30 novembro 2008

Por solidariedade...

Mário Botas, Os passeios de um sonhador

... dei uma mãozinha neste texto.

29 novembro 2008

É só fazer as contas

Sem dúvida!!!

Quadro de Arcimboldo
Solidarizo-me por inteiro!

Ficam convidados...


... a, enquanto não volto mais regularmente, a lançarem aqui alguma luz sobre aquilo que julgam estar na origem de coisas deste tipo, impensáveis aqui há uns anos.

25 novembro 2008

No dia em que decidi desalinhar-me...


... e ficar em casa, a descansar, deixo-vos aqui uma gravura, sem título, do notável, saudoso e esquecido Mário Botas, bem como um seu poema que me foi enviado por Nicolau Saião, a quem ele o ofereceu no decorrer de um encontro promovido por MANDRÁGORA - Centro de Cultura e Pesquisa de Arte, em Lisboa, em 1980, onde também participaram Mário Cesariny e Manuel de Almeida e Sousa.


“Seldom we find” says Solomon Don Dance
“Half an idea in the profoundest sonnet”
E.A.Poe


A fisionomia, o carinho das coisas impalpáveis,
o balbuciar, todo em amarelo, dos limões...
Cintura na pedra,
correio subtil de Lesbos para Marte.

Antinous visitou-me. Deixou a casa desarrumada
e um projecto em mim demasiadamente longo.
No frágil da memória eu durmo e sou eu
deuses de papelão sentando-se a meu lado.

No leito fluvial por onde dorme o cisne
chamam por mim os outros príncipes. Todos
irmãos.

Escuridão nova na velha escuridão,
efeito de luz nas janelas do poema...
O meu cão dorme. He is a poet, isn’t he?

Às vezes ainda dá gosto...


24 novembro 2008

22 novembro 2008

Em plena crise de tempo...

Maria Keil, pormenor de um mural
... só me dá para aconselhar o que outros vão dizendo, isto, por exemplo, e mais isto. Penso que lá para quarta ou quinta-feira começarei a ter mais alguma disponibilidade para tourear umas quantas coisas.

19 novembro 2008

Se...


... isto for verdade (e tudo indica que o seja), então estaremos perante um procedimento inaceitável, ao melhor nível do Estado Salazarento. Não apenas porque constitui uma forma digna do filho do Manholas (alcunha do pai de Salazar) de conseguir argumentos, no sentido de afirmar que os professores cumprem e estão de acordo com o que foi determinado pelo Ministério, como também contraria o que é por ele estipulado para essa mesma avaliação quando estabelece, tanto quanto eu conheça do assunto, que os OI (objectivos individuais) têm um carácter pessoal e que, por questões de funcionalidade, com excepção dos casos litigiosos ou suspeitos, eles constituem somente matéria para o professor-avaliador.
José Sócrates é, sem dúvida, neste momento, o primeiro-ministro de um poder político que atingiu o sinistro ao nível do ridículo.

Mais correio


Sócrates entregou Magalhães só para a fotografia
Por Margarida Davim
José Sócrates esteve na Escola do Freixo, em Ponte de Lima, a entregar computadores aos alunos do 1.º ciclo. Mas, depois de o primeiro-ministro ir embora, as crianças tiveram de devolver os Magalhães
A Escola do Freixo, em Ponte de Lima, foi o palco escolhido por José Sócrates, na passada quarta-feira, para mais uma acção de promoção dos computadores da JP Sá Couto para o 1.º ciclo. Sócrates chamou os jornalistas e distribuiu os Magalhães pelas crianças. Mas, terminada a cerimónia oficial, os portáteis tiveram de ser devolvidos. Contactado pelo SOL, o conselho executivo da Escola do Freixo explicou que as crianças não puderam ficar com os computadores, «porque há questões administrativas a tratar».
A mesma fonte – que não se quis identificar – assegura que os Magalhães «estão na escola», mas explica que isso não significa que os alunos do Freixo vão receber os portáteis mais depressa do que as crianças de outros estabelecimentos de ensino. «Não sabemos quando é que os computadores vão ser distribuídos», admitiu, acrescentando que a entrega «depende da logística administrativa». Antes da entrega real dos equipamentos, a escola vai ter de «preencher toda a papelada e os pais que não estiverem abrangidos pelo 1.º escalão da acção social escolar vão ter de fazer o pagamento do computador». Um processo que a escola admite desconhecer quanto tempo poderá demorar. Fica também por esclarecer se os Magalhães que Sócrates já deixou na escola serão suficientes para todas as crianças.
A Escola do Freixo tem 185 alunos inscritos no 1.º ciclo, mas o conselho executivo diz não saber quantos portáteis foram entregues na cerimónia que contou com a presença do primeiro-ministro. «Não sei quantos computadores cá ficaram», disse ao SOL um elemento do conselho executivo. Ao que o SOL apurou, foi explicado a alguns alunos que os computadores tinham de ser devolvidos no final da visita de Sócrates por terem problemas nas baterias. No entanto, o conselho executivo da Escola do Freixo garante que «as crianças sabiam» que não iam ficar com os Magalhães naquele dia, porque lhes «foi explicado que era preciso realizar alguns procedimentos administrativos».

Mas, já agora:


Deixou Santos Silva a dúvida sobre se por palavras ou se por actos...

É que...


... porra!, não me dão uns minutos de folga para desabafar! E há tanto para dizer neste momento...!
Volto antes do fim-de-semana, mas não sei quando. Entretanto, vão lendo este texto.

15 novembro 2008

Chamada de atenção


No dia em que mais uns milhares de professores (os não-alinhados com os sindicatos) se manifestaram em Lisboa e em que os inspectores do Ministério da Educação vieram dizer que este modelo de avaliação é inexequível, chamo a atenção para este post.

13 novembro 2008

Da autoridade


Naturalmente que este último ponto não oferecerá dúvidas, a não ser que os actuais governantes tenham amigos verdadeiros, daqueles que dizem o que pensam e que deste modo lhes estejam a apontar o caminho digno da demissão. Mas não me parece crível que isso pudesse acontecer. Apontaria até, reforçando o que afirmou o sr. Secretário de Estado, para que se trate igualmente de um caso de plágio de procedimentos, pois o Ministério também já, em outras ocasiões, contratou actores e figurantes para tomarem o lugar de alunos de verdade em acções de propaganda, perdão!, de divulgação de medidas em prol da grei.
O dr. Jorge Pedreira tem, sem dúvida, autoridade suficiente para suspeitar de algo neste campo e não serei eu a contestá-la.

Correio


Nicolau Saião (que não conheço pessoalmente), poeta da velha guarda surrealista, alentejano de todos os costados, enviou-me um texto que apenas hoje li devido às confusões em que tenho andado metido. Aqui o deixo, à consideração de todos os que por cá passam.

