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27 maio 2011

"O aborto, o choque e o progressismo"


Título deste novo texto d'O Lidador, que transcrevo em seguida:

Ontem Passos Coelho respondeu a uma questão sobre o aborto. E o que disse é do mais elementar bom senso, isto é, se os cidadãos lograrem reunir as assinaturas necessárias, o assunto pode ser sujeito a referendo, como qualquer outro assunto numa democracia, salvo as excepções de soberania, que as próprias leis interditam.

A esquerda reagiu num paroxismo histérico.
Sócrates, com a desfaçatez que se lhe reconhece, bradou que estava "chocado", ele que não se choca um milímetro com o estado calamitoso em que deixou este país. LOuçã fez o número habitual, Jerónimo de Sousa bradou, congestionado, que se trata de uma "questão civilizacional", e outras luminárias da mesma área reagiram como beatas escandalizadas quando por elas passa uma rapariga de minissaia.

Porque reage assim a esquerda?
Não é verdade que este assunto pode ser referendado, como qualquer outro? Não é verdade que este, concretamente, até já foi sujeito a referendo por duas vezes?
Há um limite para o número de referendos a que uma questão pode ser submetida?

A verdade é que a esquerda dita "progressista", tem uma visão linear do mundo. Segundo essa visão, todas as medidas que estejam de acordo com os seus valores, constituem um degrau numa escada que conduz à sociedade perfeita. É pois genuína a sua indignação. Esta gente percebe como uma blasfémia um "retrocesso", qualquer medida que não se enquadre na sua visão das coisas.
Este caso do aborto, é um bom exemplo. Para pessoas normais, é um assunto como qualquer outro, sobre o qual as opiniões podem variar. Para a esquerda, é uma "conquista". Uma vez conseguida, por via democrática, uma lei que consagra a sua visão do mundo, a democracia esgota-se e essa lei fica escrita em pedra, imune ao tempo e às opiniões das pessoas. Um dogma.
O caso do aborto seria pois indefinidamente sujeito a referendo até que o resultado fosse o "certo".
E chegado a este "degrau", acabam-se os referendos.
Trata-se de uma visão religiosa do mundo, o que é paradoxal, porque é justamente esta esquerda que tende a manifestar uma grande alergia à religião.

É por isso que a esquerda é tão perigosa e reaccionária quando chega ao poder. Porque entende que as suas ideias são as "boas ideias", não tem paciência para quem as contesta.
É a arrogância própria de quem acha que detém a Verdade e que quem não a aceita, ou é ignorante, ou está ao serviço de forças ocultas.

25 maio 2011

Correio fresquinho - 1


De Manuel Caldeira, em Londres, recebi mesmo agora o seguinte:

NO FÓRUM DO PÚBLICO A CENSURA SOMA E SEGUE

Escrevi o comentário seguinte para o Público interactivo, o qual me foi censurado. Não é a primeira vez nem será a última, porque vou continuar a enviar para ali como é de meu direito e da livre expressão consagrada constitucionalmente, os meus comentários.

O comentário referia-se à notícia respeitante à pintura total das Escadarias Monumentais, com propaganda, feita pelo PCP em Coimbra, onde no comício o dirigente Jerónimo de Sousa disse que os protestos dos estudantes não o calariam.

Se o PC pudesse, baseando-se no seu passado anti-salazarista (que visava substituir os salazaristas pelo regime estalinista, recorde-se) se pudessem pintavam Portugal inteiro com os seus símbolos.

Já se terão esquecido de uma coisa que desmascara a retórica com que camuflam a verdade e que é enquanto cá, claro que injustamente, militantes PC eram presos pela PIDE, na URSS eram metidos em campos de concentração milhares e milhares de pessoas que se atreviam a criticar o Pai dos Povos (Stalin) e o seu regime carcerário?

Os ditos comunistas são peritos em, porque houve presos em Portugal, tentarem fazer esquecer os inúmeros reprimidos pela sua ideologia totalitária, que cá se pudessem instaurariam. E, com o descaramento mais reprovável, a quem os desmascara tentam colar o rótulo de reaccionários. Mas hoje, depois da caída do Muro, já se sabe tudo.

E também a nós, democratas, eles não nos calarão, nem com retóricas nem com intimidações, como se tivessem o exclusivo da militância firme!

24 maio 2011

Um grande texto de Olavo de Carvalho

Olavo de Carvalho

... este que passo a transcrever, com introdução de Carlos Velasco - o link do blog passa a estar disponível no miradouro (via Estado Sentido):

Disponibilizo aqui um texto do filósofo Olavo de Carvalho para a reflexão dos leitores. Se hoje o Brasil e Portugal se encontram em decadência, levando consigo todo o mundo lusófono, em primeiro lugar isso se deve à obra de destruição da cultura que começou há alguns séculos, quando Pombal, homem que já admirei, mas que aos poucos, graças ao estudo, passei a desprezar, expulsou os jesuítas. Uma das críticas feitas pelos estrangeirados, a da falta de atenção para com as ciências experimentais por parte da academia portuguesa, eram pertinentes, e os próprios jesuítas estavam a agir no sentido de suprir essa falta. Entretanto, Pombal abortou os frutos desse árduo trabalho que só poderia ser feito, se a qualidade fosse o objectivo, de maneira gradual, e destruiu a base da alta cultura portuguesa e brasileira. A reforma pombalina fracassou, como o próprio Domingos Vandelli admitiu, mas os seus resultados nos afectam até os dias de hoje. As piores consequências nem se devem à reforma universitária em si, que poderia ser revertida se as outras estruturas tivessem sido mantidas, mas ao facto da extinção da ordem jesuíta ter deixado um vácuo no ensino básico e secundário que nunca foi ocupado. O ensino de massas que mais tarde iria se desenvolver começou a partir de concepções já cheias de vícios: não por acaso assistimos hoje, quando ele finalmente se universalizou, a uma total inversão dos valores que sempre estiveram por detrás da ideia de educação.

Enfim, já escrevi demais. É hora de deixar quem sabe de facto escrever e possui um conhecimento ímpar se expressar:

Quem come quem

Olavo de Carvalho

12 de Junho de 1999

A luta pela "identidade nacional" na cultura brasileira tem sido uma longa comédia de erros. Enquanto nossos vizinhos buscavam sabiamente fortalecer os laços que os uniam à cultura hispânica de origem, lutávamos obsessivamente para cortar toda nossa raiz lusitana. Se é verdade que "pelos frutos os conhecereis", está na hora de admitir que apostamos no cavalo errado. De um lado, há perfeita continuidade de Perez Galdós a Jorge Luís Borges, de Unamuno a Octavio Paz, enquanto entre nossos literatos (para não falar de estudantes de letras) não se encontrará um só que, lendo Camilo Castelo Branco, não esgasgue a cada linha, intimidado por um vocabulário que com apenas um século de idade se tornou impenetrável mistério antediluviano. De outro lado, o idioma espanhol se afirma poderosamente como língua de cultura mundial, enquanto o português vai perdendo terreno aqui dentro mesmo, acossado pelo barbarismo midiático, manietado pelos fiscais politicamente corretos, açoitado pelos feitores da incorreção obrigatória.

