14 março 2008

Um provérbio muito velho


Não vi as intimidades do nosso primeiro-ministro que o pseudo-voyeurismo da SIC decidiu revelar. Mas vi, inevitavelmente, a amostra da peça "jornalística" que encheu os espaços entre os programas da SICNotícias. Nela se podia ouvir José Sócrates dizer "sou um homem generoso", com a entoação de quem não consegue lutar contra isso.
O que me trouxe mais uma vez à memória um provérbio judaico milenar que li na adolescência e de que nunca mais me esqueci, tantas as ocasiões em que algo me fez pensar nele: "Que alguém se orgulhe da sua beleza, é normal; mas que se orgulhe da sua bondade, é trágico".

10 março 2008

Cá está ele!




Um amigo enviou-me por e-mail o texto de Vasco Pulido Valente incluído no PÚBLICO de 2 de Março de 2008, a que fiz referência dois ou três posts atrás. Aqui fica, para quem o não tenha lido.
A avaliação dos professores
Como se pode avaliar professores, quando o Estado sistematicamente os "deseducou" durante 30 anos? Como se pode avaliar professores, quando o ethos do "sistema de ensino" foi durante 30 anos conservar e fazer progredir na escola qualquer aluno que lá entrasse? Como se pode avaliar professores, se a ortodoxia pedagógica durante 30 anos lhes tirou pouco a pouco a mais leve sombra de autoridade e prestígio? Como se pode avaliar professores, se a disciplina e a hierarquia se dissolveram? Como se pode avaliar professores, se ninguém se entende sobre o que devem ser os curricula e os programas? Como se pode avaliar professores se a própria sociedade não tem um modelo do "homem" ou da "mulher" que se deve "formar" ou "instruir"?
Sobretudo, como se pode avaliar professores, se o "bom professor" muda necessariamente em cada época e cada cultura? O ensino de Eton ou de Harrow (grego, latim, desporto e obediência) chegou para fundar o Império Britânico e para governar a Inglaterra e o mundo. Em França, o ensino público, universal e obrigatório (grego, latim e o culto patriótico da língua, da literatura e da história) chegou para unificar, republicanizar e secularizar o país. Mas quem é, ao certo, essa criatura democrática, "aberta", tolerante, saudável, "qualificada", competitiva e sexualmente livre que se pretende (ou não se pretende?) agora produzir? E precisamente de que maneira se consegue produzir esse monstro? Por que método? Com que meios? Para que fins? A isso o Estado não responde.
O exercício que em Portugal por estúpida ironia se chama "reformas do ensino" leva sempre ao mesmo resultado: à progressão geométrica da perplexidade e da ignorância. E não custa compreender porquê. Desde os primeiros dias do regime (de facto, desde o "marcelismo") que o Estado proclamou e garantiu uma patente falsidade: que a "educação" era a base e o motor do desenvolvimento e da igualdade (ou, se quiserem, da promoção social). Não é. Como se provou pelo interminável desastre que veio a seguir. Mas nem essa melancólica realidade demoveu cada novo governo de mexer e remexer no "sistema", sem uma ideia clara ou um propósito fixo, imitando isto ou imitando aquilo, como se "aperfeiçoar" a mentira a tornasse verdade. Basta olhar para o "esquema" da avaliação de professores para perceber em que extremos de arbítrio, de injustiça e de intriga irá inevitavelmente acabar, se por pura loucura o aprovarem. Mas loucura não falta.

Estou muito mais descansado!


Afinal se, durante o dia de hoje, todos os telejornais abriram com a demissão do treinador do Benfica, dando-lhe, no mínimo, uma dezena de minutos, é porque a coisa não estará assim tão grave (renego qualquer intenção blasfema do que disse em relação ao Glorioso, o Eterno, abençoado para sempre seja o Seu nome!). Além disso, logo a seguir, veio a Naíde Gomes, campeã do mundo em salto em comprimento e o Nelson Évora, medalha de bronze.
Mais do que inchado, fiquei arrelampado! Eu e todos os portugueses, que os órgãos de comunicação não querem que nos falte nada! Que bem que cumprem a missão de que se incumbem de alimentar e preservar a alma lusitana...!
Ah! E nem se esqueceram de nos avisar de que o sr. Presidente da República voltou à Pátria, depois de ter visitado a nossa ex-colónia da América do Sul! Nem do funeral da pequena Mariluz!

