
05 junho 2011
O que diz Nicolau Saião...

03 junho 2011
"A sensação"

"Leio, em diversos órgãos de informação nacionais e internacionais, esta notícia que fez manchetes perfeitamente compreensíveis: nos Estados Unidos, o indivíduo que durante 20 anos teve o controle, após sequestro, de uma rapariga na altura com onze anos e de quem se serviu torpemente com a cumplicidade da mulher com quem estava casado, dando origem a duas filhas, foi condenado a 432 anos de prisão.
O indivíduo, um desses pregadores muito usuais nos EUA (um monomaníaco evidente) foi descoberto e finalmente preso - e depois julgado - porque a rapariga em certo dia conseguiu fugir e se refugiou numa esquadra, apresentando queixa nessa altura.
A sensação que me acomete, é: se fosse em Portugal...! Se fosse em Portugal, digo em resposta simbólica e fazendo apelo a uma interior frustração, indignação e desânimo -reais e apoiados em muitos casos mediáticos - posso suspeitar que o predador seria eventualmente objecto de desculpas as mais diversas.
Se, é claro, na esquadra tivessem podido ligar meia à denúncia...
E isto que digo é, na verdade, terrível, pois sinto e sei que esta desconfiança, muito justificada por inúmeros casos de desleixo e de inconformidade, é partilhada pela generalidade dos cidadãos.
É imprescindível que a Justiça em Portugal seja limpa de escórias.
É preciso, dessa forma, devolver a esperança aos cidadãos, finalmente situados num existir de Direito inegociável e cuja ausência os tem ferido irregularmente. E sobre a qual têm tripudiado mediante a força de que se apoderaram de forma capciosa.
E isso só se consegue se não deixarmos que as desculpas incomportáveis dos sectores corporativos (e dos que lhes servem de anteparo) que capturaram a sociedade de Direito, transformando-a numa herdade de que são em parte "manajeiros", continuem a tergiversar.
Num texto escrito e divulgado em diversos órgãos e países, que referia o estado calamitoso do Sistema Judicial, a dada altura digo meditadamente: "O Sistema Judicial, por razões diversas e inquietantes, é o cancro que está a destruir a Democracia tendencial em que vivemos".
Sabe-se o ponto a que se chegou.
Não podemos deixar que este estado de coisas continue!"
01 junho 2011
"Para elevar os corações"

31 maio 2011
"...Então dança agora!"