Um efeito cíclico da nossa obsessão identitária é que, quanto mais nos afastamos da nossa raiz autêntica lusitana, mais temos de tomar emprestada a seiva alheia, seja francesa ou americana, e mais a nossa sonhada autenticidade se torna uma caricatura do estrangeiro. E o motivo disto é bem evidente: recusando-nos a desenvolver formas e estilos a partir de uma tradição lingüística própria, não nos resta alternativa senão rebaixar-nos a fornecedores de matéria-prima. Já no Romantismo, nós entrávamos com os papagaios e os coqueiros, Chateaubriand com a fórmula literária. Ora, em literatura, a forma é tudo: cor local, temas, cenários e documentarismo lingüístico contribuem menos para definir a nacionalidade de uma obra do que o faz a forma interna, esta sim, inconfundivelmente americana ou russa, inglesa ou lusa. A narrativa ágil e quase jornalística dos romances de Hemingway é sempre americana, quer a história se passe em Paris ou se adorne de acento espanhol. Imitada em francês, em malaio ou em urdu, permanece americana, pela força da matriz lingüistica onde foi gerada como solução americana para problemas expressivos americanos. Mais nos valeria, pois, ter desenvolvido a novela camiliana, mesmo que fosse em histórias passadas na África ou no planeta Marte, do que adaptar os temas nacionais ao modelo proustiano ou ao realismo socialista, ainda que temperados de gíria baiana ou mineira. O primado da forma, a sujeição da matéria, são leis inescapáveis, em literatura como em tudo o mais: "Quando o coelho come alface, é a alface que vira coelho, não o coelho que vira alface", resume Jean Piaget. Cobras e índios no molde literário de Apollinare não são cultura brasileira: são o delírio de um turista francês, intoxicado de cauim. O segredo da brasilidade autêntica do teatro de Ariano Suassuna não está nos temas, comuns a tantas obras epidermicamente nacionalistas, nem na imitação da linguagem popular, obrigação dogmática que se tornou cacoete: está em que a fórmula estrutural de suas peças não se inspirou em Sartre ou Brecht, e sim nos autos medievais lusitanos. Suassuna não é brasileiro porque come coco, mas porque digere a fruta local no estômago da tradição lusa. A forma é tudo. E um candomblé na Sorbonne não é sincretismo brasileiro: é a antropologia francesa engolindo o Brasil.

Mais fez pela brasilidade do romance um Machado de Assis, criando com assunto urbano e em português castiço a fórmula inédita das Memórias Póstumas (não há por que exgerar a influência de Sterne), do que dezenas de imitadores de Zola narrando histórias de escravos com sintaxe de cangaceiro. Uma nova fórmula vale mil assuntos. Ser brasileiro, para um romancista, é integrar a experiência — local ou mundial, pouco importa — numa chave intelectual e estética criada por nós segundo as nossas necessidades, e não integrar materiais locais e trejeitos lingüísticos regionais numa tradição narrativa francesa ou inglesa. É uma simples questão de quem come quem.

O protesto de Evaldo Cabral de Melo, de que só povos complexados se preocupam com a própria identidade, pode ser aceito como um exagero corretivo, mas continua exagero. A obsessão germanizante de um povo em luta com o complexo de inferioridade gerou Hermann e Dorothea e a filosofia de Fichte, Schelling e Hegel. E a afirmação xenófoba do russismo contra a hegemonia franco-germânica produziu Dostoiévski, Soloviev e Lossky. Abençoada neurose!

Nosso erro não está em buscar uma identidade. Está em três fontes de engano, nas quais bebemos compulsivamente há mais de um século. Primeira: revoltamo-nos sempre contra o dominador errado. Escravos da Inglaterra, continuávamos a nos bater contra o extinto domínio português. Intoxicados de francesismo, esforçávamo-nos por expelir de nosso ventre os últimos resíduos da herança portuguesa. E hoje, paralisados sob as patas do império mundial anglófono, encenamos ainda um ridículo Ersatz de rebeldia, não anti-anglo-saxônica e sim antilusitana, jogando bombas ideológicas contra a "língua dos dominadores", como se o FMI fosse presidido por Cândido de Figueiredo e a Gramática Metódica de Napoleão Mendes de Almeida fosse a Carta da ONU. Vista sob esse prisma, nossa pretensa busca de independência não é senão afetação e disfarce para encobrir nosso compulsivo puxa-saquismo, nossa incoercível devoção ao poder mais forte, nossa renitente hipnose de botocudos ante os prestígios internacionais do momento.

A segunda coisa: acreditamos demais na mágica besta do popular, do local, do costumeiro e corriqueiro. Achamos que falando de coisinhas do nosso dia a dia e imitando a fala do povo seremos nacionais, quando a força da criação nacional não está na sua matéria, muito menos no populismo do seu estilo, e sim na originalidade das soluções estéticas e intelectuais que, uma vez bem sucedidas, se transformam em soluções e modelos para outros escritores de outras nações. Dostoiévski não representa o gênio russo porque fala da Rússia ou porque imita a fala dos russos, mas porque inventou, desde a Rússia, um sistema de enfoques narrativos que desde então se tornou necessário para todos nós, seja para falarmos da Rússia, seja de nós mesmos. A originalidade de uma literatura nacional é enfim uma só e mesma coisa que a originalidade criativa de seus escritores, a qual por sua vez não é senão a capacidade de dar respostas sérias a ansiedades autênticas. E, quando isto falta, não há documentarismo, populismo ou automacaquice lingüística que o substitua.

