01 agosto 2008

Confesso!


Acredito em milagres, ao menos no sentido espinoseano. E estive à espera dele até à hora aprazada. A última de que me lembrei foi de que poderíamos ouvi-lo dizer:
"- Portugueses! A crise agrava-se e, em desespero de causa, decidi recorrer aos meios privilegiados a que minha posição dá acesso. Venho comunicar-vos que decidi pôr à venda a minha casa no Algarve, a vivenda Mariani. Trata-se de um imóvel usado, em muito bom estado de conservação, bem situada e a um preço imbatível (pela urgência), mas, ainda assim, negociável. Todos os contactos..."
Mas foi mais uma desilusão. Cavaco Silva limitou-se a acrescentar um sabor patético à silly season e foi de novo à sua vida.

31 julho 2008

E se...


E. Munch, Melancolia
... Cavaco Silva, hoje, no seu inesperado discurso ao país, dissesse (imaginem a voz rouca e os trejeitos):
-Portugueses! Recebi uma mensagem do meu congénere de Marte, no sentido de estabelecer na Baixa da Banheira um entreposto comercial e uma base militar marciana, o que é demonstrativo da nossa credibilidade ao nível galáctico!
Ou, um pouco menos improvável, mas muito mais portuguesmente (continuem a imaginar a voz e o resto):
- Portugueses! Acabei de ganhar o Euromilhões. Por isso estou-me a c... para vocês e vou viver para a Seychelles. Fiquem vocês com esta m...!
Mas como também eu sou português e, portanto, me assumi, enquanto tal, filho da pouca-sorte e da tristeza, sei que nada disto acontecerá e que a minha vida será feita, até ao final, da monotonia da intriga e da coisa nenhuma.

30 julho 2008

Uma no cravinho, outra na corrupção


O ex-ministro socialista João Cravinho deu, de novo, forte e feio na política anti-corrupção do governo de José Sócrates, dizendo que ela, de facto, não existe.
O Partido Socialista disse, pelo seu porta-voz, que não recebe lições do engº Cravinho em matéria de corrupção.
Melhor seria dizer, uma vez que não me consta que João Cravinho tivesse deixado de ser militante do partido, que os actuais dirigentes socialistas não recebem lições de outros socialistas.
O que significará, em suma, que, tal como no final da fábula de Georges Orwell, The Animal's Farm, há socialistas que são mais socialistas do que outros.

Do mérito e do susto


O primeiro-ministro fez hoje gala na apresentação do Magalhães, o primeiro computador inteiramente montado em Portugal, com o apoio da Intel, e destinado aos alunos do 1º ciclo do ensino básico. Mais ainda: o computador poderá ser adquirido por somente 50 euros e, em casos que requeiram apoio social escolar, conforme o escalão em que se encontrar, o aluno verá o preço reduzido para 20 euros ou mesmo para custo zero. O Magalhães, tal como o nome indica, destina-se também a dar a volta ao mundo e já existem contratos com a Venezuela, a Líbia e outros países de África.
A iniciativa é, sem dúvida, meritória a diferentes níveis, embora eu não tenha a certeza de que a substituição do papel pelo monitor, por muito "ecológico" que pareça ser a curto prazo, não venha a constituir, daqui a alguns anos, um motivo de mais um desgaste da natureza e de uma qualquer acumulação de resíduos, devidos ao acréscimo de fabrico de material oftalmológico. Isto, é claro, pondo de lado o facto de que os olhos humanos também fazem parte da natureza... A não ser que a próxima luta de alguns grupos ecologistas seja pelo analfabetismo, não estou a ver, aliás, como se resolverá o problema da conciliação entre uma humanidade totalmente alfabetizada (como é o seu direito, de acordo com o que é também o ideário do ecologismo) e o consequente desiquilíbrio que isso inevitavelmente provocará. Só os chineses e os indianos a cultivarem-se todos...! Nem a partilha de livros (a de lentes, então, é que não dá mesmo jeito nenhum...) resolve a coisa. Sem falar das implicações do aumento do consumo de energia eléctrica...
Mas voltando ao anúncio do governo: a medida é o equivalente, portanto, a pôr ao alcance da bolsa média das famílias portuguesas material escolar sofisticado, ao nível dos novos "amanhãs que cantam" que aí vêm (a esquerda, como se vê, deixou um "rasto útil" para todos os partidos políticos). Dessa perspectiva, repito, seria uma óptima decisão, para a qual só poderiam ir elogios. Porém, não nos iludamos: as máquinas não serão capazes de ultrapassar a falta de exigência e a verdadeira catástrofe pedagógica a que se assiste no ensino no país desde há vinte anos e que a actual equipa ministerial têm levado ao grotesco, hipotecando o país por décadas. Antes, exactamente pelas suas potencialidades, a reforçarão!
Mais: se ouvirmos bem o que está no filme de apresentação, veremos que nele se reforça implicitamente a ideia de algo bacocamente sinistro e delirante que esta mesma equipa ministerial associou à consubstanciação da figura de professor-tutor, que implementou ao nível dos ensinos básico e secundário. Ora ouçam e assustem-se, e, se não se assustarem, informem-se devidamente, que vale a pena assustarem-se.

29 julho 2008

Mas o que é isto?!


A Assembleia Regional dos Açores e a Assembleia da República aprovaram por unanimidade um novo texto para o Estatuto Político-Administrativo dos Açores, composto por 13 normas.
O Presidente da República tem dúvidas sobre a constitucionalidade do documento e envia-o para o Tribunal Constitucional, que chumba 8 dessas 13 normas, ou seja, bastante mais de metade!
Os elementos do Governo Regional dos Açores e do Partido Socialista dizem que isto demonstra que o PS está disposto a avançar com grandes medidas ao nível da autonomia. Manuela Ferreira Leite lembra que o seu partido avisou, desde sempre e todos, sobre o que inevitavelmente sucederia. Os deputados do PSD, pelos vistos, não a ouviram.
Pergunto: que juristas temos na Assembleia da República? que juristas temos no Tribunal Constitucional? que níveis de comunicação existem entre o Governo Regional e o Partido Socialista? que níveis de comunicação existem dentro do PSD? que níveis de comunicação existem entre o Presidente da República e Manuela Ferreira Leite? o grau de ilegalidade constitucional é directamente proporcional à medida do grau de determinação do Partido Socialista?
E ninguém é chamado a responder, obrigatória e urgentemente, a tudo isto perante os seus compatriotas?! Ninguém se descose?!

28 julho 2008

Para quem não saiba...


... tenho irmãos em Portugal!

Pschhh...!


Alberto João Jardim diz que o PSD-Madeira vai editar uma revista mensal destinada a discutir princípios políticos. Nisso, continua Alberto João, o PSD-Madeira distingue-se das restantes instituições partidárias, uma vez que esse tipo de publicações tem vindo a ser encerrado pelos outros e que os únicos assuntos que se discutem neste momento são coisas como o preço do bacalhau.
Jardim que, segundo o maestro Rui Massena, faz parte do público fiel da Orquestra Clássica da Madeira e por lá aparece sem lugar reservado, sem staff e em mangas de camisa, afirma ainda que os madeirenses têm o dever de ajudar os restantes portugueses a repudiar um insulto chamado José Sócrates e que o PSD do continente está ao serviço de uma burguesia sobranceira e arrogante que não se identifica com o povo e é relutante à própria ideia de se misturar com ele.
E não é que até parece ser a chamada lufada de ar fresco?!

