22 junho 2009

Tão cidadãos que nós somos...!

James Ensor, A intriga
De repente, em trinta caras da docência e da governação da economia com que o nosso país tem brilhado entre os demais, explodiram a consciência, a coragem e a lucidez inibidas até ao presente, para apelarem publicamente à reflexão sobre a viabilidade e a oportunidade das grandes obras públicas que o governo pretende lançar.
Não é apenas o espírito de Salazar que continua vivo em Portugal. O da União Nacional também.

19 junho 2009

O estertor e a mão


O sr. secretário de Estado da Educação, dr. Jorge Pedreira, foi hoje o retrato fiel do que aproxima o sr. Primeiro-Ministro do modelo de Presidente do Conselho de Ministros. De uma personagem em que, como no Fado Tropical, de Chico Buarque, a atitude humilde e a voz suave pretendem desviar a atenção da acção das mãos, que se mantêm, enraivecidas, na tarefa a que se propôs desde o início. De alguém que pretende substituir pela manha a inteligência que lhe falta, e, pela força, a ignorância e a inabilidade técnicas para resolver os problemas.
A propósito dos exames do 9º ano realizados durante esta manhã, em resposta às críticas renovadas sobre o gritante facilitismo das provas, o sr. dr. Jorge Pedreira referiu, por um lado, a injustiça de tais apreciações negativas, provenientes já se sabe de quem e, por outro lado, que elas levariam os alunos a não estudar. Ao sr. secretário de Estado bastaria, porém, ouvir conversas de rua entre estudantes para se aperceber de que eles próprios têm consciência e condenam esse facilitismo e que mesmo os mais assumidamente cábulas nutrem desprezo por quem o promove. As opiniões dos alunos que constam das peças informativas transmitidas pelos telejornais à saída dos exames são, aliás, bem claras sobre o assunto.
O sr. secretário desconhece ainda que a insegurança de quem sai das escolas quanto aos conhecimentos que possui tem vindo a tornar-se num traço freudiano das novas gerações de portugueses e, naturalmente, em simultâneo, num escolho da sobrevivência económica, pessoal e do país, que fere e ferirá todos nós demoradamente. Ainda ontem um amigo meu, desde há muitos anos ligado à formação docente, me falava do espanto e da apreensão que sentia perante a falta de preparação científica demonstrada pelas mais recentes fornadas de licenciados e o terror dos mesmos ao serem confrontados com a realidade, transmutado de imediato, como seria de esperar, por quase todos eles em subterfúgios ou arrogância.
Mas a mão continua cegamente na sua acção. A mão que desmente o rosto. A mão que nega as palavras. A mão que reflecte o estertor do cérebro que a comanda.
Pelo menos até às próximas eleições.
E depois?

18 junho 2009

Sem mais


Devo dizer que, depois de ter assistido a excertos da entrevista de José Sócrates à SicNotícias, o meu primeiro impulso foi escrever algo à medida. Mas, quase logo de seguida, invadiu-me qualquer coisa como um desgosto multiplicado por repelência que me impediu de sequer querer tocar naquilo.
Fico-me assim por dizer: o homem é mesmo ABJECTO!

17 junho 2009

Poucos minutos depois de ter publicado o texto anterior...


... tomei conhecimento de mais esta. O que nos vale é que o salazarismo já acabou e que o Irão e o Terceiro Mundo em geral ficam bem longe...!

O boato


Soube-se hoje, através dos telejornais, que:
- o governo, para manter a face quanto aos números do défice, recorreu à utilização dos orçamentos extraordinários disponíveis;
- a empresa fabricante dos celebrados Magalhães tem a PJ à perna, por problemas registados no ano de 2005;
- a toda-poderosa Porto Editora, com quem o Ministério da Educação fez acordos, a meu ver, injustificáveis, recebeu também a visita da mesma polícia.
Em qualquer país da União Europeia (à excepção de Itália, claro, por tradição, e agora, ao que parece, de Inglaterra, talvez por contaminação ideológica) isto bastaria para que José Sócrates e a sua equipa fossem intimados a esclarecer este conjunto de factos. Mas se a montanha de casos semelhantes e bem mais graves não o conseguiram ainda, em nome da estabilidade política...
"Estabilidade política", "estabilidade democrática", estabilidade económica": cada vez mais me parece que a história da relação entre estes três conceitos anda a ser muito mal contada. Melhor: que, menos do que história, não passa de boato.

15 junho 2009

Relembrando Herberto Helder


Fonte - I

Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.

Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.

Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
Sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
Era a fonte.

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maçã tomava um princípiode esplendor.

Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.

14 junho 2009

Exemplos maiores

O Ministério da Educação, em nome do interesse público, impõe a nomeação de directores de escola, alguns sob suspeita de interferência política a nível autárquico, e um mesmo contra decisão judicial. Está, assim, de parabéns a equipa ministerial, pelo exemplo pedagógico maior que deu aos futuros cidadãos, mostrando-lhes com superior clareza o extraordinário país onde se esforça por mantê-los, bem como os meios com que poderão singrar em esplendorosa existência. Outra coisa, aliás, não se poderia esperar da excelsa qualidade cívica e política demonstrada pela sra. Ministra e seus colaboradores.
Por outro lado, lembra António Barreto no PÚBLICO de hoje, o Observatório das Obras Públicas, sugerido pelo Tribunal de Contas, que detectou derrapagens em cinco grandes obras no valor de 241 milhões de euros, está em projecto há cinco anos e o início da sua actividade depende de uma certificação de software. Apela-se, por isso, ao sr. Primeiro-Ministro, que mande, ao menos, instalar urgentemente aparelhos de fax, os quais, como toda a gente sabe, servem para acelerar e simplificar processos de maior complexidade. A nação ficar-lhe-á eternamente agradecida pela intenção indubitável demonstrada de não dar azo a que se prolongue ainda mais o tempo concedido a eventuais situações propiciadoras de encobrimento de incompetências ou, até, de corrupção.
E Portugal sempre ficará mais a coberto de qualquer insinuação da "nossa Europa" de ser um povo mal-governado...!

