24 maio 2011

"... E eu a ver!"

(foto obtida aqui)

… é o título deste novo texto de Nicolau Saião:

Foi sem surpresa de maior que li, a princípio com algum divertimento, determinadas reacções escritas ou faladas, depois transcritas nos nossos mentideros habituais vindas da parte de conspícuos cidadãos, a propósito ou despropósito da prisão em Nova Iorque do notório Strauss-Khan.

De rompante, veio logo a terreiro um conhecido “bombeiro-comentador” (digamos assim com carinho e certo humor), o senhor dr. Mário Soares que, sem ter reparado ainda que de há muito os portugueses lhe deram a entender que dispensavam as “saídas ecológico-morais” em que dá largas ao seu verbo (outros diriam quiçá o seu ego) propiciou no seu estilo melífluo um mimo ao colega ideológico, visando provavelmente ampará-lo no grande tombo.

Manobra louvável, dirão os mais caridosos. E dirão bem. Com o seu espírito de cepa conceptualmente bondosa, apesar de laica, o nosso estimado “bochechas” como ainda alguns lhe chamarão com ternura, fez uma chamada de atenção que nem por ser despropositada, a nosso ver, é menos significativa: nestes casos de trutas a contas com manejos que o estatuto alegadamente lhes confere, há que esperar para ver.

Forma muito humana, isto dizemos nós, de semear habilmente uma dúvida razoável, em que os socialistas, dizem-me, são peritos.

Mas até aqui tudo bem - vogava-se no território sólido do real, ainda que habilmente artilhado…

Mas a seguir veio algo mais cómico, dum ponto de vista do misterioso inefável ou do cinematograficamente empolgante.

Primeiro veio a parafernália de cenários cruzados e multiplicados, em que o notório DSK, aliás bastamente conhecido na douce France pelo seu apego às mulherinhas (e não apenas enquanto amável jogo de conquista conquistada), teria apenas cedido aos avanços feminis e desbragados duma empregada de limpeza (e um homem não é de pau, raios!). Depois apareceram cenários em que o notório cavalheiro teria caído na armadilha montada ora pelo petit Sarkozy ora por colegas cheios de apetite do seu próprio partidão, etc.

Até se finalizar, agora já definitivamente no imaginário metafísico-policiário-conspiracionista, pela “certeza” duma cabala urdida e perpetrada pelo arqui-famoso Grupo Bielderberg, entidade que segundo parece está a pontos de dominar o Mundo, incluindo as Berlengas, e que tem tido, alegam eles, familiares tão poderosos e bem firmados no Trono como GWBush, Santana Lopes, Sócrates, Durão Barroso, Zapatero, etc. Só não explicando como é que uns foram corridos do mando e outros estão em vias de o ser, outros são apenas verbos de encher, mandaretes decorativos como o nosso apreciado Durão, etc.

Ou seja: as cantatas sobre bielderbergs e quejandos – não esquecendo que de facto estas Irmandades irregulares podem ser agregados que os países de Direito devem manter nos justos limites de clubes de raciocínio, digamos desta forma – estão é a servir para uma determinada contra-informação tentar eximir ao eventual justo castigo que lhes caiba, depois de julgamento justo, os trutas que, perdido todo o sentido das proporções, pensam que podem agir como sátrapas ou como manajeiros numa herdade à antiga.

Depois da indignação provocada pelas revelações da Imprensa sobre as características de apropriador compulsivo do DSK, assiste-se à parlenga de que os advogados do excitado Senhor vão passar a pente fino a vida da preta criada de servir, lixando-a até dizer basta e escaqueirando-lhe a figura interior.

Ou seja: vão fazer-lhe o que o DSK não pôde, parece, consumar – fornicá-la até mais não… pelo menos conceptualmente.

E isto, porque está muito noticiado, não é tese conspiracionista, mas crueldade bem real!

Um grande texto de Olavo de Carvalho

Olavo de Carvalho

... este que passo a transcrever, com introdução de Carlos Velasco - o link do blog passa a estar disponível no miradouro (via Estado Sentido):