Uma pequena nota


Desde há algum tempo que cessou a divulgação, quase diária e por diferentes órgãos de comunicação, de sondagens que mantinham a atribuição de maioria absoluta ao Partido Socialista em caso de eleições.

08 março 2008

Segunda rapidinha do dia


Segundo a PSP, 80.000 professores, isto é, cerca de dois terços de um dos maiores, senão o maior grupo profissional do país, vindos de todos os cantos do mesmo, deslocaram-se até à capital, marchando depois pela Avenida da Liberdade, no que constituiu uma enorme manifestação de mal-estar nacional, inédita por envolver os elementos de uma única profissão.
Sintoma também inédito, afinal, da maior manifestação de incompetência técnica e de inabilidade política e governativa de que há memória em Portugal desde há 34 anos.
Sócrates perde o país, à medida que ele se perde nas suas mãos. E perde o partido que, com ele, também se perde.
Resta saber o que se achará depois disto.

Rapidinha

Escher, Côncavo
A trabalhar (raisparta!), ouço a SICNotícias e levanto os olhos quando anunciam uma peça sobre o sistema de avaliação dos professores na Bélgica, que desconheço completamente. Parece-me completamente adequado àquilo que se pretende: em primeiro lugar, ela incide sobre a escola no seu conjunto e, só em casos excepcionais, sobre o professor, a pedido do director, em função de uma diferença de nível clara observada entre o nível da média de resultados obtidos pela escola numa determinada disciplina e a das turmas que lhe foram distribuídas. A remuneração do docente não é afectada pelo resultado.
Recordo o que afirmou noutro dia um senhor da empresa Jerónimo Martins (ouvi-o de raspão, mas pareceu-me que foi qualquer coisa deste género): o tipo de avaliação determinada para os professores é feito na sua empresa há muitos anos e nada há nela de extraordinário. Como comentário apenas se poderá relembrar que as pessoas consideradas - e auto-consideradas - importantes deste país continuam a ser os mestres-de-obras, alguns dos quais já sabem ler.
Finalmente (tenho que voltar ao trabalho!), verifico que, nas escolas belgas, os alunos usam, desde a infância, computadores da Apple MacIntosh, a empresa que melhores programas tem ao nível da educação. Aqui ao lado, em Espanha, o Estado também fez um contrato com a mesma empresa há algum tempo, em Inglaterra é o que se vê e pela Europa fora... Em Portugal, ensina-se com recurso a programas tipo Office e conheço gente, recém-saída da Universidade, que nem sequer sabia da existência de tal marca antes de eu lhe falar dela. O que acaba por ser natural, num país onde a classe política se especializou mais no uso do fax.
Este post foi possível com produtos do Bill Gates.

06 março 2008

Subscrevo inteiramente...


... este texto de Francisco Mendes da Silva, publicado hoje no 31 da Armada, bem como o texto de Vasco Pulido Valente no PÚBLICO do passado domingo (alguém leu?).

26 fevereiro 2008

Ainda na sequência do post anterior...

Goya, O sonho da Razão
... não me lembro de quem disse, a propósito de um assassínio político de terríveis consequências posteriores, que "pior do que um crime, foi um erro". O mesmo se poderia dizer desta equipa ministerial: é que pior do que politicamente reprovável, é imbecil.
E do representante da Associação de Papás, que é de uma imbecilidade tenebrosa.

Rato escondido com o rabo de fora


Tive que trabalhar até agora e, entretanto, fui ouvindo o Prós e Contras. No fim, chamou-me a atenção a antepenúltima frase da intervenção com que a senhora Ministra da Educação fechou o debate. Foi quase textualmente isto: "Os professores estariam todos satisfeitos comigo se eu não fizesse nada".
Dê-se-lhe os parabéns! É de facto difícil ultrapassá-la na arte do insulto reles e da política de vão-de-escada!

16 fevereiro 2008

Pensamento do dia


A bove ante, ab asino retro, a stulto undique caveto.
Guarda-te do boi pela frente, do burro por detrás, e do tolo por todos os lados.

15 fevereiro 2008

Passei por aqui...

