comparação é demasiado lisongeira para Sócrates. O que o distingue de qualquer outro responsável político europeu é, desde logo, o facto de gritar como só um caudilho sul-americano e de ser tão demagógico e incapaz como qualquer deles. De Jardim, distingue-o a falta de argúcia e de eficácia governativa.

Brincalhão!


Ontem, no PÚBLICO, Manuel Alegre disse, de novo, mais do mesmo, ao que o PS respondeu, desta vez através de Almeida Santos, com o que o que é habitual. Nem uma brisa agitou as águas do pântano.
Em contrapartida, na página imediatamente anterior àquela onde se podia ler o triste (por mais do que uma razão ) texto de Alegre, podia ler-se um outro, do historiador Rui Ramos. Pela acutilância, pelo rigor, bem como pelo subtilíssimo sentido de humor, que culmina no penúltimo período, daqui lhe envio uma enorme "chapelada". Façam favor de se deliciarem.

Alguém notou na semana passada que as eleições de Lisboa produziram uma abstenção digna de um referendo. E foi de facto assim, como um referendo sobre o sistema partidário, que quase toda a classe comentadora interpretou a votação. O resultado não ofereceu dúvidas a ninguém, o povo soberano teria mostrado o seu desprezo pelos partidos.
A discussão sobre os partidos políticos tem sido recorrente em Portugal. Os partidos decepcionaram-nos constantemente. Umas vezes, como durante a monarquia constitucional, porque se entenderam, e assim reduziram a política, que desejaríamos feita de diferenças claras e confrontos abertos, ao tédio da rotação. Outras vezes, como durante a I República, porque não se entenderam, e assim sujeitaram a governação, que queríamos estável e tranquila, a rupturas e mudanças constantes. Neste assunto, há muito que não há mais novidades.
A verdade é que, mais do que os partidos, foi a própria ideia de partido político que ofendeu geralmente os portugueses. Mesmo os mais empedernidos laicistas (e sobretudo eles) quiseram dar à vida política a unidade e a evidência da vida religiosa. Tal como a igreja, também a nação foi pensada como existindo naturalmente unida. Tal como o credo da fé, também o bem público foi concebido como algo simples e óbvio para todos os corações puros. Postas as coisas assim, qualquer divisão só pôde ser entendida como produto e uma maldade facciosa. Para além desta, houve outra razão contra os partidos. Desde há muito que o Estado é, em Portugal, um dos grandes empregadores da classe média e regulamentador de quase tudo. A possibilidade de um “partido” tomar conta dessa máquina para lhe dar um uso sectário assustou e irritou sempre os portugueses. Foi assim que desde que há partidos se começou a sonhar com um regime “livre” deles, apenas focado no bem comum e aberto a todos os cidadãos de boa vontade. O salazarismo quis ser isso. Felizmente, a memória do salazarismo também tem sido, nos últimos anos, a melhor vacina contra isso.
Mas mesmo nos limites do corrente respeito democrático pelos partidos, é possível dizer muito mal deles, como se viu na semana passada. Nem sempre com jeito ou razão. Os actuais partidos não são simplesmente uma selecção dos piores: na década de 1970 socializaram politicamente as elites da época. E continuam a ser máquinas eficazes, controlando quase exclusivamente a representação política. Não por acaso, a maior parte das candidaturas “independentes” em eleições autárquicas traduzem, não a irrupção de forças novas, mas fraccionamentos e dissidências nas estruturas partidárias locais.
O grande mal atribuído aos partidos deste regime é o de terem muito “aparelho” e poucos militantes. Porque é que há tão pouca gente nos partidos? Em certa medida, por boas razões. Não vivemos numa sociedade onde o acesso a serviços ou empregos públicos dependa de cartão partidário. Nem sequer é necessário ser filiado para ocupar cargos políticos. Também temos outros meios para intervenção pública além das organizações partidárias. Enfim, não precisamos de entrar nos partidos. Mas os partidos também não precisam de nós. E esse é, talvez, o ponto mais curioso.
Os actuais partidos portugueses não foram apenas, como todos sabemos, formados a partir do Estado: são partidos do Estado, vivendo de subvenções públicas (desde 1977) e mantendo influência e actividade sobretudo através das posições ocupadas no Governo e autarquias. Não precisam assim de militantes nem de quadros próprios (quando ascendem ao poder, vão buscar o pessoal necessário à vida civil). Sem novas marés de militância e com poucos quadros, aconteceu aos partidos o mesmo que aos clubes moribundos, onde uns poucos asseguram a direcção anos a fio, até se tornarem os principais interessados numa estagnação que os protege de qualquer concorrência. O peso do “aparelho” expressa esta situação.
Suponhamos que se quer mudar isto. Há várias maneiras. Uma é fazer uma revolução - foi assim que tradicionalmente se renovou o parque partidário em Portugal. Outra é tentar comover os cidadãos e o pessoal dos partidos com apelos à ética e à participação. Para quem não queira fazer revoluções nem acredite em catequeses cívicas, resta uma terceira via: obrigar os partidos, dentro de uma lei que assegure a maior transparência, a viver de quotas e recolhas de fundos. Talvez isso os obrigasse a voltarem ao terreno, a tentar aumentar a militância, a procurar novos quadros e a competir no mercado das ideias e das propostas. Em suma: experimentem privatizar os partidos. Talvez aconteça alguma coisa.

