24 maio 2010

Da satisfação e do orgulho


Passou, há pouco, no telejornal da SIC, uma notícia que, enquanto português, me encheu de satisfação e de orgulho. Tal como pudemos ouver na peça jornalística, no Parque Biológico de Gaia, uma lontra bébé vive, desde o seu nascimento, há seis meses, dentro da casa de banho destinada a quem tem deficiências físicas, por inexistência de estruturas que a acomodem. Enorme exemplo de grandeza de alma, este!
A solução poderá passar por enviá-la para Espanha, logo que atinja a maioridade, quer dizer, logo que saiba caçar e prover autonomamente à sua existência, disse-se ainda. Pelo que agradeço desde já, em nome de toda a nação, aos nossos irmãos do outro lado da fronteira a hospitalidade demonstrada. E prometo, se tal estiver ao meu alcance, pagar-lhes com uma barrigada de riso, pedindo ao primeiro-ministro que faça aquele seu número apalhaçado do discurso para espanhóis, durante a passagem de tutoria do animal - ele é lá capaz de desperdiçar uma ocasião dessas, só para relembrar a importância do TGV...!
Suponho, além disso, que as autoridades nacionais estarão, como sempre, alerta e vigilantes, não permitindo o incentivo ou o desenvolvimento de perversas e antinaturais tendências pedófilas e zoófilas entre a sã população lusa, logo interditando a utilização das referidas instalações a quem visite o Parque. E que, assim, dando, desta maneira, um sinal da inexistência de indícios de perigo de extinção real dos deficientes portugueses, os devolvam à natureza no que há de mais simples, que é a satisfação de se aliviarem, ecologicamente, em pleno Parque, atrás das árvores, dos arbustos, ou até mesmo, como acontece, frequente e nem sempre discretamente, na selva urbana, dos bancos de jardim ou numa qualquer esquina ou recanto escondido.
Os cidadãos nacionais portadores de (os que carregam a) deficência, que fiquem, além e apesar disso, satisfeitos pela generosidade que demonstraram, albergando maternalmente a lontra, que ganhem ânimo ao saberem que todos temos os olhos postos neles, que são cidadãos úteis, para o país e para o planeta. Assim, quando virmos um nosso compatriota mijando envergonhadamente num canto qualquer, portugueses!, tragamo-lo para a luz e façamo-lo mijar orgulhosamente, com um repuxo maior do que o do menino de Bruxelas, do tamanho da homenagem que se pode fazer ao dever cumprido!
E ao enorme orgulho de se ser português no ano da Graça de 2010!

21 maio 2010

Salve-se quem puder!


1975...


... revisitado em 2010.

Mea culpa seguido da devida reparação


Por vezes, não tenho tempo para abrir os e-mails que me enviam. Passo pela caixa, registo que me enviaram coisas novas, penso em vê-las mais tarde... mas, depois, continuo sem tempo, a memória falha-me, enfim...! Com tudo isto, estou em falta com muita gente (o José Travassos Valdez, por exemplo, que o diga, enviou-me material para um tema interessantíssimo, que ainda não pude explorar devidamente nem, por isso, pô-lo aqui à discussão), nem sempre respondo aos comentários, há textos que me enviam que perdem actualidade. Ontem, dei com este, que me enviou o meu caríssimo Nicolau Saião há quase três semanas. Subscrevo-o. Aqui fica.

No Fórum do jornal Público, o senhor Doutor Passos Coelho, augusto actual líder do PSD – que muitos vêem como o primeiro-ministro que ele apreciaria vir a ser (uma espécie de Sócrates 2) – afirmou que o problema de Portugal é ser calaceiro. Daí decorreram diversas intervenções. Porque hoje é domingo, esta foi a minha.

