30 abril 2010

25 abril 2010

Da realidade do poder (3)


Foi a 25 de Abril de há 36 anos que se deu o 25 Abril.
E isso fez-me lembrar, a propósito do tema que tenho vindo a abordar aos poucos, de dois casos que, já agora, acrescentarei aos anteriores.
Em primeiro lugar, recordo-me de uma conversa telefónica que tive com uma figura que foi e se mantém como um ícone maior do chamado “espírito de Abril”, seja lá o que for que se queira significar com isso. Já o tinha encontrado a seguir ao 1º de Maio e voltei a falar com ele cerca de três anos depois, desta vez, como disse, ao telefone, enquanto representante de uma instituição. Falei, melhor, falou durante cerca de uma hora. Falou do desengano quanto ao espírito daqueles em torno de cujas potenciais virtudes construíra a sua visão do mundo e desenvolvera a correspondente acção. Falou da sua indignação perante o persistente e arreigado rasteirismo de horizontes, do egoísmo arrogante e estreito. Numa explosão de amargura e nojo proporcional à sua dimensão e empenhamento. Ouvi-o e concordei. Afinal, também eu me ia apercebendo do mesmo.
Se, a mim, um estranho, me disse tudo isto, o que não terá dito aos que com ele conviviam? E a tantos outros, para lá deles? A imagem transmitida pela comunicação social e pelos arautos da área política em que se situava, porém, não dava conta do que lhe ia passando na alma e no ânimo, bem pelo contrário. A não ser tempos mais tarde, quando, sarcástico e demolidor, disse algo em público que irritou, ao pôr em causa, a hipocrisia medíocre que o rodeava. Irritou, mas, é claro, apenas por um bocadinho e sem que alguém caísse em fazer demasiado alarido disso - que os enfants térribles, afinal, até dão jeito, para fingir que alguma coisa se passa e que é tudo gente séria. No fim, como é costume, as suas palavras reverteram, como seria de esperar, no reforço da imagem que servia - e continua a servir - a uns quantos.
O que seria de esperar que eu ouvisse, pelo meu lado, se reproduzisse essa conversa de há 33 anos? Quantas acusações de mentiroso, difamador e denegridor da sua figura não me seriam feitas? E de quanto disso não se aproveitariam os mesmos cuja menoridade ele abominava, “denunciando” mais um “ataque aos verdadeiros valores” e da prova que esse mesmo ataque, em si, constituiria da “justeza” das suas posições e da sua (deles) “luta”? Pois não são eles os únicos que, verdadeiramente, “fazem e farão a História”?
Em segundo lugar, lembrei-me de uma história que o meu pai me contou sobre um seu amigo e nosso vizinho, cujo cunhado fazia parte de um grupo de portugueses, misteriosamente desaparecidos em África durante a guerra nas “províncias ultramarinas”. Apesar dos esforços das famílias para serem informados da natureza do que ocorrera bem com da sorte dos desaparecidos ou, pelo menos, do seu possível paradeiro, nada conseguiram obter quer por parte das autoridades do regime quer pela das instâncias privadas a que recorreram.
Não me recordo exactamente de quando, mas, salvo erro, aproximadamente pela mesma altura em que teve lugar a conversa a que me referi, um jornalista de grande destaque, antes e depois do 25 de Abril, alguém que teve uma enorme importância para mim e para a minha geração, mas sobretudo no período anterior a essa data, pelo espírito crítico com que estruturava o que escrevia, publicou um conjunto de artigos com carácter de investigação sobre esse caso, ocorrido anos atrás. Artigos em que o cunhado do nosso vizinho era apresentado como cérebro organizador e protagonista maior do que teria ocorrido.
Entre espantado (o cunhado não seria especialmente dotado para comandar o que quer que fosse) e esperançoso, o amigo do meu pai telefonou para o jornal, pediu para falar com o jornalista, Identificou-se e pediu-lhe que o recebesse, no sentido de obter maiores informações e esclarecimentos sobre tudo aquilo que sucedera, ao seu familiar e aos restantes. O jornalista convidou-o então a ter uma conversa em sua casa, de preferência à redacção, o que, como seria de esperar, mais deixou na expectativa e na ansiedade o nosso vizinho. Indignação, no entanto, foi o que apenas trouxe do que ouviu. É que o jornalista - cujas posições políticas, com o 25 de Abril, se haviam tornado rapidamente para além de firmes - lhe confessou que a investigação que realizara ia no sentido de aproveitar umas quantas pistas que lhe pareciam justificativas de muitas das suas convicções e perspectivas e que quanto ao cunhado do vizinho, bem… tinha-o posto naquele papel para «compor um pouco a história». Apresentava as maiores desculpas pelo que fizera, mas pedia compreensão quanto ao sucedido e que, por favor, não transformasse o assunto em motivo para polémica pública ou processos judiciais. Julgo recordar-me que lhe prometeu refazer a imagem do cunhado e suponho (suponho!) que lhe tenha dito também, dado o silêncio mantidos posteriormente pelo amigo do meu pai, que utilizaria a sua posição e conhecimentos para lhe ir dando quaisquer novidades que viessem a surgir.
O cunhado do nosso vizinho e os seus companheiros nunca mais foram vistos. O vizinho morreu. Seguiu-se-lhe o meu pai. O jornalista foi o último, sem que, tanto quanto eu saiba, haja visto o seu prestígio beliscado e posta em dúvida, sob qualquer aspecto, a seriedade e o rigor a que, como toda a gente o sabia, habituara os seus leitores em matéria de investigação.
E a História viu-se mais composta.
(continua)