Relembrando António Gedeão

Poema do alegre desespero

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,


ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.


Compreende-se.


E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.


Compreende-se.


Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.


Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.


E o nosso sofrimento para que serviu afinal?

12 junho 2009

Brandos costumes


Alguns dias a esta parte, os telejornais referiram-se a um inquérito realizado a nível nacional, em que oas portugueses afirmavam ser a corrupção o maior problema do país, ao mesmo tempo que, estranhamente, segundo os responsáveis pela notícia, se mostravam extremamente tolerantes, até mesmo complacentes, com os corruptos de pequena dimensão.
Faltou-me tempo para escrever um pequeno texto a este respeito e agora descobri que Eduardo Prado Coelho abordou o tema do modo que eu tencionava fazê-lo, num artigo de opinião no PÚBLICO, pouco antes de ter falecido. Aqui o deixo, portanto.
Precisa-se de matéria-prima para construir um País

A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates. O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria prima de um país.
Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.
Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal vE SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.
Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos... e para eles mesmos.
Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.
Pertenço a um país:
-Onde a falta de pontualidade é um hábito;
-Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.
-Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos.
-Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.
-Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é 'muito chato ter que ler') e não há consciência nem memória política, histórica nem económica.
-Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar alguns.
Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser 'compradas', sem se fazer qualquer exame.
-Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar.
-Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.
-Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.
Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado.
Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.
Não. Não. Não. Já basta.
Como 'matéria prima' de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.
Esses defeitos, essa 'CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA' congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não noutra parte...
Fico triste.
Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada...
Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.
Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, nem serve Sócrates e nem servirá o que vier.
Qual é a alternativa ?
Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror ?
Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa 'outra coisa' não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados... igualmente abusados !
É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda...
Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias.
Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer.
Está muito claro... Somos nós que temos que mudar.
Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos:
Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e,francamente, somos tolerantes com o fracasso.
É a indústria da desculpa e da estupidez.
Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir) que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido.
Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO.
AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO NOUTRO LADO.
E você, o que pensa ?... MEDITE !

Sem palavras


Mais umas quantas desventuras informáticas impediram-me o acesso à internet, desde o post anterior. Voltarei amanhã, à noite.
Entretanto, com este calor, bem, não se pode fazer muito mais do que ler, ver um filme, passear um pouco à noite... Sem esquecer os tremoços ou os amendoins, claro.

09 junho 2009

Histórias tragicómico-marítimas


Disse-se no PÚBLICO (clicar no texto).

08 junho 2009

Muito boa e competente gente há em Portugal...!


Só foi pena ninguém ter dado por isso quando passaram pelos governos... Olha, agora fazem-se pagar na mesma moeda!

07 junho 2009

Bastonadas (2)

António Pires de Lima

Com papas e bolos se enganam os tolos
Provérbio popular
Nem de propósito, assisti, na semana passada, a um debate de qualidade excepcional conduzido pela jornalista Ana Moura no programa Edição da Noite, da SICNotícias, em que participaram o ex-bastonário dos advogados, dr. Pires de Lima, a professora Ana Prata, da Universidade Nova de Lisboa, e um outro docente universitário da área do Direito, mais ligado aos problemas da justiça criminal, de cujo nome não me recordo de momento.
Com a ironia elegantemente contundente que lhe é própria, António Pires de Lima, referiu o enxame de leis recentemente publicadas, com carácter “experimental e provisório”. O espantoso absurdo de se poder conceber o termo "experimental" como sendo aplicável a uma lei, a que se acrescenta, logicamente e de imediato, as tremendas consequências de se pôr em vigor, no plano da justiça, normas “provisórias”, lembrou o antigo bastonário, são de tal dimensão e profundidade nas suas repercussões, que apenas uma enorme inconsciência e irresponsabilidade lhes pode ter dado origem. Passou depois à leitura de alguns excertos dessas mesmas leis, onde, na melhor tradição dos irmãos Marx, se encontravam desde pérolas de português ao nível das Novas Oportunidades até coisas como “esta lei deve aplicar-se-á aos casos a que directamente respeita bem como aos seus contrários” (mais ou menos isto).
Ana Prata, pelo seu lado, falou do ritmo frenético da publicação de legislação e do carácter caótico e contraditório da mesma, tornando o Código Civil num emaranhado de duas orientações opostas e, por isso, susceptível de o seu conteúdo ser objecto das mais diversas interpretações. Para ilustrar a situação, contou uma anedota em tempo real: tendo ido em meados de Maio, à livraria da Faculdade, pediu, por ironia, ao empregado que lhe desse a versão da semana anterior do Código Civil, ao que o rapaz, atrapalhado, lhe respondeu: “Desculpe, professora, só temos a de Abril”.
Ainda outro aspecto em que todos estiveram de acordo, foi o total desconhecimento demonstrado pelos legisladores no que respeita ao actual estado da sociedade portuguesa e das alterações que nela (e em todo o mundo) tiveram e têm lugar a cada momento. Legisladores esses (muito bem pagos) que acabam por criar leis para uma realidade existente apenas no plano teórico - ou nem isso. Sendo o Estado justificável somente pelos benefícios que possa trazer, desde logo quanto à manutenção da justiça, todo este panorama acarreta consigo, inevitavelmente, a degradação e o desrespeito pelas instituições públicas de governação, por inúteis e mesmo prejudiciais à vida de cada um.
Fico-me por aqui na transcrição do que foi dito pelos três intervenientes, mas recomendo a quem encontrar o vídeo que o veja até ao fim, dada a justeza e a oportunidade das apreciações de todos eles aos problemas da justiça em Portugal.
Ligando, porém, agora este post ao anterior: não é que encontrei no Sapo, poucos dias depois (clicar aqui para ler a totalidade da notícia), um belo naco de oratória do tipo uma-no-cravo-outra-na-ferradura do actual bastonário que, como se diz na última página do PÚBLICO de hoje, “quando sai à rua, é abraçado, elogiado, incentivado e até leva palmadinhas nas costas” (o povão gosta de sangue e está muito farto)? Ao mesmo tempo que reconhece a inadequação da actual legislação aos tempos actuais, afirma Marinho Pinto, no entanto, que «Não é nas leis que estão os problemas da Justiça, é nos magistrados. Com bons magistrados faz-se boa justiça, nem que as leis sejam más».
Onde é que todos ouvimos já ferrar desta maneira…?

