31 agosto 2007

A propósito...

... da leitura, no mesmo jornal, de um texto de Nuno Pacheco sobre o falecimento de Daniel Morais, adido cultural da embaixada portuguesa em Caracas, velho opositor do Estado Novo, companheiro de Soares no MUD, e que, ao contrário deste, não sentia nenhuma espécie de simpatia por Chávez, lembrei-me de duas notícias que li aqui há uns tempos, quando ainda não blogava, de uma das quais, pelo menos, todos se recordarão. Refiro-me ao célebre gesto de Bush, apontando com a mão para cima em resposta à pergunta sobre de onde provinha o aconselhamento que recebia nos momentos em que deveria tomar decisões cruciais. Imediatamente os comentadores de esquerda, Mário Soares inclusivé, lhe caíram em cima, falando em fanatismo religioso e mesmo em desiquilíbrio. O alarido foi de ordem tal que faz hoje parte do anedotário que qualquer pateta alegre debita sobre o homem.
Tenho a certeza de que todos os sábios e honestos ideólogos, mais ou menos ateus, que se preocuparam em denunciar às massas de cidadãos o secreto significado do gesto imperialista o fizeram também já em diversas circunstâncias, querendo com ele referir-se à sua intuição ou a um salto para a incerteza, pela imprevisibilidade das consequências de um acto numa situação cuja evolução depende de uma miríade de pormenores encadeados. Mas admito a possibilidade da interpretação segundo a qual, com o gesto, Bush se estivesse a referir a uma sua tentativa de, tal como o Papa, apelar para o espírito divino, único verdadeiro conhecedor do Bem, de modo a evitar um erro trágico. Admito e não me escandaliza. Uns agem em nome da razão (seja lá o que for que isso queira dizer) outros, em nome de Deus (dependendo do Deus de que falem), outros ainda em nome da Bondade Universal (e aí manda o conceito de "universo"). Só espero que, honestamente, façam o que melhor lhes parecer.
A segunda notícia vem complicar um pouco mais tudo isto. É que, pouco tempo depois, o presidente pré-vitalício da Venezuela discursou na ONU, no dia imediatamente seguinte àquele em que falara o presidente americano. Hugo Chávez começou por dizer: "Ontem esteve aqui o Diabo."
E a esquerda aplaudiu o fino, subtil e intrépido sentido de humor de que ele, uma vez mais, deu mostras. Mas, cá para mim, Chávez é mesmo fanático. Ou ainda pior.

Setinha para cima...


Os hospitais convertidos em entidades públicas empresariais viram os seus prejuízos reduzir-se em 50 por cento no primeiro semestre. Alguns, como o S. João, do Porto, deram até lucros. À partida, o ministro da Saúde está de parabéns pelos resultados apresentados. Resta agora saber se dependem da eficácia do novo modelo de gestão ou da diminuição da qualidade dos serviços prestados.
Este é o texto do PÚBLICO de hoje, incluído na rubrica "Sobe e desce", ilustrado com uma fotografia de Correia de Campos e com uma seta no sentido ascendente. Mas se, tal como é dito, não se sabe a que ou quem atribuir estes números, porquê esta "subida" que o jornal dá ao sr. ministro? Será que lhe deve favores?
Setinha a descer para o PÚBLICO...

24 agosto 2007

Mas ainda antes de ir: Maria João e Mário Laginha



Volto na próxima sexta-feira

Henri Rousseau

Até lá, entre tudo o mais que vos apeteça, leiam este novo e excelente texto do Alf, no Outra Margem.

Équelé por todó lado!