Tempos de Novo Apólogo

“Fátima Felgueiras absolvida de 22 crimes de que vinha acusada e condenada em 3 anos e 3 meses de pena suspensa por apropriação de 177 Eur de ajudas de custo e utilização por diversas vezes de um carro da autarquia” - Dos jornais

SE NÃO FOSTE TU FOI O TEU FILHO
Durante anos, a pretexto de diversas razões intimidatórias, foram feitas contra Fátima Felgueiras verdadeiras campanhas de difamação e de calúnia.
Nomeadamente em órgãos de informação que deviam ser responsáveis e alinharam naquilo a que Unamuno chamou "a solidariedade dos crápulas".
Uma monstruosidade, sim, porque o enquadramento real é este: como é que esta sanha foi possível num país civilizado ou que tem foros de o dever ser?
Para camuflar outros casos, esses sim vergonhosos e gritantes?
Durante anos segui este caso e escrevi sobre ele em Portugal e no estrangeiro. Muitas vezes, sabendo o que sabia de todo este assunto, me perguntei: como é que Fátima Felgueiras aguenta tanta pressão? De tentarem compará-la a um Al Capone, quando eu via olhos nos olhos que era apenas uma mulher determinada a não se deixar esmagar?
Condenada por umas ajudas de custo...por utilização de um carro...
Tenho a certeza de que em recurso se provará a sua completa inocência.
Mas o ódio contra ela, pelos vistos continua.
Não é ela o vosso inimigo, portugueses. Esse - são sim outros!
Em breve virei a lume num jornal estrangeiro, de maneira mais aprofundada, tratar este assunto de forma alongada e com pormenores como por exemplo este: por diversas vezes me foram feitos telefonemas anónimos injuriando-me, ameaçando-me de me “limparem o sarampo” (textual).
Mas porquê, perguntar-se-á? É muito simples: porque o meu filho mais velho, pessoa que como não é covarde nem gosta de sangue na praça pública, que é o que os caluniadores, os falsos moralistas e os difamadores gostam (eles “sabiam” que Fátima Felgueiras tinha roubado milhões, assim como “sabiam” que um carro que comprei com muito custo e continuo a pagar tinha sido outorgado para me taparem a boca - chegaram a esta infâmia) dizia, porque esse filho, de nome João Garção, revoltado com as calúnias concorreu e foi eleito por maioria absoluta como vereador na equipa camarária da “criminosa”. A ele ofertaram-lhe o mimo de difundirem que tinha fugido com o cofre da Escola Superior onde era director; mas não tinha fugido sózinho e sim com duas espanholas de Vigo... Depois, quando tal enxovalho foi desmascarado, fizeram soar que como era de famílias ricas, sempre que se sentia em apertos refugiava-se na paterna herdade de Évora...
Como qualquer ser medianamente culto saberá, a minha herdade é sim em Arronches. E, provavelmente por causa do calor alentejano, ou do frio alentejano, encolheu – e é hoje um simples quintal nas traseiras duma simples casa que uma tia me deixou e que com custo mandei recuperar e ando a pagar – porque, ao contrário do Estado português, que deve mil milhões aos militares além de outros pequenos trocos por aqui e por ali, pago as minhas contas e por isso todos os dias almoço sem ser de cara rebaixada!
Mas o mais vergonhoso é que a sanha odienta de Torquemadas de pacotilha não foi apenas propalada por primários e por gente sem gabarito. Gente houve (lembram-se de comentadores da nossa santa TV, etc?) que, eivados de santíssima sabença (conheciam o processo...sem nunca o terem lido!) deblateravam, deblateraram – e não davam direito de resposta – como aquele conhecido santarrão das letras que disse que as pessoas que concorriam com a autarca eram apenas lixo.
Ou seja: sou, com muita honra e assumidamente, pai dum bocado de lixo. Um bocado de lixo que, todavia, demonstrou de outras formas, publicamente, que é menos lixo e tem mais talento e vergonha numa mão do que o conspícuo indivíduo tem no corpo todo.
Foi esta, durante dez anos, a democracia de tais senhores. A da cobarde injúria. E não me refiro a quem, como era seu direito, analisava e comentava ponderadamente o caso!
Mas sim a essa récua de gente que, como dizia Cesariny, vê os argueiros dos outros sem ver as esguelhas próprias...
Simplesmente.

NICOLAU SAIÃO

12 novembro 2008

Aos que ainda têm paciência para vir até aqui


Ando cheio de aflitos com várias coisas que me sucederam ao mesmo tempo (só chatices, incluindo a possibilidade de ter que pagar uma conta de água de mais de 2.000 euros por rotura de canalizações!!!). Volto dentro dos próximos três dias.

09 novembro 2008

Respondendo...


Magritte, Golconde

... aos comentários do Mestre Carranza:
Será que a ministra, segundo Sócrates, "rosto do governo" considerará a manifestação por via eleitoral que lhe permitiu, três anos atrás, chegar ao cargo, como a forma de uma parte dos portugueses chantagear outra? Pertencerão então os 120.000 que se manifestaram à parte chantageada? Terá a ministra contabilizado os votos recebidos por José Sócrates para ver se aqueles que o fizeram poderiam pertencer na totalidade a essa minoria ou se, pelo contrário, poderiam pertencer também aos seus (agora ex-) apoiantes ou incluí-los? E, assim, entenderá a manifestação como mais ou menos significativa do ponto de vista da legitimidade da acção que tem desenvolvido e das medidas que tem tomado?
Finalmente: deverá o governo pedir um empréstimo para financiar as contas públicas? É que um conjunto de instituições que, na boca da ministra, conta com, pelo menos ao que parece, um mínimo de 120.000 accionistas é mais do que um parceiro social, é um verdadeiro parceiro económico...!

... ao comentário do RoD:
Pois. Mas até que ponto ia esse acordo? Também gostaria de estar informado. Por ambas as partes.

A coisa está cada vez mais divertida


Aaah...! Isto explica o que me aconteceu um ano atrás e, ao que parece, se mantém no hospital onde estive!
Entretanto, os reitores das universidades denunciam a miséria económica - bem como a que dela decorre - das instituições de ensino superior e, no caso da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (salvo erro), o dinheiro já nem chega para cobrir os subsídios de Natal.
O Carnaval vem a seguir.

08 novembro 2008

Mais baixo, cada vez mais baixo...

Fotografia obtida no Sapo
A alegada ministra da Educação do alegado governo do alegado primeiro-ministro disse, num telejornal, que os bastante mais de cem mil professores que hoje se manifestaram contra este modelo de avaliação o fizeram como forma de chantagear, pela intimidação, os restantes (mais ou menos 20%).
Não descobriram ainda em Sociologia, ou não lho terão ensinado durante o curso, que o poder, quando cai na disformidade do ridículo e da má-fé, cai mais baixo ainda do que a rua?

TENHAM VERGONHA!!!


DEMITAM-SE!!!


07 novembro 2008

04 novembro 2008

Não é óbvio?

