05 outubro 2010

A República e a Maria da Fonte

Designa-se por Revolução da Maria da Fonte um conjunto de acontecimentos que teve lugar em Portugal entre Abril de 1846 e Junho de 1847, mas que, de facto, se estende bastante para além deste intervalo. De facto, a insurreição militar de 1 de Maio de 1851, dando origem à Regeneração, e a revolta da Janeirinha, em 1868, que termina com este período, mais não foram do que os últimos episódios decisivos das convulsões que atravessaram a sociedade portuguesa dos meados do século XIX.

Se nos cingirmos, porém, ao que se passou nos 15 meses que medeiam as duas Primaveras sucessivas deparamo-nos com um facto inédito, até e depois dessa altura, no nosso país e estranho à história da quase totalidade, se não mesmo à da totalidade dos restantes povos da Europa. Refiro-me à necessidade da rainha se ver forçada a pedir a ajuda de tropas estrangeiras para dominar uma rebelião popular em que, do Minho (onde começara) ao Algarve, todo o Portugal se envolvera. Uma rainha que pede auxílio aos exércitos da Quádrupla Aliança, nomeadamente aos de França, Espanha e Grã-Bretanha, para esmagar a revolta do seu próprio povo. A pretexto de este estar a ser manobrado por uma estranha aliança entre Setembristas (a esquerda, se assim se lhe podemos chamar) e Miguelistas, estes últimos pretendendo devolver a coroa a um tipo de monarquia que, tal como seu pai, D. Pedro IV, afirmava ser retrógrada. Quádrupla Aliança que interveio, assim, no sentido de que Portugal e a própria Espanha, onde começavam a soprar ventos semelhantes, se tornassem ingovernáveis - pela monarquia liberal e seus apoiantes e promotores.

Deixarei de lado a enumeração e a cronologia dos factos, por considerar que nos links inseridos no início deste texto ambas são suficientemente estabelecidas, bem como os nomes dos principais intervenientes. Julgo que, muito embora se trate somente de artigos incluídos na Wikipedia, não contêm incorrecções e, portanto, não falseiam o que os historiadores que se demoraram, com maior ou menor atenção, a analisar este episódio acharam por bem dizer sobre ele. Mas acerca disto mesmo voltarei mais tarde.

Basta-me lembrar o essencial: que na sequência das lutas civis que tiveram lugar na primeira metade novecentista entre partidários (com diferentes graus de radicalidade) do estabelecimento das monarquias constitucionais, de influência francesa, e os que pretendiam o regresso à fórmula que vigorava anteriormente a 1820, se desenrolava o último acto do braço-de-ferro de acesso ao poder. E que era Costa Cabral, ministro do constitucionalismo mais moderado, quem detinha o poder governamental. Por detrás de tudo isto, defrontavam-se ainda o fantasma de D. Pedro IV, materializado na rainha e nos seus apoiantes, e o ainda bem vivo D. Miguel, representantes, respectivamente de cada um dos tipos de regime.

Portugal era um país rural, mas de um ruralismo já diferente na sua relação com o país, mercê das alterações trazidas pela revolução de 1820. Alterações que não haviam trazido a reforma agrária que Almeida Garrett reclamava como urgente e decisiva, mas apenas a troca de proprietários das grandes extensões. Em vez da distribuição das terras confiscadas a ordens religiosas e alguma nobreza pelos camponeses, o que se verificou foi a compra dessas grandes propriedades pela burguesia endinheirada da capital. O camponês passou da condição de servo para a de assalariado de alguém cujo rosto poucas vezes tinha ocasião de ver ou que até desconhecia por completo, de alguém distante, com quem não possuía, portanto, qualquer ligação afectiva ou contacto. Mas que o obrigava, em nome das novas liberdades conquistadas, das quais ele não tinha grande noção e muito menos proveito que se visse, a pagar impostos cuja utilidade não lhe era clara nem dos quais retirava qualquer benefício que lhe fosse útil. Matemos, pois, esses Cabrais!

Rural e municipalista. E os municípios, cacicados ou não, têm cada vez menos poder decisório perante a necessidade de centralização que é vital para a imposição da nova ordem social e económica. Estão sobrecarregados de impostos para satisfazer os requisitos dos novos dirigentes do novo modelo de Estado. E os caciques, também eles, afinal, povo, rosnam, ameaçam os novos figurões, conspiram agora com os antigos senhores das terras que os formam. E nem sempre se limitam a sussurrar: “Matemos os Cabrais, que são falsos à nação!”. É que o coro dos munícipes faz-se ouvir por detrás deles, dá-lhes força. Os donos de Lisboa e do Porto julgam-se donos do país. Mas não são.

Rural e católico. Religioso ou supersticioso ou ambas as coisas, não interessa. Somente um ser suficientemente humano para interrogar a vida para além do cumere, do bubere, do bailare e do. O ser mais que meramente animal, que interroga a existência na sua relação com a morte nem que por um único dia na vida. O ser que, por isso mesmo, se abre à noção do que possa haver para além dela e, consequentemente, à outra, a do sagrado. O ser que determina o local onde se dá essa tentativa de ligar ou religar ao Princípio de todos os princípios. O ser que constrói a casa no local onde essa união se efectua e que, por isso, confere a esse local toda uma simbologia estreitamente ligada ao significado mais profundo da vida e da morte. O local onde, por ter sido sacralizado, deverão descansar os que morrem. O espaço da igreja. Onde, por razões duvidosas para os seus conhecimentos e por decreto de uma Lisboa distante, fria e opressora, cada vez mais ímpia e impiedosa, deixarão futuramente de poder ser enterrados. O cerne do significado último de tudo é, deste modo, abalado. A partir deste momento, nada mais há a perder! Matemos os Cabrais, que ardam para sempre nos infernos!

E é no lugar onde vida e morte surgem iniludivelmente ligados que tudo começa. Foi, como se sabe, talvez inevitavelmente, num funeral que tudo começou. Foi de lá que a fúria do povo rolou pelo país inteiro, uma fúria feita de varapaus, navalhas, machados, forquilhas, fuzis. E, por fim, soaram os canhões. Os dos constitucionalistas, de um lado. Do outro, em simultâneo, os dos setembristas e os dos miguelistas. E o povo revoltoso, o povo do “país real” de então, o que andava descalço e deu, por isso, ensejo a quem o desprezava de chamar à sua guerra a “guerra da Patuleia”, onde estava?

É precisamente aqui que se começa a supor um vislumbre de explicação de um outro facto, bastante estranho. Refiro-me ao facto de, face a um fenómeno social desta dimensão e com as consequências que se conhecem, os historiadores consagrados da nossa praça passarem, em geral, por ele mais ou menos apressadamente, que nem cão por vinha vindimada, como diria a expressão popular. Oliveira Marques, por exemplo, atribuiu-lhe um espaço reduzidíssimo na sua História para estudantes universitários em dois volumes, se tivermos em conta a dimensão da obra e a atenção que dá a outros acontecimentos, bem menos importantes e dramáticos. Porquê este silêncio ou, pelo menos, este desvio generalizado do olhar e da atenção? Aceitando como verdadeiro o que se afirma na cadeira de Teoria da História e o bom senso confirma, consubstanciado numa observação que ouvi a um dos professores que mais respeito me mereceu: “História? Histórias!”, avançarei eu agora com uma possível razão para esse silêncio.