Poucas horas atrás, num Pingo Doce situado dentro de um pequeno centro comercial da área de Lisboa, depois de ter feito as minhas compras meti-me na fila para uma das caixas, onde fiquei atrás de um casal na casa dos cinquenta, ele numa cadeira de rodas. Dada a pequena dimensão do supermercado, nenhum dos que já se encontravam anteriormente na fila se apercebeu da aproximação dos três, situados ainda no corredor entre as prateleiras.
Conversando entre si, o casal aguardava a sua vez de ser atendido, embora a caixa estivesse destinada a atendimento prioritário de grávidas e deficientes. De súbito, irrompendo por trás de mim, uma senhora dirige-se a ambos, vociferando: “O senhor não precisa de estar aqui à espera! O senhor tem o direito de ser atendido em primeiro lugar! Vá, passe à frente!” E avançou em direcção aos outros clientes, apanhados de surpresa: “Desviem-se! Vá, avance!”.
Tanto ele como ela, igualmente surpreendidos pelo tornado de olhos arremelgados e voz comicieira, só tiveram tempo para dizer: “Não é preciso, obrigado! Não estamos com pressa! Deixem-se estar!”, recusando delicadamente e com um sorriso a passagem ao primeiro lugar da fila. Mas a mulher insistia, voltava atrás e abria caminho, agora em direcção a outra caixa, chamando o casal com acenos para aí serem atendidos em exclusivo, continuando a clamar pelos direitos de que ele deveria usufruir.
Perante a notória falta de disposição de ambos para acatarem a direcção da sua justa iniciativa, já depois de duas funcionárias, alarmadas pelo alarido, os haverem inquirido sobre o assunto, a mulher voltou para junto deles. Foi então que o homem, aproveitando uma pausa na respiração lhe disse: “Minha senhora, eu faço valer os meus direitos excepcionais, quando isso me é necessário, o que, de momento, não é o caso. Por isso, hoje aguardo a minha vez como qualquer dos outros que aqui estão.”
A senhora engasgou-se, tartamudeou qualquer coisa, mas não se deu por vencida e continuou: “Pois… mas deve exigir os seus direitos! Tem que exigir os seus direitos! Tem que exigir os seus direitos”. E afastou-se, a voz a diluir-se pelos corredores, deixando um rasto de comentários, mais ou menos favoráveis.
Esta cena lembrou-me uma outra que presenciei há uns anos, desta vez num hipermercado, também com um casal com as mesmas características. Ele deslocava-se ao lado dela, que empurrava um carrinho a transbordar, tendo passado à frente dos restantes elementos da fila. Quando já se encontravam longe da caixa, uma cliente comentou para uma outra, que a acompanhava: “Na próxima vez que vier às compras, também trago um deficiente…”.
Não é apenas no que respeita aos transgénicos que a tacanhez e a má-fé deste país se manifestam.

O assédio...

... sexual de que Macário Correia é acusado por um funcionária superior da Câmara de Tavira, surge num momento de assédio ao poder dentro do PSD. O caso tem, só por isso, fora o resto que é relatado no Diário de Notícias sobre o assunto, contornos nebulosos. Mas, lá por isso, não se resiste ao sentido de humor deste post!

Contrariamente à opinião da maioria...

... penso que os Gato Fedorento deixam muito a desejar como humoristas. Mas, de vez em quando, têm uma arrancada das (muito) boas. É o caso deste texto de Ricardo Araújo Pereira, publicado na revista Visão, de que tive conhecimento via Caldeirada de Neutrões (pensava eu - ver caixa de comentários).

23 agosto 2007

Razões deste post


Miguel Portas publicou ontem o seguinte texto:
Noticia o DN a execução da 400ª sentença de morte dos últimos 30 anos em Huntsville, Texas.A senhora Michelle Lyons, do departamento de justiça criminal, afiança tratar-se de “uma cidade muito simpática” onde vivem, pasme-se, “professores, artistas, reformados e estudantes”.Dave Atwood, da coligação para a abolição da pena de morte, pensa de modo bem diferente. Segundo este advogado, “os texanos parecem ter uma relação de amor com a pena de morte”. Agora percebo melhor o texano dos texanos, G.W.Bush. No fundo, lá bem no fundo, é tudo uma questão de amor…

Deixei-lhe hoje, à porta, este recado:
"Caro Miguel Portas:
Não se iluda. Se fizesse um inquérito de rua sobre o assunto no Portugal do século XXI…
A sério, nunca lhe passe pela cabeça propor um referendo sobre a pena de morte, está bem?
É que se o Vasco Graça Moura decidir fazer um poema sobre o assunto, bem… estamos num país de poetas, sabe disso.
Só para para evitar equívocos: sou absolutamente contra a aplicação da pena de morte.
Mas, lá por isso, não utilizo o meu ponto de vista para fabricar maniqueísmos políticos."
Fi-lo com algum desgosto.
Daí este post.