Disponibilizo aqui um texto do filósofo Olavo de Carvalho para a reflexão dos leitores. Se hoje o Brasil e Portugal se encontram em decadência, levando consigo todo o mundo lusófono, em primeiro lugar isso se deve à obra de destruição da cultura que começou há alguns séculos, quando Pombal, homem que já admirei, mas que aos poucos, graças ao estudo, passei a desprezar, expulsou os jesuítas. Uma das críticas feitas pelos estrangeirados, a da falta de atenção para com as ciências experimentais por parte da academia portuguesa, eram pertinentes, e os próprios jesuítas estavam a agir no sentido de suprir essa falta. Entretanto, Pombal abortou os frutos desse árduo trabalho que só poderia ser feito, se a qualidade fosse o objectivo, de maneira gradual, e destruiu a base da alta cultura portuguesa e brasileira. A reforma pombalina fracassou, como o próprio Domingos Vandelli admitiu, mas os seus resultados nos afectam até os dias de hoje. As piores consequências nem se devem à reforma universitária em si, que poderia ser revertida se as outras estruturas tivessem sido mantidas, mas ao facto da extinção da ordem jesuíta ter deixado um vácuo no ensino básico e secundário que nunca foi ocupado. O ensino de massas que mais tarde iria se desenvolver começou a partir de concepções já cheias de vícios: não por acaso assistimos hoje, quando ele finalmente se universalizou, a uma total inversão dos valores que sempre estiveram por detrás da ideia de educação.

Enfim, já escrevi demais. É hora de deixar quem sabe de facto escrever e possui um conhecimento ímpar se expressar:

Quem come quem

Olavo de Carvalho

12 de Junho de 1999

A luta pela "identidade nacional" na cultura brasileira tem sido uma longa comédia de erros. Enquanto nossos vizinhos buscavam sabiamente fortalecer os laços que os uniam à cultura hispânica de origem, lutávamos obsessivamente para cortar toda nossa raiz lusitana. Se é verdade que "pelos frutos os conhecereis", está na hora de admitir que apostamos no cavalo errado. De um lado, há perfeita continuidade de Perez Galdós a Jorge Luís Borges, de Unamuno a Octavio Paz, enquanto entre nossos literatos (para não falar de estudantes de letras) não se encontrará um só que, lendo Camilo Castelo Branco, não esgasgue a cada linha, intimidado por um vocabulário que com apenas um século de idade se tornou impenetrável mistério antediluviano. De outro lado, o idioma espanhol se afirma poderosamente como língua de cultura mundial, enquanto o português vai perdendo terreno aqui dentro mesmo, acossado pelo barbarismo midiático, manietado pelos fiscais politicamente corretos, açoitado pelos feitores da incorreção obrigatória.

Um efeito cíclico da nossa obsessão identitária é que, quanto mais nos afastamos da nossa raiz autêntica lusitana, mais temos de tomar emprestada a seiva alheia, seja francesa ou americana, e mais a nossa sonhada autenticidade se torna uma caricatura do estrangeiro. E o motivo disto é bem evidente: recusando-nos a desenvolver formas e estilos a partir de uma tradição lingüística própria, não nos resta alternativa senão rebaixar-nos a fornecedores de matéria-prima. Já no Romantismo, nós entrávamos com os papagaios e os coqueiros, Chateaubriand com a fórmula literária. Ora, em literatura, a forma é tudo: cor local, temas, cenários e documentarismo lingüístico contribuem menos para definir a nacionalidade de uma obra do que o faz a forma interna, esta sim, inconfundivelmente americana ou russa, inglesa ou lusa. A narrativa ágil e quase jornalística dos romances de Hemingway é sempre americana, quer a história se passe em Paris ou se adorne de acento espanhol. Imitada em francês, em malaio ou em urdu, permanece americana, pela força da matriz lingüistica onde foi gerada como solução americana para problemas expressivos americanos. Mais nos valeria, pois, ter desenvolvido a novela camiliana, mesmo que fosse em histórias passadas na África ou no planeta Marte, do que adaptar os temas nacionais ao modelo proustiano ou ao realismo socialista, ainda que temperados de gíria baiana ou mineira. O primado da forma, a sujeição da matéria, são leis inescapáveis, em literatura como em tudo o mais: "Quando o coelho come alface, é a alface que vira coelho, não o coelho que vira alface", resume Jean Piaget. Cobras e índios no molde literário de Apollinare não são cultura brasileira: são o delírio de um turista francês, intoxicado de cauim. O segredo da brasilidade autêntica do teatro de Ariano Suassuna não está nos temas, comuns a tantas obras epidermicamente nacionalistas, nem na imitação da linguagem popular, obrigação dogmática que se tornou cacoete: está em que a fórmula estrutural de suas peças não se inspirou em Sartre ou Brecht, e sim nos autos medievais lusitanos. Suassuna não é brasileiro porque come coco, mas porque digere a fruta local no estômago da tradição lusa. A forma é tudo. E um candomblé na Sorbonne não é sincretismo brasileiro: é a antropologia francesa engolindo o Brasil.