A terceira fonte de engano é a perpétua confusão que fazemos entre o universal e o atual. Achamos que, para integrar-nos na cultura mundial, temos de acompanhar o debate que se desenrola entre os povos mais ricos e supostamente mais cultos. Nunca nos ocorre a hipótese de que, no curso desse debate, esses povos possam ter perdido o fio da sua própria tradição cultural, de que possam estar reduzidos à mais profunda incompreensão de si mesmos, de que possam estar mergulhados numa inconsciência que só um maluco suicida desejaria imitar. Tomamos sempre os povos importantes de hoje como se fossem os únicos intérpretes autorizados da tradição ocidental (para não dizer mundial), e nos recusamos a lançar um olhar direto e sem fiscais sobre um passado que eles mesmos, tantas vezes, confessam já não compreender mais. Quem nos garante que, examinando por nossa conta a antigüidade greco-romana, a cristandade medieval, a remota herança dos povos orientais, não seremos capazes de descobrir aí certos tesouros que foram esquecidos pelo establishment cultural euro-ianque ou que mesmo escaparam completamente ao seu horizonte de visão? Quem, que autoridade, que dogma inabalável nos reduz à condição de herdeiros indiretos que só podem ler Marco Aurélio com os olhos de Renan, Parmênides com os de Heidegger ou Aristóteles com os de Jaeger? Quem nos arrebata o privilégio de desfrutar diretamente de uma herança que não pertence só aos povos ricos e que os povos ricos tantas vezes desprezaram, traíram, aviltaram e perderam? Quem nos assegura que a linha de evolução intelectual da Europa moderna foi a única ou a melhor possível que poderia ter-se desenvolvido a partir do legado medieval e antigo? Por que embarcar na paralisante suposição apriorística de que não podemos descobrir aí novos e inéditos desenvolvimentos? Por que fazer da história intelectual européia o modelo paradigmático e inescapável da sucessão dos tempos? Por que repetir, como um disco rachado, que as coisas não poderiam ter sido de outro modo e recusar-nos a experimentar outros modos possíveis? Por que não podemos escandalizar e chacoalhar a empáfia dos usurpadores, lendo Heidegger através de Parmênides, Nietzsche através de Sócrates, a modernidade através da Idade Média? Por que não podemos, em vez de medir o passado com a régua dos senhores do dia, julgar os senhores do dia à luz das sementes cujo máximo e perfeito desenvolvimento eles, sem a mínima prova, asseguram representar? Por que não nos atravemos a provar que as antigas sementes, plantadas em terra nova, podem dar melhores e mais doces frutos do que as ideologias européias, o comunismo, o fascismo, duas guerras mundiais e a presente degradação intelectual do mundo?

Não fomos só nós que caímos na esparrela de abdicar de uma herança que nos pertence. Os portugueses, inferiorizados por não acompanhar pari passu o pensamento moderno, acabaram se esquecendo daqueles fantásticos filósofos de Coimbra, mestres de Leibniz, que em pleno século XVI já pensavam em economia de mercado e física probabilística, saltando três séculos sobre a ilusão mecanicista cujo prestígio, tão invejado pelos ìluministas lusos, só fez atrasar o desenvolvimento das ciências e inspirar, na política, os frutos mais letais do estatismo centralizador. Até hoje Portugal, como um príncipe bêbado que se imaginasse mendigo, atribui suas desventuras ao fato de não ter tido seu Voltaire ou seu Rousseau, quando seu único erro foi o de esquecer-se de si, o de não conseguir olhar seu próprio passado senão no espelho enganoso da modernidade alheia.

Por ironia, justamente nisso continuamos imitando servilmente Portugal. Iludidos pelo dogma de que o presente abrange todo o passado — quando por definição nenhum conjunto de fatos esgota o possível —, recusamo-nos a receber o legado das grandes épocas e continuamos mendigando às portas da mediocridade européia (e americana) atual. Barramos assim nosso acesso a uma verdadeira universalidade e continuamos nos agitando em vão na falsa alternativa cíclica do estrangeirismo e do localismo, ora em formato puro, ora ressurgida sob o disfarce do elitismo e do populismo.

Reincide no engano —só para dar um exemplo recente — o livro de Marcos Bagno, Preconceito Lingüístico. O Que É, Como Se Faz (1), ao assumir a defesa do mais entrópico laissez-faire gramatical contra toda tentativa de conservar a unidade da norma culta, abominada como mecanismo de exclusão social e opressão dos pobrezinhos. Adornando de terminologia técnica uma argumentação que no fundo não passa do habitual apelo ao ressentimento populista contra os adeptos do purismo vernáculo, supostamente também senhores do capital — ai, meu Sacconi! —, o autor nem de longe dá sinal de perceber que, afrouxada a norma portuguesa, o que haverá de predominar não será o democratismo igualitarista das falas populares, autoneutralizantes por sua multiplicidade mesma, e sim a influência ordenadora da norma anglo-americana, ocupando substitutivamente — e usurpatoriamente — o lugar da regra vernácula. Isso aliás já vem acontecendo, como se vê pela alarmante disseminação do uso de palavras portuguesas montadas segundo uma sintaxe inglesa — "amanhã estarei indo viajar" —, o que já não é mais a corriqueira assimilação de vocábulos estrangeiros e sim precisamente o contrário de uma assimilação: é uma adaptação do material nacional à forma dominante estrangeira, é ser assimilado, é fazer o papel da alface na fisiologia do coelho. Toda cultura nacional é um vasto sistema de incorporações, no qual manifestações isoladas e locais vão se integrando numa unidade superior, e isto acontece com a língua tanto quanto com as idéias. Se, no topo, esse movimento não encontra um critério de unidade que lhe seja próprio, ele logo se amolda a um de fora, preferindo antes ser assimilado do que voltar à dispersão de onde partiu. Se o prof. Bagno fosse um agente consciente do imperialismo, pretendendo dissolver a nossa unidade lingüistica para lhe sobrepor a americana, seu livro seria obra de inteligência, mista de maquiavelismo. Mas não: ele é apenas mais um esquerdista doido, desses que, ansiosos para expressar sua miúda revolta imediatista e cega, não sabem a quem servem em última instância e aliás não querem nem saber: falam o que lhes dá na telha e, de tempos em tempos, constatam, mais revoltados ainda, que tudo deu errado e seu mundo caiu.

Para cúmulo de inconsciência, o prof. Bagno, citando indevidamente Aristóteles, proclama que sua obra é política, quando a política para o Estagirita é o cuidado do bem comum, isto é, a vigilância sobre os rumos da sociedade como um todo, e nunca a adesão parcialista a exigências de grupos ou classes, defendidas como se valessem por si e sem o mínimo exame das conseqüências que seu atendimento possa produzir sobre o corpo da sociedade integral. Para os meninos da Febem ou para o lavrador de Ponta Grossa, pode ser bom ou pelo menos cômodo, a curto prazo, que os deixem escrever como falam, sem subjugá-los à uniformidade da norma. Subjetivamente, eles talvez se sintam, assim, menos excluídos. Mas, objetivamente, aí sim é que estarão excluídos, aprisionados na sua particularidade e sem acesso à conversação das classes cultas. Tudo depende de saber se preferimos enfraquecê-los pela lisonja ou fortalecê-los pela disciplina. Há nisso uma escolha moral que os amigos do povo preferem não enxergar. E se, levando as opiniões do prof. Bagno às últimas conseqüências, as próprias classes cultas desistirem da norma unitária e, para não passar por preconceituosas ante o olhar malicioso dos ressentidos, adotarem como obrigatória a entropia populista, então das duas uma: ou a entropia arrastará na sua voragem o pouco de possibilidade de diálogo racional que ainda resta neste país, ou então uma norma substitutiva acabará por se impor, e ela certamente virá da rede das telecomunicações, cujo idioma e padrão é o inglês. Qualquer das duas coisas será indiscutivelmente boa, mas para os Estados Unidos. E, se me perguntarem se o que é bom para os Estados Unidos não é bom para o Brasil, direi, de novo, que é uma simples questão de quem come quem.