"O Espelhismo

Um dos comentaristas deste espaço diz que o problema são os portugueses...
E eu diria: sim os que têm "governado", na verdade dominado, os portugueses! Explico-me já: tenho estado em diversos países, onde há portugueses emigrados. E são em geral respeitados como bons trabalhadores e pessoas de bem. Creio que isto é conhecido. Mesmo em Portugal, acho que é uma desfaçatez, perante este povo que tem sofrido e, nos momentos difíceis, afinal salvo a nação com o seu esforço, chamar-se-lhe calaceiro. Eu diria então: calaceiro é o senhor, ou seja - a classe política a que o senhor pertence, esta classe política ardilosa, oportunista e passa-culpas que nos continua a amofinar e a ofender. E Você tem a memória curta, pelo que se nota: não certificou que foi no tempo de Cavaco, com a retórica de Cavaco, que se radicaram ilusões de fartura no Povo? Esse Cavaco que pelos vistos o senhor admira? Com Sócrates estivemos e continuamos aviados... com a complacência de Cavaco.
Parece-me que consigo não ficaremos melhor. E ainda a procissão vai no adro.
Haja deus! "

20 maio 2010

Da hipocrisia e da indignação


Tenho familiares que vivem, sempre viveram, no interior do país. Agricultores. Com algumas terras próprias, que herdaram, e arrendatários de mais duas, uma delas a, pelo menos, 50km da povoação onde residem. Levantam-se diariamente às cinco da manhã. Multiplicam-se em tarefas. Voltam a casa tarde. Nunca antes das sete e, no Verão, às nove, nove e meia.
Faço-lhes uma visita anual, que às vezes se prolonga por dois ou três dias. Conheço bem a vila, desde a infância, passava lá parte das férias. Outrora próspera, dinâmica; hoje, letárgica. Não se distingue, nesse aspecto das restantes que a rodeiam.
Os meus familiares e mais uns quantos, poucos, vão mantendo alguma da actividade que lhe deu a desaparecida prosperidade. Outros, combinam essas actividades ou mesmo os ofícios que aprenderam com um emprego na cidade mais próxima. Muitos deles são amigos que me ficaram, os amigos do puto da cidade que me falavam de vivências, para mim estranhas, mas emocionantes.
A vila tem, como todas têm, o seu largo principal, a antiga terra batida agora transformada em jardim. Os cafés, o restaurantes, o banco, uma ou duas lojas em torno dele, o centro de trabalho de um partido político. E, no meio de muitas mais, a casa dos meus familiares.
De cada vez que os visito, vejo, sentada nos bancos, à sombra das árvores, ao balcão ou às mesas dos cafés, quase sempre com uma garrafa de cerveja na mão, gente, sempre a mesma, que parece eternizar-se, indolentemente, viscosamente, por ali. Nas conversas que vou mantendo com esses meus familiares, dão-me eles conta da dificuldade que têm, durante os períodos de maior afluência de trabalho, em conseguir encontrar pessoal para as tarefas indispensáveis. Ali, não o encontram e vêem-se obrigados a procurá-lo nas vilas vizinhas, onde também não é fácil recrutá-lo. Mesmo pagando bastante acima do que seria razoável.
E, em voz baixa, dizem-me, apontando disfarçadamente para os bancos do jardim e para dentro do café: "Estás a vê-los, ali? Não fazem mais nada o dia todo. Levantam-se, daí a bocadinho vêm para o café, bebem umas cervejas, depois vão almoçar, dormem a sesta, voltam para aqui e é isto a vida deles. Ofereço-lhes trabalho, mas qual trabalho!, têm ali o rendimento garantido estão-se c... A vida deles é estarem sentados, a beber cerveja. Ou deitados. E elas, é a mesma coisa. E, se fores aí pelas outras vilas, a coisa é a mesma, é a mesma desgraça. E o que é que a gente há-de fazer...?".
Curiosamente, um amigo meu, homem de convictas perspectivas de esquerda, que comprou uma casa para passar os fins-de-semana em pleno Alentejo, desabafava noutro dia comigo, num natural tom de incomodidade, que não percebia o que via quando passava lá alguns dias da semana: gente que parecia fazer do estar no café uma profissão, num marasmo que a ele, que subiu a pulso na vida, lhe parecia indigno. E o pedreiro que me fez obras recentemente cá em casa, falou-me, indignado, dos que, lá na terra, tinham vida semelhante. E...