24 abril 2010

Da realidade do poder (2)


No início da década de 80, faleceu aquele que foi um dos meus maiores amigos. Direi talvez mesmo, o maior, alguém a quem devo (era mais velho que eu onze anos) o que houve de mais decisivo na minha formação intelectual e humana.
Sendo alguém de relativa notoriedade pública, consultei os jornais do dia seguinte ao do falecimento, para ver em que termos a sua morte era anunciada. Imagine-se o meu espanto quando li uma notícia na qual os únicos elementos biográficos verdadeiros eram o nome (mesmo assim, com uma gralha ortográfica) e a idade. Tudo o mais – TUDO! - era, por completo, estapafúrdio e delirante.
Telefonei para os jornais, que se desculparam com a agência Lusa. Liguei para a Lusa, que lamentou o sucedido e pediu compreensão. Mas não foi feita nenhuma emenda nos jornais posteriores. Suponho, por isso, que qualquer historiador que venha a debruçar-se sobre ele e a sua obra, hoje esquecida e, em enorme medida, por publicar, ficará bastante confuso se tomar a sério os órgãos de comunicação.
Há pouco tempo, num blogue que se pretende sério, encontrei uma referência biográfica de calibre igual ao anterior, relativa a um poeta português também meu conhecido. Enviei um e-mail ao responsável pelo blogue, esclarecendo-o em que medida os dados que recolhera são incorrectos. Não alterou nada nem sequer me respondeu.
Mais ou menos pela mesma altura em que faleceu o primeiro destes meus dois amigos, suicidou-se uma minha conhecida e vizinha, a contas com uma depressão agravada por factores de paranóia, saltando do 7º andar em que vivia. De novo os jornais foram pródigos em imaginação e miseráveis em realidade quanto aos motivos que a levaram a fazê-lo.
Frequentava eu nesse período, com alguma regularidade, um café onde costumava ver um fulano com ar pouco recomendável para o meu gosto, aquilo a que se costuma chamar o típico “mete-nojo”, pose de chulo com pastor alemão pela trela, para dar estatuto. Por lá continuou a pavonear-se, depois de eu ter mudado de residência. Dois ou três anos, soube que tinha morrido. Como?
Segundo a versão que, por o ter observado, me pareceu de maior confiança (a de um familiar meu), ter-se-á envolvido com alguém cujo marido era pouco liberal e que o “picou” como forma de aviso. O ferimento não parecia ter grande importância, pelo que o homem não achou necessário ir ao hospital, mas estava enganado e acabou por morrer.
A versão dos órgãos de comunicação, contudo, foi bastante diferente. O título de um dos jornais era qualquer coisa assim como “Corajoso cidadão morre vítima de gangue de droga” e contava a história de um candidato a justiceiro solitário, assassinado por um conjunto organizado de meliantes que ele vinha a investigar por conta própria.
Poderia acrescentar aqui outros casos do meu conhecimento mais ou menos directo, como, por exemplo o de uma escola à volta da qual foram feitas, há já alguns anos, reportagens e reportagens, por toda comunicação social, sobre casos gravíssimos nela ocorridos. A base de todo este imbróglio teve, no entanto, por base o depoimento de uma docente que passava longos períodos de atestado por desequilíbrio mental e de uma aluna que desejava viver uma telenovela. A verdade dos factos foi investigada pelo ME e tudo voltou ao seu lugar, mas a Comunicação já não estava interessada nessa coisa comezinha da verdade e, portanto, a escola continuou (não sei se ainda continua) a ser uma escola menos aconselhada pela “opinião pública”.
E por aí fora.

