
14 setembro 2007
13 setembro 2007
Ainda a visita do Dalai Lama

Criou-ma m'nha menzinha p'ra isto...!

Frases que talvez possam mudar o mundo
"Jornalista: Porque é que veio a Portugal? 12 setembro 2007
10 setembro 2007
Dúvidas minhas

09 setembro 2007
Uma anedota que me enviaram ontem

Um bebedolas entra num bar e pede ao balcão três cafés.
- Três cafés? - Pergunta, atónito, o empregado.
- Sim, um para mim, outro para ti e outro prá puta da tua mãe.
No dia seguinte, o mesmo bebedolas repete o mesmo pedido, no mesmo café e ao mesmo empregado:
- Três cafés...
- Três?...
- Sim. TRÊS... Um para mim, outro para ti e outro prá puta da tua mãe.
Desta vez o empregado "passou-se", saiu do balcão, agarrou no bebedolas e deu-lhe uma sova e peras!
No dia seguinte, todo entrapado, o bebedolas vai na mesma ao café, dirige-se ao balcão e o empregado com um sorrisinho cínico pergunta-lhe:
- Então, três cafezinhos, não é verdade?...
- Não, responde o bebedolas, só dois: um para mim e outro prá puta da tua mãe! Pra ti não, porque o café "altera-te" o sistema nervoso...
08 setembro 2007
07 setembro 2007
Para que não se diga que eu só digo mal...!
René Magritte06 setembro 2007
Comentário
Turner, NaufrágioA 7 de Agosto, algures entre a costa tunisina e a ilha italiana de Lampedusa, dois pescadores tunisinos, regularmente inscritos no departamento marítimo de Monastir, socorreram em alto mar 44 imigrantes sem papéis, entre os quais 11 mulheres e duas crianças, pouco antes da barca em que iam se afundar. Recolhidos, os pescadores levaram-nos até porto seguro, em Lampedusa.
Por causa disto, os sete homens que constituíam a equipagem das duas embarcações, foram presos pelas autoridades italianas. Contra eles foi aberto um processo legal a 14 de Agosto, na cidade de Agrigento, no Sul de Itália. que se pode concluir com uma condenação até 15 anos de cadeia. Acusação: favorecimento da imigração clandestina e tráfico de seres humanos.
Depois destes acontecimentos, repetiram-se casos em que embarcações legais quebraram o princípio da solidariedade no mar, para que as suas equipagens não incorressem em risco de prisão.
Palavras para quê? Amanhã realiza-se em Agrigento uma vigília de solidariedade que exigirá a mudança da lei. Vários eurodeputados - incluindo este vosso servidor - subscreveram um apelo que exige da Comissão Europeia e do governo italiano o fim da criminalização de quem proceda ao salvamento de náufragos, incluindo aqueles que a lei designa como “ilegais”.
"Quer dizer, funcionou o princípio da cobardia! Em vez de uma manifestação de solidariedade que incluísse partir aquela m... toda, se preciso fosse, deixaram morrer náufragos! Em vez da desobediência civil, a traição à solidariedade mais básica! É a continuação e o reforço da impunidade dos que praticam a arbitrariedade! É a defesa do opressor, reforçando a opressão sobre os e pelos oprimidos!Acho que a sua acção como deputado deveria ser não apenas a exigência da alteração da lei italiana como mas também a de um castigo exemplar para quem infringiu a lei do mar!
Vamos a isso?
Depois logo se fala do problema da imigração clandestina..."
Mas tenciono voltar ao(s) assunto(s).
Para terminar por hoje em beleza...
Luiz Pacheco05 setembro 2007
O sonho de um louco

04 setembro 2007
O que é que há de estranho ou de escandaloso nisso?
E. M. Escher, RelatividadePensamentos cruzados
E. M. Escher, Encontro03 setembro 2007
Apreensões

02 setembro 2007
A ler

É que...