24 julho 2008

Resposta a um comentário ao post anterior


Caríssimo nightbug:
Uma coisa é, como eu fiz no post que referiu, utilizar ironicamente uma expressão para reforçar uma situação que é, em meu entender, desmascaradora de um preconceito de consequências trágicas; outra, a utilização de uma expressão do mesmo tipo numa atitude de agressividade gratuita e, por isso, de consequências perigosas, bem como o fazer-lhe publicidade à borla. Acredito perfeitamente que quem colocou a fotografia não tenha reparado nesse pormenor. Mas nem por isso deixa de lá estar e de poder ter reflexos.
O meu sobrinho, de 13 anos, é adepto do Sporting e já o acompanhei duas ou três vezes a Alvalade. Durante os jogos, e uma vez que ficámos num dos topos do estádio, o seu comportamento foi naturalmente influenciado, dada a sua idade, pela comportamento da claque sportinguista, que nem sempre revelava o melhor espírito desportivo. E essa influência só foi travada pelo facto de ele, sendo atleta federado, começar, a certa altura, a perceber que aquela não era exactamente uma atitude a imitar por alguém que gostasse verdadeiramente de futebol. Foi ele, aliás, e não eu quem ontem reparou no que estava na imagem.
Quem assume o papel de comunicar publicamente algo, assume automaticamente também as responsabilidades das consequências da sua acção. Do mesmo modo que o tipo que vende droga não pode escusar-se, atirando a responsabilidade da compra para cima da vontade de quem a fez. Claro que, em última instância, manda a vontade, mas também ninguém foi incumbido ou está autorizado a armadilhar o caminho de outrem e muito menos a fazê-lo impunemente. Daí os responsáveis de uma entidade do desporto e do espectáculo desportivo com a dimensão, o carácter e o peso do passado do Sporting Clube de Portugal não poderem descurar, por um instante que seja, esse aspecto da instituição.
Foi, portanto, por apreço pelo clube e nesse sentido que escrevi o post anterior e que o enviei para a redacção. Como alerta, mais ou menos bem-humorado, e não como lição de moralismo barato ou, pior ainda, como manifestação de uma qualquer clubite mentecapta, as partidárias incluídas, que ocupam 90% das vidinhas que vegetam nesta praia da Europa.
Esclarecido?
(imagem "bifada" em lasthorizonblog.blogspot.com)

23 julho 2008

Delicioso! (via 31 da Armada)

À atenção dos responsáveis do Sporting Clube de Portugal


Esta fotografia está hoje na página oficial do Sporting. Nela se pode ver em destaque um termo em inglês que, se não for entendido como um apelo (legítimo) à prática a que se refere, constitui o exemplo a dar exactamente oposto ao que significa a expressão "espírito desportivo". Que um imbecil troglodita exiba uma faixa de tal grau de grosseria e agressividade cretina num desafio de futebol é previsível, mas inaceitável quer por parte de qualquer dos seus concidadãos quer, por maiores razões ainda, pelo clube de que é adepto ou sócio, ou por outro clube que esse clube visite; mas que o próprio clube exiba essa fotografia no seu site é não apenas condenável como muito, mas mesmo muito preocupante, se tivermos em atenção o que diz especialmente respeito à formação cívica dos seus jovens sócios ou adeptos.
Quem o diz é alguém que tem pelo SCP uma razoável consideração, dado o notável papel que tem tido na formação desportiva de jovens atletas, bem como pela postura de carácter social que lhe tem estado associada e que se estende para lá do desporto, como ainda se pôde ver recentemente na homenagem ao Professor Moniz Pereira, transmitida na RTP. E que, por isso mesmo, pensa que os responsáveis do clube (de todos os clubes) não podem demitir-se da sua responsabilidade pública a este nível, atendendo ao poder adquirido pelo desporto e, em especial, pelo futebol enquanto elemento da sociedade contemporânea.

21 julho 2008

Na sequência do post anterior


(na bomba está escrito "direitos das gentes")

A propósito do que escrevi no post anterior, escreve por sua vez Mário Crespo, no Jornal de Notícias (sublinhados meus):

Limpeza étnica

O homem, jovem, movimentava-se num desespero agitado entre um grupo de mulheres vestidas de negro que ululavam lamentos. "Perdi tudo!" "O que é que perdeu?" perguntou-lhe um repórter.
"Entraram-me em casa, espatifaram tudo. Levaram o plasma, o DVD a aparelhagem..." Esta foi uma das esclarecedoras declarações dos autodesalojados da Quinta da Fonte. A imagem do absurdo em que a assistência social se tornou em Portugal fica clara quando é complementada com as informações do presidente da Câmara de Loures: uma elevadíssima percentagem da população do bairro recebe rendimento de inserção social e paga "quatro ou cinco euros de renda mensal" pelas habitações camarárias. Dias depois, noutra reportagem outro jovem adulto mostrava a sua casa vandalizada, apontando a sala de onde tinham levado a TV e os DVD. A seguir, transtornadíssimo, ia ao que tinha sido o quarto dos filhos dizendo que "até a TV e a playstation das crianças" lhe tinham roubado. Neste país, tão cheio de dificuldades para quem tem rendimentos declarados, dinheiro público não pode continuar a ser desviado para sustentar predadores profissionais dos fundos constituídos em boa fé para atender a situações excepcionais de carência. A culpa não é só de quem usufrui desses dinheiros. A principal responsabilidade destes desvios cai sobre os oportunismos políticos que à custa destas bizarras benesses, compraram votos de Norte a Sul. É inexplicável num país de economias domésticas esfrangalhadas por uma Euribor com freio nos dentes que há famílias que pagam "quatro ou cinco Euros de renda" à câmara de Loures e no fim do mês recebem o rendimento social de inserção que, se habilmente requerido por um grupo familiar de cinco ou seis pessoas, atinge quantias muito acima do ordenado mínimo. É inaceitável que estes beneficiários de tudo e mais alguma coisa ainda querem que os seus T2 e T3 a "quatro ou cinco euros mensais" lhes sejam dados em zonas "onde não haja pretos". Não é o sistema em Portugal que marginaliza comunidades. O sistema é que se tem vindo a alhear da realidade e da decência e agora é confrontado por elas em plena rua com manifestações de índole intoleravelmente racista e saraivadas de balas de grande calibre disparadas com impunidade. O país inteiro viu uma dezena de homens armados a fazer fogo na via pública. Não foram detidos embora sejam facilmente identificáveis. Pelo contrário. Do silêncio cúmplice do grupo de marginais sai eloquente uma mensagem de ameaça de contorno criminoso - "ou nos dão uma zona etnicamente limpa ou matamos." A resposta do Estado veio numa patética distribuição de flores a cabecilhas de gangs de traficantes e autodenominados representantes comunitários, entre os sorrisos da resignação embaraçada dos responsáveis autárquicos e do governo civil. Cá fora, no terreno, o único elemento que ainda nos separa da barbárie e da anarquia mantém na Quinta da Fonte uma guarda de 24 horas por dia com metralhadoras e coletes à prova de bala. Provavelmente, enquanto arriscam a vida neste parque temático de incongruências socio-políticas, os defensores do que nos resta de ordem pensam que ganham menos que um desses agregados familiares de profissionais da extorsão e que o ordenado da PSP deste mês de Julho se vai ressentir outra vez da subida da Euribor.