Bastonadas (1)


Alheio ao significado
Diz o povo e com razão
Ouvindo um grande aldrabão:
Dava um bom advogado!.

António Aleixo


A ocasião faz o ladrão

Provérbio popular


Dias atrás, fazendo o costumadamente desconsolado zapping, passei pela TVI, onde Manuela Moura Guedes entrevistava o bastonário da Ordem dos Advogados. Como estava cansado demais para prestar atenção a qualquer tipo de polémica, passei aos canais seguintes.
Dias à frente, veio o povão, muito lampeiro e satisfeito, perguntar-me se tinha assistido à “peixeirada”. Como eu disse que não sabia de nada, levou-me pela mão ao youtube e ficou a olhar-me com um sorriso expectante no rosto, enquanto ia adiantando comentários sobre a coragem e o desassombro “do homem” frente à falta de vergonha que por aí vai, bem como à arrogância e à má-educação da excelentíssima esposa do responsável maior do canal (clicar aqui para ouver)
Depois de ter visto e ouvido tudo constrangidamente, disse-lhe que sim senhor, que era lamentável, mas que as coisas não me pareciam assim tão claras. E expliquei-lhe o porquê das minhas dúvidas.
Comecei por lhe lembrar que o assassino só o pode ser se tiver meios para o consumar o que pretende, seja um instrumento sejam as próprias mãos, assim como ocasião propícia para o fazer. E que, no caso de um advogado, ele apenas poderá “corromper” a lei se a lei for, em si mesma, corruptível, isto é, se a sua redacção ou os sentidos para que aponta forem susceptíveis de interpretações contraditórias, logo utilizáveis como arma ou terreno adequado à corrupção.
Falei-lhe ainda, a propósito, das palavras de um velho engenheiro, já reformado, vizinho de uns familiares meus, que participou na construção da ponte 25 de Abril, das quais nunca mais me esqueci: “Não existem bons e maus construtores, o que existe é boa ou má fiscalização.” Se a lei é o alicerce da justiça, é nela que começa por residir o problema, o que atira as responsabilidades primeiras ao legislador e a quem tem por função a aprovação do texto por ele redigido.
Ora o dr. Marinho Pinto, fui eu lembrando ao povão, nunca ou, pelo menos raramente, ataca as leis e quem as faz, prefere falar de corrupção e de podridão, desde advogados a juízes, lançando a suspeita generalizada sobre tudo e todos sem, no entanto, jamais referir nomes. Para ele, ao que parece, as leis são pouco mais que irrelevantes.
Como se um juiz pudesse alterar a lei impunemente sem sofrer consequências, pelo menos ao nível profissional! Como se um advogado honesto pudesse mudar uma lei claramente injusta ou cuja ambiguidade proporcione iludir e escapar ao mais elementar bom-senso! Diga-o a polícia, que passa o tempo a deter quem, horas mais tarde, é libertado por juízes de mãos atadas pelas leis. Digam-no os cidadãos, que podem ser presos e processados por se defenderem de quem os ataca. E se isto é ao nível do pequeno e médio delito, facilmente se imaginará o que respeita ao crime de colarinho branco.
O dr. Marinho Pinto, além disso, fiz-lhe eu reparar também, utiliza exactamente o mesmo tipo de procedimento que a sra. Ministra da Educação e a sua equipa têm tido ao longo do seu mandato. É que a sra. Professora Maria de Lurdes Rodrigues nunca tocou nos pedagogos de serviço do seu ministério, primeiros responsáveis pela orientação do ensino; preferiu reduzir a massa salarial e as condições de trabalho dos professores, que se limitam a ter que ensinar aquilo que esses funcionários lhes determinaram e na forma e com os procedimentos por eles igualmente impostos, mesmo que o considerem uma aberração. Acicatou a suspeita e o desprezo sobre os docentes, a pretexto de melhorar a qualidade do ensino, distraindo assim as atenções da imposição de “reformas” inconsequentes e catastróficas, que têm vindo a destruir definitivamente o pouco que os anteriores governos ainda haviam deixado, com trágica incompetência e irresponsabilidade.
Em suma, terminei eu, não tenho informação suficiente para emitir juízos sobre qualquer eventual frete que o dr. Marinho Pinto esteja a fazer ao sr. Primeiro-Ministro, que segue no estilo vigorosamente barulhento.
Mas que imita bem ou disfarça mal, lá isso…

06 junho 2009

Ou por uma coisa ou por outra...


