11 maio 2010

Só mais uma


Este texto foi-me enviado por e-mail. E aqui fica, para proveito de quem passe.

LIÇÃO DO RATINHO

Esta fábula é fantástica! Serve para aqueles que se sentem seguros na actual crise mundial.
O que é ruim para alguém é ruim para todos... Será?

"Um rato, olhando pelo buraco na parede, vê o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote.
Pensou logo no tipo de comida que haveria ali.
Ao descobrir que era uma ratoeira ficou aterrorizado. Correu ao pátio da fazenda advertindo a todos:
- Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira na casa!!
A galinha disse:
- Desculpe-me Sr. Rato, eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me incomoda.
O rato foi até ao porco e disse:
- Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira!
- Desculpe-me Sr. Rato, disse o porco, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser orar.
Fique tranquilo que o Sr. Será lembrado nas minhas orações...
O rato dirigiu-se à vaca. E ela lhe disse:
- O quê? Uma ratoeira? Por acaso estou em perigo? Acho que não!
Então o rato voltou para casa abatido, para encarar a ratoeira...
Naquela noite ouviu-se um barulho, como o da ratoeira pegando sua vítima.
A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia pego. No escuro, ela não viu que a ratoeira havia pego a cauda de uma cobra venenosa. E a cobra picou a mulher...
O fazendeiro levou a esposa imediatamente ao hospital. Ela voltou com febre. Todo mundo sabe que para alimentar alguém com febre, nada melhor que uma canja de galinha. O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal, (matou a galinha).
Como a doença da mulher continuava, os amigos e vizinhos vieram visitá-la...
Para alimentá-los, o fazendeiro matou o porco.
A mulher não melhorou e acabou morrendo.
Muita gente veio para o funeral. O fazendeiro então sacrificou a vaca, para alimentar todo aquele povo.

Moral da História:

Não tem. Se fosse no estrangeiro tinha, mas em Portugal não tem.
Só o que me ocorre é que os ministros, incluindo o primeiro da fila, deviam ler isto.Assim como os actores de teatro, os fotógrafos e os hortelões (isto é para disfarçar).
Mas duvido que percebessem - e se percebessem não diziam, os safadinhos.
Não importa, que se f... a taça.

Nuno Reis Amaral

Mas, antes, ainda esta...

... que alguém deixou, ontem, numa caixa de comentários do Fiel Inimigo.

Volto na quinta. Sem falta :)


06 maio 2010

Do silêncio


Ontem, pelo fim da tarde, conversava eu com um familiar meu, minado pela doença de Alzheimer. Nem sempre reconhece já os netos e, noutro dia, não sabia que casa era aquela, a casa em que vive há mais de quarenta anos.
- Tenho que ir visitar a minha tia M., - diz-me - há muito tempo que não sei nada dela. Vive num lar, sabe disso, não sabe? O marido matou-se, que não aguentava a vida que levava, desde que ela foi para o lar. Coitado! Ai! Mas faz-me uma impressão ir lá vê-la...! Aquilo faz-me uma impressão...! Não conhece ninguém! Mas, a mim, parece que ainda me vai conhecendo. Quando cheguei ao pé dela, disse-me: "Vens buscar-me, vens buscar-me?". Coitada! Acho que ninguém merece isto, estas coisas assim, acho que ninguém merece.
E todo o silêncio do mundo veio ter comigo.

04 maio 2010

Intervalo forçado


Como já se deverá ter percebido, os impedimentos a que eu torne aqui com a regularidade que desejaria voltar a manter têm sido mais que muitos. Embora já não se devam (uff!) a problemas de saúde, não deixam de me retirar demasiado tempo para o fazer. Divulgo, entretanto, um e-mail que me foi enviado por um amigo, professor do Ensino Secundário, no qual se dá conta de uma participação feita por uma sua colega, de uma escola do Norte do país. Para que conste.

PARTICIPAÇÃO DISCIPLINAR MUITO GRAVE

Professora agredida: Leonídia Marinho
Grupo Disciplinar: 10º B - Filosofia
Agressor:

Contextualização:

Dia vinte e seis de Março de 2010. Último dia de aulas. Às 14 horas dirigi-me à sala 15 no Pavilhão A para dar a aula de Área de Integração à turma 10º DG do Curso Profissional de Design Gráfico. Propus aos alunos a ida à exposição no Polivalente e à Feira do Livro, actividades a decorrer no âmbito dos dias da ESE. A grande maioria dos elementos da turma concordou, com excepção de três ou quatro elementos que queriam permanecer dentro da sala de aula sozinhos. Deixar que os alunos fiquem sozinhos na sala de aula sem a presença do professor é algo que não está previsto no Regulamento Interno da Escola pelo que, perante a resistência dos alunos que não manifestavam qualquer interesse nas actividades supracitadas decidi que ficaríamos todos na sala com a seguinte tarefa: cada aluno deveria produzir um texto subordinado ao tema "A socialização" o qual me deveria ser entregue no final da aula. Será preciso dizer qual a reacção dos alunos? Apenas poderei afirmar que os alunos desta turma resistem sempre pela negativa a qualquer trabalho porque a escola é, na sua perspectiva, um espaço de divertimento mais do que um espaço de trabalho. Digamos que é uma Escola a fingir onde TUDO É PERMITIDO!
É muito fácil não ter problemas com os alunos. Basta concordar com eles e obedecer aos seus caprichos. Esta não é, para mim, uma solução apaziguadora do meu estado de espírito. Antes pelo contrário. A seriedade é uma bússola que sempre me orientou mas tenho que confessar, não raras vezes, sinto imensas dificuldades em estimular o apetite pelo saber a alunos que têm por este um desprezo absoluto. As generalizações são abusivas. Neste caso, não se trata de uma generalização abusiva mas de uma verdade inquestionável. Permitam-me um desabafo: os Cursos Profissionais são o maior embuste da actual Política Educativa. Acabar com estes cursos? Não me parece a solução. Alterem-se as regras.

Factos ocorridos na sala de aula:

Primeiro Facto: Dei início à aula não sem antes solicitar aos alunos que se acomodassem nos seus lugares. Todos o fizeram exceptuando o aluno ***********, que fez questão de se sentar em cima da mesa com a intenção manifesta de boicotar a aula e de desafiar a autoridade da professora.
Dei ordem ao aluno para que se sentasse devidamente e este fez questão de que eu o olhasse com atenção para verificar que ele, ***********, já estava efectivamente sentado e ainda que eu não concordasse com a sua forma peculiar de se sentar no contexto de sala de aula, seria assim que ele continuaria: sentado em cima da mesa. Por três vezes insisti para que o aluno se acomodasse correctamente e por três vezes o aluno resistiu a esta ordem.
Reacção da maioria dos elementos da turma: Risada geral.
Reacção do aluno *********: Olhar de agradecimento dirigido aos colegas porque afinal a sua "ousadia" foi reconhecida e aplaudida.
Reacção da professora: sensação de impotência e quebra súbita da auto-estima.
Senti este primeiro momento de desautorização como uma forma que o aluno, instalado na sua arrogância, encontrou de me tentar humilhar para não se sentir humilhado.
Como diria Gandhi, "O que mais me impressiona nos fracos, é que eles precisam de humilhar os outros, para se sentirem fortes..."
Saliento que neste primeiro momento da aula a humilhação não me atingiu a alma embora essa fosse manifestamente a intenção do aluno.