Magritte, O duplo segredo
À pergunta sobre o que achava da nacionalização do BPN, Alberto João Jardim respondeu com a sua estranheza quanto ao facto de serem tão constantes e rigorosos no que respeita à fiscalização das contas da Madeira e não terem dado por nada do que se passava mesmo ao pé "deles".
Limitou-se a lembrar o óbvio.
Paulo Portas, pelo seu lado, sugere a Vítor Constâncio que se demita do Banco de Portugal, dado o desempenho que teve até à data e que culminou com este caso, que, segundo as suas declarações, lhe era totalmente desconhecido.
Limitou-se a sugerir o que é óbvio quanto ao que é uma postura honrada e digna.
Teixeira dos Santos afirmou que a nacionalização do banco tinha por objectivo proteger os depositantes e os accionistas. Não referiu os (salvo erro) 900.000.000 de euros que o Estado lá movimenta, escamoteando esse outro motivo, menos altruísta, da sua decisão.
Limitou-se a confirmar o que é óbvio quanto aos governantes que temos.
Manuela Ferreira Leite exigiu que o governo peça desculpa ao PSD por recusar a medida do seu partido de pôr o Estado a pagar as suas dívidas às empresas, como forma de revitalizar a economia, para depois vir anunciar essa mesma medida com grande e filantrópico estardalhaço. E falou das políticas de José Sócrates como "políticas de ilusionismo".
Limitou-se, também ela, ao óbvio.
Menos óbvio, porém, repito, ao que parece, para os militantes do Partido Socialista.
É que estar no poleiro, mesmo interpostamente, sempre confere, para si próprio, alguma credibilidade e importância.
Mais ou menos como, antes do 25 de Abril, qualquer miserável em Portugal se orgulhava de ter um império em África.

Ainda sobre o estado da Educação...


... transcrevo aqui um texto de António Barreto no PÚBLICO deste domingo, que um amigo me enviou por e-mail.
Se antes era preciso estudar as causas dos maus resultados em Matemática, agora é urgente estudar as causas do milagre
O ano lectivo de 2007/2008 ficará para sempre na história da educação em Portugal. Nunca saberemos exactamente o que se passou. Mas a verdade é que ocorreu um milagre nos resultados dos exames (do básico e do secundário) e na avaliação das escolas e dos estudantes. Centenas e centenas de escolas viram as suas médias saltar, é esse o preciso termo, de negativas e medíocres níveis para positivas e gloriosos escalões. Mais de 400 escolas que hoje exibem médias positivas em todos os exames nacionais encontravam-se há um ano na lista negra das negativas. Considerando as vinte disciplinas do secundário com mais inscritos, mais de 82 por cento das escolas têm agora médias positivas. A média nacional dos exames de Matemática, negativa há um ano, é agora de mais de 12 valores! Há um ano, apenas 200 escolas conseguiam média positiva a Matemática. Agora, são mais de mil! Mais de 90 por cento das escolas têm agora média positiva a Matemática. Há escolas com médias a Matemática de 18 valores! No conjunto das duas disciplinas, Matemática e Português, 97 por cento obtiveram média positiva! Nas oito disciplinas principais do secundário, a média positiva foi atingida por 87 por cento das escolas!
As médias da Matemática, crónico cancro do sistema, eram o quadro da desonra de uma população manifestamente incapaz de contar. Pois bem! São hoje o certificado de honra e talento de um povo para o qual as equações e as derivadas deixaram de ser mistério. É possível que muitas escolas portuguesas, para já não dizer a média de todas, se situem hoje entre as mais competentes do mundo em Matemática!
Muita gente ficou feliz. Professores gratificados, estudantes recompensados e pais descansados podem comemorar o feito. Nas universidades, esperam-se agora massas de alunos motivados e qualificados. Nos empregos, sobretudo na banca, nos seguros, nas empresas de engenharia e nos laboratórios científicos, esfregam-se as mãos na expectativa de receber, dentro de poucos anos, profissionais extraordinariamente preparados para as contas, o cálculo e o raciocínio abstracto. Nos jornais e nas televisões, onde os jornalistas confundem milhares com milhões e não sabem calcular uma percentagem ou uma taxa de variação, teremos, brevemente, dados exemplares e contas limpas. Começa uma nova era!
O problema é que ninguém acredita! Os interessados não escondem um sorriso matreiro! Os outros, com sobrolho enrugado, desconfiam. Como foi possível? Tanto melhoramento em tão pouco tempo? De um ano para o outro? Melhores professores? Melhores alunos? Novos métodos? Programas renovados? Mais tempo de aulas? Manuais mais bem elaborados? Nova organização curricular? Professores mais empenhados e disponíveis para passar mais horas a ensinar Matemática? Mais explicações privadas? Todas estas perguntas têm necessariamente resposta negativa. Nada disso era possível num ano, nem para a maioria dos alunos e das famílias. Quem desconfia tem razão. E só encontra três explicações: os exames foram incompreensivelmente fáceis; as regras de avaliação foram extraordinariamente benevolentes; ou houve ingerência administrativa para corrigir as notas. O ministério e o Governo não escapam a estas hipóteses e, se estivessem realmente interessados em conhecer o que se passa na escola, teriam impedido este bodo, não se teriam mostrado beatamente satisfeitos e teriam já procurado saber as razões do milagre. A não ser, evidentemente, que o tenham preparado e encenado.
Se, até há dias, era indispensável estudar as causas e as consequências dos maus resultados em Matemática (assim como do Português, da Física e da Química), agora passa a ser urgente estudar as causas e as consequências deste milagre. Teria sido essa, aliás, a atitude honesta de um ministério e de um Governo preocupados com a educação dos cidadãos. Se ambos são estranhos a esta hipertrofia de resultados, se nenhum teve qualquer influência no processo de avaliação e se ambos estão de boa-fé, então teríamos uma decisão oficial que, de imediato, se propusesse saber as razões e os fundamentos de tal facto. Ninguém duvida de que educar mal é tão pernicioso quanto não educar. Em certo sentido, é pior. Preparar profissionais, técnicos, cientistas e professores num clima de complacência e facilidade pode ter resultados desastrosos. As expectativas criadas não são satisfeitas. As capacidades presumidas são falseadas. O desperdício social e económico é enorme. E é criada uma situação fictícia onde fazer de conta se transforma em virtude. Para tranquilidade dos contemporâneos e para desgraça das gerações futuras.
A publicação de todos os resultados nacionais, seguida da elaboração dos rankings respectivos, transformou-se num hábito, em breve será uma tradição. Ainda hoje há erros de avaliação, de apuramento e de classificação, além de que alguns tentam distorcer os resultados para dramatizar o panorama. Com o tempo, as coisas vão melhorando. Mas, depois de resistências de toda a ordem, a começar pelas de ministros, funcionários e professores, o gesto anual faz parte do calendário educativo. Tem tido consequências positivas. Há escolas, autarquias, professores e pais realmente preocupados com a percepção que todos temos deles. Querem melhorar e querem que se saiba. Não desejam ser conhecidos como as ovelhas ronhosas. Mas o efeito mais perverso foi inesperado. Tudo leva a crer que este milagre é um resultado colateral da abertura de informação. Se os resultados continuassem secretos, talvez os governantes não se tivessem ocupado do assunto. O próximo mistério é este: como conseguirão o Governo e o ministério convencer a comunidade internacional (já que, pelos vistos, a nacional não lhes interessa) da justeza e da bondade destes resultados?

