05 maio 2009

Na sequência do post anterior


Em conversa com o amigo que referi ontem, vim a saber que a colega dele faleceu hoje, de manhã. E que o número de problemas do tipo cárdio-vascular graves registados na escola desde Fevereiro já ascende a seis.
Em Portugal, a impunidade faz parte dos brandos costumes; à repressão ou à cobardia, chama-se-lhe serenidade; e ao sufoco pelo silêncio e pelo exílio, tolerância tradicional ou bonomia.

04 maio 2009

Nomes


Um amigo meu, professor do ensino secundário numa escola pública da linha de Sintra, disse-me hoje, em conversa, que, no espaço de um mês, quatro dos seus colegas tiveram acidentes cardio-vasculares graves. O último deles, hoje, encontrando-se no serviço de cuidados intensivos, em coma induzido. Na sala de professores, o clima de tensão é tremendo, alguns estão de atestado, com sintomas de esgotamento, muitos tomam anti-depressivos.
Entretanto, o desinteresse pelas matérias, a ignorância, o desleixo e a indisciplina medram, alegre e impunemente, entre os alunos.
Há quem chame a isto governar com sentido de serviço público. O crime com justificação ideológica, ou que se apresenta como tal, sempre foi a tentação maior da inteligência pervertida. Da burrice também. E do oportunismo.

02 maio 2009

A coisa, na altura, não me iria sair desta maneira…


… e agora também já não consigo repor-me no estado de espírito que originou isto que ando para assinalar aqui há mais de duas semanas. Por isso, limitar-me-ei a dizer o seguinte:
No dia 16 de Abril, dia mundial da voz, a RTP, através do Canal 1 e das vozes de apoio de José Carlos Malato e de Marta Leite de Castro, afirmou publicamente a voz do fado como a voz representativa da lusitanidade, dando-lhe voz num programa dedicado à celebração da voz como património do humano.
Responderam à chamada da prestigiada instituição as vozes mais representativas da canção nacional, aquelas que a conservaram com orgulho e altivez patriótica e a quem, por esse motivo, devemos a maior reverência e agradecimento: as fadistas de gema e de antanho, com raízes da Lapa até Cascais, passando pelo Restelo. De fora, ficaram as rústicas e primárias imitações que, até hoje, o foram o adulterando pelos tugúrios da Mouraria, Bairro Alto, Madragoa e Alfama, bem como aqueles que a elas se colaram: os pouco sérios Carmos, Carvalhos, Arys, Tordos, Vitorinos de Almeida, etc., agitadores e mixordeiros do fado, os quais tanto contribuíram para a degradação e o desprestígio da nacional canção, ao ponto de um deles ter mesmo sido distinguido pela venenosa monarquia castelhana.
Para que, porém, não viesse a ser acusada de segregação cultural, quiçá, ideológica e política (que ele há por aí, sabemo-lo bem, gentinha capaz de tudo…!) a RTP não deixou de convidar alguém vagamente próximo de tal populaça: o fadista Camané, homem que cabe em todo o salão, o qual, num arroubo de inovação, ergueu também ele tanto quanto pôde a sua voz, ao som do piano de Mário Laginha. O comovente espectáculo terminou com João Braga entoando dois poemas de Manuel Alegre, poeta que fica bem em qualquer prateleira, também ele presente entre uma assistência rigorosamente seleccionada, composta pelos que, em Portugal, têm dado voz aos destinos do país desde a gloriosa madrugada. Assistência onde se podia ver de um cabeceante general Eanes até um britanicamente efusivo Paulo Portas, ao lado de sua mãe, Helena. Tudo do melhor, que os responsáveis da televisão pública não quiseram que nos faltasse nada.
Mas não se ficou por aqui a RTP. No seguimento do impulso de entusiasmo que a animava, transmitiu, logo de seguida, um filme sobre a internacionalmente premiada worldfadista Mariza, onde pontificava a erudição do ex-secretário de estado da cultura, Rui Vieira Nery.
Ficámos a saber, então, que o fado sofreu uma renovação e uma revalorização a partir dos anos 80 graças ao trabalho dos novos fadistas. Uma vez mais se fez justiça, dado que nenhum dos já citados mixordeiros foi referido, nem sequer gente duvidosa como Maria da Fé, ingenuamente promovida no Brasil pelo risível Caetano Veloso, Maria Armanda, Alexandra, e mesmo Rodrigo ou Paulo Bragança. Os novos fadistas são aqueles que são… os novos fadistas e está tudo dito. Os que cantam o que é a vida: a paisxão, o ciúme e o destino de sermos descobridores da tristeza à garupa da melancolia.
No meio do êxtase estético, intelectual e patriótico que o documentário proporcionava, poucos terão dado a devida importância à revolucionária revelação histórica com que Nery brindou os seus concidadãos, ao afirmar que o Estado Novo, tendo inicialmente hostilizado e marginalizado o fado, enquanto canção ligada ao anarco-sindicalismo, o aproveitou em seu favor após o final da II Guerra, em 1945. Com efeito, uma das cenas mais hilariantes do primeiro filme sonoro português, A Canção de Lisboa, realizado por Cottinelli Telmo em 1933, é a de Vasco Santana, na pele de um Vasquinho da Anatomia a quem a embriaguez solta imprudentemente a língua, lançando-se numa diatribe contra o fado, canção conformista e degradante do carácter, e contra os fadistas (Morte ao fado! Morram os fadistas!)… para depois ganhar a vida como fadista-residente até conquistar a respeitabilidade do estatuto de médico. A genialidade e a lucidez ímpares de Nery ficaram assim, uma vez mais, amplamente demonstradas, atirando esse aspecto menor para o lixo da irrelevância histórica. É com pessoas do seu quilate académico e do quilate dos responsáveis pelo canal público de televisão que podemos confiar, inequivocamente e sem temor, em que Portugal continua e continuará em boas mãos.
Porque certamente alguns dirão que a RTP serve, entre outras coisas, de tugúrio das vaidades da aristocracia provinciana, azeiteira e decadente que deixou espaço ao republicanismo analfabeto, azeiteiro e prepotente que com ela se enfeita.
E certamente outros dirão ainda que a RTP expôs, mais uma vez, a faceta do mccarthismo peixeiro que se entranhou de há muito em Portugal como um seu secular aroma peculiar e que afasta, inevitável e definitivamente, para bem longe de si qualquer narina educada.
Mas não eu.