Acrescento eu: a irresponsabilidade e o oportunismo geradores da situação social presentemente vivida e que utiliza os dinheiros públicos para procurar disfarçá-los e atenuá-los no imediato, assegura a sua permanência na política, sobretudo na política autárquica, através dos votos daqueles a quem subsidia. O que serviu no período cavaquista num campo, serve agora noutro.
No meio da hipocrisia sufocante que envolve o que respeita à emigração em Portugal, o repugnante termo "tolerância" faz as vezes de escudo ornamentado e ornamental dos discursos oficiais e de bandeira contestatária dos idiotas bem-intencionados do costume, enquanto o ex-primeiro-ministro e actual Presidente da República, torna dela apóstolas as forças de segurança. Ainda por cima, aquelas forças de segurança que são desencorajadas de disparar durante as perseguições, nem que seja sobre os pneus!
Não sei se já referi isto anteriormente: aqui há uns anos, uma escola secundária sueca organizou um encontro em que participaram duas escolas portuguesas e uma espanhola. Esse encontro destinava-se a troca de experiências e metodologias, no sentido de resolver problemas decorrentes da emigração. A escola situava-se numa zona industrial e, por isso, tinha uma grande percentagem de alunos de origem estrangeira e havia turmas com oito (!) nacionalidades. O que, todavia, ainda acrescenta interesse a tudo isto, é que o que despoletou a necessidade do encontro por parte dos suecos foi o facto de, numa fábrica qualquer, ter havido um operário estrangeiro que agrediu um sueco com uma chave de parafusos - o que foi por eles considerado com um grau alarmante de violência...!
Por isso, se um mínimo de lucidez não acabar por prevalecer, pede-se ao sr. engº. Sócrates e à sra. Ministra da Educação, que tanto gostam de falar dos países nórdicos e de os dar como exemplo, de, pelo menos, adoptarem o modo e os recursos (baratos, que os nórdicos não dão nada a ninguém, apesar da propaganda) com que neles se integram os emigrantes. É que acarretaria muito menos custos para o país e seria muito mais eficaz. Garante quem lá esteve. Só que teriam que prescindir de oferecer computadores à juventude desvalida e das cerimónias oficiais anunciadoras de bons serviços à Pátria, com ou sem figurantes. Mas enfim, todos temos que fazer sacrifícios e os governantes não podem ser excepção...

19 julho 2008

Do crime de alguns e do castigo de todos


Foi durante o reinado cavaquista que a emigração clandestina disparou para níveis nunca vistos em Portugal. A "remodelação e o progresso do país" exigiam o aumento da mão-de-obra não qualificada, contratável a qualquer preço, alojável em quaisquer condições e descartável a qualquer momento, sem cuidar da sua "reciclagem". E toda a gente, incluindo o sr. Professor, estupidamente, criminosamente, ignorou ou fingiu ignorar as consequências explosivas da "conveniente" permissividade quanto à sua entrada ilegal no país.
Como dizia um representante da comunidade cigana da Quinta da Fonte, não são os elementos mais velhos da comunidade negra, ordeiros e pacatos, mas os mais novos, organizados em gangs, que constituem a origem do problema registado. Não há nada de estranho nisto.
Aqui há uns anos, na que era, segundo as estatísticas da UE, a "escola mais africana da Europa", uma das duas escolas secundárias da Damaia, os pais dos alunos procuravam apoio junto do Conselho Executivo da mesma, alarmados (para não dizer, em pânico!) pelo facto de os seus filhos, que ficavam sozinhos enquanto eles se encontravam a trabalhar, aparecerem com armas em casa, recusando-se a dizer quem lhas havia fornecido. A estrutura hierárquica familiar própria da família africana, equivalente à da antiga estrutura portuguesa, em que os avós substituíam os pais na ausência destes e mantinham um ascendente flexível de sabedoria disciplinadora, desaparecera nas novas condições. E os putos estavam entregues a si próprios, à mercê de todo o tipo de influências e solicitações, ainda sem a capacidade de discernimento nem a maturidade necessária para fazerem escolhas conscientes.
E quem são esses putos? Cidadãos portugueses, que vêem em Afonso Henriques o fundador de um povo predestinado?
A população vinda província, de Trás-os-Montes ao Alentejo, para trabalhar nas grandes cidades tende a concentrar-se na mesma região onde já se encontram familiares ou conhecidos, que possam constituir pontos de apoio no dia a dia. É assim que se formam bairros inteiros localizados de gente provenientes da mesma região e as crianças que frequentam as escolas entram nelas, naturalmente, já com uma primeira perspectiva do mundo e pontos de orientação dados pela família. Essa perspectiva é, obviamente, a que os pais herdaram da aldeia: desde os cuidados a ter aos exemplos de verdadeira sabedoria, do que é importante ou dispensável. E os professores têm que ter em conta que o que lhes é ensinado apenas é absorvido à medida desses horizontes e que aquilo que é a linguagem clara dos conceitos e das metáforas do conhecimento para um puto da grande cidade, é linguagem abstrusa e indecifrável para um outro que, mesmo vivendo fisicamente nela desde sempre, vive mentalmente sobretudo na terra dos avós. Ou melhor: no cômputo geral, não vive em lado nenhum, porque é tudo uma enorme confusão de parâmetros contraditórios. Portanto, em primeiro lugar, antes de estruturar qualquer aprendizagem, ele terá que destruir e reconstruir estruturas paramétricas. E isso demora anos, por vezes muitos anos, até para os que são bastante dotados de si mesmos.
Sei do que falo. A minha família, em sentido lato, começou a emigrar para a cidade desde o tempo dos meus avós e tive oportunidade de ver o processo de mais de uma geração e de diferentes famílias dela conhecidas.
Essa é a situação da "segunda geração africana". Mas a que se acrescenta algo de muito mais decisvo. É que enquanto o avô ou o pai branco ainda dá a referência Viriato, Afonso Henriques ou Nun'Alvares, o pai ou mesmo o avô preto, não lhe fornece qualquer referência, a não ser a da terra de onde veio, onde antigamente mandavam os que mandam aqui e que agora é independente porque houve uns tipos admiráveis que se revoltaram. Mas, de qualquer maneira, a terra deles é pobre e não foi para a frente e agora são eles que têm que vir para cá viver. A "terra", não o "país", porque para haver um país tem que haver uma estrutura da memória que o identifique e gente determinada em fixar-se no seu território, desenvolvendo-o. Como é que se pode falar do "seu" país, se não se pode falar dele em termos de um passado próspero ou glorioso ou, quando seria suposto que todos se empenhassem na sua formação, a quase totalidade dos seus cidadãos só não sai de lá porque não consegue ou não pode?
Os que pertencem a essa "segunda geração" são assim, por condição económica, cultural e política, cidadãos de "segunda agravada". Existe, porém, um terceiro factor que eleva ao cubo tudo isto. É que eles são tanto "de segunda", que até são diferentes: são pretos. Quando um judeu tirava o barrete com que era publicamente obrigado a identificar-se, tornava-se apenas em mais um homem, cuja cultura constituía a base da cultura onde se integrara; podia invocar os seus antepassados como os mais veneráveis dos mais veneráveis por aqueles em cujo país se encontrava - e todos sabemos o que sucedeu. Mas os pretos...? É o ferrete da Natureza. Revolte-se o escravo ancestral. O mais fácil e o que causa mais estragos em toda esta merda desta confusão é ser bandido, como aqueles blacks dos filmes americanos. Sobretudo (suponho agora eu) se houver uns tipos porreiros a financiar as armas a troco de comparticipação nos lucros. Vamos ser um estado independente dentro do Estado. E "eles" têm que pagar imposto.
A tudo isto, o Ministério da Educação responde com a menor exigência e, portanto, diminuindo ainda mais as possibilidades de qualquer tipo de integração. Quanto ao sr. Presidente, certamente já um pouco falho de memória sobre aquilo que permitiu e abençoou por omissão enquanto primeiro-ministro, vi-o hoje na televisão afirmar, a propósito dos incidentes em Loures, que Portugal não pode ser um país de ghettos, que isso é estranho à nossa tradição de integração e de diálogo intercultural e atribuiu às forças da ordem (leram bem: às forças da ordem!) essa missão.
Para que conste!
(Escrevi isto de rajada e não vou rever. Por isso, desculpem qualquer coisinha)
NOTA: A "segunda geração de africanos" evitava matricular-se na escola a que me referi por ser... a "escola dos pretos"! E não por falta de qualidade da dita, já que a frequentava gente que é hoje docente no ensino universitário.

18 julho 2008

Distribuindo...

René Magritte


... chapeladas para aqui e para ali.

