29 novembro 2009

25 novembro 2009

Justiça azeda

O anjo da decadência
Depois do que todos pudemos viver nestes quatro anos, este é um dos melhores exemplos daquilo que ficou dito no post anterior. Até o bom-senso está fora de prazo.

24 novembro 2009

Reflexão escrita à pressa, antes de ir para o ganha-pão

Rafael, S. Jorge e o Dragão

Quando um conjunto de militares derrubou o velho Estado Novo, havia já, pelo menos, duas dezenas de anos que o seu mentor e os respectivos apoiantes tinham perdido qualquer crédito junto da população. Por todo o lado se segredava anedotas amargas e ridicularizadoras de um regime e respectivos dirigentes manifestamente corruptos e bacocos. Bastou um sopro para que toda uma estrutura com fundamentos definitiva e claramente apodrecidos, caísse sem quase haver estrondo por não haver gente disposta a ampará-la.
Trinta e cinco anos depois dessa data, o regime democrático, palco de luta pelo poder das organizações políticas entretanto surgidas, só não sofre o mesmo destino daquele que o precedeu porque estamos na União Europeia. O descrédito é total, a vida política considerada como uma mera farsa de interesses obscuros, o salve-se quem puder o espírito dominante. Portugal e os portugueses não se curaram de Salazar e recaem diariamente na descrença e no cinismo. Agonizam.
Helder Macedo, o primeiro ministro da Cultura que houve no país, durante o governo transitório de Maria de Lurdes Pintasilgo, em 1979, dizia hoje (e eu concordo com ele) que Portugal foi um país racional, pragmático e mesmo, sob certos aspectos, na vanguarda da Europa até ao sebastianismo.
Está na hora de chamar D. Dinis e o Príncipe Perfeito. E sem nevoeiro nem outros efeitos especiais. É que a coisa é mesmo de vida ou de morte.

23 novembro 2009

Para terminar, por hoje


É mentira, é mentira/é mentira, sim, senhor/...


Sinais repetidos de um futuro anunciado


Portugal é, felizmente, um país onde, ao contrário do que se passa na Europa mais a norte, macambúzia e monótona, ainda se vive a vitalidade e as possibilidades da rua e onde a defesa da tradição e do património constituem ponto de honra para os cidadãos. Pelo menos a julgar pelos telejornais.
Noutro dia, era um alegre varredor camarário que dava conta da sua satisfação em retirar do chão e de cima das flores dos canteiros que ficam junto ao Centro de Saúde e ao lado de uma escola básica da Venda Nova, freguesia da ex-Porcalhota, actual Amadora, inúmeras máscaras azul-bébé, preventivas da gripe porcina, para ali atiradas pelos foliões depois da consulta. Espontânea, reveladora do carácter profundo dos seus habitantes e do nível de enraizamento das convicções e hábitos que terão dado o antigo nome ao lugar, esta iniciativa da comunidade vendanovense merece os maiores aplausos.
É do mesmo modo notável a franqueza e a limpidez de carácter dos portugueses, bem como a sua inigualável capacidade de simplificar, reciclar e improvisar procedimentos que, noutros países europeus, supostamente mais cívicos e democráticos, se revelam desnecessariamente complexos e excessivamente escrupulosos. A presença, noticiada ontem, de documentos jurídicos tão diversos como, entre outros, escrituras contendo nomes, moradas, números de telefone e de contas bancárias, folhas com elementos de processos e até mesmo uma disquete contendo um processo inteirinho, num contentor de lixo, na capital, revelada por uma subtil dispersão de uns quantos pelo passeio adjacente, mostram a que ponto somos capazes de inovar com base na tradição, optimizando o aproveitamento e o uso de recursos, a bem de uma superior funcionalidade e eficácia da administração pública e da justiça.
"Portugal, país do futuro" é um slogan a promover, justificada e rapidamente. É que anda por aí muita gente esquecida...!
Adenda, algumas horas depois:
Na minha caixa de correio não-electrónico encontrei um prospecto que publicita a realização de uma excursão com a duração de um dia, patrocinada pela Franis Lda., empresa cuja existência desconhecia até há minutos. A excursão, além de um pequeno almoço acompanhado de uma «amena demonstração comercial» e de um «almoço típico de Natal», inclui ainda um «espectáculo musical humorístico com "Ti Maria da Peida" que arrasta multidões e que marca a diferença pela alegria e boa disposição. É DE CHORAR A RIR.» (reproduzo o texto na íntegra, cores incluídas).
Aqui fica, portanto, esta nota, para o caso de alguém desejar juntar-se a tão incomparável manifestação do mais profundo e genuíno espírito nacional.

