09 outubro 2008

Da moralidade e da economia&finanças


Hoje, no Diário de Notícias, Ferreira Fernandes escreveu:
A seguradora AIG já era famosa quando andava sob o pescoço de Cristiano Ronaldo, na camisola do Manchester. Mas, famosa mesmo, mesmo, foi quando os americanos passaram a andar com a AIG ao pescoço. Esganados. Ela falira e não fosse sugarem-se os dinheiros públicos (85 mil milhões de dólares) a empresa fechava. Não fechar é bom e o que é bom festeja-se. Alguns executivos da AIG foram para um luxuoso hotel de Monarch Beach, Califórnia, com factura final de 300.000 euros, entre diárias, almoços e pedicura. Tudo pago pela empresa que, já vimos, era paga pelos contribuintes. Evidentemente, os invejosos do costume foram aos arames - na Câmara dos Representantes, alguns dos eleitos que ainda há pouco tinham votado o resgate da AIG indignaram-se com o abuso. É verdade que aqueles executivos, em superficial análise, parecem não merecer prémio algum, quanto mais pedicura. Como se fosse fácil lidar com a consciência. Esta é aquela voz interior que nos diz que alguém está olhando. Sem poderem usufruir dos luxos com merecida tranquilidade, aqueles executivos estavam, no entanto, a dar-nos uma esperança: a crise não é geral.
No próximo fim-de-semana voltarei a este assunto.

Enquanto não volto... Thelonious Monk e Alphonse Mouzon



05 outubro 2008

Lutas


Mário Nogueira tem razão no que diz, mas os professores, ao aceitarem o que lhes tem sido imposto gradualmente, tanto do ponto de vista da sua carreira e condições de trabalho como do ponto de vista pedagógico, com a submissão e a passividade que até hoje demonstraram, não poderiam esperar - e, portanto, merecer - outra coisa. A tirania existe apenas quando existem tiranizáveis - e, afinal, até estamos em "democracia", não é?
Quanto aos professores que verdadeiramente têm lutado contra o abastardamento e o abandalhamento gerais do ensino no país, para esses a sua maior luta diária é, presentemente e antes do mais, a de conseguirem não perder o respeito por si próprios.

Citação...


"Portugal é um país estranho (...) A economia cresce pouco, mas estamos seguros. O crédito malparado sobe, mas não há motivo para preocupações. Os portugueses estão a viver pior, mas não há falências. Este oásis é, na realidade, o nosso deserto.

Luís Marques, no Expresso (via PÚBLICO de hoje)
...e chapelada, como diz o RoD.

01 outubro 2008

Disso da apagada e vil tristeza

Quadro de Chirico

Diz-me um professor do ensino secundário:
Começo a aula a falar do Fernando Pessoa e pergunto aos alunos se já ouviram falar dele. A maioria diz que sim. Pergunto em seguida se já leram qualquer coisa que ele tivesse escrito. A maioria diz agora que sim, na aula, mas que já não se lembra do que foi. Pergunto depois se gostaram. A maioria dos que guardam alguma vaga recordação diz que não percebeu lá muito bem, outros baixam a cabeça e fazem aaeh...!, os restantes articulam um sim hesitante.
Digo-lhes que Fernando Pessoa foi um dos grandes poetas mundiais do século XX. Manifesta-se algum entusiasmo e exclamações do tipo "Claro, tinha que ser! Era português!", seguidas de arremessos mútuos de papelinhos e de frases jocoso-insultuosas de boa camaradagem. Informo-os a seguir de que morreu quase ignorado, de que tinha toda a sua vida trabalhado num escritório e ouve-se expressões de incredulidade. O pouco entusiasmo esmorece e faz-se comentários às injustiças sociais. "Não ganhou o prémio Nobel?!", "Não." - e o já quase inexistente interesse apaga-se um pouco mais.
Digo-lhe que vamos ler um poema de Fernando Pessoa. As expressões e suspiros de enfado sobem já a um nível superior aos das cinzas do entusiasmo: afinal é mesmo uma aula, não é um espectáculo...! À leitura inexpressiva segue-se a perplexidade, ninguém percebe nada, ninguém sabe o que significa grande parte das palavras, alguns, muito instados, avançam com interpretações quase sempre "ao lado", ouve-se os Oh stôr, pra que é que ele escreveu isto? Pra que é que isto contribui para a minha felicidade? Só nos dão pra ler coisas destas...!
Diz-me ainda o professor: Eu só lhes dei "O menino de sua mãe", para os reiniciar na leitura! Afinal temos aí a guerra...!.
O que ele me diz traz-me à memória o que li num jornal no ano seguinte àquele em que Saramago recebeu o prémio Nobel. No encontro do "nosso laureado" com alunos de uma escola alentejana do interior, pouco tempo após a apresentação e "ter visto o homem" já o pessoal passava o tempo de olhos baixos a enviar sms's e a bufar para se ir embora, que aquilo era uma "seca". Pois se havia mostrado a "medalha", pronto, o que é que havia mais que valesse a pena?!
E, a propósito de medalhas, outras coisas, mais recentes: o alarido acerca das que os atletas olímpicos "deveriam ter trazido, que para isso é que os contribuintes lhes pagaram", sem ninguém querer saber de coisas tão elementares como a relação entre a dimensão da população de um país, o número de atletas que pode apresentar, o consequente aumento da possibilidade de ocorrência de casos de sobredotados para a prática desportiva, os recursos efectivamente envolvidos, etc., etc.. Além da comparação com países com dimensão semelhante à nossa e com grandes investimentos nessa área, como seja uma parte dos países europeus. Esquecendo, no meio disto tudo o espírito olímpico, que nem sequer entrou uma única vez em linha de conta.
Recordo-me também, desta vez a propósito desse espírito, das palavras de anteontem, num telejornal, de um jogador do Sporting, depois de um jogo em que, ao que parece, não terão jogado grande coisa na primeira parte mas que acabaram por ganhar: na Suíça, nós estávamos a ganhar-lhes por 3-0 e a massa associativa deles fazia uma festa a apoiá-los, nós aqui... bem, temos que nos habituar... Isto depois de a equipa ter já um excelente começo de época, ganhando troféus e ainda ter disputado poucos jogos.
A mediocridade é mesmo assim: grande por delegação, exigente com quem a alimenta, cruel para quem não ajuda a disfarçá-la, mesquinha e ingrata sempre. Vaidosa, é por isso ignorante e labrega; preguiçosa, passa o tempo a reinvindicar justiça e trabalho alheio; invejosa, está sempre à espreita do que o vizinho possa ter, para lho cobiçar. Quando se atreve a ser generosa, rapidamente se amedronta e se refugia na "sabedoria" da descrença. Não é uma questão de nível de educação, mas de estado de espírito de um povo, desde as bases aos dirigentes.
Byron definiu-o assim no início do século XIX, quando viveu algum tempo na sua querida e inspiradora Sintra: os portugueses são um povo de escravos.
(Nota: a propósito de José Saramago...)

25 setembro 2008

Igualdade na diferença ou diferença na igualdade?


Enquanto prossegue a tourada da lei do divórcio, os homossexuais ensaiam a do casamento.
Pela minha parte, convido desde já à militância no sentido de legalizar o casamento poligâmico (poligínico ou poliândrico) e o casamento colectivo.
Ou bem que há direitos ou bem que não há!
Nisto tudo há uma coisa que nunca percebi: para que serve um casamento.

