13 outubro 2010

Sobre a árvore genealógica de Tiririca...


... disse já Medina Carreira à comunicação social:

A economia vai derrotar a democracia de 1976.

José Sócrates, é um homem de circo, de espectáculo. Portugal está a ser gerido por medíocres, Guterres, Barroso, Santana Lopes e este, José Sócrates, não perceberam o essencial do problema do país.

O desemprego não é um problema, é uma consequência de alguma coisa que não está bem na economia. Já estou enjoado de medidinhas. Já nem sei o que é que isso custa, nem sequer sei se estão a ser aplicadas.

A população não vai aguentar daqui a dez anos um Estado social como aquele em que nós estamos a viver. Este que está lá agora, o Sócrates, é um homem de espectáculo, é um homem de circo. Desde a primeira hora.

É gente de circo. E prezam o espectáculo porque querem enganar a sociedade.

Vocês, comunicação social, o que dão é esta conversa de «inflação menos 1 ponto», o «crescimento 0,1 em vez de 0,6». Se as pessoas soubessem o que é 0,1 de crescimento, que é um café por português de 3 em 3 dias... Portanto andamos a discutir um café de 3 em 3 dias... mas é sem açúcar.

Eu não sou candidato a nada, e por conseguinte não quero ser popular. Eu não quero é enganar os portugueses. Nem digo mal por prazer, nem quero ser «popularuxo» porque não dependo do aparelho político!"

Ainda há dias eu estava num supermercado, numa fila para pagar, e estava uma rapariga de umbigo de fora com umas garrafas, e em vez de multiplicar « 6 x 3 = 18 », contava com os dedos: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7... Isto não é ensino... é falta de ensino, é uma treta! É o futuro que está em causa!

Os números são fatais. Dos números ninguém se livra, mesmo que não goste. Uma economia que em cada 3 anos dos últimos 27, cresceu 1%... esta economia não resiste num país europeu.

Quem anda a viver da política para tratar da sua vida, não se pode esperar coisa nenhuma. A causa pública exige entrega e desinteresse.

Se nós já estamos ultra-endividados, faz algum sentido ir gastar este dinheiro todo em coisas que não são estritamente indispensáveis?

P'rá gente ir para o Porto ou para Badajoz mais depressa 20 minutos? Acha que sim?

A aviação está a sofrer uma reconversão, vamos agora fazer um aeroporto, se calhar não era melhor aproveitar a Portela?

Quer dizer, isto está tudo louco?"

Eu por mim estou convencido que não se faz nada para pôr a Justiça a funcionar porque a classe política tem medo de ser apanhada na rede da Justiça. É uma desconfiança que eu tenho. E então, quanto mais complicado aquilo for...

Nós tivemos nos últimos 10 / 12 anos 4 Primeiros-Ministros:

- Um desapareceu;

- O outro arranjou um melhor emprego em Bruxelas, foi-se embora;

- O outro foi mandado embora pelo Presidente da República;

- E este coitado, anda a ver se consegue chegar ao fim"

Em Portugal quem fala contra a corrupção ou é mandado para um "exílio dourado", ou então é entupido e cercado.

Mas você acredita nesse «considerado bem»? Então, o meu amigo encomenda aí uma ponte que é orçamentada para 100 e depois custa 400?

Não há uma obra que não custe 3 ou 4 vezes mais? Não acha que isto é um saque dos dinheiros públicos?

E não vejo intervenção da polícia... Há-de acreditar que há muita gente que fica com a grande parte da diferença!

De acordo com as circunstâncias previstas, nós por volta de 2020 somos o país mais pobre da União Europeia. É claro que vamos ter o nome de Lisboa na estratégia, e vamos ter, eventualmente, o nome de Lisboa no tratado. É, mas não passa disso. É só para entreter a gente.

Isto é um circo. É uma palhaçada. Nas eleições, uns não sabem o que estão a prometer, e outros são declaradamente uns mentirosos:

- Prometem aquilo que sabem que não podem."

A educação em Portugal é um crime de «lesa-juventude»: Com a fantasia do ensino dito «inclusivo», têm lá uma data de gente que não quer estudar, que não faz nada, não fará nada, nem deixa ninguém estudar. Para que é que serve estar lá gente que não quer estudar? Claro que o pessoal que não quer estudar está lá a atrapalhar a vida aqueles que querem estudar. Mas é inclusiva...

O que é inclusiva? É para formar tontos? Analfabetos?"

"Os exames são uma vergonha.

Você acredita que num ano a média de Matemática é 10, e no outro ano é 14? Acha que o pessoal melhorou desta maneira? Por conseguinte a única coisa que posso dizer é que é mentira, é um roubo ao ensino e aos professores! Está-se a levar a juventude para um beco sem saída. Esta juventude vai ser completamente desgraçada!

A minha opinião desde há muito tempo é: TGV - Não !

Para um país com este tamanho é uma tontice. O aeroporto depende. Eu acho que é de pensar duas vezes esse problema. Ainda mais agora com o problema do petróleo.

Bragança não pode ficar fora da rede de auto-estradas? Não?

Quer dizer, Bragança fica dentro da rede de auto-estradas e nós ficamos encalacrados no estrangeiro?

Eu nem comento essa afirmação que é para não ir mais longe...

Bragança com uma boa estrada fica muito bem ligada. Quem tem interesse que se façam estas obras é o Governo Português, são os partidos do poder, são os bancos, são os construtores, são os vendedores de maquinaria... Esses é que têm interesse, não é o Português!

Nós em Portugal sabemos resolver o problema dos outros: A guerra do Iraque, do Afeganistão, se o Presidente havia de ter sido o Bush, mas não sabemos resolver os nossos. As nossas grandes personalidades em Portugal falam de tudo no estrangeiro: criticam, promovem, conferenciam, discutem, mas se lhes perguntar o que é que se devia fazer em Portugal nenhum sabe. Somos um país de papagaios...

Receber os prisioneiros de Guantanamo?

Isso fica bem e a alimentação não deve ser cara...» Saibamos olhar para os nossos problemas e resolvê-los e deixemos lá os outros... Isso é um sintoma de inferioridade que a gente tem, estar sempre a olhar para os outros.

Olhemos para nós!

A crise internacional é realmente um problema grave, para 1-2 anos. Quando passar lá fora, a crise passará cá. Mas quando essa crise passar cá, nós ficamos outra vez com os nossos problemas, com a nossa crise. Portanto é importante não embebedar o pessoal com a ideia de que isto é a maldita crise. Não é!

Nós estamos com um endividamento diário nos últimos 3 anos correspondente a 48 milhões de euros por dia: Por hora são 2 milhões! Portanto, quando acabarmos este programa Portugal deve mais 2 milhões! Quem é que vai pagar?

Isso era o que deveríamos ter em grande quantidade.

Era vender sapatos. Mas nós não estamos a falar de vender sapatos. Nós estamos a falar de pedir dinheiro emprestado lá fora, pô-lo a circular, o pessoal come e bebe, e depois ele sai logo a seguir..."

Ouça, eu não ligo importância a esses documentos aprovados na Assembleia...

Não me fale da Assembleia, isso é uma provocação... Poupe-me a esse espectáculo...."

Isto da avaliação dos professores não é começar por lado nenhum.

Eu já disse à Ministra uma vez «A senhora tem uma agenda errada"» Porque sem pôr disciplina na escola, não lhe interessa os professores. Quer grandes professores? Eu também, agora, para quê? Chegam lá os meninos fazem o que lhes dá na cabeça, insultam, batem, partem a carteira e não acontece coisa nenhuma. Vale a pena ter lá o grande professor? Ele não está para aturar aquilo...Portanto tem que haver uma agenda para a Educação. Eu sou contra a autonomia das escolas Isso é descentralizar a «bandalheira».

Há dias circulava na Internet uma notícia sobre um atleta olímpico que andou numa "nova oportunidade" uns meses, fez o 12º ano e agora vai seguir Medicina...