03 novembro 2008

O que me assusta...


... nem sequer é Sócrates e a sua corte, mas a tremenda irresponsabilidade de que dão mostras os portugueses militantes do Partido Socialista, quer por seguidismo, quer por conivência quer por demissão.

Mais um aviso...


Até que a casa caia
Entrou-se numa espécie de loucura pedagógica e as disciplinas onde se transmitem saberes foram perdendo importância. Os humoristas são regra geral umas almas soturnas. A graça, quando a têm, extingue-se-lhes mal acabam os espectáculos. E desistam aqueles que esperam que, no meio dum jantar de amigos, eles façam de animadores, pois habitualmente são os menos divertidos dos convivas. Para desconsolo geral, declaram que nem sabem contar anedotas e passam rapidamente aos assuntos que os interessam como a poesia, a política internacional ou o futebol. Mas sempre num registo de grande preocupação.
Talvez por causa dessa apreensiva quando não angustiada forma de estar devamos a José Pedro Gomes, precisamente o da Conversa da Treta, uma das mais sérias chamadas de atenção para a situação do ensino em Portugal. Talvez pela obrigação do ofício lhe tenha parecido estranho ouvir o bastonário da Ordem dos Engenheiros declarar que "apenas quatro politécnicos exigem Matemática como disciplina específica para acesso aos cursos [de Engenharia]. Os restantes alunos podem entrar com negativa, sem Matemática, porque não é exigido". Infelizmente, e ao contrário do que aparentemente parecia, o bastonário da Ordem dos Engenheiros, Fernando Santo, não estava a contar anedotas. Estava, sim, a dar conta da degradação real do ensino em Portugal. E foi sobre isso que José Pedro Gomes escreveu num artigo de opinião para um jornal.
Creio, contudo, que José Pedro Gomes teria sido mais bem sucedido se tivesse resolvido encenar anedotas sobre engenheiros que não estudam Matemática. Pelo menos toda a gente se ria do desconchavo e elogiavam a imaginação do artista. Naturalmente todos se achavam muito sagazes, pois os portugueses, como todos os povos que exercem mal os seus direitos, sempre gostaram de fazer de conta que a eles ninguém os engana nem censura porque interpretam melhor que ninguém as entrelinhas das anedotas. Assim, sem anedota, apenas com factos, nem se riram nem se preocuparam. Olharam para o lado. Um lado com bom ângulo que os poupe a ver aonde nos tem conduzido essa conversa da treta a que temos chamado reforma da educação, paixão pela educação, pedagogia do sucesso...
Nos últimos anos, nos ensinos básicos e secundário, institucionalizou-se uma espécie de loucura pedagógica. As disciplinas onde se transmitem saberes foram perdendo importância. Se eram difíceis, tornavam-se fáceis ou dispensáveis, como agora se viu com a Matemática. Simultaneamente todos os dias se repetia (e repete!) que os conteúdos têm de ser apelativos, pois supostamente o ensino deve ser lúdico e os alunos devem aprender sem esforço. À conta desta política de promoção do sucesso, entra-se em Engenharia sem ter estudado Matemática e a disciplina de Química corre o risco de desaparecer no ensino secundário porque os alunos não a escolhem. Idem para o Latim e para a Filosofia. Adeus equações, declinações e pensamento racional. Estuda-se um bocadinho de Psicologia e o resultado é o mesmo. Uma vez na faculdade, logo se vê. E se os engenheiros ainda vão estudando Matemática durante o curso - embora não a suficiente, porque mais de metade dos licenciados pelos 316 cursos de Engenharia existentes em Portugal chumbam no exame que a Ordem dos Engenheiros exige para o exercício da profissão - no caso dos antigos cursos de Letras, transformados cada vez mais numa versão literária das antropologias e sociologias, corre-se o risco de ver desaparecer os departamentos de Estudos Clássicos.
Noutras disciplinas, como a Física, baixou-se o nível de exigência nos exames nacionais de modo a que as estatísticas melhorassem. Mesmo nas línguas estrangeiras a opção pelo que se acha mais fácil pode levar a que se troque o francês pelo espanhol. A memorização tornou-se uma expressão maldita e arreigou-se a convicção de que o saber nasce das entranhas das crianças num fenómeno equivalente à intervenção do Espírito Santo que fez dos Apóstolos poliglotas. Os desaparecidos Trabalhos Manuais e Oficinais deram lugar às doutas tecnologias e áreas disto e daquilo, sendo que nestas disciplinas os alunos tanto podem levar o ano a fazer caixinhas de papel tipo pasteleiro, pintar cartazes para salvar a água, estudar, com detalhe, nas etiquetas da roupa a simbologia do torcer e lavar a seco, confeccionar bolos com pouco açúcar ou usar abundantemente as teclas "seleccionar-copiar-colar" da sala dos computadores. E para quê queimar as pestanas a estudar Química? Não existe, em alternativa, uma panóplia de disciplinas muito mais fáceis que, diz o "pedagoguês", desenvolvem "novas competências e dinâmicas de interactividade"? Quanto aos professores, sobretudo com o actual modelo de avaliação, é sem dúvida bem mais fácil e propiciador de sucesso na carreira ser "ensinante" de Área de Projecto, nas quais os alunos invariavelmente obtêm melhores resultados, do que meter mãos à tarefa de dar aulas de Física ou Matemática.
A degradação do ensino não começou com este Governo. O que este Governo trouxe de novo foi a capacidade de transformar essa degradação, que os anteriores procuravam negar, num sinal de modernidade e progresso. Entrar em Engenharia sem ter feito exame a Matemática deixa de ser uma aberração e passa a "inovação". Os conteúdos não contam, o que conta é o embrulho tecnológico com que chegam às mãos dos alunos. O Ministério da Educação há muito que vive num universo de ficção. O que Maria de Lurdes Rodrigues conseguiu foi que assumíssemos que essa ficção é do domínio do grotesco e que já não nos indignemos com isso. Só o humorista, honra lhe seja feita, deu pelo sério da questão. E tratou de nos avisar que um dia a casa vem abaixo.
Helena Matos, na edição do PÚBLICO de 28-10-2008

29 outubro 2008

Não tenho tido tempo para nada!

Até eu voltar, deliciem-se com a obra de Mozart de que desde sempre mais gostei, aquela em que, para Einstein, ele se despiu por completo de qualquer superficialidade: o K. 465.