17 julho 2008

Oh! gente do c...!


Souberam do que aconteceu?! Os israelitas trocaram cinco palestinianos que cumpriam pena por terrorismo (um deles até matou uma família inteira com as suas próprias mãos, esmagando o crânio de uma criança...!) por dois soldados dos deles, que tinham sido feitos prisioneiros no Líbano e que ninguém sabia se estavam vivos ou mortos - e afinal, ao que parece, estavam mesmo mortos, que lhes foram entregues dois caixões!
Filhos da p... dos judeus! Aquilo está-lhes na massa do sangue! Têm cá um jeito para o negócio...!

16 julho 2008

Os gloriosos herdeiros de Monthy Python


Dias atrás, no noticiário de um canal de televisão, incluiram a seguinte notícia:
Quatro tipos resolveram assaltar uma estância já não me lembro de quê. Três ficaram dentro da carrinha, à espera do outro, que entrou para abrir caminho. O proprietário, homem aí pelos sessenta, que mora ao lado, ouvindo barulho, desconfiou, pegou na caçadeira e, dando com o assaltante de costas, intimou-o a sair. Porém, ao vê-lo virar-se, numa atitude agressiva e empunhando um pé-de-cabra, receando pela segurança da criança (neto?) que o acompanhara, alvejou-o nas pernas. O assaltante, ferido, conseguiu fugir, mas acabou por ser apanhado, juntamente com os amigalhaços, pela GNR, tendo sido assistido no hospital.
Este seria uma história de happy end à americana, com a inevitável piada final dos protagonistas e risos dos mesmos a condizer, não fora os juristas portugueses, vanguardistas eméritos e dos quatro costados, decidirem dar uma amostra da real dimensão da sua criatividade invertendo os dados do episódio, subvertendo-o na sua essência e mostrando assim que outros valores mais altos se alevantam na lei da nossa grei para além de Dada, dos irmãos Marx e dos Monthy Python, alcandorando-nos às alturas de vero primeiríssimo farol da contemporaneidade e até da aventura da Humanidade. Connosco, é assim mesmo, não fazemos por menos, porque tudo vale a pena se o esprito não é minorca.
Oh! golpe de génio inigualável e altíssimo do legislador! Oh! visão incomparável e sublime do problema da culpa e do perdão na perspectiva do burlesco pós-moderno! Com um golpe súbito e decisivo de uma trivela do espírito, eis que a arma do vil agressor é confiscada para compensação devida à desgraçada e inocente vítima assaltante. Confisque-se a caçadeira e obrigue-se quem a usou a apresentar-se duas vezes por semana no quartel do exército de anjos que garantem a segurança do local por excelência do remanso da Europa, assim decreta a Lei, no texto sagrado fixado pelo génio da lâmpada civilizacional! Pois quê!? Como poderá admitir-se que um sinistro cidadão, apoiado por uma maquiavélica criança, possa defender-se impunemente de um pobre meliante?!
Hollywood arrepela os cabelos, ao ver o seu império comprometido pela falta de visão dos produtores cinematográficos depreciadores de tal filão do grotesco! Os juristas portugueses ameaçam seriamente as coroas de Cristiano Ronaldo e de José Mourinho, não na futeboleira arte mas na do non-sense. Em conjunto com as determinações já conhecidas, como as de abater os cães que molestem assaltantes ou agressores, e de os polícias terem que pagar as balas e os danos ocorridos nas viaturas que conduzam, para além de lhes serem descontados os dias em que tenham que comparecer em tribunal para testemunharem, o português é convidado a não resistir sob qualquer pretexto e de chamar as forças policiais para o defenderem, mesmo que só depois de morto!
Gostaria de contribuir somente com uma sugestão para a eterna glória lusa: a de que todo aquele que o não faça após o falecimento, venha a ser sujeito à medida de residência fixa e veja o seu caixão confiscado. Que é para ver se aprendem a trabalhar por um país moderno, justo e solidário!
Tenho dito!

12 julho 2008

Não conto...


... poder vir a escrever nada assim, mais de fundo, antes da próxima quarta-feira. Entretanto, irei chamando a atenção para o que me pareça assinalável, como, por exemplo, isto. Além disto, claro (alô, Abobrinha!).

10 julho 2008

Ah!


Gente de sucesso


Naide Gomes, campeã nacional, europeia e mundial de atletismo, nascida em S. Tomé e Príncipe e naturalizada portuguesa, dizia ontem no decorrer de uma peça biográfica transmitida ao final da noite na RTPN (reproduzo de memória):
Quando vim de S. Tomé, a primeira coisa que estranhei mesmo foi a escola. Fiquei assim, como que chocada...! Era tudo muito... Os alunos maltratavam os professores!, muito barulho...! confusão...!, aquilo era... não dava para nada...! Em S. Tomé isso era impensável, até porque levávamos logo porrada...! Fui para casa e disse à minha mãe: Mãe, eles maltratam os professores...! E ela disse: eles, sim; mas tu, não...! Senão levas porrada!
Daqui, um grande abraço para Naide e para a sua mãe. E os meus maiores agradecimentos.

08 julho 2008

06 julho 2008

Ando cheio de trabalho!


Volto na quarta-feira.

30 junho 2008

Recomendo...


... a leitura disto (via Fiel Inimigo) e também disto.

25 junho 2008

Ainda a propósito dos Mistérios Esotéricos da Educação...


... a opinião de José Júdice no jornal Metro de hoje:
Aproveitando uma Conferência Internacional sobre Violência nas Escolas que está a decorrer em Lisboa, a ministra da Educação tentou sossegar os portugueses garantindo que, embora a indisciplina seja generalizada, os “fenómenosde violência estão circunscritos”. O país, disse a ministra, tem de ter a noção de que existe uma distinção entre violência escolar e indisciplina. E qual é essa distinção, perguntam ansiosos os pais e os professores, esperando da boca ministerial o conceito rigoroso que permita ao país, naturalmente confuso, distinguir entre falar ao telemóvel na sala de aula e dar uns sopapos na professora? A resposta, como era de esperar, é nenhuma. “Precisamos de um conhecimento mais aprofundado dessa distinção”, disse a ministra. Para perceber a diferença entre fazer barulho ou andar à pancada, a ministra precisa “de um conhecimento aprofundado dessa distinção”.
A maneira mais simples, e barata, de aprofundar esse conhecimento e contribuir para um melhor esclarecimento das políticas educativas seria enviar um secretário de Estado que se voluntariasse para o sacrifício de dar uma aula numa escola escolhida ao acaso (a Carolina Michaëlis do Porto salta imediatamente à mente, mas pode ser qualquer outra). Se o secretário de Estado fosse interrompido por risadinhas, conversas entre os alunos, ataques com aviões de papel ou toques de telemóvel, perceberia imediatamente o que é indisciplina. Caso os raides com aviões de papel evoluíssem numa escalada de violência para ataques com mísseis mais sólidos, como bolos de arroz, garrafas vazias de Coca-Cola ou ofensivas de infantaria ao sopapo e pontapé, o governante poderia tranquilamente concluir que estava a ser alvo de violência escolar e fugiria da escola mais rico e sabedor. Eventualmente com escoriações e nódoas negras, sim, mas enriquecido interiormente pelo “conhecimento mais aprofundado da distinção” entre indisciplina e violência.
Em vez deste saber de experiência feito, o que faz o ministério? Não faz nada, ou seja, anuncia“um conjunto muito vasto de medidas”: a criação de coordenadores de segurança nas escolas, a criação de uma Equipa de Missão para a Segurança Escolar, o reforço do programa Escola Segura, a colocação de centenas de professores em “comissões”, a criação de “cartões de estudante”, a vigilância electrónica e um exército de pedagogos e psicólogos fechados em gabinetes, provavelmente por receio de que levem pancada dos alunos. Reforçar a autoridade do professor na sala de aulas não lhes passa pela cabeça.