Mais fez pela brasilidade do romance um Machado de Assis, criando com assunto urbano e em português castiço a fórmula inédita das Memórias Póstumas (não há por que exgerar a influência de Sterne), do que dezenas de imitadores de Zola narrando histórias de escravos com sintaxe de cangaceiro. Uma nova fórmula vale mil assuntos. Ser brasileiro, para um romancista, é integrar a experiência — local ou mundial, pouco importa — numa chave intelectual e estética criada por nós segundo as nossas necessidades, e não integrar materiais locais e trejeitos lingüísticos regionais numa tradição narrativa francesa ou inglesa. É uma simples questão de quem come quem.

O protesto de Evaldo Cabral de Melo, de que só povos complexados se preocupam com a própria identidade, pode ser aceito como um exagero corretivo, mas continua exagero. A obsessão germanizante de um povo em luta com o complexo de inferioridade gerou Hermann e Dorothea e a filosofia de Fichte, Schelling e Hegel. E a afirmação xenófoba do russismo contra a hegemonia franco-germânica produziu Dostoiévski, Soloviev e Lossky. Abençoada neurose!

Nosso erro não está em buscar uma identidade. Está em três fontes de engano, nas quais bebemos compulsivamente há mais de um século. Primeira: revoltamo-nos sempre contra o dominador errado. Escravos da Inglaterra, continuávamos a nos bater contra o extinto domínio português. Intoxicados de francesismo, esforçávamo-nos por expelir de nosso ventre os últimos resíduos da herança portuguesa. E hoje, paralisados sob as patas do império mundial anglófono, encenamos ainda um ridículo Ersatz de rebeldia, não anti-anglo-saxônica e sim antilusitana, jogando bombas ideológicas contra a "língua dos dominadores", como se o FMI fosse presidido por Cândido de Figueiredo e a Gramática Metódica de Napoleão Mendes de Almeida fosse a Carta da ONU. Vista sob esse prisma, nossa pretensa busca de independência não é senão afetação e disfarce para encobrir nosso compulsivo puxa-saquismo, nossa incoercível devoção ao poder mais forte, nossa renitente hipnose de botocudos ante os prestígios internacionais do momento.

A segunda coisa: acreditamos demais na mágica besta do popular, do local, do costumeiro e corriqueiro. Achamos que falando de coisinhas do nosso dia a dia e imitando a fala do povo seremos nacionais, quando a força da criação nacional não está na sua matéria, muito menos no populismo do seu estilo, e sim na originalidade das soluções estéticas e intelectuais que, uma vez bem sucedidas, se transformam em soluções e modelos para outros escritores de outras nações. Dostoiévski não representa o gênio russo porque fala da Rússia ou porque imita a fala dos russos, mas porque inventou, desde a Rússia, um sistema de enfoques narrativos que desde então se tornou necessário para todos nós, seja para falarmos da Rússia, seja de nós mesmos. A originalidade de uma literatura nacional é enfim uma só e mesma coisa que a originalidade criativa de seus escritores, a qual por sua vez não é senão a capacidade de dar respostas sérias a ansiedades autênticas. E, quando isto falta, não há documentarismo, populismo ou automacaquice lingüística que o substitua.

A terceira fonte de engano é a perpétua confusão que fazemos entre o universal e o atual. Achamos que, para integrar-nos na cultura mundial, temos de acompanhar o debate que se desenrola entre os povos mais ricos e supostamente mais cultos. Nunca nos ocorre a hipótese de que, no curso desse debate, esses povos possam ter perdido o fio da sua própria tradição cultural, de que possam estar reduzidos à mais profunda incompreensão de si mesmos, de que possam estar mergulhados numa inconsciência que só um maluco suicida desejaria imitar. Tomamos sempre os povos importantes de hoje como se fossem os únicos intérpretes autorizados da tradição ocidental (para não dizer mundial), e nos recusamos a lançar um olhar direto e sem fiscais sobre um passado que eles mesmos, tantas vezes, confessam já não compreender mais. Quem nos garante que, examinando por nossa conta a antigüidade greco-romana, a cristandade medieval, a remota herança dos povos orientais, não seremos capazes de descobrir aí certos tesouros que foram esquecidos pelo establishment cultural euro-ianque ou que mesmo escaparam completamente ao seu horizonte de visão? Quem, que autoridade, que dogma inabalável nos reduz à condição de herdeiros indiretos que só podem ler Marco Aurélio com os olhos de Renan, Parmênides com os de Heidegger ou Aristóteles com os de Jaeger? Quem nos arrebata o privilégio de desfrutar diretamente de uma herança que não pertence só aos povos ricos e que os povos ricos tantas vezes desprezaram, traíram, aviltaram e perderam? Quem nos assegura que a linha de evolução intelectual da Europa moderna foi a única ou a melhor possível que poderia ter-se desenvolvido a partir do legado medieval e antigo? Por que embarcar na paralisante suposição apriorística de que não podemos descobrir aí novos e inéditos desenvolvimentos? Por que fazer da história intelectual européia o modelo paradigmático e inescapável da sucessão dos tempos? Por que repetir, como um disco rachado, que as coisas não poderiam ter sido de outro modo e recusar-nos a experimentar outros modos possíveis? Por que não podemos escandalizar e chacoalhar a empáfia dos usurpadores, lendo Heidegger através de Parmênides, Nietzsche através de Sócrates, a modernidade através da Idade Média? Por que não podemos, em vez de medir o passado com a régua dos senhores do dia, julgar os senhores do dia à luz das sementes cujo máximo e perfeito desenvolvimento eles, sem a mínima prova, asseguram representar? Por que não nos atravemos a provar que as antigas sementes, plantadas em terra nova, podem dar melhores e mais doces frutos do que as ideologias européias, o comunismo, o fascismo, duas guerras mundiais e a presente degradação intelectual do mundo?