22 agosto 2007

O caso das borboletas trapalhonas


É este o título do texto de Vasco Graça Moura (de quem não gosto particularmente) publicado no Diário de Notícias de hoje e que transcrevo parcialmente de seguida:
O nº 3 do artº 255 do Código de Processo Penal manda fazer exactamente o contrário daquilo que a GNR fez no caso dos transgénicos: em flagrante delito, primeiro procede-se à detenção e, se o procedimento criminal depender da queixa e esta não for apresentada, depois é que a detenção é levantada.
A GNR não deteve ninguém. O ministro da Administração Interna ignorou a questão do flagrante delito!
A GNR identificou seis pessoas. Deixou escapar uma dezena de criminosos estrangeiros, mascarados e surpreendidos em flagrante delito, apesar de se dever pensar que 18 dos seus agentes deviam chegar para deter e identificar a horda. (…)
A destruição de uma coisa de valor elevado é um crime de dano qualificado. O artº 202 do CP diz-nos que o valor elevado, aqui, é o que excede 50 unidades de conta, ou seja, actualmente 4800 euros.
O ministro não explicou como é que a GNR pode ter avaliado no local se o valor da coisa danificada era ou não elevado… mostrou-se candidamente convencido de que a GNR percebe mais de áreas de milho, de toneladas produzidas e de cotações no mercado, do que do cumprimento dos seus próprios deveres.
Esqueceu-se ainda de que só foi destruído um hectare, mas a plantação tem mais 49. dando de barato que a horda obedeceu à GNR e cessou as malfeitorias logo que intimada por ela (ministro dixit), torna-se evidente que, sem a intervenção da autoridade, a destruição teria sido levada a toda a propriedade.
Logo, estar-se-ia sempre, pelo menos, perante a forma tentada de um crime de destruição de coisas de valor consideravelmente elevado.
E isto, para não falar de outras tipificações penais em que vários factos poderiam ser subsumidos, como as de instigação pública ao crime, apologia pública desse crime, participação em motim, ou incitamento à desobediência colectiva.(…)
As espertezas saloias não ficam por aqui. O ministro da Agricultura precipitou-se a garantir o apoio do Estado ao proprietário.
Luís Grifo, o técnico que presta assistência àquela plantação de milho, dissera à Lusa que a parcela destruída deveria produzir cerca de 30 toneladas.
Mas o ministro da Agricultura pôs-se a engrossar rapidamente umas contas para concluir que 17 toneladas de milho esperado deveriam corresponder a um prejuízo de uns 3900 euros!
Assim, o primeiro e prestimoso apoio do Estado consistiu em barbear nada menos de 13 toneladas à normal expectativa do produtor…
Porquê? Porque era preciso fazer tudo para se ficar muito abaixo dos 6900 euros, que excederiam o valor elevado de que fala o artº 213 do Código Penal. De outro modo, a GNR ficava logo em xeque.(…)
Na sua arrogância, o Governo achou que não precisava de fazer mais do que um comunicado pateta.
Mas o PR deu-lhe um puxão de orelhas a doer, afirmando que quem tem o poder de fazer cumprir a lei não pode deixar de utilizá-lo.(…)
E Sócrates mostrou até que ponto é medroso. Não tem só medo de ir à Madeira, que é uma parte integrante do território nacional onde ele não ousa pôr os pés. Tem medo de aparecer a dar a cara perante os portugueses.(…)
Foi por isso que o Governo pôs dois ministros a fazerem assim uma figura de de borboletas desastradamente esvoaçantes e caricatamente trapalhonas..

21 agosto 2007

Continuando a blogar...


... encontrei dois posts - este e este - com muito interesse e, o que é bastante importante, escritos com (bom) humor.

Andres Segovia: Heitor Villa-Lobos e J. S. Bach



O chefe recomenda...

Arcimboldo


... os pitéus abaixo indicados:
- no 31 da Armada, este e também este;
- no Caldeirada de Neutrões, este;
- no Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos , este;
- n' O Jumento, este.

20 agosto 2007

A ser verdade...


Na segunda página do jornal Associação, editado pela Associação Portuguesa de Deficientes, que me deram hoje a ler, chama-se a atenção para o facto da proposta de Lei de Aposentação do Governo não contemplar nenhum regime de excepção para pessoas com deficiência.
A ser verdade, não há que temer as palavras: um governo que propõe algo deste calibre não passa de um bando de canalhas, a quem deveriam ser retirados todos os direitos políticos.

Ainda Luciana Souza: cantando Neruda e com a Maria Schneider Orchestra



A descobrir: Luciana Souza e Romero Lubambo

19 agosto 2007

Já agora...

Henri Rousseau, O sonho
... quero referir este e mais este post publicados no Outra Margem. Tratam de um tema muito caro ao já falecido grande físico e autor de textos de ficção científica Fred Hoyle, para o qual chamo frequentemente a atenção de quem me ouve. Pela oportunidade e pela clareza dos textos, um abraço de parabéns ao Alf.

Tinha de dizer isto!


O energúmeno representante de qualquer coisa verde que acabei de ouvir no telejornal da 2 afirmou que não houve violência por parte dos “ecologistas”, que se “limitaram a destruir” parte da plantação de milho transgénico, abandonando o local quando as autoridades a tal os intimaram. Violência “até certo ponto compreensível”, continuou a aberração, foi a do comportamento do agricultor e dos amigos, por questões “emocionais”. E não vê a necessidade de abrir um inquérito público por causa de uma coisa destas.
E se calhar ainda há quem diga que é um gajo bem intencionado!

Hoje não faço um...


... volto amanhã.

16 agosto 2007

Será do Simplex?


A comunicação social portuguesa que, no ano passado, noticiava o simples acender de um fósforo, raramente nos deu, até agora, o espectáculo de um incendiozito em Portugal. Só na Europa e nos Estados Unidos.
Tch! Tch!...