Segundo Facto: Dei ordem de expulsão da sala de aula ao aluno **********, com falta disciplinar. O aluno recusou sair da sala e manteve-se sentado em cima da mesa com uma postura de "herói" que nenhum professor tem o direito de derrubar sob pena de ter que assumir as consequências físicas que a imposição da sua autoridade poderá acarretar.
Nem sempre um professor age ou reage da forma mais correcta quando é confrontado com situações de indisciplina na sala de aula. Deveria eu saber fazê-lo? Talvez! Afinal, a normalização da indisciplina é um facto que ninguém poderá negar. Deveria ter chamado o Director da Escola para expulsar o aluno da sala de aula? Talvez...mas não o fiz. Tenho a certeza de que se tivesse sido essa a minha opção a minha fragilidade ficaria mais exposta e doravante a minha autoridade ficaria arruinada.
Dirigi-me ao aluno e conduzi-o eu própria, pelo braço, até à porta para que abandonasse a sala. O aluno afastou-me com violência e fez questão de se despedir de uma forma tremendamente singular: colocou os seus dedos na boca e em jeito de despedida absolutamente desprezível, atirou-me um beijo que fez questão de me acertar na face com a palma da mão. Dito de uma forma muito simples e SEM VERGONHA: Fui vítima de agressão. Pela primeira vez em aproximadamente vinte anos de serviço.
Intensidade Física da agressão: Média (sem marcas).
Intensidade Psicológica e Moral da agressão: Muito Forte.
Reacção dos alunos: Riso Nervoso.
Reacção do aluno **********: Ódio visível no olhar.
Reacção da professora: Humilhação.
Ainda que eu saiba que a humilhação é fruto da arrogância e que os arrogantes nada mais são do que pessoas com complexos de inferioridade que usam a humilhação para não serem humilhados, o que eu senti no momento da agressão foi uma espécie de visita tão incómoda quanto desesperante. Acreditem: a visita da humilhação não é nada agradável e só quem já a sentiu na alma pode compreender a minha linguagem.
Terceiro Facto: O aluno preparava-se para fugir da sala depois de me ter agredido e, conforme o Regulamento Interno determina, todos os alunos que são expulsos da sala de aula terão que ser conduzidos até ao GAAF, Gabinete de Apoio ao Aluno e à Família. Para o efeito, chamei, sem êxito, a funcionária do Pavilhão A, que não me conseguiu ouvir por se encontrar no rés-do-chão. Enquanto tal, não larguei o aluno para que ele não fugisse da escola (embora lhe fosse difícil fazê-lo porque os portões da escola estão fechados).
Mais uma vez, o aluno agrediu-me, desta vez, com maior violência, sacudindo-me os braços para se libertar e depois de conseguir o seu objectivo, começou a imitar os movimentos típicos de um pugilista para me intimidar. Esta situação ocorreu já fora da sala de aula, no corredor do último piso do Pavilhão A.
Reacção dos alunos (que entretanto saíram da sala para assistir à cena lamentável de humilhação de uma professora no exercício das suas funções): Risada geral.
Reacção do aluno ********: Entregou-se à funcionária que entretanto se apercebeu da ocorrência.
Reacção da Professora: Revolta e Dor contidas que só o olhar de um aluno mais atento ou mais sensível conseguiria descodificar. Porque, acreditem: dei a aula no tempo que me restou com uma máscara de coragem que só caiu quando a aula terminou e sem que nenhum aluno se apercebesse. Entretanto, a funcionária bateu à porta para me informar que o aluno queria entrar na aula para me pedir desculpa pelo seu comportamento "exemplar".
Diz-se que um pedido de desculpas engrandece as partes: quem o pede e quem o aceita. Não aceitei este pedido por considerar que, fazendo-o, estaria a pactuar com um sistema em que os professores são constantemente diabolizados, desprestigiados e ameaçados na sua integridade física e moral. Em última análise, a liberdade não se aliena. O aluno escolheu o seu comportamento. O aluno deverá assumir as consequências do comportamento que escolheu e deverá responder por ele. É preciso PUNIR quem deve ser punido. E punir em conformidade com a gravidade de cada situação. A situação relatada é muito grave e deverá ser punida severamente. Sou suspeita por estar a propor uma pena severa? Não! Estou simplesmente a pedir que se faça justiça.
Vamos ser sérios. Vamos ser solidários. Vamos lutar por uma Escola Decente.
Ps: Este caso já foi participado na Polícia e seguirá para Tribunal.
Ermesinde, 30 de Março de 2010

A Professora _________________________

30 abril 2010

25 abril 2010

Da realidade do poder (3)


Foi a 25 de Abril de há 36 anos que se deu o 25 Abril.
E isso fez-me lembrar, a propósito do tema que tenho vindo a abordar aos poucos, de dois casos que, já agora, acrescentarei aos anteriores.
Em primeiro lugar, recordo-me de uma conversa telefónica que tive com uma figura que foi e se mantém como um ícone maior do chamado “espírito de Abril”, seja lá o que for que se queira significar com isso. Já o tinha encontrado a seguir ao 1º de Maio e voltei a falar com ele cerca de três anos depois, desta vez, como disse, ao telefone, enquanto representante de uma instituição. Falei, melhor, falou durante cerca de uma hora. Falou do desengano quanto ao espírito daqueles em torno de cujas potenciais virtudes construíra a sua visão do mundo e desenvolvera a correspondente acção. Falou da sua indignação perante o persistente e arreigado rasteirismo de horizontes, do egoísmo arrogante e estreito. Numa explosão de amargura e nojo proporcional à sua dimensão e empenhamento. Ouvi-o e concordei. Afinal, também eu me ia apercebendo do mesmo.
Se, a mim, um estranho, me disse tudo isto, o que não terá dito aos que com ele conviviam? E a tantos outros, para lá deles? A imagem transmitida pela comunicação social e pelos arautos da área política em que se situava, porém, não dava conta do que lhe ia passando na alma e no ânimo, bem pelo contrário. A não ser tempos mais tarde, quando, sarcástico e demolidor, disse algo em público que irritou, ao pôr em causa, a hipocrisia medíocre que o rodeava. Irritou, mas, é claro, apenas por um bocadinho e sem que alguém caísse em fazer demasiado alarido disso - que os enfants térribles, afinal, até dão jeito, para fingir que alguma coisa se passa e que é tudo gente séria. No fim, como é costume, as suas palavras reverteram, como seria de esperar, no reforço da imagem que servia - e continua a servir - a uns quantos.
O que seria de esperar que eu ouvisse, pelo meu lado, se reproduzisse essa conversa de há 33 anos? Quantas acusações de mentiroso, difamador e denegridor da sua figura não me seriam feitas? E de quanto disso não se aproveitariam os mesmos cuja menoridade ele abominava, “denunciando” mais um “ataque aos verdadeiros valores” e da prova que esse mesmo ataque, em si, constituiria da “justeza” das suas posições e da sua (deles) “luta”? Pois não são eles os únicos que, verdadeiramente, “fazem e farão a História”?
Em segundo lugar, lembrei-me de uma história que o meu pai me contou sobre um seu amigo e nosso vizinho, cujo cunhado fazia parte de um grupo de portugueses, misteriosamente desaparecidos em África durante a guerra nas “províncias ultramarinas”. Apesar dos esforços das famílias para serem informados da natureza do que ocorrera bem com da sorte dos desaparecidos ou, pelo menos, do seu possível paradeiro, nada conseguiram obter quer por parte das autoridades do regime quer pela das instâncias privadas a que recorreram.
Não me recordo exactamente de quando, mas, salvo erro, aproximadamente pela mesma altura em que teve lugar a conversa a que me referi, um jornalista de grande destaque, antes e depois do 25 de Abril, alguém que teve uma enorme importância para mim e para a minha geração, mas sobretudo no período anterior a essa data, pelo espírito crítico com que estruturava o que escrevia, publicou um conjunto de artigos com carácter de investigação sobre esse caso, ocorrido anos atrás. Artigos em que o cunhado do nosso vizinho era apresentado como cérebro organizador e protagonista maior do que teria ocorrido.
Entre espantado (o cunhado não seria especialmente dotado para comandar o que quer que fosse) e esperançoso, o amigo do meu pai telefonou para o jornal, pediu para falar com o jornalista, Identificou-se e pediu-lhe que o recebesse, no sentido de obter maiores informações e esclarecimentos sobre tudo aquilo que sucedera, ao seu familiar e aos restantes. O jornalista convidou-o então a ter uma conversa em sua casa, de preferência à redacção, o que, como seria de esperar, mais deixou na expectativa e na ansiedade o nosso vizinho. Indignação, no entanto, foi o que apenas trouxe do que ouviu. É que o jornalista - cujas posições políticas, com o 25 de Abril, se haviam tornado rapidamente para além de firmes - lhe confessou que a investigação que realizara ia no sentido de aproveitar umas quantas pistas que lhe pareciam justificativas de muitas das suas convicções e perspectivas e que quanto ao cunhado do vizinho, bem… tinha-o posto naquele papel para «compor um pouco a história». Apresentava as maiores desculpas pelo que fizera, mas pedia compreensão quanto ao sucedido e que, por favor, não transformasse o assunto em motivo para polémica pública ou processos judiciais. Julgo recordar-me que lhe prometeu refazer a imagem do cunhado e suponho (suponho!) que lhe tenha dito também, dado o silêncio mantidos posteriormente pelo amigo do meu pai, que utilizaria a sua posição e conhecimentos para lhe ir dando quaisquer novidades que viessem a surgir.
O cunhado do nosso vizinho e os seus companheiros nunca mais foram vistos. O vizinho morreu. Seguiu-se-lhe o meu pai. O jornalista foi o último, sem que, tanto quanto eu saiba, haja visto o seu prestígio beliscado e posta em dúvida, sob qualquer aspecto, a seriedade e o rigor a que, como toda a gente o sabia, habituara os seus leitores em matéria de investigação.
E a História viu-se mais composta.
(continua)

24 abril 2010

Da realidade do poder (2)