... estou mesmo a queimar os últimos cartuchos!
01 setembro 2007
31 agosto 2007
A propósito...
... da leitura, no mesmo jornal, de um texto de Nuno Pacheco sobre o falecimento de Daniel Morais, adido cultural da embaixada portuguesa em Caracas, velho opositor do Estado Novo, companheiro de Soares no MUD, e que, ao contrário deste, não sentia nenhuma espécie de simpatia por Chávez, lembrei-me de duas notícias que li aqui há uns tempos, quando ainda não blogava, de uma das quais, pelo menos, todos se recordarão. Refiro-me ao célebre gesto de Bush, apontando com a mão para cima em resposta à pergunta sobre de onde provinha o aconselhamento que recebia nos momentos em que deveria tomar decisões cruciais. Imediatamente os comentadores de esquerda, Mário Soares inclusivé, lhe caíram em cima, falando em fanatismo religioso e mesmo em desiquilíbrio. O alarido foi de ordem tal que faz hoje parte do anedotário que qualquer pateta alegre debita sobre o homem. Setinha para cima...

24 agosto 2007
Volto na próxima sexta-feira
Henri RousseauÉquelé por todó lado!

Conversando entre si, o casal aguardava a sua vez de ser atendido, embora a caixa estivesse destinada a atendimento prioritário de grávidas e deficientes. De súbito, irrompendo por trás de mim, uma senhora dirige-se a ambos, vociferando: “O senhor não precisa de estar aqui à espera! O senhor tem o direito de ser atendido em primeiro lugar! Vá, passe à frente!” E avançou em direcção aos outros clientes, apanhados de surpresa: “Desviem-se! Vá, avance!”.
Tanto ele como ela, igualmente surpreendidos pelo tornado de olhos arremelgados e voz comicieira, só tiveram tempo para dizer: “Não é preciso, obrigado! Não estamos com pressa! Deixem-se estar!”, recusando delicadamente e com um sorriso a passagem ao primeiro lugar da fila. Mas a mulher insistia, voltava atrás e abria caminho, agora em direcção a outra caixa, chamando o casal com acenos para aí serem atendidos em exclusivo, continuando a clamar pelos direitos de que ele deveria usufruir.
Perante a notória falta de disposição de ambos para acatarem a direcção da sua justa iniciativa, já depois de duas funcionárias, alarmadas pelo alarido, os haverem inquirido sobre o assunto, a mulher voltou para junto deles. Foi então que o homem, aproveitando uma pausa na respiração lhe disse: “Minha senhora, eu faço valer os meus direitos excepcionais, quando isso me é necessário, o que, de momento, não é o caso. Por isso, hoje aguardo a minha vez como qualquer dos outros que aqui estão.”
A senhora engasgou-se, tartamudeou qualquer coisa, mas não se deu por vencida e continuou: “Pois… mas deve exigir os seus direitos! Tem que exigir os seus direitos! Tem que exigir os seus direitos”. E afastou-se, a voz a diluir-se pelos corredores, deixando um rasto de comentários, mais ou menos favoráveis.
Esta cena lembrou-me uma outra que presenciei há uns anos, desta vez num hipermercado, também com um casal com as mesmas características. Ele deslocava-se ao lado dela, que empurrava um carrinho a transbordar, tendo passado à frente dos restantes elementos da fila. Quando já se encontravam longe da caixa, uma cliente comentou para uma outra, que a acompanhava: “Na próxima vez que vier às compras, também trago um deficiente…”.
Não é apenas no que respeita aos transgénicos que a tacanhez e a má-fé deste país se manifestam.
O assédio...
... sexual de que Macário Correia é acusado por um funcionária superior da Câmara de Tavira, surge num momento de assédio ao poder dentro do PSD. O caso tem, só por isso, fora o resto que é relatado no Diário de Notícias sobre o assunto, contornos nebulosos. Mas, lá por isso, não se resiste ao sentido de humor deste post!Contrariamente à opinião da maioria...
... penso que os Gato Fedorento deixam muito a desejar como humoristas. Mas, de vez em quando, têm uma arrancada das (muito) boas. É o caso deste texto de Ricardo Araújo Pereira, publicado na revista Visão, de que tive conhecimento via Caldeirada de Neutrões (pensava eu - ver caixa de comentários).23 agosto 2007
Razões deste post

