
29 setembro 2010
Notícias dos construtores do Universo

Um perfeito inútil no seu melhor!

28 setembro 2010
Auxiliar de memória
Ontem à noite, estendi-me frente à televisão e por ali fiquei a ruminar o que ia ouvendo. A partir de certa altura, dada a habitual falta de interesse da programação dos diversos canais quanto a filmes e séries (estava a dar televisão em todos, como diria o Quino pela boca da Mafaldinha), lá fui parar, contrariado, aos habituais canais de informação e aos generalistas. E acabei por me fixar, primeiro na SICNotícias, depois, na RTP1. No Jornal das 9 e no Prós e Contras.
Pousei no Jornal das 9 na altura em que falava já Henrique Neto, velho e digno membro do Partido Socialista. Que não tem por hábito mandar recados por ninguém. E que referia o facto, impensável no Portugal de há duas décadas atrás, face ao nível político e intelectual dos dirigentes de então, de vermos um secretário-geral da OCDE em Lisboa a dizer-nos o que havemos de fazer. E que, prosseguindo, lembrava a intervenção que tivera no congresso do seu partido, ao tempo de Guterres, no qual, contrariando as sonoras proclamações triunfalistas de que a economia ia de vento em popa, afirmara, no meio das sorrisos depreciativos de quem o alcunhava de “derrotista” e de “velho do Restelo”, que, pelo contrário, ela se encontrava em declínio, pelos mesmos motivos que hoje servem para justificar a crise.
E que disse mais: que as suas intervenções estavam registadas para quem as quisesse ler, só que ninguém as lia nem estava interessado em lê-las. E que, quando isso acontecia, eram, em geral, convenientemente deturpadas. E que ao país não será nada fácil encontrar uma saída para o actual estado de coisas. Porquê? Porque a quem está no poder não interessa mudar seja o que for. E quem está no poder? Os boys do PS, para cujo perigo que constituíam Guterres alertava o próprio partido (ingenuidade ou puro desespero?, pergunto eu), dominando a máquina do Estado, emperrando-a, sempre que necessário, para manter o seu estatuto social e económico. Disse-o. Desassombrada e tristemente.
Uma hora e tal depois, eis que aterro no programa da Fátima Campos Ferreira. Desta vez, no momento em que ela punha uma questão ao Professor Jacinto Nunes, ex-ministro de um governo da iniciativa de Ramalho Eanes (em 1977 ou 78, nem eu nem ele nos lembrávamos já) e ex-governador do Banco de Portugal. Jacinto Nunes, que foi sempre um exemplo de competência, seriedade e isenção. E de dignidade. E que respondeu à pergunta da moderadora, sobre se a actual crise política poderia ser atenuada com um governo da iniciativa de Cavaco Silva da seguinte maneira: seria completamente desaconselhável um tal recurso, pois que nenhum partido apoiaria esse governo, já que todos eles se preocupam somente com o seu lugar, influência e poder na política portuguesa, a exemplo do que sucedera àquele de que fizera parte e aos restantes promovidos por Eanes.
E que disse, também ele, mais: disse que os diferentes grupos políticos de hoje se caracterizam pela grosseria, pela má-educação e pela falta de horizontes culturais e cívicos, pela estreiteza de vistas, pela agressividade mútua. Não o disse exactamente por estas palavras, mas aquelas com o que o exprimiu estavam carregadas deste mesmo sentido e nelas ressoavam a tristeza, a amargura e a indignação. Ressoavam discretamente, porque o Professor Jacinto Nunes só deixa transparecer a sua educação, mesmo quando a desilusão lhe amarfanha a alma.
E, finalmente, quando hoje se pôde ouvir, na comunicação social, a senhora ministra da Educação, dizer, com a mais completa impunidade, que considerava o caso do aluno que entrou com vinte valores no Ensino Superior, bem como outros casos semelhantes, “absolutamente normal”, fiquei a pensar que se abrira mais um alçapão, e que aquilo que se julgara ser o fundo, afinal ainda não o era. Para, logo de seguida, sentir que um segundo se abrira, ouvindo-a proclamar a maior fraude de que tenho conhecimento ao nível do ensino, um verdadeiro crime de lesa-pátria designado por Novas Oportunidades, como sendo um “ensino de qualidade”. E, aí, já não pensei em mais nada.
Escrevi isto. Só para eu próprio ter perante mim, sem dó nem piedade, o Portugal em que nos tornámos. Para que a minha memória não esqueça.
26 setembro 2010
25 setembro 2010
À pesca