... título de um novo texto de Nicolau Saião, relembrando a resposta que a formiga dá à cigarra na velha fábula. Mas, atendendo ao conteúdo e a uma expressão que nele se encontra, bem como, sobretudo, ao espírito que lhe subjaz, "Aracnofobia" também seria adequado.
"Disse Miguel Torga, numa entrada do seu Diário publicado logo após o 25 de Abril, que o pior mal que Salazar fizera aos portugueses não fora tanto tirar-lhe o pão, mas principalmente tirar-lhes a esperança e a dignidade.
Subscrevo inteiramente. E, ao subscrever, recordo um apólogo muito conhecido que refere, com prudente ponderação, que “uma maçã podre acaba por fazer apodrecer todas as que lhe estão em volta”.
Em circunstâncias reais, creio que é não só vero mas bene trovato.
O mesmo se dá, para além dos simbolismos, na vida quotidiana e, no caso vertente, na política e na justiça.
Sem acinte, veja-se o que se tem passado entre nós: o regime actual, de governação despejada, baseada no impudor de não verdades (para citar com a conveniente ironia a expressão posta a correr por um protagonista de que me dispenso de dizer o nome) tem criado um ambiente societário de “relativismo moral”, de abandalhamento filosófico, de capciosa argumentação onde o branco passa a ser preto e o preto branco – que é o sinal mais seguro e certo de que se tentaram paulatinamente fazer perder os valores mais puros que envolvem uma Democracia e são o seu garante íntimo e solene: a honra de se existir num horizonte relacional onde a dignidade, a razão e a decência constituem a figura humanizada dos cidadãos.
A mentira tornou-se um acto que se busca afixar como normal e conveniente. O tanto faz, que camufla e escamoteia interesses inconfessáveis desses indivíduos, passou a fazer parte duma nação às aranhas. E tal facto é intolerável.
Importa que, no futuro próximo, haja uma reconversão.
Sem moralismos pedantes, sem vinganças e sem desforços impuros e revanchistas – mas simplesmente como limpeza necessária. É a existência civilizada que o exige!
Não podem continuar as desvergonhas que os mídias assinalam e os desleixos cruéis e orientados no campo da Justiça, por exemplo. Nem no da Segurança. É necessário extirpar do corpo do País, mediante ponderação mas firmeza – se necessário recorrendo a Organismos legais internacionais - o ror de gente em roda-livre que alegadamente se tem servido dos seus confortáveis lugares de domínio, nos lugares constitucionais em que tão mal têm servido o povo e a Pátria. Caso contrário poderá entrar-se num ambiente de confrontação perigosa, no descalabro e na ruína social.
Independência não pode confundir-se com impunidade. Nem irresponsabilidade.
Neste particular, bem têm andado os protagonistas político-sociais que colocam no seu programa, na sua carta de intenções, a necessária actuação visando acabar-se de uma vez por todas com os corporativismos que a pouco e pouco têm destruído a dignidade e a esperança deste povo.
Tem de tornar-se uma naturalidade este facto tão simples: esses sectores não podem continuar a agir como se os cidadãos – os cidadãos portugueses! -fossem supra-numerários, apenas campo para manobras da mais diversa ordem que lhes garantem domínios espúrios e, no fundo, agressores da Constituição.
E não venham, arteiramente, com a falsa cantata de que a culpa inteira é dos políticos!
Porque na verdade os políticos, mal ou bem, com maior ou menor demagogia, ou eficácia de opinião, estão dependentes da vontade, do voto popular. E das leis fundacionais duma República representativa.
São pois responsáveis ante os que os elegeram e frequentemente responsabilizados devido a essa circunstância.
Se procedem mal, podem ser e são geralmente afastados. Ou seja: há essa possibilidade real.
A verdadeira “maçã bichada” está noutro cesto. E é ela que, pelo seu laxismo, pela sua crueldade social filha do desprezo pela Sociedade de Direito, que ostenta na sua força frequentemente arbitrária e, afinal, subversiva, que urge reconverter.
Caso contrário, Portugal verá o seu futuro pervertido e posto em causa sem apelo!"
25 maio 2011
Correio fresquinho - 2: Um aviso a Passos Coelho...

... vindo de Nicolau Saião:
UMA ESTORINHA (VERÍDICA) PARA PASSOS COELHO
Tempos atrás, em Itália, não tenho a certeza da data mas lembro-me que concorria às eleições um dito Partido Radical, esse partido tinha um slogan nuclear que rezava: “Vamos acabar com a corrupção”.
Toda a gente se lembra, creio, o triste fim dessa formação interventiva: acabou com 2 por cento dos votos ou seja – em petição de miséria.
Não sei se ainda existe, mas estou em crer que não.
Vou já dar a moral da estória, pedindo ao mesmo tempo que alguém de espírito sensato leve esta minha advertência ao dr. Passos Coelho. Vale?
E a moral da estória é: efectuando um inquérito, em estilo vê-se-te-avias, a uma franja representativa do eleitorado, os repórteres no terreno tiveram esta resposta: o povão não queria acabar com a corrupção porque, na explicação frontal d’alguns, havendo corrupção a malta safava-se melhor…
Para sermos totalmente claros, dr. Passos: se o senhor persiste nesse seu registo de dizer ao eleitor a verdade nua e crua, sem “bacalhau a pataco”, cultivando uma retórica de lealdade nas intenções para com o eleitorado – vai acabar mal!
Lembre-se, não esqueça, que tem pela frente, como adversário directo, um perito em balelas, em mentirolas bem artilhadas, um político cínico e que – não tenhamos medo das palavras – corre principalmente para salvar a pele
A própria e a dos amigalhaços correligionários que o acompanharam nas suas aventuras e malabarismo que em qualquer país civilizado o poriam como… mas cala-te boca!
Tem de fazer, com habilidade, um certo teatro que combata eficazmente o seu rival. Tem de lhe fazer uma marcação homem a homem, como sói dizer-se. O que está em causa é a salubridade nacional. E não esqueça que aves da mesma pena andam juntas – o que é que esperava duns punhados de povinho afeiçoado por dezenas de anos de beatice e caciquismo? Daí as sondagens que dão o homem a subir. Eles acham-lhe jeito às pantominices, é o que é…!
Espero ter sido claro.
Caso continue a ser um candidato com punhos de renda… dará com os burrinhos na água.
O seu staff de conselheiros ainda não percebeu, para lhe dar uma estratégia adequada, que se está a contas com, daquele lado, um Chávez de pacotilha, sim, mas tão pantufeiro e manobrador compulsivo como o outro?!
Correio em atraso - Uma carta de Nicolau Saião