No início da década de 80, faleceu aquele que foi um dos meus maiores amigos. Direi talvez mesmo, o maior, alguém a quem devo (era mais velho que eu onze anos) o que houve de mais decisivo na minha formação intelectual e humana.
Sendo alguém de relativa notoriedade pública, consultei os jornais do dia seguinte ao do falecimento, para ver em que termos a sua morte era anunciada. Imagine-se o meu espanto quando li uma notícia na qual os únicos elementos biográficos verdadeiros eram o nome (mesmo assim, com uma gralha ortográfica) e a idade. Tudo o mais – TUDO! - era, por completo, estapafúrdio e delirante.
Telefonei para os jornais, que se desculparam com a agência Lusa. Liguei para a Lusa, que lamentou o sucedido e pediu compreensão. Mas não foi feita nenhuma emenda nos jornais posteriores. Suponho, por isso, que qualquer historiador que venha a debruçar-se sobre ele e a sua obra, hoje esquecida e, em enorme medida, por publicar, ficará bastante confuso se tomar a sério os órgãos de comunicação.
Há pouco tempo, num blogue que se pretende sério, encontrei uma referência biográfica de calibre igual ao anterior, relativa a um poeta português também meu conhecido. Enviei um e-mail ao responsável pelo blogue, esclarecendo-o em que medida os dados que recolhera são incorrectos. Não alterou nada nem sequer me respondeu.
Mais ou menos pela mesma altura em que faleceu o primeiro destes meus dois amigos, suicidou-se uma minha conhecida e vizinha, a contas com uma depressão agravada por factores de paranóia, saltando do 7º andar em que vivia. De novo os jornais foram pródigos em imaginação e miseráveis em realidade quanto aos motivos que a levaram a fazê-lo.
Frequentava eu nesse período, com alguma regularidade, um café onde costumava ver um fulano com ar pouco recomendável para o meu gosto, aquilo a que se costuma chamar o típico “mete-nojo”, pose de chulo com pastor alemão pela trela, para dar estatuto. Por lá continuou a pavonear-se, depois de eu ter mudado de residência. Dois ou três anos, soube que tinha morrido. Como?
Segundo a versão que, por o ter observado, me pareceu de maior confiança (a de um familiar meu), ter-se-á envolvido com alguém cujo marido era pouco liberal e que o “picou” como forma de aviso. O ferimento não parecia ter grande importância, pelo que o homem não achou necessário ir ao hospital, mas estava enganado e acabou por morrer.
A versão dos órgãos de comunicação, contudo, foi bastante diferente. O título de um dos jornais era qualquer coisa assim como “Corajoso cidadão morre vítima de gangue de droga” e contava a história de um candidato a justiceiro solitário, assassinado por um conjunto organizado de meliantes que ele vinha a investigar por conta própria.
Poderia acrescentar aqui outros casos do meu conhecimento mais ou menos directo, como, por exemplo o de uma escola à volta da qual foram feitas, há já alguns anos, reportagens e reportagens, por toda comunicação social, sobre casos gravíssimos nela ocorridos. A base de todo este imbróglio teve, no entanto, por base o depoimento de uma docente que passava longos períodos de atestado por desequilíbrio mental e de uma aluna que desejava viver uma telenovela. A verdade dos factos foi investigada pelo ME e tudo voltou ao seu lugar, mas a Comunicação já não estava interessada nessa coisa comezinha da verdade e, portanto, a escola continuou (não sei se ainda continua) a ser uma escola menos aconselhada pela “opinião pública”.
E por aí fora.

(continua)

19 abril 2010

Da realidade do poder (1)


Anos atrás, passei uma semana de férias em S. Miguel, durante a segunda quinzena de Agosto. Fui daqui com a informação meteorológica do costume, o anticiclone e tal, períodos de chuva e por aí fora. Quando lá cheguei, o céu estava limpo; água, só a do mar e a das lagoas que, do avião, me parecia distinguir ao longe. Na viagem até ao hotel, dei conta ao motorista do táxi da sorte que, pelos vistos, tivera logo no primeiro dia. O comentário, em tom sarcástico, às minhas palavras, foi imediato: “Ah! Lá no continente, aqui está sempre a chover…”. E, durante a semana, apesar das previsões do Instituto de Meteorologia, que insistiam em que chovera e choveria abundantemente no arquipélago, só dei por dois aguaceiros (bastante fortes, valha a verdade). Passeei por uma ilha magnífica com um tempo delicioso.
Lembrei-me deste episódio anteontem, enquanto esperava a minha vez numa repartição pública, ouvindo alguém falar ao meu lado sobre o que se passara consigo e a sua família, no decorrer de uma deslocação à Jamaica.
Em primeiro lugar, não puderam sair do hotel durante três dias, devido à realização de eleições. Porque era perigoso, disseram aos turistas; se o fizessem, não se responsabilizariam pela sua segurança. Finalmente, no quarto dia foram autorizados a passear, mas na condição de não usarem vestuário verde ou cor-de-laranja, para evitarem incidentes com quaisquer ânimos ainda exaltados.
Uma noite, após terem passado durante o dia por algumas praias e visitado a terra natal de Bob Marley, ao regressarem ao quarto onde, a conselho dos guias, haviam deixado os telemóveis, verificaram, espantados, que estes registavam trinta chamadas não atendidas, feitas por familiares, em Portugal. Ligaram-lhes, apreensivos com o que poderia ter estar na origem de um tal frenesi. Entre lágrimas e expressões de alívio, disseram-lhes as pobres criaturas que nos noticiários dos canais de televisão portugueses passavam notícias aterradoras sobre um furacão que devastara tudo por onde passara, Jamaica incluída, acompanhadas das respectivas imagens de devastação e tragédia, pelo que tentaram saber se algo de grave os teria eventualmente atingido. Incrédulos, os nossos turistas (choviam telefonemas para os portugueses) deram-lhes conta de que nenhum furacão passara pela ilha, e que aquele a que se referiam se dirigira para norte, em direcção a Cuba, mas que acabara por não causar estragos. Quanto às imagens, bem… talvez tivessem ido buscá-las à RTP Memória.

(continua)

16 abril 2010

13 abril 2010

Pague-se qualquer valor pela transferência!!!



Num país onde o futebol manda na política e onde há cada vez menos jogadores nacionais, sugiro que se faça uma vaquinha entre todos os cidadãos para reforçar a Assembleia da República com esta deputada, de modo a podermos alimentar a esperança de algum dia ainda podermos sair vitoriosos das eleições.

12 abril 2010

Em "concorrência" com o Blue Breve



Eurico Moura e Rafael Pereira têm feito um excelente trabalho de divulgação de boa música, em especial na área do jazz, no blog Blue Breve (que ainda não acrescentei aos favoritos). Deixo hoje aqui, também eu, o que consegui encontrar no youtube de Emílio Robalo, pianista de um trio, Araripa, que, nos anos 70, teve um breve, mas importantíssimo, papel na afirmação do jazz em Portugal. Os outros elementos do grupo eram o contrabaixista José Eduardo e o baterista João Heitor.

Até amanhã.

09 abril 2010

La leye del mercado


Ainda agora tinha dito que só algo de especial me faria voltar aqui antes de segunda ou terça-feira próximas, quando uma notícia que li na página da frente do jornal espanhol ABC no escaparate da tabacaria onde a minha mulher entrara me obrigou a fazê-lo. Ao que parece, duas clínicas da Andaluzia promovem actualmente um desconto de 20% em abortos às mulheres com menos de 30 anos e que possuam o Cartão Jovem.
Como se pode, digo eu, resistir a saldos tão aliciantes?

Até estou já bem de saúde


Mas circunstâncias várias têm-me impedido de vir até aqui. Espero recomeçar em breve, lá para segunda ou terça, se, entretanto, não houver nada de notório que me faça adiantar a data do regresso. Duvido. A cena política e cultural do país cada vez me merece menos comentários - é que ele há coisas que já nem se comentam sem se passar por parvo.
Até para a semana, portanto. Até lá, cliquem aqui. Só para não dizerem que eu nunca lhes dei nada.
Ah! A foto é de um companheiro de quatro patas que me adoptou, há um ano e picos. Tirei-a mais ou menos nessa altura, com o telemóvel.

01 abril 2010

Coincidências...


Segundo o Expresso, o Libération não saiu em Portugal na 5ª feira passada, 18 Março, por "problemas de impressão".
Ah bon...! (clicar, para ver o link que me foi enviado)

28 março 2010

Pois...


Este meu período de assoberbamento das possíveis combinações entre problemas de saúde com uma multiplicidade de pequenos problemas que, a não serem resolvidos, poderão alcançar dimensões indesejáveis tem vindo a prolongar-se desde há um ano. Daí que, por hoje, acabe por publicar apenas um poema de Nicolau Saião e que só lá para 4ª feira possa voltar aqui.
Até lá.