21 novembro 2009

Pérolas de sabedoria em viagem


Sexta-feira, no comboio Lisboa-Porto:
«No Sul chove menos do que no Norte porque no Norte vai-se mais à igreja.»

15 novembro 2009

Uma homenagem urgente


Segundo o PÚBLICO de hoje, a Junta da Extremadura espanhola promove actualmente uma polémica, mas firme campanha de educação sexual através da qual visa ensinar os jovens entre os 14 e os 17 anos a masturbarem-se. A campanha, que recebeu o nome de código "El placer está en tus manos", contempla a utilização de, por exemplo, vibradores e bolas chinesas e é uma iniciativa do Conselho da Juventude, com fundos cedidos pelo governo socialista de Zapatero.
Os reaccionários do Partido Popular pronunciaram-se como se esperaria, afirmando que esses "workshps de masturbação" são um "atentado" à inteligência dos jovens. E acrescentam que a verba que lhes foi destinada, oriunda do Instituto da Mulher (um organismo governamental), teria muito melhor aplicação no combate ao desemprego das 18.233 pessoas com menos de 25 anos que se regista na província espanhola.
Embora sem esperança na possibilidade de que um golpe de inteligência ilumine as mentalidades retorcidas e obscurantistas dos dirigentes da direita, desejamos, apesar disso, lembrar-lhes que, face ao implemento, em Espanha, das correntes pedagógicas humanistas que têm vindo a dar forma à escola pública entre nós, bem como à adopção do modelo espanhol de ensino para adultos em Portugal, tal campanha constitui uma contribuição genial e oportuníssima para a resolução dos problemas que afectam alunos, professores e funcionários de ambos os lados da fronteira. Com efeito, a masturbação colectiva no início de cada tempo lectivo, libertando endomorfinas, acalma os naturais ímpetos irreprimíveis dos adolescentes, dispondo mais facilmente as suas energias, devolvidas ao equilíbrio natural, para a compreensão dos conteúdos, entretanto devidamente aligeirados, que os pedagogos do Estado socialista, avisada e cientificamente, lhes providenciam. Por outro lado, é indiscutível a melhoria de estado de espírito e de qualidade vida de qualquer desempregado conseguida através da prática masturbatória, desmascarando o reaccionarismo e o obsoletismo da anedota do fulano que chega a casa, vai buscar uma 7Up ao frigorífico, senta-se no sofá em frente ao televisor, põe um filme pornográfico a correr, suspira e diz:"Ah! Mulheres e champagne! Isto é que é vida!".
Ao pioneirismo destes continuadores das ideologias colectivistas dos "amanhãs que cantam", lanço aqui, assim, o meu incentivo a que se não deixem abater pelas forças contra-revolucionárias e que se mantenham na via visionária inaugurada por Tony Blair, quando aconselhou os seus compatriotas a chuparem-se uns aos outros com maior frequência. E que nuestros hermanos tributem uma homenagem digna desse nome ao seu primeiro-ministro e a Laura Garrido, presidente do Conselho da Juventude, exigindo a decorrente segunda fase de uma educação sexual alargada e progressista, na qual possam ser utilizados pela juventude espanhola, inclusivé ao nível do ensino da identidade do género, manequins insufláveis que reproduzam as formas físicas quer de um quer de outro.
A bem de uma humanidade livre.
(Texto não submetido a revisão final, mas redigido com o gosto possível)

13 novembro 2009

Psscchhh...!