Estupidez, teimosia, arrogância provinciana...


... interesses intocáveis... Ou tudo ao mesmo tempo?
E uma máscara de aparente inocência aflorando como por acaso, com cada vez maior frequência...

18 maio 2010

Ou há moral...


Recebido por e-mail
Clara Pinto Correia expõe os seus orgasmos, e nada acontece; Bruna Real posa despida numa revista e logo é acusada de… causar alarmismo social !!!
A Clara Pinto Correia, figura pública, professora universitária com uma carreira académica reconhecida, expõe fotos suas em pleno orgasmo numa galeria de exposições lisboeta, e nada lhe acontece. A Bruna Real, transmontana de 27 anos feitos, professora do ensino básico em Torre de D. Chama, posa despida em revista da especialidade, e cai-lhe em cima a Vereadora e a Autarquia de Mirandela, e é expulsa do seu emprego de professora sob a acusação de causar alarmismo social.
Situações análogas recebem tratamentos diferentes.
E porquê?
Provavelmente porque o erotismo do povo é muito mais subversivo que o erotismo das elites…
No primeiro caso, o erotismo popular é perigoso e ameaça a moral, constituindo um potencial motivo de subversão libidinosa popular que pode desviar as «massas» para caminhos que não são os desejados pela cultura dominante.No segundo caso, o erotismo das elites já passa por socialmente aceitável, e até é convertido em arte.
Melhor objecto de estudo para a sociologia não poderia haver ... Um bom dia para todos!...
Já agora, cliquem no endereço de onde retirei a foto. Delicioso!
Nota: Devo dizer que a minha perspectiva sobre o assunto, bem como sobre as semelhanças e as diferenças entre os dois casos, é, em boa medida, diferente da que é expressa no texto que me enviaram. Mas achei por bem transcrevê-lo, na medida em que constitui um bom ponto de partida para uma avaliação mais lata e aprofundada. Alguém quer começar?

15 maio 2010

A poesia do acto falhado


Há pouco, no telejornal da 2, Mário Soares, respondendo a uma jornalista: «Oh, minha senhora, lembra-se, com certeza, daquele soneto do Camões que diz "Mudam-se os tempos, mudam-se as verdades..."»
Um verdadeiro hino a Freud...

14 maio 2010

O dilema


Segundo o sr. dr. Francisco Assis, a propósito do que disse Pedro Passos Coelho, «um político não deve pedir desculpa». Ele, se pedisse desculpa, seria para se demitir. O que «poderia pedir era compreensão» - a exemplo do que fez, aliás, o sr. Ministro das Finanças.
Quem votou nele e, deste modo, realizou um acto político correspondente a um direito e à consequente responsabilidade, deverá, assim, pedir desculpa ou compreensão por esse acto?

13 maio 2010

O deputado de uma República de grande craveira


O deputado Ricardo Rodrigues, «uma pessoa cordata», nas palavras do dr. Mário Soares, e «um deputado de grande craveira, de que o país necessita», segundo o dr. Francisco Assis, viu o processo relativo à subtracção que fez dos gravadores pertencentes aos jornalistas da revista Visão, ser arquivado pela Assembleia da República (supomos que os haja , entretanto, devolvido, coisa em que esteve renitente nos dias que se seguiram à sua «acção impensada»).
Esperamos, por isso, vê-lo de volta à Comissão de Inquérito sobre o "Caso TVI", onde vem a distinguir-se como um dos mais denodados defensores do Governo.
Fazendo, é claro, votos - para maior segurança de quem lá preste esclarecimentos, bem como dos seus colegas de comissão, de outros partidos - para que o seu alfaiate não lhe tenha, impensadamente, feito bolsos de dimensões superiores ao normal, nas calças que leve vestidas...

11 maio 2010

Só mais uma


Este texto foi-me enviado por e-mail. E aqui fica, para proveito de quem passe.