Caros/as confrades e amigos
Em meados de Abril recebi uma notícia entristecedora: o radialista e poeta Nuno Rebocho, que foi o director de informação da RDP Antena 2 antes de ir dirigir o diário "Liberal" de Cabo Verde, sendo também assessor do presidente da câmara da Praia, sofrera um AVC.
Naturalmente constrangido - longos anos, desde que ambos começámos a escrever no "Diário de Lisboa-Juvenil", entretivemos uma fecunda amizade e colaboração intermitente - procurei saber da evolução do seu acidente vascular.
E, há um par de dias, recebi um telefonema: com alegria, ouvi o amigo Nuno que, ainda com alguma dificuldade, mas mostrando a sua lucidez e o proverbial senso de humor, me comunicava que o pior já passara.
Neste momento está em recuperação no Alcoitão, preparando-se para a breve trecho regressar às Ilhas e à labuta que lhe é própria.
Pude dar-lhe uma notícia positiva: se nada se meter de permeio - é uma maneira de falar - a seu tempo sairá no Brasil o seu livro de crónicas e viagens "Estravagários", que tive o gosto de prefaciar.
Nuno Rebocho – Um convivente goliardo moderno *
“Muitos são os benefícios de viajar: a frescura que nos traz ao espírito, ver e ouvir coisas maravilhosas, a delícia de contemplar novos lugares, o encontro com novos amigos e o aprender finas maneiras”
Muslih-din-Saadi, poeta persa
1.
Dizia Samuel Clemens (Mark Twain), também ele viajante e cronista devido a decisão própria e, durante algum tempo, viajeiro por profissão, que viajar era passear um sonho.
E acrescentou que a escrita que daí resulta passa a ser o sonho transfigurado, com o seu território de realidades e de quimeras, de minutos que se abriram para novas visões e novos pensamentos e doravante perduram como relatos que nos ensinam e nos maravilham.
Andar pelo mundo e pela vida e escrever sobre isso – pessoas, coisas, sucessos da mais diversa ordem – não é fácil tarefa, é preciso manter simultaneamente a inocência (temperada por alguma malícia), a perspicácia e um enorme sangue-frio, pois sem aviso as recordações apoderam-se de nós e como que nos obrigam a passar para outra realidade, em geral extremamente sedutora mas que nos enfeitiça com inexactidões involuntárias, filhas do nosso mistério pessoal. Por isso Benjamin Disraeli dizia avisadamente que “vi mais coisas do que as que recordo e recordo mais coisas do que as que vi”. Todavia, a grande solução consiste sempre em entrarmos generosamente na viagem, sem temermos a multiplicação de experiências, até mesmo de acasos, pois sabe-se que no final a escrita e seus interiores meandros – se dispomos da adequada dose de sensatez criadora – acabam por depurar, resolver e transfigurar aquilo que se viu, se sentiu e se viveu, como que por uma brusca mutação que vem não se sabe muito bem donde.
E depois há a memória que se convoca nos grandes momentos de fecunda solidão, de fulgurante isolamento criativo em que somos simultaneamente objecto e sujeito porque é por nós que passa a organização do que significam realmente as lembranças, do que foram efectivamente os perfis das gentes que nos rodearam, os tempos reencontrados em que revivemos uma conversa, um ritmo vital, um passeio, em que de repente ressuscitam perplexidades e encantamentos, fragmentos de tempo em que a nostalgia nos visitou sem que nos pudéssemos esquivar e que logo a seguir assumimos peremptoriamente como um dos nossos maiores bens.