Não fomos só nós que caímos na esparrela de abdicar de uma herança que nos pertence. Os portugueses, inferiorizados por não acompanhar pari passu o pensamento moderno, acabaram se esquecendo daqueles fantásticos filósofos de Coimbra, mestres de Leibniz, que em pleno século XVI já pensavam em economia de mercado e física probabilística, saltando três séculos sobre a ilusão mecanicista cujo prestígio, tão invejado pelos ìluministas lusos, só fez atrasar o desenvolvimento das ciências e inspirar, na política, os frutos mais letais do estatismo centralizador. Até hoje Portugal, como um príncipe bêbado que se imaginasse mendigo, atribui suas desventuras ao fato de não ter tido seu Voltaire ou seu Rousseau, quando seu único erro foi o de esquecer-se de si, o de não conseguir olhar seu próprio passado senão no espelho enganoso da modernidade alheia.

Por ironia, justamente nisso continuamos imitando servilmente Portugal. Iludidos pelo dogma de que o presente abrange todo o passado — quando por definição nenhum conjunto de fatos esgota o possível —, recusamo-nos a receber o legado das grandes épocas e continuamos mendigando às portas da mediocridade européia (e americana) atual. Barramos assim nosso acesso a uma verdadeira universalidade e continuamos nos agitando em vão na falsa alternativa cíclica do estrangeirismo e do localismo, ora em formato puro, ora ressurgida sob o disfarce do elitismo e do populismo.

Reincide no engano —só para dar um exemplo recente — o livro de Marcos Bagno, Preconceito Lingüístico. O Que É, Como Se Faz (1), ao assumir a defesa do mais entrópico laissez-faire gramatical contra toda tentativa de conservar a unidade da norma culta, abominada como mecanismo de exclusão social e opressão dos pobrezinhos. Adornando de terminologia técnica uma argumentação que no fundo não passa do habitual apelo ao ressentimento populista contra os adeptos do purismo vernáculo, supostamente também senhores do capital — ai, meu Sacconi! —, o autor nem de longe dá sinal de perceber que, afrouxada a norma portuguesa, o que haverá de predominar não será o democratismo igualitarista das falas populares, autoneutralizantes por sua multiplicidade mesma, e sim a influência ordenadora da norma anglo-americana, ocupando substitutivamente — e usurpatoriamente — o lugar da regra vernácula. Isso aliás já vem acontecendo, como se vê pela alarmante disseminação do uso de palavras portuguesas montadas segundo uma sintaxe inglesa — "amanhã estarei indo viajar" —, o que já não é mais a corriqueira assimilação de vocábulos estrangeiros e sim precisamente o contrário de uma assimilação: é uma adaptação do material nacional à forma dominante estrangeira, é ser assimilado, é fazer o papel da alface na fisiologia do coelho. Toda cultura nacional é um vasto sistema de incorporações, no qual manifestações isoladas e locais vão se integrando numa unidade superior, e isto acontece com a língua tanto quanto com as idéias. Se, no topo, esse movimento não encontra um critério de unidade que lhe seja próprio, ele logo se amolda a um de fora, preferindo antes ser assimilado do que voltar à dispersão de onde partiu. Se o prof. Bagno fosse um agente consciente do imperialismo, pretendendo dissolver a nossa unidade lingüistica para lhe sobrepor a americana, seu livro seria obra de inteligência, mista de maquiavelismo. Mas não: ele é apenas mais um esquerdista doido, desses que, ansiosos para expressar sua miúda revolta imediatista e cega, não sabem a quem servem em última instância e aliás não querem nem saber: falam o que lhes dá na telha e, de tempos em tempos, constatam, mais revoltados ainda, que tudo deu errado e seu mundo caiu.