Retomando o que estava a dizer: por onde andava a revolta do povo do país profundo, o povo português “esmagadoramente maioritário”? Como se distribuía no apoio aos movimentos políticos armados militarmente? Relembro que um dos motivos que justificou a decisão da Quádrupla Aliança de intervir contra os revoltosos foi que a mesma tendência se verificava já em Espanha. Qual era essa tendência anti-liberal estabelecida? A dos Setembristas? Bem, não eram estes, afinal, o liberalismo numa versão mais radical, mais “esquerdista”? Não eram eles, afinal, mais um movimento de intelectuais de pendor aguerrido no alcance e nos meios de fazer vingar as suas convicções? E não era precisamente contra essa perspectiva de ordenação da sua existência que o povo se erguera? Herdeira de Marx, que perspectivou a Patuleia como não mais do que um episódio da luta pré-revolucionária europeia que o proletariado, atendendo à dialéctica da História, estaria futuramente destinado a comandar, a esquerda e, em particular, a extrema-esquerda, tornaram-na bandeira da sua luta, em Portugal, como exemplo da luta pelas medidas “progressistas” e emancipadoras dos trabalhadores. O que é, a meu ver, uma conveniente descontextualização dos factos para o seu melhor aproveitamento ideológico.

O povo, à excepção provável de uns quantos elementos, não tem grandes ligações com esses intelectuais. Tem, isso sim, com os antigos senhores, pelos quais, passada a primeira ilusão de se haver visto livre de um fardo, voltou a suspirar 26 anos depois. Entenda-se: o nobre, senhor das terras, vê-as como parte do seu eu, como uma sua extensão. É uma visão orgânica, não uma visão comercial. Tem amor, mesmo que puramente possessivo, ao que é a marca do seu estatuto, a terra é como que o prolongamento do seu corpo. Não a encara com a frieza comercial do burguês, ou como objecto que confirma a ascensão social desse mesmo burguês, feito barão de extracção política recente - Foge, cão, que te fazem barão!/Para onde, se me fazem visconde?, ironizava Garrett. Nem aplica, impessoal e indiscriminadamente, os mesmos impostos, como faz o governo igualitário central, em nome da maior justiça social, iluminada pela racionalidade universal.

E, mesmo quando explora os seus servos, estes recorrem muitas vezes a uma arma ímpar. É que há sempre um, ou uma, ou uns, ou umas - há sempre quem tenha tido o privilégio de haver sido, na infância, companheiro de brincadeiras, fiel amigo e até confidente, quando não muito para além disso. E que acaba por, intercedendo em favor próprio ou dos restantes, amenizar ou anular os efeitos indesejáveis de uma decisão errada ou prepotente. A relação com o nobre tem um carácter, positivo e negativo, de afecto, é um contacto, no seu melhor como no seu pior, feito de humanidade. Está-se em contacto directo com o poder e é possível ou, ao menos, existe a esperança de poder chamá-lo à razão. Com Lisboa, não. A universalidade desprotegeu o camponês da arbitrariedade, da prepotência, da arrogância e da exploração do seu trabalho. E ainda ataca, com arrogância e verdadeiro desprezo, as suas tradições e convicções profundas.

O camponês, o povo, apoia os miguelistas, apoia os seus antigos senhores, aqueles com quem aprendeu, durante séculos, a conviver e relacionar-se. O povo recusa violentamente os novos senhores, os que o enganam com promessas de liberdade e justiça para os tornarem mais indefesos aos poderosos, através da universalidade da lei. O povo percebe que a ideia abstracta é uma forma de dominação concreta, que a ideia pode ser a cadeia que o aprisiona muito mais eficaz e perversamente do que qualquer nobre podia concebeu.

Que o povo apoiou em massa os miguelistas é um facto que, embora não o escondam, é, contudo ignorado pelos historiadores, inclusive os ligados à mais conhecida facção dos monárquicos portugueses, os quais, tal como os seus colegas republicanos, intercalam nos seus textos sobre o assunto expressões sintomáticas de um certo desdém pelo povo “atrasado”, como facilmente se pode verificar naqueles cuja leitura proponho. Estão, evidentemente, e possivelmente com maiores razões do que as minhas, no seu direito. Mas, além de ser também meu o direito de discordar, nesse aspecto, do que afirmam ou insinuam, julgo descortinar no tratamento que fazem do tema e nesses indícios de um menor apreço pelo grau de discernimento dessa revolução popular um factor fundamental, que procurei pôr a claro neste meu texto, escrito quase de rajada e, por consequência, insuficientemente cuidado quer literária quer argumentativamente.

É que, tal como dizia esse meu velho professor, “História? Histórias!”. E a perspectiva dos actuais historiadores, o estado de espírito individual e social de onde partem para construírem as suas Histórias, é o consequente à defesa desses tais ideais abstractos de liberdade e igualdade perante a lei com que se justificaram os poderes que decorreram da Revolução Francesa. Está nelas implícito um louvor à superior humanidade e humanismo que trouxe a queda da Bastilha consigo bem como à superioridade, no mesmo plano e no plano da competência de quem nos governa e que o povo pode escolher livremente. O resto são trevas.

Analisar seriamente a Maria da Fonte equivaleria à desmistificação da realidade sobre a democracia e a saúde social do nosso tempo republicano. Como se pôde ver, aliás, em tudo o que esteve ligado às comemorações oficiais desta semana.

(dedico este desabafo mal-amanhado à memória de Manuel Grangeio Crespo, que, muitos anos atrás, me alertou para alguns dos aspectos que hoje referi e aos desiludidos do 25 de Abril).

Então?! Tenho ou não razão?!


José Mourinho dirigiu esta mensagem à selecção nacional de futebol:

"Sou português há 47 anos e treinador de futebol há dez. Sendo assim, sou mais português do que treinador. Posto isto, para que não restassem dúvidas, vamos ao que importa…

As Selecções Nacionais não são espaços de afirmação pessoal, mas sim de afirmação de um País e, por isso, devem ser um espaço de profunda emoção colectiva, de empatia, de união. Aqui, nas selecções, os jogadores não são apenas profissionais de futebol, os jogadores são além disso portugueses comuns que, por jogarem melhor que os portugueses empregados bancários, taxistas, políticos, professores, pescadores ou agricultores, foram escolhidos para lutarem por Portugal. E quando estes eleitos a quem Deus deu um talento se juntam para jogar por Portugal, devem faze-lo a pensar naquilo que são - não simplesmente profissionais de futebol (esses são os que jogam nos clubes), mas, além disso, portugueses comuns que vão fazer aquilo que outros não podem fazer, isto é, defender Portugal, a sua auto estima, a sua alegria.

Obviamente há coisas na sociedade portuguesa incomparavelmente muito mais importantes que o futebol, que uma vitória ou uma derrota, que uma qualificação ou não para um Europeu ou um Mundial. Mas os portugueses que vão jogar por Portugal - repito, não gosto de lhes chamar jogadores - têm de saber para onde vão, ao que vão, porque vão e o que se espera deles.

Por isso, quando a Federação Portuguesa de Futebol me contactou para ser treinador nacional, aquilo que senti em minha casa foi orgulho; do que me lembrei foi das centenas e centenas de pessoas que, no período de férias, me abordam para me dizerem quanto desejam que eu assuma este cargo. Isto levou-me, pela primeira vez na minha vida profissional, a decidir de uma forma emocional e não racional, abandonando, ainda que temporariamente, um projecto de carreira que me levou até onde me levou.

Desculpem a linguagem, mas a verdade é que pensei: Que se lixem as consequências negativas e as críticas se não ganhar; que se lixe o facto de não ter tempo para treinar e implementar o futebol que me tem levado ao sucesso; por Portugal, eu vou!