No Blasfémias
Tolerámos 40 anos de Salazar. E não mudámos assim tanto
Quando Salazar foi eleito o “maior português de sempre” muitos encolheram os ombros: a votação tinha pouco significado e era tudo menos representativa. Mas quando, 40 anos passados sobre a morte do ditador, entramos em qualquer livraria e encontramos resmas de novidades que chegam a encabeçar as listas dos livros mais vendidos, interrogamo-nos: porquê este fascínio por Salazar?
Há uma resposta simples, talvez demasiado simples: a maioria dos portugueses já não viveu como adulto sob o seu regime e, face ao desencanto com os políticos de hoje, acaba a olhar ou para um Salazar mitológico ou para um desconhecido que lhe suscita curiosidade. Esta atracção também é devedora do registo maniqueísta que tem dominado o discurso público sobre o ditador, um registo que não autoriza nuances e alimenta estereótipos.
Mas há outra questão, mais profunda e inquietante: a de saber como foi possível Salazar manter-se no poder durante 40 anos.
Na mais importante obra saída nos últimos meses, Salazar, Uma Biografia Política, Filipe Ribeiro de Menezes prefere contudo olhar para o porquê de Salazar se ter querido manter no poder. O historiador propõe duas razões: “A primeira, e mais importante, era uma crença em si próprio como agente providencial; a segunda era a percepção de que, sem ele no centro, o regime, assente numa aliança tecida de um delicado equilíbrio entre forças conservadoras, desabaria”. Contudo, se “durante a maior parte das quatro décadas [em que governou] a sua principal prioridade foi manter-se no poder”, essa vontade, mesmo que muito forte, mesmo que servida por uma enorme capacidade para gerir os equilíbrios no interior do regime, não explicam só por si a sua longevidade. Também não a explica o aparelho repressivo do regime. Não há dúvidas de que o Estado Novo era uma ditadura que utilizava sem estados de alma instrumentos como a censura, a discriminação e a perseguição dos opositores, a tortura nas prisões e a discricionariedade na aplicação de penas indefinidas, só que a contabilidade da repressão é, por comparação com outros regimes, modesta. Mais: Portugal nunca foi um Estado totalitário, apenas (o que não é pouco) autoritário. Salazar não se preocupava muito com a sua popularidade, mas o regime contou ora com o apoio tácito da população, ora com a sua indiferença, nunca teve de enfrentar uma hostilidade generalizada. Só a organização clandestina do PCP manteve uma espécie de guerra civil com a PIDE, a que a maioria de população foi quase sempre indiferente. Infelizmente o pouco que os portugueses se mobilizaram para terem as suas liberdades de volta é um dado histórico de que não nos podemos orgulhar.
Salazar, para se manter no poder, não teve mais do que interpretar esta maneira de ser do povo português. Ao contrário dos seus antecessores, nem sequer promoveu uma revolução, não teve de substituir as hierarquias nem de gerar novas obediências: teve apenas de promover o que podemos designar como uma “acalmação”, baixando a “febre política” para permitir aos portugueses “viver habitualmente”. Apor isso até aos anos 60, quando as coisas começaram a mudar, os poucos sobressaltos sentidos pelo regime – como aquando do comício da Fonte da Moura, no Porto, na campanha de Norton de Matos, ou sobretudo durante a campanha de Humberto Delgado – nunca foram suficientes para que se sentisse a aproximação do fim do regime.
Não deve pois surpreender-nos que a mesma mistura de apatia, dependência do Estado e iliberalismo continuem a marcar a paisagem política portuguesa. Facilmente é possível encontrarmos quem feche os olhos ao autoritarismo ou ao desrespeito do Estado de Direito desde que lhe falem em “desenvolvimento”. Tal como é fácil assustar os portugueses com a mínima perspectiva de abalo da babysitter estatal. Ou tal como é popular, tanto à esquerda como à direita, criticar qualquer actividade que dê lucro e fugir de tudo o que implique riscos.
Quarenta anos depois da morte de Salazar o país que o aturou pacatamente mudou muito – mas sobretudo à superfície. Salazar já pertence à história, mas os defeitos portugueses que autorizaram o salazarismo continuam a apoquentar-nos. Todos os dias.
24 setembro 2010
23 setembro 2010
Dos grandes princípios da governação
20 setembro 2010
Após denodada luta com o "bicho informático"...
19 setembro 2010
É o que acontece! É o que a-con-te-ce...!!
18 setembro 2010
Heil, Greenpeace!