22 junho 2008

É uma pedra!...


... o texto deste e-mail que acabei de receber. Os meus parabéns ao autor, seja lá ele quem for, embora deixe muuuito por dizer quanto à relação entre avaliação, formação académica e investigação.
Jorge Pedreira admitiu hoje o óbvio: a Avaliação do Desempenho não tem por objectivo cimeiro aumentar a qualidade da oferta educativa das escolas e, muito menos, promover o desenvolvimento profissional dos docentes. Nas palavras do Secretário de Estado (que é Jorge mas que de educação nada percebe) apenas visa contribuir para a redução do défice público. — Eureka!
O enigma da má-fé ministerial fica finalmente revelado.
No fórum da 'TSF' da manhã de hoje, Pedreira justificou os motivos pelos quais o ME discorda da proposta de António Vitorino em adiar a avaliação e testar-se o modelo preconizado pelo M.E. em escolas piloto durante um ou dois anos.
Pedreira (o Jorge, que até é secretário da ministra Lurdes), confessou o politicamente inconfessável: *Terá de haver avaliação para que os professores possam progredir na carreira e assim possam vir beneficiar de acréscimos salariais* (sic).
Ou seja, aquilo que hoje se discute no mundo ocidental (democrático e desenvolvido, como rotula, mas desconhece a 'primeira ministra'), gira em torno da dicotomia de se saber se a avaliação do desempenho docente serve propósitos de requalificação educativa (se para isso directamente contribui) ou se visa simplesmente constituir-se em mais um instrumento de redução do défice público.
Nesta matéria, Pedreira (o tal que é Jorge e ao mesmo tempo teima em ser secretário da ministra que também parece oriunda de uma pedreira), foi claro: *Importa conter a despesa do Estado com a massa salarial dos docentes *; o resto (a qualidade das escolas e do desempenho dos professores) é tanga(!!!).
Percebe-se, assim, por que motivo este modelo de avaliação plagia aquele que singra na Roménia, no Chile ou na Colômbia. Países aos quais a OCDE, o FMI, o *New Public Management* americano, impôs: *a desqualificação da escola pública em nome da contenção da despesa pública*; percebe-se, assim, por que razão a ministra Maria de Lurdes (que tem um secretário que, como ela, também é pedreira) invoque a Finlândia para revelar dados estatísticos de sucesso escolar e a ignore em matéria de avaliação do desempenho docente.
Percebo a ministra pedreira: não se pode referenciar aquilo que não existe. A Finlândia, com efeito, não tem em vigor qualquer sistema ou modelo formal e oficial de avaliação do desempenho dos professores!
Agradeço à pedreira intelectual que grassa no governo de Sócrates (que por acaso não é pedreiro — até é engenheiro faxciendo), finalmente nos ter brindado com tão eloquente esclarecimento. Cito-os:
*A avaliação dos Docentes é mais um adicional instrumento legislativo para
combater o défice público*(!).
Obrigado, Srs. Pedreiras, pela clarificação do óbvio.

Depois...

... de terem eleito o Puto Xarila Mais Jeitoso Cá do Bairro, os portugueses...

... em pânico, viram-se já para a Grande Mãe.

20 junho 2008

Não há cu...


... para as paneleirices deste gajo! (via Range-o-Dente no Fiel Inimigo)

Matrapim...


... é quilholimbo!

16 junho 2008

A notícia esperada


O Ministro da Cultura convidou sua Excelência, o senhor Presidente da República, para presidir às comemorações dos cem anos do realizador de cinema Manuel de Oliveira.
A notícia não espantou os portugueses. Seria de esperar. O senhor Presidente deve conhecer, de olhos fechados, a obra do mestre...

14 junho 2008

Fernandinho e o gato



Gato que brincas na rua
como se fosse na cama,
invejo a sorte que é tua
porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
que regem pedras e gentes,
que tens instintos gerais
e sentes só o que sentes,

és feliz porque és assim.
Todo o nada que és é teu.
Eu sinto-me e estou sem mim.
Conheço-me e não sou eu.

11 junho 2008

Ainda sem saber o que sairá...


... da reunião dos camionistas, na Batalha:
Há pouco, no jornal da SICNotícias, Ângelo Correia e Ruben Carvalho estiveram de acordo nas suas análises ao problema da paralisação e na solução que lhe dariam. E, quanto a mim, muito bem em ambos os aspectos.
Haverá finalmente esperança de que o bom-senso, neste país, venha a sobrepor-se ao sectarismo e aos interesses partidários?

10 junho 2008

Eles existem...

... os camionistas inteligentes!
No noticiário da TVI apareceram dois, na raia algarvia (salvo erro) ! Um, dizendo que os motoristas estavam a ser utilizados pelos patrões. O outro, alertando os seus colegas de Espanha e França de que isto se trata de uma luta entre das empresas com os governos e que, portanto, deveriam ter cuidado e não se deixarem arrastar para ela.

Raça do homem!


Acossado pelo jornalista que lhe pedia uma declaração sobre a paralisação dos camionistas (a do “Comboio dos Duros”, como, sempre imaginativa e irreverente, a comunicação social a designa), o senhor Presidente da República, especialista na postura “não me comprometo”, arvorou o costumado sorriso manholas de recorte bacoco e respondeu que a ocasião não era propícia, que hoje era o Dia de Portugal. E, perante a insistência do determinado profissional, no meio da atrapalhação em que se sentia não acrescentou, como Guterres, que “é só fazer as contas”. Antes, como alguém da sua idade, azucrinado durante muitos anos pela cartilha de Santa Comba e a quem a memória selecciona já automática e primeiramente o que nela há de mais antigo, acrescentou que se tratava do “dia da raça”, despachando o importuno o mais rapidamente que podia e pôs-se ao fresco, estugando o passo. Coitado, nem deu pela gaffe!
A esquerda é que não perdeu tempo. Iria lá perdê-lo!
A esquerda correcta, podre de chic e da cultura de novas universidades, não poderia, obviamente, calar-se perante tamanho sintoma do regresso de retrógrados obscurantismos. Falou, com hálito a rosas, de mitos e mistificações científicas, de negregados períodos da história do nosso país, de propaganda… A esquerda de sempre, do sempre-povo, lembrou, por seu turno, o que lembra sempre sobre o que sempre há que lembrar.
Porque ele há gente que é mesmo de má-raça! Como há fadistas de raça ou atletas com raça...! E a esquerda de e com raça não se esquece que tem que acabar com a raça dessa raça de gentinha!

08 junho 2008

Uma conspiração de estúpidos


"O país de José Sócrates é um país de ficção, construído laboriosamente por uma eficaz agenda de propaganda. Só que a propaganda já não chega para esconder a realidade."

Luís Marques, no Expresso (via PÚBLICO de hoje)

"Prosseguem as greves e manifestações. Funcionários públicos, professores, enfermeiros, pescadores, automobilistas, camionistas... O mal-estar social é evidente. A grande manifestação de Lisboa atingiu uma dimensão surpreendente. Mas o governo despreza manifestações e números. Diz o primeiro-ministro que só os argumentos lhe interessam, não os números. Coitado! Não sabe que as manifestações e os números são argumentos."

António Barreto, no PÚBLICO de hoje

Eu acrescentaria que Sócrates manda no país no sentido precisamente contrário, isto é, tendo em atenção os números e as manifestações do que e de quem considera importante, e jamais qualquer argumentação que não seja a dos seus próprios horizontes. Eis ao que chama "determinação".
Ora é precisamente isto, o nunca se pôr em causa a si mesmo , o que constitui a raiz e a medida da estupidez.

07 junho 2008

O trabalho não me deixa...