26 julho 2007

25 julho 2007

Na contracapa do PÚBLICO de hoje


O texto da jornalista Helena Matos, a propósito da apresentação, feita pelo sr. primeiro-ministro e pela sra. ministra da educação e respectiva equipa, do Plano Tecnológico da Educação, refere-se a alguns aspectos do tema anteriormente abordados, em perspectivas complementares, por mim e pelo Range-o-Dente (link aí ao lado). Transcrevo-o de seguida:

O Governo antropofóbico
Vai grande escândalo na pátria por causa das criancinhas contratadas para fazerem de conta que eram alunos na sessão de apresentação do Plano Tecnológico da Educação. Não percebo porquê. Como sabe qualquer pessoa que tenha os filhos nas escolas públicas, estas não funcionam nesta época do ano, logo as criancinhas só por intervenção divina ou contratação terrena ali estariam.
Como bem respondeu à jornalista o rapaz que fazia de aluno: "Chamaram-me para uma publicidade e estou aqui agora." Esta criança é uma analista de primeira linha porque na verdade definiu muito bem não apenas a sua situação, mas também a nossa: chamaram-nos para uma publicidade e aqui estamos. Pois não sendo este Governo o primeiro que chama os portugueses para a publicidade, caracteriza-se pelo facto de não nos suportar em qualquer outra ocasião. Os únicos acontecimentos em que o Governo se sente à vontade são aquelas sessões em que nos garante que a nossa vida vai mudar radicalmente em consequência duma nova tecnologia para o qual o executivo nos vai mobilizar. Estes anúncios sucedem-se a uma velocidade tal que esquecemos rapidamente os anteriores. Por exemplo, onde param os dez milhões de caixas de correio electrónicas que os CTT lançariam em 2006 e que custariam a módica quantia de 2,5 milhões de euros?
Contudo, o quadro interactivo agora anunciado pelo Governo é muito mais patético do que a caixa electrónica que os interessados têm de activar através duns procedimentos contemporâneos do papel selado. E mais patético porque, ao escutar-se Sócrates a explicar as maravilhas do dito quadro, se percebe como ele acha que tudo se resume aos adereços. Ao contrário do que afirmou o nosso primeiro-ministro, a relação professor-aluno não muda por causa dum brinquedo que desenha de forma perfeita os ângulos dos losangos. O quadro interactivo não faz falta alguma ou, melhor dizendo, faz tanta falta quanto, antes deles, fizeram os ainda recentes acetatos ou os já desaparecidos flanelógrafos: se o professor for bom e se a turma estiver motivada, esses objectos ajudam a tornar mais interessante aquilo que já é. Caso contrário, ou seja, se o professor for mau e os alunos não estiverem interessados, então todas essas maravilhas se transformam numa tralha grotesca.
Mais do que os edifícios e do que os equipamentos, as escolas são as pessoas. E não apenas os professores e os alunos. Por exemplo, muitas das mais graves agressões registadas nas escolas acontecem porque existem espaços e horários em que não se avista um funcionário, vulgo contínuo. Quando agora se anuncia a instalação de sistemas de alarme e de videovigilância nas escolas "para protecção externa e salvaguarda do investimento de que os estabelecimentos têm sido alvo", não faria mais sentido optar-se por reforçar a componente humana dessa vigilância? O principal objectivo da vigilância, acreditava eu, era a segurança dos alunos, professores e funcionários e só depois a dos equipamentos. mas ao optar-se pela videovigilância e pelos sistemas de alarme opta-se claramente por defender o quadro electrónico e não as pessoas.
A escola do futuro anunciada por Sócrates é um local onde as figuras de autoridade como o professor e os funcionários são cada vez mais menorizadas e substituídas, nas aulas, pelos quadros interactivos e, nos pátios, pelas câmaras de videovigilância. Esta escola é o resultado de um governo que sofre duma variante de antropofobia aplicada especialmente aos portugueses. Não há interactividade que nos valha.

23 julho 2007

Os novos-ricos


Vejam-nos aqui.

Agora falando sério!


