01 outubro 2008

Disso da apagada e vil tristeza

Quadro de Chirico

Diz-me um professor do ensino secundário:
Começo a aula a falar do Fernando Pessoa e pergunto aos alunos se já ouviram falar dele. A maioria diz que sim. Pergunto em seguida se já leram qualquer coisa que ele tivesse escrito. A maioria diz agora que sim, na aula, mas que já não se lembra do que foi. Pergunto depois se gostaram. A maioria dos que guardam alguma vaga recordação diz que não percebeu lá muito bem, outros baixam a cabeça e fazem aaeh...!, os restantes articulam um sim hesitante.
Digo-lhes que Fernando Pessoa foi um dos grandes poetas mundiais do século XX. Manifesta-se algum entusiasmo e exclamações do tipo "Claro, tinha que ser! Era português!", seguidas de arremessos mútuos de papelinhos e de frases jocoso-insultuosas de boa camaradagem. Informo-os a seguir de que morreu quase ignorado, de que tinha toda a sua vida trabalhado num escritório e ouve-se expressões de incredulidade. O pouco entusiasmo esmorece e faz-se comentários às injustiças sociais. "Não ganhou o prémio Nobel?!", "Não." - e o já quase inexistente interesse apaga-se um pouco mais.
Digo-lhe que vamos ler um poema de Fernando Pessoa. As expressões e suspiros de enfado sobem já a um nível superior aos das cinzas do entusiasmo: afinal é mesmo uma aula, não é um espectáculo...! À leitura inexpressiva segue-se a perplexidade, ninguém percebe nada, ninguém sabe o que significa grande parte das palavras, alguns, muito instados, avançam com interpretações quase sempre "ao lado", ouve-se os Oh stôr, pra que é que ele escreveu isto? Pra que é que isto contribui para a minha felicidade? Só nos dão pra ler coisas destas...!
Diz-me ainda o professor: Eu só lhes dei "O menino de sua mãe", para os reiniciar na leitura! Afinal temos aí a guerra...!.
O que ele me diz traz-me à memória o que li num jornal no ano seguinte àquele em que Saramago recebeu o prémio Nobel. No encontro do "nosso laureado" com alunos de uma escola alentejana do interior, pouco tempo após a apresentação e "ter visto o homem" já o pessoal passava o tempo de olhos baixos a enviar sms's e a bufar para se ir embora, que aquilo era uma "seca". Pois se havia mostrado a "medalha", pronto, o que é que havia mais que valesse a pena?!
E, a propósito de medalhas, outras coisas, mais recentes: o alarido acerca das que os atletas olímpicos "deveriam ter trazido, que para isso é que os contribuintes lhes pagaram", sem ninguém querer saber de coisas tão elementares como a relação entre a dimensão da população de um país, o número de atletas que pode apresentar, o consequente aumento da possibilidade de ocorrência de casos de sobredotados para a prática desportiva, os recursos efectivamente envolvidos, etc., etc.. Além da comparação com países com dimensão semelhante à nossa e com grandes investimentos nessa área, como seja uma parte dos países europeus. Esquecendo, no meio disto tudo o espírito olímpico, que nem sequer entrou uma única vez em linha de conta.
Recordo-me também, desta vez a propósito desse espírito, das palavras de anteontem, num telejornal, de um jogador do Sporting, depois de um jogo em que, ao que parece, não terão jogado grande coisa na primeira parte mas que acabaram por ganhar: na Suíça, nós estávamos a ganhar-lhes por 3-0 e a massa associativa deles fazia uma festa a apoiá-los, nós aqui... bem, temos que nos habituar... Isto depois de a equipa ter já um excelente começo de época, ganhando troféus e ainda ter disputado poucos jogos.
A mediocridade é mesmo assim: grande por delegação, exigente com quem a alimenta, cruel para quem não ajuda a disfarçá-la, mesquinha e ingrata sempre. Vaidosa, é por isso ignorante e labrega; preguiçosa, passa o tempo a reinvindicar justiça e trabalho alheio; invejosa, está sempre à espreita do que o vizinho possa ter, para lho cobiçar. Quando se atreve a ser generosa, rapidamente se amedronta e se refugia na "sabedoria" da descrença. Não é uma questão de nível de educação, mas de estado de espírito de um povo, desde as bases aos dirigentes.
Byron definiu-o assim no início do século XIX, quando viveu algum tempo na sua querida e inspiradora Sintra: os portugueses são um povo de escravos.
(Nota: a propósito de José Saramago...)

2 comentários:

Range-o-Dente disse...

As salas de aula parecem quintais de couves ... mortas.

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Anónimo disse...

Não amigo, Portugal é mas é um país de pulhas e de ladrões.
E de infelizes, que é a maioria.

Puta de Arroios