24 setembro 2008

Pequenas notas de uma música decadente


A primeira, é a da já habitual coincidência de cabeçalhos entre o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias em (mais ou menos) discretos elogios ao governo. Ontem, a propósito do justiceiro e firme enfrentamento deste ao aumento dos combustíveis.
A segunda, a da reacção de Alberto João Jardim, chamando pública e directamente a Sócrates "sem-vergonha" e "mentiroso", a propósito das insinuações do primeiro-ministro. Nisto coincidiu, aliás, embora por diferentes motivos, com uma grande parte dos portugueses. Mas quando os altos responsáveis eleitos do país falam, com ou sem razão, deste modo, não é possível deixar de pensar que ele se encontra em fase adiantada de esboroamento.
O regime, aliás, está de tal modo desacreditado, o espírito anímico nacional tão envenenado por um "salve-se quem puder" cada vez mais disseminado, que, caso fosse permitido o referendo ao retorno da monarquia, muito provavelmente o herdeiro do trono luso não teria grande dificuldade em vencer. E nem sequer por uma questão de mérito seu ou de quem o rodeasse (embora o possua - a importante actividade paralela que Duarte de Bragança tem desenvolvido ao nível internacional em prol de Portugal, raramente é referida pelos órgãos de comunicação). Estou convencido de que sucederia ao regime republicano o mesmo que sucedeu ao do Estado Novo em 25 de Abril de 74: cairia de podre, com muito poucos a defendê-lo. E também, já se sabe, que no dia imediatamente seguinte a essa vitória surgiriam buéda monárquicos de onde antes só se avistavam jacobinos convictos, ajuramentados e até militantes.
Já agora, leiam o que D. Duarte diz no respeitante às nossas relações com Espanha em http://somosportugueses.com/. O link passa, a partir de hoje, a estar disponível aí ao lado, em Monárquicos Portugueses.
Porque o são.

Um excelente texto


Recebi mesmo agora, por e-mail, este texto onde se apresentam contas que eu próprio já há muito tempo fiz e de que ainda ontem falava, entre amigos, embora não as tivesse passado a escrito. Ao Mário Carneiro, que não conheço, os meus parabéns pela oportunidade desta resposta.

Resposta

Caro anónimo indignado com a indignação dos professores:
Os homens (e as mulheres) não se medem aos palmos, medem-se, entre outras coisas, por aquilo que afirmam, isto é, por saberem ou não saberem o que dizem e do que falam.O caro anónimo mostra-se indignado (apesar de não aceitar que os professores também se possam indignar! Dualidade de critérios deste nosso estimado anónimo...
Mas passemos à frente, com o excesso de descanso dos professores: afirma que descansamos no Natal, no Carnaval, na Páscoa e no Verão, (esqueceu-se de mencionar que também descansamos aos fins-de-semana). E o nosso prezado anónimo insurge-se veementemente contra tão desmesurada dose de descanso de que os professores usufruem e de que, ao que parece, ninguém mais usufrui. Ora vamos lá ver se o nosso atento e sagaz anónimo tem razão.
Vai perdoar-me, mas, nestas coisas, só lá vamos com contas.O horário semanal de trabalho do professor é 35 horas. Dessas trinta e cinco, 11 horas (em alguns casos até são apenas dez) são destinadas ao seu trabalho individual, que cada um gere como entende. As outras 24 horas são passadas na escola, a leccionar, a dar apoio, em reuniões, em aulas de substituição, em funções de direcção de turma, de coordenação pedagógica, etc., etc.
Bom, centremo-nos naquelas 11 horas que estão destinadas ao trabalho que é realizado pelo professor fora da escola (já que na escola não há quaisquer condições de o realizar): preparação de aulas, elaboração de testes, correcção de testes, correcção de trabalhos de casa, correcção de trabalhos individuais e/ou de grupo, investigação e formação contínua. Agora, vamos imaginar que um professor, a quem podemos passar a chamar de Simplício, tem 5 turmas, 3 níveis de ensino, e que cada turma tem 25 alunos (há casos de professores com mais turmas, mais alunos e mais níveis de ensino e há casos com menos — ficamos por uma situação média, se não se importar). Para sabermos o quanto este professor trabalha ou descansa, temos de contar as suas horas de trabalho. Vamos lá, então, contar:

1. Preparação de aulas: considerando que tem duas vezes por semana cada uma dessas turmas e que tem três níveis diferentes de ensino, o professor Simplício precisa de preparar, no mínimo, 6 aulas por semana (estou a considerar, hipoteticamente, que as turmas do mesmo nível são exactamente iguais — o que não acontece — e que, por isso, quando prepara para uma turma também já está a preparar para a outra turma do mesmo nível). Vamos considerar que a preparação de cada aula demora 1 hora. Significa que, por semana, despende 6 horas para esse trabalho. Se o período tiver 14 semanas, como é o caso do 1.º período do presente ano lectivo, o professor gasta um total de 84 horas nesta tarefa.
2. Elaboração de testes: imaginemos que o prof. Simplício realiza, por período, dois testes em cada turma. Significa que tem de elaborar dez testes. Vamos imaginar que ele consegue gastar apenas 1 hora para preparar, escrever e fotocopiar o teste (estou a ser muito poupado, acredite), quer dizer que consome, num período, 10 horas neste trabalho.
3. Correcção de testes: o prof. Simplício tem, como vimos, 125 alunos, isto implica que ele corrige, por período, 250 testes. Vamos imaginar que ele consegue corrigir cada teste em 25 minutos (o que, em muitas disciplinas, seria um milagre, mas vamos admitir que sim, que é possível corrigir em tão pouco tempo), demora mais de 104 horas para conseguir corrigir todos os testes, durante um período.
4. Correcção de trabalhos de casa: consideremos que o prof. Simplício só manda realizar trabalhos para casa uma vez por semana e que corrige cada um em 10 minutos. No total são mais de 20 horas (isto é, 125 alunos x 10 minutos) por semana. Como o período tem 14 semanas, temos um resultado final de mais de 280 horas.
5. Correcção de trabalhos individuais e/ou de grupo: vamos pensar que o prof. Simplício manda realizar apenas um trabalho de grupo, por período, e que cada grupo é composto por 3 alunos; terá de corrigir cerca de 41 trabalhos. Vamos também imaginar que demora apenas 1 hora a corrigir cada um deles (os meus colegas até gargalham, ao verem estes números tão minguados), dá um total de 41 horas.
6. Investigação: consideremos que o professor dedica apenas 2 horas por semana a investigar, dá, no período, 28 horas (2h x 14 semanas).
7. Acções de formação contínua: para não atrapalhar as contas, nem vou considerar este tempo.

Vamos, então, somar isto tudo: 84h+10h+104h+280h+41h+28h=547 horas. Multipliquemos, agora, as 11horas semanais que o professor tem para estes trabalhos pelas 14 semanas do período: 11hx14= 154 horas.Ora 547h-154h=393 horas. Significa isto que o professor trabalhou, no período, 393 horas a mais do que aquelas que lhe tinham sido destinadas para o efeito.
Vamos ver, de seguida, quantos dias úteis de descanso tem o professor no Natal. No próximo Natal, por exemplo, as aulas terminam no dia 18 de Dezembro. Os dias 19, 22 e 23 serão para realizar Conselhos de Turma, portanto, terá descanso nos seguintes dias úteis: 24, 26, 29 30 e 31 de Dezembro e dia 2 de Janeiro. Total de 6 dias úteis. Ora 6 dias vezes 7 horas de trabalho por dia dá 42 horas. Então, vamos subtrair às 393 horas a mais que o professor trabalhou as 42 horas de descanso que teve no Natal, ficam a sobrar 351 horas. Quer dizer, o professor trabalhou a mais 351 horas!! Isto em dias de trabalho, de 7 horas diárias, corresponde a 50 dias!!! O professor Simplício tem um crédito sobre o Estado de 50 dias de trabalho. Por outras palavras, o Estado tem um calote de 50 dias para com o prof. Simplício.
Pois é, não parecia, pois não, caro anónimo? Mas é isso que o Estado deve, em média, a cada professor no final de cada período escolar.Ora, como o Estado somos todos nós, onde se inclui, naturalmente, o nosso prezado anónimo, (pressupondo que, como nós, tem os impostos em dia) significa que o estimado anónimo, afinal, está em dívida para com o prof. Simplício. E ao contrário daquilo que o nosso simpático anónimo afirmava, os professores não descansam muito, descansam pouco!
Veja lá os trabalhos que arranjou: sai daqui a dever dinheiro a um professor.
Mas, não se incomode, pode ser que um dia se encontrem e, nessa altura, o amigo paga o que deve.
Um abraço.