17 setembro 2010
14 setembro 2010
Ninguém vê? Ninguém ouve?

13 setembro 2010
Da desgraçada lucidez

Excerto de uma entrevista de Luís Figo à TSF, a propósito da sua possível candidatura à presidência da FPF:
«Estou um bocado queimado em relação a Portugal, pelo menos por causa dos últimos acontecimentos em relação à minha pessoa», afirmou.
«A única coisa que posso dizer é que, quando quiser mais problemas, regresso a Portugal», acrescentou.
Sobre o actual momento que se vive na selecção nacional, Luís Figo revelou que já esperava que o caso Queiroz terminasse da forma que se conhece, mas considerou que não foi defendido o interesse nacional.
«Acho que ao abrirem este processo já se sabia o desfecho final, mas penso que se perdeu tempo importante quando está em vista um prioridade nacional, um interesse nacional, como é o caso da selecção», referiu Luís Figo.
11 setembro 2010
09 setembro 2010
Ou bem que se é ou bem que não se é...
... genial!08 setembro 2010
03 setembro 2010
Não percebo!

Ainda a propósito de uma cerimónia muçulmana
A Jihad inicia-se após a Hégira, em 625 d.C., e traduz-se, para começar, na conquista pelos exércitos islâmicos, sob comando árabe, do Médio Oriente e do Norte de África. Oitenta e seis anos depois, em 711 d.C., esses exércitos entram na Península Ibérica, dominando-a, na sua quase totalidade, no decurso das duas décadas seguintes, sendo a sua passagem para além dos Pirinéus travada, já em solo Franco, na batalha de Poitiers, em 732 d.C.. Todo este processo, realizado a ferro e fogo dura, pois, cento e sete anos.
Só em 1095, passados mais de três séculos e meio, é que terá lugar a primeira Cruzada, com o intuito de devolver à cristandade o acesso aos lugares santos do Cristianismo, entretanto usurpados pelo Islamismo tanto a cristãos como a judeus. A última delas, a quinta, durará quatro anos, entre 1217 e 1221, e o que resultará do conjunto de todas elas, nesse intervalo de cento e vinte e seis anos, não será sequer o domínio europeu da zona, quanto mais a reconquista da área da África do Norte, toda ela cristã antes da imposição, por via armada, do Islão.
A conquista islâmica dos territórios norte-africanos e europeus nada tem a ver com a devolução do que quer que fosse a que os árabes tivessem direito. Nem mesmo podem alegar, para tal, qualquer ameaça vinda da Europa da época. Os europeus, bárbaros em emergência, ocupados em guerras que definissem os seus novos territórios, decorrentes da derrocada do Império Romano do Ocidente, tinham mais em que pensar do que no Médio Oriente. Os exércitos islâmicos assenhorearam-se, em nome da salvação pela verdadeira religião ou a pretexto dela, do que não era seu. Só não se apoderaram do que, por fim, não lhe permitiram e foi preciso rechaçá-los, numa luta que, no caso ibérico, durou até 1492, isto é, em contas redondas, oito séculos.
Perdidas as veleidades de se tornarem numa outra versão da antiga Roma imperial, unificada, política e administrativamente, pelos princípios do Alcorão, procuraram sufocar a Europa através do impedimento à livre circulação de bens e de ideias existente, desde a Antiguidade, entre o Ocidente e o Oriente, nomeadamente entre a Europa e a Índia, base da fertilidade das civilizações grega e romana e de todas as restantes que se haviam desenvolvido em torno do Mediterrâneo. O seu declínio, comercial e militar, começou, de vez, com a chegada dos portugueses a Calecut e, posteriormente, com o aparecimento e o estabelecimento de holandeses, franceses e ingleses por todo o Oriente.