10 maio 2011

A Guarda Verde

Arcimboldo, Primavera

O texto que se segue foi retirado daqui (via Fiel Inimigo). No blogue, Bolinas, suspenso desde o final do ano passado por motivos que desconheço, encontram-se outros, bastante interessantes, cuja leitura recomendo, pelo que o seu endereço passa, a partir de hoje, a fazer parte do meu Miradouro, para maior facilidade de consulta.

«Quando nos finais dos anos sessenta do século passado Mao-Tsé- Tung achou que a sua revolução estava a descambar, convocou os chinocas mais novitos, passou-lhes para as mãos um livrinho com a sua versão dos mandamentos e mandou-os “reeducar” o povo pela nova cartilha. Ficaram conhecidos por “guardas vermelhos” e a sua intervenção na sociedade chinesa para repor a revolução nos carris que Mao idealizara está bem documentada .

Tal como muitos outros personagens, nem todos célebres, também Mao percebeu que a juventude é um campo fértil para cultivar doutrinas. Como naturalmente lhe falta experiência de vida e tem pressa de mundo, a rapaziada é mais receptiva a soluções idílicas do que a dúvidas concretas. Aprender a questionar sempre dá mais trabalho e requer mais tempo do que a papaguear ideias pré-fabricas. Por isso, independentemente do seu valor intrínseco, qualquer proposta inovadora constitui um plus para a incontornável vocação catequista do activismo juvenil. E daí não viria mal de maior ao mundo se nele não houvesse quem tivesse percebido como usar essa disponibilidade para dar corpo a agendas no mínimo questionáveis.

Poderia pensar-se que actualmente o mundo estaria mais sensato e evitaria esses abusos da idade da inocência, mas não é o que parece. A demonstrá-lo está aí um remake da actuação da guarda vermelha em horário nobre e na televisão pública. Armada de uma cartilha pseudo-científica e motivada pela fantástica ideia de que o planeta precisa de ser salvo, uma simpática miúda camufla-se de tonta e entra pelas casas da malta a etiquetar a eito de “culpado e eco-criminoso” o desprevenido consumidor. E o coitado pasma! Boquiaberto, nem sequer consegue questionar como é que a mesma caixinha que passa o dia a incentivá-lo a comprar tudo e mais alguma coisa, tem o topete de o vir insultar às dez para as dez quando o gajo finalmente se senta em frente ao televisor e se prepara para rematar mais uma esgotante jornada de produção consumindo o telejornal da Felgueira ! Não fosse a estupefacção e decerto punham a moça na rua. Mas não. Revelando um notável estoicismo, submetem-se. E a procissão lá foi fazendo o seu caminho sem que o Sr Paquete de Oliveira dê mostras de ter algo a dizer.

O programinha chama-se “desafio verde” e não é novo mas mudou de atitude! Uma mudança que não passaria de mais um desvario televisivo se não se desse o caso de várias escolinhas e muitos professores fofinhos apoiarem e promoverem a iniciativa. Acham, dizem, que estão a fazer educação ambiental. Mas o que assim revelam é que são uns imaturos semi-instruidos que não percebem nem o que é educar nem o que é ambiente. Levianamente, estes kidos estão apenas a fazer da escola uma variante verde aos campos de treino onde se doutrinavam as juventudes maoistas. E a contribuir activamente para que o site recentemente criado pela PGR para recuperar a tradição pidesca dos bufos, possa também vir a revelar-se um enorme sucesso para a denúncia verde anónima.»

09 maio 2011

08 maio 2011

"Qual, afinal, a legalidade da morte de bin Laden?"


É este o título de um outro texto de Luís Dolhnikoff, que transcrevo neste segundo post de hoje:

1.

Meu pai nasceu em 1932. Próximo de completar 80 anos, parece ter muito menos, e fora um recente susto que afinal não passou de um susto, está perfeitamente saudável, mais ágil do que eu, fisicamente (ele nada com regularidade), e provavelmente mais lúcido. A relevância disto está no fato de que ele chegou à idade adulta em 1950, início da Guerra Fria. E a consequência foi que adotou, então, uma posição político-ideológica clara num mundo claramente polarizado em termos político-ideológicos: tornou-se um “homem de esquerda”, como se dizia. Tornou-se e se manteve. Eu não. Tendo sido (bem)educado por ele, fui, ao contrário, “de esquerda” até chegar à idade adulta. Pois a minha maioridade foi marcada por um evento político-ideológico diferente: a chegada ao poder, em 1979, pela primeira vez na história recente, do islamismo político, através da instauração da teocracia no Irã.

O motivo de a retrovolução iraniana abalar meu esquerdismo juvenil foi que acreditei, nos anos precedentes, no resumo segundo o qual o xá representava o mal, pois ele era aliado dos EUA, o Mal. Obviamente, a posição “oficial” da esquerda afirmava ser contra o xá porque ele era um ditador, mas isso sempre fora um tanto cínico, porque a mesma esquerda apoiava então, com entusiasmo igual ao repúdio pelo xá, as piores ditaduras de esquerda. A questão portanto não era, na verdade, ditadura versus democracia, mesmo porque a esquerda desprezava a democracia “burguesa” (e ainda despreza), mas sim ditaduras boas versus ditaduras ruins. E entre as piores estava a do xá. Daí o grande regozijo quando foi derrubado por uma revolução popular.

Popular e antiamericanista. Popular, antiamericanista... e islâmica. No verdor dos meus 18 anos esquerdistas, achei surpreendente e estranho. Afinal, ser de esquerda, ao menos da esquerda “de verdade”, podia ser resumido em acreditar e esperar que a felicidade da humanidade seria alcançada quando “o último burguês fosse enforcado nas tripas do último padre”. E padre, aqui, era apenas uma metonímia para religioso, não a manifestação de uma “preferência” por sacerdotes católicos, o que não excluía, portanto, as demais religiões. Como explicar, então, a continuidade do entusiasmo pela “revolução” iraniana apesar de afinal liderada por um homem de turbante chamado aiatolá Kohmeini?

Eu ainda não tinha idade bastante para me manifestar com segurança, mas ao menos meu cérebro era suficiente para notar que alguma coisa estava errada. Não demorei a perceber que o fascismo religioso resultante da “revolução” iraniana era “aceitável”, e era “aceitável” porque antiamericanista. Havia, então, além de ditaduras boas e ditaduras más, também fascismos maus e fascismos bons (os antiamericanos)? Fiquei, afinal, tão desconfiado quanto confuso. E voltei à biblioteca. Segundo meu pai, quando reemergi depois de uns poucos anos, era um jovem adulto completamente “de direita”.

É por isso que hoje recebo no meu e-mail os Boletins Carta Maior, com as últimas do site do mesmo nome, ligado à Carta Capital, publicação brasileira de esquerda mais notória. Meu pai me adicionou à lista do site, com a intenção expressa de, mais uma vez, tentar me emendar. Não funcionou. A culpa não é dele se, desde antes de 1979, o pensamento de esquerda não para de descer ladeira abaixo em termos de inteligência, numa queda surpreendente porque, ao contrário de tudo o mais no universo, parece não ter fim.