Mário Carneiro

23 setembro 2008

21 setembro 2008

O estado da Nação (cont.)

Quadro de René Magritte
Correia de Campos reconhece, num livro que vai segunda-feira para as bancas, que a criação de novas taxas moderadoras não visou moderar o acesso, como na altura justificou, mas preparar a opinião pública para uma alteração do financiamento do sistema, noticia o portal SAPO.
O primeiro-ministro, como seria de esperar, apresentou a acção da ministra da Educação como modelo da sua proposta governativa e concedeu-lhe o estatuto de vedeta convenientemente aplaudida. Entretanto, recebi, minutos atrás, o e-mail seguinte:

Deputados a prof. titular
Os deputados do PS estão contra nós, mas querem ser titulares sem porem os pés na escola. Que VERGONHA!
Retirado da Ordem Trabalhos hoje ME / Plataforma:
Ponto 8. Acesso à categoria de Professor Titular para os Professores em exercício de funções ou actividades de interesse público, designadamente, enquanto Deputados à Assembleia da República e ao Parlamento Europeu, Autarcas, Dirigentes da Administração Pública, Dirigentes de Associações Sindicais e Profissionais.
Agora é que não percebo nada! Mas agora já se pode 'atingir o topo'... mesmo estando 'fora' da escola? Todas as mudanças que o ME quis fazer não foi para acabar com 'isso'? Não ia ser titular apenas quem provasse, 'no terreno', a sua excelência?
Dizem uma coisa, fazem outra... a toda a hora! Depois de se terem 'esquecido' dos que antes estiveram nessas funções, no primeiro concurso....: mais um concurso extraordinário? ou só conta daqui para a frente, e os «tristes» que ficaram para trás? Tem que ser o tribunal a dar-lhes razão? O novo 4º escalão será, provavelmente, para os 'Professores-titulares-avaliadores'. Deste modo, cria um 'estatuto' diferente para quem é avaliador e foge às incompatibilidades de avaliador e avaliado concorrerem às mesmas cotas. Quantos chegaram a titular por haver uma vaga na escola e não ter mais ninguém a concorrer, no entanto escolas houve em que colegas com quase o dobro dos pontos não acederam a PT porque não havia vaga, e com isto só quero dizer e afirmar da injustiça desta peça, monstruosamente montada e maquiavelicamente posta em prática que é a dos professores titulares.
Esta proposta do PM é inaceitável. Espero que professores e sindicatos estejam bem conscientes desta proposta que é verdadeiramente ofensiva, para não dizer outra coisa! Tenhamos dignidade e não nos deixemos vender. Esta é das respostas mais repugnantes jamais feitas por um governo. Oferecem tachos a sindicalistas, boys e girls das direcções gerais dos vários ministérios, há uma tentativa de oferecer aos professores avaliadores um 'acesso' ao 4º escalão de titular. *Chegamos ao limite da indecência e a resposta só pode ser uma*: revisão do ECD, anulação da divisão da carreira e combate total a esta avaliação.
DEVEMOS OBRIGAR OS SINDICATOS A REJEITAR LIMINARMENTE ESTAS PROPOSTAS!

20 setembro 2008

O estado da Nação

Ilustração de Maria Keil

Ontem ficámos todos a saber, pelos telejornais, que os deputados voltaram a poder usar os seus telemóveis, depois da Assembleia da República ter pago o que devia à Vodafone e de esta haver restabelecido o serviço.
Ah! E também soubemos disto (via Fundação Velocipédica).

18 setembro 2008

Do merecimento, da justiça e do resto


Há pouco, alguém ao meu lado dizia a outrem o seguinte:
Em Moçambique, país que pretende sair da situação económica e cultural em que se encontra, a quase totalidade dos alunos percorre diariamente a pé muitos quilómetros, para poder frequentar a escola, onde frequentemente os lápis e as canetas são substituídas por pauzinhos com que escrevem na areia ou na terra que lhes serve de papel.
O papel que os alunos portugueses, num dos países menos desenvolvidos da Europa, fazem displicentemente voar pelas salas de aula, muitas vezes com o auxílio dos tubos das esferográficas, bocejando, enfadados por terem que aprender seja o que for e vozeando de maneira a que nada mais se ouça. Os alunos para quem a escola é o impedimento ao tempo que poderiam dedicar aos jogos de computador ou ao chat, através do qual espraiam o vazio de uma conversa sobre coisa nenhuma, enquanto esperam por uma saída ao shopping mais próximo para comprarem o mais recente modelo de telemóvel que a possa perpetuar. Os alunos, que têm que ser ensinados a consentir em aprender seja o que for, como se consente em assistir a um espectáculo (sempre divertido, dizem os pedagogos, que, assim, o peso da responsabilidade não se faz sentir).
Os alunos que, com a criminosa conivência da inconsciência generalizada, pessoal e cívica, dos seus progenitores, que reclamam a educação gratuita como um direito, e da acção "humanista" dos politicamente mandatados, vão proporcionando a visão do afundamento, até à indigência que, inevitavelmente, fatalmente, (n)os espera a todo o nível.
Disse. E depois todos nós nos calámos durante bastante tempo.

Um velho conto

Chirico, Trovatore
O frade e o salteador
Era uma vez um virtuoso frade, que morava num ermo. Um dia chegou junto dele um salteador dos caminhos, que lhe disse:
- Vós rogais a Deus por todos; rogai-lhe que me tire deste mau ofício; se não hei-de matar-vos.
E, indo-se dali, tornava a fazer o mesmo que de antes.
E outra vez tornava a procurar o frade, dizendo:
- Vós não quereis rogar a Deus por mim? Pois hei-de matar-vos.
Tantas vezes fez isto, que uma veio determinado para matar o padre, o qual lhe pediu:
- Já que me queres matar, tiremos primeiro ambos uma laje que tenho sobre a sepultura onde hei-de ficar. Lançar-me-ás assim lá dentro, sem muito trabalho.
O salteador concordou com a proposta do frade, e ambos foram erguer a laje. Porém, ao passo que o mau homem trabalhava quanto podia por erguê-la, assim o ermitão se esforçava para que ela não se erguesse. E, desta maneira, nunca mais a laje saía do seu lugar.
Atentou o salteador no caso e disse:
- Se vós não me ajudais, como posso eu erguê-la? Ainda que eu queira da minha parte, não o consigo, pois vós fazeis, da vossa, com que não aproveite o que faço...
Antes que passasse adiante, disse-lhe o bom frade:
- Vês, irmão? Que me presta a mim rogar a Deus por ti, pedindo que te afaste do pecado e do mau ofício que exerces, se tu não te queres afastar e estás, muito de propósito, perseverante nele?
Gonçalo Fernandes Trancoso

17 setembro 2008

A todos os que ainda têm pachorra...


... de passar por aqui:
Tenciono recomeçar no domingo. Até lá, procurarei deixar aqui, diariamente, um texto que julgue oportuno ou, por qualquer razão, interessante. Assim, fiquem hoje em companhia de Eça e do Portugal que não mudou desde então nem parece querer mudar.