A isto, creio, chama-se compreender. Porque por detrás de toda a alegria difusa transportada numa evocação, ou em todo o pequeno tremor que nos assalta ao termos a sensação de que qualquer coisa nos abandonou, há sempre um rosto ou a ideia de que por ali paira algo de humanizado e aonde se chegou através de um olhar mais exacto, mais treinado pelos mundos onde se esteve por destino e pelos universos que as deambulações nos propiciaram.
2.
Já se sabe que a arte da crónica não é nem nunca foi uma arte menor ou muito menos mero preâmbulo para qualquer coisa de maior envergadura. Trata-se, com efeito, de um corpo inteiro que se joga ali mesmo, nesse continente de luzes e sombras onde crescem deuses e demónios inteiramente nascidos da realidade que se forja com os factos arrolados e sua representação palpável. Ou seja, uma poesia muito própria e sem sujeições a outras escritas aparentemente de maior porte no arsenal do autor.
Cronista e ser convivente, o viajeiro de “Estravagários” – estas crónicas sobre o Alentejo real que os sonhos perduráveis do autor encenaram – tem parentes perfeitamente reconhecíveis, ainda que seja seu e muito próprio o estilo que arrola entre o alinhavo jornalístico e o desalinhavo livresco. São os amantes dos prazeres do espírito – e dos outros que gostosamente passam pelo corpo e a que alguns, com certa dose de leviandade, apelidam de transitórios ou baixamente materiais. Em todas as evocações de NR se sente perpassar uma clara alegria de viver, ainda que cifrada por alguma melancolia; donde o gosto pela boa mesa, por exemplo, não se ausenta nunca – e repare-se que aquela expressão vai no sentido lato. O espírito do lugar, que é o das pessoas que o habitam, é bem palpável com todo o seu manancial de coisas essenciais que vivem intensamente se tivermos olhos para cheirar, ouvidos para ver e alma para saborear. Nas crónicas de Nuno Rebocho, colega evidente de Goldoni, Hazlitt, Cela ou Saroyan, sente-se que as pessoas que recorda e os acontecimentos a que dá relevo não estão ali como pretextos fantasmais para umas tantas laudas literatas, mas para habitarem o quotidiano deste seduzido sedutor. Caldeados pelo pormenor argutamente observado, pelo trecho recortado com ironia, pela frase incisiva e mediada quantas vezes por uma indisfarçável comoção, cobram vida relatos donde pode extrair-se um perfume de passados finalmente refigurados e limpos da escória que o tempo lhes fez adquirir, de coisas e de momentos que se vão esquecendo e de outros que, embora existindo ainda na hora que passa, irão ser pasto para esquecimentos futuros.
Com estas crónicas, onde freme um tom pessoal e que possuem aquele sabor coloquial que a profissão do autor certifica e esclarece, mediante a maneira peculiar onde se desenha a sua aposta e o nosso privilégio Nuno Rebocho presta inquestionável serviço à nossa convivencialidade humana e cultural, à nossa memória específica de povo e ao nosso aprumo de pessoas que querem lembrar o melhor e o mais alto.
Casa do Atalaião, em Dezembro
* Prefácio do livro “Estravagários”, Ed. Apenas Livros.
24 maio 2011
"... E eu a ver!"