Quer dizer, o homem andava aí distraído, disseram «meta-se nas novas oportunidades» e agora entra em Medicina...

Bem, quando ele acabar o curso já eu não devo cá andar felizmente, mas quem vai apanhar esse atleta olímpico com este tipo de preparação...

Quer dizer, isto é tudo uma trafulhice..."

É preciso que alguém diga aos portugueses o caminho que este país está a levar.

Um país que empobrece, que se torna cada vez mais desigual, em que as desigualdades não têm fundamento, a maior parte delas são desigualdades ilegítimas para não dizer mais, numa sociedade onde uns empobrecem sem justificação e outros se tornam multi-milionários sem justificação, é um caldo de cultura que pode acabar muito mal. Eu receio mesmo que acabe.

Até há cerca de um ano eu pensava que íamos ficar irremediavelmente mais pobres, mas aqui quentinhos, pacíficos, amiguinhos, a passar a mão uns pelos outros... Começo a pensar que vamos empobrecer, mas com barulho...

Hoje, acrescento-lhe só o «muito». Digo-lhe que a gente vai empobrecer, provavelmente com muito barulho...

Eu achava que não havia «barulho», depois achava que ia haver «barulho», e agora acho que vai haver «muito barulho». Os portugueses que interpretem o que quiserem...

Quando sobe a linha de desenvolvimento da União Europeia sobe a linha de Portugal. Por conseguinte quando os Governos dizem que estão a fazer coisas e que a economia está a responder, é mentira! Portanto, nós na conjuntura de médio prazo e curto prazo não fazemos coisa nenhuma. Os governos não fazem nada que seja útil ou que seja excessivamente útil. É só conversa e portanto, não acreditem...

No longo prazo, também não fizemos nada para o resolver e esta é que é a angústia da economia portuguesa.

"Tudo se resume a sacar dinheiro de qualquer sítio. Esta interpenetração do político com o económico, das empresas que vão buscar os políticos, dos políticos que vão buscar as empresas...Isto não é um problema de regras, é um problema das pessoas em si...Porque é que se vai buscar políticos para as empresas?

É o sistema, é a (des)educação que a gente tem para a vida política...

Um político é um político e um empresário é um empresário. Não deve haver confusões entre uma coisa e outra. Cada um no seu sítio. Esta coisa de ser político, depois ministro, depois sai, vai para ali, tira-se de acolá, volta-se para ministro... é tudo uma sujeira que não dá saúde nenhuma à sociedade.

Este país não vai de habilidades nem de espectáculos.

Este país vai de seriedade. Enquanto tivermos ministros a verificar preços e a distribuir computadores, eles não são ministros. São propagandistas! Eles não são pagos nem escolhidos para isso! Eles têm outras competências e têm que perceber quais os grandes problemas do país!

Se aparece aqui uma pessoa para falar verdade, os vossos comentadores dizem «este tipo é chato, é pessimista»...

Se vem aqui outro trafulha a dizer umas aldrabices fica tudo satisfeito...

Vocês têm que arranjar um programa onde as pessoas venham à vontade, sem estarem a ser pressionadas, sossegadamente dizer aquilo que pensam. E os portugueses se quiserem ouvir, ouvem. E eles vão ouvir, porque no dia em que começarem a ouvir gente séria e que não diz aldrabices, param para ouvir.

O Português está farto de ser enganado!

Todos os dias tem a sensação que é enganado!

12 outubro 2010

A propósito de teatro


Hoje, deixo aqui o link para mais este excelente texto de Nicolau Saião, posto à disposição pelo Manuel de Almeida e Sousa, dias atrás, no Fundação Velocipédica. Com um grande abraço para esse velho resistente entrincheirado em Portalegre, mas com frequentes surtidas pela Europa e pelas Américas.

11 outubro 2010

Quando se dá os nomes aos bois, dá-se nomes aos boys

O azar e a necessidade

Um texto de Nicolau Saião, que recebi hoje de manhãzinha:

As televisões, no seu espaço noticioso, hoje abriram com uma local de enorme importância: "Se o Orçamento não for aprovado, determinando a queda do governo, Cavaco nomeará Jaime Gama para formar o novo executivo".

Notícia significativa e que, independentemente do valor que se possa atribuir a Gama, é um raio de luz no corredor cinzento em que os próceres governativos, liderados por esse inenarrável José Sócrates com a sua entourage de áulicos e apparatchikis, mergulharam o País.

Sócrates, simulador compulsivo com ponta de megalomania governamental, é hoje uma presença nefasta que urge afastar do convívio com o Poder. Ficará na História como um émulo de Vasco Gonçalves pelo destrambelhamento governativo que levou a Nação a um caos, como um irmão espiritual de Cunhal pela demagogia, a untuosidade e o tripúdio sobre os cidadãos de menor poder económico e pela hostilização a que submeteu as classes profissionais como, por exemplo evidente, os professores, servido pela prepotência dura de Lurdes Rodrigues ou a suave e hipócrita de Isabel Alçada.

Como referiu num título célebre Budd Schulberg, "O que faz/fazia correr Sócrates?". Incapacidade de ver e sentir que arrastava com ele Portugal para o monturo? Ou receio de que, abandonando o Poder, muitas e variadas "coisas" lhe iriam cair em cima, com responsabilização assustadora?

Não o sabemos - nem o curamos de saber. A necessidade uniu-se ao azar, como se costuma dizer: azar por ele ter tido ensejo de ser o "chefe da banda" durante demasiado tempo. Necessidade, imperiosa, de não o deixarmos doravante tocar mais música...!

ns

Ainda sobre a República


José Luís Sarmento publicou este excelente texto no seu blogue As Minhas Leituras, cujo link se encontra disponível, a partir de hoje, no meu Miradouro.

10 outubro 2010

Bom domingo!

09 outubro 2010

Entrevista a Ferreira Gullar


Na PÚBLICA do passado dia 21 de Setembro, saiu uma entrevista com o poeta brasileiro Ferreira Gullar, a propósito da atribuição que lhe foi feita do Prémio Camões, da qual transcrevo o excerto seguinte, referente às eleições brasileiras (para ler a entrevista na íntegra, clicar aqui):

(...)

Como olha para o presente?

Eu me sinto feliz por ter batalhado todos estes anos, eu, meus companheiros, criámos tanta coisa, procurámos dar o melhor de nós no campo literário, cultural, político. A vida é assim mesmo, agora é outra época. Pelo menos não tem mais a ditadura, que foi um período sinistro, de violência, de censura, de tortura, desaparecimento de pessoas. Pelo menos estamos numa democracia e isso já é importante.

Mas como vê o Brasil hoje? O Brasil está na capa de todas as revistas.

Embora o Lula [Presidente Lula da Silva, cujo mandato termina em Outubro] diga que é o responsável por tudo e que tudo de mau foi o outro [Fernando Henrique Cardoso, o anterior Presidente]... Por que é que o Brasil cresceu menos do que a Colômbia, Argentina, Bolívia, Peru, Chile, Venezuela? Só cresceu mais do que o Haiti. Por culpa do Fernando Henrique, disseram. Foi há sete anos. Quando se diz que o Brasil agora está [bem] graças ao Lula... mas toda a política económica e social do Lula é do Fernando Henrique. A lei da responsabilidade fiscal, que acabou com a inflação no Brasil, que [Lula] combateu, mudou a vida económica do Brasil. Eles votaram contra no Senado, votaram contra na Câmara e entraram com uma acção no Supremo para anular a lei, que é a base do Governo de Lula. A política de juros do Banco Central, ele foi contra. Quando o Fernando Henrique criou a Bolsa Alimentação, para dar alimentos a famílias de pessoas desempregadas, [Lula] foi na televisão dizer que estavam transformando o trabalhador em mendigo, aí fez a bolsa família, que é a bolsa alimentação ampliada. O que é que ele fez de novo? Nada. A sorte que ele deu é que tomou posse em 2003 e neste ano a economia mundial passou a crescer velozmente, depois de inúmeras crises. Então, ele, que tinha combatido todas essas medidas, adoptou todas e diz agora que são dele.