Avante circular


Encontrei hoje na minha caixa do correio um folheto da próxima festa do Avante!. Folheto em que se anunciam coisas tão interessantes como uma homenagem ao Frank Zappa que, aqui há uns anos, era não um autor "cuja obra, para além de invulgarmente extensa e extraordinariamente multifacetada, possui ainda várias outras características que a tornam única no panorama musical da segunda metade do séc. XX", mas mais uma anarquizante personagem da cena do espectáculo burguês, destinada a afastar os jovens da revolução. E em que Sam the Kid, debitador de discursos machistas e reaccionários de um primarismo confrangedor, é incluído nas cabeças de cartaz.
A esquerda (toda ela) é hoje uma mosca tonta em volta de um pedaço de qualquer alimento que lhe permita o prolongamento do estertor próprio do fim a que se condenou.

14 agosto 2007

Lembrando

António Gedeão

ESTATÍSTICA
Quando eu nasci havia em Portugal
(em Portugal continental
e nas ridentes,
verdes e calmas
ilhas adjacentes)
uns seis milhões e umas tantas mil almas.
Assim se lia
no meu livrinho de Corografia
de António Eusébio de Morais Soajos.
Hoje, graças aos progressos da Higiene e da Pedagogia,
já somos quase dez milhões de gajos.

07 agosto 2007

Ainda antes de ir de férias por uma semana...

Henri Rousseau
... uma chamada de atenção para este texto, cujo interesse vai muito para além dos interesses e das áreas profissionais de cada um.

Volto na próxima terça-feira. Até lá, fiquem em óptima companhia: Anna Netrebko e Rolando Villazón





Há qualquer coisa que me escapa...


Pelo menos metade da população portuguesa deve ser accionista do BCP. Isto, a avaliar pela importância que a comunicação social tem vindo a dar às lutas internas no banco. A não ser que seja ao contrário: se calhar serão apenas eles e mais uns quantos, os únicos portugueses...

06 agosto 2007

Inch Allah!


No Iraque, um bombista-suicida matou cerca de quarenta pessoas, a maioria das quais crianças. Allah (louvado para sempre seja o seu nome!) abençoou-os com o privilégio de não terem sido mortos pelo exército de Israel. Mas para não se dizer que Ele é injusto, também não lhes deu o mesmo destaque na comunicação social.
Nha, nha-nha, nha-nha, nha!

O Bom Selvagem


Esqueça o pequeno castigo físico do estalo ou palmada, ainda que seja só um gesto simbólico "para sacudir o pó" da roupa do seu filho. O Conselho da Europa, em que Hammarberg é comissário dos direitos humanos, quer acabar com isso, tanto em casa como na escola, aconselhando uma prática que já existe na Suécia. São sinais destes que fazem a evolução das sociedades.
É nestes termos que o PÚBLICO de ontem fala da intenção do sr. Thomas Hammarberg, a quem atribui uma setinha em sentido ascendente.
Falta agora à Europa , sob a égide de Rousseau, legislar sobre o amor de mãe.
Comentarei desenvolvidamente o assunto, logo que tenha oportunidade para tal.

05 agosto 2007

Ainda a propósito de alterações climáticas


Ontem, passei o dia em Tomar. Um calor desgraçado! Seco. Daquele que eu detesto!
Na volta para Lisboa, ao passar por Alhandra, gotas grossas caem sobre o pára-brisas. Não, não é o carro da frente a lavar os vidros, é chuva mesmo! Uma nuvem negra, quase sozinha, no céu, pela qual ninguém dera, desfazia-se por cima da A1! Espanto da prole!
E diz a minha tia (aquela de quem falei aqui recentemente): "Nunca ouviram o ditado: 1º de Agosto, 1º de inverno?".

03 agosto 2007

Los tienen en su sitio!

Lawrence Argent, Colhões
Face a uma praga de ratos estimada em 350 milhões de bicheza motivada por um inverno mais quente, os agricultores de Leão e (salvo erro) Castela organizaram uma marcha de protesto, pelo facto de as autoridades espanholas não terem tomado providências na devida altura. É que ele há ratos por todo o lado, devorando as colheitas, ou mortos, aos milhares, nos rios! E começam a surgir diversos casos da designada "febre dos coelhos"...!
No meio da manifestação, uma criança transportava um cartaz onde se lia: "De topos y ratones/ estamos hasta los cojones!" - "De toupeiras (estúpidos) e de ratos/ estamos até aos colhões!".
Felizmente que se trata de espanhóis... Por cá, os agricultores ainda correriam o risco de serem demitidos de qualquer coisa e processados por perversão de menores.
... da-se..!