U L I S S E S

I

A minha saudade, disse o velho, é como um sonho
e o meu sonho, por seu turno, faz aparecer o vento.
Nos meus antigos rastos há um vestígio que não reconheço
de coisas que toquei ao acaso e que eram simples como uma planta
ressequida e posta junto ao meu leito
(Leito onde não repousei
onde eram exíguas as presenças da morte
onde havia pássaros como em gaiolas familiares
com estranhos roteiros e silhuetas
tal qual os passos que alguém deixa
inscritos na terra húmida
ou nos ladrilhos do chão duma casa devastada).
No primeiro andar daquele prédio além
sente-se tenuemente um vago odor de corpos
de gente vestida como para uma festa
que não chegará nunca (bonecos de porcelana quebrados
e cobertos de pó, ao lado
de um copo sujo de café) - assim o velho, agora definitivamente desperto
continuou, como se as palavras existissem -
O fogo e o suor geram nas suas entranhas o momento
de andar por estas ruas como por país conquistado.

O orvalho é como uma gota de vinho sobre o tampo da mesa
e não há por detrás nem espírito nem melancolia. Era já noite quando alguém
andrajoso foi pé ante pé junto da porta
a segunda porta, onde os retratos reluzem
entre os breves fulgores da aurora.

II

Abre-te ao meu desgosto, acolhe
em tuas mãos sarcasmo e incerteza. É necessário
saber que o horizonte nestas montras
é o mesmo que paira sobre esqueletos e corpos vivos
- o horizonte impreciso aonde o sol
traça como que a linha já desfeita
dum rosto, frutos, mistérios. Que esta manhã, ao menos
oferte a quem a busca
outras recordações.

O vento está em ti como um soluço
As ramadas das árvores, no parque
são como a geometria que esquecêmos
de diferentes lugares, de quartos que habitámos
e que vivem em nós como sementes
crescendo no negrume. Ficaremos aqui
nas veredas percorridas em silêncio

olhando ao longe pinhais e nuvens errantes
retocadas a lápis, vagamente
como laranjais ao crepúsculo
E mil bocas serão a nossa boca
além do muro de pedra onde a nossa mão repousou
ou apenas ficou por um minuto
como dedos dobrados
sobre amarfanhados tecidos. Como a escrita
de alguém já morto já transformado em nome. Ninguém

semeou o trigo que comeste
o pão já ressequido, já esquecido
em momentos de febre ou de amargura
em horas abandonadas, sobrepostas
e em repouso e de novo abandonadas
- imagem que incansavelmente se procura
em pessoas e coisas, em instantes
perdidos para sempre. Refaz de novo o tempo
que humildemente foi

raiz, montanha o vácuo.

III

Convosco se divide não apenas a alegria
mas também o que perdura em quanto se acha
e é pequeno ou talvez iluminado -
a fruta devorada em tempo vário
ou apenas tabaco, fina ardósia
da memória deposta em estranhos dias
alheias algibeiras. Chorando
ora na manhã, ora na noite
(a noite e a manhã palavras
que nada dizem, nada significam
entre ilha e ilha
onde as flores de acanto equivalem perfumes mais terrenos
Maderas del Oriente brise de soie palmolive)
gemendo
se não vinha a frase mais certeira
- um tanto ao norte um tanto ao sul -
do teu para o meu rosto. Mansamente
ali rejuvenesce a nossa voz
Sob os ramos da casa, junto à triste
lembrança olhada a medo, mal rompera
a luz cruzada na colina.

Mãe
ou pai -
em todo o caso pessoas que não esquecem
agora que sussurra contra o leme
este vago Oceano -

iria ser, de brancos cabelos tecendo
ora a ternura ora um fino tédio. Garatujas
numa pedra ou numa parede suja
Momentos que gravaram dentro em nós
se este afinal dizer não é algo excessivo
na saleta em penumbra ante as imagens que dançam

pranto, riso, ciúme ou fria chuva.

IV

Esta foi a casa que sempre procurei
Nela coloquei minha memória, os livros, duas camisas
velhas Nela irei aguardar os símbolos zodiacais
visitas de família, um gato. Sem veredas em torno
- sem vento, inda p’ra mais, que a vela enfune -
acharei no Inverno seu perfil
de manhã solitária, enevoada
pela figura cujos passos soam
como que pressentidos. Aqui e ali porei
resíduos de conversas, a sombra da mão
dum cadáver que vi na infância - primeiro cadáver
como uma ferida fumegante, corpo morto farol
de incontáveis navegações -
tronco ou cabeça, sovaco, perna, pé
que nunca pude esquecer
E luzes, luzes como reflexos numa janela fechada
(No páteo, entre os cavalos de Heliodoro
Manuel da Silva Pericão os lençóis ondulavam
porque era sua Mãe estalajadeira
também servia refeições para fora)
solene, tumultuosa, às vezes aberta
para as meninas verem a procissão
dos que a Creta voltavam os que aprendiam a morrer
quem sabe por vezes numa auto-estrada
E será como um grande mundo atravessando os minutos
de par a par, perenemente reconhecível.

Aqui e ali um bicho um coelho, um retrato
de um primo montado num burro, um banco de madeira
perdido há muitos anos e de repente o som dum objecto partindo-se
sozinho, e em meu redor nem sonhos nem temor.

No quarto mais sombrio, ou seja
mais tranquilo
entre a espada que protegeu as minhas treze viagens
e um boneco de pano oferta da TWA
um odor bem diferente: as velhas flores do quintal abandonado
e uma cadeira com cadernos em cima, um som de água repentino.
Vale dizer: aqueles que à beira do Outono morrem
têm, presume-se, a tarefa facilitada -


quietude, doce lembrança para anos de fome
mágoa, página tão profunda, tão maneirinha
silêncio, bússola para todos os instantes
Serenas companhias envolvendo a nossa fadiga
presenças que o nosso amor forçou a adormecer.
O pasmo há-de envolver as ramagens em torno das paredes
há-de, no tecto, brilhar qualquer coisa fugidia.
Há-de haver, ao largo de Corinto, um som de sino rachado.

A noite, a noite que é fria, que fende com seu lume profundo
há-de encontrar-me algures, com velhas palavras caindo

como flocos de neve ora azuis, ora vermelhos.

26 março 2010

Promessas, leva-as...


... tudo aquilo que se atravessa inesperadamente no nosso caminho. E esta semana, em que havia prometido publicar, entre outras coisas, os textos de Nicolau Saião, há tanto tempo em espera, não consegui fazê-lo houve de quase tudo. Tentarei por isso colocá-los aqui amanhã ou, no máximo, domingo.
Até lá, deixo aqui esta fotografia de uma oliveira, na esperança de que ela seja, ao menos, de Portalegre.

21 março 2010

No Dia Mundial da Poesia

Quadro de Paul Delvaux
Recebi mesmo agora a notícia de que a minha amiga de juventude Raquel Seabra Pinto, a quem ouvi alguns dos poemas mais autênticos de que me lembro, mas que desde muito cedo se remeteu ao silêncio, faleceu hoje, no IPO, devido a um linfoma. Aqui deixo um desses seus poemas, sem mais quaisquer outras palavras.

Sobre a planura as suas asas espraiando
o anjo vigia e guarda.
À noite as águas silenciosas da laguna
reflectem-lhe o dorso, curvado sobre as
árvores frias.
Mãos invisíveis tecem-lhe nos cabelos
segredos antigos
que os homens esqueceram há muito
ou nunca sequer souberam
E parte, por sobre as nuvens
recortadas a luz ardente.
Irremediavelmente, parte.

Da poesia

António Aleixo

Nicolau Saião, de quem tenho recebido uns quantos belos (alguns, belíssimos!) textos, cujo conjunto publicarei num único post durante esta semana (estejam, portanto, atentos), enviou-me há bocadinho um excerto de uma entrevista dada pelo professor e ensaísta brasileiro Luís Costa Lima à revista Sibila, publicada no Brasil e EUA, na qual afirma isto, que eu subscrevo inteiramente (quanto à fotografia do Aleixo, bem... não será difícil perceber, pois não?):

"Estou plenamente de acordo em que o melhor incremento à mediocridade invasora está no que chamo de “doença senil do ‘espírito 68’”. Por preguiça, comodismo, covardia, se não mesmo por ignorância, aceitamos como poesia o que não passa de uma balbúrdia de associações livres ou lembranças eróticas ou sentimentais passíveis de ser reconhecidas por qualquer um. Se o autor de tais banalidades encontrar um canal que o difunda e um marqueteiro de prestígio, poderá estar seguro de ser reconhecido como poeta. Duas coisas ademais o ajudarão a se manter neste infame panteão: por um lado, desde que os critérios oficiais foram desmoralizados pelo êxito das vanguardas do começo do século XX, os que se dedicam à apreciação da poesia e da pintura passaram a temer ser reconhecidos como caretas, conservadores e quadrados; por outro, há muito pouco espaço para que discussões de nível se estabeleçam. Por isso, repito, mais importante que a conversa que aqui estabelecemos é a sua própria iniciativa".