E nestas eleições...

Agora inventou a Dilma [Rousseff, candidata à presidência], que é uma marionete que ele diz que é a mãe do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento], que fez isto, fez aquilo... Não fez nada, ela era chefe da Casa Civil, que é um órgão de assessoria da Presidência da República. Se você manda os projectos para a Presidência, a Casa Civil examina se está de acordo com a lei, é um órgão de assessoria técnica. É isso que ela foi, ela não fez nada. E ele quer atribuir a ela tudo o que o Governo fez. Até o trem de alta velocidade foi ela que inventou. É ridículo.

O que é grave não é essa mentirada toda. O que é grave é que o Lula a primeira coisa que fez foi anular uma portaria do Fernando Henrique que dizia: para cargos técnicos, tem que nomear técnicos. Para evitar que os políticos dos partidos que estão apoiando o Governo queiram os cargos importantes do Governo, que são técnicos, e você bota um cara que não entende nada. Ele revogou essa lei para encher os cargos técnicos de gente dos sindicatos, gente da CUT [Central Única dos Trabalhadores], dos partidos aliados, do PT [Partido dos Trabalhadores]. Agora, isto tem sete anos. Se entra a Dilma nós vamos ter mais quatro anos, e depois mais... pode ser um desastre para o país.

Está apreensivo.

Todas as despesas que o Lula está fazendo vão-se reflectir no Governo que vem aí. Ele só faz comício. Ele não administra o país. O Lula não entende de nada, ele nunca leu um livro. Só faz discurso, desde que ele assumiu o Governo até hoje, ele está sempre num palanque. Eu fiz uma vez uma anotação dos dias que ele passou em Brasília, no ano passado, em seis meses ele tinha passado em Brasília seis dias de facto trabalhando, o resto é sábado e domingo e viagem. Quem governa o país é a assessoria técnica dele, ele não entende nada. Ele só pensa o seguinte: isso vai dar voto ou não? Isso vai dar popularidade ou não? É uma mentirada permanente, uma demagogia sem fim. Eu vejo com apreensão o que pode acontecer. O dinheiro público está usado na campanha eleitoral de uma maneira como nunca houve no país, de uma maneira escandalosa. A Dilma não entende das coisas, não sei o que ela vai fazer na Presidência da República, ela é autoritária, pode ocorrer que ela resolva tomar o freio nos dentes e fazer tudo por conta dela, e eu não sei o que vai acontecer.

(...)

08 outubro 2010

Notícias da Holanda e da Europa


Ainda segundo o PÚBLICO do passado domingo, na mesma página 15 de onde retirei a notícia que esteve origem do texto que ontem aqui publiquei, finalizando uma outra, cujo cabeçalho é "Democratas-cristãos holandeses dão luz verde ao novo Governo", pode ler-se:

«A medida mais popular do programa de governo da nova coligação é o investimento de 1000 milhões de euros em cuidados para idosos, seguindo-se o fim do abono de família para quem tem filhos a viver fora da Europa e o reforço da polícia com 2500 agentes.

Outras medidas que estão a ser bem recebidas são a introdução de uma pena mínima para crimes graves, a retirada da nacionalidade holandesa aos imigrantes que cometem crimes graves e a instauração cidadania temporária de cinco anos para quem se queira naturalizar holandês. De acordo com o programa deste Governo apoiado por Wilders, será proibida a burqa».

O partido de Wilders, Partido da Liberdade, tem registado constantes subidas nas sondagens por se assumir como anti-islamista. A pátria da liberdade de pensamento em que a Holanda se tornou a partir do século XVII; o país que serviu de refúgio político a tantos daqueles de que hoje a Europa se orgulha pelo património cultural, filosófico e científico que nos legaram; a terra da tolerância religiosa que acolheu os judeus ibéricos, expulsos pelos reis católicos de Espanha e por D. Manuel I, de Portugal; a cultura que permitiu desenvolverem-se no seu interior as culturas alternativas e as contra-culturas que fertilizaram, ao espalharem-se por todo o mundo, as mudanças que, a esse nível, quase todo o planeta experimentou a partir dos anos 60 do século XX, alterando a nossa forma de estar na vida - esse laboratório social europeu com quatro séculos de actividade, pelos vistos, fartou-se. Fartou-se e, em nome da continuidade da sua identidade de cultura aberta, começa a fechar-se às culturas fascizantes e obscurantistas que dizem agir em nome da defesa dos princípios de uma religião, bem ao parasitismo descarado e à violência intimidatória que, disfarçada de emigração, chega à Europa, vinda de todos os lados.

Não foi o humanismo europeu, de que todos nos devemos orgulhar, quem provocou esta triste situação. Foram o humanismo apatetado, em ligação com o oportunismo político, os responsáveis por este estado de coisas. Saibamos reagir a tempo de não vermos, por necessidade, a Europa transformada, a breve trecho, numa fortaleza e nós, de novo, dentro dela, como os nossos antepassados de há mil anos atrás.

07 outubro 2010

Imagens do futuro que nos espera


Antes de lerem o que se segue, seria conveniente terem em atenção este excelente texto.

Todos (?) nos lembramos do enorme escândalo internacional que atingiu o centro mundial de estudos e pesquisa sobre as alterações climáticas, o efeito de estufa provocado pelo CO2, o alargamento dos buracos do ozono e por aí fora, há menos de um ano. Todos (?) nos lembramos da dificuldade que os seus responsáveis tiveram em negar convincentemente que as actividades do instituto adquiriram um carácter verdadeiramente mafioso, com tentáculos espalhados pelo seu tão bem-amado planeta. Desde manipulação de dados ou mesmo a sua eliminação, com vista à confirmação das “realidades” apocalípticas consequentes à” feroz e irracional exploração capitalista”, até à ameaça física aos cientistas que os contestavam, passando pela extorsão disfarçada às empresas que os não financiassem, de tudo se pôde encontrar nos arquivos que julgavam inexpugnáveis.

Ao descrédito e à desconfiança vieram somar-se os cada vez mais numerosos e patentes dados sobre a vigarice planetária perpetrada e os sempre zelosos órgãos de comunicação, quando se trata de explorar o filão d’ “o drama, a tragédia, o horror” (conforme a expressão do inigualável Artur Albarran) começaram a perceber que era melhor mudarem de esquina e de peditório, pelo menos até o burburinho acalmar e, assim, poderem começar a inverter o discurso e a retórica. As coisas, porém, não são assim tão simples, nem se ficaram nem ficarão por aqui. Se os hackers, infinitamente mais do que quaisquer dados, vieram desmascarar iniludivelmente a natureza dos “climatologistas” e afins concentrados em diferentes universidades e institutos, sustentados por chorudos subsídios oficiais e particulares, minando-lhes a credibilidade e a influência, isso não significa que os desmandos produzidos pela sua acção desapareçam tão depressa como se desejaria.

Um primeiro factor diz respeito ao facto da “ciência” ecológica ser, no primarismo dos seus pressupostos, de fácil e leve digestão - umas noçõezitas básicas de biologia, de física, acompanhados de uns quantos slogans e está formada, finalmente, a sabedoria a sério, nada daquelas coisas abstractas e secantes que nos querem impingir na escola, agora é que eles vão perceber que não brincam connosco, que a gente sabe muito bem o que quer. Em suma, uma ciência que proporciona, ao ego de quem não se quer maçar muito com isso do rigor no conhecimento e do correspondente trabalho de investigação, um curso de formação rápida em profetismo - ainda por cima, com estatuto “científico” - que o eleva acima da massa ignorante, crédula, incauta e, sobretudo, consumista como, ainda por cima, nos dá uma arma de ataque “àqueles gajos”.