Escher

... só para dizer que estou sem tempo nenhum, perdido e atulhado em burocracias apresentadas como organizadoras da vida da nação nos novos caminhos que ela inicia em direcção a. Mas que, no meu caso específico, só revela a mais completa ausência de bússola e sequer de saber técnico.
Pior que deplorável, é grotesco.
Logo que possa, regresso.

11 fevereiro 2008

Relembrando


A propósito de uma troca de pontos de vista que tive ontem com a Abobrinha, deixo aqui um excerto d' A Terceira Vaga, de Alvin Toffler, que se aplica não apenas ao que ele visa directamente, os diferentes cultos religiosos que pululam nos EUA, mas, de facto, a tudo o mais.
Na realidade, o conteúdo exacto da mensagem do culto é quase secundário. O seu poder encontra-se em fornecer síntese, em oferecer uma alternativa para a fragmentada cultura blip que nos cerca. Uma vez essa estrutura aceite pelo recruta do culto, ajuda-o a organizar muita da informação caótica que o (ou a) bombardeia do exterior: quer essa estrutura de ideias corresponda, quer não, à realidade exterior, fornece um conjunto certo de nichos onde o membro pode armazenar os dados que recebe, aliviando assim a tensão da sobrecarga e da confusão. Não fornece verdade como tal, mas sim ordem e, consequentemente, significado.
Ao dar ao membro o sentimento de que a realidade tem significado - e que ele ou ela devem levar esse significado a pessoas do exterior -, o culto oferece objectivo e coerência num mundo aparentemente incoerente.

08 fevereiro 2008

Depois de o ter ouvido dizer ontem, na entrevista à RTP, que ser artista é hoje outra profissão





Recebido por e-mail


Avaliação do desempenho dos docentes
De acordo com ponto 2 do Artigo 9.º do Decreto Regulamentar n.º 2/2008, (itens de referência para os objectivos individuais), passo a apresentar os meus objectivos e respectivas estratégias.
a) A melhoria dos resultados escolares dos alunos; Pretendo baixar o insucesso dos meus alunos, a matemática, de 25% para 20% . No ano anterior a turma tinha 20 alunos dos quais 5 tiveram insucesso (25 %); como este ano a turma aumentou para 25 alunos, se os mesmos 5 não obtiverem sucesso terei uma percentagem de insucesso de 20%. Estou de parabéns. (P.S: Não esquecer de pedir para voltarem a aumentar a turma para o próximo ano). Estratégia II: não me aumentando a turma, e como o Ministério diz que não precisam de ter aproveitamento a matemática (podem transitar com nível 2 a duas ou três disciplinas), vou oferecer 2€ sempre que um aluno tenha positiva num teste. (P.S: se 2 € não resultar terei de pensar em 5€ e já não vou de férias para a praia ).
b) A redução do abandono escolar; Pretendo obter 4% de abandono escolar, que corresponde a 1 aluno cuja família é constituída por pais toxicodependentes; Se durante o ano lectivo a avó materna que cuida de um dos alunos, por este ter sido abandonado pelos pais, vier a falecer (já tem 80 anos) ou ficar incapacitada de cuidar dele, comprometo-me a adoptá-lo para cumprir os objectivos da minha avaliação; Quanto aos que mudarem de residência sem efectuarem transferência, encarregar-me-ei de descobrir a nova morada e contactá-los pessoalmente para que assinem os papéis da transferência (P.S: espero que nenhum dos ucranianos regressem ao seu país pois a 5€ por positiva, não vou poder ir à terra deles tratar dos papéis);
c) A prestação de apoio à aprendizagem dos alunos incluindo aqueles com dificuldades de aprendizagem; Comprometo-me a prestar apoio a todos explicando individualmente a matéria que tinham que estudar e resolvendo os exercícios que tinham para TPC, mas que não fizeram pois como me disseram "tenho mais que fazer que ir para casa fazer TPC's"; (P.S: 90 min de aula a dividir por 25 alunos dá 3,6 min a cada um; será que aquela programação de matemática que previa 8 aulas para uma unidade contou com este tempo?)
d) A participação nas estruturas de orientação educativa e dos órgãos de gestão do agrupamento ou escola não agrupada; Como não sou titular só poderei ser director de turma, o que farei se me atribuírem o cargo (que remédio); (P.S: se não me derem o cargo de DT será que ficarei em falta? Se calhar é melhor pedir para, por favor!, por favor!, me darem o cargo);
e) A relação com a comunidade Proponho-me a estabelecer boas relações com a comunidade, não reagindo se for insultado ou agredido por alunos ou EE. Não sei se é com a escolar se é com a local por isso pelo sim pelo não estou a pensar organizar uma recepção, com buffet claro, a todos os alunos e EE e convidar também os elementos da Junta de Freguesia (P.S: se não me deixarem fazer a recepção na escola tenho de alugar um espaço; NOTA: se alugar o espaço à Junta até estou a contribuir para as boas relações, pois uma rendazita é sempre bem vinda para a autarquia)
Agora não posso pensar em mais itens; A minha mulher está a chamar-me para atender um aluno que tem os pais desempregados e veio cá a casa buscar umas merceariazitas, enquanto não chega o subsídio de desemprego. É que a mãe já me disse que na situação em que se encontram, não tem dinheiro para mandar o miúdo à escola, mas eu não posso aumentar a taxa de abandono...