01 maio 2009

Mais uma portuguesa


Tal como França, Portugal é um país simbolizado (salvo) por mulheres. Desde Joana d'Arc a Brites de Almeida, desde Piaf a Amália.
Agora foi Beatriz Batarda quem disse, sem medo, em plena cerimónia oficial de promoção de José Sócrates e na cara do mesmo, aquilo que pensam os portugueses do seu governo e do estado a que nos levou.
Daqui lhe envio as minhas homenagens e o meu eterno agradecimento.

30 abril 2009

A receita


Quando, durante a vintena de anos da ditadura brasileira, as notícias eram censuradas, alguns dos maiores jornais optavam por colocar, no seu lugar, receitas de cozinha, como forma irónica de dar conta da existência de algo cujo conhecimento público os militares pensavam ser inconveniente.
Quando, no Portugal de 2009, o socialismo iluminado me retira o tempo mínimo indispensável à existência de vida própria, sobrecarregando-me de trabalho tão imbecil quanto inútil, ao ponto de estar para escrever um pequeno texto há duas semanas sem o conseguir, aqui deixo, também eu, uma receita que me parece cada vez mais traduzir, pelo requinte, os tempos que correm neste nosso querido jardim à beira-mar (receita recolhida num site brasileiro - clicar no texto):

28 abril 2009

Podia ser este o caso...


... mas (infelizmente!) até nem é. Volto na quarta-feira, à noite.

21 abril 2009

Segunda introdução a um desabafo: poema de Pessoa...

Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...
Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.
Mas enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho
Nem até
Café.
... a propósito disto.

15 abril 2009

13 abril 2009

Aqui fica a homenagem...

Modigliani, Nu Vermelho
...deste blog...

... às vítimas da Loja do Cidadão de Faro.


09 abril 2009

Para variar...


... as contas sairam-me furadas quanto a tempo disponível e não consegui ainda nem recomeçar uma postagem regular nem responder por email a quem disse que iria fazê-lo por estes dias. Mas deixo, para já, registadas as palavras de Henrique Neto, na SICNotícias (não consegui colocar aqui o link para o vídeo), quando referiu a existência de "empresas do regime" e disse que, para isso, bastaria haver por lá um ex-ministro.
Não pronunciou, segundo o que ouvi, a palavra "sinistro". Mas precisaria dela para que no nosso espírito surja, clara, a imagem de tentáculos que se estendem, progredindo pela beira-mar até aos nossos corações?