Nota final de hoje


Depois de ter publicado o post abaixo, dei conta de que Alf, do blog Outra Margem (cujo link passou, a partir de hoje, a estar disponível aí ao lado) tinha, entretanto, publicado dois textos sobre temas interligados com o que escrevi: este, referido ontem, segundo verifiquei, por Range-o-Dente, e também este outro, com a data de hoje.
Daqui envio um abraço para ambos, pelo excelente trabalho feito ao longo da existência dos respectivos blogs.
Entretanto, a propósito do tema de um post que publiquei hoje, sobre o afastamento da directora do Museu Nacional de Arte Antiga, vejam também este, no 31 da Armada.

02 agosto 2007

A minha tia, o azeite e o CO2

Hyeronimus Bosch, O Jardim das Delícias (painel central)

Escrevi este texto quase de jacto. Não tive tempo para o burilar nem para o complementar devidamente.Mas decidi publicá-lo mesmo assim, remetendo essa fase para respostas a eventuais comentários. É que já deveria estar em férias, caramba!

Uma tia minha, de 81 anos, sempre me disse que o pai dela, meu avô materno, lhe ensinara que os anos - as condições meteorológicas - se repetem a cada quatro décadas. Camponês, ligado à agricultura, teria ele próprio adquirido este conhecimento por transmissão dos mais velhos. O meu pai, que também viveu numa aldeia do sul do país até aos 25 anos, nunca se esquecia de registar de que lado estava o vento no dia “da Sra. das Candeias”, em Janeiro: conforme a direcção em que soprasse, assim se seguiriam 40 dias de chuva ou de seca. E eu próprio, que vivi com ele no que foi, por poucos tempo, uma região agrícola dos arredores de Lisboa, antes de passar a dormitório, habituei-me, no decorrer desse período, a observar empiricamente as regularidades e as variações climáticas da região da foz do Tejo.
Qualquer amador de psicologia tem conhecimento de que a memória humana é, em geral, muito fraca no que respeita ao clima e que, talvez como em nenhum outro dos seus sectores, ela constrói os seus arquivos à medida dos desejos, conveniências e expectativas dos sujeitos. E que, por outro lado, o desejo de estabilidade, que em certa medida nos comanda, origina a criação de abstracções como a uniformidade e a perenidade de um padrão de condições climatéricas que caracterizaria, por exemplo, cada uma das quatro estações do clima temperado. Daí que tenhamos raríssimas recordações reais de qualquer uma delas lhe corresponder verdadeiramente.
A tia de que comecei por falar, dona de uma memória invulgar a este nível e que tem as suas anotações em dia, de cada vez que ouve falar em catástrofes do clima, assanha-se. Apela para os registos que fez (só para ver se o pai e os “antigos” tinham razão!). Para ela, as pessoas têm má memória, gostam muito de se alarmar e “eles”, por sua vez, têm que arranjar notícias para ganharem dinheiro! “Então não se lembram do que aconteceu na altura tal de há não sei quanto anos?! Aquele ciclone que…” E desenrola o tecido das recordações.
É claro que as regularidades existem, mas só em certa medida. Nem mesmo a minha tia está convencida de um determinismo inexorável quanto aos anos e aos meses em que se deverá abrir ou fechar o guarda-chuva ou o guarda-sol. “Ora, então, as coisas não são como a gente quer…!, diz ela com a resignação de quem viu morrer-lhe a única filha, deixando-lhe a saudade e o consolo nos netos. E, na sua pequena sabedoria, nem sequer suspeita de que informaram o sobrinho, quando ele andava no secundário, de que as regras do clima já foram outras e que, segundo apontavam os estudos científicos, a partir de 1980 (que precisão!) entraríamos numa outra era glaciar, o que representaria novas alterações. E também que encontramos por todo o lado, nas rochas, vestígios de espécies desaparecidas há milhões de anos e outras até que parecem ter reaparecido e desaparecido outra vez após o primeiro desaparecimento. Nem sabe que a serra de Sintra já foi uma ilha ou que a fome - um dos principais justificativos da necessidade da conquista de uma Ceuta rica em cereais, em 1415, e elemento omnipresente nos contos populares portugueses - tem por raiz as inúmeras e terríveis secas que, pelo menos desde há séculos, o território português sofreu. E ainda dessa coisa do CO2.
O CO2, tem variado, ao longo da minha vida, em sentido inverso ao do azeite. Da respeitabilidade e do estatuto económico e cultural de gordura tradicionalmente usada na alimentação e não só, o azeite passou em poucos anos ao ostracismo, por via do vá de retro dos médicos que, no período do desenvolvimento da indústria das margarinas, o consideraram, vá-se lá saber porquê, como um perigoso inimigo público da saúde, raiz única de diferentes enfermidades e achaques. Eu, à altura inocente criança, apreciadora do seu sabor nas batatinhas e saladas, bem protestei contra a sua substituição por aquela gordura pastosa execrável - que a minha mãe, em questões de saúde, era quase inabalável - mas não tive sorte nenhuma e só depois de me tornar independente pude voltar ao saudoso azeitinho. De súbito, anos atrás, estudo americano dixit, e a dieta mediterrânica passou ao topo do recomendável e, com ela o meu querido azeite. Gozei o triunfo, claro.
Com o dióxido de carbono foi ao contrário. No secundário, além de me instruírem, perdão!, educarem sobre a respectivas composição química e fórmula molecular, disseram-me que a fotossíntese, que liberta o oxigénio vivificador para a atmosfera, era realizada pela sua presença e fixação. Mais: falaram-me de que ele também é indispensável à vida e que as bolhinhas dos diversos refrigerantes, e mesmo das águas minerais, são de CO2. Nada acerca da sua influência no clima (do buraco no ozono, nem sequer se suspeitava, os registos são de fresca data). E, de repente, “não mais que de repente”, bum!!!, aí está o aquecimento global e o dióxido de carbono, tão ligado à preservação da vida segundo me haviam dito, andava nas bocas do mundo como inimigo número um da mesma. Embora não entrevisse nenhuma margarina metida na coisa, compreenderão a instintiva desconfiança que isto me provocou, agravada por já ter visto entretanto “O último tango em Paris”. Não por ele ter influência climática, o que é óbvio: são inúmeros os factores que determinam o clima, daí a pouca rigorosidade das ciências que o estudam. Refiro-me ao facto de, exactamente por isso e tal como o azeite, ele servir para explicar tudo. O que é a antítese de uma postura científica ou sequer sensata. E, ao fim de alguns anos, continuo a pensar o mesmo: aqui há gato…!
