15 julho 2007

"O rebanho"

A preocupação com o arrogante autoritarismo no Governo começa a passar. Não admira. A liberdade pública e, sobretudo, a liberdade individual nunca especialmente comoveram os portugueses. Desde sempre que nos perseguimos com veneno e brutalidade. A "festa" do "25 de Abril" foi uma "festa" de intimidação e de arbítrio. E ainda ontem, numa espécie de votação "popular", o país mostrou o seu amor por Salazar e por Cunhal, enquanto Soares (como Sá Carneiro) desaparece pouco a pouco da memória coectiva. O facto é que, por um velho hábito de obediência e servidão, o indígena gosta de ser mandado. Gostou de ser mandado por Cavaco, que era, se bem se lembram, infalível, e gosta agora de ser mandado pelo eng. Sócrates, que é, segundo consta, decidido e determinado.
De resto, o mundo que aí está não favorece a liberdade. O Estado-providência entrou no mais remoto recanto das nossas vidas, fiscalizando, proibindo e punindo. A "Europa" não pára de se intrometer (sem utilidade visível) no que antes se deixava à história e às tradições de cada um. Em Portugal (e pelo Ocidente inteiro), a concentração urbana exige uma vigilância policial sem precedente. O igualitarismo, o fim daquilo a que se chamava "deferência" e o enfraquecimento irremediável da Igreja e da família produziram, ou permitiram que se criasse, uma ideologia oficial, que ninguém se atreve a contestar ou a infringir. E a democracia, que tanto e tão ardentemente se gaba, é na realidade uma prisão, com um regulamento estrito e, às vezes, brutal.
Os "construtores" deste admirável "modelo" acham que os prisioneiros são felizes. Mas serão? O eng. Sócrates diria que sim. Como os seus colegas do Governo e da "Europa" ou, pelo menos, de alguma "Europa". Eles só nos querem fazer bem e o que fazem é para nos fazer bem. O sr. ministro Santos Silva quer fazer bem ao jornalismo, quando o ameaça e oprime. O eng. Sócrates quer com certeza fazer bem ao país, quando tolera a delação para correr com funcionários que ousam criticar o Governo.. E o dr. Cavaco concorda obviamente com eles, quando, perante o "saneamento político" e o abuso de poder, se limita a um comentário equívoco e genérico. O que se compreende. A liberdade dia a dia negada nas mais simples coisas deixou de contar. Os benfeitores tratarão do rebanho, como entenderem e como lhes compete."

Vasco Pulido Valente, PÚBLICO, ontem, sábado, 14 de Julho

3 comentários:

Range-o-dente disse...

"o indígena gosta de ser mandado"

Pois gostará, especialmente porque parece fazer sentido que se elege para que o eleito mande (directa ou indirectamente ou por interposta legislação, etc).

A mim, chateia-me, particularmente, eleger alguém que nada manda ..!!

Quanto à paranóia controleira, estou de acordo.

Elegem-se governantes para tomar conta da coisa macro. Da micro, tomará o padre, o avô, mãe, o pai, o professor, etc.

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Range-o-dente disse...

... resumindo, cada macaco no seu galho.

Joaquim Simões disse...

A questão é do quanto, o modo como e o que manda. O chamado líder democrático distingue-se do autoritário exactamente por isso, não porque não mande.