25 outubro 2008

Encontrado numa gaveta


"Os que detêm a Verdadeira Linguagem, a que permite e exprime o acesso ao Verdadeiro Conhecimento, são por isso aqueles a quem o Poder Verdadeiro confiará a concretização da sua Glória. Ministros do saber humano, perante eles se deverão curvar os seguidores das trevas que os precederam, reconhecendo humildemente a sua ignorância, esforçando-se por entender e seguir a Via. Magnânimos, serenos de sabedoria, mas firmes e inflexíveis no estabelecimento da Verdade, os Enviados da Palavra Nova guiarão assim os que tiverem o espírito imerso na confusão do antigo falso conhecimento, orientarão os indecisos, apoiarão os inseguros, fortalecerão os tíbios e expulsarão os réprobos, para que em breve chegue o dia da Cidade em que reinará a Luz do Pensamento Unificado Até e Para Além do 12º Ano. Pela Palavra Nova, lhes será atribuído o domínio sobre todos os cidadãos e a si próprios se firmarão, pois, como os Eleitos."
Excerto do Tratado Teológico-Político para o século XXI, cap. I, TLEBS (autor anónimo)

O mais mortal dos pecados


Dias antes do 25 de Abril, face a uma vaia com que o receberam no Coliseu dos Recreios aqueles que "viam" n' "A Tourada" um ataque à dita e aos lusos valores, Ary dos Santos respondeu à letra com um "Não tenho culpa de que o público de Lisboa seja estúpido!", que obrigou a polícia a ter que proteger a sua saída da sala.
Quem sai aos seus não degenera. Hoje, são os descendentes espirituais desses que o apuparam quem protesta contra o sketch dos Gato Fedorento sobre o computador do regime, dizendo-se defensores do catolicismo, sem perceberem a denúncia que o texto faz de algo, francamente sinistro, que se quer substituir àquela que o Estado Novo quis, por sua vez, reduzir a "religião da Pátria".
A estupidez é a essência de todos os pecados. E consta que nem Deus pode salvar as almas que nela caem profundamente.

Michel Petrucciani, Brazilian like - live

24 outubro 2008

Nem seria preciso dizer...


... como aquela personagem do Jô Soares, "tem pai que é cego...!". Havia coisas que saltavam à vista, a começar pela postura. E por aquela sanha denunciadora, também presente em casos semelhantes, mais ou menos mediáticos, bem como naqueles, anónimos, que tantos de nós conheceram ou conhecem.
Depois de, além disso, ter visto, dias atrás, pela primeira vez, a fotografia de Haider com a mulher, a notícia (via 31 da Armada) que surgiu em todos os órgãos de comunicação não me apanhou de surpresa.
A sério, só me impressiona a infelicidade que ia naquela cabeça, toda aquela inautenticidade e cobardia. O resto não tem qualquer interesse.

22 outubro 2008

Recomendo a leitura...


... deste post no Fiel Inimigo, bem como os recomendados pelo RoD no comentário ao meu post anterior, em As Minhas Leituras (link já disponível aí ao lado).
(Aviso: este produto pode provocar sessões incómodas de espirros aos espíritos mais sensíveis)

19 outubro 2008

Será assim tão bom ser açoreano?

(desconheço o autor)
Ou antes uma desilusão? Maior abstenção de sempre, descida do Partido Socialista... Para Sócrates, o partido começa com uma vitória. Vinda de quem vem, não se esperaria outra afirmação, até porque o que se prevê para o continente é semelhante.
Portugal torna-se, dia após dia, um país cada vez mais triste, onde alguns tristes procuram ridiculamente o poder ou manter-se nele.

Exemplar!

Um excerto...


... da crónica de Ricardo Araújo Pereira (de quem, como já tenho dito, embora sendo, sem dúvida, o melhor dos Gatos, não gosto particularmente) na Visão desta semana:
"(...) A partir de agora (...) o Governo disponibiliza aos bancos dinheiro dos nossos impostos. Significa isto que eu, como contribuinte, sou fiador do banco que é meu credor. Financio o banco que me financia a mim. Não sei se o leitor está a conseguir captar toda a profundidade deste raciocínio. Eu consegui, mas tive de pensar muito e fiquei com dor de cabeça. Ou muito me engano ou o que se passa é o seguinte: os contribuintes emprestam o seu dinheiro aos bancos sem cobrar nada, e depois os bancos emprestam o mesmo dinheiro aos contribuintes, mas cobrando simpáticas taxas de juro. A troco de apenas algum dinheiro, os bancos emprestam-nos o nosso próprio dinheiro para que possamos fazer com ele o que quisermos. A nobreza desta atitude dos bancos deve ser sublinhada.
Tendo em conta que, depois de anos de lucros colossais, a banca precisa de ajuda, há quem receie que os bancos voltem a não saber gerir este dinheiro garantido pelo Estado. Mas eu sei que as instituições bancárias aprenderam a sua lição e vão aplicar ajuizadamente a ajuda do Governo. Tenho a certeza de que os bancos vão usar pelo menos parte desse dinheiro para devolver aos clientes aqueles arredondamentos que foram fazendo indevidamente no crédito à habitação, por exemplo, e que ascendem a vários milhares de euros no final de cada empréstimo. Essa será, sem dúvida nenhuma, uma prioridade. Vivemos tempos difíceis, e julgo que todos, sem excepção, temos de dar as mãos. Por mim, dou as mãos aos bancos. Assim que eles tirarem as mãos do meu bolso, dou mesmo.

18 outubro 2008

A prova da infinita misericórdia de Deus


Pois, se assim não fosse, como poderia suportar que na Sua Criação houvesse alguém que, num arroubo de supino parolismo pretensioso, baptizasse o que quer que fosse como Clube dos Pensadores ou aceitasse sequer participar em algo de tal espírito?!

17 outubro 2008

Fábula breve para estudiosos de Lógica


Um amigo pergunta ao outro:
- Se eu e a tua mulher fizéssemos amor, ainda ficávamos amigos...?
- Não!
- Quer dizer que... ficávamos inimigos...?
- Não...!
- Então... ficávamos o quê?
- Olha... ficávamos quites!

13 outubro 2008

Esquerda dixit

Quadro de Chirico

Gostei muito de ouvir hoje Miguel Portas criticar as medidas europeias com vista a enfrentar a crise financeira, dizendo que a Europa não fez o que deveria: baixar as taxas de juro, assim tirando do sufoco o cidadão comum e as pequenas e médias empresas, ao contrário do que tinham feito muitos países, "nomeadamente os Estados Unidos da América".
Lucidez é que é preciso!

12 outubro 2008

A estratégia da aranha

Diz Manuela Ferreira Leita que as medidas de apoio às PME's tomadas pelo governo visam, mais do que tudo, consolidar e perpetuar o poder dos socialistas através do reforço e estreitamento da dependência dessas empresas em relação a ele.
O que Manuela Ferreira Leite quis claramente afirmar foi que desde há três anos, no país, uma teia sinistra de diferentes interesses é tecida solidamente por mão de ferro com luva de veludo. Democraticamente e a bem da Nação, perdão, do povo.
Alguém duvida?

10 outubro 2008

Do ridículo

Henri Rousseau, Festa de Casamento
Mais ridícula do que obsessão dos (destes) homossexuais pelo casamento, só a recusa dos (destes) deputados em admiti-lo.