A partir do século XVIII, com a Revolução Industrial, acentuou-se cada vez mais a decadência de uma civilização em que o saber se tornou prisioneiro das cadeias de uma teologia incomparavelmente mais limitadora do que o Cristianismo alguma vez fora. O desenvolvimento dos conhecimentos técnico-científicos transportou o Ocidente para o plano de uma outra humanidade, enquanto os árabes, excepção feita aos tradicionais tiranetes assassinos com poder de compra que os dominavam, estiolaram entre o cavalo, o camelo e o burro, presos de impérios orientais que se faziam e desfaziam como sempre aconteceu desde há três milénios. Até que, por fim, inevitavelmente, sobretudo a partir do último quartel do século XIX e até ao final da II Guerra Mundial, surgiram os ingleses e os franceses. Era o fracasso final do povo eleito, o povo guiado pela palavra do único Deus, Allah, revelada ao terceiro e, determinadamente, o último dos profetas, Muhammad. O fracasso da tarefa que se propusera a si próprio e em que assentara a sua identidade. Ou reagia, ou estaria condenado para toda Eternidade.
Ao contrário do que é dito no Evangelho, onde a vingança é sinónimo de degradação espiritual, o Alcorão entende-a como legítima sem, no entanto, a definir (o que levanta muitas e interessantes questões). Porém, a vingança, perspecyivada por uma cultura como a árabe, repressiva e agressiva, na qual a dissimulação e hipocrisia são confundidas com uma das quatro virtudes cardeais tradicionais, a Prudência, torna-se no conceito que alimenta, fundamentando-o, um ressentimento venenoso. Esse ressentimento assumirá, assim, para que o povo de Deus não perca a face perante o Criador e alcance o Paraíso, a seguinte forma teológica: os Ocidentais têm por eles as forças do Mal, perdemos esta batalha, mas a força de Allah, que está desde sempre em nós, alcançá-los-á, no final; teremos que o derrotar definitivamente, aos impuros, vencendo-os-os e submetendo-os às leis do Alcorão. A nossa vingança é a vingança de Allah. Utilizaremos os seus conhecimentos contra eles, as forças do Mal virar-se-ão contra ele próprio e assim será destruído.
Este não é, evidentemente, o espírito de todos, senão de uns quantos, que, no entanto, são a parte verdadeiramente activa, como se tem visto. Os restantes oscilam entre um islamismo passivo, mais ou menos consciente de si mesmo, que demonstra esse ressentimento através da resistência “cultural”, encerrando-se, no estrangeiro, em comunidades fechadas e, no seu próprio país, na lei islâmica como fundamento das leis nacionais; e, evidentemente, o islamismo-da-boca-prafora, como plano de defesa de interesses mais ou menos instituídos e confessáveis (no que, aliás, são semelhantes a inúmeros exemplares do mesmo tipo, espalhados pelo planeta, residentes em diferentes religiões e ideologias).
Dizer, pois, como o faz, no seu comentário, um anónimo, que a Jihad constitui o reverso da medalha das Cruzadas, indicia pura ignorância ou cartilha política de conveniência ideológico-partidária, acriticamente papagueada. Porque, atendendo ao que se passou, só a afirmação oposta poderia fazer sentido. As Cruzadas e os Cruzados não foram mais do que a resposta tardia a algo que cujo começo foi da iniciativa e da responsabilidade dos árabes e do “seu” Islão. Dos crimes e das crueldades, ninguém ficaria impune num julgamento imparcial. Trazê-las à baila como argumento revela, da parte dos seus dirigentes, as sinuosidades propagandísticas dos seus planos. Com efeito, se a moral tivesse a ver alguma coisa com os factos que a humanidade produz como história sua, os árabes deveriam, por este motivo, manter-se num silêncio envergonhado, com tanto maior razão para tal quanto a política do punhal fratricida que, desde sempre, inclusive no seu apogeu, grassou entre eles, não desapareceu ou sequer se atenuou.
01 setembro 2010
Deixei de ler o Expresso...