22 agosto 2007
O caso das borboletas trapalhonas

A GNR não deteve ninguém. O ministro da Administração Interna ignorou a questão do flagrante delito!
A GNR identificou seis pessoas. Deixou escapar uma dezena de criminosos estrangeiros, mascarados e surpreendidos em flagrante delito, apesar de se dever pensar que 18 dos seus agentes deviam chegar para deter e identificar a horda. (…)
A destruição de uma coisa de valor elevado é um crime de dano qualificado. O artº 202 do CP diz-nos que o valor elevado, aqui, é o que excede 50 unidades de conta, ou seja, actualmente 4800 euros.
O ministro não explicou como é que a GNR pode ter avaliado no local se o valor da coisa danificada era ou não elevado… mostrou-se candidamente convencido de que a GNR percebe mais de áreas de milho, de toneladas produzidas e de cotações no mercado, do que do cumprimento dos seus próprios deveres.
Esqueceu-se ainda de que só foi destruído um hectare, mas a plantação tem mais 49. dando de barato que a horda obedeceu à GNR e cessou as malfeitorias logo que intimada por ela (ministro dixit), torna-se evidente que, sem a intervenção da autoridade, a destruição teria sido levada a toda a propriedade.
Logo, estar-se-ia sempre, pelo menos, perante a forma tentada de um crime de destruição de coisas de valor consideravelmente elevado.
E isto, para não falar de outras tipificações penais em que vários factos poderiam ser subsumidos, como as de instigação pública ao crime, apologia pública desse crime, participação em motim, ou incitamento à desobediência colectiva.(…)
As espertezas saloias não ficam por aqui. O ministro da Agricultura precipitou-se a garantir o apoio do Estado ao proprietário.
Luís Grifo, o técnico que presta assistência àquela plantação de milho, dissera à Lusa que a parcela destruída deveria produzir cerca de 30 toneladas.
Mas o ministro da Agricultura pôs-se a engrossar rapidamente umas contas para concluir que 17 toneladas de milho esperado deveriam corresponder a um prejuízo de uns 3900 euros!
Assim, o primeiro e prestimoso apoio do Estado consistiu em barbear nada menos de 13 toneladas à normal expectativa do produtor…
Porquê? Porque era preciso fazer tudo para se ficar muito abaixo dos 6900 euros, que excederiam o valor elevado de que fala o artº 213 do Código Penal. De outro modo, a GNR ficava logo em xeque.(…)
Na sua arrogância, o Governo achou que não precisava de fazer mais do que um comunicado pateta.
Mas o PR deu-lhe um puxão de orelhas a doer, afirmando que quem tem o poder de fazer cumprir a lei não pode deixar de utilizá-lo.(…)
E Sócrates mostrou até que ponto é medroso. Não tem só medo de ir à Madeira, que é uma parte integrante do território nacional onde ele não ousa pôr os pés. Tem medo de aparecer a dar a cara perante os portugueses.(…)
Foi por isso que o Governo pôs dois ministros a fazerem assim uma figura de de borboletas desastradamente esvoaçantes e caricatamente trapalhonas..
21 agosto 2007
O chefe recomenda...
20 agosto 2007
A ser verdade...

19 agosto 2007
Já agora...
Henri Rousseau, O sonhoTinha de dizer isto!

E se calhar ainda há quem diga que é um gajo bem intencionado!
18 agosto 2007
Eu próprio...
... não diria melhor! E não apenas no que diz respeito ao liberalismo...17 agosto 2007
16 agosto 2007
Será do Simplex?