09 outubro 2008

Da opinião pública


Entre as várias superstições verbais de que se alimenta a pseudo-inteligência da nossa época, a mais vulgarmente usada é a da "opinião pública". E, como acontece com todas as superstições que conseguem deveras enraizar-se mas que não conseguem tornar-se nunca lúcidas, este critério instintivo respeitador da opinião pública em palavras (porque sente que há por detrás da frase uma realidade), mas pouco respeitador dela em actos (porque não sabe definitivamente que realidade é essa), é ao mesmo tempo o esteio e o vício das sociedades modernas. (...)
Todos nós sentimos, qualquer que seja a nossa política que, em resultado, toda a política, para que não seja mais do que um oportunismo de egoístas, tem de se conformar com a "opinião pública", com a pressão insistente de uma opinião geral. Todos temos a intuição, natural ou adquirida, de que uma nação vale o que vale a sua "opinião pública"; porque, como essência de uma poliítica estável e fecunda, consiste na sua conformação com a opinião pública, pressupõe-se, na nação em que tal política é possível, um estado da opinião pública que persistentemente compila os políticos, os governantes, sob pena de deixarem de o ser, a conformar-se com as suas imposições. (...)
O que precisamos, portanto, de determinar para que devidamente nos orientemos no assunto, é, primeiro, que espécie de cousa é essa "opinião pública", com a qual uma política fecunda tem que se conformar, se essa "opinião pública" na verdade coincide com a "opinião das maiorias"; se essa "opinião pública" (...) pode ser manifestada pelo sufrágio; e, segundo, em que princípio, em que regras, assenta, por que processos se produz, essa "conformação" da acção dos governantes com a "opinião pública", qual a maneira por que na verdade a interpretam ou servem, e não apenas dizem servi-la e interpretá-la.
Fernando Pessoa, A Opinião Pública, Editorial Nova Ática

Da moralidade e da economia&finanças


Hoje, no Diário de Notícias, Ferreira Fernandes escreveu:
A seguradora AIG já era famosa quando andava sob o pescoço de Cristiano Ronaldo, na camisola do Manchester. Mas, famosa mesmo, mesmo, foi quando os americanos passaram a andar com a AIG ao pescoço. Esganados. Ela falira e não fosse sugarem-se os dinheiros públicos (85 mil milhões de dólares) a empresa fechava. Não fechar é bom e o que é bom festeja-se. Alguns executivos da AIG foram para um luxuoso hotel de Monarch Beach, Califórnia, com factura final de 300.000 euros, entre diárias, almoços e pedicura. Tudo pago pela empresa que, já vimos, era paga pelos contribuintes. Evidentemente, os invejosos do costume foram aos arames - na Câmara dos Representantes, alguns dos eleitos que ainda há pouco tinham votado o resgate da AIG indignaram-se com o abuso. É verdade que aqueles executivos, em superficial análise, parecem não merecer prémio algum, quanto mais pedicura. Como se fosse fácil lidar com a consciência. Esta é aquela voz interior que nos diz que alguém está olhando. Sem poderem usufruir dos luxos com merecida tranquilidade, aqueles executivos estavam, no entanto, a dar-nos uma esperança: a crise não é geral.
No próximo fim-de-semana voltarei a este assunto.

Enquanto não volto... Thelonious Monk e Alphonse Mouzon



05 outubro 2008

Lutas


Mário Nogueira tem razão no que diz, mas os professores, ao aceitarem o que lhes tem sido imposto gradualmente, tanto do ponto de vista da sua carreira e condições de trabalho como do ponto de vista pedagógico, com a submissão e a passividade que até hoje demonstraram, não poderiam esperar - e, portanto, merecer - outra coisa. A tirania existe apenas quando existem tiranizáveis - e, afinal, até estamos em "democracia", não é?
Quanto aos professores que verdadeiramente têm lutado contra o abastardamento e o abandalhamento gerais do ensino no país, para esses a sua maior luta diária é, presentemente e antes do mais, a de conseguirem não perder o respeito por si próprios.

Citação...


"Portugal é um país estranho (...) A economia cresce pouco, mas estamos seguros. O crédito malparado sobe, mas não há motivo para preocupações. Os portugueses estão a viver pior, mas não há falências. Este oásis é, na realidade, o nosso deserto.

Luís Marques, no Expresso (via PÚBLICO de hoje)
...e chapelada, como diz o RoD.

01 outubro 2008

Disso da apagada e vil tristeza

Quadro de Chirico

Diz-me um professor do ensino secundário:
Começo a aula a falar do Fernando Pessoa e pergunto aos alunos se já ouviram falar dele. A maioria diz que sim. Pergunto em seguida se já leram qualquer coisa que ele tivesse escrito. A maioria diz agora que sim, na aula, mas que já não se lembra do que foi. Pergunto depois se gostaram. A maioria dos que guardam alguma vaga recordação diz que não percebeu lá muito bem, outros baixam a cabeça e fazem aaeh...!, os restantes articulam um sim hesitante.
Digo-lhes que Fernando Pessoa foi um dos grandes poetas mundiais do século XX. Manifesta-se algum entusiasmo e exclamações do tipo "Claro, tinha que ser! Era português!", seguidas de arremessos mútuos de papelinhos e de frases jocoso-insultuosas de boa camaradagem. Informo-os a seguir de que morreu quase ignorado, de que tinha toda a sua vida trabalhado num escritório e ouve-se expressões de incredulidade. O pouco entusiasmo esmorece e faz-se comentários às injustiças sociais. "Não ganhou o prémio Nobel?!", "Não." - e o já quase inexistente interesse apaga-se um pouco mais.
Digo-lhe que vamos ler um poema de Fernando Pessoa. As expressões e suspiros de enfado sobem já a um nível superior aos das cinzas do entusiasmo: afinal é mesmo uma aula, não é um espectáculo...! À leitura inexpressiva segue-se a perplexidade, ninguém percebe nada, ninguém sabe o que significa grande parte das palavras, alguns, muito instados, avançam com interpretações quase sempre "ao lado", ouve-se os Oh stôr, pra que é que ele escreveu isto? Pra que é que isto contribui para a minha felicidade? Só nos dão pra ler coisas destas...!
Diz-me ainda o professor: Eu só lhes dei "O menino de sua mãe", para os reiniciar na leitura! Afinal temos aí a guerra...!.
O que ele me diz traz-me à memória o que li num jornal no ano seguinte àquele em que Saramago recebeu o prémio Nobel. No encontro do "nosso laureado" com alunos de uma escola alentejana do interior, pouco tempo após a apresentação e "ter visto o homem" já o pessoal passava o tempo de olhos baixos a enviar sms's e a bufar para se ir embora, que aquilo era uma "seca". Pois se havia mostrado a "medalha", pronto, o que é que havia mais que valesse a pena?!
E, a propósito de medalhas, outras coisas, mais recentes: o alarido acerca das que os atletas olímpicos "deveriam ter trazido, que para isso é que os contribuintes lhes pagaram", sem ninguém querer saber de coisas tão elementares como a relação entre a dimensão da população de um país, o número de atletas que pode apresentar, o consequente aumento da possibilidade de ocorrência de casos de sobredotados para a prática desportiva, os recursos efectivamente envolvidos, etc., etc.. Além da comparação com países com dimensão semelhante à nossa e com grandes investimentos nessa área, como seja uma parte dos países europeus. Esquecendo, no meio disto tudo o espírito olímpico, que nem sequer entrou uma única vez em linha de conta.
Recordo-me também, desta vez a propósito desse espírito, das palavras de anteontem, num telejornal, de um jogador do Sporting, depois de um jogo em que, ao que parece, não terão jogado grande coisa na primeira parte mas que acabaram por ganhar: na Suíça, nós estávamos a ganhar-lhes por 3-0 e a massa associativa deles fazia uma festa a apoiá-los, nós aqui... bem, temos que nos habituar... Isto depois de a equipa ter já um excelente começo de época, ganhando troféus e ainda ter disputado poucos jogos.
A mediocridade é mesmo assim: grande por delegação, exigente com quem a alimenta, cruel para quem não ajuda a disfarçá-la, mesquinha e ingrata sempre. Vaidosa, é por isso ignorante e labrega; preguiçosa, passa o tempo a reinvindicar justiça e trabalho alheio; invejosa, está sempre à espreita do que o vizinho possa ter, para lho cobiçar. Quando se atreve a ser generosa, rapidamente se amedronta e se refugia na "sabedoria" da descrença. Não é uma questão de nível de educação, mas de estado de espírito de um povo, desde as bases aos dirigentes.
Byron definiu-o assim no início do século XIX, quando viveu algum tempo na sua querida e inspiradora Sintra: os portugueses são um povo de escravos.
(Nota: a propósito de José Saramago...)