Tenho estado sem internet. Hoje, vali-me de uma pen emprestada. Espero ter o problema resolvido amanhã ou, no máximo, domingo.

03 junho 2009

Retomando a conversa

Carta do Baralho Cigano
O que se passou ontem, na Assembleia da República, entre a sra. ministra da Educação e a deputada Ana Drago, do Bloco de Esquerda, fez-me lembrar, uma vez mais, o seguinte provérbio chinês: "Queres conhecer o que uma coisa é? Tenta mudá-la."
Porque nunca se ensina nada a ninguém, só se aprende o que se quer, a escola nunca mudou o carácter: muda, sim, o modo e a dimensão como esse carácter passa a revelar-se. Não há grau académico que altere a grosseria nem a má-fé inatas, antes as acentuam e as potenciam.
E o nosso dever, como eleitores, é impedir que gente desse calibre chegue ao poder. Para que o nosso destino não se torne demasiado grotesco.

02 junho 2009

Uff!!


Terminarei esta fase de trabalhos forçados amanhã, pelo que conto voltar na quarta, à noite.
Até lá.

27 maio 2009

Missa negra-rosa em fundo azul (vómito às três pancadas)


27 de Maio de 2009, 20:38
Castelo Branco, 27 Mai (Lusa) -- O PS vai hoje ensaiar em Castelo Branco um comício à norte-americana, com o pavilhão do núcleo empresarial da cidade a ser transformado num anfiteatro só com lugares sentados e com as bancadas ordenadas geometricamente em losanglo.
Segundo a direcção de campanha do PS, foram colocados cerca de 1400 lugares sentados.
Todos os apoiantes socialistas estão a receber instruções do "speaker" do comício para levantarem os cartazes de fundo azul com "o slogan" "dia 07 vote PS" e para gritarem essa palavra de ordem.

Foi o acabei de ler no Sapo. Com erro ortográfico e tudo.
Tinha visto e ouvido, havia pouco, José Sócrates no seu costumado e gritado empolgamento público, dirigir-se aos militantes, falando do "horror das famílias" perante o atraso na colocação dos professores e do "terror das famílias" face ao atraso do início do ano lectivo, horror e terror com que o seu governo terminou. Mas nem é do bimbalhismo caricato da aplicação dos termos que quero falar. É de outras coisas.
José Sócrates contou, evidentemente, com a memória habitualmente degradada dos portugueses, certamente já esquecidos de Maria do Carmo Seabra (CDS), que substituiu David Justino (PSD) no governo de Durão Barroso, na sequência do escândalo do falhanço (sabotagem?) da informatização dos processos ligados aos concursos de professores. A nova ministra fez, tanto quanto é conhecido, um trabalho notável, chamando a si todas as responsabilidades, centralizando nela todas as tarefas essenciais e conseguindo, em três ou quatro meses, deixar o caminho totalmente preparado, a esse nível, para a "eficácia" de Maria de Lurdes Rodrigues, que tomou o seu lugar pouco depois. A actual ministra nunca teve a honestidade de reconhecer o trabalho da sua antecessora nem, muito menos, de lhe agradecer. Nem ela nem o novel primeiro-ministro, que aproveitou de imediato o facto para se pôr tal como ainda permanece hoje: sempre em bicos de pés.
Mais: a ministra "de direita" tomou decisões que acabaram com situações que envergonhavam o país perante qualquer outro membro da "Europa", dando, pela primeira vez desde o 25 de Abril, prioridade na colocação aos professores com problemas de saúde. A ministra "de esquerda", no ano imediatamente seguinte, por pressão dos sindicatos (vejam lá!), "de esquerda", diminuiu o alcance dessa medida, por questões de "justiça" em relação aos professores de Quadro de Zona Pedagógica. Como se a percentagem de deficientes que trabalham em Portugal, e ainda por cima em empregos que exigem a posse de uma licenciatura, fosse significativa...! Mas, já se sabe, para a "esquerda"temos que atender às massas, não aos indivíduos. E a entre a massa de pagantes dos sindicatos poucos são os "pobres espoliados dos mais elementares direitos humanos numa sociedade apodrecida pelo capitalismo". Uma chatice... para esses espoliados.
Comecei a escrever isto, tive que interromper por duas horas e ao voltar, mesmo agora, sinto-me já demasiado cansado para continuar. Penso que o que disse fala por si, sem precisar de mais comentários.
Limito-me a acrescentar que à esquerda portuguesa, toda ela, se quiser fazer alguma revolução, bastará combater-se a si própria.

25 maio 2009

Vejam...


... este post no Mitos Climáticos (que também tem o link na minha lista), que encontrei via Fiel Inimigo, e um outro, neste último.
Volto já.

24 maio 2009

Olhem...