A sério, mesmo!
Eu estou totalmente de acordo com uma maior exigência no que diz respeito à formação dos professores do ensino secundário (e não só!). Exigência que, para começar, deveria partir dos próprios, pelo exercício normal da curiosidade e do desejo de (se) conhecerem. Sob este prisma, o Ministério da Educação teria como uma das suas principais tarefas possibilitar a frequência de acções de formação de diferentes tipos a desenvolver pelas universidades, que complementassem os esforços já desenvolvidos por cada um particularmente, e apenas isso. Os alunos beneficiariam assim dos únicos reais galvanizadores pedagógicos: a convicção e o entusiasmo do mestre, que saberia englobar os conhecimentos a leccionar em horizontes mais abrangentes e significativos.
Mas que peso tem sequer a perspectiva de pretender professores cada vez mais habilitados, numa escola onde os programas são cada vez menos aprofundados e os critérios de avaliação cada vez menos exigentes e rigorosos? Exigir maiores qualificações dos professores supõe pretender o mesmo em relação dos alunos na direcção do tal “novo país”. Ora é exactamente o contrário disso o que se passa! Os professores deverão estar altamente qualificados… para leccionarem matérias que qualquer aluno com o antigo 7º ano dos liceus ou o 12º ano de há uns tempos estaria mais do que habilitado para retransmitir e para avaliar a correspondente aprendizagem! E sem necessidade de ciências da tanga, perdão!, da educação…! Nem de computadores!
A sério, de novo: o que é que se anda por aí a maquinar? É que é demasiada estupidez para ser verdade.
Ou então, quem sabe?!, é mesmo estupidez. Sê-lo-á sempre, aliás.
Voltarei ainda a este assunto.

Antes de continuar a modesta proposta que fiz uns dias atrás...

... deixo aqui um texto que me foi enviado por e-mail, escrito por Francisco José Viegas e publicado na edição do Jornal de Notícias, de 4 de Junho passado.

A senhora menistra da Educação açegurou ao presidente da República que, em futuras provas de aferissão do 4.º e do 6.º anos de iscolaridade, os critérios vão ser difrentes dos que estão em vigor atualmente. Ou seja os erros hortográficos já vão contar para a avaliassão que esses testes pretendem efetuar. Vale a penaeisplicar o suçedido, depois de o responçável pelo gabinete de avaliassões do Menistério da Educação ter cido tão mal comprendido e, em alguns cazos, injustissado. Quando se trata de dar opiniões sobre educassão, todos estamos com vontade de meter o bedelho. Pelo menos.
Como se sabe, as chamadas provas de aferissão não são izames propriamente ditos limitão-se a aferir, a avaliar - sem o rigôr de uma prova onde a nota conta para paçar ou para xumbar ao final desses ciclos de aprendizagem. Servem para que o menistério da Educação recolha dados sobre a qualidade do encino e das iscólas, sobre o trabalho dos profeçores e sobre as competênssias e deficiênçias dos alunos.
Quando se soube que, na primeira parte da prova de Português, não eram levados em conta os erros hortográficos dados pelos alunos, logo houve algumas vozes excandalisadas que julgaram estar em curso mais uma das expriências de mudernização do encino, em que o Menistério tem cido tão prodigo. Não era o caso porque tudo isto vem desde 2001. Como foi eisplicado, havia patamares no primeiro deles, intereçava ver se os alunos comprendiam e interpetavam corretamente um teisto que lhes era fornessido. Portantos, na correção dessa parte da prova, não eram tidos em conta os erros hortográficos, os sinais gráficos e quaisqueres outros erros de português excrito. Valorisando a competenssia interpetativa na primeira parte, entendiasse que uma ipotetica competenssia hortográfica seria depois avaliada, quando fosse pedido ao aluno que escrevê-se uma compozição. Aí sim, os erros hortográficos seriam, digamos, contabilisados - embora, como se sabe, os alunos não sejam penalisados: á horas pra tudo, quer o Menistério dizer; nos primeiros cinco minutos, trata-se de interpetar; nos quinze minutos finais, trata-se da hortografia.
Á, naturalmente, um prublema, que é o de comprender um teisto através de uma leitura com erros hortográficos. Nós julgáva-mos, na nossa inoçência, que escrever mal era pensar mal, interpetar mal, eisplicar mal. Abreviando e simplificando, a avaliassão entende que um aluno pode dar erros hortográficos desde que tenha perssebido o essencial do teisto que comenta (mesmo que o teisto fornessido não com tenha erros hortográficos). Numa fase posterior, pedesse-lhe 'Então, criançinha, agora escreve aí um teisto sem erros hortográficos.' E, emendando a mão, como já pedesse-lhe para não dar erros, a criancinha não dá erros.
A questão é saber se as pessoas (os cidadões, os eleitores, os profeçores, 'a comonidade educativa') querem que os alunos saião da iscóla a produzir abundãnssia de erros hortográficos, ou seja, se os erros hortográficos não téêm importânssia nenhuma - ou se tem. Não entendo como os alunos podem amostrar 'que comprenderam' um teisto, eisplicando-o sem interesar a cantidade de erros hortográficos. Em primeiro lugar porque um erro hortográfico é um erro hortográfico, e não deve de haver desculpas. Em segundo lugar, porque obrigar um profeçor a deixar passar em branco os erros hortográficos é uma injustiça e um pressedente grave, além de uma desautorizassão do trabalho que fizeram nas aulas. Depois, porque se o gabinete de avaliassão do Menistério quer saber como vão os alunos em matéria de competenssias, que trate de as avaliar com os instromentos que tem há mão sem desautorisar ou humilhar os profeçores.
Peçoalmente, comprendo a intensão. Sei que as provas de aferissão não contam para nota e hádem, mais tarde, ser modificadas. Paço a paço, a hortografia háde melhorar.