20 março 2010

18.000


A propósito do número de abortos, perdão!, interrupções voluntárias (da parte da ou de ambos os objectores, o feto só fala depois do cão) da gravidez, José Gonsalo publicou há pouco, no Fiel Inimigo, este muito oportuno e interessante texto, cuja leitura eu também recomendo.

17 março 2010

16 março 2010

Os santos demagogos, perdão!, pedagogos



Os recentes casos ocorridos desde há um mês, em que
- um aluno, em estado de descontrolo emocional provocado por actos de violência de colegas sobre ele, se terá suicidado;
- um professor teve que receber assistência hospitalar, por um seu aluno o ter agredido com uma cadeira, a pretexto de uma nota injusta;
- um outro professor se suicidou, por não suportar o caos diário das aulas e os insultos que recebia na escola onde leccionava música
são a clara confirmação de que - ao contrário de países atrasados como o Japão, onde se continua a insistir na permanência, tecnicamente primária, do quadro negro e do giz, no obsoletismo da disciplina e num antiquado respeito pelo professor - a via impulsionada pelos quadros técnico- políticos que enxameiam o Ministério da Educação desde a entrada em cena da superior luz demagógica, perdão!, pedagógica do sr. eng. Roberto Carneiro, através da qual:
- se multiplica a obrigação de relatórios dos professores sobre si próprios e sobre os alunos, como forma privilegiada da constituição do enquadramento fundamental do acto educativo pela permanente reflexão sobre o mesmo, buscando as condições ideais a que deve obedecer o funcionamento harmonioso da comunidade escolar (para a próxima, após nova e cuidada reflexão, procurarei ser mais claro ainda - mas sempre em eduquês!);
- se melhora o aproveitamento destes, através da distribuição de computadores que, de tão pioneiros, merecem o nome de Magalhães,
constitui uma autêntica via rápida que nos encaminha, como fácil e presentemente já se pode observar à saciedade, para a elevada e humanista condição de guia espiritual do mundo vindouro.
O espelho de tudo isto consubstancia-se, por exemplo, na crónica de domingo passado, na PÚBLICA, do para sempre louvado Professor Doutor Daniel Sampaio, profundo conhecedor da realidade escolar e dos seus arredores, do alto de cuja fronte o futuro nos contempla, e que tanto tem vindo a contribuir, com a sua autoridade e postura, para a educação do nosso querido torrão natal. Nessa crónica, tão excelsa criatura que Deus nos providenciou para o devido aconselhamento dos transviados, propõe, como solução para o problema, a constituição de uma CAB (comissão antibullying) em cada escola, a qual estudará «formas de combater todos os tipos de bullying, físico, psicológico, social, pelas novas tecnologias (...)» e que, «a médio prazo, promove na escola a resolução de conflitos, a mediação escolar, o envolvimento dos pais e da comunidade (acções específicas) e a capacitação dos professores e dos auxiliares educativos». E termina com uma frase, que é um autêntico exemplo de um mandamento moral de um ser superior, fundamentada num conhecimento verdadeira e inquestionavelmente científico, meigamente admoestadora de todos os preguiçosos e que todos os justos, aqueles que, no fim, serão salvos, certamente venerarão: «Dá trabalho, mas é o único caminho.»
Outro exemplo ainda, ouvi-o eu, esta tarde, num telejornal, vindo da senhora Ministra da Educação, alçando, perante os jornalistas, da medida de dar maiores poderes às Direcções das escolas para suspenderem os alunos bulhentos, perdão!, bulharentos, perdão!, poluentes, perdão!, bulluyentes, assim atacando os problemas na sua raiz, para definitiva confiança de Portugal no primeiro-ministro José Sócrates.
Tudo isto acompanhado por uma dúzia de caipirinhas e nada me perturbará o sono. Amanhã, o sol brilhará e que não me doa a cabeça!

Actos falhados...


11 março 2010

07 março 2010

04 março 2010

José Manuel Capêlo


A propósito da morte de José Manuel Capêlo, há exactamente uma semana atrás, 25 de Fevereiro, Nicolau Saião enviou-me um texto, entretanto também já publicado no Fundação Velocipédica, que transcrevo em seguida.

NA MORTE DE JOSÉ MANUEL CAPÊLO

À BEIRA DO MÊS DE MARÇO

Conheci José Manuel Capêlo na segunda metade dos idos de oitenta, numa tarde em que por intermédio de José do Carmo Francisco nos encontrámos ao pé da Estação do Rossio sob um sol quente de Verão.
Combináramos de antemão por carta, pois nem sequer se sonhava com telemóveis ou mensagens interactivas, essa jornada em que iríamos passar uma considerável parte do resto do dia num pequeno restaurante ao Bairro Alto, amparados por uns comes-e-bebes de bom porte que foram uma espécie de enquadramento para uma conversa algo rabelaisiana: gostava de comer e de beber, o autor de “Fala do Homem Sozinho”, de “Rostos e Sombras”, de “O incontável horizonte”, falava profusamente na sua voz bem timbrada e era de simpatia rápida. Não estaria mal entre goliardos, entre joviais companheiros num banquete onde houvesse iguarias e poesia entremeadas. Complexo e claramente fantasista, tinha projectos que uns se concretizariam e outros ficariam apenas esboçados. O que, perante alguns menos contentáveis o feriu frequentemente, pois o seu fundo imaginativo era por vezes atraiçoado por uma veloz mudança de cenários, que o metiam – soube-o depois - em andanças um pouco menos que rocambolescas.
Mas era aberto e comunicativo, expansivo e poeta bastante para nos cativar e, mesmo, permitir-nos passar por alto certo pendor baloiçante de alguma navegação sua.
Devido a essa simpatia mútua logo com generosidade me convidou a participar na noite seguinte, para conversarmos e dizermos poemas, num programa de rádio que tinha numa das localidades da Grande Lisboa. Aboletou-me em sua casa e entre o petiscar afável da cozinha britânica (estava consorciado, nessa época, com uma senhora inglesa) em que nos compaginámos, contou-me estórias movimentadas que colhera nos sete céus e nos catorze continentes devido à sua profissão de comissário de bordo da TAP. Todo ele esfuziava e, si non è vero è bene trovato, mostrou-me um filme bastante conhecido (O Bom, o Mau e o Vilão de Sérgio Leone) em que entrara como figurante (médico militar nas cenas após uma escaramuça da Guerra da Secessão) junto a Clint Eastwood, Lee van Cleef e Eli Walach.
O programa a que me levou estava bem estruturado, era aliciante e ele conduziu a emissão de uma forma competente e que me permitiu excursionar com certo desembaraço por coisas do Alentejo, da noite circundante, da escrita e, em suma, da aventura de viver.
Devido a isso, num repente e suscitado pela sua figura bem recortada, criei a partir do seu aspecto físico (com a sua agradada aquiescência) o meu personagem Doutor José Jagodes, o misto de pensador-pirata que alguns dias depois apareceria em “O Distrito de Portalegre” na sua primeira “aventura”, “O Jagodes em Espanha”.
Em princípios de 88, telefonou-me e convidou-me a participar numa antologia que teria o título de “Palavras – sete poetas portugueses contemporâneos”. Como as coisas da edição, ontem como hoje segundo julgo saber, não eram fáceis, o colectivo acertara esportular uma quantia que minorasse os custos. Como eu nessa época, devido a circunstâncias do meu erário de pai de família andava ligeiramente descapitalizado, informei-o de que não me seria possível abrir os cordões à bolsa, ficando com pena minha fora das suas deles cogitações. Ele disse-me que iria ver…
E o livro veio de facto a lume, com um prefácio de João Rui de Sousa - que na altura só conhecia de nome - que me era muito favorável. Soube então que a minha parte a pagara ele do seu bolso.
O lançamento foi numa conhecida livraria da capital, com galeria de pintura anexa e chão de empedrado como nas ruas finas. E se aludo a isto com pormenor é porque se verificou nesse evento uma situação que tenho por razoavelmente curiosa, pouco abonatória da minha proverbial distracção e que muito divertiu o nosso Capêlo que com senso de humor me xingou cordialmente durante todo o jantar que se seguiu, num entreposto do Bairro Alto em que também me fizeram cantar para poderem aquilatar dos meus hoje já diminuídos dotes vocais…
Sentados na mesa dos oradores, acompanhados do actor-declamador João D’Ávila que iria ter o encargo de dizer o acervo de poemas escolhidos, eu tive a sensação de que diversos membros da assistência que enchia completamente o salão os conhecia de algum lado que não divisei, a princípio, perfeitamente.
E o evento seguiu seu curso, com agrado geral e aplausos – e recordo que no final e antes dos autógrafos um dos membros da assistência, também ele poeta (Paulo Brito e Abreu), me veio simpaticamente cumprimentar e exprimir-me o seu apreço sincero.
E a dada altura, já o nosso Capêlo me propiciara a companhia de um copo de tinto pundonoroso e aconselhara provasse uns panadinhos muito salubres, aproximou-se de mim uma senhora alta, com aspecto cordial e franco, que me disse: “Importa-se…? É para mim e para o meu marido”. “Com todo o gosto minha Senhora – retorqui eu imediatamente. E logo a seguir: “Pode fazer a fineza de me dizer o seu nome e o de seu esposo?”.
A senhora olhou-me um pouco intrigada. Deve, acho eu, ter pensado: “Estes poetas…são todos uns despassarados de marca…” ou qualquer coisa pelo estilo. Mas, com delicadeza, acrescentou de pronto: “Ora então ponha, faz favor: Maria e Aníbal…!”.
E foi então, estimulado por uma discreta cotoveladazinha nas costas dada pelo Capêlo, que se me fez luz...
As pessoas que eu parecia conhecer de qualquer lado eram políticos colunáveis: secretários de Estado, um que outro ministro, deputados e membros de formações partidárias. E a senhora…já adivinharam…era a Senhora de Cavaco Silva, que na altura estava primeiro-ministro. E devia-se a presença, solidária, de todos eles à circunstância de um dos antologiados ser Fernando Tavares Rodrigues, na época director-geral da Informação e figura destacada do PSD...!