O amável Correio da Manhã, fazendo hoje o retrato social de «Os vencidos da vida», um por um, para lhes contestar este título acabrunhante, continua e engrossa o ruído de publicidade que a imprensa tem erguido ultimamente em torno deste grupo jantante, com considerável desgosto dos homens simples que o compõem. Pode parecer talvez estranho que esta ressoante publicidade assim magoe os derrotados. Não permitem eles que hebdomadariamente as gazetas anunciem a sua reunião em torno da mesa festiva? É verdade. Mas se o fazem é para que a opinião se não possa, de modo algum, equivocar sobre o motivo íntimo que todas as semanas os arranca dos seus buracos, para o jantar num gabinete de restaurante, ao lusco‑fusco, no isolamento sumptuoso de quatro cortinas de repes.
Homens que assim se reúnem poderiam logo, neste nosso bem amado país, ser suspeitados de constituir um sindicato, uma filarmónica ou um partido. Tais suposições seriam desagradáveis a quem se honra de costumes comedidos; o respeito próprio obriga-os a especificar bem claramente, em locais, que se em certo dia se congregam é para destapar a terrina da sopa e trocar algumas considerações amargas sobre o Colares. De resto, o sussurro atónito que de cada vez levantam estas refeições periódicas não é obra sua – mas da sociedade que, com tanto interesse, os espreita. Eles comem – a sociedade, estupefacta, murmura. O que é, portanto, estranho não é o grupo de «Os Vencidos» - o que é estranho é uma sociedade de tal modo constituída que, no seu seio, assume as proporções de um escândalo histórico o delírio de onze sujeitos que uma vez por semana se alimentam.
O que de resto parece irritar o nosso caro Correio da Manhã é que se chamem «Vencidos» àqueles que, para todos efeitos públicos, parecem ser realmente vencedores. Mas que o querido órgão, nosso colega, reflicta que, para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou – mas do ideal mínimo a que aspirava. Se um sujeito largou pela existência for a com o ideal supremo de ser oficial de cabeleireiro, este benemérito é um vencedor, um grande vencedor, desde que consegue ter nas mãos uma gaforina e uma tesoura para a tosquiar, embora atravesse pelo Chiado cabisbaixo e de botas cambadas. Por outro lado, se um sujeito, aí pelos 20 anos, quando se escolhe uma carreira, decidiu ser milionário, um poeta sublime, um general invencível, um dominador de homens (ou de mulheres, segundo as circunstâncias), e se, apesar de todos os esforços e empurrões para diante, fica a meio caminho do milhão, do poema ou do penacho – ele é para todos os efeitos um vencido, um morto da vida, embora se pavoneie por essa Baixa amortalhado numa sobrecasaca do Poole e conservando no chapéu o lustre da resignação. Dito isto, só podemos juntar que «Os Vencidos» oferecem o mais alto exemplo moral e social de que se pode orgulhar neste país. Onze sujeitos que há mais de um ano formam um grupo, sem nunca terem partido a cara uns aos outros; sem se dividirem em pequenos grupos de direita e esquerda; sem terem durante todo esse tempo nomeado entre si um presidente e um secretário perpétuo; sem se haverem dotado com uma denominação oficial de «reais vencidos da vida» ou «vencidos da vida real» ou «nacional»; sem arranjar estatutos aprovados no Governo Civil, sem emitirem acções; sem possuírem hino nem bandeiras bordadas por um grupo de senhoras «tão anónimas quanto dedicadas»; sem iluminarem no primeiro de Dezembro; sem serem elogiados no Diário de Notícias – estes homens constituem uma tal maravilha social que certamente para o futuro, na ordem das coisas morais, se falará dos «onze do Bragança», como na ordem das coisas heróicas se fala dos «doze de Inglaterra».
Dissemos.
Entretanto, aconselho a leitura dos posts publicados no passado dia 13 em A Voz Portalegrense (via Fiel Inimigo/Último Reduto). A partir de hoje, o link ficou disponível aí ao lado.

10 setembro 2008

Triste ou vergonhoso?


Reparem bem no modo sofístico como esta "informação" é dada, nas contradições que encerra a forma de exposição e de tratamento de dados, o que é sugerido nas entrelinhas.
Só me lembrei da minha cunhada, que aqui há uns tempos, no auge da campanha dos candidatos, pensava, de boa fé, que se estava a escolher entre Obama e Hillary Clinton para a presidência dos Estados Unidos e que desconhecia por completo a existência de McCain, porque nunca tinha ouvido falar dele na "comunicação social". E que achava Obama "muito querido" e gostava da mulher dele porque o chamava para a verdadeira realidade, que é a dos filhos para criar e dos problemas que uma mãe enfrenta.
E olhem que ela até nem é das piores...! Conheço muitos portugueses que estavam convencidos, pelo alarido, que Obama já tinha sido eleito como próximo presidente. E que nem sabiam que existe um Partido Republicano, só aquele gajo, o Bush.
O provincianismo dos nossos jornalistas e da "esmagadora maioria" dos nossos intelectuais corresponde ao nível cultural do povo por eles "in-formado" e é, de facto, acabrunhante.
Triste e vergonhoso.

08 setembro 2008

Esta é...


... deliciosa! (in Diário Ateísta, via Fundação Velocipédica)

07 setembro 2008

Então, camaradas?! Como é?!


Então os verdadeiros criminosos já não são os exploradores capitalistas? E a bandidagem, um conjunto de vítimas injustiçadas pela sociedade? São os actuais representantes do pensamento socialista que deixaram de o ser ou é a realidade que os leva a alterar os princípios, por insuficientes para a explicar? Ou estaremos em período de pré-eleições e, como diria Hitler, para nós vale tudo, porque quem detém a verdade não tem que justificar as suas acções? Onde está a famosa coerência com que a esquerda se arvora em anjo mensageiro da moralidade?
Em que é que ficamos?

Hoje, no PÚBLICO...


... diz Vasco Pulido Valente (e eu concordo):
“(…) Num país pequeno como Portugal, onde as pessoas se cruzam e tornam a cruzar, a integridade intelectual e profissional desliza inevitavelmente para um “pessoalismo”, que deforma o juízo mais claro e a vontade mais firme. As coisas não são o que são; são o que se vê pela simpatia ou pelo ódio, pela hostilidade ou pela tolerância. (…) Portugal inteiro [é governado] por uma lamentável mistura de sentimentalismo, de espírito de corporação e de espírito de partido. No fundo, pelo arbítrio."

01 setembro 2008

Ouçam ainda, mas ouçam mesmo...


... isto.
Já volto. Lá para o fim da noite, como disse antes.

31 agosto 2008

Caixa do correio


Era para ficar em casa esta tarde, a escrever qualquer coisa de jeito por aqui. Mas não. Quem quiser poderá encontrar-me em Belém, no Museu dos Coches, a partir das 5. É que vai haver por lá um concerto composto por obras de Piazzola, interpretado por alguns excelentes músicos argentinos. E, informação útil para quem tiver gasto demais nas férias, à borla.
Entretanto fiquem-se com este email que me chegou.
Até amanhã à noite.

Magalhães - golpe de propaganda do ano
Os noticiários abriram há dias, com pompa e circunstância, anunciando o lançamento do "Primeiro computador portátil português", o "Magalhães".
A RTP refere que é "um projecto português produzido em Portugal"
A SIC refere que "um produto desenvolvido por empresas nacionais e pela Intel" e que a "concepção é portuguesa e foi desenvolvida no âmbito do Plano Tecnologico."
Na realidade, só com muito boa vontade é que o que foi dito e escrito é verdadeiro. O projecto não teve origem em Portugal, já existe desde 2006 e é da responsabilidade da Intel. Chama-se Classmate PC e é um laptop de baixo custo destinado ao terceiro mundo e já é vendido há muito tempo através da Amazon.
As notícias foram cuidadosamente feitas de forma a dar ideia que o "Magalhães" é algo de completamente novo e com origem em Portugal. Não é verdade. Felizmente, existem alguns blogues atentos. Na imprensa escrita salvou-se, que se tenha dado conta, a notícia do Portugal Diário: "Tirando o nome, o logótipo e a capa exterior, tudo o resto é idêntico ao produto que a Intel tem estado a vender em várias partes do mundo desde 2006. Aliás, esta é já a segunda versão do produto."
Pelos vistos, o jornalista Filipe Caetano foi o único a fazer um trabalhinho de investigação em vez de reproduzir o comunicado de imprensa do Governo.
A ideia é destruir os esforços de Negroponte para o OLPC. O criador do MIT Media Lab criou esta inovação, o portátil de 100 dólares...
A Intel foi um dos parcceiros até ver o seu concorrente AND ser escolhida como fornecedor. Saiu do consórcio e criou o Classmate, que está a tentar impor aos países em desenvolvimento.
Sócrates acaba de aliar-se, SEM CONCURSO, à Intel, para destruir o projecto de Negroponte. A JP Sá Couto, que ja fazia os Tsunamis, tem assim, SEM CONCURSO, todo o mercado nacional do primeiro ciclo.
Tudo se justifica em nome de um número de propaganda política terceiro-mundista.
Para os pivots (ex-jornalistas?) Rodrigues dos Santos ou José Alberto Carvalho, o importante é debitar chavões propagandísticos em vez de fazer perguntas.
Se não fosse a blogosfera - que o ministro Santos Silva ainda não controla - esta propaganda não seria desmascarada. Os jornalistas da imprensa tradicional têm vindo a revelar-se de uma ignorância, seguidismo e preguiça atroz.