Em primeiro lugar, relembre-se que aquilo a que, a partir da segunda metade do século XIX, chamámos “ciência” em vez de, como até lá, “filosofia natural” (termo, se calhar, mais exacto) assenta no princípio de que as regularidades da sucessão causal dos fenómenos observáveis pelos nossos sentidos e respectivos prolongamentos (microscópios, telescópios, detectores de infra-sons, etc., etc.) correspondem a uma estrutura que os explica e justifica e, por isso, permite prever a sua continuidade. Essa estrutura nada mais é do que um conjunto de ritmos estabelecidos, isto é, de um sistema de proporções, portanto de relações do tipo que o nosso intelecto classifica como matemáticas (deixo de lado a etimologia da palavra). “Fazer ciência” significa, sob este ponto de vista, determinar as condições estruturantes desse dinamismo que designamos global e comummente por Natureza ou Universo, noção de que nós próprios somos parte (neste sentido, o termo “meio ambiente” é incorrecto). Mas, “fazer ciência” significa assim, implicitamente, na mesma perspectiva, encontrar o lado “mecânico” dessa mesma Natureza ou Universo e, em consequência, do ser humano.
É no século XVII que encontramos explicitado pela primeira vez (julgo eu) o conceito de corpo enquanto máquina. Não por acaso, numa das obras de Descartes, matemático e estudioso do sistema da circulação sanguínea e dos corpos em geral (honni soit qui mal y pense!), além de filósofo futuramente influentíssimo no pensamento ocidental. A noção de “o meu corpo” é estranha à medievalidade, que não encarava o ser humano desse modo. Daí as conhecidas tentativas do século XVIII de criar o primeiro autómato, que culminam, no plano literário e com uma inflexão já romântica, em Frankenstein. Mas no monstro saído da imaginação de Mary Shelley - ou não se tratasse de uma mulher! - encontramos já presente, associado à inteligência, o par “emoção-vontade”, característica do organismo vivo que lhe confere um comportamento apenas muito parcialmente previsível, algo que Descartes ignorou, ao ligá-la estritamente à racionalidade, entendida como capacidade lógica operatória. O carácter de menor rigor que as chamadas ciências humanas inevitavelmente possuem deriva do seu objecto de estudo ter uma vontade que se espelha na infinita variedade de respostas que podem dar ao mesmo estímulo.
Deixando de lado (uff!) as contradições e, consequentemente as sementes e os caminhos da contestação (emergidos no terceiro quartel do século XIX, com Husserl ou Nietzsche) que o próprio pensamento cartesiano gerou relativamente à perspectiva que tomava forma no seu tempo e de que era, sem o saber, porta-voz, a física do século XX chegou, através da teoria quântica, a conclusões semelhante, em certa medida, às dos vitalistas. O comportamento da própria “matéria não viva” não era totalmente determinável e os princípios matemáticos não traduziam por inteiro a sua estrutura. O (pelo menos, por nós) imprevisto, existe. Nem sabemos se jogar aos dados é ou não parte intrínseca do ser divino.
Curiosamente, o desejo de compreensão, no sentido da estabilidade e segurança, chegou à conclusão de que nada é estável nem seguro. Mas o desejo permanece, empurrando-nos para a busca de níveis de conhecimento cada vez mais alargados e aprofundados. Mesmo as culturas do extremo-oriente, desde sempre assentes na ideia de eterna impermanência e dinamismo do todo, foram arrastadas pela evolução social e histórica no sentido do saber científico. Esse desejo é o mesmo que origina a formação das diferentes comunidades e do poder que lhes garante a observação das regras que as proporcionaram e lhes dão continuidade. E é aqui que a coisa se complica.
O poder assenta num consenso sobre o conjunto de saberes admitidos como definitivamente verdadeiros e que alguns conhecem melhor do que todos os outros, até mesmo o valor e a oportunidade da violência e da opressão. Representa o domínio de uma concepção que se pretende definitiva e, por isso, é, sob esse ponto de vista, reaccionário. Durante mais de dois séculos, as universidades ibéricas contemporâneas da descoberta da existência de outras terras e outros seres, continuaram a ensinar o que qualquer marinheiro sabia que era errado. As coisas só se alteraram com a progressiva aceitação e adopção do modelo newtoniano, que permitia uma nova fundamentação respeitável do exercício do poder, um novo “mapa”.
O poder contemporâneo, porém, cada vez menos pode esconder a impermanência e a contingência. Ela está por todo o lado, à vista de todos e reflectindo-se, em última instância, na falta de valores únicos e cimentadores, a começar nos que dizem respeito a algo tão elementar como o consumo. A contestação, clara ou oculta, é cada vez maior e ameaça os fundamentos de qualquer corpo social. E a consciência planetária, quer dizer, da solidariedade humana enquanto espécie em direcção a um futuro que passa pela sua expansão para outros habitats, é algo que só passa pela cabeça de uns quantos, formados em sociedades que lhes permitiram maiores possibilidades de pensarem em tal coisa (as sociedades ocidentais). Face à nova situação, o poder adoptou, a meu ver, uma jogada aparentemente suicida.