Não se pode querer mais de uma ciência ao alcance de qualquer “mente razoável” e, naturalmente, bem-intencionada, senão que seja o veículo que proporciona a uns quantos serem os olhos da multidão predadora - cega, oprimida ou simplesmente cobarde e desprezível. Os “cientistas do ambiente” multiplicaram-se mais depressa do que os cogumelos, do café à internet e, inevitavelmente, foram recebidos de braços abertos pela esquerda, que, mesmo nas barbas da ASAE, aproveita tudo para derrubar o “imundo sistema capitalista”.

Mas a simples pregação da mensagem ecológica não conseguiu demover a maioria das consciências adormecidas ou renitentes em aceitar as evidências dos pecados cometidos contra a Mãe-Natureza. E , se bem que a democracia seja, por definição, o sistema assente no diálogo e o ecologista se considere a si mesmo como que o único e universal (porque tem em conta todos os seres vivos) democrata e pacifista, quando o apocalipse vem aí e a Palavra que traz a Luz por mais que se ele esforce não penetra, há que recorrer à acção directa e etc.. O “ecologista” torna-se militante, endurece o discurso e os propósitos. Há que travar o matricídio, há que cumprir a missão que a Mãe-Terra lhe confiou de a preservar inalterada e inalterável, para que, para sempre, possa continuar a dar-nos o leite e o mel. Venha a Green Peace da Humanidade eterna! Formemos “o Partido”, sejamos “os Verdes” e conquistemos o Poder, pela acção reforçaremos as nossas reivindicações nos Parlamentos!

A este primeiro factor, composto por tão altos e nobres desígnios, junta-se um outro, bem mais prosaico. As empresas criadas para produzirem e comercializarem as diferentes mercadorias “verdes”, essas, no entanto, têm continuado as suas actividades altruístas, apoiadas quase sempre pelos diferentes governos, “preocupados com o bem-estar e o futuro saudável dos cidadãos”, acompanhados por banda e foguetório eleitoralista, criando uma rede de interesses e de dependências políticas e económicas. Tais empresas, como quaisquer outras, visam fazer valer os seus produtos sobre os restantes existentes no mercado, pelo que assentam no alargamento do número de consumidores desses produtos. Nesse sentido, estão, muitas delas, em vantagem concorrencial com as “tradicionais”, uma vez que os governos se servem delas como meio de propaganda de imagem, subsidiando, por diferentes meios, esses produtos.

Em estreita ligação com os dois factores anteriormente referidos vem a “ideologia” verde, entretanto imposta às escolas pelos pedagogos de serviço desses mesmos governos. E lá se decretou a “ciência verde” como atitude a inserir na formação cívica, permitindo às crianças e aos adolescentes papaguear sabiamente uma teoria “à la Disney”, fundada em dados cuja real compreensão se encontra muito para além das suas possibilidades de análise e sistematização. E, uma vez mais, inflando e modelando um ego em construção, o ego de uma cidadania responsável. Tudo em nome do melhor dos mundos. E da, a cada dia mais facilitadora (ora, pois…!), Escola do Saber dos Dias Melhores.

Assim se logra uma educação ainda mais “harmoniosa” pela interacção entre propaganda e clientela políticas, ilusão sobre a posse de um conhecimento visionário ou, pelo menos, real, e garantia de um permanente alargamento futuro da clientela das referidas empresas que o Estado acalenta. Já há bastante tempo que um conhecido escritor de FC, entretanto falecido, escreveu um romance sobre uma tramóia mafiosa assente no alarido sobre as catastróficas e iminentes alterações da “saúde” do planeta. A rede estendeu-se, porventura, ainda mais para além do que a imaginação lho permitiu perspectivar. Estamos perante um 1984 de risonha face democrática.

Junte-se, por fim, o factor que cimenta tudo isto, aquilo que é conhecido da natureza humana e que se chama autodefesa do ego. Toda a acção desenvolvida pela dupla mistificadora constituída pelos interesses político-económicos e respectivo sucesso tem por base a fraca exigência da escola em relação ao que é uma rigorosa compreensão dos conceitos fundamentais a reter por parte dos “aprendentes” e sua organização e a preguiça generalizada quanto ao alargamento e aprofundamento de conhecimentos pela generalidade dos cidadãos. Não há democracia sem conhecimento e, por isso, não existirá democracia sem uma escola exigente. Uma escola “facilitadora” é um sinal de alarme para a ditadura que se prepara na sombra.

“Educado” na falta de rigor, no facilitismo e na indisciplina, o carácter humano tende a cair no laxismo moral e mesmo na perversidade. Agostinho da Silva, professor que, como Einstein e tantos outros, desde sempre esteve contra a escola surgida no século XVIII, considerava, no entanto, ser um dever frequentá-la. Justificava-o, lembrando que as crianças teriam, desde cedo, que compreender as noções de necessidades e deveres partilhados por todos (pais, trabalhando nas suas empresas; filhos, trabalhando nas escolas para adquirirem conhecimentos que lhes permitissem ser pessoas), para que pudéssemos viver humanamente. E, também a exemplo de outros, nesse sentido afirmou - e percebe-se muito bem porquê, face ao descalabro vivido por Portugal a este nível - que “mais importante que educar é não deixar deseducar”.

Quanto menos sabedor e pouco disciplinado no saber e na persistência da sua busca, menos se é permeável a novas ideias ou sequer à sua reformulação - na medida em que tal acarreta, inevitavelmente, uma mudança no estar e, provavelmente, no modo de ser daquele que as muda ou reformula. Assim, o militante de base do “ecologismo” tenderá a persistir cegamente no que já se viu não coincidir com a realidade. A exemplo da esquerda, na qual frequentemente milita ou de que é simpatizante e votante, faz orelhas moucas a tudo o que contrarie os seus “princípios” e a sua “ciência contestatária” (“daqueles gajos”), o seu estatuto messiânico, mesmo o que o mais elementar bom senso lhe aponte uma realidade bem diferente dos pressupostos que lhe moldam o raciocínio. Ou isso ou, por falta de norte, cai numa dolorosa desorientação para o ego e na mais que provável depressão. Reagir implica conhecer a sério e isso dá muito trabalho e exige um treino da atenção - que não tem e em que a escola, pouco rigorosa, não o iniciou suficientemente no tempo em que a frequentou.

Eis porque a bola de neve, embora abrandando, continua ainda o seu percurso destrutivo de uma verdadeira e necessária política ambiental - ninguém, por exemplo, fala dos desmandos ambientais e económicos que são permitidos à construção civil, ocupando com betão hectares e hectares de terras excelentes para a agricultura, tendo ao lado outras, pedregosas e estéreis. Porque está formado o seu núcleo, difícil de desmantelar: o que diz respeito à inércia e ao medo. E é esse núcleo, facilmente manobrável, que os poderes político e económico, numa comunhão de interesses apoiada no “prestígio universitário” que subsidiam, não descuram nem cessam de alimentar. Em nome da sua incessante e sincera luta pela vida dos cidadãos. Confirmando-a na educação que dão aos futuros cidadãos. Na escola. Sempre na escola, campo aberto à socialmente indispensável e democrática militância pelo futuro.

A que propósito vem tudo isto? A propósito desta notícia, que se pode ler na página 15 da edição do PÚBLICO do passado domingo, a qual transcrevo integralmente de seguida e que não diz respeito à Al-Quaeda:

«Campanha Mundial para cortar CO2 suspende filme polémico

O objectivo era difundir ainda mais a campanha 10:10, lançada em 2009 no Reino Unido e que convida cidadãos, empresas e outras entidades a, com atitudes simples, cortarem dez por cento das suas emissões de CO2 num ano. Mas o filme, que seria lançado nas televisões e nos cinemas, foi engavetado no mesmo dia da sua antestreia em alguns sites da Internet, na sexta-feira.

Com cerca de quatro minutos, o filme mostra inicialmente uma cândida professora estimulando os seus alunos a juntarem-se à campanha. “Não se sintam pressionados”, diz ela. Alguns dizem que não e a professora, com o premir de um botão, explode-os literalmente. A cena, misturando humor e realismo, repete-se num escritório, num treino de futebol e num estúdio de gravação.

