06 outubro 2007

Corroborando o que o Alf...

... diz no comentário ao post anterior, hoje Medina Carreira afirmava, em entrevista à SIC Notícias, que o problema do ensino em Portugal era que muito poucos entendem o que é a escola. Os pais não estão empenhados em que os filhos aprendam seja o que for, de facto estão é interessados em que eles tenham um papel - um canudo, um certificado - que lhes dê acesso a um emprego, de preferência um tacho (não o disse por estas palavras, mas o sentido era esse). E os alunos, por tabela, têm a mesma atitude.
É a visão da escola enquanto viveiro de funcionários, públicos ou privados, em busca da pastagenzinha de cada dia.
O problema, Alf, é que os tipos que mandam não tiveram pré-primária nem imaginam o que ela pode significar. E a escola, dela para a frente, também não. E agora?!
Mas não pense que os franceses que cita estão neste momento muito melhor do que nós...! Se não estiverem pior...! Mas isso é conversa para outro dia.

4 comentários:

Range-o-dente disse...

Os ingleses também não sabem o que hão de fazer à vida.

Ensino "democrático" = gangs, gangs, gangs ...

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alf disse...

Vou dar um exemplo que me ocorreu:

Imaginem uma comunidade fechada onde todos os adultos são mudos. Os seus filhos não aprendem uma palavra até chegarem aos 6 anos, idade em que são enviados para a escola duma comunidade vizinha, que é "normal".

Pensam que essas crianças alguma vez irão falar fluentemente a lingua mãe deles? Evidentemente que não, salvo um aou outra excepção, irão falar pessimamente a lingua.

Como sabem, a partir dos 8 anos de idade, uma pessoa que não tenha tido contacto com uma lingua humana (crianças criadas com animais) num mais conseguirá falar com um mínimo de normalidade.

Se uma criança aprende a falar cedo, então fica capaz de aprender linguas durante alguns anos mais, mas se não tiver este primeiro contacto não falará lingua nenhuma.

O mesmo acontece com a matemática e outras capacidades intelectuais.

Os pais ensinam os filhos a falar mas não os ensinam a contar. Se o primeiro contacto com os números for na escola, vão estar em relação à matemática como os filhos dos mudos.

Se perguntarem a uma criança que está a festejar o seu 5º aniversário quantos anos fará daí a um ano, verão a cara de espanto da criança - porque quanto é 5+1 é coisa que ela não faz ideia nenhuma. Muitas das crianças nem fazem ideia do que é que estão a festejar quando fazem anos.

E estou a falar de filhos de classe média.

Portanto, é preciso explicar isto aos pais: os números aprendem-se como as palavras, as cores, as canções, etc. E a raciocinar também.

Felizmente há os jogos de computador que sempre vão obrigando os miudos a algum raciocínio e a ver números, porque a generalidade dos pais é incompetente nesta matéria. Mas, é claro, isto só ajuda os filhos dos mais ricos...

Joaquim Simões disse...

A aprendizagem das palavras não é da mesma natureza da dos números. A capacidade de operar com os números exige uma abstracão (básica) dupla. Há uns quantos que o conseguem fazer desde muito cedo, da mesma forma que houve Pascal, Mozart ou Carlos Seixas. Uma coisa que é da experiência comum dos professores de filosofia é que, dos alunos que entram no 10º ano com 14 anos, raros são os que conseguem encontrar interesse na matéria e desistem, criando resistências e arrastando-a pelo ano seguinte. Não se trata de dificuldade de compreensão, mas do próprio questionamento, que não lhes passa sequer pela cabeça, quanto mais interessar-lhes! Numa palavra: esses alunos são ainda incapazes, aos 14 anos, de encontrarem qualquer sentido de questionamento (repare que eu não disse no, mas de questionamento). Os alunos de 15 anos (dando razão a Rousseau e a Piaget quanto às fases de desenvolvimento cognitivo) já o conseguem fazer com mais ou menos dificuldade. Mas nem sequer os companheiros conseguem despertar os mais novos, que acham aquilo tudo (repito: o questionamento) incompreensível ou disparatado. Aos 15, são incapazes de perceber os temas do 11º. Não se trata unicamente de educação, mas de fases que não se pode saltar e, numa enorme medida, das características individuais. Tenho em minha casa, onde os níveis de questionamento foram mantidos, embora com uma tipologia diversificada (o chamado "ensino individualizado"), um bom exemplo disso e que me fez rever uma boa quantidade de coisas na minha forma de ver o problema. E aprendi muito, embora nem sempre de uma forma muito agradável.
A pluralidade dos seres é muito engraçada. Mas porque é que tem que haver (a pergunta não é: "porque é que há?") pluralidade? Essa é que é a pargunta, do mesmo modo que o fundamental não é apenas o "como se formam as ideias e de onde vêm elas", mas, sobretudo, "o que é conhecer?".
Bom, mas isso fica para a próxima.

José Carrancudo disse...

Os alunos não aprendem nada e nada lhes interessa (estamos a falar dos alunos médios), porque a nossa Escola (tanto como muitas outras da Europa) implementou há 30 anos dois erros pedagógicos que se tornaram fatais para vários gerações de Portugueses:
1. O método global (visual) de ensino de leitura, que não funciona;
2. A recusa de aproveitar e de desenvolver a capacidade de memorização sistematizada dos alunos, sob pretexto de "desenvolver pensamento crítico e independente"
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As consequências:
1. Os alunos não aprendem a ler em tempo útil (2º ano do 1º ciclo da Escola Básica);
2. Não se aproveita a capacidade de memorização sistematizada já existente nos alunos do 1º ciclo;
3. Em vez disso, aposta-se no "pensamento crítico e independente", que o cérebro destes alunos não produz;
4. Com capacidades de memorização sistematizada por desenvolver, os alunos fiquem privados de conhecimentos fundamentais necessários para estudar todas as disciplinas escolares;
5. Sem os conhecimentos memorizados, não conseguem pensar "independentemente" ou "criticamente", pois não possuem bases para comparação;
6. O seu "pensamento" baseia-se unicamente na telenovela da última semana, da qual ainda se lembram alguma (pouca) coisa;
7. São ignorantes e iletrados, vítimas da nossa Escola.