William Blake, Hecaté

... mandar os meus bitaites. Por isso, deixo aqui dois textos que resumem parte do meu ponto de vista sobre o tema.
Até já.
As tradições reclamam um direito ao renascimento e esse direito é caro à consciência europeia, na medida em que esta reconhece o antigo como fonte de modernidade. Os povos descolonizados souberam provocar o renascimento da sua tradição voltando a encontrar o seu ponto cardeal, o seu Oriente (“orientar” significa, etimologicamente, implantar um edifício na direcção do oriente). Foi deste modo que apareceram os conceitos de negritude, arabismo, judaísmo, islamismo, etc., que, recordo, exemplificam paradoxalmente a própria filosofia das Luzes, no seu princípio do direito a governar-se a si próprio. Há, portanto, uma ambivalência neste radicalismo, uma vez que ele é simultaneamente identificação ao outro e distanciação em relação à Europa.
O despertar das tradições desnaturou-se, porque os direitos da tradição são muitas vezes utilizados, nos países descolonizados, não para fins de igualdade e liberdade, mas de submissão, de obediência e de medo. Esquecemo-nos, com demasiada frequência, de dizer que o islamismo armado fez muito mais vítimas nos próprios países muçulmanos do que nos cristãos (contam-se mais de 100.000 mortos na Argélia). Conclui-se que o pertencer a uma mesma cultura ou a uma mesma religião não é uma garantia de tolerância ou de felicidade política. Porque não é a ligação cultural que faz a ligação política, mas a ligação civil.
Outro aspecto que torna desumanos os direitos culturais é o facto de a condição cultural árabe, judaica, muçulmana, corsa, basca sérvia, ocidental, etc., os colocarem acima da condição humana. É aqui que a ilusão cultural provoca os maiores estragos: quando acreditamos que somos humanos apenas por termos uma cultura e não por natureza, sempre que encerramos a dignidade do homem na sua origem étnica, religiosa, nacional ou imperial. Deixamos então de entender a expressão “cultura” como um aperfeiçoamento livre de nós próprios, mas como uma entrega de consciência a um princípio determinista. (…)
Em terceiro lugar, os direitos da tradição pecam precisamente por julgarem combater a modernidade, juntando-se àquilo que ela tem de pior, a difusão maciça de novas idolatrias que a técnica torna prodigiosas. O fanatismo é um valor seguro para os media, de que é sabido usurparem os direitos do pensamento. Se definirmos, acompanhando Condorcet, o obscurantismo como a “tirania que a astúcia exerce sobre a ignorância”, existe um obscurantismo próprio da comunicação que se constitui em dirigente do espírito humano. A comunicação, embora sendo o primeiro utensílio de informação do mundo, é o último em termos de inteligibilidade. Explora-se a ilusão da expressão, mas não a faculdade de nos compreendermos. A comunicação aumenta o ininteligível, quando a primeira missão de uma cultura suportável é a de tornar o mundo inteligível, ou seja, para retomarmos o título de um opúsculo de Kant, tornar o homem capaz de “se orientar no pensamento”. A desorientação, funcionando na comunicação, traduz-se num reforço cultural reduzido às paixões da opinião. O objecto religioso torna-se, indiferentemente, em objecto publicitário e o objecto publicitário em objecto religioso. A intolerância é sempre mais bem servida pela arma que a deveria vencer.


Helé Beji, "A Cultura do Inumano", in J. Bindé, Para Onde Vão os Valores, 2004

Envergonhados pelo domínio durante tempo exercido sobre os povos do Terceiro Mundo, juramos não mais recomeçar e - resolução inaugural - decidimos poupar-lhes os rigores da liberdade à europeia. Com medo de exercer violência sobre os imigrados, confundimo-los com a libré que a História lhes talhou. Para lhes permitir viver como lhes agrada, recusamo-nos a protegê-los contra os delitos ou os abusos eventuais da tradição de onde emanam. Com o fim de atenuar a brutalidade do desenraizamento, voltamos a colocá-los, de pés e mãos atados, à disposição da sua comunidade e conseguimos assim limitar aos homens do Ocidente a esfera de aplicação dos direitos do homem, embora acreditando alargar esses direitos, ao ponto de introduzir a faculdade deixada a cada um de viver na sua cultura.
Nascido do combate pela emancipação dos povos, o relativismo desemboca no elogio da servidão. Quer isto dizer que é preciso voltar às velhas receitas assimilacionistas e separar novos recém-chegados da sua religião ou da sua comunidade étnica? A dissolução de qualquer consciência colectiva deve ser o preço a pagar pela integração? De forma alguma. Tratar o estrangeiro como indivíduo não é obrigá-lo a moldar todas as suas condutas às maneiras de ser em vigor para os autóctones, e podermos denunciar a desigualdade entre homens e mulheres na tradição islâmica sem, por isso, querer vestir os imigrados muçulmanos com uma libré de empréstimo ou destruir os seus laços comunitários. Apenas aqueles que raciocinam em termos de identidade (e portanto de integridade) cultural pensam que a colectividade nacional necessita, para a sua própria sobrevivência, do desaparecimento das outras comunidades. O espírito dos tempos modernos, no que lhe diz respeito, acomoda-se muito bem à existência de minorias nacionais ou religiosas, com a condição de estas serem compostas, segundo o modelo da nação, por indivíduos iguais e livres. Esta exigência implica lançar na ilegalidade todos os usos - incluindo aqueles cujas raízes mergulham no mais profundo da História - que ofendem os direitos elementares da pessoa.
É inegável que a presença na Europa de um número crescente de imigrados do Terceiro Mundo coloca problemas inéditos. Estes homens, empurrados para fora da sua terra pela miséria e traumatizados, ainda por cima, pela humilhação colonial, não podem sentir, em relação ao país que os recebe, a atracção e a gratidão que experimentavam, na sua maioria, os refugiados da Europa oriental. Invejada pelas suas riquezas, odiada pelo seu passado imperialista, a sua terra de acolhimento não é uma terra prometida. Contudo, uma coisa é certa: não é fazendo da abolição dos privilégios a prerrogativa de uma civilização, não é reservando aos Ocidentais os benefícios da soberania individual e do que Tocqueville chama a “igualdade de condições” que nos encaminharemos para a resolução destas dificuldades.

Alain Finkielraut, A Derrota do Pensamento, 1987

Feitios...!


Em Espanha, os pescadores em greve acusam os seus congéneres portugueses de a furarem e distribuem gratuitamente o peixe pela população.

03 junho 2008

A última gota


Confesso que, antes de o ouvir há bocado no programa de Mário Crespo, ainda pensava em João Soares como uma alternativa sofrível a José Sócrates à frente do Partido Socialista. Mas depois lembrei-me de um grande amigo meu, conhecedor profundo dos meios da política portuguesa, que, algum tempo de morrer, muitos anos atrás, me dizia: "Encontras boa gente em todos os partidos. Menos no PS. Aí não encontras ninguém".
É claro que o jovenzinho que eu era, na altura, não lhe deu ouvidos...

01 junho 2008

Excerto de um texto de Baptista-Bastos...