22 julho 2007

Mais tripeiro, menos fedorento



Queria escrever uma continuação do post anterior...


... mais assim ao sério, mas tive um dia duro e apetece-me preguiçar. Fica p'ra amanhã.

20 julho 2007

Modesta proposta


Na sequência da medida anunciada pela sra. Ministra da Educação, segundo a qual, no sentido da implementação de uma superior qualidade do ensino, os professores do Secundário deverão passar a ter como grau académico mínimo o mestrado, venho não só manifestar o meu incondicional apoio ao Governo nesta matéria como, na qualidade de cidadão, apresentar uma modesta proposta que visa, na continuidade e aprofundamento desta mesma medida e com profundo espírito democrático, estruturar devida e eficazmente os destinos do país, deste modo evitando a sua sujeição à errância e à falta de rigor, causas de um permanente atraso em direcção ao progresso. Assim, sugiro que nenhum cidadão português possa ser:
1. Candidato a uma Junta de Freguesia, sem que possua uma licenciatura adequada ao lugar para que tenha possibilidade de ser eleito;
2. Candidato a uma Câmara Municipal, sem um mestrado que corresponda aos cargos a desempenhar, em caso de eleição;
3. Candidato a deputado, sem um doutoramento nas áreas sobre que pretenda vir a pronunciar-se e a propor legislação;
4. Governante do país, desde que não haja obtido o grau de catedrático no âmbito da pasta que que lhe seja atribuída.
Em simultâneo e em grau correspondente, todos deverão possuir cumulativamente uma formação em Ciência ou Filosofia Políticas, condição sine qua non para serem elegíveis, além de claras provas dadas quanto ao domínio dos aspectos gramaticais do português, bem como das suas competências no domínio da matemática.
Atendendo à manifesta insuficiência de recursos, sugiro ainda, para terminar, que, a exemplo do recentemente decretado no plano dos ensinos básico e secundário, seja criado um currículo de Novas Oportunidades para dirigentes politicos, incluindo os que neste momento se encontram esforçadamente em funções, apelando, para tal, ao espírito de sacrifício e desejo de valorização pessoal, próprio da sua nova condição de trabalhador-estudante.
Butaí?

Com estes que a terra um dia há-de comer...


... todos vimos e ouvimos hoje o primeiro-ministro gritar, perdão!, dizer no Parlamento, em resposta a Marques Mendes, que, ao contrário deste, sempre teve "a grandeza" (sic) de jamais alcunhar os seus adversários no partido como guerrilheiros políticos.
O eng. José Sócrates expressou-se, de facto, à sua altura e à sua medida.

19 julho 2007

Mais um, menos um

Brueghel

Desta vez é o SAC do Centro de Saúde de Seixal a ser encerrado. Servia 170.000 pessoas. Comentários?

Isto...

Edvard Munch

O primeiro-ministro congratulou-se ontem com a actividade desenvolvida pelo grupo parlamentar do Partido Socialista, a qual terá correspondido por inteiro às suas expectativas.
Sem dúvida!

... e isto...


... também (é para ler até ao fim, em especial o que já está para lá da apreciação da prova) - ver o post com esta mesma data.

18 julho 2007

Até amanhã!


Seguramente descurando as suas principais actividades - desancar inocentes e pacíficos palestinianos, árabes e restantes vizinhos e dominar, mais ou menos subreptícia e perfidamente, a economia e as finanças internacionais - um grupo de técnicos israelitas passou uns dias em Trás-os-Montes, no sentido de procurar melhorar o aproveitamento local da água para fins agrícolas. Chegaram à conclusão de que os indígenas da região gastam três vezes mais do que é preciso ou, de outra maneira, que ela chega perfeitamente para se produzir o triplo do que se produz hoje, coisa que, para quem tem o hábito de transformar o deserto em áreas férteis, deve ter sido, no mínimo, doloroso.
Vi isto ontem, num telejornal qualquer, onde, entre outras coisas, se falou ainda dos gestores portugueses como estando internacionalmente classificados abaixo do medíocre, e de um senhor que, certamente para estimular a economia através do consumo interno e garantir uma boa morte aos portugueses, só vê como solução aumentar os impostos e subir o IVA (não confundir com IVG) para 25%.
Ah! E o PS continua a falar em vitória na Cãmara de Lisboa e declina qualquer responsabilidade no vergonhoso nível de abstenção. O que, diga-se de passagem, também é bem feito para os portugueses.

