11 fevereiro 2008

Relembrando


A propósito de uma troca de pontos de vista que tive ontem com a Abobrinha, deixo aqui um excerto d' A Terceira Vaga, de Alvin Toffler, que se aplica não apenas ao que ele visa directamente, os diferentes cultos religiosos que pululam nos EUA, mas, de facto, a tudo o mais.
Na realidade, o conteúdo exacto da mensagem do culto é quase secundário. O seu poder encontra-se em fornecer síntese, em oferecer uma alternativa para a fragmentada cultura blip que nos cerca. Uma vez essa estrutura aceite pelo recruta do culto, ajuda-o a organizar muita da informação caótica que o (ou a) bombardeia do exterior: quer essa estrutura de ideias corresponda, quer não, à realidade exterior, fornece um conjunto certo de nichos onde o membro pode armazenar os dados que recebe, aliviando assim a tensão da sobrecarga e da confusão. Não fornece verdade como tal, mas sim ordem e, consequentemente, significado.
Ao dar ao membro o sentimento de que a realidade tem significado - e que ele ou ela devem levar esse significado a pessoas do exterior -, o culto oferece objectivo e coerência num mundo aparentemente incoerente.

4 comentários:

Abobrinha disse...

Joaquim

Em relação a religião parece-me acertado. Em relação a "esquerda" falha por não cumprir dois dos termos: sentido e coerência.

Compra "o que resta da esquerda hoje" de Nick Cohen. Ainda estou a ler, mas já apanhei muita coisa que verifiquei intuitivamente.

Joaninha disse...

É um ponto de vista...

Joaquim Simões disse...

Joaninha: bem-vinda à minha modesta casa!
Abobrinha: o que o Toffler diz refere-se não apenas à religião e à política, mas a todo o processo de constituição de diferentes "rebanhos". Com a bênção e a colaboração estremosa da comunicação social. Não se trata aqui de bons e maus, mas de algo que tem a ver com a humanidade toda. O problema da esquerda não é de ser esquerda, a qual tem princípios e objectivos mui nobres, mas da vulgata desses mesmos princípios aplicada por quem (por diferentes motivos: falta de conhecimentos,preguiça, má-fé, inveja, vaidade, ressentimentos...)não vai além dessa mesma vulgata.

Joaquim Simões disse...

Os católicos, aliás, preocupam-se hoje com a distinção entre cristianismo e cristandade. É que a cristandade tem tido momentos abjectos... E o momento de menor "popularidade" da Igreja será talvez o momento em que ela poderá ficar, no plano doutrinal, mais próxima da mensagem original e de se renovar nesse sentido. Conheces exemplo mais próximo da militância política ranhosa do que os srs. curas?