Avante circular

15 agosto 2007
14 agosto 2007
Lembrando
António Gedeão(em Portugal continental
e nas ridentes,
verdes e calmas
ilhas adjacentes)
uns seis milhões e umas tantas mil almas.
Assim se lia
no meu livrinho de Corografia
de António Eusébio de Morais Soajos.
Hoje, graças aos progressos da Higiene e da Pedagogia,
já somos quase dez milhões de gajos.
07 agosto 2007
Ainda antes de ir de férias por uma semana...
Henri RousseauHá qualquer coisa que me escapa...

06 agosto 2007
Inch Allah!

O Bom Selvagem

05 agosto 2007
Ainda a propósito de alterações climáticas
03 agosto 2007
Los tienen en su sitio!
... da-se..!
Nota final de hoje

02 agosto 2007
A minha tia, o azeite e o CO2
Hyeronimus Bosch, O Jardim das Delícias (painel central)Qualquer amador de psicologia tem conhecimento de que a memória humana é, em geral, muito fraca no que respeita ao clima e que, talvez como em nenhum outro dos seus sectores, ela constrói os seus arquivos à medida dos desejos, conveniências e expectativas dos sujeitos. E que, por outro lado, o desejo de estabilidade, que em certa medida nos comanda, origina a criação de abstracções como a uniformidade e a perenidade de um padrão de condições climatéricas que caracterizaria, por exemplo, cada uma das quatro estações do clima temperado. Daí que tenhamos raríssimas recordações reais de qualquer uma delas lhe corresponder verdadeiramente.
A tia de que comecei por falar, dona de uma memória invulgar a este nível e que tem as suas anotações em dia, de cada vez que ouve falar em catástrofes do clima, assanha-se. Apela para os registos que fez (só para ver se o pai e os “antigos” tinham razão!). Para ela, as pessoas têm má memória, gostam muito de se alarmar e “eles”, por sua vez, têm que arranjar notícias para ganharem dinheiro! “Então não se lembram do que aconteceu na altura tal de há não sei quanto anos?! Aquele ciclone que…” E desenrola o tecido das recordações.
É claro que as regularidades existem, mas só em certa medida. Nem mesmo a minha tia está convencida de um determinismo inexorável quanto aos anos e aos meses em que se deverá abrir ou fechar o guarda-chuva ou o guarda-sol. “Ora, então, as coisas não são como a gente quer…!, diz ela com a resignação de quem viu morrer-lhe a única filha, deixando-lhe a saudade e o consolo nos netos. E, na sua pequena sabedoria, nem sequer suspeita de que informaram o sobrinho, quando ele andava no secundário, de que as regras do clima já foram outras e que, segundo apontavam os estudos científicos, a partir de 1980 (que precisão!) entraríamos numa outra era glaciar, o que representaria novas alterações. E também que encontramos por todo o lado, nas rochas, vestígios de espécies desaparecidas há milhões de anos e outras até que parecem ter reaparecido e desaparecido outra vez após o primeiro desaparecimento. Nem sabe que a serra de Sintra já foi uma ilha ou que a fome - um dos principais justificativos da necessidade da conquista de uma Ceuta rica em cereais, em 1415, e elemento omnipresente nos contos populares portugueses - tem por raiz as inúmeras e terríveis secas que, pelo menos desde há séculos, o território português sofreu. E ainda dessa coisa do CO2.
O CO2, tem variado, ao longo da minha vida, em sentido inverso ao do azeite. Da respeitabilidade e do estatuto económico e cultural de gordura tradicionalmente usada na alimentação e não só, o azeite passou em poucos anos ao ostracismo, por via do vá de retro dos médicos que, no período do desenvolvimento da indústria das margarinas, o consideraram, vá-se lá saber porquê, como um perigoso inimigo público da saúde, raiz única de diferentes enfermidades e achaques. Eu, à altura inocente criança, apreciadora do seu sabor nas batatinhas e saladas, bem protestei contra a sua substituição por aquela gordura pastosa execrável - que a minha mãe, em questões de saúde, era quase inabalável - mas não tive sorte nenhuma e só depois de me tornar independente pude voltar ao saudoso azeitinho. De súbito, anos atrás, estudo americano dixit, e a dieta mediterrânica passou ao topo do recomendável e, com ela o meu querido azeite. Gozei o triunfo, claro.