E é isto que eu quero dizer aos eleitos para jogar por Portugal: aí, não se passeia prestigio; aí, não se vai para levar ou retirar dividendos; aí, quem vai, vai para dar; aí, há que ir de alma e coração; aí, não há individualidades nem individualismos; aí, há portugueses que ou vencem ou perdem, mas de pé; aí, não há azias por jogar ou por ir para o banco; aí, só há espaço para se sentir orgulho e se ter atitude positiva.

Por um par de dias senti-me e pensei como treinador de Portugal. E gostei. Mas tenho que reconhecer que o Real Madrid é uma instituição gigante, que me «comprou» ao Inter, que me paga, e que não pode correr riscos perante os seus sócios e adeptos. Permitir que o seu treinador, ainda que por uns dias, saísse do seu habitat de trabalho e dividisse a sua concentração e as suas capacidades era impensável.

Creio, por conseguinte, que o feedback que saiu de Madrid e chegou à Federação levou a que se anulasse a reunião e não se formalizasse o pedido da minha colaboração.

Para tristeza minha e frustração do presidente Gilberto Madail.

Mas, sublinho, agora já a frio: foi e é uma decisão fácil de entender. Estou ao leme de uma nau gigantesca, que não se pode nem se deve abandonar por um minuto. O Real decidiu bem.

Fiquei com o travo amargo de não ter podido ajudar a Selecção, mas fico com a tranquilidade óbvia de quem percebe que tem nas suas mãos um dos trabalhos mais prestigiados no mundo do futebol.

Agora, Portugal tem um treinador e ele deve ser olhado por todos como «o nosso treinador» e «o melhor» até ao dia em que deixar de ser «o nosso treinador». Esta parece-me uma máxima exemplar: o meu é o melhor! Pois bem, se o nosso é Paulo Bento, Paulo Bento é o melhor.

Como português, do Paulo espero independência, capacidade de decisão, organização, modelagem das estruturas de apoio, mobilização forte, fonte de motivação e, naturalmente, coerência na construção de um modelo de equipa adaptada as características dos portugueses que estão à sua disposição.

Sinceramente, acho que o Paulo tem condições para desenvolver tudo isso e para tal terá sempre o meu apoio. Se ele ganhar, eu, português, ganho; se ele perder, eu, português, perderei. Mas eu também quero ganhar.

No último encontro de treinadores que disputam a Champions League, quando questionado sobre o poder dos treinadores nos clubes, ou a perda de poder dos treinadores face ao novo mundo do futebol, sir Alex Ferguson disse (e não havia ninguém com mais autoridade do que ele para o dizer!) que o poder e a liderança dos treinadores depende da personalidade dos mesmos, mas que depende muitíssimo das estruturas que os rodeiam. Clubes e dirigentes fragilizam ou solidificam treinadores.

Eu transponho estas sábias palavras para a selecção nacional: todos, mas todos, neste país devem fazer do treinador da selecção um homem forte e protegido. E quando digo todos, refiro-me a dirigentes associativos, federativos e de clubes, passando pelos jogadores convocados e pelos não convocados, continuando pelos que trabalham na comunicação social e terminando nos taxistas, políticos, pescadores, policias, metalúrgicos, etc. Todos temos de estar unidos e ganhar. E se perdermos, que seja de pé.

Mas, repito, há coisas incomparavelmente mais importantes neste país que o futebol. Incomparavelmente mais importantes… Infelizmente!

Aproveito esta oportunidade para desejar a todos os treinadores portugueses, aos que estão em Portugal e aos muitos que já trabalham em tantos países de diferentes continentes, uma época com poucas tristezas e muitas alegrias.

Ao Xico Silveira Ramos, manifesto-lhe a minha confiança no seu cargo de Presidente da ANTF.
Um abraço a todos.

José Mourinho"

Volto aí pelas 22:30h.

04 outubro 2010

Interlúdio


Afazeres de última hora impediram-me de redigir e publicar o texto que reservara para hoje, para além daquele que coloquei aqui esta tarde. Assim, publicarei amanhã dois textos.

Antes de voltar, lá para o fim da noite


Portugal transformou-se numa república, fará amanhã cem anos, em consequência dos disparates que a aristocracia decadente - com as devidas e honrosas excepções do costume -, que governou o país após 1640, cometeu (terá sido algum vírus inoculado por Madrid...?). Não há povo que se remire em tanta fancaria nem pescoço que aguente tanto pechisbeque.
Amanhã comemora-se-lhe o centenário. Mas o que se comemora, afinal?
- Dezasseis anos de turbulência estéril e, frequentemente, assassina, que empobreceu o país até à insustentabilidade?
- Quarenta e oito anos de ditadura parola e sombriamente ignóbil, que o firmou como o mais atrasado e com o maior número de analfabetos da Europa?
- Trinta e seis anos de instabilidade, corrupção e total descalabro financeiro e económico, em que a dependência de empréstimos e subsídios vindos do exterior aumenta dia a dia?
É isso que se comemora, no meio de um dos anos mais vergonhosos da história recente de um país em que a bandeira de um partido, do Partido Republicano, lhe foi imposta como bandeira nacional?
Será que o último Príncipe Perfeito de Portugal é José Mourinho?

03 outubro 2010

Hoje não há nada


Mas. entre amanhã e quarta-feira, tenciono publicar três textos de maior fundo, à média de um por dia.

E agora aproveitem esta última meia-hora do fim-de-semana.

Nicolau Saião em grande forma!



Texto recolhido na Fundação Velocipédica:

O macaco e a essência

Tempos atrás vi na TV uma cena que me esclareceu para sempre sobre as misérias e as grandezas da actividade pública – política, religiosa, militar, desportiva, judicial. Com um famoso condutor de massas, um desses seres excepcionais que movem multidões?
Nem por sombras!
O protagonista que me elucidou foi um humilde vigarista de bairro…
Melhor dizendo: modesto, insinuante. Com uma forma de estar na vida que depressa conquistou – pois participava num talk shaw posto a correr por uma esbelta serigaita das nossas noites televisivas – a assistência que o ouvia, quase fascinada.
O inspector da polícia que em tempos o prendera, também presente no programa, bem se fartou de prevenir os espectadores de que era mesmo aquela a técnica de que o indivíduo se servia para perpetrar os seus golpes. E que propiciava que um simples mortal, depois de o ouvir, lhe entregasse tudo o que ele queria. “Já vos conquistou a todos!” – dizia o pobre chui (polícia) em desespero de causa – “ Digam lá se agora não entravam no negócio que ele vos propusesse…”. E o simpático vigarista, com um sorriso fraternal no rosto aberto e franco, saiu do cenário coroado por uma enorme salva de palmas.
Eu e milhares como eu, decerto, acolhemos com proveito a inapreciável lição que ali nos fôra dada.
Lembrei-me disto e também de uma notícia referente ao ex-ministro Alain Joupé, que tinha tempos atrás sido condenado a 18 meses de prisão, com pena suspensa (é sempre pena suspensa a que estes ilustres cidadãos apanham), para além de 10 anos de impedimento de se candidatar a qualquer cargo – por ter cavilosamente manipulado uns dinheiritos chegados aos seus bolsos de forma esquisita.
Ora o Supremo Tribunal, instado a pronunciar-se, reduziu para catorze meses a pena aplicada, além de considerar que lhe bastava um aninho de travessia do deserto.
Em 1999, num encontro sobre Literatura Policial numa cidade francesa, defendi a tese de que “o sistema judicial é o cancro que está a destruir a Democracia”, a qual foi bem acolhida pela assistência que me quis ouvir. E disse ainda que o sistema judicial politicamente correcto, eticamente corrompido até à medula, não o era devido a magistrados receberem dinheiros desta ou daquela entidade mas sim por no seu coração e no seu cérebro – com as naturais excepções – aceitarem o jogo de que os poderosos são seus irmãos de cena e portanto credores de cuidados especiais, aliás generosamente dispensados.
Mediante o estatuto granjeado pelas suas qualificações pessoais – companheirismo de formatura, de família (pessoal ou política), lábia poderosa e poderoso desembaraço, preparação e cultura – o homem público cai no goto do vulgus pecus e daí em diante praticamente tudo lhe é consentido. Passou-se com Joupé como se tem passado com outros simpáticos safardanas europeus e mundiais, que quais sempre-em-pés logo se erguem e seguem triunfantes ou pelo menos perdoados mal os atira a terra uma vigarice ou um acto assacanado. Ou o simples desprezo que acalentam pelo povo, sobre o qual tripudiam com o beneplácito dum universo societário podre e complacente para com esses irmãos naturais, que aliás lhe pagam com juros deixando os seus próceres bem ancorados no seu específico conforto corporativo.
E tudo isto é mais eficaz – e muito mais inquietante – que a simples vigarice dum tratantezito de bairro…