Soube recentemente que JMC, numa sequência a que o seu interesse pela História e o Mito o levava, escrevera uma obra que me dizem de gabarito sobre o universo templário luso. A sua poesia, que fui encontrando enquanto participante-conviva em diversas publicações ou a constante em livros que ciclicamente me fazia chegar, tem uma estrutura discursiva e apaixonada de bom quilate. Ele era um intenso, mas caldeava essa característica por uma feitura sabedora, o que lhe permitia fazer excursionar a sua escrita de maneira consequente e muitas vezes com uma indubitável alta qualidade. E se por vezes se deixava enredar por uma certa deambulação declamatória, creio que o devia ao seu excesso de vitalidade, pois naquela época era vigoroso e ainda não tivera de abandonar, por mando dos esculápios, conforme me foi dito, as saborosas refeições e o corolário de um cigarro ou um charuto reconfortante.

À beira do mês de Março, quase no fim de Fevereiro, um AVC fulminante levou-o para outros espaços aos 64 anos, ao José Manuel Capelo, poeta, viajante dos céus, albicastrense de gema e sonhador de inspirações várias.
Saúdo-o com um evohé fraternal e sentido.

ns

Sting&Branford Marsalis - Roxanne

03 março 2010

Tal como na velha piada da bicicleta...


... aqui, ao menos, o burro sempre pode puxar sentado...!

27 fevereiro 2010

Agora, a sério...!


Já não vou demorar muito a emergir de alguma letargia, provocada pelos problemas de saúde, entretanto mais ou menos resolvidos (raio da coluna!).
Entretanto, fiquem com esta.

23 fevereiro 2010

A quem interesse


Já aqui deixei uma referência ao blog Tetraplégicos, que descobri há tempos, por acaso, e que coloquei desde logo nos favoritos, dada o excelente trabalho que nele tem sido feito. Chamo hoje a atenção para um post de enorme importância para quem necessite do que nele é noticiado.
O Eduardo continua de parabéns.

18 fevereiro 2010

Toca a acordar!


É que, convençam-se, há mesmo candidatos a papão que existem fora dos sonhos e das histórias que nos dão sono, a crianças e adultos... (leiam ainda alguns dos comentários, que acrescentam mais episódios).
NOTA: Desconheço a razão pela qual o serviço de moderação de comentários decide, de vez em quando, entrar em autogestão, fazendo "vista grossa" a alguns deles. Aconteceu alguns posts atrás, como eu próprio assinalei na caixa correspondente e aconteceu também com um segundo comentário ao post anterior, que, por mais que eu tente, não "cola". Estou a tentar perceber o que se passa.

16 fevereiro 2010

Do carácter da UE


Quando alguém como Vítor Constâncio conta com apoios suficientes dentro da União Europeia para conseguir alcançar o lugar de vice-presidente do BCE, será preciso dizer mais sobre a Europa que se constitui na sombra e no silêncio?

13 fevereiro 2010

Em falta


Deixo-vos hoje este belo poema de Nicolau Saião (entretanto já publicado no Fundação Velocipédica e que ele mesmo, à data, me enviou também), embora sem a ilustração de Pedro Sevylla de Juana que o acompanha originalmente, a qual, com pena minha, não consigo transpor para o post. Em sua substituição, deixo esta fotografia, recolhida aqui.

AS COISAS

As coisas multiplicam-se
muito mais que as pessoas. Só elas
possuem o segredo de tranquilamente jazer
entre as ervas, as águas, as ruínas
ausentes e presentes. A sua pele
é mais fina que a casca dos minutos
e contudo, sob o lume e o vento
sob a terra em que os passos já não soam
ou no deserto violento das palavras
as coisas repousam
ou, subitamente iluminadas
gritam e falam-nos com movimentos graves
adejando como estranhos pássaros nocturnos
ou como trémulos animais interditos.

As coisas
sofrem
elas sofrem como se existissem noutra esfera
próxima de nós
como uma Lua oculta, como um peixe fantasma
como uma flor solitária numa casa abandonada
como um gato que no sono se agita pleno de medo
As coisas
minúsculas, gigantescas, iguaizinhas a nós
ensanguentadas pelo nosso terror e a nossa cólera
sob as nossas mãos
entre os nossos cabelos
repousando junto a nós quando dormimos
calmas como o ruído dum comboio numa cidade matutina
As coisas
respirando devagarinho nas nossas memórias
andando junto às nossas recordações como se fossem
um elefante, um rato, um cão fiel
feitas de barro, as coisas
de madeira ou de cera, de vidro ou de cimento
feitas de cristal e de platina, de celulóide
do fresco celofane, de aço e de papel
pobres coisas num rés-do-cão amontoadas
esquecidas como um trapo manchado
livres e belas
nosso testamento, papiro para milénios a vir
As coisas
sempre atentas, sempre dormindo esperando o despertar
o silencio luminoso
As coisas

nossas irmãs de mundo, nossas filhas, nosso sinal perfeito
neste universo que é o nosso resumido encontro
com a sua

eternidade acontecida.
in Os Objectos Inquietantes

12 fevereiro 2010

O trambolho


Ontem à noite, no programa Corredor do Poder, transmitido quinzenalmente pela RTP1, Nuno Melo, do CDS, demonstrou - a meu ver, irrefutavelmente - o teorema seguinte:
"Henrique Granadeiro declarou publicamente que avisara o primeiro-ministro de que iria apresentar à CMVM a candidatura da PT à compra da parte da empresa espanhola Prisa na TVI;
A PT entregou à CMVM o documento oficial comprovativo dessa sua mesma intenção, em 22 de Junho de 2009;
No dia seguinte, 23 de Junho, porém, o primeiro-ministro afirmou na Assembleia que desconhecia, por completo, essa intenção;
Conclui-se, assim, que o primeiro-ministro mentiu à Assembleia da República."
Quod est demonstratum.
Não interessa, portanto, se foi num jantar que Henrique Granadeiro lho disse, se foi ao lanche, ao jantar ou até ao pequeno-almoço. O primeiro-ministro terá mentido com quantos dentes Deus ou a Natureza lhe deu, à Assembleia da República.
E um primeiro-ministro que mente à Assembleia da República não existe como primeiro-ministro. É um trambolho político.
A pergunta seguinte é: e o que faz um trambolho como primeiro-ministro?

07 fevereiro 2010

Maquiavel...

Sebastián de Covarrubias, A Inveja (século XVI)


... deve estar a roer-se, por não poder ter dado uma entrevista como esta (via Fiel Inimigo)...