16 julho 2007

Paco & Filho



Chopin por Horowitz



Quanto a mim...


... para além de todas as jogadas partidárias internas do PSD que terão contribuído para a percentagem de votos que obteve, o efectivo vencedor das eleições em Lisboa (onde, aliás, não resido) é Carmona Rodrigues.
Parabéns.

Mais do mesmo



Helena Roseta falou, a meu ver, muito bem, quando atribuiu à desilusão e ao consequente desinteresse o nível de abstenção que explodiu nas eleições para a Câmara de Lisboa. E que a candidatura que ela encabeçou era, entusiasmantemente, composta por gente que tinha vindo de todos os lados, de todos os partidos.
Só fiquei apreensivo ao ouvi-la dizer de seguida: "Eu até nem conhecia a maioria dos meus candidatos...!".

15 julho 2007

"O rebanho"

A preocupação com o arrogante autoritarismo no Governo começa a passar. Não admira. A liberdade pública e, sobretudo, a liberdade individual nunca especialmente comoveram os portugueses. Desde sempre que nos perseguimos com veneno e brutalidade. A "festa" do "25 de Abril" foi uma "festa" de intimidação e de arbítrio. E ainda ontem, numa espécie de votação "popular", o país mostrou o seu amor por Salazar e por Cunhal, enquanto Soares (como Sá Carneiro) desaparece pouco a pouco da memória coectiva. O facto é que, por um velho hábito de obediência e servidão, o indígena gosta de ser mandado. Gostou de ser mandado por Cavaco, que era, se bem se lembram, infalível, e gosta agora de ser mandado pelo eng. Sócrates, que é, segundo consta, decidido e determinado.
De resto, o mundo que aí está não favorece a liberdade. O Estado-providência entrou no mais remoto recanto das nossas vidas, fiscalizando, proibindo e punindo. A "Europa" não pára de se intrometer (sem utilidade visível) no que antes se deixava à história e às tradições de cada um. Em Portugal (e pelo Ocidente inteiro), a concentração urbana exige uma vigilância policial sem precedente. O igualitarismo, o fim daquilo a que se chamava "deferência" e o enfraquecimento irremediável da Igreja e da família produziram, ou permitiram que se criasse, uma ideologia oficial, que ninguém se atreve a contestar ou a infringir. E a democracia, que tanto e tão ardentemente se gaba, é na realidade uma prisão, com um regulamento estrito e, às vezes, brutal.
Os "construtores" deste admirável "modelo" acham que os prisioneiros são felizes. Mas serão? O eng. Sócrates diria que sim. Como os seus colegas do Governo e da "Europa" ou, pelo menos, de alguma "Europa". Eles só nos querem fazer bem e o que fazem é para nos fazer bem. O sr. ministro Santos Silva quer fazer bem ao jornalismo, quando o ameaça e oprime. O eng. Sócrates quer com certeza fazer bem ao país, quando tolera a delação para correr com funcionários que ousam criticar o Governo.. E o dr. Cavaco concorda obviamente com eles, quando, perante o "saneamento político" e o abuso de poder, se limita a um comentário equívoco e genérico. O que se compreende. A liberdade dia a dia negada nas mais simples coisas deixou de contar. Os benfeitores tratarão do rebanho, como entenderem e como lhes compete."

Vasco Pulido Valente, PÚBLICO, ontem, sábado, 14 de Julho

Diz quem sabe


"Hoje há um approach salazarista em vários partidos. O realismo político dele, por exemplo, é adoptado por pessoas do PS."
Jaime Nogueira Pinto, no Diário de Notícias (citação retirada do PÚBLICO de hoje)

13 julho 2007

Que horas são?