… é o título deste novo texto de Nicolau Saião:
Foi sem surpresa de maior que li, a princípio com algum divertimento, determinadas reacções escritas ou faladas, depois transcritas nos nossos mentideros habituais vindas da parte de conspícuos cidadãos, a propósito ou despropósito da prisão em Nova Iorque do notório Strauss-Khan.
De rompante, veio logo a terreiro um conhecido “bombeiro-comentador” (digamos assim com carinho e certo humor), o senhor dr. Mário Soares que, sem ter reparado ainda que de há muito os portugueses lhe deram a entender que dispensavam as “saídas ecológico-morais” em que dá largas ao seu verbo (outros diriam quiçá o seu ego) propiciou no seu estilo melífluo um mimo ao colega ideológico, visando provavelmente ampará-lo no grande tombo.
Manobra louvável, dirão os mais caridosos. E dirão bem. Com o seu espírito de cepa conceptualmente bondosa, apesar de laica, o nosso estimado “bochechas” como ainda alguns lhe chamarão com ternura, fez uma chamada de atenção que nem por ser despropositada, a nosso ver, é menos significativa: nestes casos de trutas a contas com manejos que o estatuto alegadamente lhes confere, há que esperar para ver.
Forma muito humana, isto dizemos nós, de semear habilmente uma dúvida razoável, em que os socialistas, dizem-me, são peritos.
Mas até aqui tudo bem - vogava-se no território sólido do real, ainda que habilmente artilhado…
Mas a seguir veio algo mais cómico, dum ponto de vista do misterioso inefável ou do cinematograficamente empolgante.
Primeiro veio a parafernália de cenários cruzados e multiplicados, em que o notório DSK, aliás bastamente conhecido na douce France pelo seu apego às mulherinhas (e não apenas enquanto amável jogo de conquista conquistada), teria apenas cedido aos avanços feminis e desbragados duma empregada de limpeza (e um homem não é de pau, raios!). Depois apareceram cenários em que o notório cavalheiro teria caído na armadilha montada ora pelo petit Sarkozy ora por colegas cheios de apetite do seu próprio partidão, etc.
Até se finalizar, agora já definitivamente no imaginário metafísico-policiário-conspiracionista, pela “certeza” duma cabala urdida e perpetrada pelo arqui-famoso Grupo Bielderberg, entidade que segundo parece está a pontos de dominar o Mundo, incluindo as Berlengas, e que tem tido, alegam eles, familiares tão poderosos e bem firmados no Trono como GWBush, Santana Lopes, Sócrates, Durão Barroso, Zapatero, etc. Só não explicando como é que uns foram corridos do mando e outros estão em vias de o ser, outros são apenas verbos de encher, mandaretes decorativos como o nosso apreciado Durão, etc.
Ou seja: as cantatas sobre bielderbergs e quejandos – não esquecendo que de facto estas Irmandades irregulares podem ser agregados que os países de Direito devem manter nos justos limites de clubes de raciocínio, digamos desta forma – estão é a servir para uma determinada contra-informação tentar eximir ao eventual justo castigo que lhes caiba, depois de julgamento justo, os trutas que, perdido todo o sentido das proporções, pensam que podem agir como sátrapas ou como manajeiros numa herdade à antiga.
Depois da indignação provocada pelas revelações da Imprensa sobre as características de apropriador compulsivo do DSK, assiste-se à parlenga de que os advogados do excitado Senhor vão passar a pente fino a vida da preta criada de servir, lixando-a até dizer basta e escaqueirando-lhe a figura interior.
Ou seja: vão fazer-lhe o que o DSK não pôde, parece, consumar – fornicá-la até mais não… pelo menos conceptualmente.
E isto, porque está muito noticiado, não é tese conspiracionista, mas crueldade bem real!
23 maio 2011
E diz assim Nicolau Saião