Popper tinha em comum com um primo meu, agricultor, o ficar com os cabelos em pé quando ouvia falar de ecologistas. Para o filósofo, os ecologistas não passavam de hipócritas que escamoteavam, entre outras coisas, o factor decisivo do excesso de população; para o Chico, aquele amor pela natureza - que ele também tem, note-se - é demasiado, cheira-lhe a manias de pessoal da cidade, que pensa que “a outra gente é estúpida”. Para além da quota-parte de razão e de erro que ambos possam ter, penso que as coisas podem ainda ser vistas por outro lado.
Os ecologistas foram, no seu início, vistos com desconfiança e mesmo com hostilidade pelo poder político. Eles iam contra a “lógica do desenvolvimento”, portanto, dos interesses económicos movimentadores da iniciativa privada descontrolada e inconsciente e, sob esse aspecto, a sua luta era justificável. O problema é que, desde o começo, essa luta se encontrava inquinada pelo conceito cultural milenar do mundo como “jardim do Homem”, um jardim de características de eternidade, isto é, de modelo imutável. Um jardim de que o ser humano trataria como seu, a morada da sua imortalidade. E isto redundou não apenas no tipo de conceitos e de acções opostos aos que deveriam ser os de um movimento ecologista atento ao dinamismo do universo, como na sua rejeição por parte do poder político, a quem estragava os conluios e as negociatas, permitidas pela religião do “progresso”.
O mal-estar pela perda de um idealizado e obscuro paraíso perdido, fosse ele o dos atlantes, o dos hebreus, dos hiperbóreos, do bom selvagem, dos extraterrestres, da infância mitificada ou qualquer outro, aumentou ao longo da década de 70 e, dessa maneira, a ecologia tornou-se facilmente num escape para as multidões descontentes e desorientadas com a instabilidade e efervescência dos tempos, bem como com as perspectivas e a monotonia do tipo de vida que lhe é proporcionado pela sociedade ocidental (o consumo de drogas é outro escape para a pressão resultante da falta de um “mapa”). "Se não podes vencê-los, junta-te a eles - o suficiente, pelo menos para te manteres o domínio da situação" tornou-se então na nova estratégia política para enfrentar a situação.
Aos poucos, já se haviam entretanto formado partidos ecologistas da ou ligados à esquerda política, capitalizando estes factores para os seus objectivos de ataque ao capitalismo. Ao mesmo tempo, porém, as preocupações “ecológicas” começaram a fazer parte da propaganda eleitoral de todos os partidos. Até que chegaram aos programas de governo. E, obvia e necessariamente, ao saber oficial, à educação.
Poder-se-ia falar, melhor dizendo, de endoutrinação. No primeiro ciclo de ensino, as crianças recebem hoje, desde logo, noções básicas de “conservação” do meio ambiente, à mistura com conceitos fundamentais que perspectivam a Terra como “terra prometida”. O planeta não é apresentado com parte de um dinamismo de que o universo é expressão e de que, portanto, a nossa acção faz ela própria parte; o ser humano assume o estatuto de guardião de um equilíbrio, mais ou menos inalterável. E, no restante ensino básico bem como no secundário, em simultâneo e contraditoriamente com a informação sobre o dinamismo da natureza, observável nas suas constantes transformações, repetem-se, aprofundam-se e consolidam-se as informações ideologicamente orientadas, transmitidas na primeira fase.
É aqui que entra em cena o CO2. Seria difícil explicitar ao comum dos cidadãos toda a complexidade das relações entre os factores envolvidos no aquecimento global. O CO2, produzido pelo ser humano em maior quantidade do que nunca até hoje, está assim mesmo a jeito para servir de bode expiatório: a sua fórmula constitui uma sigla publicitária (propagandística?) de alta eficácia, unifica e simplifica o tipo de protestos e a qualidade das atentas medidas dos atentos governantes em prol dos governados. Além disso, permite o estabelecimento de certezas, que dão auto-estima a quem as possui, ao mesmo tempo que os investe de um poder semi-divino sobre um mundo transitório.
A argumentação é profundamente anti-científica. Nunca, como referi no início, uma tão grande complexidade de uma tão enorme gama de fenómenos é produzível e explicável por apenas um dos elementos em jogo, ainda por cima, devido à falta de registos anteriores, sem qualquer prova de uma efectiva relação de causa-efeito, em situações passadas. E torna-se patético ver os mesmos estudantes que mal sabem soletrar e que chumbam massivamente nos exames de física e de química, que terão mesmo dificuldade em explicar a fórmula molecular do dióxido de carbono, enrolar a língua nos piercings do escândalo e da proibição paternas na rebeldia institucionalizada da enumeração de todos os malefícios do CO2.
A “ideologia” religiosa bíblica transfere-se, assim, cada vez mais para a do jardineiro profano, os saberes e os cuidados com a “qualidade de vida” e com a construção do “ambiente ideal” servindo hoje, à falta de melhor, de suporte ao poder que por todos vela e que, do mesmo golpe, as pode desrespeitar de vez em quando, se a isso o obrigarem interesses maiores daqueles a quem serve. É claro que, no meio disto, ficam de fora as medidas verdadeiramente importantes, as da adaptação necessária à continuidade da espécie humana no meio das transformações em curso. É claro que, a partir de certa altura, o poder se assemelhará a alguém que já não tem braços que cheguem para acudir a tanto rombo. E depois é que vão ser elas. Mas, por agora, vai dando para o gasto.
Veio tudo isto a propósito das inundações em Inglaterra. Após a situação ter acalmado, uma manifestação (claramente encenada para os órgãos de comunicação social que, gostosamente e no cumprimento da missão a que se propuseram, lhe davam o devido relevo) gritava: “enough!” e uma das manifestantes, interrogada sobre o motivo de ali estar, afirmava que era porque estavam “zangados”. Não disse com quem, mas é evidente que era com “eles”.
Vou ver se falo disto ao Chico e à minha tia.