(continua)

19 abril 2010

Da realidade do poder (1)


Anos atrás, passei uma semana de férias em S. Miguel, durante a segunda quinzena de Agosto. Fui daqui com a informação meteorológica do costume, o anticiclone e tal, períodos de chuva e por aí fora. Quando lá cheguei, o céu estava limpo; água, só a do mar e a das lagoas que, do avião, me parecia distinguir ao longe. Na viagem até ao hotel, dei conta ao motorista do táxi da sorte que, pelos vistos, tivera logo no primeiro dia. O comentário, em tom sarcástico, às minhas palavras, foi imediato: “Ah! Lá no continente, aqui está sempre a chover…”. E, durante a semana, apesar das previsões do Instituto de Meteorologia, que insistiam em que chovera e choveria abundantemente no arquipélago, só dei por dois aguaceiros (bastante fortes, valha a verdade). Passeei por uma ilha magnífica com um tempo delicioso.
Lembrei-me deste episódio anteontem, enquanto esperava a minha vez numa repartição pública, ouvindo alguém falar ao meu lado sobre o que se passara consigo e a sua família, no decorrer de uma deslocação à Jamaica.
Em primeiro lugar, não puderam sair do hotel durante três dias, devido à realização de eleições. Porque era perigoso, disseram aos turistas; se o fizessem, não se responsabilizariam pela sua segurança. Finalmente, no quarto dia foram autorizados a passear, mas na condição de não usarem vestuário verde ou cor-de-laranja, para evitarem incidentes com quaisquer ânimos ainda exaltados.
Uma noite, após terem passado durante o dia por algumas praias e visitado a terra natal de Bob Marley, ao regressarem ao quarto onde, a conselho dos guias, haviam deixado os telemóveis, verificaram, espantados, que estes registavam trinta chamadas não atendidas, feitas por familiares, em Portugal. Ligaram-lhes, apreensivos com o que poderia ter estar na origem de um tal frenesi. Entre lágrimas e expressões de alívio, disseram-lhes as pobres criaturas que nos noticiários dos canais de televisão portugueses passavam notícias aterradoras sobre um furacão que devastara tudo por onde passara, Jamaica incluída, acompanhadas das respectivas imagens de devastação e tragédia, pelo que tentaram saber se algo de grave os teria eventualmente atingido. Incrédulos, os nossos turistas (choviam telefonemas para os portugueses) deram-lhes conta de que nenhum furacão passara pela ilha, e que aquele a que se referiam se dirigira para norte, em direcção a Cuba, mas que acabara por não causar estragos. Quanto às imagens, bem… talvez tivessem ido buscá-las à RTP Memória.

(continua)

16 abril 2010

13 abril 2010

Pague-se qualquer valor pela transferência!!!



Num país onde o futebol manda na política e onde há cada vez menos jogadores nacionais, sugiro que se faça uma vaquinha entre todos os cidadãos para reforçar a Assembleia da República com esta deputada, de modo a podermos alimentar a esperança de algum dia ainda podermos sair vitoriosos das eleições.

12 abril 2010

Em "concorrência" com o Blue Breve



Eurico Moura e Rafael Pereira têm feito um excelente trabalho de divulgação de boa música, em especial na área do jazz, no blog Blue Breve (que ainda não acrescentei aos favoritos). Deixo hoje aqui, também eu, o que consegui encontrar no youtube de Emílio Robalo, pianista de um trio, Araripa, que, nos anos 70, teve um breve, mas importantíssimo, papel na afirmação do jazz em Portugal. Os outros elementos do grupo eram o contrabaixista José Eduardo e o baterista João Heitor.

Até amanhã.

09 abril 2010

La leye del mercado


Ainda agora tinha dito que só algo de especial me faria voltar aqui antes de segunda ou terça-feira próximas, quando uma notícia que li na página da frente do jornal espanhol ABC no escaparate da tabacaria onde a minha mulher entrara me obrigou a fazê-lo. Ao que parece, duas clínicas da Andaluzia promovem actualmente um desconto de 20% em abortos às mulheres com menos de 30 anos e que possuam o Cartão Jovem.
Como se pode, digo eu, resistir a saldos tão aliciantes?

Até estou já bem de saúde


Mas circunstâncias várias têm-me impedido de vir até aqui. Espero recomeçar em breve, lá para segunda ou terça, se, entretanto, não houver nada de notório que me faça adiantar a data do regresso. Duvido. A cena política e cultural do país cada vez me merece menos comentários - é que ele há coisas que já nem se comentam sem se passar por parvo.
Até para a semana, portanto. Até lá, cliquem aqui. Só para não dizerem que eu nunca lhes dei nada.
Ah! A foto é de um companheiro de quatro patas que me adoptou, há um ano e picos. Tirei-a mais ou menos nessa altura, com o telemóvel.

01 abril 2010

Coincidências...


Segundo o Expresso, o Libération não saiu em Portugal na 5ª feira passada, 18 Março, por "problemas de impressão".
Ah bon...! (clicar, para ver o link que me foi enviado)