ns

02 outubro 2010

E, quando tiveres fome,/ corta a tua mão e come!

Malhoa, Vou ser mãe

Acabei de ler que a CGD vendeu o edifício-sede, em Lisboa, ao seu Fundo de Pensões.

01 outubro 2010

Recebi isto por email...


... com autoria atribuída ao jornalista Mário Crespo:

Imaginem

Imaginem que todos os gestores públicos das 77 empresas do Estado decidiam voluntariamente baixar os seus vencimentos e prémios em dez por cento. Imaginem que decidiam fazer isso independentemente dos resultados. Se os resultados fossem bons, as reduções contribuíam para a produtividade. Se fossem maus, ajudavam em muito na recuperação.

Imaginem que os gestores públicos optavam por carros dez por cento mais baratos e que reduziam as suas dotações de combustível em dez por cento. Imaginem que as suas despesas de representação diminuíam dez por cento também. Que retiravam dez por cento ao que debitam regularmente nos cartões de crédito das empresas. Imaginem ainda que os carros pagos pelo Estado para funções do Estado tinham ESTADO escrito na porta. Imaginem que só eram usados em funções do Estado. Imaginem que dispensava dez por cento dos assessores e consultores e passavam a utilizar a prata da casa para o serviço público. Imaginem que gastavam dez por cento menos em pacotes de rescisão para quem trabalha e não se quer reformar.

Imaginem que os gestores públicos do passado, que são os pensionistas milionários do presente, se inspiravam nisto e aceitavam uma redução de dez por cento nas suas pensões. Em todas as suas pensões. Eles acumulam várias. Não era nada de muito dramático. Ainda ficavam, todos, muito acima dos cinco mil euros por mês. Imaginem que o faziam, por ética ou por vergonha. Imaginem que o faziam por consciência. Imaginem o efeito que isto teria no défice das contas públicas.

Imaginem os postos de trabalho que se mantinham e os que se criavam.

Imaginem os lugares a aumentar nas faculdades, nas escolas, nas creches e nos lares. Imaginem este dinheiro a ser usado em tribunais para reduzir dez por cento o tempo de espera por uma sentença. Ou no posto de saúde para esperarmos menos dez por cento do tempo por uma consulta ou por uma operação às cataratas. Imaginem remédios dez por cento mais baratos. Imaginem dentistas incluídos no serviço nacional de saúde. Imaginem a segurança que os municípios podiam comprar com esses dinheiros. Imaginem uma Polícia dez por cento mais bem paga, dez por cento mais bem equipada e mais motivada. Imaginem as pensões que se podiam actualizar. Imaginem todo esse dinheiro bem gerido. Imaginem IRC, IRS e IVA a descerem dez por cento também e a economia a soltar-se à velocidade de mais dez por cento em fábricas, lojas, ateliers, teatros, cinemas, estádios, cafés, restaurantes e jardins.

Imaginem que o inédito acto de gestão de Fernando Pinto, da TAP, de baixar dez por cento as remunerações do seu Conselho de Administração nesta altura de crise na TAP, no Paí­s e no Mundo é seguido pelas outras setenta e sete empresas públicas em Portugal. Imaginem que a histórica decisão de Fernando Pinto de reduzir em dez por cento os prémios de gestão, independentemente de os resultados serem bons ou maus, é seguida pelas outras empresas públicas.

Imaginem que é seguida por aquelas que distribuem prémios quando dão prejuízo.

Imaginem que País podí­amos ser se o fizéssemos.

Imaginem que país seremos se não o fizermos.

30 setembro 2010

Pelas devidas compensações aos cidadãos!


Três meses atrás, o senhor primeiro-ministro utilizava a potência vocal costumada para afirmar, altaneiro, que as medidas tomadas eram suficientes e que não iria haver mais aumento de impostos. Ontem, foi o que se viu. E amanhã, naturalmente, o que se há-de ver.

Ana Jorge, entretanto, diz que os portugueses têm que moderar o consumo de anti-depressivos a bem do orçamento da saúde.

Ok! Mas então, ao menos que o Estado Social abra o acesso a peões à ponte 25 de Abril e a visitas ao topo do Cristo-Rei!

29 setembro 2010

Notícias dos construtores do Universo


Mesmo há bocadinho, nos telejornais:

Primeiro, Francisco Assis, à saída do Palácio de Belém, afirma que o PS tudo fará para fazer aprovar o OE, enquanto partido maioritário e, portanto, com maiores responsabilidades. Mas, avisa, os outros partidos também têm responsabilidades e, portanto, vejam lá o que fazem.

Ou seja, o Partido Socialista ignorou acintosamente tudo quanto viesse da Oposição durante os quatro anos em que teve maioria absoluta na Assembleia e fez aprovar o que constituiu o maior descalabro económico e social de que há memória desde o 25 de Abril. Conduzindo, em alta velocidade, o país a um estado caótico e deprimente, agravado pela crise internacional com que, já no final do mandato, procurou justificar-se. Agora, num estado de completa histeria e desorientação, os socialistas avisam a Oposição de que tem a obrigação patriótica de apoiar - com novos disparates que colocarão a população e a economia em geral numa situação insustentável - a resolução dos efeitos trágicos da incompetência e da irresponsabilidade com que governaram. E que lhes fique agradecida por a deixar participar em tal missão, que a humanidade futura reconhecerá decisiva e fruto, entre todos bendito, das mentes que guiam o país no meio de um martírio feito de escarros e vitupérios, indiciador da sua missão divina

Numa palavra, responsabilizam quem impediram, frequentemente de modo insultuoso, de ter uma palavra a dizer nas decisões que tomaram, pela anulação das consequências dessas mesmas decisões. Sempre, claro está, à boa maneira socialista: em nome do povo e fazendo recair, "democraticamente", a calamidade dos futuros dislates que anunciam em cima de todos nós, "portuguesas e portugueses". Tudo em nome, como não podia deixar de ser, dos superiores discernimento e sensibilidade social, intrínsecos aos escolhidos para participarem na execução da Grande Obra da arquitectura do Universo e arrabaldes.

Depois, nada melhor para se aquilatar de tais superiores discernimento e sensibilidade dos boys do Arquitecto do que a notícia que veio a seguir. O Ministério da Educação, face à falta generalizada de pessoal nas escolas, propõe-se acudir aos desempregados contratando-os para as funções de pessoal auxiliar, sem determinação prévia do número de dias semanais em que exercerão essas funções, no máximo de quatro horas diárias e com a remuneração de três (!!!!!) euros por hora. Interrogada pelos jornalistas, a senhora ministra considerou o que haveria a esperar da sua parte: que é tudo normal. E, bem entendido, qualquer um serve, já que todos os portugueses, como se sabe, não apenas têm incluído nos genes um radioso programa de formação sobre como proceder com crianças e adolescentes como, já no berço, lhes são dadas xuxas através das quais lhes é proporcionado um outro, absorvível oralmente, sobre como bem agir nessas funções.