Diz-me, Mandrake...


... quais terão sido os motivos que fizeram com que um programa do tipo do Diga lá, Excelência convidasse um Director de uma Polícia Judiciária?
E o que terá levado esse mesmo Director a escolher esse programa para fazer uma declaração que ele sabia ser de carácter muito mais do que melindroso e com tamanhas consequências, a começar pelas recairiam inevitavelmente sobre ele próprio?

07 fevereiro 2008

Minutos atrás...


... no telejornal das 20, ouviu-se o padre Amadeu Pinto, director do Colégio S. João de Brito, de onde saiu tanta boa (e má) gente das elites culturais e políticas deste país, fazer uma crítica duríssima ao Ministério da Educação durante uma cerimónia em que Cavaco Silva participou.
Amadeu Pinto referiu-se às consequências catastróficas para o país das medidas determinadas por esta equipa ministerial, em termos daquilo que, afinal, é comum ouvir a qualquer docente. Na peça jornalística que se seguiu, porém, o secretário de Estado, Jorge Pedreira, falava de rigorosamente nada, fingindo esclarecer tudo o que diz respeito à avaliação dos professores, num exemplar exercício de escamoteação aparolada.
A incompetência é mesmo uma coisa muito triste...! E quando se junta à demagogia manipulatória...

Matraquilho...


... é pinbolim.

03 fevereiro 2008

Traduzindo o que penso e costumo dizer...


... Vasco Pulido Valente escreve hoje, no PÚBLICO:
(...) Talvez convenha perceber duas coisas sobre a corrupção. Primeira, onde há poder, há corrupção. E onde há pobreza, há mais corrupção. Destes dois truísmos resulta necessariamente que quanto maior é o poder ou a pobreza, maior é a corrupção. Portugal junta a uma atávica miséria um Estado monstruoso e autoritário e, por consequência, tem as condições perfeitas para produzir uma enorme quantidade de corrupção. Em Portugal nada se salva da corrupção: nem a administração local, nem a administração central, nem os partidos, nem os "negócios", nem os governos, nem o futebol. A corrupção está íntima da cultura "nacional", no centro da ordem estabelecida, na maneira como os portugueses tratam de si e se tratam entre si.
Não vale a pena, por isso, declamar, perorar, rugir e chorar. O mal só tem dois remédios: o enriquecimento do país, por um lado, e, por outro, uma drástica redução do Estado e, principalmente, da autoridade do Estado. Quanto ao enriquecimento, não parece próximo. Quanto à redução de um Estado com 700.000 funcionários, ninguém até hoje o conseguiu reformar. Pelo contrário, aumentou sempre, intocável e triunfante. Quarta ou quinta-feira, o dr. Silva Lopes perguntava na televisão por que não se metiam, pelo menos, meia dúzia de corruptos na cadeia. Como em Espanha. Ou em França. Ou na América. Não se metem, porque, a meter meia dúzia, acabavam por se meter uns milhares, ou umas dezenas de milhar. E também, evidentemente, porque nenhuma sociedade se persegue a si mesma.

29 janeiro 2008