O que se aprende com o ministro Vieira da Silva...!

07 novembro 2009

Mário Crespo de novo


Os intocáveis
O processo Face Oculta deu-me, finalmente, resposta à pergunta que fiz ao ministro da Presidência Pedro Silva Pereira - se no sector do Estado que lhe estava confiado havia ambiente para trocas de favores por dinheiro. Pedro Silva Pereira respondeu-me na altura que a minha pergunta era insultuosa.
Agora, o despacho judicial que descreve a rede de corrupção que abrange o mundo da sucata, executivos da alta finança e agentes do Estado, responde-me ao que Silva Pereira fugiu: Que sim. Havia esse ambiente. E diz mais. Diz que continua a haver. A brilhante investigação do Ministério Público e da Polícia Judiciária de Aveiro revela um universo de roubalheira demasiado gritante para ser encoberto por segredos de justiça.
O país tem de saber de tudo porque por cada sucateiro que dá um Mercedes topo de gama a um agente do Estado há 50 famílias desempregadas. É dinheiro público que paga concursos viciados, subornos e sinecuras. Com a lentidão da Justiça e a panóplia de artifícios dilatórios à disposição dos advogados, os silêncios dão aos criminosos tempo. Tempo para que os delitos caiam no esquecimento e a prática de crimes na habituação. Foi para isso que o primeiro-ministro contribuiu quando, questionado sobre a Face Oculta, respondeu: "O Senhor jornalista devia saber que eu não comento processos judiciais em curso (…)". O "Senhor jornalista" provavelmente já sabia, mas se calhar julgava que Sócrates tinha mudado neste mandato. Armando Vara é seu camarada de partido, seu amigo, foi seu colega de governo e seu companheiro de carteira nessa escola de saber que era a Universidade Independente. Licenciaram-se os dois nas ciências lá disponíveis quase na mesma altura. Mas sobretudo, Vara geria (de facto ainda gere) milhões em dinheiros públicos. Por esses, Sócrates tem de responder. Tal como tem de responder pelos valores do património nacional que lhe foram e ainda estão confiados e que à força de milhões de libras esterlinas podem ter sido lesados no Freeport.
Face ao que (felizmente) já se sabe sobre as redes de corrupção em Portugal, um chefe de Governo não se pode refugiar no "no comment" a que a Justiça supostamente o obriga, porque a Justiça não o obriga a nada disso. Pelo contrário. Exige-lhe que fale. Que diga que estas práticas não podem ser toleradas e que dê conta do que está a fazer para lhes pôr um fim. Declarações idênticas de não-comentário têm sido produzidas pelo presidente Cavaco Silva sobre o Freeport, sobre Lopes da Mota, sobre o BPN, sobre a SLN, sobre Dias Loureiro, sobre Oliveira Costa e tudo o mais que tem lançado dúvidas sobre a lisura da nossa vida pública. Estes silêncios que variam entre o ameaçador, o irónico e o cínico, estão a dar ao país uma mensagem clara: os agentes do Estado protegem-se uns aos outros com silêncios cúmplices sempre que um deles é apanhado com as calças na mão (ou sem elas) violando crianças da Casa Pia, roubando carris para vender na sucata, viabilizando centros comerciais em cima de reservas naturais, comprando habilitações para preencher os vazios humanísticos que a aculturação deixou em aberto ou aceitando acções não cotadas de uma qualquer obscuridade empresarial que rendem 147,5% ao ano. Lida cá fora a mensagem traduz-se na simplicidade brutal do mais interiorizado conceito em Portugal: nos grandes ninguém toca.