Não é a primeira vez, desde há alguns anos a esta parte, que -como de novo aconteceu ontem à noite - as selecções de futebol dos mais jovens dão espectáculos vergonhosos de indisciplina, de comportamentos violentos e de eufórico vandalismo nos balneários. Nada disto é de estranhar.
Basta que entrem na escola, pública de preferência, para que a sua "educação" decorra nesse sentido. Nas salas de aula, que repugnam aos jovens estudantes vindos directamente dos PALOP's ou do leste europeu, espantados com o facto de "isto" se permitir e que afirmam não se conseguir aprender seja o que for em tais condições. Nos pátios, onde praguejar, nos termos mais violentos, é tolerado, esquecendo-se que a instalação da agressividade se inicia, desde logo, pela linguagem.
Mas, principalmente, basta-lhes nascerem e entrarem na família, que remete para as instituições públicas a responsabilidade da formação dos futuros cidadãos, ao mesmo tempo que, portas adentro, ensina e, frequentemente, age mesmo em sentido oposto.
Tudo em nome da liberdade e do respeito pelo indivíduo.
Não há comunidade que se consiga manter, desta maneira, por muito tempo. A sua desagregação é inevitável e poderá assumir as mais diferentes, repulsivas e dolorosas formas. Os portugueses do futuro não o serão porque não serão nada, incapazes, com as excepções que confirmam a regra, de tomar consciente e determinadamente conta das suas vidas. Os jovens de hoje, em Portugal, por detrás de toda a algazarra que possam fazer na 24 de Julho e noutros locais de "convívio" e "lazer", são seres humanos profundamente entristecidos, bisonhos, confusos porque desencontrados de si próprios, com horizontes à medida dos escassos conhecimentos adquiridos, doutrinados por morangos de estufa e, por isso, de facto privados da liberdade que uma ditadura estreita lhes recusou e que a estupidez oportunista do 26 de Abril lhes tem roubado. Continuam a ser, dois séculos depois, o "povo de escravos" de que falava Byron.
E não vale a pena dizer "É a Hora!". O Pessoa já o disse e não resultou.


Este post é delicioso!


Encontrei-o mesmo agora, referenciado pelo Range-o-Dente.

12 julho 2007

O subliminar na "Comunicação Social"


Há pouco, no telejornal da RTP1, noticiava-se o "escândalo Marques Mendes".Em duas frases sucessivas da peça, a locutora de serviço atirava-nos aos ouvidos:
Marques Mendes recebeu no ano tal 4.400 contos e, no ano seguinte, 21.000 euros. A coisa acabava, porém, na segunda frase, por ficar pelos 700 contos mensais (salvo erro).
Estranha, esta rápida flutuação entre os euros e os defuntos escudos?
Talvez não.
É que o que fica subliminarmente na mente de quem escutou a notícia é, em primeiro lugar, a sugestão de um aumento de cerca de 500% do primeiro para o segundo ano de actividade (4.400 para 21.000), quando, de facto, fazendo a conversão de uma moeda para a outra, representa uma diminuição de 1.000 euros ou, se se preferir, de 200 contos.
A passagem dos montantes, agora de euros para escudos, na segunda frase, continua no sentido de apresentar subliminarmente o valor como o mais alto possível. Com efeito, atendendo à faixa etária maioritária da população portuguesa e ao hábito de épocas, é mais "pesado" falar em 700 contos do que em 3.500 euros por mês.
Quem terá redigido o texto?

Miles Davis, Human Nature





11 julho 2007

Fala com ela/O pianista



Declarou!


O sr. Eng. José Sócrates Pinto de Sousa afirma-se chocado com os dois casos de professores cuja reforma foi negado por juntas médicas e prometeu medidas urgentes.
Ficam sempre bem estas declarações, num primeiro-ministro atento às pessoas do país que governa. E só o facto de andar atarefado com a presidência europeia é que terá sido a causa de tanta demora em proferi-las.

Sete anos no ensino secundário


Enviaram-ontem este texto, por email. Limito-me a reproduzi-lo, tal e qual como me chegou.
Opinião