13 maio 2011
O Blogger esteve em obras, entre ontem e hoje

AMATUS
Também ele conhecia como tu o sangue
o perímetro das veias, a primitiva viagem
nessa terra de desertos e de rios ao alvorecer
Também ele fugia não apenas dos caminhos que se perdiam
entre bosques de pinheirais e macieiras, nesses lugares
de pequenos animais ao crepúsculo, de casas
perto das grandes pedras de granito ou de xisto multiplicado
mas igualmente das válvulas incrustadas no corpo da noite
de rostos desirmanados nas grandes praças onde era irreal permanecer
onde o mar não achava horizonte de homens ou de fantasmas
Também ele
erguia contra o céu, o sol, a silhueta das árvores
um vidro facetado, a página de um livro, o perfil recortado de um fruto
e por um momento sentia correr a linfa pelos sítios ignotos junto ao esqueleto
e por um instante sabia que a Terra ficara parada
e que tudo o que pensara era agora matéria de júbilo ou de pavor
Posso imaginar os teus passos na sombria rota através de um bosque em Itália
nos outros recantos que te acolhiam
o rosto grave, um olhar contemplando a neve que caía
e um silêncio como se nada existisse na manhã
como num país perdido donde os teus vestígios se afastavam.
Posso ver-te sobre a mula ou num carro tirado a éguas, ofertado
por um paciente a quem devolveras a alegria
imagino-te talvez partilhando um repasto
numa sala abobadada de um companheiro de exílio
os aprazíveis frutos do tempo desses minutos sequiosos
Tal como ele, juntavas a serenidade ao porvir
ainda que por vezes a amargura fosse o teu seguro quinhão.
Anos e séculos se desbravaram, anos e séculos se dissolveram
e a música que cobre tudo
e a chuva que tudo envolve
e as mãos que se iniciam no que a sabedoria traz de imutável
e a fresca esperança do tempo e o que é uno, puro e não acaba
09 abril 2011
Terei que guardar para amanhã...

... o que tencionava dizer hoje. Mas, em contrapartida, deixo aqui este novo desarrincanço de Nicolau Saião:
Três tristes tigres
Uma foto involuntariamente genial?
Talvez o profissional que fez esta foto a tenha feito involuntariamente, mas efectivou uma obra-prima!
Há momentos felizes, como dizia a Brassai o grande fotógrafo Atget. Senão, veja-se: plasmou para os tempos futuros, com um ricto muito deles no rosto, estas 3 personagens: Edite Estrela, com um sorrisinho alvar; Sócrates, de face baixa, perdido não se sabe em que congeminações tão sombrias como o carácter que parece ser o seu; e Almeida Santos, o pau-para-toda-a-obra, dinossauro dum PS às aranhas e o homem que há anos atrás, sem pudor, ante uma petição parlamentar que buscava responsabilizar os políticos nas suas eventuais golpadas, aconselhava os colegas a dizer Não, pois e citamos de memória, ainda se iriam arrepender de aprovarem...!
Três rostos para a História, que a História guardará como um espelho destes tristes tempos de arrivistas ...
08 abril 2011
"Homo Cristianus"