30 agosto 2010
Efeito "bola de neve"
14 agosto 2010
12 agosto 2010
Ricardo Araújo Pereira no seu melhor

O aspeto mais intrigante dos incêndios de verão é a aparente surpresa com que acolhemos um fenómeno que é recorrente e pontual. Não há nada mais previsível do que os fogos em agosto, e no entanto continuam a abrir telejornais. Todos os anos Portugal escorrega na mesma casca de banana, e é sempre notícia. Trata-se de uma tradição que sobressalta.
Toda a gente está preparada para a Volta a Portugal em Bicicleta, mas ninguém espera a Volta a Portugal em Carro de Bombeiros, que decorre todos os verões exatamente na mesma altura. Imagino que, nas redações, os jornalistas tenham uma minuta com o modelo da reportagem e as questões que é preciso colocar a populares, bombeiros e ao ministro da Administração Interna. No final de julho, tiram a minuta da gaveta e dirigem-se para onde houver labaredas. O espetador tem a sensação de estar a ver sempre o mesmo jornalista, o mesmo bombeiro, e o mesmo ministro da Administração Interna. Não são reportagens, é uma peça de teatro. E está em cartaz há mais tempo que Te Mostrar em Londres.
JORNALISTA: Estamos aqui em [colocar nome da localidade], onde um violento incêndio está a consumir a floresta e começa a ameaçar algumas casas. Comigo tenho o comandante [nome do bombeiro]. Sr. comandante, qual é o ponto da situação?
BOMBEIRO: Olhe, com os meios que temos estamos a fazer o melhor possível. O batalhão é pequeno e, além disso, precisávamos de mais dois camiões cisterna e dava-nos jeito um helicóptero.
JORNALISTA: Aproveito então para falar com o ministro da tutela, que também tenho junto a mim. Sr. ministro, o que é que está a ser feito para prevenir este desastre?
MINISTRO: Disse desastre? Costuma ser flagelo.
JORNALISTA: Tem razão. Desastre é para as cheias. Peço desculpa. O que é que está a ser feito para prevenir este flagelo?
MINISTRO: Estamos a trabalhar no sentido de criar condições que permitam promover um esforço muito sério com vista a desenvolver mecanismos que conduzam ao reforço das infraestruturas. E recordo que a área ardida este ano é menor que a do ano passado.
JORNALISTA: Obrigado, sr. ministro. Adeus e até para o ano no mesmo sítio e à mesma hora.
E depois cai o pano. Os atores recolhem aos bastidores e a plateia boceja. O incêndio continua a queimar tudo, incluindo o papel onde os responsáveis apontaram que, para o ano, é mesmo necessário limpar as matas. Os únicos metros quadrados que não ardem são aqueles em que as estações de televisão montam o tripé para o jornalista entrevistar os bombeiros e o ministro. O resto costuma desaparecer, até porque Portugal parece ser um país que tem mais pirómanos por metro quadrado do que árvores. A vida também está difícil para eles. A quantidade de pirómanos residentes em território nacional sugere que, no nosso país, aquela máxima sobre a plena realização pessoal foi ligeiramente adaptada. Aqui, ao que parece, só tem uma vida verdadeiramente completa o cidadão que tiver um filho, escrever um livro e queimar uma árvore.
10 agosto 2010
07 agosto 2010
Em coisas como estas é que se pode apreciar...

04 agosto 2010
Um ministro determinado...

03 agosto 2010
30 julho 2010
23 julho 2010
Ah!...

20 julho 2010
16 julho 2010
09 julho 2010
Mais uma...

É assim que cá (lá) se tratam as pitonisas modernas? Isto diz bem do respeito que por lá (cá) se tem pelo sagrado - e há algo mais sagrado do que um vigoroso derby?
Mas da minha pouca sabença filosófico-religiosa (há lá coisa mais religadora do que um belo golo, depois de uma jogada inesquecível!) sempre saberei, talvez, isto: que independentemente do aproveitamento que o Zapatero (o nome deste tipo, tão real politik, sempre me fez farnicoques) e sus diversos muchachos vão fazer, os nuestros manos que andam entre as quatro linhas mostraram até agora pelo menos isto: que um pouco de trabalho e de garra, caldeada por uma certa sensatez, sempre dá bom resultado. Seja na bola ou na vida societária, vulgo países, que dantes eram nações e hoje se parecem mais com involuntárias associações de consumidores. (E vá lá que inda se vai tendo para consumir alguma coisa, não é como naquela loja romena do tempo dos amanhãs que cantavam onde só havia, como mostraram as inúmeras agências noticiosas de todo o lado, ossos de suíno e de vaca para fazer/dar gostinho a sopa...). Adiante.
Ou seja: polvo por polvo prefiro, mesmo distanciado, o da bola. Clarificando melhor: o das previsões. O do arroz malandrinho, coitado dele, que merecia pela ajuda que deu a distrair as gentes, acabar de velhice num zoológico. Mas a tolice e a superstição - mesmo engraçadas - têm razões que a razão desconhece...
Dedico o envio de hoje aos espanhóis, ao povo espanhol que me habituei a estimar. E que, tal como os portugueses de bem, não alinham com polvos (dos outros, está de ver!).
O abrqs proverbial e nominal do vosso
08 julho 2010
Santana Castilho, no PÚBLICO