Para cúmulo de inconsciência, o prof. Bagno, citando indevidamente Aristóteles, proclama que sua obra é política, quando a política para o Estagirita é o cuidado do bem comum, isto é, a vigilância sobre os rumos da sociedade como um todo, e nunca a adesão parcialista a exigências de grupos ou classes, defendidas como se valessem por si e sem o mínimo exame das conseqüências que seu atendimento possa produzir sobre o corpo da sociedade integral. Para os meninos da Febem ou para o lavrador de Ponta Grossa, pode ser bom ou pelo menos cômodo, a curto prazo, que os deixem escrever como falam, sem subjugá-los à uniformidade da norma. Subjetivamente, eles talvez se sintam, assim, menos excluídos. Mas, objetivamente, aí sim é que estarão excluídos, aprisionados na sua particularidade e sem acesso à conversação das classes cultas. Tudo depende de saber se preferimos enfraquecê-los pela lisonja ou fortalecê-los pela disciplina. Há nisso uma escolha moral que os amigos do povo preferem não enxergar. E se, levando as opiniões do prof. Bagno às últimas conseqüências, as próprias classes cultas desistirem da norma unitária e, para não passar por preconceituosas ante o olhar malicioso dos ressentidos, adotarem como obrigatória a entropia populista, então das duas uma: ou a entropia arrastará na sua voragem o pouco de possibilidade de diálogo racional que ainda resta neste país, ou então uma norma substitutiva acabará por se impor, e ela certamente virá da rede das telecomunicações, cujo idioma e padrão é o inglês. Qualquer das duas coisas será indiscutivelmente boa, mas para os Estados Unidos. E, se me perguntarem se o que é bom para os Estados Unidos não é bom para o Brasil, direi, de novo, que é uma simples questão de quem come quem.

23 maio 2011

E diz assim Nicolau Saião



O ESTREBUCHAR DA FERA

Diversos órgãos de opinião têm referido que os "socialistas" de Sócrates, no caso provável de perderem as eleições que têm tentado subverter e manipular através de falsidades e de um "vale tudo" ignóbil, preparam já o "depois da queda" de maneira que só podemos classificar de sediciosa. Para essa gente não há ética nem patriotismo!
Para comprovar, eis um fragmento do comentário que um notório "Anónimo" (bem conhecido ali pelo seu discurso acintoso, pernóstico e odiento que o salienta) deu a lume no Fórum Interactivo do jornal "Público" e que dispensa mais análises - tão claro é. Diz o referido indivíduo a dado passo do seu arrazoado:
" PSD + CDS que mesmo não tendo maioria absoluta vão ter certamente mais votos que o PS, espera-os alguma agitação social. Ou será que mais de 30% dos eleitores que votarão no PS vão ficar caladinhos com esse ataque ao poder, vindo de Belém???".
Mais claro e descarado que isto não pode haver. Claro incitamento à sedição.
Mantenhamo-nos vigilantes e determinados!

Em complemento...

a este texto de Vítor Bento que o José Gonsalo divulgou no Fiel Inimigo, acrescento eu agora este pequeno vídeo:

Exercício de cidadania


Eduardo Jorge, do blogue Tetraplégicos (no Miradouro), é alguém que me merece o maior respeito pelo empenho e pela tenacidade com que, nas difíceis condições em que vive (e há-as, infelizmente em monstruoso número, muitíssimo mais difíceis ainda), tem lutado pela dignidade, informação e aproximação dos cidadãos que, sofrendo - de diferentes modos e em diversos graus - de deficiências, tiveram o azar de nascer em Portugal, sendo também ele um dos promotores desta marcha que, julgo, todos deveríamos apoiar, presencialmente ou de qualquer outra maneira.
Aqui fica o alerta. E um grande abraço para ele e para todos aqueles que venham a sair à rua.

Abaixo a Oposição!


Ou alguém poderia sequer imaginar que o socialismo é responsável por isto que aqui se diz e eu transcrevo?!

"O risco da dívida espanhola chegou hoje ao seu valor mais elevado desde Janeiro, tendo crescido 18,5 por cento em apenas uma semana, com o diferencial face aos títulos alemães a superar os 260 pontos base.

Dados do mercado citados pela imprensa espanhola atribuem esse aumento à incerteza sobre a situação na Grécia, as advertências do FMI sobre a Irlanda e aos resultados das eleições regionais e municipais de domingo.

Hoje, o risco da dívida espanhola a dez anos subiu até aos 263 pontos base, com uma taxa de juro de 5,614 por cento, acima dos 248 pontos base com que terminou na semana passada, segundo os dados do mercado secundário citados pela imprensa.