25 setembro 2008

Igualdade na diferença ou diferença na igualdade?


Enquanto prossegue a tourada da lei do divórcio, os homossexuais ensaiam a do casamento.
Pela minha parte, convido desde já à militância no sentido de legalizar o casamento poligâmico (poligínico ou poliândrico) e o casamento colectivo.
Ou bem que há direitos ou bem que não há!
Nisto tudo há uma coisa que nunca percebi: para que serve um casamento.

24 setembro 2008

Pequenas notas de uma música decadente


A primeira, é a da já habitual coincidência de cabeçalhos entre o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias em (mais ou menos) discretos elogios ao governo. Ontem, a propósito do justiceiro e firme enfrentamento deste ao aumento dos combustíveis.
A segunda, a da reacção de Alberto João Jardim, chamando pública e directamente a Sócrates "sem-vergonha" e "mentiroso", a propósito das insinuações do primeiro-ministro. Nisto coincidiu, aliás, embora por diferentes motivos, com uma grande parte dos portugueses. Mas quando os altos responsáveis eleitos do país falam, com ou sem razão, deste modo, não é possível deixar de pensar que ele se encontra em fase adiantada de esboroamento.
O regime, aliás, está de tal modo desacreditado, o espírito anímico nacional tão envenenado por um "salve-se quem puder" cada vez mais disseminado, que, caso fosse permitido o referendo ao retorno da monarquia, muito provavelmente o herdeiro do trono luso não teria grande dificuldade em vencer. E nem sequer por uma questão de mérito seu ou de quem o rodeasse (embora o possua - a importante actividade paralela que Duarte de Bragança tem desenvolvido ao nível internacional em prol de Portugal, raramente é referida pelos órgãos de comunicação). Estou convencido de que sucederia ao regime republicano o mesmo que sucedeu ao do Estado Novo em 25 de Abril de 74: cairia de podre, com muito poucos a defendê-lo. E também, já se sabe, que no dia imediatamente seguinte a essa vitória surgiriam buéda monárquicos de onde antes só se avistavam jacobinos convictos, ajuramentados e até militantes.
Já agora, leiam o que D. Duarte diz no respeitante às nossas relações com Espanha em http://somosportugueses.com/. O link passa, a partir de hoje, a estar disponível aí ao lado, em Monárquicos Portugueses.
Porque o são.

Um excelente texto


Recebi mesmo agora, por e-mail, este texto onde se apresentam contas que eu próprio já há muito tempo fiz e de que ainda ontem falava, entre amigos, embora não as tivesse passado a escrito. Ao Mário Carneiro, que não conheço, os meus parabéns pela oportunidade desta resposta.

Resposta

Caro anónimo indignado com a indignação dos professores:
Os homens (e as mulheres) não se medem aos palmos, medem-se, entre outras coisas, por aquilo que afirmam, isto é, por saberem ou não saberem o que dizem e do que falam.O caro anónimo mostra-se indignado (apesar de não aceitar que os professores também se possam indignar! Dualidade de critérios deste nosso estimado anónimo...
Mas passemos à frente, com o excesso de descanso dos professores: afirma que descansamos no Natal, no Carnaval, na Páscoa e no Verão, (esqueceu-se de mencionar que também descansamos aos fins-de-semana). E o nosso prezado anónimo insurge-se veementemente contra tão desmesurada dose de descanso de que os professores usufruem e de que, ao que parece, ninguém mais usufrui. Ora vamos lá ver se o nosso atento e sagaz anónimo tem razão.
Vai perdoar-me, mas, nestas coisas, só lá vamos com contas.O horário semanal de trabalho do professor é 35 horas. Dessas trinta e cinco, 11 horas (em alguns casos até são apenas dez) são destinadas ao seu trabalho individual, que cada um gere como entende. As outras 24 horas são passadas na escola, a leccionar, a dar apoio, em reuniões, em aulas de substituição, em funções de direcção de turma, de coordenação pedagógica, etc., etc.
Bom, centremo-nos naquelas 11 horas que estão destinadas ao trabalho que é realizado pelo professor fora da escola (já que na escola não há quaisquer condições de o realizar): preparação de aulas, elaboração de testes, correcção de testes, correcção de trabalhos de casa, correcção de trabalhos individuais e/ou de grupo, investigação e formação contínua. Agora, vamos imaginar que um professor, a quem podemos passar a chamar de Simplício, tem 5 turmas, 3 níveis de ensino, e que cada turma tem 25 alunos (há casos de professores com mais turmas, mais alunos e mais níveis de ensino e há casos com menos — ficamos por uma situação média, se não se importar). Para sabermos o quanto este professor trabalha ou descansa, temos de contar as suas horas de trabalho. Vamos lá, então, contar:

1. Preparação de aulas: considerando que tem duas vezes por semana cada uma dessas turmas e que tem três níveis diferentes de ensino, o professor Simplício precisa de preparar, no mínimo, 6 aulas por semana (estou a considerar, hipoteticamente, que as turmas do mesmo nível são exactamente iguais — o que não acontece — e que, por isso, quando prepara para uma turma também já está a preparar para a outra turma do mesmo nível). Vamos considerar que a preparação de cada aula demora 1 hora. Significa que, por semana, despende 6 horas para esse trabalho. Se o período tiver 14 semanas, como é o caso do 1.º período do presente ano lectivo, o professor gasta um total de 84 horas nesta tarefa.
2. Elaboração de testes: imaginemos que o prof. Simplício realiza, por período, dois testes em cada turma. Significa que tem de elaborar dez testes. Vamos imaginar que ele consegue gastar apenas 1 hora para preparar, escrever e fotocopiar o teste (estou a ser muito poupado, acredite), quer dizer que consome, num período, 10 horas neste trabalho.
3. Correcção de testes: o prof. Simplício tem, como vimos, 125 alunos, isto implica que ele corrige, por período, 250 testes. Vamos imaginar que ele consegue corrigir cada teste em 25 minutos (o que, em muitas disciplinas, seria um milagre, mas vamos admitir que sim, que é possível corrigir em tão pouco tempo), demora mais de 104 horas para conseguir corrigir todos os testes, durante um período.
4. Correcção de trabalhos de casa: consideremos que o prof. Simplício só manda realizar trabalhos para casa uma vez por semana e que corrige cada um em 10 minutos. No total são mais de 20 horas (isto é, 125 alunos x 10 minutos) por semana. Como o período tem 14 semanas, temos um resultado final de mais de 280 horas.
5. Correcção de trabalhos individuais e/ou de grupo: vamos pensar que o prof. Simplício manda realizar apenas um trabalho de grupo, por período, e que cada grupo é composto por 3 alunos; terá de corrigir cerca de 41 trabalhos. Vamos também imaginar que demora apenas 1 hora a corrigir cada um deles (os meus colegas até gargalham, ao verem estes números tão minguados), dá um total de 41 horas.
6. Investigação: consideremos que o professor dedica apenas 2 horas por semana a investigar, dá, no período, 28 horas (2h x 14 semanas).
7. Acções de formação contínua: para não atrapalhar as contas, nem vou considerar este tempo.

Vamos, então, somar isto tudo: 84h+10h+104h+280h+41h+28h=547 horas. Multipliquemos, agora, as 11horas semanais que o professor tem para estes trabalhos pelas 14 semanas do período: 11hx14= 154 horas.Ora 547h-154h=393 horas. Significa isto que o professor trabalhou, no período, 393 horas a mais do que aquelas que lhe tinham sido destinadas para o efeito.
Vamos ver, de seguida, quantos dias úteis de descanso tem o professor no Natal. No próximo Natal, por exemplo, as aulas terminam no dia 18 de Dezembro. Os dias 19, 22 e 23 serão para realizar Conselhos de Turma, portanto, terá descanso nos seguintes dias úteis: 24, 26, 29 30 e 31 de Dezembro e dia 2 de Janeiro. Total de 6 dias úteis. Ora 6 dias vezes 7 horas de trabalho por dia dá 42 horas. Então, vamos subtrair às 393 horas a mais que o professor trabalhou as 42 horas de descanso que teve no Natal, ficam a sobrar 351 horas. Quer dizer, o professor trabalhou a mais 351 horas!! Isto em dias de trabalho, de 7 horas diárias, corresponde a 50 dias!!! O professor Simplício tem um crédito sobre o Estado de 50 dias de trabalho. Por outras palavras, o Estado tem um calote de 50 dias para com o prof. Simplício.
Pois é, não parecia, pois não, caro anónimo? Mas é isso que o Estado deve, em média, a cada professor no final de cada período escolar.Ora, como o Estado somos todos nós, onde se inclui, naturalmente, o nosso prezado anónimo, (pressupondo que, como nós, tem os impostos em dia) significa que o estimado anónimo, afinal, está em dívida para com o prof. Simplício. E ao contrário daquilo que o nosso simpático anónimo afirmava, os professores não descansam muito, descansam pouco!
Veja lá os trabalhos que arranjou: sai daqui a dever dinheiro a um professor.
Mas, não se incomode, pode ser que um dia se encontrem e, nessa altura, o amigo paga o que deve.
Um abraço.

Mário Carneiro

23 setembro 2008

21 setembro 2008

O estado da Nação (cont.)

Quadro de René Magritte
Correia de Campos reconhece, num livro que vai segunda-feira para as bancas, que a criação de novas taxas moderadoras não visou moderar o acesso, como na altura justificou, mas preparar a opinião pública para uma alteração do financiamento do sistema, noticia o portal SAPO.
O primeiro-ministro, como seria de esperar, apresentou a acção da ministra da Educação como modelo da sua proposta governativa e concedeu-lhe o estatuto de vedeta convenientemente aplaudida. Entretanto, recebi, minutos atrás, o e-mail seguinte:

Deputados a prof. titular
Os deputados do PS estão contra nós, mas querem ser titulares sem porem os pés na escola. Que VERGONHA!
Retirado da Ordem Trabalhos hoje ME / Plataforma:
Ponto 8. Acesso à categoria de Professor Titular para os Professores em exercício de funções ou actividades de interesse público, designadamente, enquanto Deputados à Assembleia da República e ao Parlamento Europeu, Autarcas, Dirigentes da Administração Pública, Dirigentes de Associações Sindicais e Profissionais.
Agora é que não percebo nada! Mas agora já se pode 'atingir o topo'... mesmo estando 'fora' da escola? Todas as mudanças que o ME quis fazer não foi para acabar com 'isso'? Não ia ser titular apenas quem provasse, 'no terreno', a sua excelência?
Dizem uma coisa, fazem outra... a toda a hora! Depois de se terem 'esquecido' dos que antes estiveram nessas funções, no primeiro concurso....: mais um concurso extraordinário? ou só conta daqui para a frente, e os «tristes» que ficaram para trás? Tem que ser o tribunal a dar-lhes razão? O novo 4º escalão será, provavelmente, para os 'Professores-titulares-avaliadores'. Deste modo, cria um 'estatuto' diferente para quem é avaliador e foge às incompatibilidades de avaliador e avaliado concorrerem às mesmas cotas. Quantos chegaram a titular por haver uma vaga na escola e não ter mais ninguém a concorrer, no entanto escolas houve em que colegas com quase o dobro dos pontos não acederam a PT porque não havia vaga, e com isto só quero dizer e afirmar da injustiça desta peça, monstruosamente montada e maquiavelicamente posta em prática que é a dos professores titulares.
Esta proposta do PM é inaceitável. Espero que professores e sindicatos estejam bem conscientes desta proposta que é verdadeiramente ofensiva, para não dizer outra coisa! Tenhamos dignidade e não nos deixemos vender. Esta é das respostas mais repugnantes jamais feitas por um governo. Oferecem tachos a sindicalistas, boys e girls das direcções gerais dos vários ministérios, há uma tentativa de oferecer aos professores avaliadores um 'acesso' ao 4º escalão de titular. *Chegamos ao limite da indecência e a resposta só pode ser uma*: revisão do ECD, anulação da divisão da carreira e combate total a esta avaliação.
DEVEMOS OBRIGAR OS SINDICATOS A REJEITAR LIMINARMENTE ESTAS PROPOSTAS!

20 setembro 2008

O estado da Nação

Ilustração de Maria Keil

Ontem ficámos todos a saber, pelos telejornais, que os deputados voltaram a poder usar os seus telemóveis, depois da Assembleia da República ter pago o que devia à Vodafone e de esta haver restabelecido o serviço.
Ah! E também soubemos disto (via Fundação Velocipédica).