No livro que acaba de lançar, Maria de Lurdes Rodrigues cita Max Weber para justificar a sua acção política, movida, diz ela, pela "ética das convicções". Atentem, generosas leitoras e leitores, ao naco de prosa que a ex-ministra escolhe para caracterizar quem tem vocação para a política (no caso, ela própria):
"... Só quem está certo de não desanimar quando ... o mundo se mostra demasiado estúpido ou demasiado abjecto para o que ... tem a oferecer ... tem vocação para a política ..." (in A Escola Pública Pode Fazer A Diferença, p. 18)
Freud ensinou-nos que nenhuma palavra ou pensamento acontecem por acidente. Uma coisa são os erros comuns, outra, os actos falhados. É falhado o acto que leva Maria de Lurdes Rodrigues a citar, assim, Weber, para justificar a sua acção política. E fez tudo o que fez, confessou-nos no circo do lançamento, com grande alegria, qual pirómana que se baba de prazer ante as cinzas da escola pública que deixou.
Eis as entranhas de uma coisa que não é pessoa, que não tem alma, e que não aguenta mais que 18 páginas para dizer, de modo obsceno, o que pensa dos que esmagou com sofrimento.
O livro é híbrido e frio, como a autora. É um relatório factual e burocrático sobre as suas tenebrosas medidas de política educativa. A excepção a este registo está na introdução, um arremedo ensaísta de alguém que chegou a ministra sem nunca ter percebido o que é uma escola e para que serve um sistema de ensino. Permitam-me duas notas factuais a este propósito e a mero título ilustrativo:
1. A autora introduz, como grande tema de debate sobre políticas educativas, o nível de conhecimentos adquiridos na escola. Interroga-nos assim: "... Os adultos que fizeram a quarta classe da instrução primária no tempo dos nossos avós sabiam mais do que os jovens que hoje concluem o 9.º ano? ..." (obra citada, p. 11). A questão é intelectualmente pouco honesta. Porque compara quatro anos de escolaridade com nove. Porque é formulada por alguém que contribuiu definitivamente para que não se possam hoje comparar resultados escolares, coisa que, apesar das dificuldades, se podia fazer na época a que alude.
2. A ex-ministra diz que não fez uma reforma da educação, que tão-só concebeu e aplicou medidas. Se é surpreendente o conceito ("reforma" foi palavra-chave citada até à exaustão na vigência do Governo que integrou), entra em delírio surrealista quando escreve (p. 15): "... Não se pode considerar que o conjunto das medidas configurem uma reforma da educação, porque de facto não foi introduzida uma mudança nos princípios de funcionamento do sistema educativo, ou uma mudança na sua estrutura e organização ...". Não mudou princípios de funcionamento do sistema educativo, nem mudou a sua estrutura e organização? E os estúpidos somos nós? Enxergue-se e tenha decoro.
Segue-se o Diário da República narrado aos papalvos por 20 euros e 19 cêntimos. Registam-se apoios, listam-se colaboradoras e colaboradores e referem-se reuniões. Nenhuma dúvida, nenhum apreço pelo contraditório que lhe foi oposto, muito menos qualquer riqueza dialéctica. Um deserto, numa imensa auto-estrada de propaganda.
Ao longo dos últimos cinco anos, fundamentei nesta coluna de opinião a oposição a cada uma das 24 medidas que o livro distingue, pelo que tão-só recordo as mais emblemáticas das que a autora refere: a aberração pedagógica e social, que nacionalizou crianças e legitimou a escravização dos pais, baptizada como "escola a tempo inteiro"; o logro do ensino profissional (Maria de Lurdes fala de 28.000 alunos em 2005, para dizer que os quadruplicou em 2009. Mas conta mal.
No ano lectivo de 2004-05 tinha 92.102 alunos no conjunto dos cursos que ofereciam formação profissional); a demagogia de prolongar para 12 anos o ensino obrigatório (na Europa a 27 só cinco países foram por aí) sub-repticiamente sustentada pela grosseira manipulação estatística que lhe permite afirmar que no ensino secundário temos um professor para cada 8,4 alunos (p. 90), pasmem quantos conhecem a realidade; a insistência no criminoso abandono de milhares de crianças com necessidades educativas especiais, por via da decantada aplicação da Classificação Internacional de Funcionalidade; a engenharia financeira e administrativa (depois veremos aonde nos conduzirá), que está a transferir para a propriedade de uma empresa privada, por enquanto detida pelo Estado, todo o património edificado; e, "the last, but not the least", a fraude pedagógica imensa que dá pelo nome de Novas Oportunidades, forma de diplomar a ignorância na hora, gerando injustiça e semeando ilusões.
Na cerimónia do lançamento do livro que acabo, sumariamente, de analisar, Sobrinho Simões, um cientista de grande gabarito e um homem de muitos méritos, referiu-o como "o mais sólido" que leu até hoje. Quem dedicou a vida a combater o cancro com o rigor da ciência não podia, estou seguro, afirmar o que afirmou, se tivesse analisado a produção técnica e legislativa que sustenta a racionalidade do livro que elogiou. Mas a vida actual é assim. Muitos sucumbem, adaptando-se a esta sociedade doente. Continuo felizmente de saúde. Por isso choro quando vejo cair os melhores.
04 julho 2010
Do interesse...