Cada vez mais as palavras que jorram de mim me sabem a silêncio.

Um perfeito inútil no seu melhor!


Disse ele, em pleno início da finalização da destruição do ensino em Portugal, dirigida pela batuta da incompetência esquizofrénica de Maria de Lurdes Rodrigues e seus amigalhaços, que os professores são os "inúteis mais bem pagos deste país". Ouçam-no agora, a um dos imbecis mais bem pagos deste país para gafanhotar baboseiras, malabarismar argumentos sobre a relação entre a complexidade dos trocatintismos do jogo de cintura de que se faz a derrocada do engenheiro faxista que chegou a primeiro-ministro e a madraçalhada matreira que o brilhantismo e argúcia ímpar da sua visão topa logo, só pelo pisar.
Único e imperdível! De ir às lágrimas, sem que consigamos saber porquê.

28 setembro 2010

Auxiliar de memória


Ontem à noite, estendi-me frente à televisão e por ali fiquei a ruminar o que ia ouvendo. A partir de certa altura, dada a habitual falta de interesse da programação dos diversos canais quanto a filmes e séries (estava a dar televisão em todos, como diria o Quino pela boca da Mafaldinha), lá fui parar, contrariado, aos habituais canais de informação e aos generalistas. E acabei por me fixar, primeiro na SICNotícias, depois, na RTP1. No Jornal das 9 e no Prós e Contras.

Pousei no Jornal das 9 na altura em que falava já Henrique Neto, velho e digno membro do Partido Socialista. Que não tem por hábito mandar recados por ninguém. E que referia o facto, impensável no Portugal de há duas décadas atrás, face ao nível político e intelectual dos dirigentes de então, de vermos um secretário-geral da OCDE em Lisboa a dizer-nos o que havemos de fazer. E que, prosseguindo, lembrava a intervenção que tivera no congresso do seu partido, ao tempo de Guterres, no qual, contrariando as sonoras proclamações triunfalistas de que a economia ia de vento em popa, afirmara, no meio das sorrisos depreciativos de quem o alcunhava de “derrotista” e de “velho do Restelo”, que, pelo contrário, ela se encontrava em declínio, pelos mesmos motivos que hoje servem para justificar a crise.

E que disse mais: que as suas intervenções estavam registadas para quem as quisesse ler, só que ninguém as lia nem estava interessado em lê-las. E que, quando isso acontecia, eram, em geral, convenientemente deturpadas. E que ao país não será nada fácil encontrar uma saída para o actual estado de coisas. Porquê? Porque a quem está no poder não interessa mudar seja o que for. E quem está no poder? Os boys do PS, para cujo perigo que constituíam Guterres alertava o próprio partido (ingenuidade ou puro desespero?, pergunto eu), dominando a máquina do Estado, emperrando-a, sempre que necessário, para manter o seu estatuto social e económico. Disse-o. Desassombrada e tristemente.

Uma hora e tal depois, eis que aterro no programa da Fátima Campos Ferreira. Desta vez, no momento em que ela punha uma questão ao Professor Jacinto Nunes, ex-ministro de um governo da iniciativa de Ramalho Eanes (em 1977 ou 78, nem eu nem ele nos lembrávamos já) e ex-governador do Banco de Portugal. Jacinto Nunes, que foi sempre um exemplo de competência, seriedade e isenção. E de dignidade. E que respondeu à pergunta da moderadora, sobre se a actual crise política poderia ser atenuada com um governo da iniciativa de Cavaco Silva da seguinte maneira: seria completamente desaconselhável um tal recurso, pois que nenhum partido apoiaria esse governo, já que todos eles se preocupam somente com o seu lugar, influência e poder na política portuguesa, a exemplo do que sucedera àquele de que fizera parte e aos restantes promovidos por Eanes.

E que disse, também ele, mais: disse que os diferentes grupos políticos de hoje se caracterizam pela grosseria, pela má-educação e pela falta de horizontes culturais e cívicos, pela estreiteza de vistas, pela agressividade mútua. Não o disse exactamente por estas palavras, mas aquelas com o que o exprimiu estavam carregadas deste mesmo sentido e nelas ressoavam a tristeza, a amargura e a indignação. Ressoavam discretamente, porque o Professor Jacinto Nunes só deixa transparecer a sua educação, mesmo quando a desilusão lhe amarfanha a alma.

E, finalmente, quando hoje se pôde ouvir, na comunicação social, a senhora ministra da Educação, dizer, com a mais completa impunidade, que considerava o caso do aluno que entrou com vinte valores no Ensino Superior, bem como outros casos semelhantes, “absolutamente normal”, fiquei a pensar que se abrira mais um alçapão, e que aquilo que se julgara ser o fundo, afinal ainda não o era. Para, logo de seguida, sentir que um segundo se abrira, ouvindo-a proclamar a maior fraude de que tenho conhecimento ao nível do ensino, um verdadeiro crime de lesa-pátria designado por Novas Oportunidades, como sendo um “ensino de qualidade”. E, aí, já não pensei em mais nada.

Escrevi isto. Só para eu próprio ter perante mim, sem dó nem piedade, o Portugal em que nos tornámos. Para que a minha memória não esqueça.

26 setembro 2010

25 setembro 2010

À pesca

No Blasfémias

Tolerámos 40 anos de Salazar. E não mudámos assim tanto

Quando Salazar foi eleito o “maior português de sempre” muitos encolheram os ombros: a votação tinha pouco significado e era tudo menos representativa. Mas quando, 40 anos passados sobre a morte do ditador, entramos em qualquer livraria e encontramos resmas de novidades que chegam a encabeçar as listas dos livros mais vendidos, interrogamo-nos: porquê este fascínio por Salazar?
Há uma resposta simples, talvez demasiado simples: a maioria dos portugueses já não viveu como adulto sob o seu regime e, face ao desencanto com os políticos de hoje, acaba a olhar ou para um Salazar mitológico ou para um desconhecido que lhe suscita curiosidade. Esta atracção também é devedora do registo maniqueísta que tem dominado o discurso público sobre o ditador, um registo que não autoriza nuances e alimenta estereótipos.
Mas há outra questão, mais profunda e inquietante: a de saber como foi possível Salazar manter-se no poder durante 40 anos.
Na mais importante obra saída nos últimos meses,
Salazar, Uma Biografia Política, Filipe Ribeiro de Menezes prefere contudo olhar para o porquê de Salazar se ter querido manter no poder. O historiador propõe duas razões: “A primeira, e mais importante, era uma crença em si próprio como agente providencial; a segunda era a percepção de que, sem ele no centro, o regime, assente numa aliança tecida de um delicado equilíbrio entre forças conservadoras, desabaria”. Contudo, se “durante a maior parte das quatro décadas [em que governou] a sua principal prioridade foi manter-se no poder”, essa vontade, mesmo que muito forte, mesmo que servida por uma enorme capacidade para gerir os equilíbrios no interior do regime, não explicam só por si a sua longevidade. Também não a explica o aparelho repressivo do regime. Não há dúvidas de que o Estado Novo era uma ditadura que utilizava sem estados de alma instrumentos como a censura, a discriminação e a perseguição dos opositores, a tortura nas prisões e a discricionariedade na aplicação de penas indefinidas, só que a contabilidade da repressão é, por comparação com outros regimes, modesta. Mais: Portugal nunca foi um Estado totalitário, apenas (o que não é pouco) autoritário. Salazar não se preocupava muito com a sua popularidade, mas o regime contou ora com o apoio tácito da população, ora com a sua indiferença, nunca teve de enfrentar uma hostilidade generalizada. Só a organização clandestina do PCP manteve uma espécie de guerra civil com a PIDE, a que a maioria de população foi quase sempre indiferente. Infelizmente o pouco que os portugueses se mobilizaram para terem as suas liberdades de volta é um dado histórico de que não nos podemos orgulhar.