Querido Sócrates, encolhi-lhes as carreiras...
Ruy de Carvalho, um dos melhores actores portugueses de sempre, cumpre, esta semana, 60 anos da sua brilhante e celebrada carreira.
Tem sorte Ruy de Carvalho em não ser professor pois, caso o fosse, estaria a celebrar, em vez de seis décadas, apenas sete anos dessa longa carreira...
Passo a explicar com mais detalhe, pois, eu próprio, também ainda não percebo muito bem mais uma das muitas maquiavelices do Ministério, alegadamente, da Educação.
Como é do conhecimento geral, o Ministério dividiu a carreira dos professores em duas, sendo uns, poucos, professores titulares e os restantes, a grande maioria, uns meros acólitos, a partir de agora vulgar, rasca e simplesmente tratados por professores!
Feita esta divisão no papel, havia que organizar o concurso para que os professores do último escalão progredissem para professores titulares. Embora desconfiando das promessas da benemérita ministra, nunca os professores (nos quais me incluo, nos professores e nos desconfiados!), repito, nunca os professores pensaram ser tão pouca e tão pobre a esmola com que nos quer obsequiar.
Então como funciona esse concurso para professor titular?Desde já digo que é fácil, é barato e não é para milhões.Pela Internet, os professores enviam os formulários onde registam os passos das suas carreiras, os seus cargos e os seus desempenhos a diferentes níveis. Mas aqui começa a grande embrulhada, salpicada com muita dose de má-fé, de cinismo e de falta de respeito pelos professores, que a senhora ministra teima em não ver como parceiros, mas como inimigos.E tudo isto porque o Ministério pretende fazer uma análise curricular de uma carreira... somente pelos últimos sete, repito, sete anos!
Ou seja, só conta, diz-nos tão pedagógica figura, o que fizeste nos últimos sete anos. A nossa carreira vale apenas isso...sete anos!
A título de exemplo, vejamos o meu caso (como o meu haverá os de muitos colegas): tenho 28 anos de serviço, onde fui tudo o que se pode ser numa escola. Enumero algumas para que a vergonha possa cobrir a cara de quem manda: fui presidente do Conselho Directivo durante seis ou sete anos, presidente do Conselho Pedagógico, presidente do Conselho Administrativo, coordenador dos directores de turma, director de turma, delegado de disciplina, acompanhante da prática pedagógica, exerci, durante dez anos, funções docentes como Leitor de Língua e Cultura Portuguesas, do Instituto Camões, nas Universidades de Portsmouth (Reino Unido) e de Estocolmo (Suécia), escrevi manuais didácticos, fiz investigação na área das Aprendizagens e das Novas Tecnologias, apresentei bastantes comunicações (não foram nem uma, nem duas) em conferências internacionais (desde Espanha ao México, passando pelo Brasil, Inglaterra, Suécia, etc.), fiz várias actualizações em diversos domínios, tirei uma pós-graduação, criei e lancei um Clube de Rádio numa escola, fui, durante estes 28 anos, professor com P grande, professor com toda a alma e com todo o coração... E vem agora uma senhora ministra, dizem, da Educação!, comunicar-me (comunicar-nos!) que isto de nada vale, que fui um tolo em ter feito tanta coisa, que uma vida como professor se resume simplesmente a sete anos?! Que a análise curricular para se poder aceder a professor titular, se baseia, unicamente, numa fracção da minha vida toda como docente? Que análise curricular é esta?Que fraude me querem impor?
Dentro da trapaça imensa que é este concurso, há situações em que o Ministério ora acha que algo tem efeitos retroactivos, ora acha que não. Neste último, já vimos que vinte e um anos (21) da minha carreira não contam! Mas contam as faltas, qualquer que tenha sido o seu motivo! Por exemplo, o Ministério que me mandou fazer formação e me deu dispensa para a frequentar, vem agora penalizar-me porque obedeci e a frequentei!Mas isto não é de doidos?Isto não é uma atitude não só provocatória como de desprezo em relação à actividade docente? Afinal onde está o prémio pelo mérito, pelo esforço e pela excelência?E o que fazem agora os professores?Lutam contra esta iniquidade ou andam já a contar os pontinhos para aceder ao Olimpo?
E qual é a posição dos professores que são, neste momento, deputados?PS, PSD, CDS, PCP, Verdes, BE? Preciso (precisamos) de saber o que pensam para podermos) retribuir, em conformidade, na hora das decisões.
Apetece-me convocar Almada Negreiros e parafrasear o seu Manifesto: uma geração, que consente deixar-se representar por [esta monstra] é uma geração que nunca o foi! (...) Se [esta ministra é portuguesa], eu quero ser espanhol!
PIM-PAM-PUMH
FERNANDO JOSÉ RODRIGUES Professor, escritor, 28 anos de serviço reduzidos a 7
PS: Vejam bem que não há só gaivotas em terra, quando um homem se põe a pensar! (José Afonso)
Fonte: Jornal de Leiria; Páginas: 17; Autor: FERNANDO JOSÉ RODRIGUES