LIÇÃO DO RATINHO

Esta fábula é fantástica! Serve para aqueles que se sentem seguros na actual crise mundial.
O que é ruim para alguém é ruim para todos... Será?

"Um rato, olhando pelo buraco na parede, vê o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote.
Pensou logo no tipo de comida que haveria ali.
Ao descobrir que era uma ratoeira ficou aterrorizado. Correu ao pátio da fazenda advertindo a todos:
- Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira na casa!!
A galinha disse:
- Desculpe-me Sr. Rato, eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me incomoda.
O rato foi até ao porco e disse:
- Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira!
- Desculpe-me Sr. Rato, disse o porco, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser orar.
Fique tranquilo que o Sr. Será lembrado nas minhas orações...
O rato dirigiu-se à vaca. E ela lhe disse:
- O quê? Uma ratoeira? Por acaso estou em perigo? Acho que não!
Então o rato voltou para casa abatido, para encarar a ratoeira...
Naquela noite ouviu-se um barulho, como o da ratoeira pegando sua vítima.
A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia pego. No escuro, ela não viu que a ratoeira havia pego a cauda de uma cobra venenosa. E a cobra picou a mulher...
O fazendeiro levou a esposa imediatamente ao hospital. Ela voltou com febre. Todo mundo sabe que para alimentar alguém com febre, nada melhor que uma canja de galinha. O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal, (matou a galinha).
Como a doença da mulher continuava, os amigos e vizinhos vieram visitá-la...
Para alimentá-los, o fazendeiro matou o porco.
A mulher não melhorou e acabou morrendo.
Muita gente veio para o funeral. O fazendeiro então sacrificou a vaca, para alimentar todo aquele povo.

Moral da História:

Não tem. Se fosse no estrangeiro tinha, mas em Portugal não tem.
Só o que me ocorre é que os ministros, incluindo o primeiro da fila, deviam ler isto.Assim como os actores de teatro, os fotógrafos e os hortelões (isto é para disfarçar).
Mas duvido que percebessem - e se percebessem não diziam, os safadinhos.
Não importa, que se f... a taça.

Nuno Reis Amaral

Mas, antes, ainda esta...

... que alguém deixou, ontem, numa caixa de comentários do Fiel Inimigo.

Volto na quinta. Sem falta :)


06 maio 2010

Do silêncio


Ontem, pelo fim da tarde, conversava eu com um familiar meu, minado pela doença de Alzheimer. Nem sempre reconhece já os netos e, noutro dia, não sabia que casa era aquela, a casa em que vive há mais de quarenta anos.
- Tenho que ir visitar a minha tia M., - diz-me - há muito tempo que não sei nada dela. Vive num lar, sabe disso, não sabe? O marido matou-se, que não aguentava a vida que levava, desde que ela foi para o lar. Coitado! Ai! Mas faz-me uma impressão ir lá vê-la...! Aquilo faz-me uma impressão...! Não conhece ninguém! Mas, a mim, parece que ainda me vai conhecendo. Quando cheguei ao pé dela, disse-me: "Vens buscar-me, vens buscar-me?". Coitada! Acho que ninguém merece isto, estas coisas assim, acho que ninguém merece.
E todo o silêncio do mundo veio ter comigo.

04 maio 2010

Intervalo forçado


Como já se deverá ter percebido, os impedimentos a que eu torne aqui com a regularidade que desejaria voltar a manter têm sido mais que muitos. Embora já não se devam (uff!) a problemas de saúde, não deixam de me retirar demasiado tempo para o fazer. Divulgo, entretanto, um e-mail que me foi enviado por um amigo, professor do Ensino Secundário, no qual se dá conta de uma participação feita por uma sua colega, de uma escola do Norte do país. Para que conste.

