15 dezembro 2007

No dia em que Sócrates chorou


Nesse dia fui à Repartição de Finanças da minha área.
E expus à funcionária que me atendeu o seguinte:
- Nos finais de Setembro, ao consultar o meu saldo bancário, verificara que, por engano, o sector público de onde eu fora transferido no mês anterior me processara o salário;
- Alertara de imediato a secretaria do referido sector, tendo-me informado a funcionária de que iriam notificar as Finanças para fazer a cobrança, ao mesmo tempo que me pedia as maiores desculpas pelo incómodo que isso me iria causar;
- Recebera mais tarde a notificação da obrigatoriedade da reposição do dinheiro no prazo de trinta dias a partir da data da assinatura do aviso de recepção, em 16 de Outubro;
- Não tendo podido deslocar-me à repartição até ao dia 15 de Novembro, telefonara para a mesma e perguntara ao funcionário que me atendera se teria que proceder ao pagamento nessa data ou se a contagem dos trinta dias incluía o dia 16, ao que ele me respondera que poderia fazê-lo, ainda sem multa, no dia seguinte;
- Perguntara-lhe também se teria que liquidar obrigatoriamente a minha "dívida" naquela repartição ou se a Loja do Cidadão também serviria para o efeito e a resposta fora que isso seria indiferente, já que os serviços "de lá" comunicariam com os "daqui";
- Pagara no dia seguinte e na Loja do Cidadão;
- Tinha recebido, dias atrás, um notificação das Finanças, uma vez que não teria liquidado a "dívida", para que repusesse a quantia do vencimento, acrescida de mais 70 e tal euros de juros de mora;
- Telefonara para a repartição e haviam-me informado de que a Loja do Cidadão não tinha enviado nada, mas que bastaria deslocar-me até lá, acompanhado do documento comprovativo do pagamento e a situação ficaria regularizada de imediato.
Após me ter ouvido:
- A funcionária começou por descobrir que as vias informáticas haviam enlaçado as existências fiscais do meu nome com o de um Carlos-qualquer-coisa, numa comunhão de dívidas que utrapassavam os 5000 euros;
- Efectuada uma cuidadosa investigação, a mesma funcionária desfez tão auspiciosa união (não sei se para sempre!), mas, verificando a data da liquidação da "dívida", afirmou que eu teria que pagar um multa de € 16,34, por o haver feito um dia depois do prazo-limite;
- Acrescentou ainda que o sector que me processara erradamente o vencimento deveria enviar o comprovativo da reposição para aquela repartição, para que o caso ficasse encerrado;
Liguei, de seguida, para a secretaria do meu antigo sector, do qual me garantiram que a funcionária das Finanças não sabia o que dizia, porque eles não tinham que enviar rigorosamente nada, o Gabinete de Gestão Financeira (?) é que enviará a nota de pagamento efectuado para ambos e que eles próprios ainda não haviam recebido fosse o que fosse, aconselhando-me a voltar às Finanças para esclarecer o assunto.
Recebi também nesse mesmo dia um email dos serviços do ministério das ditas, avisando-me de que os contribuintes que não paguem as suas dívidas até ao dia 31 de Dezembro não usufruirão de quaisquer benefícios fiscais na próxima declaração de IRS.
No dia em que o país - este país! - pôde ver o seu primeiro-ministro choramingando, narcisicamente, na assinatura do tratado europeu.

3 comentários:

alf disse...

parece-me que a culpa disso tudo não será do primeiro ministro mas da quantidade infindável de gente que se está nas tintas para os outros, não se interessa por saber exactamente, nem minimamente, o que deve fazer.

Perdi muito tempo ao longo da minha vida profissional por causa da incompetencia dos outros; e porque é que tenho de estar sempre a explicar aos conhecidos como funcionam os aparelhos que eles compram mas que que não estão para se dar ao trabalho de ler o manual?

É por isso que quando vejo as estatísticas de desemprego até me admiro: Só? menos de 8%??? Como é possivel se eu conheço tanta gente que não merece ter emprego?

E é por isso que tenho alguma esperança no Sócrates: não há forma de termos um sistema eficiente enquanto as pessoas puderem ser impunemente incompetentes

(a talhe de foiçe: estou a dar umas lições de informática a um professor que fez vários desses cursos de informática que servem para subir na carreira e... nem sabia ligar o seu próprio computador!!!!)

E isto não é de agora - já era assim no tempo da outra senhora. Quem consegue mudar isto?

Desculpe lá não partilhar da sua opinião meu caro amigo mas peço-lhe que veja com atenção quem tem de facto a culpa de muita coisa que funciona mal.

Joaquim Simões disse...

Alf:
Em primeiro lugar não percebi essa de me pedir desculpa por não concordar comigo... Oh! homem! Estamos aqui para concordar e para discordar uns dos outros! Desde que não me batam quando discordam, por mim estão completamente à vontade para o fazer! Como sabe perfeitamente, aliás...
Agora mais a sério: penso que não percebeu o que eu quis dizer. Seria completamente absurdo responsabilizar um primeiro-ministro por falhas que se passam a este nível. O problema é outro, bem mais grave, e é sempre nesse sentido que eu alerto e zurzo no homem. É que as reformas que têm vindo a ser feitas pioram - e de que maneira! - o que, já de si, era muito mau. Isto, para além do que algumas delas não serão feitas com intenções tão transparentes, agravando consciente ou negligentemente as situações, cimentando, premiando e reforçando ainda mais a incompetência e o autoritarismo balofo que as suporta, bem como uma ainda maior institucionalização da desorganização geral sob a forma de disposições e regras sem pés nem cabeça para promover "a justiça e a igualdade". Iremos pagar pela acção desta gente por muitas décadas. Uma vez mais, perdemos o comboio.
Volto a postar lá para o fim-d-semana e, se calhar, sobre este assunto. Aproveitarei também para ler o que tem escrito, que isto é uma falta de tempo desde há um mês para cá...!
Um abraço.

alf disse...

Lá isso é verdade: metem-se a "reorganizar" mas os "reorganizadores" não sabem o que andam a fazer, não têm a inteligencia suficiente de se socorrerem de quem sabe, sentem-se uns iluminados e depois só sai asneira.

As consultoras altamente credenciadas que têm contratado aqui e ali não são melhores, sei-o por experiência própria. Aliás, o estilo é o mesmo, a asneira só não é mais grave quando há um conselho de administração que tem dois olhos e usa do que propoe a consultora apenas o que lhe convem

O problema qd querem reorganizar de cima a baixo é que não há ninguém para por travão nos iluminados.

Mas eu ainda acredito que no fim as coisas vão ficar melhor do que estavam no princípio. Um processo de mudança causa sempre muitas dores, uma fase de desanimo, mas no fim sempre se aproveita alguma coisa... ou quase sempre...