Poderia vir aqui dizer que fiquei doente de tanto rir, ouvendo José Sócrates discursar aos berros em espanhol (valha-nos que o próprio se não levou a sério a si mesmo, a avaliar pela expressão facial...) e que, por isso, iria ter dificuldade em aparecer por aqui nos próximos dias. Mais uma vez, a culpa seria do governo e toda a gente continuaria descansada, por estarmos perante o culpado do costume.
Mas não. Até quinta-feira à noite terei, de facto, alguma dificuldade em por cá passar, mas por outros motivos. Embora haja umas palavritas a exigirem-me que as deixe sair, a propósito de um artigalhaço de opinião do venerando Professor Boaventura (não o santo e filósofo, o outro, nosso contemporâneo, de Coimbra). Fica prometido, pelo menos, para sexta-feira. Se não conseguir sustê-las até lá.
Enquanto não volto, chamo a atenção para os videos postados recentemente na Fundação Velocipédica (o link está aí ao lado), em que poderão ver os espectáculos de Mandrágora realizados recentemente em Faro, que são uma pura delícia visual. Entre muitas outras coisas interessantes do ponto de vista estético que tem sido colocado no blog.
Até já.

20 maio 2009

Repito a chamada de atenção


Ephedra é o nome de um grupo de rock que, no início dos anos 70, enveredou pelo chamado rock progressivo, do qual foi pioneiro em Portugal. Composto por músicos muito jovens, a qualidade do seu trabalho foi reconhecida, à época, tendo-lhes sido encomendada as bandas sonoras de alguns filmes e feito um programa na RTP, chegando mesmo a ser falada a possibilidade da sua participação no Venham mais cinco, de José Afonso, a qual não veio, porém, a concretizar-se pela indisponibilidade de alguns dos seus membros, devido a incorporação no serviço militar.
A vida académica e profissional posterior de cada um deles impediu a continuidade desse trabalho, do qual nunca chegou a ser editado qualquer disco, embora dois se tivessem profissionalizado no campo da música: um deles, José Machado, ao nível da docência, no Conservatório; o outro, Francisco Henriques (Xico Zé Henriques), participando em diversos projectos musicais, desde Carlos Mendes e Jorge Palma, até Rui Veloso e Carlos do Carmo, desenvolvendo, em simultâneo, uma actividade regular no campo do jazz, em projectos pessoais ou em conjunto com diversos músicos e cantores de primeiro plano.
São precisamente deste último os temas que hoje retomarão, numa recriação e execução sua, em conjunto com a da quase totalidade dos membros originais da banda. Ouvi-os num primeiro espectáculo, realizado meses atrás. Recomendo a quem possa estar presente esta noite no Auditório Eunice Muñoz, em Oeiras, que não falte (a entrada é livre).

19 maio 2009

Portugueses a sério


Minutos atrás, fazendo zapping, passei pela SICNotícias. Transmitia-se o programa Falar Global e o jornalista entrevistava o jovem Salvador Mendes de Almeida, presidente da Associação Salvador, cuja existência desconhecia.
A inteligência e a abertura de horizontes demonstradas quanto às perspectivas e à acção já desenvolvidas pela Associação, nomeadamente no que respeita à importância do estabelecimento de protocolos e de desenvolvimento de projectos de investigação na área da robótica que minimizem os condicionalismos ligados aos diferentes tipos de deficiência, constituem exemplos de como é possível e indispensável ultrapassar a tacanhez e o miserabilismo pantanosos em que o país se vem afundando progressivamente. Tacanhez e miserabilismo, aliás, de que o jovem presidente deu conta com elegância serena e a dignidade de quem lhe dá o lugar que merece no trabalho que sabe que há a fazer, isto é: nenhum. Bastou-lhe, para isso, referir que o Estado português subsidia com 13 milhões de euros anuais a aquisição de equipamentos nessa área, menos 4 do que uma apenas das províncias da vizinha Espanha, para ficar a claro o que pensa.
Daqui envio, portanto, os meus parabéns, bem como, enquanto português, os maiores agradecimentos, a ele e aos restantes membros da Associação. O link fica disponível, aí ao lado, a partir de hoje.

18 maio 2009

Portugueses à conquista do mundo


Já temos o nosso candidato ao prémio Rainha de Inglaterra!!!

17 maio 2009

Angústias minhas


Lisboa, 17 Mai (Lusa) - A ministra da Educação defendeu hoje que o "manual de aplicação" destinado aos professores durante a realização das provas de aferição "é muito útil" e "absolutamente necessário" aos docentes para assegurar igualdade em todas as turmas.
"O manual de aplicação é isso mesmo. É um manual técnico feito pelos serviços, sempre fez e sempre assim foi. É muito útil. Evidentemente que é absolutamente necessário [aos docentes] para criar situações de igualdade em todas as turmas que fazem as provas ao mesmo tempo", afirmou Maria de Lurdes Rodrigues.
Questionada pela Agência Lusa à margem de uma cerimónia de entrega de certificados de habilitações a alunos no âmbito do programa "Novas Oportunidades, em Lisboa, a ministra frisou que o manual, que dá indicações muito específicas, incluindo as frases que os professores devem dizer a cada momento da prova, "é um guia de apoio aos professores" e disse que "já o ano passado houve uma tentativa de fazer um número à volta disso".
Diz-se no portal Sapo (clicar sobre o texto).
Gostaria, como cidadão, que a sra. Ministra da Educação esclarecesse publicamente o que quis dizer com o termo "número". É que, tanto quanto me lembre, ele é habitualmente aplicado aos conteúdos de espectáculos de circo e de vaudeville e, com maior frequência, ao trabalho dos palhaços, em particular. Para sua própria defesa e do regime, não deveria assim a sra. Ministra deixar espaço a quaisquer especulações sobre eventuais intenções insultuosas que tivesse ao utilizá-lo.
Com efeito, se não se der a esse trabalho, tal poderá vir a dar razão, por omissão, àqueles que afirmam da actual equipa de governação ser indigna de estar à frente de um país europeu e democrático; que um governante que se permite o insulto a quem com ele não concorda, é gente do mais baixo nível, vergonha de quem diz representar nas suas decisões; que tal gentinha, a pretexto da firmeza e do "progresso", é na realidade filha dilecta da pior (porque a mais firme e duradoura) das ditaduras: aquela que se enraiza num estado de espírito próprio de um provincianismo cultural e cívico reles. Por outro lado ainda porque, ao entrar pela indignidade dessa via, abriria caminho ao direito de retorquir no mesmo tom aos que se sentirem visados no comentário, minando desse modo o respeito pela autoridade das instituições que sustentam o Estado e o viver colectivo, estimulando implicitamente a legitimação e o recurso à violência por intermédio do desbragamento verbal.
Coisa que eu, para quem a madrugada de 25 de Abril de 1974 tanto de belo significou, consideraria catastrófico e inaceitável. Eu, para quem a autoridade democraticamente estabelecida é sagrada e insusceptível de ser desrespeitada, por actos ou sequer por atitudes ou palavras. Mas como poderei eu, ou qualquer outro, defender a sra. Ministra de tais suspeitas se ela própria o não fizer de imediato, caso alguém venha a chamar-lhe, por exemplo, "uma venenosa farsante, medíocre e irresponsável"?!
E eu bem que gostaria de o fazer...! Mas como?
Como?!