Supostamente, o filme deveria ser visto com humor, mas assim que foi pré-publicado na net, nos sítios do diário Guardian e da campanha 10:10, choveram reacções negativas.

Ao fim da tarde de sexta-feira, o filme foi retirado do sítio da campanha e substituído por um pedido de desculpas. “Com as alterações climáticas a tornarem-se cada vez mais ameaçadoras e cada vez menos faladas nos media, queríamos encontrar um modo de trazer este assunto crítico de volta às manchetes e, ao mesmo tempo, fazer as pessoas rirem”, argumenta o texto. “Muitas pessoas consideraram o resultado extremamente engraçado, mas algumas não, infelizmente, e pedimos sinceras desculpas a quem se tenha ofendido.”

Cerca de 90 mil pessoas já aderiram à campanha 10:10. Em Portugal, onde a iniciativa arrancou este ano, há já cerca de 900 inscritos, mais duas dezenas de empresas.»

O resto é com todos nós. Como, aliás, não poderia deixar de ser.

NOTA: Uma vez mais, não tive tempo para corrigir o texto, escrito, como o anterior, de rajada. As minhas desculpas. Fica a intenção.

06 outubro 2010

A visão de Bruxelas


Não consegui uma horita de sossego durante todo o dia. E já estou cansado demais para escrever o que quero. Tenho que deixar para amanhã, portanto.
Em jeito de compensação, transcrevo aqui uma boa nova para os bebedores de cerveja e para quem ganhou o hábito de andar sempre de garrafinha de água em punho. É que, pelo que se pode ler nesta notícia (clicar aqui , para a ver integralmente, com animação e tudo), dentro de pouco tempo ainda poderão vir a ser nomeados como instituições, individuais e colectivas, de utilidade pública...!

"Cientistas britânicos das universidades de Heriot-Watt (Edimburgo) e de St. Andrews (Escócia), desenvolveram uma célula de combustível que produz eletricidade diretamente da urina, a partir da ureia.

O processo de produção não precisa da aplicação de voltagem para separar a ureia mas apenas de um elétrodo de baixo custo, que faz com que a reação química aconteça espontaneamente. Segundo a revista britânica "New Scientist", os detalhes técnicos deste elétrodo são por enquanto secretos.

Shanwen Tao, o cientista que lidera este projeto, calcula que cada adulto produza anualmente urina suficiente para um automóvel andar 2700 km, devido à energia que a ureia contém. A ureia representa cerca de 2% do peso da urina.

Um dos resíduos mais abundantes da Terra

A urina é um dos resíduos mais abundantes na Terra: os quase sete mil milhões de habitantes do planeta produzem dez mil milhões de litros por dia. Se adicionarmos a produção dos animais criados pela indústria pecuária, este número é várias vezes superior.

Mas depurar a urina nas estações de tratamento de esgotos, de modo a evitar a contaminação dos rios, mares e ecossistemas, é um processo que exige avultados recursos financeiros e que consome muita energia.

A nova tecnologia poderá vir a ter no futuro uma grande diversidade de aplicações, não apenas nos automóveis mas também no fornecimento de eletricidade aos edifícios de escritórios e das explorações agropecuárias, ou a aparelhos de rádio e telemóveis em regiões remotas.

Automóveis: rede de estações de serviço já existe na Europa

Curiosamente, já existe na Europa (tal como em vários países da Ásia) uma rede de mais de 6.000 estações de serviço que vendem combustível com 32,5% de ureia para abastecer camiões e autocarros a diesel, no âmbito de um diretiva europeia que entrou em vigor em 2006 destinada a minimizar o impacto ambiental da combustão do diesel. Isto significa que "a infraestrutura já está montada", salienta Shanwen Tao.

Há ainda outras tecnologias que estão neste momento a ser testadas. Na Universidade de Ohio, em Athens (EUA), os cientistas estão a fabricar hidrogénio a partir da urina usando células eletrolíticas. E na Universidade do Estado da Pensilvânia, em University Park, a aposta vai para a produção de energia a partir de bactérias.

Os efluentes dos esgotos contêm bactérias e matéria orgânica, e quando as bactérias a consomem produzem eletrões que se combinam com o oxigénio. Se este processo acontece em reservatórios sem oxigénio, os eletrões podem ser aproveitados para a produção de eletricidade."

Leiam


Isto e isto. Quer um quer outro, poderão ser lidos em relação, mais ou menos directa, com o que escrevi abaixo.
Amanhã procurarei redigir e publicar o segundo dos três textos de maior dimensão que programei para estes dias.

05 outubro 2010

A República e a Maria da Fonte

Designa-se por Revolução da Maria da Fonte um conjunto de acontecimentos que teve lugar em Portugal entre Abril de 1846 e Junho de 1847, mas que, de facto, se estende bastante para além deste intervalo. De facto, a insurreição militar de 1 de Maio de 1851, dando origem à Regeneração, e a revolta da Janeirinha, em 1868, que termina com este período, mais não foram do que os últimos episódios decisivos das convulsões que atravessaram a sociedade portuguesa dos meados do século XIX.

Se nos cingirmos, porém, ao que se passou nos 15 meses que medeiam as duas Primaveras sucessivas deparamo-nos com um facto inédito, até e depois dessa altura, no nosso país e estranho à história da quase totalidade, se não mesmo à da totalidade dos restantes povos da Europa. Refiro-me à necessidade da rainha se ver forçada a pedir a ajuda de tropas estrangeiras para dominar uma rebelião popular em que, do Minho (onde começara) ao Algarve, todo o Portugal se envolvera. Uma rainha que pede auxílio aos exércitos da Quádrupla Aliança, nomeadamente aos de França, Espanha e Grã-Bretanha, para esmagar a revolta do seu próprio povo. A pretexto de este estar a ser manobrado por uma estranha aliança entre Setembristas (a esquerda, se assim se lhe podemos chamar) e Miguelistas, estes últimos pretendendo devolver a coroa a um tipo de monarquia que, tal como seu pai, D. Pedro IV, afirmava ser retrógrada. Quádrupla Aliança que interveio, assim, no sentido de que Portugal e a própria Espanha, onde começavam a soprar ventos semelhantes, se tornassem ingovernáveis - pela monarquia liberal e seus apoiantes e promotores.

Deixarei de lado a enumeração e a cronologia dos factos, por considerar que nos links inseridos no início deste texto ambas são suficientemente estabelecidas, bem como os nomes dos principais intervenientes. Julgo que, muito embora se trate somente de artigos incluídos na Wikipedia, não contêm incorrecções e, portanto, não falseiam o que os historiadores que se demoraram, com maior ou menor atenção, a analisar este episódio acharam por bem dizer sobre ele. Mas acerca disto mesmo voltarei mais tarde.

Basta-me lembrar o essencial: que na sequência das lutas civis que tiveram lugar na primeira metade novecentista entre partidários (com diferentes graus de radicalidade) do estabelecimento das monarquias constitucionais, de influência francesa, e os que pretendiam o regresso à fórmula que vigorava anteriormente a 1820, se desenrolava o último acto do braço-de-ferro de acesso ao poder. E que era Costa Cabral, ministro do constitucionalismo mais moderado, quem detinha o poder governamental. Por detrás de tudo isto, defrontavam-se ainda o fantasma de D. Pedro IV, materializado na rainha e nos seus apoiantes, e o ainda bem vivo D. Miguel, representantes, respectivamente de cada um dos tipos de regime.

Portugal era um país rural, mas de um ruralismo já diferente na sua relação com o país, mercê das alterações trazidas pela revolução de 1820. Alterações que não haviam trazido a reforma agrária que Almeida Garrett reclamava como urgente e decisiva, mas apenas a troca de proprietários das grandes extensões. Em vez da distribuição das terras confiscadas a ordens religiosas e alguma nobreza pelos camponeses, o que se verificou foi a compra dessas grandes propriedades pela burguesia endinheirada da capital. O camponês passou da condição de servo para a de assalariado de alguém cujo rosto poucas vezes tinha ocasião de ver ou que até desconhecia por completo, de alguém distante, com quem não possuía, portanto, qualquer ligação afectiva ou contacto. Mas que o obrigava, em nome das novas liberdades conquistadas, das quais ele não tinha grande noção e muito menos proveito que se visse, a pagar impostos cuja utilidade não lhe era clara nem dos quais retirava qualquer benefício que lhe fosse útil. Matemos, pois, esses Cabrais!