... que me enviaram por e-mail:
(...) Lemos os jornais e não acreditamos. Lemos, é como quem diz – os que lêem. As televisões são a vergonha do pensamento. Os comentadores tocam pela mesma pauta e sopram a mesma música. Há longos anos que a análise dos nossos problemas está entregue a pessoas que não suscitam inquietação em quem os ouve. Uma anestesia geral parece ter sido adicionada ao corpo da nação (...)
É impossível ver qualquer membro deste Governo sem ser assaltado por uma repugnância visceral. O carácter desta gente é inexistente. Nenhum deles vai aos jornais, às Televisões e às Rádios falar verdade, contar a evidência. E a evidência é a fome, a miséria, a tristeza do nosso amargo viver; os nossos velhos a morrer nos jardins, com reformas de não chegam para comer quanto mais para adquirir remédios; os nossos jovens a tentar a sorte no estrangeiro, ou a desafiar a morte nas drogas; a iliteracia, a ignorância, o túnel negro sem fim.
Diz-se que, nas próximas eleições, este agrupamento voltará a ganhar. Diz-se que a alternativa é pior. Diz-se que estamos desgraçados. Diz um general que recebe pressões constantes para encabeçar um movimento de indignação. Diz-se que, um dia destes, rebenta uma explosão social com imprevisíveis consequências. Diz a SEDES, com alguns anos de atraso, como, aliás, é seu timbre, que a crise é muito má. Diz-se, diz-se. (…)
O facto, meramente circunstancial, de este PS ter conquistado a maioria absoluta não legitima as atrocidades governamentais, que sobem em escalada. (…)
Vivemos num país que já nada tem a ver com o País de Abril. Aliás, penso, seriamente, que pouco tem a ver com a democracia. O quero, posso e mando de José Sócrates, o estilo hirto e autoritário, moldado em Cavaco, significa que nem tudo foi extirpado do que de pior existe nos políticos portugueses. Há um ranço salazarista nesta gente. E, com a passagem dos dias, cada vez mais se me acentua a ideia de que a saída só reside na cultura da revolta.

30 maio 2008

Tradutora para língua gestual...


... sofre!!! (via 31 da Armada)

À espera


Se isto for verdade, o que esperarão os professores para o recusar? E se o não for, o que esperarão para desmentir os governantes?
O país, entretanto, espera vir a saber o que pensar dos que nele exercem funções de docência e de governação.

27 maio 2008

E esta outra...

Chirico, Interior Metafísico com Biscoitos

... do Médio Oriente (Samarra fica no actual Iraque), contada por Somerset Maugham.
A fala da Morte
Um dia, um mercador, em Bagdad, enviou o seu servo ao mercado, para comprar mantimentos e o servo regressou quase a seguir, lívido e a tremer, e disse:
- Senhor, estava agora mesmo no mercado e uma mulher no meio da multidão chocou comigo e quando me virei vi que era com a Morte que tinha acabado de chocar. Ela olhou para mim e fez um gesto ameaçador. Empreste-me, pois, o seu cavalo e eu fugirei da cidade para evitar o meu destino. Irei para Samarra e, aí, a Morte não me encontrará.
O mercador emprestou-lhe o cavalo, o servo montou-o, cravou-lhe as esporas nos flancos e lá foi ele, tão rápido quanto o cavalo podia galopar. Então, o mercador desceu ao mercado e viu-me entre a multidão, e chegou ao pé de mim e disse-me:
- Porque é que fizeste um gesto ameaçador ao meu servo, quando o viste esta manhã?
- Não era um gesto ameaçador, retorqui, era apenas um sobressalto de surpresa. Estava espantada de o ver em Bagdad, quando tinha combinado um encontro com ele para esta noite, em Samarra.

25 maio 2008

Estou cheio de trabalho!

Henri Rousseau, O Sonho

Limito-me hoje, por isso, a lembrar uma história zen de que muito gosto a quem eventualmente por aqui passe. Cá vai:
Um grande guerreiro japonês, chamado Nobunaga, decidiu atacar o inimigo, muito embora tivesse apenas um décimo das forças que o seu opositor comandava.
No caminho, parou junto a um santuário xinto e disse aos seus homens:
- Depois de visitar o santuário, lançarei ao ar uma moeda. Se sair cara, venceremos; se sair coroa, seremos derrotados. Estamos nas mãos do destino.
Nobunaga entrou no santuário e recolheu-se em silenciosa oração. Depois, saiu e lançou a moeda. Saiu cara. Os soldados ficaram tão animados para o combate que facilmente o venceram.
- Ninguém pode forçar a mão do destino – disse o lugar-tenente de Nobunaga depois da batalha.
- Realmente, ninguém pode - assentiu Nobunaga. E mostrou-lhe duas moedas coladas uma à outra e com as caras voltadas para fora.

20 maio 2008

Medicina ranhosa


Uma sobrinha minha, de 7 anos, acaba de voltar de uma consulta no hospital mais próximo, onde lhe foi diagnosticada uma gastro-enterite. A mãe decidiu levá-la à urgência, depois de, duas horas antes, no Serviço de Atendimento Complementar da área, a médica lhe haver receitado pingos... para o nariz!!!
Nota: A rapariga não manifestava qualquer anomalia no funcionamento do aparelho respiratório.

17 maio 2008

E aqui vai mais um e-mail que recebi


Exmos. Senhores Administradores do BES.

Gostaria de saber se os senhores aceitariam pagar uma taxa, uma pequena taxa mensal, pela existência da padaria na esquina da v/. Rua, ou pela existência do posto de gasolina ou da farmácia ou da tabacaria, ou de qualquer outro desses serviços indispensáveis ao nosso dia-a-dia.
Funcionaria desta forma: todos os senhores e todos os usuários pagariam uma pequena taxa para a manutenção dos serviços (padaria, farmácia, mecânico, tabacaria, frutaria, etc.). Uma taxa que não garantiria nenhum direito extraordinário ao utilizador. Serviria apenas para enriquecer os proprietários sob a alegação de que serviria para manter um serviço de alta qualidade ou para amortizar investimentos. Por qualquer outro produto adquirido (um pão, um remédio, uns litro de combustível, etc.) o usuário pagaria os preços de mercado ou, dependendo do produto, até ligeiramente acima do preço de mercado.
Que tal? Pois, ontem saí do BES com a certeza que os senhores concordariam com tais taxas. Por uma questão de equidade e honestidade. A minha certeza deriva de um raciocínio simples. Vamos imaginar a seguinte situação: eu vou à padaria para comprar um pão. O padeiro atende-me muito gentilmente, vende o pão e cobra o serviço de embrulhar ou ensacar o pão, assim como todo e qualquer outro serviço. Além disso impõe-se taxas de. Uma "taxa de acesso ao pão", outra "taxa por guardar pão quente" e ainda uma "taxa de abertura da padaria". Tudo com muita cordialidade e muito profissionalismo, claro. Fazendo uma comparação que talvez os padeiros não concordem, foi o que ocorreu comigo no meu Banco.
Financiei um carro, ou seja, comprei um produto do negócio bancário. Os senhores cobram-me preços de mercado, assim como o padeiro me cobra o preço de mercado pelo pão. Entretanto, de forma diferente do padeiro, os senhores não se satisfazem cobrando-me apenas pelo produto que adquiri. Para ter acesso ao produto do v/. negócio, os senhores cobram-me uma "taxa de abertura de crédito"-equivalente àquela hipotética "taxa de acesso ao pão", que os senhores certamente achariam um absurdo e se negariam a pagar Não satisfeitos, para ter acesso ao pão, digo, ao financiamento, fui obrigado a abrir uma conta corrente no v/. Banco. Para que isso fosse possível, os senhores cobram-me uma "taxa de abertura de conta". Como só é possível fazer negócios com os senhores depois de abrir uma conta, essa "taxa de abertura de conta" se assemelharia a uma "taxa de abertura de padaria", pois só é possível fazer negócios com o padeiro, depois de abrir a padaria.
Antigamente os empréstimos bancários eram popularmente conhecidos como "Papagaios". Para gerir o "papagaio", alguns gerentes sem escrúpulos cobravam "por fora", o que era devido. Fiquei com a impressão que o Banco resolveu antecipar-se aos gerentes sem escrúpulos. Agora, ao contrário de "por fora" temos muitos "por dentro". Pedi um extracto da minha conta - um único extracto no mês - os senhores cobram-me uma taxa de 1 EUR. Olhando o extracto, descobri uma outra taxa de 5 EUR "para manutenção da conta" - semelhante àquela "taxa de existência da padaria na esquina da rua". A surpresa não acabou. Descobri outra taxa de 25 EUR a cada trimestre - uma taxa para manter um limite especial que não me dá nenhum direito. Se eu utilizar o limite especial vou pagar os juros mais altos do mundo. Semelhante àquela "taxa por guardar o pão quente".
Mas os senhores são insaciáveis. A prestável funcionária que me atendeu, entregou-me um desdobrável onde sou informado que me cobrarão taxas por todo e qualquer movimento que eu fizer. Cordialmente, retribuindo tanta gentileza, gostaria de alertar que os senhores se devem ter esquecido de cobrar o ar que respirei enquanto estive nas instalações de v/. Banco. Por favor, esclareçam-me uma dúvida: até agora não sei se comprei um financiamento ou se vendi a alma.
Depois de eu pagar as taxas correspondentes talvez os senhores me respondam informando, muito cordial e profissionalmente, que um serviço bancário é muito diferente de uma padaria. Que a v/. responsabilidade é muito grande, que existem inúmeras exigências legais, que os riscos do negócio são muito elevados, etc., etc., etc. e que apesar de lamentarem muito e de nada poderem fazer, tudo o que estão a cobrar está devidamente coberto pela lei, regulamentado e autorizado pelo Banco de Portugal. Sei disso, como sei também que existem seguros e garantias legais que protegem o v/. negócio de todo e qualquer risco.
Presumo que os riscos de uma padaria, que não conta com o poder de influência dos senhores, talvez sejam muito mais elevados. Sei que são legais, mas também sei que são imorais. Por mais que estejam protegidos pelas leis, tais taxas são uma imoralidade. O cartel algum dia vai acabar e cá estaremos depois para cobrar da mesma forma.