E aqui voltamos ao ponto central: como foi isso possível?
A resposta mais comum, e nem por isso falsa, é que a prolongada indiferença face aos métodos da ditadura foi fruto da nossa condição de país pobre, rural e semi-analfabeto. Um país sem classe média, ou onde a classe média é muito pequena, é por norma um país menos exigente politicamente, e Portugal não escapou à regra: quando, a partir do final dos anos 50, a economia acelerou, as cidades se encheram e começou a aumentar o número de estudantes nos cursos médios e universitários, de imediato aumentaram as dificuldades do regime. Não por acaso Salazar preferia o Portugal rural, não por acaso desencorajou ou desautorizou os muitos ministros “desenvolvimentistas” com quem trabalhou, não por acaso vivia como um recluso numa residência oficial onde se criavam galinhas para consumo doméstico.
Contudo esta condição de “país pobre” não tinha de ser uma fatalidade – era apenas a fatalidade que Salazar herdara após quase um século de governos liberais ou abertamente jacobinos. Durante todo o século XIX e no início do século XX Portugal divergiu da Europa e do mundo desenvolvido, só conseguindo começar a reaproximar-se a partir da estabilização financeira promovida por Salazar. É duro, mas é verdade pois significa que mesmo oferecendo ritmos de crescimento pouco ambiciosos, o salazarismo proporcionou a Portugal mais do que lhe tinham oferecido os regimes anteriores. Não surpreende por isso que muitos tivessem aceitado a falta de liberdade – para mais apresentada e vista como necessária a uma “paz interna” que contrastava com a turbulência, instabilidade e ambiente de guerra civil larvar que marcara a I República.

A debilidade de uma cultura de liberdade, se tinha raízes sociais e históricas, era também cultural e política. Primeiro, porque Salazar não mentia quando disse, em 1945, que “antes de nós e por dezenas de anos – reconhecemo-lo com tristeza –, as ditaduras foram a forma corrente da vida política e vimo-las alternar-se ou suceder-se quase ininterruptamente, sob formas diversas”. Na verdade, como assinalou o historiador Rui Ramos, “nunca, antes de 1926, as eleições, envolvendo apenas eleitorados restritos e tutelados, haviam sido consideradas genuínas ou livres”. Houvera partidos na Monarquia Constitucional, tal como houvera partidos na I República, mas ou as eleições eram tuteladas, ou o colégio eleitoral artificialmente restrito, ou o ambiente político marcado pela coacção. Os portugueses não tinham perdido com o advento de Salazar um regime aberto e plural como o que hoje temos, pois apenas tinham conhecido oligarquias dilaceradas por querelas internas.
Depois, porque nunca se consolidou em Portugal uma elite liberal. Como explicou Vasco Pulido Valente, o fim do Antigo Regime e o advento “liberalismo” não foram produtos de um sobressalto interno, antes subprodutos das Invasões Francesas: “A invasão e a guerra, por assim dizer, ‘provocaram’ o ‘liberalismo’ em Portugal. Um produto exógeno, que não podia ser aceite pacificamente”, notou o historiador. Mas não só: o “liberalismo”, “por causa da sua intrínseca fraqueza e do seu isolamento na sociedade portuguesa, viveu até muito tarde sob a tutela do exército” e “continuou também as tradições do ‘antigo regime’”, como um Estado “centralizado, despótico e intrusivo” que sustentava “com dinheiro público uma classe média burocrática e ‘parasitária’” e intervinha de forma constante na economia. Não mudámos assim tanto.
Há ainda a sublinhar a hegemonia do pensamento “francês” entre as elites – uma hegemonia que justifica o carácter profundamente jacobino e dirigista do pensamento republicano, que se prolonga na influência de Maurras no pensamento autoritário de Salazar e que só recentemente começou a perder, em alguns meios, para a tradição anglo-saxónica da liberdade.

Salazar, para se manter no poder, não teve mais do que interpretar esta maneira de ser do povo português. Ao contrário dos seus antecessores, nem sequer promoveu uma revolução, não teve de substituir as hierarquias nem de gerar novas obediências: teve apenas de promover o que podemos designar como uma “acalmação”, baixando a “febre política” para permitir aos portugueses “viver habitualmente”. Apor isso até aos anos 60, quando as coisas começaram a mudar, os poucos sobressaltos sentidos pelo regime – como aquando do comício da Fonte da Moura, no Porto, na campanha de Norton de Matos, ou sobretudo durante a campanha de Humberto Delgado – nunca foram suficientes para que se sentisse a aproximação do fim do regime.
Não deve pois surpreender-nos que a mesma mistura de apatia, dependência do Estado e iliberalismo continuem a marcar a paisagem política portuguesa. Facilmente é possível encontrarmos quem feche os olhos ao autoritarismo ou ao desrespeito do Estado de Direito desde que lhe falem em “desenvolvimento”. Tal como é fácil assustar os portugueses com a mínima perspectiva de abalo da
babysitter estatal. Ou tal como é popular, tanto à esquerda como à direita, criticar qualquer actividade que dê lucro e fugir de tudo o que implique riscos.
Quarenta anos depois da morte de Salazar o país que o aturou pacatamente mudou muito – mas sobretudo à superfície. Salazar já pertence à história, mas os defeitos portugueses que autorizaram o salazarismo continuam a apoquentar-nos. Todos os dias.

Público, 24 de Setembro de 2010

24 setembro 2010

23 setembro 2010

Dos grandes princípios da governação


Segundo parece, anunciam os órgãos de comunicação, as estatísticas mostram que há cada vez maior número de pessoas idosas abandonadas, nos hospitais, pelos familiares.
Comentando, dizia-me, por sua vez, uma (recente) antiga docente do curso superior de Serviço Social: "Pois, esta coisa de irem vasculhar as contas bancárias, é o que dá...".
E não explicou mais nada.
Também, para quê?

20 setembro 2010

Mas, já agora...

Após denodada luta com o "bicho informático"...


... e o recurso a consultoria estética, a que se acrescentou um radical emagrecimento da paciência, tudo voltou ao normal. Faltam os links, que irei repondo aos poucos, à medida do tempo disponível e da memória.
Voltarei amanhã.

19 setembro 2010

É o que acontece! É o que a-con-te-ce...!!


É o que acontece a quem se põe a fazer experiências com o modelo do blogue e acaba por fazer merda...!
Bom, agora tenho que repor, aos poucos, os links preferidos todos, de alguns dos quais com certeza me esquecerei. Já eram tantos!
Mai-los contadores!
Oh, porra!
(Se pensavam que eu era bem-educado...)

O último a sair...


18 setembro 2010

Heil, Greenpeace!


Da juventude nacional-socialista à Mocidade Portuguesa, tudo o que este vídeo relembra é alarmante. E, pior ainda, quando se sabe que é passado em escolas pelos imbecis prá-frentex do politicamente correcto, cheios da sabedoria fast-food sobre os famosos e já decrépitos (porque a mentira não se conseguiu aguentar assim tanto tempo) "efeito de estufa" e "aquecimento global"! Para quando um curso de formação em "bufaria", inserido nas Novas Oportunidades, com passagem incluída para a Universidade? (vídeo citado numa caixa de comentários, também do Fiel Inimigo).