Rural e municipalista. E os municípios, cacicados ou não, têm cada vez menos poder decisório perante a necessidade de centralização que é vital para a imposição da nova ordem social e económica. Estão sobrecarregados de impostos para satisfazer os requisitos dos novos dirigentes do novo modelo de Estado. E os caciques, também eles, afinal, povo, rosnam, ameaçam os novos figurões, conspiram agora com os antigos senhores das terras que os formam. E nem sempre se limitam a sussurrar: “Matemos os Cabrais, que são falsos à nação!”. É que o coro dos munícipes faz-se ouvir por detrás deles, dá-lhes força. Os donos de Lisboa e do Porto julgam-se donos do país. Mas não são.

Rural e católico. Religioso ou supersticioso ou ambas as coisas, não interessa. Somente um ser suficientemente humano para interrogar a vida para além do cumere, do bubere, do bailare e do. O ser mais que meramente animal, que interroga a existência na sua relação com a morte nem que por um único dia na vida. O ser que, por isso mesmo, se abre à noção do que possa haver para além dela e, consequentemente, à outra, a do sagrado. O ser que determina o local onde se dá essa tentativa de ligar ou religar ao Princípio de todos os princípios. O ser que constrói a casa no local onde essa união se efectua e que, por isso, confere a esse local toda uma simbologia estreitamente ligada ao significado mais profundo da vida e da morte. O local onde, por ter sido sacralizado, deverão descansar os que morrem. O espaço da igreja. Onde, por razões duvidosas para os seus conhecimentos e por decreto de uma Lisboa distante, fria e opressora, cada vez mais ímpia e impiedosa, deixarão futuramente de poder ser enterrados. O cerne do significado último de tudo é, deste modo, abalado. A partir deste momento, nada mais há a perder! Matemos os Cabrais, que ardam para sempre nos infernos!

E é no lugar onde vida e morte surgem iniludivelmente ligados que tudo começa. Foi, como se sabe, talvez inevitavelmente, num funeral que tudo começou. Foi de lá que a fúria do povo rolou pelo país inteiro, uma fúria feita de varapaus, navalhas, machados, forquilhas, fuzis. E, por fim, soaram os canhões. Os dos constitucionalistas, de um lado. Do outro, em simultâneo, os dos setembristas e os dos miguelistas. E o povo revoltoso, o povo do “país real” de então, o que andava descalço e deu, por isso, ensejo a quem o desprezava de chamar à sua guerra a “guerra da Patuleia”, onde estava?

É precisamente aqui que se começa a supor um vislumbre de explicação de um outro facto, bastante estranho. Refiro-me ao facto de, face a um fenómeno social desta dimensão e com as consequências que se conhecem, os historiadores consagrados da nossa praça passarem, em geral, por ele mais ou menos apressadamente, que nem cão por vinha vindimada, como diria a expressão popular. Oliveira Marques, por exemplo, atribuiu-lhe um espaço reduzidíssimo na sua História para estudantes universitários em dois volumes, se tivermos em conta a dimensão da obra e a atenção que dá a outros acontecimentos, bem menos importantes e dramáticos. Porquê este silêncio ou, pelo menos, este desvio generalizado do olhar e da atenção? Aceitando como verdadeiro o que se afirma na cadeira de Teoria da História e o bom senso confirma, consubstanciado numa observação que ouvi a um dos professores que mais respeito me mereceu: “História? Histórias!”, avançarei eu agora com uma possível razão para esse silêncio.

Retomando o que estava a dizer: por onde andava a revolta do povo do país profundo, o povo português “esmagadoramente maioritário”? Como se distribuía no apoio aos movimentos políticos armados militarmente? Relembro que um dos motivos que justificou a decisão da Quádrupla Aliança de intervir contra os revoltosos foi que a mesma tendência se verificava já em Espanha. Qual era essa tendência anti-liberal estabelecida? A dos Setembristas? Bem, não eram estes, afinal, o liberalismo numa versão mais radical, mais “esquerdista”? Não eram eles, afinal, mais um movimento de intelectuais de pendor aguerrido no alcance e nos meios de fazer vingar as suas convicções? E não era precisamente contra essa perspectiva de ordenação da sua existência que o povo se erguera? Herdeira de Marx, que perspectivou a Patuleia como não mais do que um episódio da luta pré-revolucionária europeia que o proletariado, atendendo à dialéctica da História, estaria futuramente destinado a comandar, a esquerda e, em particular, a extrema-esquerda, tornaram-na bandeira da sua luta, em Portugal, como exemplo da luta pelas medidas “progressistas” e emancipadoras dos trabalhadores. O que é, a meu ver, uma conveniente descontextualização dos factos para o seu melhor aproveitamento ideológico.

O povo, à excepção provável de uns quantos elementos, não tem grandes ligações com esses intelectuais. Tem, isso sim, com os antigos senhores, pelos quais, passada a primeira ilusão de se haver visto livre de um fardo, voltou a suspirar 26 anos depois. Entenda-se: o nobre, senhor das terras, vê-as como parte do seu eu, como uma sua extensão. É uma visão orgânica, não uma visão comercial. Tem amor, mesmo que puramente possessivo, ao que é a marca do seu estatuto, a terra é como que o prolongamento do seu corpo. Não a encara com a frieza comercial do burguês, ou como objecto que confirma a ascensão social desse mesmo burguês, feito barão de extracção política recente - Foge, cão, que te fazem barão!/Para onde, se me fazem visconde?, ironizava Garrett. Nem aplica, impessoal e indiscriminadamente, os mesmos impostos, como faz o governo igualitário central, em nome da maior justiça social, iluminada pela racionalidade universal.

E, mesmo quando explora os seus servos, estes recorrem muitas vezes a uma arma ímpar. É que há sempre um, ou uma, ou uns, ou umas - há sempre quem tenha tido o privilégio de haver sido, na infância, companheiro de brincadeiras, fiel amigo e até confidente, quando não muito para além disso. E que acaba por, intercedendo em favor próprio ou dos restantes, amenizar ou anular os efeitos indesejáveis de uma decisão errada ou prepotente. A relação com o nobre tem um carácter, positivo e negativo, de afecto, é um contacto, no seu melhor como no seu pior, feito de humanidade. Está-se em contacto directo com o poder e é possível ou, ao menos, existe a esperança de poder chamá-lo à razão. Com Lisboa, não. A universalidade desprotegeu o camponês da arbitrariedade, da prepotência, da arrogância e da exploração do seu trabalho. E ainda ataca, com arrogância e verdadeiro desprezo, as suas tradições e convicções profundas.

O camponês, o povo, apoia os miguelistas, apoia os seus antigos senhores, aqueles com quem aprendeu, durante séculos, a conviver e relacionar-se. O povo recusa violentamente os novos senhores, os que o enganam com promessas de liberdade e justiça para os tornarem mais indefesos aos poderosos, através da universalidade da lei. O povo percebe que a ideia abstracta é uma forma de dominação concreta, que a ideia pode ser a cadeia que o aprisiona muito mais eficaz e perversamente do que qualquer nobre podia concebeu.

Que o povo apoiou em massa os miguelistas é um facto que, embora não o escondam, é, contudo ignorado pelos historiadores, inclusive os ligados à mais conhecida facção dos monárquicos portugueses, os quais, tal como os seus colegas republicanos, intercalam nos seus textos sobre o assunto expressões sintomáticas de um certo desdém pelo povo “atrasado”, como facilmente se pode verificar naqueles cuja leitura proponho. Estão, evidentemente, e possivelmente com maiores razões do que as minhas, no seu direito. Mas, além de ser também meu o direito de discordar, nesse aspecto, do que afirmam ou insinuam, julgo descortinar no tratamento que fazem do tema e nesses indícios de um menor apreço pelo grau de discernimento dessa revolução popular um factor fundamental, que procurei pôr a claro neste meu texto, escrito quase de rajada e, por consequência, insuficientemente cuidado quer literária quer argumentativamente.