16 maio 2009

Socorro!

Quadro de Adriaen Bouwer

Escreveu Manuel António Pina no Jornal de Notícias de segunda-feira passada:

Terminaram as chamadas "Queimas das Fitas" e, salvo raras excepções, o balanço foi o do costume: alarvidade+Quim Barreiros+garraiadas+comas alcoólicos. No antigo regime, os estudantes universitários eram pomposamente designados de "futuros dirigentes da Nação". Hoje, os futuros dirigentes da Nação formam-se nas "jotas" a colar cartazes e a aprender as artes florentinas da intriga e da bajulice aos poderes partidários, enquanto à Universidade cabe formar desempregados ou caixas de supermercado. A situação não é, pois, especialmente grave. Um engenheiro ou um doutor bêbedo a guiar uma carrinha de entregas com música pimba aos berros não causará decerto tantos prejuízos como se lhe calhasse conduzir o país. Acontece é que muitos dos que por aí hoje gozam como cafres besuntando os colegas com fezes, emborcando cerveja até cair para o lado, perseguindo bezerros e repetindo entusiasticamente "Quero cheirar teu bacalhau" andam na Universidade e são "jotas". E a esses, vê-los-emos em breve, engravatados, no Parlamento ou numa secretaria de Estado (Deus nos valha, se calhar até já lá estão!).

Há muito tempo que não lia algo de tão impiedosa e arrepiantemente verdadeiro...!

13 maio 2009

Recomendo

O óbvio


Acabei de ouvir, no telejornal, Belmiro de Azevedo afirmar que a crise só se resolve com a multiplicidade de pequenos investimentos e não com um ou dois megainvestimentos.
Não tenho grande apreço pelo sr. engenheiro. Mas reconheço que é um dos poucos que, neste país, vai dizendo desassombradamente algumas coisas que têm que ser ditas.

A ler...


... e reflectir.

10 maio 2009

Dizia Boris Vian...


... numa pequena nota introdutória de A espuma dos dias (cito de memória): "Há apenas duas coisas que interessam no mundo: a música de Duke Ellington e o amor com raparigas bonitas. O resto não deveria existir, porque o resto é feio".
Duke já cá não está. Nem Boris. Mas ficou Caetano. E Aveiro. As raparigas também ficaram.
Talvez, afinal, nem tudo esteja perdido.

05 maio 2009

Na sequência do post anterior


Em conversa com o amigo que referi ontem, vim a saber que a colega dele faleceu hoje, de manhã. E que o número de problemas do tipo cárdio-vascular graves registados na escola desde Fevereiro já ascende a seis.
Em Portugal, a impunidade faz parte dos brandos costumes; à repressão ou à cobardia, chama-se-lhe serenidade; e ao sufoco pelo silêncio e pelo exílio, tolerância tradicional ou bonomia.

04 maio 2009

Nomes


Um amigo meu, professor do ensino secundário numa escola pública da linha de Sintra, disse-me hoje, em conversa, que, no espaço de um mês, quatro dos seus colegas tiveram acidentes cardio-vasculares graves. O último deles, hoje, encontrando-se no serviço de cuidados intensivos, em coma induzido. Na sala de professores, o clima de tensão é tremendo, alguns estão de atestado, com sintomas de esgotamento, muitos tomam anti-depressivos.
Entretanto, o desinteresse pelas matérias, a ignorância, o desleixo e a indisciplina medram, alegre e impunemente, entre os alunos.
Há quem chame a isto governar com sentido de serviço público. O crime com justificação ideológica, ou que se apresenta como tal, sempre foi a tentação maior da inteligência pervertida. Da burrice também. E do oportunismo.