05 novembro 2009

Sempre igual a si mesmo, sempre sempre ao lado do povo


Acabei de ouvir a intervenção de Paulo Portas na Assembleia da República e a resposta que lhe foi dada pelo, de novo, primeiro-ministro. Apenas dois reparos:
- José Sócrates recusa-se a anular a avaliação dos professores feita este ano, dado que isso seria injusto para os docentes que obtiveram as classificações de Bom, de Muito Bom e de Excelente. Não lhe passou pela argumentação a possibilidade de que este sistema de avaliação possa, pelo seu grau de inadequação e arbitrariedade, vir a atribuir essas classificações precisamente a quem não as merece, criando uma outra situação de injustiça.
Isabel Alçada, entretanto, tomava notas, com um sorriso,
- Paulo Portas frisou que o aumento previsto de 1,25% para os reformados significa um aumento de 3 euros numa reforma de 243 e lembrou os oficiosos 15% de fraudes na atribuição do rendimento mínimo, para sugerir a distribuição do montante correspondente por essas mesmas reformas. Sócrates corrigiu-o: a percentagem, ripostou, é, na realidade, de 2%.
Foi pena que António Guterres não se encontrasse presente, para acrescentar, sem qualquer hesitação, que o aumento é, assim, não de 3 mas de 4,8 euros. O que constituiria motivo para que qualquer reformado eventualmente presente na AR não só lhe saltasse para o colo como, em sinal de reconhecimento e festejo de tal medida, avisasse no bar da Assembleia de que os seus primeiros 4, 8 euros se destinariam a custear um pequeno-almoço de José Sócrates.
É que isto, ou há moral ou comem todos.

04 novembro 2009

Sem tirar nem pôr


Transcrevo a seguinte notícia dada pelo Sapo:
Lisboa, 04 Nov (Lusa) - O professor universitário Santana Castilho defendeu hoje a suspensão imediata do modelo de avaliação dos professores, que considerou "medíocre e humanamente desprezível", pelo que só pode ter como destino "o caixote do lixo".
"Isto não é matéria de opinião, são factos. O modelo de avaliação dos professores é medíocre e humanamente desprezível. É um instrumento que só pode ter uma solução: o caixote do lixo", defendeu Santana Castilho, que falava como orador convidado num debate sobre Educação organizado pelo PSD.
Para o docente universitário, o actual modelo de avaliação resulta de políticas elaboradas "por quem não sabe pensar a Educação" e por isso não é passível de ser melhorado.
"Medíocre" e "humanamente desprezível" são os termos exactos. Nada mais a acrescentar. Só quem, como diz Santana Castilho, não sabe pensar a Educação -ou não está interessado nela ou ainda quem desconhece o actual estado das coisas nas escolas (públicas, mas também nas privadas)- poderá afirmar algo diferente.
É urgente a redefinição e a reestruturação do ensino em Portugal, bem como o reposicionamento do papel e da actuação do professor dentro dele, além do estabelecimento do que se considere como o leque aceitável de características psicológicas, de conhecimento científico e de capacidade pedagógica que permitirão o início e a continuação da actividade docente.
Em paralelo, a definição de "aluno" é também extremamente importante. É porque ser-se aluno não constitui uma natureza, mas, tal como ser-se professor, uma conquista pessoal, voluntária, portanto, que se reforça e é reforçada ao nível dos direitos e deveres inerentes ao conceito de cidadania.

03 novembro 2009

De um país à Vara larga


(o título que dei a este post é uma frase que ouvi, ontem, a um amigo e que achei adequada ao nome e ao espírito deste blog)

Recebi de Mecago Endioz, que comentou recentemente o meu texto intitulado "Então vá!", a seguinte missiva, que transcrevo de seguida:
Queridos amiguinhos

Com certo espanto da minha parte recebi hoje dum dos meus ou até mesmo do meu afilhado preferido uma carta lancinante, que me deixou perplexo e tristemente angustiado. Como é possível que haja tanta maldade no rude coração dos homens, ou melhor, para dizer melhor, na víscera cardíaca dos ditos, que mais parecem bichos-feras, sem respeito por aqueles que dão à grei, à comunidade e mesmo ao clube dos seus amores o melhor de si próprios?
Até, confesso, as unhas dos pés se me alevantam, mas não vou agora por aí para não me enervar, que me torno um zebú, um bufalão de vigor muscular quando isso acontece, o que não augura nada de bom para quem me caia na mira (bícepes de galfarro…não sei se me entendem…).
Segue, sem quaisquer comentários, a carta, que conquanto curta é sobriamente explicativa. E permitam-me o desabafo: cafolhos me radem, que até quase que me dá a cólera mórbida!