Com o dióxido de carbono foi ao contrário. No secundário, além de me instruírem, perdão!, educarem sobre a respectivas composição química e fórmula molecular, disseram-me que a fotossíntese, que liberta o oxigénio vivificador para a atmosfera, era realizada pela sua presença e fixação. Mais: falaram-me de que ele também é indispensável à vida e que as bolhinhas dos diversos refrigerantes, e mesmo das águas minerais, são de CO2. Nada acerca da sua influência no clima (do buraco no ozono, nem sequer se suspeitava, os registos são de fresca data). E, de repente, “não mais que de repente”, bum!!!, aí está o aquecimento global e o dióxido de carbono, tão ligado à preservação da vida segundo me haviam dito, andava nas bocas do mundo como inimigo número um da mesma. Embora não entrevisse nenhuma margarina metida na coisa, compreenderão a instintiva desconfiança que isto me provocou, agravada por já ter visto entretanto “O último tango em Paris”. Não por ele ter influência climática, o que é óbvio: são inúmeros os factores que determinam o clima, daí a pouca rigorosidade das ciências que o estudam. Refiro-me ao facto de, exactamente por isso e tal como o azeite, ele servir para explicar tudo. O que é a antítese de uma postura científica ou sequer sensata. E, ao fim de alguns anos, continuo a pensar o mesmo: aqui há gato…!
Em primeiro lugar, relembre-se que aquilo a que, a partir da segunda metade do século XIX, chamámos “ciência” em vez de, como até lá, “filosofia natural” (termo, se calhar, mais exacto) assenta no princípio de que as regularidades da sucessão causal dos fenómenos observáveis pelos nossos sentidos e respectivos prolongamentos (microscópios, telescópios, detectores de infra-sons, etc., etc.) correspondem a uma estrutura que os explica e justifica e, por isso, permite prever a sua continuidade. Essa estrutura nada mais é do que um conjunto de ritmos estabelecidos, isto é, de um sistema de proporções, portanto de relações do tipo que o nosso intelecto classifica como matemáticas (deixo de lado a etimologia da palavra). “Fazer ciência” significa, sob este ponto de vista, determinar as condições estruturantes desse dinamismo que designamos global e comummente por Natureza ou Universo, noção de que nós próprios somos parte (neste sentido, o termo “meio ambiente” é incorrecto). Mas, “fazer ciência” significa assim, implicitamente, na mesma perspectiva, encontrar o lado “mecânico” dessa mesma Natureza ou Universo e, em consequência, do ser humano.
É no século XVII que encontramos explicitado pela primeira vez (julgo eu) o conceito de corpo enquanto máquina. Não por acaso, numa das obras de Descartes, matemático e estudioso do sistema da circulação sanguínea e dos corpos em geral (honni soit qui mal y pense!), além de filósofo futuramente influentíssimo no pensamento ocidental. A noção de “o meu corpo” é estranha à medievalidade, que não encarava o ser humano desse modo. Daí as conhecidas tentativas do século XVIII de criar o primeiro autómato, que culminam, no plano literário e com uma inflexão já romântica, em Frankenstein. Mas no monstro saído da imaginação de Mary Shelley - ou não se tratasse de uma mulher! - encontramos já presente, associado à inteligência, o par “emoção-vontade”, característica do organismo vivo que lhe confere um comportamento apenas muito parcialmente previsível, algo que Descartes ignorou, ao ligá-la estritamente à racionalidade, entendida como capacidade lógica operatória. O carácter de menor rigor que as chamadas ciências humanas inevitavelmente possuem deriva do seu objecto de estudo ter uma vontade que se espelha na infinita variedade de respostas que podem dar ao mesmo estímulo.