02 maio 2009

A coisa, na altura, não me iria sair desta maneira…


… e agora também já não consigo repor-me no estado de espírito que originou isto que ando para assinalar aqui há mais de duas semanas. Por isso, limitar-me-ei a dizer o seguinte:
No dia 16 de Abril, dia mundial da voz, a RTP, através do Canal 1 e das vozes de apoio de José Carlos Malato e de Marta Leite de Castro, afirmou publicamente a voz do fado como a voz representativa da lusitanidade, dando-lhe voz num programa dedicado à celebração da voz como património do humano.
Responderam à chamada da prestigiada instituição as vozes mais representativas da canção nacional, aquelas que a conservaram com orgulho e altivez patriótica e a quem, por esse motivo, devemos a maior reverência e agradecimento: as fadistas de gema e de antanho, com raízes da Lapa até Cascais, passando pelo Restelo. De fora, ficaram as rústicas e primárias imitações que, até hoje, o foram o adulterando pelos tugúrios da Mouraria, Bairro Alto, Madragoa e Alfama, bem como aqueles que a elas se colaram: os pouco sérios Carmos, Carvalhos, Arys, Tordos, Vitorinos de Almeida, etc., agitadores e mixordeiros do fado, os quais tanto contribuíram para a degradação e o desprestígio da nacional canção, ao ponto de um deles ter mesmo sido distinguido pela venenosa monarquia castelhana.
Para que, porém, não viesse a ser acusada de segregação cultural, quiçá, ideológica e política (que ele há por aí, sabemo-lo bem, gentinha capaz de tudo…!) a RTP não deixou de convidar alguém vagamente próximo de tal populaça: o fadista Camané, homem que cabe em todo o salão, o qual, num arroubo de inovação, ergueu também ele tanto quanto pôde a sua voz, ao som do piano de Mário Laginha. O comovente espectáculo terminou com João Braga entoando dois poemas de Manuel Alegre, poeta que fica bem em qualquer prateleira, também ele presente entre uma assistência rigorosamente seleccionada, composta pelos que, em Portugal, têm dado voz aos destinos do país desde a gloriosa madrugada. Assistência onde se podia ver de um cabeceante general Eanes até um britanicamente efusivo Paulo Portas, ao lado de sua mãe, Helena. Tudo do melhor, que os responsáveis da televisão pública não quiseram que nos faltasse nada.
Mas não se ficou por aqui a RTP. No seguimento do impulso de entusiasmo que a animava, transmitiu, logo de seguida, um filme sobre a internacionalmente premiada worldfadista Mariza, onde pontificava a erudição do ex-secretário de estado da cultura, Rui Vieira Nery.
Ficámos a saber, então, que o fado sofreu uma renovação e uma revalorização a partir dos anos 80 graças ao trabalho dos novos fadistas. Uma vez mais se fez justiça, dado que nenhum dos já citados mixordeiros foi referido, nem sequer gente duvidosa como Maria da Fé, ingenuamente promovida no Brasil pelo risível Caetano Veloso, Maria Armanda, Alexandra, e mesmo Rodrigo ou Paulo Bragança. Os novos fadistas são aqueles que são… os novos fadistas e está tudo dito. Os que cantam o que é a vida: a paisxão, o ciúme e o destino de sermos descobridores da tristeza à garupa da melancolia.
No meio do êxtase estético, intelectual e patriótico que o documentário proporcionava, poucos terão dado a devida importância à revolucionária revelação histórica com que Nery brindou os seus concidadãos, ao afirmar que o Estado Novo, tendo inicialmente hostilizado e marginalizado o fado, enquanto canção ligada ao anarco-sindicalismo, o aproveitou em seu favor após o final da II Guerra, em 1945. Com efeito, uma das cenas mais hilariantes do primeiro filme sonoro português, A Canção de Lisboa, realizado por Cottinelli Telmo em 1933, é a de Vasco Santana, na pele de um Vasquinho da Anatomia a quem a embriaguez solta imprudentemente a língua, lançando-se numa diatribe contra o fado, canção conformista e degradante do carácter, e contra os fadistas (Morte ao fado! Morram os fadistas!)… para depois ganhar a vida como fadista-residente até conquistar a respeitabilidade do estatuto de médico. A genialidade e a lucidez ímpares de Nery ficaram assim, uma vez mais, amplamente demonstradas, atirando esse aspecto menor para o lixo da irrelevância histórica. É com pessoas do seu quilate académico e do quilate dos responsáveis pelo canal público de televisão que podemos confiar, inequivocamente e sem temor, em que Portugal continua e continuará em boas mãos.
Porque certamente alguns dirão que a RTP serve, entre outras coisas, de tugúrio das vaidades da aristocracia provinciana, azeiteira e decadente que deixou espaço ao republicanismo analfabeto, azeiteiro e prepotente que com ela se enfeita.
E certamente outros dirão ainda que a RTP expôs, mais uma vez, a faceta do mccarthismo peixeiro que se entranhou de há muito em Portugal como um seu secular aroma peculiar e que afasta, inevitável e definitivamente, para bem longe de si qualquer narina educada.
Mas não eu.

01 maio 2009

Mais uma portuguesa


Tal como França, Portugal é um país simbolizado (salvo) por mulheres. Desde Joana d'Arc a Brites de Almeida, desde Piaf a Amália.
Agora foi Beatriz Batarda quem disse, sem medo, em plena cerimónia oficial de promoção de José Sócrates e na cara do mesmo, aquilo que pensam os portugueses do seu governo e do estado a que nos levou.
Daqui lhe envio as minhas homenagens e o meu eterno agradecimento.