Este o título de um excelente desabafo que Nicolau Saião me enviou para nos temperar o fim-de-semana, com ilustração do próprio:
D.Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal, não é um beato falso nem um desses curiosos espécimes de uma igreja pseudo-progressista que em geral efectuam uma mistura insulsa de conceitos colhidos nos antigos discursos de horas do consabido centro-americano insular e o misturam com parlengas que dizem apanhadas em S. Paulo.
Cidadão e antístene que ao contacto com as gentes reais adequou a sua lucidez, respeitando a hierarquia mas sem andar, como certos protagonistas pedantes e hipócritas, a fazer ademanes aos pontífices para mais à-vontade poderem ofender o Homem e o Filho do Homem, fala alto e claro e com enfoque acertado.
Não engrola conceitos de alta lucubração que, evidentemente, são apenas pó para inflar os olhos dos incautos nem, como aquele conceituado narrador de anedotas semi-pornográficas muito frequentador das Têvês, desce ao falejar pretensamente terra-a-terra que apenas mostra uma mentalidade e uma formação primária de "abade de aldeia".
Tenho para mim que este homem é um verdadeiro e convicto cristão, o que o separa de 80% dos que assim, profissionalmente, se afixam - sendo na verdade verdadeiros ateus, ou que se desconhecem ou ardilosamente camuflados.
Quando fala, fala serenamente. Não por parábolas - pois tem a humildade de não se querer émulo de Cristo como aquele pequeno hipócrita que, na rádio, tenta forçar a nossa admiração de inocência martelada. Fala como um verdadeiro sacerdote (sacerdos, o que guarda ou acautela o sagrado) que é essa ausência deles nas fileiras o maior falhanço da ICAR. (Daí o afastamento/indiferença de cada vez maior número de pessoas, pese à propaganda que afixam com denodo). Por isso o ouço sempre com gosto, não por - errada e orientadamente - o dizerem dantes "o bispo vermelho", que não era nem foi, mas o que buscava cuidar do seu rebanho à guisa do célebre bispo Miryel dos Miseráveis de Vítor Hugo.
Hoje ouvi-o falar numa entrevista dada à Rádio.
Palavras sensatas, realistas, verdadeiramente humanas. Fala como falava Albino Luciani - o Papa assassinado, et pour cause - com palavras de verdadeira mansuetude mas rectidão, de bom-senso ante as ruínas em que mergulharam o País. Chamando os bois pelos nomes, pois já Cristo nos ensinava que compreender o Mal não é colaborar com o Mal cedendo à chantagem satânica de se exercer um perdão que de facto o não é, mas sim cumplicidade.
Vem-me à memória, agora, um pretérito cenário histórico. Em contraponto?
Entrevistado por James Readfield, a uma pergunta do jornalista americano que o questionara se, por hipótese, perdessem a guerra o que fariam no dia seguinte, o marechal Goering respondeu de pronto: "Começaremos de imediato a estimular a compaixão no espírito dos nossos adversários!". (cf. H.Chevallez e J. de Launay).
A esta luz percebe-se melhor o falso conceito de perdão que certa gente perfilha para melhor tripudiar sobre as nações e os indivíduos inermes e de boa-fé.
E, de igual modo, também se entende melhor a "solidariedade dos crápulas", como dizia Silone, que nos últimos dias determinados cavalheiros têm trazido incessantemente à colação... eles lá sabem porquê.
07 abril 2011
“ SEPARADOS À NASCENÇA”…


Leio, com alguma consternação risonha, este pedaço de texto colhido num órgão de informação da minha simpatia de proletário a contragosto:
Numa entrevista dada ao suplemento do Diário de Notícias, o DNA, datada de 16 de Setembro de 2000, dizia então o ministro do Ambiente José Sócrates, quando o questionaram sobre se um dia iria ser primeiro-ministro:
«Não! Primeiro porque não tenho as qualidades e o talento que um primeiro-ministro deve ter. Segundo, porque ser primeiro-ministro é ter uma vida na dependência mais absoluta de tudo, sem ter tempo para mais nada. É uma vida horrível e que eu não desejo. Ministro é o meu limite. Aceitei pagar este preço. Mas nada mais do que isso».
Ocorrem-me de imediato duas reflexões.
A primeira é de que o homem, dado o hábito inveterado da simulação que o exorna, mais do que ser humilde chegou ao ponto de enganar-se a si mesmo.
A segunda é de ordem menos metafísica, retintamente terra a terra, creio que profundamente inquieta. E vem a ser que, em 1931, entrevistado por H.R. Trevor Roper – um dos mais bem informados analistas sobre o período hitleriano - a uma pergunta do publicista Hitler respondeu da maneira que segue:
“Estou na política por um imperativo. Que nunca me agradou. O que eu de facto desejo, assim que a Alemanha estiver bem orientada, é retirar-me desta condição e ir para uma quinta no campo e aí dedicar-me aos meus desenhos, a uma vida caseira e à leitura, pois verdadeiramente eu sou é um artista!”.
Pois…
Um sabemos que percurso teve e como acabou. Do outro também conhecemos o percurso, só não sabemos como irá acabar.
Mas que parecem ser espíritos coincidentes neste particular…lá isso…parece-me inegável.
…E o resto é conversa.
ns
02 abril 2011
Um e-mail breve de Nicolau Saião