Apelo urgente

Uccello, S. Jorge e o Dragão

Li hoje, pela primeira vez, uma prova nacional de aferição do 1º Ciclo do Ensino Básico. E só me ocorre um comentário:
Não haverá por aí um responsável político, homem ou mulher, com TOMATES suficientes para EXPULSAR a equipa de "pedagogos" que por lá andam há anos, responsáveis pelo estado inominável, tragicamente escandaloso, a que chegou o ensino no país?

16 maio 2008

Escrito à pressa, mas com sintimento

Chirico, O Arqueólogo
Os 60 anos da refundação do Estado de Israel foram comemorados há poucos dias.
Em Israel organiza-se Love Parades (blheeerrrggh!) e são permitidos casamentos homossexuais.
Ao lado, num dos países mais permissivos do Médio Oriente, o Egipto, o guarda-redes da selecção nacional de futebol está em risco de ir a tribunal, acusado de libertinagem por fazer publicidade a uma marca de vinho na sua camisola.
A esquerda-das-orelhas-de-burro reflecte ideologicamente o que critica à direita e prefere apoiar o status quo socio-teológico mais reaccionário e isolacionista do planeta, tanto mais reaccionário quanto agressivamente rancoroso. Em nome do internacionalismo e da defesa dos povos oprimidos.
A "Europa" curva-se ao peso dos tiranetes matarruanos e esclavagistas, novos-velhos-ricos subitamente enriquecidos pelo petróleo de que ela depende. E ressuscita discretamente, em anedotas murmuradas pelos cantos da boca e dos corredores, os velhos estereotipos justificativos do injustificável, para de novo justificar a sua má-consciência. Ao mesmo tempo, deixando aos Estados-Unidos a tarefa do óbvio, apresenta-se na sua propaganda, perdão!, comunicação social como "progressista e humanista"... de esquerda - aquela que já não há (se é que alguma vez a houve). E isto para aliviar um segundo lado da sua outra má-consciência ressentida: a de o que "Herói Salvador", que libertou a sua cultura (e não foi esta, no seu melhor, determinada pela cultura judaica?!) da distorção aberrante dessa mesma cultura que foi o nazismo, tenha tido que atravessar o Atlântico.
É que a Europa nunca teve a grandeza de assumir os seus erros. A mesma Europa que, no século XVIII, acobardada perante os turcos , preferia as cedências à solidariedade, deixando Viena à mercê dos invasores.
E tanto que dependemos do heroísmo da presença de Israel no seu território histórico...!
Nota: A esquerda que para aí baboseia alguma vez terá posto os olhos no livro Israel, do (anarquista) Erico Veríssimo, que eu li ainda adolescente?

15 maio 2008

Resposta ao comentário de mferrer

Caro mferrer:
Não me referi até agora, neste blog, ao que é conveniente ou não na relação entre Estados, nem ao que a presença de uma comunidade portuguesa de grande dimensão num outro Estado aconselha. São questões delicadas, que não podem ser abordadas de modo simplista ou simplório, mas onde de qualquer modo, penso eu, o factor dignidade deverá ter um local insubstituível. Por outro lado, a situação da economia, todos o sabemos, exige, quando seja esse o caso, a deglutição de alguns sapos. De qualquer modo, deverá haver alguma definição e coerência de postura e acção no conjunto do que acabei de referir, sem o que a própria credibilidade externa sairá fragilizada e as posições futuras dos outros países em relação ao nosso reflectirão isso mesmo.
Mas não é disso que fala a notícia que refiro no post anterior, cuja dimensão não ultrapassaria a piscadela de olho divertida dos portugueses quanto aos vícios privados do primeiro-ministro por oposição às suas públicas virtudes, se não fosse tudo o que tem acompanhado aquilo que classifico como o descalabro governativo de que o nosso país tem sido vítima desde há três anos. Descalabro que, a meu ver, iremos pagar caríssimo nas próximas quatro ou cinco décadas (pelo menos) e que só tem sido possível precisamente porque o povo português se deixa, desde há séculos, "governar" como o "povo de escravos" a que se referia Lord Byron cerca de duzentos anos atrás. E que faz com que, para se ser português, como dizia Jorge de Sena, seja preciso, desde há cinco séculos, ser, de profissão, exilado.
Pior do que mau, porém, o actual governo é, quanto a mim, um governo de um provincianismo de vistas curtas, "bimbo e com muito gosto", prenhe da arrogância própria desse mesmo tipo de bimbalhismo, próprio não do arquitecto, mas do mestre d'obras. Ora sabe-se que "quem vive pela espada, morre pela espada" - e o escravo, se não morre, cria rancores justificáveis. E que, naturalmente, não perdoará o menor deslize a quem o violenta.
Dirá que o meu ponto de vista quanto ao governo e à sua acção é discutível. Como não me julgo iluminado por sóis de qualquer proveniência, sei que o é. Mas asseguro-lhe que, ao invés de me sentir satisfeito e impante quando o critico, me sinto antes aterrado pelas consequências da inconsciência e da vaidade com que o vejo agir, aterrado até pelas palavras com que o faço, tal o significado que elas contêm e o que implicam. Bem como pela cegueira, pela fuga para frente que observo nos militantes socialistas, a começar por aqueles, meus amigos, a quem afirmei, na altura, que a eleição de José Sócrates para secretário-geral do partido seria algo de muito grave quer para o PS quer para o país pela inconsistência, pela impreparação... e pela má-educação disfarçada de determinação imatura. E a prova de que não sou nenhum iluminado está exactamente em que tudo é hoje pior, mas muito pior do que alguma vez previ que poderia vir a ser.
Lamento se não correspondo ao tipo de imagem que me parece ter de mim, assim de alguém que se compraz a olhar de cima, criticando com leveza displicente o esforço e os erros alheios. Só desta maneira compreendo o tipo de comentário que fez. Mas, garanto-lhe, é apenas o desgosto, quando não o nojo e a vergonha, o que me move quando me refiro a coisas deste tipo. E o vazio, o terrível e monstruoso vazio que alastra viscosamente por dentro de tudo e todos em Portugal.
Seu
Joaquim Simões

13 maio 2008

Fumos...


... do poder (via 31 da Armada).