O mais recente Boletim Carta Maior é dedicado, obviamente, à morte de Bin Laden. Também obviamente, traz os resumos e os links de vários artigos perfeitamente idiotas (com a licença de Vargas Llosa).

São perfeitamente idiotas porque não conseguem ou não tentam mais disfarçar que o único instrumento mental com o qual contam para “compreender” o mundo, e explicar tudo e todos, é tão somente o antiamericanismo. O exemplo mais ridículo da última edição é o do “escritor” paquistanês Tariq Ali, para quem não sabe, um dos atuais heróis intelectuais da esquerda mundial (pensar que esse lugar já foi ocupado por Marx, Gramsci, Lúkacs, deveria ser o bastante para dar a medida da irresistível decadência da esquerda, mas nada é o bastante). Seu título, em todo caso, é suficiente: “O que interessa agora é saber quem denunciou Bin Laden” (http://www.cartamaior.com.br). Sério? E eu que imaginava ser de grande interesse, por exemplo, tentar compreender a situação política interna instável e perigosa do Paquistão, o que poderia explicar tanto as causas quanto as consequências de Bin Laden ter sido encontrado ali, a poucos metros do principal quartel do exército paquistanês. Mesmo porque, entre outras coisas, trata-se de uma equação envolvendo o maior terrorista de massa da história, militares paquistaneses e bombas atômicas (que estes possuem). Nada disso: o que interessa agora é saber quem denunciou Bin Laden. Pois, obviamente, ele foi denunciado. Caso contrário, ter-se-ia de dar crédito à eficiência dos serviços de inteligência norte-americanos. O fato de a frase e o ponto de vista trazerem uma quase indisfarçada simpatia pelo personagem naturalmente não preocupa seu autor. Afinal, tudo o que há para se ocupar e se preocupar é descobrir quem denunciou Bin Laden...

Mas se a desinteligência da esquerda é tão pouco surpreendente quanto a inteligência militar paquistanesa (notoriamente islamista), a posição de analistas menos comprometidos ainda o é. Pois eis que me deparo – e me surpreendo –, em vários sites e em muitos jornais “burgueses”, digo, da “grande imprensa”, com analistas se revelando, em sua grande maioria, idiotas da objetividade.

2.

O resumo é simples: não há por que aceitar e muito menos louvar a morte de Bin Laden, pois ela foi ilegal. Aceitá-la e louvá-la é então louvar e aceitar a ilegalidade, logo, a injustiça. Ao contrário do que afirmou Barak Obama, a justiça foi desservida.

Primeiro, porque se invadiu um país, desrespeitando sua soberania. Segundo, e principalmente, porque a justiça implicaria na captura e no julgamento de Bin Laden, e na sua eventual condenação, e não em sua execução sumária, que não passa, portanto, de um crime, pois um assassinato.

Houve quem se assomasse em super-humanista, ou supercristão, afirmando que não se pode aceitar ou louvar a morte de nenhum ser humano. A maioria, porém, insistiu mesmo em certa objetividade formalista-legalista. A justiça foi desservida. Além do fato em si, abre-se um precedente perigoso... Ou seria: escancara-se mais um presidente (americano) belicoso?

Os argumentos nesse sentido se tornaram mais ousados com o passar dos dias e com as novas notícias, depois das informações iniciais, de que Bin Laden não usou sua mulher como escudo e não estava armado. Portanto, assassinato.

A objetividade idiota de tais argumentos omite, em primeiro lugar, que foram as mesmas fontes do governo norte-americano que forneceram ambas as versões. Pois a esses analistas interessa dar, porque de fato dão, um tom de “armação” para a primeira versão, e de “revelação” para a segunda. Bin laden, “na verdade”, não estava armado. Logo, assassinato.

Mas isso é mentira. Ou seja, que ele não estava armado. Em primeiro lugar, não há uma só imagem do sujeito desarmado, ao longo das duas últimas décadas. Em segundo lugar, estando escondido e fugindo da maior caçada da história, e estando sempre armado, ele obviamente era o tipo do sujeito que dormia com um revólver sob o travesseiro (o ataque foi pouco depois da meia-noite, no horário local). Em terceiro lugar, não apenas havia uma arma na cena como sei inclusive seu tipo e sua marca: uma pistola Makarov de fabricação russa. E o sei pelas mesmas fontes que os tais analistas idiotamente objetivos usam para “suspeitar” de quem querem suspeitar: o governo norte-americano. Basta ler os informes com certa atenção – e alguma honestidade. Ora, se até a marca da pistola que ele tentou alcançar durante a investida dos marines foi divulgada, como usar parcialmente (e portanto de forma inteiramente desonesta) tais informações para afirmar que se tratou de um assassinato, pois ele “não estava armado”? Não estava, como divulgaram os próprios norte-americanos. Mas apenas porque sua pistola Makarov não estava afinal sob o travesseiro, mas em um móvel qualquer.

Havia dezenas de pessoas no complexo habitacional de Bin Laden, incluindo muitas mulheres (o sujeito era polígamo) e muitas crianças. Todas estão vivas e inteiras. A tal mulher que Bin Laden teria usado como escudo afinal se lançara sobre ele para protegê-lo, e foi por isso acuradamente atingida na perna por um soldado americano, recebendo, portanto, um tiro não-letal. Enfim, está viva como a quase totalidade das pessoas na casa. Uma análise realmente objetiva conclui, então, que não houve nenhuma fuzilaria. Na verdade, apenas quatro pessoas foram mortas, e todas eram homens adultos: Bin Laden, um de seus filhos e dois mensageiros-guarda-costas. Imaginar que esses homens não tenham resistido ou tentado resistir aos marines é na verdade mais do que idiota: é ridículo, risível, estúpido e a soma de tudo isso.

Mas então de onde vem toda essa confusão? Meus instintos de ex-esquerdista e ex-antimericanista treinado e devotado me dizem que grande parte dos analistas da “grande imprensa” também é, assim como seus colegas oficialmente de esquerda, devidamente antiamericanista, anti-imperialista etc., porém se apresenta travestida de humanista, legalista e objetivista. Talvez não se apresente apenas, mas acredite realmente nisso. A autoilusão, porém, não é mais verdadeira do que a mitomania.

Eu deveria, agora, demonstrar por que o objetivismo legalista de tais analistas (com o perdão da rima) é na verdade idiota, não sendo, portanto, de fato nem objetivista nem legalista. Mas me poupo de fazê-lo, e poupo assim o leitor de ler-me, não por preguiça, muito menos por falta de argumentos, mas porque os melhores argumentos sobre isso foram há pouco redigidos e publicados por um profissional, Jon Silverman, professor de Justiça Criminal da Universidade de Bedfordshire. Seu artigo se intitula simplesmente: “Osama Bin Laden deveria ter sido julgado?”, e pode ser lido em http://noticias.uol.com.br/bbc/2011/05/05/analise-osama-bin-laden-deveria-ter-sido-julgado.jhtm. Os verdadeiros motivos por que Bin Laden não poderia ser julgado, na prática, ou seja, na realidade, estão todos ali. Quem não o ler, é porque não está interessado nos fatos, mas nos (próprios) argumentos. Concluo, então, com duas citações. José Mindlin: “Contra argumentos, não há fatos”. T. S. Eliot: “After such knowledge, what forgiviness?”.