Nota - Repare-se no elemento teatral do capuz, no tipo de iluminação utilizada...

14 setembro 2010

Ninguém vê? Ninguém ouve?


Uma professora de Braga que criou um site em defesa de Carlos Cruz por, embora desconhecendo o processo, ter tido desde sempre a intuição, quando o ouve falar, da realidade da sua inocência, é ridicularizada por todos os lados pelos defensores da objectividade, que preferem dar crédito às provas apresentadas em tribunal.

Por sua vez, o tribunal aceita os depoimentos das vítimas, apesar das contradições detectáveis, porque o modo como falaram, o olhar e mais não sei o quê tinham uma clara «ressonância de verdade» (segundo a transcrição de excertos do acórdão feita pela comunicação social).

Além disso, o mesmo tribunal afirma não acreditar que os rapazes (ainda segundo a comunicação social) tivessem «sofisticação necessária» para conseguirem manter sempre a mesma versão, mesmo quando sujeitos a múltiplos interrogatórios. Pela minha parte, devo dizer que conheci gente educada na Casa Pia que tinha uma sofisticação maior do que aquela de quem escreveu o acórdão, onde se pode ler (mais uma vez, segundo a comunicação social) pérolas de português como «jovens rapazes».

O tribunal mostrou-se ainda mal impressionado pela maioria dos acusados não haver demonstrado qualquer arrependimento. De outra maneira, os que continuam a afirmar-se inocentes, deveriam mostrar-se arrependidos do que negam ter feito. Se não se arrependem, é porque o fizeram.

Ninguém estranha nada nisto tudo?

13 setembro 2010

Da desgraçada lucidez

Excerto de uma entrevista de Luís Figo à TSF, a propósito da sua possível candidatura à presidência da FPF:

«Estou um bocado queimado em relação a Portugal, pelo menos por causa dos últimos acontecimentos em relação à minha pessoa», afirmou.

«A única coisa que posso dizer é que, quando quiser mais problemas, regresso a Portugal», acrescentou.

Sobre o actual momento que se vive na selecção nacional, Luís Figo revelou que já esperava que o caso Queiroz terminasse da forma que se conhece, mas considerou que não foi defendido o interesse nacional.

«Acho que ao abrirem este processo já se sabia o desfecho final, mas penso que se perdeu tempo importante quando está em vista um prioridade nacional, um interesse nacional, como é o caso da selecção», referiu Luís Figo.

11 setembro 2010

Ele sabe o que faz e o que diz


Holocausto racial é um termo que só poderia ser descoberto por um génio.

09 setembro 2010

08 setembro 2010

O jardim das Legiões


Eis do que fala José Gonsalo aqui.

03 setembro 2010

Não percebo!


Alguém me explica? De todos os réus acusados de frequentarem a "casa das orgias", em Elvas, o único que, afinal, segundo a súmula do "julgamento Casa Pia", terá sido visto por lá, e apenas por duas vezes, foi Carlos Cruz. A D. Gertrudes Qualquer-Coisa, dona da referida casa, essa foi considerada inocente!
Ou será que alguém quer mesmo que não percebamos...?

Ainda a propósito de uma cerimónia muçulmana

Zawahiri e Bin Laden

José Gonsalo inseriu, no Fiel Inimigo, o vídeo Cerimónia em Viena, a partir do post que eu publicara no dia anterior. Hoje, é a minha vez de transcrever aqui um texto seu, resultante de uma reflexão motivada por um comentário a esse mesmo vídeo (clicar aqui, para ver o post e aqui, para ver os comentários ao vídeo).

A Jihad inicia-se após a Hégira, em 625 d.C., e traduz-se, para começar, na conquista pelos exércitos islâmicos, sob comando árabe, do Médio Oriente e do Norte de África. Oitenta e seis anos depois, em 711 d.C., esses exércitos entram na Península Ibérica, dominando-a, na sua quase totalidade, no decurso das duas décadas seguintes, sendo a sua passagem para além dos Pirinéus travada, já em solo Franco, na batalha de Poitiers, em 732 d.C.. Todo este processo, realizado a ferro e fogo dura, pois, cento e sete anos.

Só em 1095, passados mais de três séculos e meio, é que terá lugar a primeira Cruzada, com o intuito de devolver à cristandade o acesso aos lugares santos do Cristianismo, entretanto usurpados pelo Islamismo tanto a cristãos como a judeus. A última delas, a quinta, durará quatro anos, entre 1217 e 1221, e o que resultará do conjunto de todas elas, nesse intervalo de cento e vinte e seis anos, não será sequer o domínio europeu da zona, quanto mais a reconquista da área da África do Norte, toda ela cristã antes da imposição, por via armada, do Islão.

A conquista islâmica dos territórios norte-africanos e europeus nada tem a ver com a devolução do que quer que fosse a que os árabes tivessem direito. Nem mesmo podem alegar, para tal, qualquer ameaça vinda da Europa da época. Os europeus, bárbaros em emergência, ocupados em guerras que definissem os seus novos territórios, decorrentes da derrocada do Império Romano do Ocidente, tinham mais em que pensar do que no Médio Oriente. Os exércitos islâmicos assenhorearam-se, em nome da salvação pela verdadeira religião ou a pretexto dela, do que não era seu. Só não se apoderaram do que, por fim, não lhe permitiram e foi preciso rechaçá-los, numa luta que, no caso ibérico, durou até 1492, isto é, em contas redondas, oito séculos.

Perdidas as veleidades de se tornarem numa outra versão da antiga Roma imperial, unificada, política e administrativamente, pelos princípios do Alcorão, procuraram sufocar a Europa através do impedimento à livre circulação de bens e de ideias existente, desde a Antiguidade, entre o Ocidente e o Oriente, nomeadamente entre a Europa e a Índia, base da fertilidade das civilizações grega e romana e de todas as restantes que se haviam desenvolvido em torno do Mediterrâneo. O seu declínio, comercial e militar, começou, de vez, com a chegada dos portugueses a Calecut e, posteriormente, com o aparecimento e o estabelecimento de holandeses, franceses e ingleses por todo o Oriente.

A partir do século XVIII, com a Revolução Industrial, acentuou-se cada vez mais a decadência de uma civilização em que o saber se tornou prisioneiro das cadeias de uma teologia incomparavelmente mais limitadora do que o Cristianismo alguma vez fora. O desenvolvimento dos conhecimentos técnico-científicos transportou o Ocidente para o plano de uma outra humanidade, enquanto os árabes, excepção feita aos tradicionais tiranetes assassinos com poder de compra que os dominavam, estiolaram entre o cavalo, o camelo e o burro, presos de impérios orientais que se faziam e desfaziam como sempre aconteceu desde há três milénios. Até que, por fim, inevitavelmente, sobretudo a partir do último quartel do século XIX e até ao final da II Guerra Mundial, surgiram os ingleses e os franceses. Era o fracasso final do povo eleito, o povo guiado pela palavra do único Deus, Allah, revelada ao terceiro e, determinadamente, o último dos profetas, Muhammad. O fracasso da tarefa que se propusera a si próprio e em que assentara a sua identidade. Ou reagia, ou estaria condenado para toda Eternidade.