02 julho 2010
Acho que não é preciso muito mais...

30 junho 2010
Do absurdo e do sinistro

28 junho 2010
Voyeurismo socialista?

27 junho 2010
Só mais um dia...

26 junho 2010
23 junho 2010
Pois é...
18 junho 2010
Nicolau Saião, hoje, no TriploV

Mas era um ser humano, que merecia que não lhe babujassem o cadáver com fingimentos.
17 junho 2010
Viva a toda a gente!
Era, de facto, para ter recomeçado na 2ª feira, escrevinhei um post e tudo. Mas, uma vez mais, a minha disponibilidade foi-se em poucas horas e manter-se-á ausente até ao próximo sábado. Domingo, estarei de volta.
Até lá, fiquem com aquela que é, para mim, uma das grandes canções (embora das menos conhecidas) de Djavan.
10 junho 2010
Volto na segunda-feira, mas...

Uma única vez, no decorrer da minha vida, fui ao bolso de um fulano e, de certezinha por distracção, acontece que esse bolso era o meu…
Com propriedade o acto pode descrever-se dessa forma, no mínimo, porque ao tirar coisas das algibeiras fui sentindo as emoções do gatuno: a total ignorância sobre o que ia achar e uma curiosa excitação pelo que ia encontrando…
Estava bem fechadinho num autocarro de terceira e a viagem ia ser longa. Caía a tarde e, no exterior, a terra e o céu eram tão monótonos como uma tela na qual o pincel molhado da chuva houvesse imprimido uma descolorida melancolia. Não levava comigo nem jornais nem livros. Nas paredes do veículo não havia nenhum cartaz de publicidade sobre o qual pudesse efectuar um estudo apurado – isto porque qualquer acervo de palavras impressas é suficiente para me sugerir as infindáveis complexidades do humano engenho mental. Assim, por exemplo, quando me encontro frente às palavras “Sabão Sol” fico capaz de esgotar todos os aspectos do culto solar, de Apolo e da poesia do verão, antes de entrar no assunto propriamente dito e menos transcendente do sabão…
Mas no compartimento que ocupava não se viam nem imagens nem palavras em que pudesse deter o olhar, nada havia para além da inexpressiva madeira, no interior e, lá fora, a paisagem coberta de humidade
Ora, sempre me tenho negado com energia a admitir que haja coisas que não possuam qualquer interesse. Assim sendo, pus-me a olhar os encaixes das tábuas das paredes e dos assentos, meditando profundamente no empolgante tema que é a madeira. E no exacto momento em que começava a entender porque é que Jesus Cristo fora carpinteiro e não pedreiro ou mesmo padeiro, vieram-me de repente à ideia as minhas algibeiras. Sem disso ter consciência, carregava comigo um tesouro desconhecido! Aquelas ninharias que sempre se trazem distribuídas por todo o corpo, por aqui e por ali. E comecei a tirar coisas dos bolsos.
O que primeiro de lá saiu foram uns quantos bilhetes de eléctrico da carreira de Battersea, os quais me deram de imediato o material impresso de que estava a precisar: no verso de cada um deles lia-se um curto mas incisivo ensaio científico sobre certas pílulas medicinais. Dada a minha modesta condição económica desse tempo, os ditos bilhetes de eléctrico podiam considerar-se como uma minúscula mas selecta biblioteca científica. Continuasse eu a viajar daquela forma mais alguns meses – o que, na época, era muito de admitir – e estaria dentro em breve mergulhado com empenho numa polémica sobre os defeitos e as virtudes das pílulas, armando réplicas e tréplicas ora contra ora a favor, baseado nos dados que os bilhetes me facultavam.