Meu Padrinho
Longe vão os tempos em que o padrinho me passava a mão pelo cocoruto, com essa sua expressão amorável, dizendo concomitantemente: “Armandino, irás longe meu rapazote: o que sinto sob esta minha mão que te afaga os anelados cabelos é um mundo de congeminações positivas!”.
E eu moita. Mais interessado nas brincalhotices com outra gaiatagem, nem lhe respondia. Raspava-me era para ir dar chutos na trapeira, no largo aonde meu pai, Joaquim Vareta, tinha a sua lojeca de saldos.
Foi aí que me afiz à frequentação dos números, meu superavit intelectual nisto de ir vivendo à espera de melhores dias.
Mas se, garoto, eu descartava seus conselhos, querido padrinho, para ir para a reinação, nunca cá por dentro, no melhor lugar do imo, deixei de sentir um badalar harmonioso das suas boas palavras a chocalharem nas paredes do meu querer espiritual.
Fiz-me homem, cresci em concordância, ainda que não muito pois fiquei baixote (o que aliás me foi útil, disfarçava melhor o meu apetite entre bosques de granjolas que andavam, na politica de engate em que eu me especializara, também à cata de minas de pedrarias.
Beneficiei o erário público, o que só a alguns fazia rir ao ouvirem-me. Dei nome à pátria, subindo a pulso (de carga). Escorei gajos pouco firmes na travessia de pântanos e outras brincadeiras do caraças desta nação fermosa.
E não é que ontem, com maldade, uns bófias me arrecadaram e me constituíram arguido, de remolhão com outros da quad…da companhia…no âmbito de uma tal Face Escondida?
Tal está a moenga, padrinho! Até uma pessoa perde a fé nas Escrituras (de andares).
Abraça-o e beija-lhe, castamente, a mão forte e leal o seu afilhado atencioso
Armandino (Vareta)

Das aulas de educação sexual no contexto do sentido da vida, segundo todos os santos Monthy Python

02 novembro 2009

A Encarregada da Educação


À pergunta feita por uma jornalista sobre qual a política a seguir futuramente pelo ME, a nova ministra respondeu que será a mesma, "mas com um beijinho".
A avaliar pela expressão utilizada, será, assim, de supor que Isabel Alçada não abdicará das suas funções educativas no respeitante aos docentes cuja tutela assumiu e que, portanto, se os seus pupilos demonstrarem que sabem como comportar-se, não deverão pôr de lado a possibilidade de uma conveniente palmadita. Seguida de um beijinho, é claro, que as mães só querem o nosso bem e um beijinho dispõe o espírito para a compreensão do castigo.
A bem da pedagogia socialista.

01 novembro 2009

Então, vá!