Ao contrário do que é dito no Evangelho, onde a vingança é sinónimo de degradação espiritual, o Alcorão entende-a como legítima sem, no entanto, a definir (o que levanta muitas e interessantes questões). Porém, a vingança, perspecyivada por uma cultura como a árabe, repressiva e agressiva, na qual a dissimulação e hipocrisia são confundidas com uma das quatro virtudes cardeais tradicionais, a Prudência, torna-se no conceito que alimenta, fundamentando-o, um ressentimento venenoso. Esse ressentimento assumirá, assim, para que o povo de Deus não perca a face perante o Criador e alcance o Paraíso, a seguinte forma teológica: os Ocidentais têm por eles as forças do Mal, perdemos esta batalha, mas a força de Allah, que está desde sempre em nós, alcançá-los-á, no final; teremos que o derrotar definitivamente, aos impuros, vencendo-os-os e submetendo-os às leis do Alcorão. A nossa vingança é a vingança de Allah. Utilizaremos os seus conhecimentos contra eles, as forças do Mal virar-se-ão contra ele próprio e assim será destruído.

Este não é, evidentemente, o espírito de todos, senão de uns quantos, que, no entanto, são a parte verdadeiramente activa, como se tem visto. Os restantes oscilam entre um islamismo passivo, mais ou menos consciente de si mesmo, que demonstra esse ressentimento através da resistência “cultural”, encerrando-se, no estrangeiro, em comunidades fechadas e, no seu próprio país, na lei islâmica como fundamento das leis nacionais; e, evidentemente, o islamismo-da-boca-prafora, como plano de defesa de interesses mais ou menos instituídos e confessáveis (no que, aliás, são semelhantes a inúmeros exemplares do mesmo tipo, espalhados pelo planeta, residentes em diferentes religiões e ideologias).

Dizer, pois, como o faz, no seu comentário, um anónimo, que a Jihad constitui o reverso da medalha das Cruzadas, indicia pura ignorância ou cartilha política de conveniência ideológico-partidária, acriticamente papagueada. Porque, atendendo ao que se passou, só a afirmação oposta poderia fazer sentido. As Cruzadas e os Cruzados não foram mais do que a resposta tardia a algo que cujo começo foi da iniciativa e da responsabilidade dos árabes e do “seu” Islão. Dos crimes e das crueldades, ninguém ficaria impune num julgamento imparcial. Trazê-las à baila como argumento revela, da parte dos seus dirigentes, as sinuosidades propagandísticas dos seus planos. Com efeito, se a moral tivesse a ver alguma coisa com os factos que a humanidade produz como história sua, os árabes deveriam, por este motivo, manter-se num silêncio envergonhado, com tanto maior razão para tal quanto a política do punhal fratricida que, desde sempre, inclusive no seu apogeu, grassou entre eles, não desapareceu ou sequer se atenuou.

01 setembro 2010

Deixei de ler o Expresso...


... vão para aí uns trinta anos. E quando, ocasionalmente, em casa de um ou outro amigo, lhe passo os olhos por cima, mais sinto justificada a minha aversão. Ora vejam bem esta, que recolhi via Fiel Inimigo.

30 agosto 2010

Efeito "bola de neve"

Agora que voltei e fiquei a saber que a sra. Ministra da Educação decidiu arrasar de vez com o que restava do ensino nocturno, acabando com o ensino secundário por módulos capitalizáveis, aqui deixo algo, cuja autoria desconheço, que me foi enviado por email.

14 agosto 2010

Aaaahhh!!!


Volto daqui a duas semanas.

12 agosto 2010

Ricardo Araújo Pereira no seu melhor


Revista Visão, hoje:

Portugal é fogo que arde sem se prever

É todos os anos a mesma coisa: chega o verão e começam os incêndios, os jornalistas fazem reportagens em direto à frente das chamas, os bombeiros queixam-se da falta de meios, os comentadores perguntam como é possível que ninguém se tenha lembrado de limpar as florestas e há sempre um parvo que assinala que é todos os anos a mesma coisa. Cada um tem a sua função nesta farsa - e a minha, pelos vistos, é esta.
O aspeto mais intrigante dos incêndios de verão é a aparente surpresa com que acolhemos um fenómeno que é recorrente e pontual. Não há nada mais previsível do que os fogos em agosto, e no entanto continuam a abrir telejornais. Todos os anos Portugal escorrega na mesma casca de banana, e é sempre notícia. Trata-se de uma tradição que sobressalta.
Toda a gente está preparada para a Volta a Portugal em Bicicleta, mas ninguém espera a Volta a Portugal em Carro de Bombeiros, que decorre todos os verões exatamente na mesma altura. Imagino que, nas redações, os jornalistas tenham uma minuta com o modelo da reportagem e as questões que é preciso colocar a populares, bombeiros e ao ministro da Administração Interna. No final de julho, tiram a minuta da gaveta e dirigem-se para onde houver labaredas. O espetador tem a sensação de estar a ver sempre o mesmo jornalista, o mesmo bombeiro, e o mesmo ministro da Administração Interna. Não são reportagens, é uma peça de teatro. E está em cartaz há mais tempo que Te Mostrar em Londres.
JORNALISTA: Estamos aqui em [colocar nome da localidade], onde um violento incêndio está a consumir a floresta e começa a ameaçar algumas casas. Comigo tenho o comandante [nome do bombeiro]. Sr. comandante, qual é o ponto da situação?
BOMBEIRO: Olhe, com os meios que temos estamos a fazer o melhor possível. O batalhão é pequeno e, além disso, precisávamos de mais dois camiões cisterna e dava-nos jeito um helicóptero.
JORNALISTA: Aproveito então para falar com o ministro da tutela, que também tenho junto a mim. Sr. ministro, o que é que está a ser feito para prevenir este desastre?
MINISTRO: Disse desastre? Costuma ser flagelo.
JORNALISTA: Tem razão. Desastre é para as cheias. Peço desculpa. O que é que está a ser feito para prevenir este flagelo?
MINISTRO: Estamos a trabalhar no sentido de criar condições que permitam promover um esforço muito sério com vista a desenvolver mecanismos que conduzam ao reforço das infraestruturas. E recordo que a área ardida este ano é menor que a do ano passado.
JORNALISTA: Obrigado, sr. ministro. Adeus e até para o ano no mesmo sítio e à mesma hora.
E depois cai o pano. Os atores recolhem aos bastidores e a plateia boceja. O incêndio continua a queimar tudo, incluindo o papel onde os responsáveis apontaram que, para o ano, é mesmo necessário limpar as matas. Os únicos metros quadrados que não ardem são aqueles em que as estações de televisão montam o tripé para o jornalista entrevistar os bombeiros e o ministro. O resto costuma desaparecer, até porque Portugal parece ser um país que tem mais pirómanos por metro quadrado do que árvores. A vida também está difícil para eles. A quantidade de pirómanos residentes em território nacional sugere que, no nosso país, aquela máxima sobre a plena realização pessoal foi ligeiramente adaptada. Aqui, ao que parece, só tem uma vida verdadeiramente completa o cidadão que tiver um filho, escrever um livro e queimar uma árvore.

10 agosto 2010

Conhecem?



António Simões na Bienal de Poesia de Silves 2008.

07 agosto 2010

Em coisas como estas é que se pode apreciar...


... as diferentes perspectivas sobre o serviço público e a governação. Uns já foram para o Quénia, outros estão na Suíça...

04 agosto 2010

Um ministro determinado...


... não precisa de fingir que é democrático nem sequer bem-educado. Só precisa de dizer que está bem informado.
E nem Salazar, se fosse vivo, se atreveria a duvidar de tal. Como diria o chefe do bando, perdão! da banda: Eróc faltava...!

03 agosto 2010

Exemplar!


(Ignoro quem seja o autor da foto)

Do país que somos, do país que temos (a ordem dos factores é arbitrária).