02 fevereiro 2010

Do nojo (2)


Diz o velho socialista Henrique Neto (texto recolhido aqui)

Sou amigo do Mário Crespo há muitos anos e tenho-o na conta de um homem independente e sério, o que não significa que partilhe muitas opiniões com ele, ou que entenda que ele é um modelo de jornalismo. Também não acho isso de mim próprio, ou de ninguém em particular.
A liberdade é a coexistência de modelos e não a imposição de um em concreto.
Ao longo de mais de 30 anos de carreira jornalística - e nesse particular sou mais antigo do que o Mário - não me lembro de um cronista ser dispensado depois de a crónica estar pronta a ir para a oficina. E o que isto significa é que os limites da liberdade estão mais apertados do que nunca.
Tenho o director do JN, José Leite Pereira, na conta de um bom profissional e de um homem independente e sério. É jornalista há muitos mais anos do que eu, tem uma experiência considerável. Não creio que ele se impressione com uma crítica a Sócrates, como não creio que ele exigisse gratuitamente a Mário Crespo uma confirmação independente de fontes. Provavelmente, não o faz (nenhum de nós o faz) quando, em vez de Sócrates, está um outro cidadão qualquer em causa.
Porém, no caso do primeiro-ministro as palavras são relevantes, já que proferidas por quem tem a responsabilidade do poder executivo neste país. É certo que a conversa pode ser considerada privada, mas é igualmente certo que o bom-nome de Mário Crespo foi atacado de forma pública, ou jamais seria ouvida por circunstantes que nada tinham a ver com a conversa.
O que se passa, então?
Posso tentar avançar uma explicação: Mário Crespo tornou-se incómodo para Sócrates (e até para Cavaco, que denunciou em algumas crónicas), e a sua incomodidade estava a deixar o próprio José Leite Pereira numa situação difícil. Por isso o director do JN recorreu a um excessivo escrúpulo jornalístico para resolver a questão. E decidiu não publicar a crónica.
Não posso condenar José Leite Pereira, não é do meu timbre julgar os outros. Apenas posso dizer que este é o panorama da nossa Comunicação Social: Grupos que dependem do poder do Governo, patrões que pressionam directores e editores até à exaustão, cronistas afastados por serem incómodos e uma multidão de lambe-botas que, prudentemente se cala ou arranja eufemismos para tratar a questão.
Tenho em comum com Mário Crespo o facto de trabalharmos num grupo onde nada disto acontece (felizmente não será o único). Talvez não estejamos inteiramente preparados para o mundo 'lá fora', onde as palavras têm de ser medidas, onde não se pode escrever preto no branco, como aqui faço, que Sócrates é o pior primeiro-ministro no que respeita à Comunicação Social; o único que telefona e berra com jornalistas, directores, com quem pode. O único em que nestes mais de 30 anos que levo de vida jornalística, se preocupa doentiamente com o que dizem dele, em vez de mostrar grandeza e fair-play com o que de errado e certo propaga a Comunicação Social.
Lamento dizê-lo, tanto mais que é nosso primeiro-ministro e seguramente tem trabalhado muito e o melhor que sabe.
Mas é a verdade, e num momento destes a verdade não se pode esconder.

01 fevereiro 2010

Do nojo (1)


Este texto de Mário Crespo deveria ter sido publicado hoje, no JN. Não o foi, pelos motivos que aqui se pode ler. Trinta e poucos anos depois, Portugal resvala, de novo, para a iniquidade dos medíocres e para abjeccção de carácter. O abismo não terá fim?!

O Fim da Linha

Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento.
O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa.
Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”. Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal.
Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o.
Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”. É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos.
Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados.
Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre.
Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009.
O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu.
O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”.
O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”.
Foi-se o “problema” que era o Director do Público.
Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu.
Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada.

Nota: Artigo originalmente redigido para ser publicado hoje (1/2/2010) na imprensa.

O comentário possível


Dias atrás, Ricardo Salgado, presidente do BES, chamava, apreensivamente, a atenção de todos para o facto da tributação sobre bónus e rendimentos variáveis de administradores e gestores poder fazer com que “gente muito valiosa” abandone Portugal para trabalhar noutro país". Ou seja, que somente os administradores gestores medíocres fiquem por cá, com as previsíveis consequências presentes e futuras para este nosso amado torrão natal.
Delicioso!

28 janeiro 2010

O pelintra pródigo


Manuel António Pina, no JN de ontem, 27 de Janeiro de 2010

A notícia vem no DN: o Governo português comprometeu-se a emprestar a Angola até 200 milhões de dólares. Para isso, apesar da dívida externa do país ultrapassar já os 100% do PIB (e com as agências de “rating” a anunciar, em face disso, o aumento das taxas de juro da remuneração da dívida), o Governo irá contrair um (mais um) empréstimo. A boa notícia é que o mais certo é que parte desses milhões, ao menos a das “comissões” e das “contrapartidas”, acabe por voltar a penates, seja através das empresas e dos negócios do costume, seja em artigos de “griffe” como relógios de ouro Rolex e Patek Philippe, pulseiras Dior e H. Stern, roupas Ermenegildo Zegna e até… casacos de peles, comprados nas lojas de luxo de Lisboa sem olhar a preços. De facto, as elites do regime angolano constituem hoje, segundo uma notícia publicada pelo “Expresso” em finais de 2009, 30% do mercado de luxo português. Que isso nos sirva de conforto, aos pelintras contribuintes portugueses, quando pagarmos a escandalosa factura dos 200 milhões. Porque, como diria o gondoleiro de “Morte em Veneza”, haveremos de pagá-la.

23 janeiro 2010

22 janeiro 2010

De uma esquerda contra-corrente


Quadrinho da (excelente!) série de BD O Vagabundo dos Limbos, de Godard e Ribera

"Afirmo a existência do direito a ter pai e mãe, o direito a possuir uma filiação. Os avatares históricos podem privar-nos do pai ou da mãe, podem fazer com que tenhamos pais adoptivos. O que não se pode fazer é programar órfãos. Não há o direito de se preparar o nascimento de um ser que será privado de pai ou de mãe, como se estes fossem simples aditamentos supérfluos. Creio que a nossa origem simbólica de uma dupla filiação masculina e feminina, e o apaixonamento ligado a essa dupla filiação, nos cria um imaginário que ninguém tem o direito de pôr de lado."
Fernando Savater
(via Delito de Opinião.blogspot)

18 janeiro 2010

Por motivos diferentes...


... tanto este texto como estoutro (de cuja autencidade duvido muitíssimo) merecem uma leitura atenta. Espero, entretanto, voltar, finalmente, em breve a uma postagem mais regular.
Até já.

Mitos e negociatas climáticas à parte...

Carmélio Cruz, Vila Abraão
... Buédafixe!

03 janeiro 2010

Do tempo


«O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei. No entanto, digo com segurança que sei que, se nada passasse, não existiria o tempo passado, e, se nada adviesse, não existiria o tempo futuro, e, se nada existisse, não existiria o tempo presente. De que modo existem, pois, esses dois tempos, o passado e o futuro, uma vez que, por um lado, o passado já não existe, por outro, o futuro ainda não existe? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse a passado, já não seria tempo, mas eternidade. Logo, se o presente, para ser tempo, só passa a existir porque se torna passado, como é que dizemos que existe também este, cuja causa de existir é aquela porque não existirá, ou seja, não podemos dizer com verdade que o tempo existe senão porque ele tende para o não existir».

Santo Agostinho, Confissões, XI 14


«En aquel pasaje de la Enéadas que quiere interrogar y definir la naturaleza del tiempo, se afirma que es indispensable conocer previamente la eternidad, que- según
todos lo saben – es el modelo y arquetipo de aquél… Leemos en el Timeo de Platón que el tiempo es una imagen móvil de la eternidad; y ello es apenas un acorde que
a ninguno distrae de la convicción de que la eternidad es una imágen hecha com substancia de tiempo.Una de las oscuridades, no la más árdua pero no la menos
hermosa, es la que impide precisar la dirección del tiempo. Que fluye del pasado hacia el porvenir es la creencia común, pero no es más ilógica la contraria, la fijada en
el verso español por Miguel de Unamuno:
Nocturno el rio de las horas fluye desde su manantial , que es el mañana eterno… »

Jorge Luis Borges, Historia de la eternidad

30 dezembro 2009

26 dezembro 2009

Como já devem ter reparado...


... ando ausente e, quando apareço, é para chamar a atenção para o que outrem disse. Em parte por excesso de trabalho, em parte por problemas de saúde, agora quase ultrapassados. É que isto de ser vertebrado, às vezes tem que se lhe diga! Depois, é Natal, é Natal...
Espero voltar lá para terça-feira.
Abraços e beijinhos, conforme o combinado.

17 dezembro 2009

Mais um email


RANCHÃO DE NATAL

É de casca o meu barquinho
E é de lixo esta cidade;
Aqui manda e segue a estrada
A louca erguida na tarde.

Pede esmola o tipo rasca
Pede ardor a fresca nata,
E em Lisboa, praça fora,
Dois irmãos a dar à pata.

«Cavaleiro, a tipa goza,
O meu quisto na cueca”
Para ti, real pateta
Da poesia a grande seca

II

E já brocha, aquela Santa,
Na igreja e a preceito:
Sua chuva, casa tonta,
Faz-nos vir com tudo feito

Esta missa em Sol e dós
E a burrice prò santão…
Eis que me venho p’ra vós,
Da fundura do caixão.

Natal o metes p’ra lá
Antes do sol-pôr chegar
Natal o metes p’ra cá
Pondo o bento a defecar

O silêncio é de cerimónia
neste Natal de toilette
Com santos à dependura
Nos fulgores duma retrete

Se a lua nos desse fruto
Se o sol nos desse conchego
Se Portugal fosse o luto
Dum fato posto no prego

Que o rito que alguns nos dão
Faz arrotar devagar
Depois da missa do galo
Com todo a gente a chorar

Não quero a religião
nem quero enganos a esmo
quero só a liberdade
inda que feito em torresmo.

ELÓI SARNADAS

Novamente, recebido por email...