Deixando de lado (uff!) as contradições e, consequentemente as sementes e os caminhos da contestação (emergidos no terceiro quartel do século XIX, com Husserl ou Nietzsche) que o próprio pensamento cartesiano gerou relativamente à perspectiva que tomava forma no seu tempo e de que era, sem o saber, porta-voz, a física do século XX chegou, através da teoria quântica, a conclusões semelhante, em certa medida, às dos vitalistas. O comportamento da própria “matéria não viva” não era totalmente determinável e os princípios matemáticos não traduziam por inteiro a sua estrutura. O (pelo menos, por nós) imprevisto, existe. Nem sabemos se jogar aos dados é ou não parte intrínseca do ser divino.
Curiosamente, o desejo de compreensão, no sentido da estabilidade e segurança, chegou à conclusão de que nada é estável nem seguro. Mas o desejo permanece, empurrando-nos para a busca de níveis de conhecimento cada vez mais alargados e aprofundados. Mesmo as culturas do extremo-oriente, desde sempre assentes na ideia de eterna impermanência e dinamismo do todo, foram arrastadas pela evolução social e histórica no sentido do saber científico. Esse desejo é o mesmo que origina a formação das diferentes comunidades e do poder que lhes garante a observação das regras que as proporcionaram e lhes dão continuidade. E é aqui que a coisa se complica.
O poder assenta num consenso sobre o conjunto de saberes admitidos como definitivamente verdadeiros e que alguns conhecem melhor do que todos os outros, até mesmo o valor e a oportunidade da violência e da opressão. Representa o domínio de uma concepção que se pretende definitiva e, por isso, é, sob esse ponto de vista, reaccionário. Durante mais de dois séculos, as universidades ibéricas contemporâneas da descoberta da existência de outras terras e outros seres, continuaram a ensinar o que qualquer marinheiro sabia que era errado. As coisas só se alteraram com a progressiva aceitação e adopção do modelo newtoniano, que permitia uma nova fundamentação respeitável do exercício do poder, um novo “mapa”.
O poder contemporâneo, porém, cada vez menos pode esconder a impermanência e a contingência. Ela está por todo o lado, à vista de todos e reflectindo-se, em última instância, na falta de valores únicos e cimentadores, a começar nos que dizem respeito a algo tão elementar como o consumo. A contestação, clara ou oculta, é cada vez maior e ameaça os fundamentos de qualquer corpo social. E a consciência planetária, quer dizer, da solidariedade humana enquanto espécie em direcção a um futuro que passa pela sua expansão para outros habitats, é algo que só passa pela cabeça de uns quantos, formados em sociedades que lhes permitiram maiores possibilidades de pensarem em tal coisa (as sociedades ocidentais). Face à nova situação, o poder adoptou, a meu ver, uma jogada aparentemente suicida.
Popper tinha em comum com um primo meu, agricultor, o ficar com os cabelos em pé quando ouvia falar de ecologistas. Para o filósofo, os ecologistas não passavam de hipócritas que escamoteavam, entre outras coisas, o factor decisivo do excesso de população; para o Chico, aquele amor pela natureza - que ele também tem, note-se - é demasiado, cheira-lhe a manias de pessoal da cidade, que pensa que “a outra gente é estúpida”. Para além da quota-parte de razão e de erro que ambos possam ter, penso que as coisas podem ainda ser vistas por outro lado.