PARTICIPAÇÃO DISCIPLINAR MUITO GRAVE

Professora agredida: Leonídia Marinho
Grupo Disciplinar: 10º B - Filosofia
Agressor:

Contextualização:

Dia vinte e seis de Março de 2010. Último dia de aulas. Às 14 horas dirigi-me à sala 15 no Pavilhão A para dar a aula de Área de Integração à turma 10º DG do Curso Profissional de Design Gráfico. Propus aos alunos a ida à exposição no Polivalente e à Feira do Livro, actividades a decorrer no âmbito dos dias da ESE. A grande maioria dos elementos da turma concordou, com excepção de três ou quatro elementos que queriam permanecer dentro da sala de aula sozinhos. Deixar que os alunos fiquem sozinhos na sala de aula sem a presença do professor é algo que não está previsto no Regulamento Interno da Escola pelo que, perante a resistência dos alunos que não manifestavam qualquer interesse nas actividades supracitadas decidi que ficaríamos todos na sala com a seguinte tarefa: cada aluno deveria produzir um texto subordinado ao tema "A socialização" o qual me deveria ser entregue no final da aula. Será preciso dizer qual a reacção dos alunos? Apenas poderei afirmar que os alunos desta turma resistem sempre pela negativa a qualquer trabalho porque a escola é, na sua perspectiva, um espaço de divertimento mais do que um espaço de trabalho. Digamos que é uma Escola a fingir onde TUDO É PERMITIDO!
É muito fácil não ter problemas com os alunos. Basta concordar com eles e obedecer aos seus caprichos. Esta não é, para mim, uma solução apaziguadora do meu estado de espírito. Antes pelo contrário. A seriedade é uma bússola que sempre me orientou mas tenho que confessar, não raras vezes, sinto imensas dificuldades em estimular o apetite pelo saber a alunos que têm por este um desprezo absoluto. As generalizações são abusivas. Neste caso, não se trata de uma generalização abusiva mas de uma verdade inquestionável. Permitam-me um desabafo: os Cursos Profissionais são o maior embuste da actual Política Educativa. Acabar com estes cursos? Não me parece a solução. Alterem-se as regras.

Factos ocorridos na sala de aula:

Primeiro Facto: Dei início à aula não sem antes solicitar aos alunos que se acomodassem nos seus lugares. Todos o fizeram exceptuando o aluno ***********, que fez questão de se sentar em cima da mesa com a intenção manifesta de boicotar a aula e de desafiar a autoridade da professora.
Dei ordem ao aluno para que se sentasse devidamente e este fez questão de que eu o olhasse com atenção para verificar que ele, ***********, já estava efectivamente sentado e ainda que eu não concordasse com a sua forma peculiar de se sentar no contexto de sala de aula, seria assim que ele continuaria: sentado em cima da mesa. Por três vezes insisti para que o aluno se acomodasse correctamente e por três vezes o aluno resistiu a esta ordem.
Reacção da maioria dos elementos da turma: Risada geral.
Reacção do aluno *********: Olhar de agradecimento dirigido aos colegas porque afinal a sua "ousadia" foi reconhecida e aplaudida.
Reacção da professora: sensação de impotência e quebra súbita da auto-estima.
Senti este primeiro momento de desautorização como uma forma que o aluno, instalado na sua arrogância, encontrou de me tentar humilhar para não se sentir humilhado.
Como diria Gandhi, "O que mais me impressiona nos fracos, é que eles precisam de humilhar os outros, para se sentirem fortes..."
Saliento que neste primeiro momento da aula a humilhação não me atingiu a alma embora essa fosse manifestamente a intenção do aluno.