09 julho 2007

Três histórias de pura ficção

Cândido da Costa Pinto

Comecemos por imaginar a possibilidade de uma história destas acontecer numa escola secundária:
Um dia, o Conselho Executivo é surpreendido pela chegada, sem aviso prévio, de um grupo de inspectores. Estes, porém, tranquilizam desde logo toda a gente: trata-se de uma visita integrada na formação de inspectores estagiários e nada mais, pelo que não haverá qualquer avaliação oficial seja do que ou de quem seja. Nada de anormal tendo sido detectado ao nível administrativo ou da documentação pedagógica, solicitam, de seguida, permissão para assistirem a uma aula de um docente, a designar pelos próprios órgãos directivos da escola, os quais indicam, compreensivelmente, um professor de comprovada competência científica e sucesso pedagógico.
Este inicia a aula como de costume e tudo decorre normalmente. A certa altura, porém, começa a ouvir-se um zunzum estranho, que vai aumentando a pouco e pouco, levando-o a suspender por momentos a leccionação e a comentar: “Vocês hoje estão muito irrequietos…!” Para seu espanto, é o orientador de estágio dos inspectores a pedir desculpa, lá do fundo da sala, pelo facto de estarem a conversar e, assim, a perturbar o bom funcionamento da aula.
Contudo, o mais absurdo há-de vir depois, quando a escola toma conhecimento do relatório feito pelo grupo de estágio. Nele se pode ler, em apreciação à referida aula, que esta não decorrera bem… por o professor ser demasiado directivo! Conhecedor da situação, o Conselho Executivo protesta, mas o relatório nunca virá a ser alterado.
Imaginemos ainda esta outra, a de um inspector que, depois de nada ter detectado ao nível da documentação pedagógica, mas que encontrou uma falha em dois sumários escritos no livro de ponto, chama a atenção do correspondente professor, afirmando categoricamente que o sumário é talvez o instrumento mais importante de uma aula.
Para terminar, suponhamos a possibilidade de, em consequência do novo Estatuto da Carreira Docente, um professor de reduzida competência pedagógica e que já recebeu queixas de pais e alunos, vir a ser promovido a titular, mercê da antiguidade e dos pontos acumulados em diversas funções que desempenhou. Esse professor, que todos conhecem na escola pelo seu carácter vingativo e dissimulado, passará a ter a seu cargo, entre outras, a tarefa de avaliar pedagogicamente colegas que o criticaram ou que simplesmente inviabilizaram as suas opções, mais ou menos disparatadas.
Poder-se-á dizer que isto é pura ficção. Mas… e se vier a acontecer? Para onde iria o ensino em Portugal? E o que dizer da sociedade portuguesa e dos seus dirigentes políticos?

07 julho 2007

Impunidade até quando?


Poucos anos atrás, tendo-me sentido algo indisposto, na sequência de um problema respiratório, fui, por insistência de familiares, ao SAP do Centro de Saúde de Oeiras. Saí de lá numa ambulância para o Hospital de S. Francisco Xavier, por estar à beira de uma paragem cardíaca. E só ao final de uns bons meses a situação ficou definitivamente controlada, embora não tivesse chegado a ser internado.
Diga-se que não me ocorreria (nem sequer aos meus familiares) dirigir-me ao hospital, pela aparente pequena gravidade dos sintomas. No S. Francisco Xavier, dado o enorme afluxo de doentes, tive que esperar pela atenção de médicos, assoberbados de trabalho e incapazes, por isso, de acorrer de imediato até mesmo àquilo que era visivelmente urgente. Valeram-me as medidas prévias tomadas no Centro de Saúde para travar momentaneamente a degradação da situação. Devo, portanto, em primeiro lugar aos médicos de serviço no SAP nessa noite estar hoje ainda vivo.
O que o sr. Correia de Campos não refere, porque muito provavelmente não serve à lógica das suas intenções nem às do sr. eng. José Sócrates Pinto de Sousa, é que os Serviços de Atendimento Permanente, se não estão (e não deveriam estar?) equipados para responder a (pelo menos algumas) situações mais graves, também não são apenas retardadores da sua resolução, antes, como no meu caso, a possibilitam ou alertam para a urgência imediata de medidas adequadas.
Vem isto a propósito de me terem dito que o SAP do Centro de Saúde de Oeiras, que serve mais do que uma freguesia de um dos mais populosos concelhos do país, fechou a meio da passada semana. Não terão sido apenas os utentes a serem apanhados de surpresa pela medida, mesmo alguns dos médicos terão sabido dela somente na véspera, ao início da tarde.
O Hospital de S. Francisco Xavier, que fica a cerca de 15 km, não possui nem pode possuir estruturas que viabilizem uma resposta adequada e suficiente ao afluxo acrescentado que o encerramento deste serviço de urgência traz consigo.
De quantos crimes se permitirá que esta gente fique impune?

02 julho 2007

Alguém viu?


Ao final desta noite de domingo, no programa Câmara Clara, esteve Helder Macedo. Pela clareza, pelo despretensiosismo, pelo humor e pela argúcia e profundidade do que diz, aquele que foi ministro da Cultura do governo de Maria de Lurdes Pintasilgo (o primeiro de sempre, portanto), em 1979, é (ainda) um dos raros portugueses que surge em órgãos de comunicação deste país, cada vez menos reconhecível.

01 julho 2007

Fumo sem fogo


Hoje, em grande destaque na primeira página do Diário de Notícias, a notícia de que os pilotos dos aviões de combate a incêndios ganham o triplo do que ganham os pilotos das FAP.
Para que não se gerem dúvidas infundadas nem insinuações torpes, conviria dar uma vista de olhos ao que se passa no Serviço de Protecção Civil, começando, talvez, pelo Diário da República. E também, é claro, aos diplomas dos diferentes responsáveis dos diversos sectores.
Para que não se denigra a imagem do Governo e de António Costa, enquanto ex-ministro e actual candidato à Câmara Municipal de Lisboa.