06 abril 2009

Elogio da Assembleia da República


A Assembleia da República acaba de mostrar a sua verdadeira face, ao estipular que os senhores deputados só precisam de justificar ausências que excedam os cinco dias. A justificação de tal decisão assenta na superior honestidade que se supõe que os mesmos possuam.
Assim, de uma penada, a digníssima instituição, rosto escrito e escarrado da lusa democracia de antanho, pôs tudo e todos no seu devido lugar. Com efeito, se já seria impossível aos portugueses suspeitar da idoneidade e elevação dos seus representantes, dado o superior nível intelectual e de fino trato demonstrado nas discussões acaloradas que entre si mantêm em prol do engrandecimento pátrio, verdadeiros espelhos da mútua admiração e consideração que anima os representantes do povo, inestimáveis e insubstituíveis instrumentos de pedagogia cívica para a formação dos portugueses do futuro, a partir de hoje não haverá mais dúvidas. A Assembleia assumiu, à sua dimensão e no seu âmbito, a tendência internacionalmente florescente do que é conhecido por “sair do armário” e assumiu-se, decidida e corajosamente, como consciência moral da nação. O “Magalhães”, golpe de asa que somente os dotados de genialidade poderiam alcançar, iluminou o caminho; a instituição política maior do país reforça agora, firme e inexoravelmente, o caminho da modernidade ética.
Frontalmente, da direita à esquerda (ninguém se opôs ou sequer se dispôs a falar sobre o assunto publicamente), os senhores deputados, sem abusarem de subtileza, disseram desta maneira aos restantes compatriotas que, se os elegeram, é porque neles é patente a superioridade dos grandes homens, que os isenta de terem que se justificar os actos que, a serem praticados por outrem, seriam motivo de suspeita ou condenação. E que os senhores deputados, em consonância com o governo, no seu louvável afã de prover à moralização e dignificação do nosso querido torrão de terra europeu, se apressam a estipular e a aprovar, para glória sempiterna dos trabalhos hercúleos da sua legislatura, as disposições que atestam esse facto e essa sua condição.
Os senhores deputados disseram, pois, a todos nós, com a delicada arte e o sublime sentido pedagógico que lhes são próprios: “Observai os nossos actos em silêncio, meditai humildemente sobre o seu significado, reverenciai a autoridade da sabedoria que nos trouxe inevitavelmente até aqui e que por vós foi confirmada, escolhendo-nos”. Os senhores deputados levaram-nos ao espelho, mostrando-nos a nossa condição de escória moral de quem há que desconfiar, a quem há que educar. Estabeleceram, num decisivo gesto, a fronteira que, aquém-fronteiras, define indubitavelmente a real virtude que permite a qualquer um achar-se português: a impunidade no decidir para si em nome do alheio. Revelaram-nos com exacta mestria o significado dos conceitos de honra e de vergonha, recortando-os em perfeito contraste. Deram-nos a medida da legitimidade da sua força, afirmando, através do senhor deputado Lello (condenado seja para sempre quem com o seu nome fizer trocadilhos!), que estas medidas poderiam ter ido ainda mais além e que a Assembleia não anda a reboque dos órgãos de comunicação.
É que os senhores deputados são, afinal, a nata do silêncio em que se fazem ouvir.
Nota final: escrito de rajada e sem revisão ou emendas, passadas ou futuras.

De como o poder é obscurantista...


... ou do papel do conhecimento em política.

03 abril 2009

Coisas...

Isaac Asimov

... com verdadeiro interesse.

02 abril 2009

Viva!


Retomarei as blogadelas durante o fim-de-semana. Uma vez mais, para todos, conhecidos e desconhecidos, que ainda persistem em passar por aqui, o meu abraço. Aos que me contactaram por e-mail, prometo uma resposta a partir da próxima segunda ou terça-feira.

28 março 2009

A mais velha aliança do mundo


Portugal pode agradecer aos ingleses a sua ajuda nos períodos cruciais para a manutenção da nossa independência.
Em 1385, em Aljubarrota, perante a invasão castelhana.
Em 1810, em Torres Vedras, na expulsão dos exércitos de Napoleão.
Em 2009, em Alcochete...?