É que, tal como dizia esse meu velho professor, “História? Histórias!”. E a perspectiva dos actuais historiadores, o estado de espírito individual e social de onde partem para construírem as suas Histórias, é o consequente à defesa desses tais ideais abstractos de liberdade e igualdade perante a lei com que se justificaram os poderes que decorreram da Revolução Francesa. Está nelas implícito um louvor à superior humanidade e humanismo que trouxe a queda da Bastilha consigo bem como à superioridade, no mesmo plano e no plano da competência de quem nos governa e que o povo pode escolher livremente. O resto são trevas.

Analisar seriamente a Maria da Fonte equivaleria à desmistificação da realidade sobre a democracia e a saúde social do nosso tempo republicano. Como se pôde ver, aliás, em tudo o que esteve ligado às comemorações oficiais desta semana.

(dedico este desabafo mal-amanhado à memória de Manuel Grangeio Crespo, que, muitos anos atrás, me alertou para alguns dos aspectos que hoje referi e aos desiludidos do 25 de Abril).

Então?! Tenho ou não razão?!


José Mourinho dirigiu esta mensagem à selecção nacional de futebol:

"Sou português há 47 anos e treinador de futebol há dez. Sendo assim, sou mais português do que treinador. Posto isto, para que não restassem dúvidas, vamos ao que importa…

As Selecções Nacionais não são espaços de afirmação pessoal, mas sim de afirmação de um País e, por isso, devem ser um espaço de profunda emoção colectiva, de empatia, de união. Aqui, nas selecções, os jogadores não são apenas profissionais de futebol, os jogadores são além disso portugueses comuns que, por jogarem melhor que os portugueses empregados bancários, taxistas, políticos, professores, pescadores ou agricultores, foram escolhidos para lutarem por Portugal. E quando estes eleitos a quem Deus deu um talento se juntam para jogar por Portugal, devem faze-lo a pensar naquilo que são - não simplesmente profissionais de futebol (esses são os que jogam nos clubes), mas, além disso, portugueses comuns que vão fazer aquilo que outros não podem fazer, isto é, defender Portugal, a sua auto estima, a sua alegria.

Obviamente há coisas na sociedade portuguesa incomparavelmente muito mais importantes que o futebol, que uma vitória ou uma derrota, que uma qualificação ou não para um Europeu ou um Mundial. Mas os portugueses que vão jogar por Portugal - repito, não gosto de lhes chamar jogadores - têm de saber para onde vão, ao que vão, porque vão e o que se espera deles.

Por isso, quando a Federação Portuguesa de Futebol me contactou para ser treinador nacional, aquilo que senti em minha casa foi orgulho; do que me lembrei foi das centenas e centenas de pessoas que, no período de férias, me abordam para me dizerem quanto desejam que eu assuma este cargo. Isto levou-me, pela primeira vez na minha vida profissional, a decidir de uma forma emocional e não racional, abandonando, ainda que temporariamente, um projecto de carreira que me levou até onde me levou.

Desculpem a linguagem, mas a verdade é que pensei: Que se lixem as consequências negativas e as críticas se não ganhar; que se lixe o facto de não ter tempo para treinar e implementar o futebol que me tem levado ao sucesso; por Portugal, eu vou!

E é isto que eu quero dizer aos eleitos para jogar por Portugal: aí, não se passeia prestigio; aí, não se vai para levar ou retirar dividendos; aí, quem vai, vai para dar; aí, há que ir de alma e coração; aí, não há individualidades nem individualismos; aí, há portugueses que ou vencem ou perdem, mas de pé; aí, não há azias por jogar ou por ir para o banco; aí, só há espaço para se sentir orgulho e se ter atitude positiva.

Por um par de dias senti-me e pensei como treinador de Portugal. E gostei. Mas tenho que reconhecer que o Real Madrid é uma instituição gigante, que me «comprou» ao Inter, que me paga, e que não pode correr riscos perante os seus sócios e adeptos. Permitir que o seu treinador, ainda que por uns dias, saísse do seu habitat de trabalho e dividisse a sua concentração e as suas capacidades era impensável.

Creio, por conseguinte, que o feedback que saiu de Madrid e chegou à Federação levou a que se anulasse a reunião e não se formalizasse o pedido da minha colaboração.

Para tristeza minha e frustração do presidente Gilberto Madail.

Mas, sublinho, agora já a frio: foi e é uma decisão fácil de entender. Estou ao leme de uma nau gigantesca, que não se pode nem se deve abandonar por um minuto. O Real decidiu bem.

Fiquei com o travo amargo de não ter podido ajudar a Selecção, mas fico com a tranquilidade óbvia de quem percebe que tem nas suas mãos um dos trabalhos mais prestigiados no mundo do futebol.

Agora, Portugal tem um treinador e ele deve ser olhado por todos como «o nosso treinador» e «o melhor» até ao dia em que deixar de ser «o nosso treinador». Esta parece-me uma máxima exemplar: o meu é o melhor! Pois bem, se o nosso é Paulo Bento, Paulo Bento é o melhor.

Como português, do Paulo espero independência, capacidade de decisão, organização, modelagem das estruturas de apoio, mobilização forte, fonte de motivação e, naturalmente, coerência na construção de um modelo de equipa adaptada as características dos portugueses que estão à sua disposição.

Sinceramente, acho que o Paulo tem condições para desenvolver tudo isso e para tal terá sempre o meu apoio. Se ele ganhar, eu, português, ganho; se ele perder, eu, português, perderei. Mas eu também quero ganhar.

No último encontro de treinadores que disputam a Champions League, quando questionado sobre o poder dos treinadores nos clubes, ou a perda de poder dos treinadores face ao novo mundo do futebol, sir Alex Ferguson disse (e não havia ninguém com mais autoridade do que ele para o dizer!) que o poder e a liderança dos treinadores depende da personalidade dos mesmos, mas que depende muitíssimo das estruturas que os rodeiam. Clubes e dirigentes fragilizam ou solidificam treinadores.

Eu transponho estas sábias palavras para a selecção nacional: todos, mas todos, neste país devem fazer do treinador da selecção um homem forte e protegido. E quando digo todos, refiro-me a dirigentes associativos, federativos e de clubes, passando pelos jogadores convocados e pelos não convocados, continuando pelos que trabalham na comunicação social e terminando nos taxistas, políticos, pescadores, policias, metalúrgicos, etc. Todos temos de estar unidos e ganhar. E se perdermos, que seja de pé.

Mas, repito, há coisas incomparavelmente mais importantes neste país que o futebol. Incomparavelmente mais importantes… Infelizmente!

Aproveito esta oportunidade para desejar a todos os treinadores portugueses, aos que estão em Portugal e aos muitos que já trabalham em tantos países de diferentes continentes, uma época com poucas tristezas e muitas alegrias.

Ao Xico Silveira Ramos, manifesto-lhe a minha confiança no seu cargo de Presidente da ANTF.
Um abraço a todos.

José Mourinho"

Volto aí pelas 22:30h.

04 outubro 2010

Interlúdio


Afazeres de última hora impediram-me de redigir e publicar o texto que reservara para hoje, para além daquele que coloquei aqui esta tarde. Assim, publicarei amanhã dois textos.