Em apenas uma semana o diferencial subiu de 222 para 263 pontos base, com os investidores a temerem que as eleições municipais e regionais em Espanha podem ter um impacto negativo no défice e dívida pública."

À atenção do sr. Marinho Pinto...


... para quem as leis elaboradas pelos governos do sr. eng.º Sócrates são sempre modelares e os juízes, uma mera corja (ler antes, a propósito, este e este post que aqui publiquei):

A história da detenção de Dominique Strauss-Kahn podia ter sido muito diferente se tivesse acontecido em Lisboa. «Se fosse em Portugal, não estava detido», assegura um juiz. «Cá a acusação demoraria meses», ataca um advogado. «Mesmo com urgência estaríamos um mês à espera dos testes de ADN», garante um magistrado do Ministério Público (MP).

A rapidez de actuação da polícia e do Ministério Público é a primeira diferença que salta à vista. Strauss-Kahn foi alvo de uma denúncia pouco depois do meio-dia de sábado. Uma empregada guineense de 32 anos chamou a polícia ao Hotel Sofitel de Times Square, em Nova Iorque, e foi imediatamente levada para ser submetida a exames médicos. Pouco antes das cinco da tarde do mesmo dia, o presidente do FMI era detido a bordo de um avião da Air France prestes a descolar.

«Esta detenção não era possível no sistema judicial português, porque não houve flagrante delito», defende o juiz António Martins, explicando que sem esse requisito legal «seria impossível deter o suspeito sem um mandado de um juiz ou de um procurador».

Rogério Alves tem uma opinião diferente. «Podia considerar-se que havia uma situação de ‘quase’ flagrante delito – uma figura prevista na lei portuguesa – por ter saído à pressa do hotel, deixando o telemóvel». O advogado acredita, porém, que «só um polícia mais atrevido» faria uma detenção nestas circunstâncias.

Um mês à espera de resultados de exames

Rogério Alves acha que «em Portugal quer-se sempre a acusação perfeita e o Ministério Público acaba por demorar meses até deduzir acusação». Mas o procurador Carlos Casimiro garante que o problema está nas provas. «A recolha de indícios é feita na hora da denúncia. O problema é o tempo que demoram a ser feitos os exames», explica, garantindo que «em 99,9% dos crimes sexuais a acusação demora por causa das provas periciais» – já que não se pode acusar um suspeito só com base no testemunho da vítima.

Segundo o Le Figaro, citando a americana MSNBC, «foram encontrados vestígios de ADN no corpo da vítima». Mas no nosso país os resultados demorariam muito mais. «O Laboratório de Polícia Científica está assoberbado com milhares de perícias, porque tem duas pessoas a trabalhar. Com urgência, chega-se a esperar um mês», conta Carlos Casimiro.

O juiz António Martins também duvida que alguém tão importante como o presidente do FMI pudesse ficar em prisão preventiva em Portugal. «Vimos uma juíza a decretar a prisão preventiva, oralmente e com uma argumentação sucinta. Cá, caía o Carmo e a Trindade», comenta, lembrando que a mesma decisão em Portugal obrigaria a «páginas e páginas, citando artigos de A a Z, para dizer que há perigo de fuga».

O facto de Strauss-Kahn ter abandonado o hotel à pressa – segundo os seus advogados para almoçar com a filha – e de ter deixado o telemóvel no quarto, ajudou à tese de que estaria em fuga.

Para o magistrado, a diferença é que «nos EUA todos os intervenientes respeitam o sistema judicial» e ninguém pôs em causa a decisão da juíza. «Não ouvimos os advogados a criticar o tribunal, a polícia ou a acusação».

Rogério Alves recusa acreditar que os juízes portugueses sejam menos independentes do que nos EUA: «A Justiça trata todos por igual. Temos é um sistema judicial tão complexo que quem tem mais recursos sabe aproveitar melhor os buracos da lei».

Nos EUA, o famoso caso de O. J. Simpson – ex-jogador de futebol americano acusado de matar a mulher, que acabou ilibado no processo crime e condenado no cível – abriu caminho a uma alteração para tornar mais igual o acesso à Justiça. «Para que não fosse quem tem mais dinheiro a contratar o melhor perito para a sua defesa, agora é o juiz que nomeia um para suspeito e vítima», explica Carlos Casimiro.

Os advogados de DSK (como é conhecido o francês), William Taylor e Benjamin Brafman, têm relembrado a presunção de inocência. E, segundo a imprensa, vão sustentar a defesa na tese de que o sexo foi consentido.

(texto obtido aqui)

O homem está cada vez mais pândego!

(foto obtida aqui)

Da dimensão moral de Sócrates, o Rajá do Martim Moniz...