João Ricardo Mendes

30 agosto 2008

Ainda antes de regressar...


... chamo a atenção para esta apreciação à cerimónia de nomeação de Obama pelo Partido Democrático.

28 agosto 2008

Sério, sério...


... tive que andar atrás de operários da construção civil e burocratas e amanhã prevejo que ainda seja pior. Depois de amanhã, ainda não sei, mas também não me admiraria que estas férias inesquecíveis se prolongassem até sábado.
Peço desculpa aos masoquistas do costume por criar falsas expectativas (ou não, conforme o ponto de vista). E adio para o próximo domingo o que prometi para esta quarta.
Até lá.

24 agosto 2008

Eu sei, eu sei...!


Um amigo chamou-me a atenção para o facto de, desde há três semanas para cá, os meus posts se limitarem praticamente a remeter para os posts de outrem.
Mas o que é que querem?! Há fases destas e quando o blog só tem um escravo... E as férias e as obras em casa e tal...
Prometo a quem tem a pachorra de me visitar os desabafos que, até quarta-feira, deixarei aqui qualquer coisita de mais substancial.
Abraços a todos.

23 agosto 2008

Na continuação...


... do post que referi, Jacinto Bettencourt escreve ainda este outro, para o qual chamo de novo a atenção.

22 agosto 2008

Um bom trabalho...


... sobre as eleições nos Estados Unidos é este que RB vem fazendo no Fiel Inimigo, contrastando com o provincianismo da generalidade dos órgãos de "comunicação" portugueses.

21 agosto 2008

Bravo!!!


Eu tencionava (e tenciono, logo que a "crise" me passe) escrever algo sobre o assunto. Mas recomendo que leiam desde já este post de Jacinto Bettencourt, no 31 da Armada.

20 agosto 2008

Ainda não percebi...


... se são as obras cá em casa que acabam por não me dar muita disponibilidade para escrever, se é a preguiça que se desculpa com as obras, se são as férias quase a acabar...
Também acho que, se calhar, não me interessa muito saber o motivo. Por hoje, vou dormir, que também preciso. Vão passando por cá, quando a preguiça vos permitir.

18 agosto 2008

Provincianismo...


... esforçado (há quem diga o contrário) - via 31 da Armada.

Europa, Europa...!


Sempre a velha Europa...!

12 agosto 2008

Breve, que estou farto de estar em casa


Ainda a propósito do post de ontem:
Dez anos atrás, um amigo meu, que tinha ido à Hungria em viagem de trabalho, falava-me das preocupações do país com os ciganos, que as alterações ao nível do comércio, mundial e local punham cada vez mais na miséria. E do cada vez maior recurso que estes faziam àquilo de que sempre se tinham demarcado, o tráfico de droga, bem como do crescente nível de delinquência e de prostituição entre as suas mulheres.
A cultura cigana, tal como outras, hoje em vias de desaparecimento, considera que o trabalho é indigno de um ser humano livre e, muito embora a progressiva sedentarização das comunidades e a sua inserção no nosso sistema económico seja bem visível, demorará ainda muito tempo até que a sua inevitável integração se consume.
Os incidentes que o processo necessariamente comportará não podem ser considerados como meras questões de segurança (incluindo a internacional) e muito menos de xenofobia ou de "racismo". Mas de inteligência.

11 agosto 2008

Será...


... Brasil aqui? Ou será o Brasil apenas um imenso Portugal?

Workaholic


O doutor Ayman al-Zawahiri, número dois da Al-Quaeda, apelou hoje à guerra santa no Paquistão.
O doutor Ayman al-Zawahiri, em Agosto, deveria era apelar às férias santas! E passar umas santas férias! Afinal, a instituição do descanso é uma das heranças das religiões do Livro. Ajudam a descontrair e, assim, à serenidade na reflexão.
Descanse, homem, descanse! E ajude os outros a descansar, que Deus o cumulará de bênçãos ainda antes do Paraíso.

08 agosto 2008

Alguém está convencido...

Mário Cesariny
... de que ele morreu?

06 agosto 2008

PIM!


Porque lhes dais tanta dor?

Augusto Gil (A Balada da Neve)

Chama-se a isto...


... ser certeiro, sem dó nem piedade.

03 agosto 2008

02 agosto 2008

Fim-de-semana 1

Manet, Le déjeuner sur l'herbe

01 agosto 2008

Confesso!


Acredito em milagres, ao menos no sentido espinoseano. E estive à espera dele até à hora aprazada. A última de que me lembrei foi de que poderíamos ouvi-lo dizer:
"- Portugueses! A crise agrava-se e, em desespero de causa, decidi recorrer aos meios privilegiados a que minha posição dá acesso. Venho comunicar-vos que decidi pôr à venda a minha casa no Algarve, a vivenda Mariani. Trata-se de um imóvel usado, em muito bom estado de conservação, bem situada e a um preço imbatível (pela urgência), mas, ainda assim, negociável. Todos os contactos..."
Mas foi mais uma desilusão. Cavaco Silva limitou-se a acrescentar um sabor patético à silly season e foi de novo à sua vida.

31 julho 2008

E se...


E. Munch, Melancolia
... Cavaco Silva, hoje, no seu inesperado discurso ao país, dissesse (imaginem a voz rouca e os trejeitos):
-Portugueses! Recebi uma mensagem do meu congénere de Marte, no sentido de estabelecer na Baixa da Banheira um entreposto comercial e uma base militar marciana, o que é demonstrativo da nossa credibilidade ao nível galáctico!
Ou, um pouco menos improvável, mas muito mais portuguesmente (continuem a imaginar a voz e o resto):
- Portugueses! Acabei de ganhar o Euromilhões. Por isso estou-me a c... para vocês e vou viver para a Seychelles. Fiquem vocês com esta m...!
Mas como também eu sou português e, portanto, me assumi, enquanto tal, filho da pouca-sorte e da tristeza, sei que nada disto acontecerá e que a minha vida será feita, até ao final, da monotonia da intriga e da coisa nenhuma.

30 julho 2008

Uma no cravinho, outra na corrupção


O ex-ministro socialista João Cravinho deu, de novo, forte e feio na política anti-corrupção do governo de José Sócrates, dizendo que ela, de facto, não existe.
O Partido Socialista disse, pelo seu porta-voz, que não recebe lições do engº Cravinho em matéria de corrupção.
Melhor seria dizer, uma vez que não me consta que João Cravinho tivesse deixado de ser militante do partido, que os actuais dirigentes socialistas não recebem lições de outros socialistas.
O que significará, em suma, que, tal como no final da fábula de Georges Orwell, The Animal's Farm, há socialistas que são mais socialistas do que outros.