Os ecologistas foram, no seu início, vistos com desconfiança e mesmo com hostilidade pelo poder político. Eles iam contra a “lógica do desenvolvimento”, portanto, dos interesses económicos movimentadores da iniciativa privada descontrolada e inconsciente e, sob esse aspecto, a sua luta era justificável. O problema é que, desde o começo, essa luta se encontrava inquinada pelo conceito cultural milenar do mundo como “jardim do Homem”, um jardim de características de eternidade, isto é, de modelo imutável. Um jardim de que o ser humano trataria como seu, a morada da sua imortalidade. E isto redundou não apenas no tipo de conceitos e de acções opostos aos que deveriam ser os de um movimento ecologista atento ao dinamismo do universo, como na sua rejeição por parte do poder político, a quem estragava os conluios e as negociatas, permitidas pela religião do “progresso”.
Aos poucos, já se haviam entretanto formado partidos ecologistas da ou ligados à esquerda política, capitalizando estes factores para os seus objectivos de ataque ao capitalismo. Ao mesmo tempo, porém, as preocupações “ecológicas” começaram a fazer parte da propaganda eleitoral de todos os partidos. Até que chegaram aos programas de governo. E, obvia e necessariamente, ao saber oficial, à educação.
Poder-se-ia falar, melhor dizendo, de endoutrinação. No primeiro ciclo de ensino, as crianças recebem hoje, desde logo, noções básicas de “conservação” do meio ambiente, à mistura com conceitos fundamentais que perspectivam a Terra como “terra prometida”. O planeta não é apresentado com parte de um dinamismo de que o universo é expressão e de que, portanto, a nossa acção faz ela própria parte; o ser humano assume o estatuto de guardião de um equilíbrio, mais ou menos inalterável. E, no restante ensino básico bem como no secundário, em simultâneo e contraditoriamente com a informação sobre o dinamismo da natureza, observável nas suas constantes transformações, repetem-se, aprofundam-se e consolidam-se as informações ideologicamente orientadas, transmitidas na primeira fase.
É aqui que entra em cena o CO2. Seria difícil explicitar ao comum dos cidadãos toda a complexidade das relações entre os factores envolvidos no aquecimento global. O CO2, produzido pelo ser humano em maior quantidade do que nunca até hoje, está assim mesmo a jeito para servir de bode expiatório: a sua fórmula constitui uma sigla publicitária (propagandística?) de alta eficácia, unifica e simplifica o tipo de protestos e a qualidade das atentas medidas dos atentos governantes em prol dos governados. Além disso, permite o estabelecimento de certezas, que dão auto-estima a quem as possui, ao mesmo tempo que os investe de um poder semi-divino sobre um mundo transitório.
A “ideologia” religiosa bíblica transfere-se, assim, cada vez mais para a do jardineiro profano, os saberes e os cuidados com a “qualidade de vida” e com a construção do “ambiente ideal” servindo hoje, à falta de melhor, de suporte ao poder que por todos vela e que, do mesmo golpe, as pode desrespeitar de vez em quando, se a isso o obrigarem interesses maiores daqueles a quem serve. É claro que, no meio disto, ficam de fora as medidas verdadeiramente importantes, as da adaptação necessária à continuidade da espécie humana no meio das transformações em curso. É claro que, a partir de certa altura, o poder se assemelhará a alguém que já não tem braços que cheguem para acudir a tanto rombo. E depois é que vão ser elas. Mas, por agora, vai dando para o gasto.
Veio tudo isto a propósito das inundações em Inglaterra. Após a situação ter acalmado, uma manifestação (claramente encenada para os órgãos de comunicação social que, gostosamente e no cumprimento da missão a que se propuseram, lhe davam o devido relevo) gritava: “enough!” e uma das manifestantes, interrogada sobre o motivo de ali estar, afirmava que era porque estavam “zangados”. Não disse com quem, mas é evidente que era com “eles”.
Vou ver se falo disto ao Chico e à minha tia.
O ouvido da arquitecta
Tristes continuidades
Brueghel, A expulsão dos Anjos Rebeldes01 agosto 2007
Erros
Brueghel, O Triunfo da Morte