26 março 2009

22 março 2009

Recebido mesmo agora


A pedido de várias família s (História do capuchinho vermelho-acordo ortográfico 2010)

CAPUCHINHO VERMELHO

Tás a ver uma dama com um gorro vermelho? Yah, essa cena! A pita foi obrigada pela kota dela a ir à toca da velha levar umas cenas, pq a velha tava a bater mal, tázaver? E então disse-lhe:
- Ouve, nem te passes! Népia dessa cena de ires pelo refundido das árvores, que salta-te um meco marado dos cornos para a frente e depois tenho a bófia à cola!
Pá, a pita enfia a carapuça e vai na descontra pela estrada, mas a toca da velha era bué longe, e a pita cagou na cena da kota dela e enfiou-se pelo bosque. Népia de mitra, na boa e tal, curtindo o som do iPod...
É então que, ouve lá, salta um baita dog marado, todo chinado e bué ugly mêmo, que vira-se pa ela e grita:
- Yoo, tá td? Dd tc?
- Tásse... do gueto ali! E tu... tásse? - Disse a pita
- Yah! E atão, q se faz?
- Seca, man! Vou levar o pacote à velha que mora ao fundo da track, que tá kuma moka do camano!
- Marado, marado!... Bute ripar uma até lá?
- Epá, má onda, tázaver? A minha cota não curte dessas cenas e põe-me de pildra se me cata...
- Dasse, a cota não tá aqui, dama! Bute ripar até à casa da tua velha, até te dou avanço, só naquela da curtição. Sem guita ao barulho nem nada.
- Yah prontes, na boa. Vais levar um baile katéte passas!!!
E lá riparam. Só que o dog enfiou-se por um short no meio do mato e chegou à toca da velha na maior, com bué avanço, tázaver? Manda um toque na porta, a velha 'quem é e o camano' e ele 'ah e tal, e não sei quê, que eu sou a pita do gorro vermelho, e na na na...'. A velha abre a porta e PIMBA, o dog papa-a toda... Mas mesmo, abre a bocarra e o camano e até chuchou os dedos...
O mano chega, vai ao móvel da velha, saca uma shirt assim mêmo à velha que a meca tinha lá, mete uns glasses na tromba e enfia-se no VL... o gajo tava bué abichanado mêmo, mas a larica era muita e a pita era à maneira, tásaver?
A pita chega, e tal, e malha na porta da velha.
- Basa aí cá pa dentro! - Grita o dog.
- Yo velhita, tásse?
- Tásse e tal, cuma moca do camâno... mas na boa...
- Toma esta cena, pa mamares-te toda aí...
- Bacano, pa ver se trato esta cena.
- Pá, mica uma cena: pa ké esses baita olhos, man?
- Pá, pa micar melhor a cena, tázaver?
- Yah, yah... E os abanos, bué da bigs, pa ke é?
- Pá, pa poder controlar melhor a cena à volta, tázaver?
- Yah, bacano... e essa cremalheira toda janada e bué big? Pa que é a cena?
- É PA CHINAR ESSE CORPO TODO!!! GRRRRRRRR!!!!
E o dog manda-se à pita, naquela mêmo de a engolir, né? Só que a pita dá-lhe à brava na capoeira e saca um back-kick mesmo directo aos tomates do man e basa porta fora! Vai pela rua aos berros e tal, o dog vem atrás e dá-lhe um ganda-baite, pimba, mêmo nas nalgas, e quando vai pa engolir a gaja aparece um meco daqueles que corta as cenas cum serrote, saca de machado e afinfa-lhe mêmo nos cornos. O dog kinou logo ali, o mano china a belly do dog e saca de lá a velha toda cheia da nhanha. Ina man, e a malta a gregoriar-se toda!!!
E prontes, já tá...

19 março 2009

De olhos postos em Roma


"Um estudo da organização não-governamental ActionAid conclui que um grande número de lésbicas sul-africanas é sujeita, todos os anos, a violações correctivas, um castigo pela orientação sexual e para "curar o seu comportamento".
O trabalho, apresentado terça-feira em Joanesburgo, refere que só na cidade do Cabo dez lésbicas são violadas em média todas as semanas por atacantes que classificam o crime de violação correctiva. (...)
Os autores do trabalho referiram que o número de violações na África do Sul ascende a 500 mil por ano, um dos mais altos índices mundiais e as lésbicas, em particular, são alvo, desde há muito, de "violações correctivas" por homens que pensam que assim as "curam" das tendências homossexuais. (...)
O estudo cita uma organização de defesa dos direitos dos homossexuais na cidade do Cabo, segundo a qual 31 lésbicas foram assassinadas na última década naquela cidade e arredores, tendo apenas sido condenado um dos implicados em todos os crimes."

Diz-se no Expresso.

Para que tudo esteja conforme a lei do Senhor, espera-se agora, a todo o momento, que Bento XVI faça uma exortação aos violadores no sentido de não usarem preservativo.