Do mérito e do susto


O primeiro-ministro fez hoje gala na apresentação do Magalhães, o primeiro computador inteiramente montado em Portugal, com o apoio da Intel, e destinado aos alunos do 1º ciclo do ensino básico. Mais ainda: o computador poderá ser adquirido por somente 50 euros e, em casos que requeiram apoio social escolar, conforme o escalão em que se encontrar, o aluno verá o preço reduzido para 20 euros ou mesmo para custo zero. O Magalhães, tal como o nome indica, destina-se também a dar a volta ao mundo e já existem contratos com a Venezuela, a Líbia e outros países de África.
A iniciativa é, sem dúvida, meritória a diferentes níveis, embora eu não tenha a certeza de que a substituição do papel pelo monitor, por muito "ecológico" que pareça ser a curto prazo, não venha a constituir, daqui a alguns anos, um motivo de mais um desgaste da natureza e de uma qualquer acumulação de resíduos, devidos ao acréscimo de fabrico de material oftalmológico. Isto, é claro, pondo de lado o facto de que os olhos humanos também fazem parte da natureza... A não ser que a próxima luta de alguns grupos ecologistas seja pelo analfabetismo, não estou a ver, aliás, como se resolverá o problema da conciliação entre uma humanidade totalmente alfabetizada (como é o seu direito, de acordo com o que é também o ideário do ecologismo) e o consequente desiquilíbrio que isso inevitavelmente provocará. Só os chineses e os indianos a cultivarem-se todos...! Nem a partilha de livros (a de lentes, então, é que não dá mesmo jeito nenhum...) resolve a coisa. Sem falar das implicações do aumento do consumo de energia eléctrica...
Mas voltando ao anúncio do governo: a medida é o equivalente, portanto, a pôr ao alcance da bolsa média das famílias portuguesas material escolar sofisticado, ao nível dos novos "amanhãs que cantam" que aí vêm (a esquerda, como se vê, deixou um "rasto útil" para todos os partidos políticos). Dessa perspectiva, repito, seria uma óptima decisão, para a qual só poderiam ir elogios. Porém, não nos iludamos: as máquinas não serão capazes de ultrapassar a falta de exigência e a verdadeira catástrofe pedagógica a que se assiste no ensino no país desde há vinte anos e que a actual equipa ministerial têm levado ao grotesco, hipotecando o país por décadas. Antes, exactamente pelas suas potencialidades, a reforçarão!
Mais: se ouvirmos bem o que está no filme de apresentação, veremos que nele se reforça implicitamente a ideia de algo bacocamente sinistro e delirante que esta mesma equipa ministerial associou à consubstanciação da figura de professor-tutor, que implementou ao nível dos ensinos básico e secundário. Ora ouçam e assustem-se, e, se não se assustarem, informem-se devidamente, que vale a pena assustarem-se.

29 julho 2008

Mas o que é isto?!


A Assembleia Regional dos Açores e a Assembleia da República aprovaram por unanimidade um novo texto para o Estatuto Político-Administrativo dos Açores, composto por 13 normas.
O Presidente da República tem dúvidas sobre a constitucionalidade do documento e envia-o para o Tribunal Constitucional, que chumba 8 dessas 13 normas, ou seja, bastante mais de metade!
Os elementos do Governo Regional dos Açores e do Partido Socialista dizem que isto demonstra que o PS está disposto a avançar com grandes medidas ao nível da autonomia. Manuela Ferreira Leite lembra que o seu partido avisou, desde sempre e todos, sobre o que inevitavelmente sucederia. Os deputados do PSD, pelos vistos, não a ouviram.
Pergunto: que juristas temos na Assembleia da República? que juristas temos no Tribunal Constitucional? que níveis de comunicação existem entre o Governo Regional e o Partido Socialista? que níveis de comunicação existem dentro do PSD? que níveis de comunicação existem entre o Presidente da República e Manuela Ferreira Leite? o grau de ilegalidade constitucional é directamente proporcional à medida do grau de determinação do Partido Socialista?
E ninguém é chamado a responder, obrigatória e urgentemente, a tudo isto perante os seus compatriotas?! Ninguém se descose?!

28 julho 2008

Para quem não saiba...


... tenho irmãos em Portugal!

Pschhh...!


Alberto João Jardim diz que o PSD-Madeira vai editar uma revista mensal destinada a discutir princípios políticos. Nisso, continua Alberto João, o PSD-Madeira distingue-se das restantes instituições partidárias, uma vez que esse tipo de publicações tem vindo a ser encerrado pelos outros e que os únicos assuntos que se discutem neste momento são coisas como o preço do bacalhau.
Jardim que, segundo o maestro Rui Massena, faz parte do público fiel da Orquestra Clássica da Madeira e por lá aparece sem lugar reservado, sem staff e em mangas de camisa, afirma ainda que os madeirenses têm o dever de ajudar os restantes portugueses a repudiar um insulto chamado José Sócrates e que o PSD do continente está ao serviço de uma burguesia sobranceira e arrogante que não se identifica com o povo e é relutante à própria ideia de se misturar com ele.
E não é que até parece ser a chamada lufada de ar fresco?!

24 julho 2008

Resposta a um comentário ao post anterior


Caríssimo nightbug:
Uma coisa é, como eu fiz no post que referiu, utilizar ironicamente uma expressão para reforçar uma situação que é, em meu entender, desmascaradora de um preconceito de consequências trágicas; outra, a utilização de uma expressão do mesmo tipo numa atitude de agressividade gratuita e, por isso, de consequências perigosas, bem como o fazer-lhe publicidade à borla. Acredito perfeitamente que quem colocou a fotografia não tenha reparado nesse pormenor. Mas nem por isso deixa de lá estar e de poder ter reflexos.
O meu sobrinho, de 13 anos, é adepto do Sporting e já o acompanhei duas ou três vezes a Alvalade. Durante os jogos, e uma vez que ficámos num dos topos do estádio, o seu comportamento foi naturalmente influenciado, dada a sua idade, pela comportamento da claque sportinguista, que nem sempre revelava o melhor espírito desportivo. E essa influência só foi travada pelo facto de ele, sendo atleta federado, começar, a certa altura, a perceber que aquela não era exactamente uma atitude a imitar por alguém que gostasse verdadeiramente de futebol. Foi ele, aliás, e não eu quem ontem reparou no que estava na imagem.
Quem assume o papel de comunicar publicamente algo, assume automaticamente também as responsabilidades das consequências da sua acção. Do mesmo modo que o tipo que vende droga não pode escusar-se, atirando a responsabilidade da compra para cima da vontade de quem a fez. Claro que, em última instância, manda a vontade, mas também ninguém foi incumbido ou está autorizado a armadilhar o caminho de outrem e muito menos a fazê-lo impunemente. Daí os responsáveis de uma entidade do desporto e do espectáculo desportivo com a dimensão, o carácter e o peso do passado do Sporting Clube de Portugal não poderem descurar, por um instante que seja, esse aspecto da instituição.
Foi, portanto, por apreço pelo clube e nesse sentido que escrevi o post anterior e que o enviei para a redacção. Como alerta, mais ou menos bem-humorado, e não como lição de moralismo barato ou, pior ainda, como manifestação de uma qualquer clubite mentecapta, as partidárias incluídas, que ocupam 90% das vidinhas que vegetam nesta praia da Europa.
Esclarecido?
(imagem "bifada" em lasthorizonblog.blogspot.com)

23 julho 2008

Delicioso! (via 31 da Armada)

À atenção dos responsáveis do Sporting Clube de Portugal


Esta fotografia está hoje na página oficial do Sporting. Nela se pode ver em destaque um termo em inglês que, se não for entendido como um apelo (legítimo) à prática a que se refere, constitui o exemplo a dar exactamente oposto ao que significa a expressão "espírito desportivo". Que um imbecil troglodita exiba uma faixa de tal grau de grosseria e agressividade cretina num desafio de futebol é previsível, mas inaceitável quer por parte de qualquer dos seus concidadãos quer, por maiores razões ainda, pelo clube de que é adepto ou sócio, ou por outro clube que esse clube visite; mas que o próprio clube exiba essa fotografia no seu site é não apenas condenável como muito, mas mesmo muito preocupante, se tivermos em atenção o que diz especialmente respeito à formação cívica dos seus jovens sócios ou adeptos.
Quem o diz é alguém que tem pelo SCP uma razoável consideração, dado o notável papel que tem tido na formação desportiva de jovens atletas, bem como pela postura de carácter social que lhe tem estado associada e que se estende para lá do desporto, como ainda se pôde ver recentemente na homenagem ao Professor Moniz Pereira, transmitida na RTP. E que, por isso mesmo, pensa que os responsáveis do clube (de todos os clubes) não podem demitir-se da sua responsabilidade pública a este nível, atendendo ao poder adquirido pelo desporto e, em especial, pelo futebol enquanto elemento da sociedade contemporânea.