... segundo a inspirada expressão da Abobrinha:





(via Lisboa-Telaviv)

Das guerras religiosas em Portugal


Disse o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Gilberto Madaíl, hoje, à RTP, logo após o jogo da final da Taça (cito de memória): "Se até o Santuário de Fátima beneficiou de obras, porque não as há-de ter o Estádio Nacional?" (sublinhado meu).

E do outro lado...

Santarém, Brasil

... do Atlântico:

"Os brasileiros já sentem no seu dia a dia as "dores" do crescimento do País. Atividades cotidianas - pegar um táxi, comer num restaurante, conseguir um quarto de hotel, viajar de avião - tornaram-se verdadeiros desafios, principalmente nos grandes centros. A sensação das pessoas é que o Brasil está "caro" e "lotado".

A situação é um reflexo do avanço da economia e do mais baixo nível de desemprego dos últimos 20 anos. Desde 2003, o Produto Interno Bruto (PIB) do País cresce, em média, 4% ao ano. A demanda por serviços superou a oferta e a consequência foi a superlotação e a alta dos preços. "O ritmo atual de crescimento é insustentável", diz Fábio Ramos, economista da Quest Investimentos.

Nos últimos 12 meses, comer fora de casa ficou 12,7% mais caro, estacionar o carro subiu 10,9%, a mensalidade da escola das crianças aumentou 9,1%, o aluguel subiu 9,9% e a consulta do médico pesa 10,4% mais no orçamento, revela cálculo da Quest. Boa parte dos reajustes é o dobro da inflação do período medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que já subiu salgados 6,5%.

As pessoas que viajam com frequência percebem com mais intensidade os problemas. O "calvário" começa com as filas intermináveis nos aeroportos e os atrasos dos voos, mas está longe de terminar ao chegar ao destino. Dependendo do horário, conseguir um táxi e um quarto de hotel são proezas.

Na cidade de São Paulo, existem 35 mil táxis em circulação, a terceira maior frota municipal do mundo. No entanto, nenhuma nova licença foi concedida nos últimos seis anos, período de forte crescimento da demanda. Os preços da corrida estão entre os mais altos do Brasil e são o triplo de Buenos Aires.

O mercado está tão aquecido que permitiu um reajuste de 16% na tarifa de táxis da cidade em novembro, sem nenhum impacto na demanda. Os taxistas culpam o trânsito pela falta de veículos. "São Paulo tem muito táxi e não comporta mais. É o trânsito que segura os motoristas", diz Natalício Bezerra da Silva, presidente do Sindicato dos Taxistas Autônomos de São Paulo.

Hotel

Vencida a etapa do transporte, é preciso conseguir acomodação no hotel. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (Abih), a taxa de ocupação em São Paulo está em pouco mais de 70%, um nível considerado "confortável" pelo setor. A avaliação da entidade é que os gargalos se concentram no Rio e em Recife, onde a ocupação superou 80%. "Nos últimos anos, 30 milhões de brasileiros entraram no mercado. Se dermos conta da demanda interna, estaremos prontos para a Copa e a Olimpíada", disse Enrico Fermi, presidente da Abih. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo."

22 maio 2011

Uns e outros


Estes, todos os vimos sentados à mesa, a comer, pelos telejornais; os outros, a ser verdade, terão, naturalmente, passado despercebidos (embora parecesse haver por ali um número suspeito, por excesso, de africanos). Mas, pelos contactos que, anos atrás, tive com a embaixada de Moçambique...

Nota às 23:00h - Afinal, como pôde verificar-se (pelo menos) na reportagem da TVI24, no que diz respeito a moçambicanos bem como a gente de outras nacionalidades que não só dos PALOP's, o partido do sr. Pinto de Sousa desembolsou à grande (eram 5 autocarros!) no contrato a figurantes a troco de almoços, lanches e sabe-se lá mais o quê. E não só estrangeiros! Havia velhas portuguesas de ambos os sexos a cacarejar e dar murros na mesa durante as entrevistas, entusiasmadas com a festarola, que "isto é de graça e a gente tem que aproveitar!". Pudor e vergonha são coisas invisíveis no novo "partido das paredes de vidro". Aliás, dos figurões que chamaram a comunicação social para cerimónias oficiais de entrega de computadores nas escolas em que utilizaram figurantes como alunos, esperava-se o quê? Escrúpulos?

Este é o caso...


... em que uma imagem vale mais do que mil palavras (clicar aqui).

21 maio 2011

Aos "da cor", aos oportunistas e aos imbecis de todos os quadrantes...