Antes de voltar, lá para o fim da noite


Portugal transformou-se numa república, fará amanhã cem anos, em consequência dos disparates que a aristocracia decadente - com as devidas e honrosas excepções do costume -, que governou o país após 1640, cometeu (terá sido algum vírus inoculado por Madrid...?). Não há povo que se remire em tanta fancaria nem pescoço que aguente tanto pechisbeque.
Amanhã comemora-se-lhe o centenário. Mas o que se comemora, afinal?
- Dezasseis anos de turbulência estéril e, frequentemente, assassina, que empobreceu o país até à insustentabilidade?
- Quarenta e oito anos de ditadura parola e sombriamente ignóbil, que o firmou como o mais atrasado e com o maior número de analfabetos da Europa?
- Trinta e seis anos de instabilidade, corrupção e total descalabro financeiro e económico, em que a dependência de empréstimos e subsídios vindos do exterior aumenta dia a dia?
É isso que se comemora, no meio de um dos anos mais vergonhosos da história recente de um país em que a bandeira de um partido, do Partido Republicano, lhe foi imposta como bandeira nacional?
Será que o último Príncipe Perfeito de Portugal é José Mourinho?

03 outubro 2010

Hoje não há nada


Mas. entre amanhã e quarta-feira, tenciono publicar três textos de maior fundo, à média de um por dia.

E agora aproveitem esta última meia-hora do fim-de-semana.

Nicolau Saião em grande forma!



Texto recolhido na Fundação Velocipédica:

O macaco e a essência

Tempos atrás vi na TV uma cena que me esclareceu para sempre sobre as misérias e as grandezas da actividade pública – política, religiosa, militar, desportiva, judicial. Com um famoso condutor de massas, um desses seres excepcionais que movem multidões?
Nem por sombras!
O protagonista que me elucidou foi um humilde vigarista de bairro…
Melhor dizendo: modesto, insinuante. Com uma forma de estar na vida que depressa conquistou – pois participava num talk shaw posto a correr por uma esbelta serigaita das nossas noites televisivas – a assistência que o ouvia, quase fascinada.
O inspector da polícia que em tempos o prendera, também presente no programa, bem se fartou de prevenir os espectadores de que era mesmo aquela a técnica de que o indivíduo se servia para perpetrar os seus golpes. E que propiciava que um simples mortal, depois de o ouvir, lhe entregasse tudo o que ele queria. “Já vos conquistou a todos!” – dizia o pobre chui (polícia) em desespero de causa – “ Digam lá se agora não entravam no negócio que ele vos propusesse…”. E o simpático vigarista, com um sorriso fraternal no rosto aberto e franco, saiu do cenário coroado por uma enorme salva de palmas.
Eu e milhares como eu, decerto, acolhemos com proveito a inapreciável lição que ali nos fôra dada.
Lembrei-me disto e também de uma notícia referente ao ex-ministro Alain Joupé, que tinha tempos atrás sido condenado a 18 meses de prisão, com pena suspensa (é sempre pena suspensa a que estes ilustres cidadãos apanham), para além de 10 anos de impedimento de se candidatar a qualquer cargo – por ter cavilosamente manipulado uns dinheiritos chegados aos seus bolsos de forma esquisita.
Ora o Supremo Tribunal, instado a pronunciar-se, reduziu para catorze meses a pena aplicada, além de considerar que lhe bastava um aninho de travessia do deserto.
Em 1999, num encontro sobre Literatura Policial numa cidade francesa, defendi a tese de que “o sistema judicial é o cancro que está a destruir a Democracia”, a qual foi bem acolhida pela assistência que me quis ouvir. E disse ainda que o sistema judicial politicamente correcto, eticamente corrompido até à medula, não o era devido a magistrados receberem dinheiros desta ou daquela entidade mas sim por no seu coração e no seu cérebro – com as naturais excepções – aceitarem o jogo de que os poderosos são seus irmãos de cena e portanto credores de cuidados especiais, aliás generosamente dispensados.
Mediante o estatuto granjeado pelas suas qualificações pessoais – companheirismo de formatura, de família (pessoal ou política), lábia poderosa e poderoso desembaraço, preparação e cultura – o homem público cai no goto do vulgus pecus e daí em diante praticamente tudo lhe é consentido. Passou-se com Joupé como se tem passado com outros simpáticos safardanas europeus e mundiais, que quais sempre-em-pés logo se erguem e seguem triunfantes ou pelo menos perdoados mal os atira a terra uma vigarice ou um acto assacanado. Ou o simples desprezo que acalentam pelo povo, sobre o qual tripudiam com o beneplácito dum universo societário podre e complacente para com esses irmãos naturais, que aliás lhe pagam com juros deixando os seus próceres bem ancorados no seu específico conforto corporativo.
E tudo isto é mais eficaz – e muito mais inquietante – que a simples vigarice dum tratantezito de bairro…

ns

02 outubro 2010

E, quando tiveres fome,/ corta a tua mão e come!

Malhoa, Vou ser mãe

Acabei de ler que a CGD vendeu o edifício-sede, em Lisboa, ao seu Fundo de Pensões.

01 outubro 2010

Recebi isto por email...


... com autoria atribuída ao jornalista Mário Crespo:

Imaginem

Imaginem que todos os gestores públicos das 77 empresas do Estado decidiam voluntariamente baixar os seus vencimentos e prémios em dez por cento. Imaginem que decidiam fazer isso independentemente dos resultados. Se os resultados fossem bons, as reduções contribuíam para a produtividade. Se fossem maus, ajudavam em muito na recuperação.

Imaginem que os gestores públicos optavam por carros dez por cento mais baratos e que reduziam as suas dotações de combustível em dez por cento. Imaginem que as suas despesas de representação diminuíam dez por cento também. Que retiravam dez por cento ao que debitam regularmente nos cartões de crédito das empresas. Imaginem ainda que os carros pagos pelo Estado para funções do Estado tinham ESTADO escrito na porta. Imaginem que só eram usados em funções do Estado. Imaginem que dispensava dez por cento dos assessores e consultores e passavam a utilizar a prata da casa para o serviço público. Imaginem que gastavam dez por cento menos em pacotes de rescisão para quem trabalha e não se quer reformar.

Imaginem que os gestores públicos do passado, que são os pensionistas milionários do presente, se inspiravam nisto e aceitavam uma redução de dez por cento nas suas pensões. Em todas as suas pensões. Eles acumulam várias. Não era nada de muito dramático. Ainda ficavam, todos, muito acima dos cinco mil euros por mês. Imaginem que o faziam, por ética ou por vergonha. Imaginem que o faziam por consciência. Imaginem o efeito que isto teria no défice das contas públicas.

Imaginem os postos de trabalho que se mantinham e os que se criavam.

Imaginem os lugares a aumentar nas faculdades, nas escolas, nas creches e nos lares. Imaginem este dinheiro a ser usado em tribunais para reduzir dez por cento o tempo de espera por uma sentença. Ou no posto de saúde para esperarmos menos dez por cento do tempo por uma consulta ou por uma operação às cataratas. Imaginem remédios dez por cento mais baratos. Imaginem dentistas incluídos no serviço nacional de saúde. Imaginem a segurança que os municípios podiam comprar com esses dinheiros. Imaginem uma Polícia dez por cento mais bem paga, dez por cento mais bem equipada e mais motivada. Imaginem as pensões que se podiam actualizar. Imaginem todo esse dinheiro bem gerido. Imaginem IRC, IRS e IVA a descerem dez por cento também e a economia a soltar-se à velocidade de mais dez por cento em fábricas, lojas, ateliers, teatros, cinemas, estádios, cafés, restaurantes e jardins.

Imaginem que o inédito acto de gestão de Fernando Pinto, da TAP, de baixar dez por cento as remunerações do seu Conselho de Administração nesta altura de crise na TAP, no Paí­s e no Mundo é seguido pelas outras setenta e sete empresas públicas em Portugal. Imaginem que a histórica decisão de Fernando Pinto de reduzir em dez por cento os prémios de gestão, independentemente de os resultados serem bons ou maus, é seguida pelas outras empresas públicas.

Imaginem que é seguida por aquelas que distribuem prémios quando dão prejuízo.

Imaginem que País podí­amos ser se o fizéssemos.

Imaginem que país seremos se não o fizermos.