Segundo Facto: Dei ordem de expulsão da sala de aula ao aluno **********, com falta disciplinar. O aluno recusou sair da sala e manteve-se sentado em cima da mesa com uma postura de "herói" que nenhum professor tem o direito de derrubar sob pena de ter que assumir as consequências físicas que a imposição da sua autoridade poderá acarretar.
Nem sempre um professor age ou reage da forma mais correcta quando é confrontado com situações de indisciplina na sala de aula. Deveria eu saber fazê-lo? Talvez! Afinal, a normalização da indisciplina é um facto que ninguém poderá negar. Deveria ter chamado o Director da Escola para expulsar o aluno da sala de aula? Talvez...mas não o fiz. Tenho a certeza de que se tivesse sido essa a minha opção a minha fragilidade ficaria mais exposta e doravante a minha autoridade ficaria arruinada.
Dirigi-me ao aluno e conduzi-o eu própria, pelo braço, até à porta para que abandonasse a sala. O aluno afastou-me com violência e fez questão de se despedir de uma forma tremendamente singular: colocou os seus dedos na boca e em jeito de despedida absolutamente desprezível, atirou-me um beijo que fez questão de me acertar na face com a palma da mão. Dito de uma forma muito simples e SEM VERGONHA: Fui vítima de agressão. Pela primeira vez em aproximadamente vinte anos de serviço.
Intensidade Física da agressão: Média (sem marcas).
Intensidade Psicológica e Moral da agressão: Muito Forte.
Reacção dos alunos: Riso Nervoso.
Reacção do aluno **********: Ódio visível no olhar.
Reacção da professora: Humilhação.
Ainda que eu saiba que a humilhação é fruto da arrogância e que os arrogantes nada mais são do que pessoas com complexos de inferioridade que usam a humilhação para não serem humilhados, o que eu senti no momento da agressão foi uma espécie de visita tão incómoda quanto desesperante. Acreditem: a visita da humilhação não é nada agradável e só quem já a sentiu na alma pode compreender a minha linguagem.
Terceiro Facto: O aluno preparava-se para fugir da sala depois de me ter agredido e, conforme o Regulamento Interno determina, todos os alunos que são expulsos da sala de aula terão que ser conduzidos até ao GAAF, Gabinete de Apoio ao Aluno e à Família. Para o efeito, chamei, sem êxito, a funcionária do Pavilhão A, que não me conseguiu ouvir por se encontrar no rés-do-chão. Enquanto tal, não larguei o aluno para que ele não fugisse da escola (embora lhe fosse difícil fazê-lo porque os portões da escola estão fechados).
Mais uma vez, o aluno agrediu-me, desta vez, com maior violência, sacudindo-me os braços para se libertar e depois de conseguir o seu objectivo, começou a imitar os movimentos típicos de um pugilista para me intimidar. Esta situação ocorreu já fora da sala de aula, no corredor do último piso do Pavilhão A.
Reacção dos alunos (que entretanto saíram da sala para assistir à cena lamentável de humilhação de uma professora no exercício das suas funções): Risada geral.
Reacção do aluno ********: Entregou-se à funcionária que entretanto se apercebeu da ocorrência.
Reacção da Professora: Revolta e Dor contidas que só o olhar de um aluno mais atento ou mais sensível conseguiria descodificar. Porque, acreditem: dei a aula no tempo que me restou com uma máscara de coragem que só caiu quando a aula terminou e sem que nenhum aluno se apercebesse. Entretanto, a funcionária bateu à porta para me informar que o aluno queria entrar na aula para me pedir desculpa pelo seu comportamento "exemplar".
Diz-se que um pedido de desculpas engrandece as partes: quem o pede e quem o aceita. Não aceitei este pedido por considerar que, fazendo-o, estaria a pactuar com um sistema em que os professores são constantemente diabolizados, desprestigiados e ameaçados na sua integridade física e moral. Em última análise, a liberdade não se aliena. O aluno escolheu o seu comportamento. O aluno deverá assumir as consequências do comportamento que escolheu e deverá responder por ele. É preciso PUNIR quem deve ser punido. E punir em conformidade com a gravidade de cada situação. A situação relatada é muito grave e deverá ser punida severamente. Sou suspeita por estar a propor uma pena severa? Não! Estou simplesmente a pedir que se faça justiça.
Vamos ser sérios. Vamos ser solidários. Vamos lutar por uma Escola Decente.
Ps: Este caso já foi participado na Polícia e seguirá para Tribunal.
Ermesinde, 30 de Março de 2010

A Professora _________________________