Belskiy Bogdanov, Cálculo mental na escola pública de Rachinskiy

... que defendem e elogiam o sr. Pinto de Sousa por esse crime de lesa-pátria que se chama Novas Oportunidades, bastar-lhes-á este exemplo daquilo em que se tornou o próprio ensino público "normal"?
Saberão também ainda que as Provas de Aferição de Português e de Matemática do 1º Ciclo do Ensino Básico deste ano foram as mais fáceis de sempre?
E, já agora, leiam também isto.

O que faz falta


20 maio 2011

O factor oculto


Passos Coelho terá, muito provavelmente, ganho o debate com o sr. engº Sócrates. Em primeiro lugar, porque construiu uma barreira reflectora à vozearia da cassete do actual primeiro-ministro, não deixando que a atenção do espectador passasse para segundo plano as consequências da acção do governo. Em segundo lugar, porque desfez sucessivamente as mistificações que Sócrates procurou fazer em relação a conteúdos presentes no programa do PSD, reforçando, deste modo, a ideia de que, bom ou mau, existe neste uma linha definida e novas soluções, que se contrapõem às permanentes contradições e deriva a que o PS submeteu o país. Em terceiro lugar, porque foi de uma aparente e veemente autenticidade que o fez surgir como pessoa, em contraposição à qual o primeiro-ministro se assemelhava a um agressivo fantoche falante.
Mas, apesar de tudo isso, talvez José Sócrates tivesse, ainda assim, ganho o debate se, no subconsciente de quem o ouvia, não ecoasse em surdina o estribilho que avassalou, como nunca antes, Portugal no decorrer destes seis anos: "Mentiroooso, mentiroooso, mentiroso, men-ti-rooo-so!". Porque, contra factos, não há argumentos.

Ainda Gonçalo Ribeiro Telles



(via IDP)

Pensamento do dia


Aqui (o link deste blog passou a estar disponível no Miradouro) -via Fiel Inimigo.

19 maio 2011

Das palavras aos actos


... ou "Atenção, portugueses! Ele não gosta que lhe falem assim."

"A democracia nada virtual"


Uma seta certeira de Luís Dolhnikoff:

Um príncipe saudita sai nu do banheiro do seu quarto de hotel e se depara com uma camareira dobrada sobre a cama, arrumando-a. “Naturalmente”, decide possuí-la. Em seguida, pela reação da mesma ao estupro, decide se manda seus seguranças sequestrá-la, matá-la e “sumi-la”, ou calá-la com dinheiro. Seja como for, uma camareira, depois de “derrubada” por um príncipe saudita, não derruba um príncipe saudita. Ou o filho de um Kadafi. Etc. Mas pode derrubar um “príncipe” das finanças mundiais, Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional e principal candidato às eleições presidenciais francesas

Mas se ele é um homem potente, ou poderoso, e ela uma mulher impotente, ele um político de expressão mundial, ela uma camareira de hotel, como pode a camareira derrubar o “príncipe”, em vez de o “príncipe” derrubar definitivamente a camareira? Porque a impotência dela e a potência dele são anuladas e equilibradas por outro poder, por outra força, a da lei. Mais exatamente, pela força da igualdade perante a lei. Se há igualdade, não há diferença. Se não há diferença, as diferenças de potência ou poder se anulam.

Os significados da prisão de Dominique Strauss-Kahn em Nova York são claros e marcantes.

Em primeiro lugar, os EUA são uma verdadeira democracia, apesar da antipropaganda dos antiamericanistas. Uma democracia de fato, de fatos.

Em segundo lugar, a democracia “burguesa” não é valor descartável. Pois apenas ela garante uma significativa igualdade perante a lei. E nada é mais relevante do que isso, ao menos para os fracos e impotentes.

Em terceiro lugar, a democracia brasileira, mais formal do que real, pois contempla o formalismo eleitoral mas se limita a ele, é menos real do que formal. A famosa e infame impunidade brasileira, ou seja, a inação estrutural e histórica da justiça, anula, na prática (que é o que importa), a igualdade perante a lei. E essa anulação anula, por sua vez, a base mais profunda da democracia. Porque os poderosos, por definição, defendem-se a si mesmos. Apenas os impotentes precisam da lei.

O episódio da denúncia e prisão de Dominique Strauss-Kahn em Nova York é tão luminoso e iluminador que faz o que parecia impossível, promover um curto-circuito nas teorias da conspiração. Um todo-poderoso das finanças mundiais ataca sexualmente, na intimidade de seu quarto de hotel de luxo, uma mera camareira, e ela o denuncia em seguida. Um crime crível. Verosímil. Comum. Ou que o seria, não fosse tudo o que tem de absolutamente inusual. Tão inusual quanto a verdadeira igualdade perante a lei.