O ouvido da arquitecta

Helena Roseta ironizou, a propósito do BE, dizendo que agora "já se sabe a quem é que o Zé fazia falta".
Aconselho-lhe uma ida urgente ao otorrino. É que Mário Soares está farto de dar com a língua nos dentes e desde há muito tempo!

Tristes continuidades

Brueghel, A expulsão dos Anjos Rebeldes
A directora do Museu da Arte Antiga de Lisboa não foi reconduzida no cargo, por criticar a política do governo no plano desse tipo de instituições. Os responsáveis políticos do Partido Socialista são a caricatura do parolismo autoritário, trôpego e bacoco, do 24 de Abril.
Jorge de Sena dizia que, desde há cinco séculos, a principal profissão dos portugueses é a de exilado. Manuel Bandeira definia o brasileiro como um português à solta.
Em vez de subsídios à maternidade, não seria melhor que José Sócrates tivesse olhado para os números em que situa de novo a emigração e os atribuísse àqueles que decidirem ficar?

01 agosto 2007

Erros

Brueghel, O Triunfo da Morte
Os americanos cometeram um erro, ajudando a armar as petromonarquias? Sem dúvida. Mas resta saber se, atendendo à postura dos europeus em todo o processo da evolução da situação no Médio Oriente e no Afeganistão desde há muitos anos, Bush teria qualquer outra solução. A culpa não morre solteira nem monógama.
E Israel, no meio disto tudo? Há já quem ande por aí a esfregar as mãos de contente. E não são apenas os magnatas do armamento.