21 julho 2008

Na sequência do post anterior


(na bomba está escrito "direitos das gentes")

A propósito do que escrevi no post anterior, escreve por sua vez Mário Crespo, no Jornal de Notícias (sublinhados meus):

Limpeza étnica

O homem, jovem, movimentava-se num desespero agitado entre um grupo de mulheres vestidas de negro que ululavam lamentos. "Perdi tudo!" "O que é que perdeu?" perguntou-lhe um repórter.
"Entraram-me em casa, espatifaram tudo. Levaram o plasma, o DVD a aparelhagem..." Esta foi uma das esclarecedoras declarações dos autodesalojados da Quinta da Fonte. A imagem do absurdo em que a assistência social se tornou em Portugal fica clara quando é complementada com as informações do presidente da Câmara de Loures: uma elevadíssima percentagem da população do bairro recebe rendimento de inserção social e paga "quatro ou cinco euros de renda mensal" pelas habitações camarárias. Dias depois, noutra reportagem outro jovem adulto mostrava a sua casa vandalizada, apontando a sala de onde tinham levado a TV e os DVD. A seguir, transtornadíssimo, ia ao que tinha sido o quarto dos filhos dizendo que "até a TV e a playstation das crianças" lhe tinham roubado. Neste país, tão cheio de dificuldades para quem tem rendimentos declarados, dinheiro público não pode continuar a ser desviado para sustentar predadores profissionais dos fundos constituídos em boa fé para atender a situações excepcionais de carência. A culpa não é só de quem usufrui desses dinheiros. A principal responsabilidade destes desvios cai sobre os oportunismos políticos que à custa destas bizarras benesses, compraram votos de Norte a Sul. É inexplicável num país de economias domésticas esfrangalhadas por uma Euribor com freio nos dentes que há famílias que pagam "quatro ou cinco Euros de renda" à câmara de Loures e no fim do mês recebem o rendimento social de inserção que, se habilmente requerido por um grupo familiar de cinco ou seis pessoas, atinge quantias muito acima do ordenado mínimo. É inaceitável que estes beneficiários de tudo e mais alguma coisa ainda querem que os seus T2 e T3 a "quatro ou cinco euros mensais" lhes sejam dados em zonas "onde não haja pretos". Não é o sistema em Portugal que marginaliza comunidades. O sistema é que se tem vindo a alhear da realidade e da decência e agora é confrontado por elas em plena rua com manifestações de índole intoleravelmente racista e saraivadas de balas de grande calibre disparadas com impunidade. O país inteiro viu uma dezena de homens armados a fazer fogo na via pública. Não foram detidos embora sejam facilmente identificáveis. Pelo contrário. Do silêncio cúmplice do grupo de marginais sai eloquente uma mensagem de ameaça de contorno criminoso - "ou nos dão uma zona etnicamente limpa ou matamos." A resposta do Estado veio numa patética distribuição de flores a cabecilhas de gangs de traficantes e autodenominados representantes comunitários, entre os sorrisos da resignação embaraçada dos responsáveis autárquicos e do governo civil. Cá fora, no terreno, o único elemento que ainda nos separa da barbárie e da anarquia mantém na Quinta da Fonte uma guarda de 24 horas por dia com metralhadoras e coletes à prova de bala. Provavelmente, enquanto arriscam a vida neste parque temático de incongruências socio-políticas, os defensores do que nos resta de ordem pensam que ganham menos que um desses agregados familiares de profissionais da extorsão e que o ordenado da PSP deste mês de Julho se vai ressentir outra vez da subida da Euribor.

Acrescento eu: a irresponsabilidade e o oportunismo geradores da situação social presentemente vivida e que utiliza os dinheiros públicos para procurar disfarçá-los e atenuá-los no imediato, assegura a sua permanência na política, sobretudo na política autárquica, através dos votos daqueles a quem subsidia. O que serviu no período cavaquista num campo, serve agora noutro.
No meio da hipocrisia sufocante que envolve o que respeita à emigração em Portugal, o repugnante termo "tolerância" faz as vezes de escudo ornamentado e ornamental dos discursos oficiais e de bandeira contestatária dos idiotas bem-intencionados do costume, enquanto o ex-primeiro-ministro e actual Presidente da República, torna dela apóstolas as forças de segurança. Ainda por cima, aquelas forças de segurança que são desencorajadas de disparar durante as perseguições, nem que seja sobre os pneus!
Não sei se já referi isto anteriormente: aqui há uns anos, uma escola secundária sueca organizou um encontro em que participaram duas escolas portuguesas e uma espanhola. Esse encontro destinava-se a troca de experiências e metodologias, no sentido de resolver problemas decorrentes da emigração. A escola situava-se numa zona industrial e, por isso, tinha uma grande percentagem de alunos de origem estrangeira e havia turmas com oito (!) nacionalidades. O que, todavia, ainda acrescenta interesse a tudo isto, é que o que despoletou a necessidade do encontro por parte dos suecos foi o facto de, numa fábrica qualquer, ter havido um operário estrangeiro que agrediu um sueco com uma chave de parafusos - o que foi por eles considerado com um grau alarmante de violência...!
Por isso, se um mínimo de lucidez não acabar por prevalecer, pede-se ao sr. engº. Sócrates e à sra. Ministra da Educação, que tanto gostam de falar dos países nórdicos e de os dar como exemplo, de, pelo menos, adoptarem o modo e os recursos (baratos, que os nórdicos não dão nada a ninguém, apesar da propaganda) com que neles se integram os emigrantes. É que acarretaria muito menos custos para o país e seria muito mais eficaz. Garante quem lá esteve. Só que teriam que prescindir de oferecer computadores à juventude desvalida e das cerimónias oficiais anunciadoras de bons serviços à Pátria, com ou sem figurantes. Mas enfim, todos temos que fazer sacrifícios e os governantes não podem ser excepção...