... novamente, ao que me dizem, da autoria de Mário Crespo (desta vez não confirmei essa autoria, mas estou, na mesma, de acordo com o que aqui é dito).

Portugal precisa de jactos executivos para transporte de governantes?

Pronto! Finalmente descobrimos aquilo de que Portugal realmente precisa: uma nova frota de jactos executivos para transporte de governantes. Afinal, o que é preciso não são os 150 mil empregos que José Sócrates anda a tentar esgravatar nos desertos em que Portugal se vai transformando. Tão-pouco precisamos de leis claras que impeçam que propriedade pública transite directamente para o sector privado sem passar pela Partida no soturno jogo do Monopólio de pedintes e espoliadores em que Portugal se tornou. Não precisamos de nada disso.
Precisamos, diz-nos o Presidente da República, de trocar de jactos porque aviões executivos "assim" como aqueles que temos já não há "nem na Europa nem em África". Cavaco Silva percebe, e obviamente gosta, de aviões executivos. Foi ele, quando chefiava o seu segundo governo, quem comprou com fundos comunitários a actual frota de Falcon em que os nossos governantes se deslocam.
Voei uma vez num jacto executivo. Em 1984 andei num avião presidencial em Moçambique. Samora Machel, em cuja capital se morria à fome, tinha, também, uma paixão por jactos privados que acabaria por lhe ser fatal.
Quando morreu a bordo de um deles tinha três na sua frota. Um quadrimotor Ilyushin 62 de longo curso, versão presidencial, o malogrado Antonov-6, e um lindíssimo bimotor a jacto British Aerospace 800B, novinho em folha. Tive a sorte de ter sido nesse que voei com o então Ministro dos Estrangeiros Jaime Gama numa viagem entre Maputo e Cabora Bassa. Era uma aeronave fantástica. Um terço da cabina era uma magnífica casa de banho. O resto era de um requinte de decoração notável. Por exemplo, havia um pequeno armário onde se metia um assistente de bordo magro, muito esguio que, num prodígio de contorcionismo, fez surgir durante o voo minúsculos banquetes de tapas variadíssimas, com sandes de beluga e rolinhos de salmão fumado que deglutimos entre golinhos de Clicquot Ponsardin. Depois de nos mimar,
como por magia, desaparecia no seu armário. Na altura fiz uma reportagem em que descrevi aquele luxo como "obsceno". Fiz nesse trabalho a comparação com Portugal, que estava numa craveira de desenvolvimento totalmente diferente da de Moçambique, e não tinha jactos executivos do Estado para servir governantes.
Nesta fase metade dos rendimentos dos portugueses está a ser retida por impostos. Encerram-se maternidades, escolas e serviços de urgência. O Presidente da República inaugura unidades de saúde privadas de luxo e aproveita para reiterar um insuspeitado direito de todos os portugueses a um sistema público de saúde. Numa altura destas, comprar jactos executivos é tão obsceno como o foi nos dias de Samora Machel. Este irrealismo brutalizado com que os nossos governantes eleitos afrontam a carência em que vivemos ultraja quem no seu quotidiano comuta num transporte público apinhado, pela Segunda Circular ou Camarate, para lhe ver passar por cima um jacto executivo com governantes cujo dia a dia decorre a quilómetros das suas dificuldades, entre tapas de caviar e rolinhos de salmão. Claro que há alternativas que vão desde fretar aviões das companhias nacionais até, pura e simplesmente, cingirem-se aos voos regulares.
Há governantes de países em muito melhores condições que o fazem por uma questão de pudor que a classe que dirige Portugal parece não ter.
Vi o majestático François Miterrand ir sempre a Washington na Air France. Não é uma questão de soberania ter o melhor jacto executivo do Mundo. É só falta de bom senso. E não venham com a história que é mesquinhez falar disto. É de um pato-bravismo intolerável exigir ao país mais sacrifícios para que os nossos governantes andem de jacto executivo. Nós granjearíamos muito mais respeito internacional chegando a cimeiras em voos de carreira do que a bordo de um qualquer prodígio tecnológico caríssimo para o qual todo o Mundo sabe que não temos dinheiro.

14 dezembro 2009

Recebido por email



O palhaço

de: Mário Crespo

Ou nós, ou o palhaço.
O palhaço é inimputável.
O palhaço compra empresas de alta tecnologia em Puerto Rico por milhões, vende-as em Marrocos por uma caixa de robalos e fica com o troco. E diz que não fez nada. O palhaço compra acções não cotadas e num ano consegue que rendam 147,5 por cento. E acha bem.
O palhaço escuta as conversas dos outros e diz que está a ser escutado. O palhaço é um mentiroso. O palhaço quer sempre maiorias. Absolutas. O palhaço é absoluto. O palhaço é quem nos faz abster. Ou votar em branco. Ou escrever no boletim de voto que não gostamos de palhaços. O palhaço coloca notícias nos jornais. O palhaço torna-nos descrentes. Um palhaço é igual a outro palhaço. E a outro. E são iguais entre si. O palhaço mete medo. Porque está em todo o lado. E ataca sempre que pode. E ataca sempre que o mandam. Sempre às escondidas. Seja a dar pontapés nas costas de agricultores de milho transgénico seja a desviar as atenções para os ruídos de fundo. Seja a instaurar processos. Seja a arquivar processos. Porque o palhaço é só ruído de fundo. Pagam-lhe para ser isso com fundos públicos. E ele vende-se por isso. Por qualquer preço. O palhaço é cobarde. É um cobarde impiedoso. É sempre desalmado quando espuma ofensas ou quando tapa a cara e ataca agricultores. Depois diz que não fez nada. Ou pede desculpa. O palhaço não tem vergonha. O palhaço está em comissões que tiram conclusões. Depois diz que não concluiu. E esconde-se atrás dos outros vociferando insultos. O palhaço porta-se como um labrego no Parlamento, como um boçal nos conselhos de administração e é grosseiro nas entrevistas. O palhaço está nas escolas a ensinar palhaçadas. E nos tribunais. Também. O palhaço não tem género. Por isso, para ele, o género não conta. Tem o género que o mandam ter. Ou que lhe convém. Por isso pode casar com qualquer género. E fingir que tem género. Ou que não o tem. O palhaço faz mal orçamentos. E depois rectifica-os. E diz que não dá dinheiro para desvarios. E depois dá. Porque o mandaram dar. E o palhaço cumpre. E o palhaço nacionaliza bancos e fica com o dinheiro dos depositantes. Mas deixa depositantes na rua. Sem dinheiro. A fazerem figura de palhaços pobres. O palhaço rouba. Dinheiro público. E quando se vê que roubou, quer que se diga que não roubou. Quer que se finja que não se viu nada.
Depois diz que quem viu o insulta. Porque viu o que não devia ver.
O palhaço é ruído de fundo que há-de acabar como todo o mal. Mas antes ainda vai viabilizar orçamentos e centros comerciais em cima de reservas da natureza, ocupar bancos e construir comboios que ninguém quer. Vai destruir estádios que construiu e que afinal ninguém queria. E vai fazer muito barulho com as suas pandeiretas digitais saracoteando-se em palhaçadas por comissões parlamentares, comarcas, ordens, jornais, gabinetes e presidências, conselhos e igrejas, escolas e asilos, roubando e violando porque acha que o pode fazer. Porque acha que é regimental e normal agredir violar e roubar.
E com isto o palhaço tem vindo a crescer e a ocupar espaço e a perder cada vez mais vergonha. O palhaço é inimputável. Porque não lhe tem acontecido nada desde que conseguiu uma passagem administrativa ou aprendeu o inglês dos técnicos e se tornou político. Este é o país do palhaço. Nós é que estamos a mais. E continuaremos a mais enquanto o deixarmos cá estar. A escolha é simples.
Cá para nós: a continuar assim, cheira-me que, um dia destes, ainda acontece alguma palhaçada ao Mário Crespo...

13 dezembro 2009

Se eu ainda tivesse alguma dúvida...


... quanto àquilo que aqui tenho vindo a afirmar desde sempre - que o PS e a esquerda no seu conjunto, mesmo aquela que nunca chegou ao governo, são os herdeiros mais directos do salazarismo no que respeita à mentalidade repressiva do poder em geral, que se instalou em Portugal desde a ponta final dos Descobrimentos (mas não só a esquerda) - este depoimento, a que se acrescenta este outro, tirar-mas-ia em definitivo.
É que ser polícia, relembro uma vez mais, não é uma profissão nem sequer uma forma de sobrevivência: é um estado de espírito.

11 dezembro 2009

Relembrando Wes Montgomery

Mesmo para quem viu e ouviu Fernando Lemos...


... faz depois de amanhã duas semanas no programa "Câmara Clara", na RTP2, aqui fica uma entrevista que deu ao blog http://artephotografica.blogspot.com/. É que é sempre um prazer estar com alguém inteligente.