Noutro registo, leia-se ainda este texto publicado no Fiel Inimigo.

03 maio 2011

Um texto de José Augusto Tavares, que recebi por e-mail...


... e que, a meu ver, merece reflexão, complementado com o que escrevi aqui, tempos atrás. Será interessante ler também o texto de resposta inserido na página de onde retirei o "boneco" e que é bem elucidativo de como os exemplos dados são a prova provada da ignorância de quem o redigiu sobre a realidade de que fala o que se segue:

Geração à rasca

Geração à rasca foi a minha. Foi uma geração que viveu num país vazio de gente por causa da emigração e da guerra colonial, onde era proibido ser diferente ou pensar que todos deveriam ter acesso à saúde, ao ensino e à segurança social.

Uma Geração de opiniões censuradas a lápis azul. De mulheres com poucos direitos, mas de homens cheios deles. De grávidas sem assistência e de crianças analfabetas. A mortalidade infantil era de 44,9%. Hoje é de 3,6%.

Que viveu numa terra em que o casamento era para toda a vida, o divórcio proibido, as uniões de facto eram pecado e filhos sem casar uma desonra.

Hoje, o conceito de família mudou. Há casados, recasados, em união de facto, casais homossexuais, monoparentais, sem filhos por opção, mães solteiras porque sim, pais biológicos, etc.

A mulher era, perante a lei, inferior. A sociedade subjugava-a ao marido, o chefe de família, que tinha o direito de não autorizar a sua saída do país e que podia, sem permissão, ler-lhe a correspondência.

Os televisores daquele tempo eram a preto e branco, uns autênticos caixotes, em que se colocava um filtro colorido no sentido de obter melhores imagens, mas apenas se conseguia transformar os locutores em "Zombies" desfocados.

Hoje, existem plasmas, LCD ou Tv com LEDs, que custam uma pipa de massa.

Na rádio ouviam-se apenas 3 estações, a oficial Emissora Nacional, a católica Rádio Renascença e o inovador Rádio Clube Português. Não tínhamos os Gato Fedorento, só ouvíamos Os Parodiantes de Lisboa, os humoristas da época.

Havia Serões para Trabalhadores todos os sábados, na Emissora Nacional, agora há o Toni Carreira e o filho que enchem pavilhões quase todos os meses. A Lady Gaga vem cantar a Portugal e o Pavilhão Atlântico fica a abarrotar. Os U2, deram um concerto em Coimbra em 2010, e UM ANO antes os bilhetes esgotaram.

As Docas eram para estivadores, e o Cais do Sodré para marujos. Hoje são para o JET 7, que consome diariamente grandes quantidades de bebidas, e não só...

O Bairro Alto, era para a malta ir às meninas, e para os boémios. Éramos a geração das tascas, do vinho tinto, das casas de fado e das boites de fama duvidosa. Discotecas eram lojas que vendiam discos, como a Valentim de Carvalho, a Vadeca ou a Sasseti.

As Redes Sociais chamavam-se Aerogramas, cartas que, na nossa juventude, enviávamos lá da guerra aos pais, noivas, namoradas, madrinhas de guerra, ou amigos que estavam por cá.

Agora vivem na Internet, da socialização do Facebook, de SMS e E-Mails cheios de "k" e vazios de conteúdo.

As viagens Low-Cost na nossa Geração eram feitas em Fiat 600 ou, então, nas viagens para as antigas colónias, para combater o "inimigo".

Quem não se lembra dos célebres Niassa, do Timor, do Quanza, do Índia, entre outros tenebrosos navios em que, quando embarcávamos, só tínhamos uma certeza... a viagem de ida.

Quer a viagem fosse para Angola, Moçambique ou Guiné, esses eram os nossos cruzeiros.
Ginásios? Só nas colectividades. Os SPAS chamavam-se Termas e só serviam doentes.

Coca-Cola e Pepsi, eram proibidas, o "Botas", como era conhecido o Salazar, não nos deixava beber esses líquidos. Bebíamos laranjada, gasosa e pirolito.

Recordo que, na minha geração, o País, tal como as fotografias, era a preto e branco.

A minha geração sim, viveu à rasca. Quantas vezes o meu almoço era uma peça de fruta (quando havia), e a sopa que davam na escola. E, ao jantar, uma lata de conserva com umas batatas cozidas dava para 5 pessoas.

Na escola, quando terminei o 7ºano do Liceu, recebi um beijo dos meus pais, o que me agradou imenso, pois não tinham mais nada para me dar. Hoje vão comemorar os fins dos cursos para fora do país, em grupos organizados, tudo pago pelos paizinhos…

Têm brutos carros, Ipad’s, Iphones, PC’s, …. E tudo em quantidade. Pago pela geração que hoje tem a culpa de tudo!!!
Tiram cursos só para ter diploma. Só querem trabalhar começando por cima.

Há que relembrar que muitos, mas mesmo muitos, da minha geração tinham que começar a trabalhar antes dos 15 anos, para com os miseráveis “tostões” provenientes da recompensa do seu trabalho, ajudar a pagar as despesas dos pais, e “só” por isso não podiam estudar mais.

Afinal qual é a geração à rasca?

14 abril 2011

Terror islâmico no Brasil


Nem de propósito: tinha eu acabado de ver nos telejornais da meia-noite - enquanto (finalmente!) jantava -, o vídeo que o autor do massacre do Rio de Janeiro gravou antes de o fazer, quando, ao consultar o e-mail, encontrei um texto que Luís Dolhnikoff me enviara duas horas antes, no qual adiantava considerações que eu próprio havia congeminado, face a alguns pormenores reveladores adiantados pelo assassino. Pormenores que, aliás, confirmei com maior detalhe, há pouco, no telejornal da RTP1, onde o vídeo foi passado integralmente ou, pelo menos, mais extensamente.
Aqui fica, portanto, o texto de Luís Dolhnikoff, a quem, uma vez mais, agradeço a gentileza.

TERROR ISLÂMICO ATACA ESCOLA NO BRASIL

1.

A manchete acima foi até agora negada ao público brasileiro por uma mistura tóxica de ignorância, incompetência, provincianismo e “político-corretismo”, sem os quais ela seria evidente ou necessária. O que isso diz da sociedade e do jornalismo brasileiros deixo para o leitor. Vamos aos fatos.

Num subúrbio carioca, um homem de 23 anos volta à escola onde estudou muito bem armado, com dois revólveres, cinto de munição e recarregador rápido, além de um plano tático: aproveitar as comemorações dos quarenta anos da escola para, na condição de ex-aluno, entrar numa sala de aula para uma “palestra”. A partir daí, por dez minutos, ele dará 66 tiros, matará doze pré-adolescentes, sendo onze meninas, ferirá outra dezena e depois se matará.