19 julho 2008

Do crime de alguns e do castigo de todos


Foi durante o reinado cavaquista que a emigração clandestina disparou para níveis nunca vistos em Portugal. A "remodelação e o progresso do país" exigiam o aumento da mão-de-obra não qualificada, contratável a qualquer preço, alojável em quaisquer condições e descartável a qualquer momento, sem cuidar da sua "reciclagem". E toda a gente, incluindo o sr. Professor, estupidamente, criminosamente, ignorou ou fingiu ignorar as consequências explosivas da "conveniente" permissividade quanto à sua entrada ilegal no país.
Como dizia um representante da comunidade cigana da Quinta da Fonte, não são os elementos mais velhos da comunidade negra, ordeiros e pacatos, mas os mais novos, organizados em gangs, que constituem a origem do problema registado. Não há nada de estranho nisto.
Aqui há uns anos, na que era, segundo as estatísticas da UE, a "escola mais africana da Europa", uma das duas escolas secundárias da Damaia, os pais dos alunos procuravam apoio junto do Conselho Executivo da mesma, alarmados (para não dizer, em pânico!) pelo facto de os seus filhos, que ficavam sozinhos enquanto eles se encontravam a trabalhar, aparecerem com armas em casa, recusando-se a dizer quem lhas havia fornecido. A estrutura hierárquica familiar própria da família africana, equivalente à da antiga estrutura portuguesa, em que os avós substituíam os pais na ausência destes e mantinham um ascendente flexível de sabedoria disciplinadora, desaparecera nas novas condições. E os putos estavam entregues a si próprios, à mercê de todo o tipo de influências e solicitações, ainda sem a capacidade de discernimento nem a maturidade necessária para fazerem escolhas conscientes.
E quem são esses putos? Cidadãos portugueses, que vêem em Afonso Henriques o fundador de um povo predestinado?
A população vinda província, de Trás-os-Montes ao Alentejo, para trabalhar nas grandes cidades tende a concentrar-se na mesma região onde já se encontram familiares ou conhecidos, que possam constituir pontos de apoio no dia a dia. É assim que se formam bairros inteiros localizados de gente provenientes da mesma região e as crianças que frequentam as escolas entram nelas, naturalmente, já com uma primeira perspectiva do mundo e pontos de orientação dados pela família. Essa perspectiva é, obviamente, a que os pais herdaram da aldeia: desde os cuidados a ter aos exemplos de verdadeira sabedoria, do que é importante ou dispensável. E os professores têm que ter em conta que o que lhes é ensinado apenas é absorvido à medida desses horizontes e que aquilo que é a linguagem clara dos conceitos e das metáforas do conhecimento para um puto da grande cidade, é linguagem abstrusa e indecifrável para um outro que, mesmo vivendo fisicamente nela desde sempre, vive mentalmente sobretudo na terra dos avós. Ou melhor: no cômputo geral, não vive em lado nenhum, porque é tudo uma enorme confusão de parâmetros contraditórios. Portanto, em primeiro lugar, antes de estruturar qualquer aprendizagem, ele terá que destruir e reconstruir estruturas paramétricas. E isso demora anos, por vezes muitos anos, até para os que são bastante dotados de si mesmos.
Sei do que falo. A minha família, em sentido lato, começou a emigrar para a cidade desde o tempo dos meus avós e tive oportunidade de ver o processo de mais de uma geração e de diferentes famílias dela conhecidas.
Essa é a situação da "segunda geração africana". Mas a que se acrescenta algo de muito mais decisvo. É que enquanto o avô ou o pai branco ainda dá a referência Viriato, Afonso Henriques ou Nun'Alvares, o pai ou mesmo o avô preto, não lhe fornece qualquer referência, a não ser a da terra de onde veio, onde antigamente mandavam os que mandam aqui e que agora é independente porque houve uns tipos admiráveis que se revoltaram. Mas, de qualquer maneira, a terra deles é pobre e não foi para a frente e agora são eles que têm que vir para cá viver. A "terra", não o "país", porque para haver um país tem que haver uma estrutura da memória que o identifique e gente determinada em fixar-se no seu território, desenvolvendo-o. Como é que se pode falar do "seu" país, se não se pode falar dele em termos de um passado próspero ou glorioso ou, quando seria suposto que todos se empenhassem na sua formação, a quase totalidade dos seus cidadãos só não sai de lá porque não consegue ou não pode?
Os que pertencem a essa "segunda geração" são assim, por condição económica, cultural e política, cidadãos de "segunda agravada". Existe, porém, um terceiro factor que eleva ao cubo tudo isto. É que eles são tanto "de segunda", que até são diferentes: são pretos. Quando um judeu tirava o barrete com que era publicamente obrigado a identificar-se, tornava-se apenas em mais um homem, cuja cultura constituía a base da cultura onde se integrara; podia invocar os seus antepassados como os mais veneráveis dos mais veneráveis por aqueles em cujo país se encontrava - e todos sabemos o que sucedeu. Mas os pretos...? É o ferrete da Natureza. Revolte-se o escravo ancestral. O mais fácil e o que causa mais estragos em toda esta merda desta confusão é ser bandido, como aqueles blacks dos filmes americanos. Sobretudo (suponho agora eu) se houver uns tipos porreiros a financiar as armas a troco de comparticipação nos lucros. Vamos ser um estado independente dentro do Estado. E "eles" têm que pagar imposto.
A tudo isto, o Ministério da Educação responde com a menor exigência e, portanto, diminuindo ainda mais as possibilidades de qualquer tipo de integração. Quanto ao sr. Presidente, certamente já um pouco falho de memória sobre aquilo que permitiu e abençoou por omissão enquanto primeiro-ministro, vi-o hoje na televisão afirmar, a propósito dos incidentes em Loures, que Portugal não pode ser um país de ghettos, que isso é estranho à nossa tradição de integração e de diálogo intercultural e atribuiu às forças da ordem (leram bem: às forças da ordem!) essa missão.
Para que conste!
(Escrevi isto de rajada e não vou rever. Por isso, desculpem qualquer coisinha)
NOTA: A "segunda geração de africanos" evitava matricular-se na escola a que me referi por ser... a "escola dos pretos"! E não por falta de qualidade da dita, já que a frequentava gente que é hoje docente no ensino universitário.

18 julho 2008

Distribuindo...

René Magritte


... chapeladas para aqui e para ali.

17 julho 2008

Oh! gente do c...!


Souberam do que aconteceu?! Os israelitas trocaram cinco palestinianos que cumpriam pena por terrorismo (um deles até matou uma família inteira com as suas próprias mãos, esmagando o crânio de uma criança...!) por dois soldados dos deles, que tinham sido feitos prisioneiros no Líbano e que ninguém sabia se estavam vivos ou mortos - e afinal, ao que parece, estavam mesmo mortos, que lhes foram entregues dois caixões!
Filhos da p... dos judeus! Aquilo está-lhes na massa do sangue! Têm cá um jeito para o negócio...!

16 julho 2008

Os gloriosos herdeiros de Monthy Python


Dias atrás, no noticiário de um canal de televisão, incluiram a seguinte notícia:
Quatro tipos resolveram assaltar uma estância já não me lembro de quê. Três ficaram dentro da carrinha, à espera do outro, que entrou para abrir caminho. O proprietário, homem aí pelos sessenta, que mora ao lado, ouvindo barulho, desconfiou, pegou na caçadeira e, dando com o assaltante de costas, intimou-o a sair. Porém, ao vê-lo virar-se, numa atitude agressiva e empunhando um pé-de-cabra, receando pela segurança da criança (neto?) que o acompanhara, alvejou-o nas pernas. O assaltante, ferido, conseguiu fugir, mas acabou por ser apanhado, juntamente com os amigalhaços, pela GNR, tendo sido assistido no hospital.
Este seria uma história de happy end à americana, com a inevitável piada final dos protagonistas e risos dos mesmos a condizer, não fora os juristas portugueses, vanguardistas eméritos e dos quatro costados, decidirem dar uma amostra da real dimensão da sua criatividade invertendo os dados do episódio, subvertendo-o na sua essência e mostrando assim que outros valores mais altos se alevantam na lei da nossa grei para além de Dada, dos irmãos Marx e dos Monthy Python, alcandorando-nos às alturas de vero primeiríssimo farol da contemporaneidade e até da aventura da Humanidade. Connosco, é assim mesmo, não fazemos por menos, porque tudo vale a pena se o esprito não é minorca.
Oh! golpe de génio inigualável e altíssimo do legislador! Oh! visão incomparável e sublime do problema da culpa e do perdão na perspectiva do burlesco pós-moderno! Com um golpe súbito e decisivo de uma trivela do espírito, eis que a arma do vil agressor é confiscada para compensação devida à desgraçada e inocente vítima assaltante. Confisque-se a caçadeira e obrigue-se quem a usou a apresentar-se duas vezes por semana no quartel do exército de anjos que garantem a segurança do local por excelência do remanso da Europa, assim decreta a Lei, no texto sagrado fixado pelo génio da lâmpada civilizacional! Pois quê!? Como poderá admitir-se que um sinistro cidadão, apoiado por uma maquiavélica criança, possa defender-se impunemente de um pobre meliante?!
Hollywood arrepela os cabelos, ao ver o seu império comprometido pela falta de visão dos produtores cinematográficos depreciadores de tal filão do grotesco! Os juristas portugueses ameaçam seriamente as coroas de Cristiano Ronaldo e de José Mourinho, não na futeboleira arte mas na do non-sense. Em conjunto com as determinações já conhecidas, como as de abater os cães que molestem assaltantes ou agressores, e de os polícias terem que pagar as balas e os danos ocorridos nas viaturas que conduzam, para além de lhes serem descontados os dias em que tenham que comparecer em tribunal para testemunharem, o português é convidado a não resistir sob qualquer pretexto e de chamar as forças policiais para o defenderem, mesmo que só depois de morto!
Gostaria de contribuir somente com uma sugestão para a eterna glória lusa: a de que todo aquele que o não faça após o falecimento, venha a ser sujeito à medida de residência fixa e veja o seu caixão confiscado. Que é para ver se aprendem a trabalhar por um país moderno, justo e solidário!
Tenho dito!