Folheando o PÚBLICO de ontem, pus-me a ler um texto de Eduardo Cintra Torres que me deixou em estado criativo de verdadeira graça. Dispôs-se Cintra Torres, com ele, temerariamente, a arrostar com o provável anátema dos mentores de uma nova moda literária, adoptada por um grupo de letrados portugueses que vozeiam num blog, os quais, em apoio ao que é dito por Pedro Mexia num ou dois de textos seus sobre o assunto, decidiram excluir da respectiva prosa os pontos de exclamação, afirmando que continuará a usá-lo como sempre o tem feito, dada a inquestionável utilidade desse sinal de pontuação.
Não se pense, todavia, confidencia-nos, que ele próprio está isento de manias igualmente questionáveis e susceptíveis de serem postas em causa, exemplificando com a sua natural tendência a excluir liminarmente da vista os romances em cujo título figure um verbo. Algo assaz singular, sem dúvida, mas que é nele irreprimível. E lança-se, em seguida, numa aventura da memória em direcção ao tempo em que vivia com a sua família parental, durante o qual se deu conta dessa sua idiossincrasia, de que só se tornou consciente mais tarde, quando, por influência de Lídia Jorge, leu As Velas Ardem Até ao Fim, de Sandór Márai, Lídia Jorge que, apesar de possuir «uma folha de serviço impecável, apenas com romances sem verbos nos títulos, perdeu as estribeiras» e publicou Combateremos a Sombra. Disparando, depois, para a vastidão das viagens literárias que a existência lhe proporcionou já, registando o exemplo dos inúmeros e consagrados autores, nacionais e estrangeiros, que, no decorrer dos séculos XIX e XX, não caíram nesse pecadilho, desastroso para a aspiração a serem lidos. Camilo, nota, soçobrou somente três vezes, entre dezenas de títulos que publicou, Aquilino, outras tantas. Quanto a Dinis Machado, é certo que, cito uma vez mais, «escreveu O que Diz Molero, mas quando a forma verbal se segue a uma conjunção subordinativa “que” ou “quando” aceita-se melhor». A condenação de Miguel Sousa Tavares é, porém, irremediável, ao escrever «qualquer coisa com David Crockett que dá vontade de deixar morrer a personagem sem mesmo começar a leitura».
Termina Cintra Torres com o seguinte passo, onde é possível escutar subliminarmente uma inflexão e uma ênfase de voz que como que pretendem despertar a nossa atenção para a indesmentível cientificidade das razões que determinam a sua intuitiva aversão: «Que títulos com verbos são próprios de certa literatura não é um preconceito meu. Um título com verbo promete xarope. Consultei na Wikipédia os 145 títulos da espanhola Corín Tellado editados em 1972 e 1973 (sim, em apenas dois anos). Desses, 105 têm um verbo no título (72%). Em Barbara Cartland a percentagem é menor, mas facilmente encontrei dezenas.». E remata: «Contudo, até agora nunca tinha visto um título com dois verbos, ainda por cima com ponto de interrogação. Ia morrendo ao ler o título do novo António Lobo Antunes: Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?. Eu não sei que cavalos, nem nunca saberei.».
Devo confessar que, até chegar a esta última parte, me senti literalmente assaltado pela sensação do jornal PÚBLICO me procurar enganar no que toca à qualidade intelectual daqueles a quem proporciona guarida. Lembrei-me, até, da frase rude proferida por José Mourinho, a propósito do seu colega de profissão Jaime Pacheco: “O cérebro dele só tem um neurónio e, mesmo esse, funciona mal”. Aos poucos, contudo, foi-me cedendo a resistência da mente face à luminosidade singularmente persuasiva do que lera. Mea culpa!, digo agora. É que a genialidade intrínseca ao funcionamento holístico de Eduardo Cintra Torres, através do qual o corpo se sintoniza tão perfeitamente com o acto de desvendar cerebralmente os mistérios da estrutura inerente ao real que nos sustenta e no qual nos cumprimos, deslumbrou-me a um ponto tal que somente a poesia poderia exprimir o que sinto agora. Mas quando o génio é pouco e o talento não ajuda, o que fazer? O que fui incapaz, também eu, de reprimir.
Um modesto poema, um singelíssimo poema, de um só verso composto, coincidente, inclusive, com o título, que se me afigurou adequado, no qual, porém, não fui capaz de evitar a inclusão não de duas, mas de quatro formas verbais e mesmo da presença de um ponto de interrogação e outro, de exclamação, associados. Com os meus maiores pedidos de desculpas, pela forma, mas sabendo-o eventualmente desculpável porque eivado de total sinceridade, aqui lho deixo:
Oh, filho! E se fosses c… ao Bilhar Grande, a ver se isso te passa?!