As explicações subsequentes logo se cristalizam num quadro narrativo segundo o qual se trata de um esquizofrênico-paranoico, filho de uma esquizofrênica clínica, que além disso sofreu bullying na mesma escola.

Não há portanto responsáveis e, muito, menos culpados: de um lado, trata-se de inatismo e de doença, pois ele sofria de esquizofrenia. Porém não é correto acusar e/ou estigmatizar os doentes mentais. A doença mental, afinal, não é responsável: pois se ele não tivesse sofrido bullying, obviamente não faria o que fez.

Conclusão: deve-se combater o bullying com educação, e ao mesmo tempo dar mais atenção aos doentes mentais (se esta expressão não for “politicamente incorreta”). Trágico, mas compreensível. Além do mais, tudo isso possui certo fatalismo moderno, pois é algo que “acontece” em muitos países, principalmente nos mais desenvolvidos. Certo, há um problema de descontrole do acesso às armas de fogo no país, mas isso não é ou foi determinante. Ao menos, não como a esquizofrenia paranoica e o bullying. Por fim, como se trata de um evento raro, imprevisível e incontrolável, nada havia nem há a ser feito, como aumentar a segurança nas escolas, tornado-as assim “policialescas” quando devem, ao contrário, ser “abertas” e “integradas” às “comunidades” das quais são parte.

Essa pós-narrativa do massacre da escola de Realengo é, bem vistas coisas, ad hoc, ou seja, feita sob medida. E ver bem ou um pouco melhor os fatos é o que pretendo aqui.

2.

O medicalismo dos comportamentos quanto o modismo pedagógico do bullying, além do “politicamente-correto” do pobre homem nascido doente e “corrompido” pela sociedade agressiva, bem como a escola “comunitarista”, são devidamente contemplados. E o são não por tecerem a melhor explicação possível, porém a mais confortável, a mais simples, a mais indicada. A verdade, neste caso, é feita de outros ingredientes, deliberadamente ignorados ao se descrever a posteriori tal “receita”.

Em primeiro lugar, o pretenso diagnóstico de esquizofrenia paranoica, repetido por incontáveis psiquiatras, psicólogos e em seguida investigadores, não se sustenta. Sem entrar em detalhes diagnósticos (mas também sem deixar de registrar que estudei medicina, para que os profissionais de plantão não tentem desconsiderar estas observações pela saída fácil do desdém especialista), ela não se sustenta porque uma de características principais da esquizofrenia paranoica é o delírio ou a alucinação. Esta tem um componente sensitivo e cognitivo, ou sendo mais claro, implica em confundir imaginação com realidade, “vendo” e “ouvindo” o que não está no mundo, mas na mente. Em termos populares, trata-se de “ouvir vozes”. O assassino da escola do Realengo jamais demonstrou esta ou qualquer outra característica distintiva da esquizofrenia paranoica. Nenhum relato de parentes, colegas de trabalho ou vizinhos faz qualquer referência a isso, assim como não há quaisquer indícios nos documentos deixados pelo assassino: um vídeo e vários bilhetes de próprio punho.

Em compensação, ele demonstrou de vários modos e por muitos meios, incluindo o vídeo feito dois dias antes do massacre, que era um psicopata.

Há enormes e profundamente significativas diferenças. Em primeiro lugar, se um esquizofrênico não é responsável por seus atos, pois em função dos delírios não pode, por definição, distinguir o que é real do que não é, um psicopata não tem delírios, e além de distinguir perfeitamente o real do irreal, também distingue o certo e o errado, o legal e o ilegal, o moral e o imoral. Por isso os psicopatas, ao contrário dos esquizofrênicos, são legalmente imputáveis nos países sérios, como EUA, Canadá e membros da UE (nos não sérios, como o Brasil, a justiça é um teatro ruim, logo, o que faz ou deixa de fazer não segue regras compreensíveis).

Um psicopata não tem disfunções cognitivas, mas apenas emotivas. Em resumo, ele é incapaz de empatia.

Empatia (de pathos, sofrimento, acometimento, experiência) significa, na prática, sentir em si o que o outro sente: “processo de identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base em suas próprias suposições ou impressões, tenta compreender o comportamento do outro”. É a empatia que está na base da moralidade, cuja antiga “regra de ouro” diz: “Não faça aos outros o que você não quer que façam a você”. Ao serem incapazes de empatia, psicopatas são criminosos natos.

A ideia de um criminoso nato fere fundo a crença ideológica dos politicamente corretos segundo a qual só existe a possibilidade de seres humanos nascidos bons. O problema é que a existência de criminosos natos foi empiricamente demonstrada de maneira incontornável em diversos países, dos EUA à Rússia, onde pesquisadores há anos se dedicam a estudar os psicopatas em geral e os assassinos em série em particular.

A indiscutível natureza inata da radical falta da empatia que caracteriza os psicopatas (e que no Brasil sequer é verdadeiramente debatida, pois o país adotou uma interdição ideológica tácita a se discutir os criminosos inatos, ficando voluntária e burramente de fora de todo um moderno campo do conhecimento, e assim incapaz de identificar seu objeto, fechando o círculo de sua cegueira pragmático-conceitual), leva então alguns “liberais” ou “humanistas radicais”, na Europa e nos EUA, a reeditar o mito rousseauniano do “bom selvagem”. Pois se se trata de uma incapacidade inata, o indivíduo dela portadora não poderia ou não deveria ser responsabilizado criminalmente por suas consequências. Seria afinal semelhante ao esquizofrênico, que age movido por alucinações, e que não é imputado pelos crimes cometidos. O problema é que um sujeito submetido a alucinações, por definição, não sabe o que faz. E que um amoral o sabe. Na verdade, o psicopata é, neste sentido, mais semelhante ao pedófilo.

Ninguém determina sua própria orientação sexual ou suas preferências. Ter por objeto sexual crianças ou bebês é algo a que os pedófilos são submetidos pela própria natureza de seu desejo. Já a realização de tal desejo significa necessariamente um estupro, pois crianças e bebês não participam voluntária e conscientemente de um ato sexual. Pedófilos são condenáveis e condenados não por seu desejo sexual, mas por sua materialização no estupro de uma criança. Psicopatas não são condenáveis por sua amoralidade, mas pelos atos decorrentes, como assassinatos sem motivos (ou seja, para satisfazer qualquer desejo ou impulso pessoal). E têm de sê-lo, entre outras coisas porque ao contrário de esquizofrênicos em estado de alucinação (que aliás muitíssimo raramente cometem crimes), um psicopata sabe o que faz. Daí não haver psicopatas, apesar do inatismo de sua falta de empatia, cometendo crimes em praça pública e à luz do dia. Psicopatas têm falta de empatia, não de racionalidade. Eles se escondem porque sabem de seus crimes.