30 abril 2009

A receita


Quando, durante a vintena de anos da ditadura brasileira, as notícias eram censuradas, alguns dos maiores jornais optavam por colocar, no seu lugar, receitas de cozinha, como forma irónica de dar conta da existência de algo cujo conhecimento público os militares pensavam ser inconveniente.
Quando, no Portugal de 2009, o socialismo iluminado me retira o tempo mínimo indispensável à existência de vida própria, sobrecarregando-me de trabalho tão imbecil quanto inútil, ao ponto de estar para escrever um pequeno texto há duas semanas sem o conseguir, aqui deixo, também eu, uma receita que me parece cada vez mais traduzir, pelo requinte, os tempos que correm neste nosso querido jardim à beira-mar (receita recolhida num site brasileiro - clicar no texto):

28 abril 2009

Podia ser este o caso...


... mas (infelizmente!) até nem é. Volto na quarta-feira, à noite.

21 abril 2009

Segunda introdução a um desabafo: poema de Pessoa...

Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...
Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.
Mas enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho
Nem até
Café.
... a propósito disto.

15 abril 2009

13 abril 2009

Aqui fica a homenagem...

Modigliani, Nu Vermelho
...deste blog...

... às vítimas da Loja do Cidadão de Faro.


09 abril 2009

Para variar...


... as contas sairam-me furadas quanto a tempo disponível e não consegui ainda nem recomeçar uma postagem regular nem responder por email a quem disse que iria fazê-lo por estes dias. Mas deixo, para já, registadas as palavras de Henrique Neto, na SICNotícias (não consegui colocar aqui o link para o vídeo), quando referiu a existência de "empresas do regime" e disse que, para isso, bastaria haver por lá um ex-ministro.
Não pronunciou, segundo o que ouvi, a palavra "sinistro". Mas precisaria dela para que no nosso espírito surja, clara, a imagem de tentáculos que se estendem, progredindo pela beira-mar até aos nossos corações?

06 abril 2009

Elogio da Assembleia da República


A Assembleia da República acaba de mostrar a sua verdadeira face, ao estipular que os senhores deputados só precisam de justificar ausências que excedam os cinco dias. A justificação de tal decisão assenta na superior honestidade que se supõe que os mesmos possuam.
Assim, de uma penada, a digníssima instituição, rosto escrito e escarrado da lusa democracia de antanho, pôs tudo e todos no seu devido lugar. Com efeito, se já seria impossível aos portugueses suspeitar da idoneidade e elevação dos seus representantes, dado o superior nível intelectual e de fino trato demonstrado nas discussões acaloradas que entre si mantêm em prol do engrandecimento pátrio, verdadeiros espelhos da mútua admiração e consideração que anima os representantes do povo, inestimáveis e insubstituíveis instrumentos de pedagogia cívica para a formação dos portugueses do futuro, a partir de hoje não haverá mais dúvidas. A Assembleia assumiu, à sua dimensão e no seu âmbito, a tendência internacionalmente florescente do que é conhecido por “sair do armário” e assumiu-se, decidida e corajosamente, como consciência moral da nação. O “Magalhães”, golpe de asa que somente os dotados de genialidade poderiam alcançar, iluminou o caminho; a instituição política maior do país reforça agora, firme e inexoravelmente, o caminho da modernidade ética.
Frontalmente, da direita à esquerda (ninguém se opôs ou sequer se dispôs a falar sobre o assunto publicamente), os senhores deputados, sem abusarem de subtileza, disseram desta maneira aos restantes compatriotas que, se os elegeram, é porque neles é patente a superioridade dos grandes homens, que os isenta de terem que se justificar os actos que, a serem praticados por outrem, seriam motivo de suspeita ou condenação. E que os senhores deputados, em consonância com o governo, no seu louvável afã de prover à moralização e dignificação do nosso querido torrão de terra europeu, se apressam a estipular e a aprovar, para glória sempiterna dos trabalhos hercúleos da sua legislatura, as disposições que atestam esse facto e essa sua condição.
Os senhores deputados disseram, pois, a todos nós, com a delicada arte e o sublime sentido pedagógico que lhes são próprios: “Observai os nossos actos em silêncio, meditai humildemente sobre o seu significado, reverenciai a autoridade da sabedoria que nos trouxe inevitavelmente até aqui e que por vós foi confirmada, escolhendo-nos”. Os senhores deputados levaram-nos ao espelho, mostrando-nos a nossa condição de escória moral de quem há que desconfiar, a quem há que educar. Estabeleceram, num decisivo gesto, a fronteira que, aquém-fronteiras, define indubitavelmente a real virtude que permite a qualquer um achar-se português: a impunidade no decidir para si em nome do alheio. Revelaram-nos com exacta mestria o significado dos conceitos de honra e de vergonha, recortando-os em perfeito contraste. Deram-nos a medida da legitimidade da sua força, afirmando, através do senhor deputado Lello (condenado seja para sempre quem com o seu nome fizer trocadilhos!), que estas medidas poderiam ter ido ainda mais além e que a Assembleia não anda a reboque dos órgãos de comunicação.
É que os senhores deputados são, afinal, a nata do silêncio em que se fazem ouvir.
Nota final: escrito de rajada e sem revisão ou emendas, passadas ou futuras.

De como o poder é obscurantista...


... ou do papel do conhecimento em política.

03 abril 2009

Coisas...

Isaac Asimov

... com verdadeiro interesse.

02 abril 2009

Viva!


Retomarei as blogadelas durante o fim-de-semana. Uma vez mais, para todos, conhecidos e desconhecidos, que ainda persistem em passar por aqui, o meu abraço. Aos que me contactaram por e-mail, prometo uma resposta a partir da próxima segunda ou terça-feira.