29 março 2011
Viriato e a solidariedade dos crápulas

27 março 2011
No Dia Mundial do Teatro

Diz Nicolau Saião:
“O teatro tal como o entendo é um exorcismo contra o absurdo e a infelicidade da vida breve, contra a senilidade social e a barbárie que nos querem impor através de mecanismos de disfarce disseminados habilidosamente em descargas pretensamente cómicas ou dramáticas. Tal pressupõe uma chamada de atenção, se assim o quiserem, para a ética e não para a moral.
Num mundo que já não sabe bem onde está a realidade, o teatro é uma parte da receita contra a incapacidade de multiplicação da visão clara que se pode ter das coisas. Repõe no seu verdadeiro contexto os dados da questão primordial: se somos alguma coisa, o que somos necessita de máscara? Se viemos de algum lugar, esse lugar onde está? Se vamos para algum lado, porquê fazer a caminhada duma forma que nos angustia, mas não nos permite utilizar as pistas que temos?
Estas são perguntas legítimas. E são muito. São, com efeito, quase tudo”
26 março 2011
Terceira postagem de hoje: Science-fiction

(imagem obtida aqui)
Título de mais um texto que me foi enviado por Nicolau Saião:
TER RAZÃO ANTES DO TEMPO…
Aí há uns 3 meses, numa entrevista que dei a um órgão de informação espanhol, a dada altura respondi da forma que vai a seguir.
Não me felicito por ter acertado.
Para os mais cépticos, direi mesmo: “Claro que foi por acaso, os meus dons de análise ou de previsão não chegam aos calcanhares do Lourenço ou do Marcelo – apesar de estes, até agora, se terem enganado em tudo…”. E acrescentarei, com ironia carinhosa:”Visto isto, ao ainda primeiro-ministro e, principalmente, aos poderosos interesses de apaniguados que o rodeiam, vivendo agora no temor de que se abra algum inquérito ou alguma auditoria que definitivamente os desmascare e ponha à beira do calabouço, só resta mesmo quando fizer falta o golpe de estado “constitucional…”.
E nos mentideros julga saber-se, segundo se pensa que se sabe, que alguns sectores da poderosa Irmandade Irregular estão já a trabalhar nisso activamente.
E hoje por hoje um golpe de Estado desse cariz não é difícil, basta que se tenha o apoio (já se tem) das venetas da chanceler Merkl e dos colegas de estudos, da complacência do presidente Obama (para esse está tudo sempre certo, desde que o sangue derramado não seja em demasia nem muito ostensivo) e do “compagnon de nacionalité” Barroso (que também foi um “convidado” do Bilderberg Group).
Se se proceder na altura própria, discretamente, a algumas prisões cirurgicamente colocadas chamando a atenção para os superiores interesses nacionais, se se levarem a efeito alguns estratégicos safanões a tempo como dizia Salazar, se certa gente for judiciosamente aconselhada a ter tento na língua – a coisa irá nas calmas.
E os mais altos próceres do sistema judicial lá estarão para dar a melhor cobertura. E os secretas para cobrir alguma falha.
A bem da Pátria, é claro, pois só os move o amor de Portugal… E o exército estará caladinho, já todos ficaram fartos de vinte e cincos de Abril.
Cavaco? Você falou-me em Cavaco? Ora, ora…
Pois não…!
*
“Creio que o jogo de José Sócrates é evidente a quem tenha umas luzes de contra-informação e que só engana os primários... e os orientados pelo interesse e a propaganda governamental: provocar eleições antecipadas e, contando com o "esmagamento de crâneos", ("bourrage de crânes" como dizem os especialistas franceses) que o ter quase toda a imprensa na mão e uma poderosa máquina de propaganda lhe permite calcular, ganhar outra maioria absoluta que o certifique e cimente como "deus ex-machina" do regime.
No entanto creio que as contas lhe sairão furadas, pois o Povo está, no que lhe diz parte, em fase de o repudiar. Sente-se claramente que a nação começa a estar farta dele e da sua arrogância primária.
Em breve serão os seus colegas de partido que o sentirão como um estorvo.
Tenho para mim, com o devido respeito, que a História vai ser dura para José Sócrates.
À História, como diz num conhecido texto o historiador e mestre coimbrão Prof. Amadeu Carvalho Homem, eles não escapam.
Faço minhas as suas lúcidas palavras.”
n.