O vídeo gravado pelo assassino de Realengo dois dias antes do massacre demonstra três coisas:

1) Não há qualquer indício de delírio ou de alucinação;

2) há todos os indícios de falta absoluta de empatia, a começar da completa inexpressividade: o sujeito apenas mexe a boca enquanto fala, sem que nenhum dos músculos da face, fonte natural de manifestação de emoções em humanos, se mexa uma única vez;

3) ele prova o planejamento, a premeditação e o engodo, logo, a racionalidade, ao referir como, entre outras providências, visitou a escola dias antes para preparar o ataque, além de para isso ter raspado a barba, a fim de não chamar a atenção.

E aqui chegamos ao fator islâmico.

3.

A prova mais importante surgida até agora das motivações do assassino, o vídeo e algumas anotações de próprio punho achadas em sua casa, simplesmente não foram analisadas com a devida atenção, muito menos com a necessária conexão, no misto de ignorância, incompetência e provincianismo referido de início.

VÍDEO DE ATIRADOR NÃO INTEGRA INQUÉRITO, DIZ POLÍCIA (Agência Estado, http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia/2011/04/13/video-de-atirador-nao-integra-inquerito-diz-policia.jhtm).

Não bastasse a polícia, mais de um psiquiatra afirmou que as afirmações “desconexas” do vídeo, principalmente sobre o fato de o sujeito estar agora sem barba, “provam” o delírio – logo, a esquizofrenia paranoica. Na verdade, tais afirmações não são desconexas, apenas desconectadas, em uma investigação pulverizada e amadorística que, para começar, é incapaz de conectar os fatos e os dados.

O assassino, no vídeo, fala diretamente para um sujeito sobre a falta de sua barba. E esse sujeito é “irmãos”. Ele tem, portanto, também uma razão para explicar a falta da barba: a expectativa de certos “irmãos”. Ora, “irmãos” não significa “marcianos verdes”. Pois é perfeitamente compreensível:

1) a irmã do perpetrador declarou que ele ultimamente usava barba (habitual entre muçulmanos praticantes) e que fazia várias referências ao islã;

2) “irmãos” é o modo habitual dos ativistas islâmicos se referirem entre si (como “camaradas” era o modo dos comunistas, e “companheiros” é o dos petistas).

Conclusão: é perfeitamente possível que ele estivesse, não delirando, mas explicando aos seus “irmãos” muçulmanos porque aparecia no vídeo de despedida sem a barba.

O que era possível torna-se então factual quando se acrescenta à equação os bilhetes de próprio punho encontrados em sua casa. Pois ali se explicita o fato de que, até pouco tempo, ele fazia parte de um “grupo”, e que esse grupo era islâmico.

Meus pais por não seguirem a religião com devoção sempre desconfiam d mim [...]. Já errei com minha família mas aí mudei com o Alcorão. [...] Tive uma briga com o Abdul por causa do Phillip. [...] Resolvi falar sobre a menina q me convido a ir a igreja dela e antes d eu terminar ele já foi se exaltando dizendo que eu era para cortar ela logo no início ao invés de ouvi-la. Depois disso ele me ligou umas vezes e eu disse q estou saindo por respeito ao grupo. Eu também me considero errado por ouvi-la... [...] Essa minha saída do grupo me deu forças para reconhecer q agi errado em escuta aquela mulher. Eu não gostei d sair mas sei q é o certo. [...] Eu estou fora do grupo mas faço todos os dias minha oração do meio dia q é a d reconhecimento a Deus e as outras 5 q são d dedicação a Deus e umas 4 h do dia passo lendo o Alcorão. Não o livro pq ficou com o grupo mas partes que eu copiei para mim e o resto do tempo eu fico meditando no lido e algumas vezes medito no 11/09 (Daniel Milazzo “Veja trechos dos manuscritos do atirador de Realengo encontrados pela polícia do Rio”, UOL Notícias, http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/04/12/veja-trechos-dos-manuscritos-de-atirador-do-realengo-encontrados-pela-policia-do-rio.jhtm).

As inferências não são difíceis. Foi dito pelos parentes e confirmado por vizinhos que o assassino não fazia outra coisa além de usar a internet. Sabe-se que a internet é uma das ferramentas mais utilizadas pelos militantes islâmicos para fazer e manter contatos. Foi a internet, portanto, que permitiu a um Wellington do subúrbio carioca entrar em contato com indivíduos fora de seu meio social e cultural, os Abdul e Phillip de quem ganhou um exemplar do Corão depois devolvido. Mas não foi apenas um exemplar do Corão que ele recebeu. Ele também recebeu uma formação devidamente islâmica: apenas muçulmanos praticantes e estudiosos ou interessados sabem, por exemplo, que a prática do islã implica na prática de cinco rezas diárias, sendo a do meio-dia a mais importante, assim como na leitura e no estudo do Corão. O assassino de Realengo não tirou tudo isso de sua própria cabeça “delirante”, mesmo porque, tudo isso está islamicamente correto.

Além de se poder presumir que o suburbano carioca localizou algum grupo islâmico na internet (e não que o grupo o tenha localizado, pois se tratava de um anônimo), os bilhetes provam acima de qualquer dúvida razoável que o contato foi feito (ele portanto não aprendeu a ser muçulmano num “curso a distância” pela internet). Não é difícil inferir, então, que tal grupo tenha identificado no futuro assassino suas características psicopáticas mais do que evidentes, e partido para sua instrumentalização. Tais grupos, afinal, existem para isso. O vídeo, em todo caso, pela forma como aborda o ataque, demonstra que os “irmãos” esperavam pela ação, apesar do recente desligamento do grupo.

Os irmãos observaram que eu raspei a barba. Foi necessário, porque eu já estava planejando ir ao local para estudar, ver uma forma de infiltração. [...] Como eu precisava ir ao local e interagir com pessoas, para não chamar atenção, eu decidi raspar a barba (“Atirador justifica massacre em Realengo em vídeo”, UOL Notícias, http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/04/12/atirador-justifica-massacre-em-realengo-em-video-mostra-telejornal.jhtm).

A conclusão lógica, e inevitável, a partir dos dados disponíveis, ou seja, da incorporação necessária de todos os dados disponíveis, é que algum grupo de ativistas islâmicos, não importa quão pequeno ou importante, de alguma forma serviu de gatilho para que um psicopata pobre, isolado e desmotivado de um subúrbio brasileiro decidisse perpetrar um massacre.

Nesse contexto mais completo, tanto o bullying que, de fato, o assassino sofreu no passado (mas num passado já distante) quanto seus agora notórios problemas sexuais seriam ingredientes integrados à sua instrumentalização: foram elementos necessários mas não suficientes, como o prova a própria instrumentalização – cujo caráter afinal se revela terrorista pelo resultado da cadeia de eventos. Mesmo o fato de o alvo preferencial terem sido pré-adolescentes do sexo feminino permite a integração dessas variáveis, pois aos problemas sexuais do assassino se junta a brutal misoginia do islamismo radical.

05 abril 2011

David Levy em forma!


Ora vejam isto e isto.