Depois tirei do bolso um canivete. Um canivete, digamo-lo desde já, é objecto que só por si faz jus a um volume considerável de meditações morais. Pois a faca é um elemento típico de uma das primaciais origens práticas em que assenta, como sobre curtos e grossos pilares, a civilização humana. Os metais, o mistério daquilo a que chamamos ferro e aço, levaram-me a uma espécie de sonho arrebatado. Mediante a fantasia penetrei no âmago de bosques húmidos e escuros onde o homem primitivo topou, entre outras pedras, com esse estranho calhau. Vi-me no meio de uma escaramuça violenta e vaga, na qual os machados e os facalhões de sílex se quebravam, se estilhaçavam contra algo de novo que reluzia e que um dos furiosos combatentes empunhava. Escutei todos os martelos malhando em todas as bigornas do mundo; vi todas as espadas das guerras feudais e todas as engrenagens da batalha industrial.
Porque a faca é apenas uma espada curta; e o canivete é uma espada oculta. Abri-o – e pus-me a contemplar essa língua luzente e temível a que se dá o nome de lâmina; e concebi que talvez ela fosse o símbolo da mais antiga necessidade do homem…Mas no momento seguinte percebi que me enganara., pois o objecto que logo após me saiu do bolso era uma caixa de fósforos. Visionei então o fogo, que ainda é mais poderoso do que o aço; a chama, essa antiga coisa feminina e feroz, que todos amamos mas em que não ousamos tocar…
Veio a seguir um bocado de giz; e vi nele a arte toda, os murais de todos os tempos e de todos os lugares. Depois extraí do bolso uma moedinha de parco valor; e nela vi não só a efígie do nosso próprio imperador mas também a soma de todos os governos e da ordem, desde que o mundo é mundo.
Mas falta-me espaço para arrolar agora a lista completa de objectos que, num longo e esplêndido corrupio de símbolos poéticos, continuou a escorrer-me das algibeiras.
Uma coisa, contudo, posso assegurar-vos: nelas não consegui achar o bilhete do autocarro…
09 junho 2010
04 junho 2010
Uma carta de Nicolau Saião

Hoje refiro-me mesmo ao Verão.
Então aqui, pelo Alentejo, tem sido de atabafar.
" - Mas o que é que este quererá, hoje com esta conversa sobre o Tempo e o Clima?" - perguntará ali o confrade/a confradesa do canto, que é atilado/a e indagador/a?
Não, não é por isso, pelo que ressalta das palavras de Marco Aurélio ("Os que não têm nada para dizer, quando se encontram ou falam do tempo ou do clima...ou dos anos em que eram meninos"). Que eu até tinha coisas para dizer. Muitas coisas. Mas se me ponho a desbobinar, deixando a voz ao correr da pena...lembrando-me por exemplo daquele senhor que o povão começou por estimar, depois - pelas suas arteirices velhacas passou a detestar...e agora, mercê das suas videirices, acaba por desprezar (o que há dias, a propósito do anúncio de apoio a uma candidatura, achou que era um erro por ser fala prematura - colocando assim a ética política, com a hipocrisia que lhe é própria, ao nível apenas do timing...), se me ponho dizia a desbobinar, correrei o risco de vos aborrecer por encher muito o discurso.
Queria ressaltar, apenas, que deveremos entrar em breve na oficial (!?) época dos fogos!
E assistiremos, decerto, a muitas reportagens galvanizantes nas TVs - se acaso o nosso premier, com a inteligencia pragmática que se lhe conhece e o robusto bom senso de "animal político" como se auto-designou numa feliz tipificação, não der indicações de silêncio nas fileiras, para não alarmar as consciências já de si alavarintadas das lusas gentes. Como fez no ano transacto, em que os fogos não diminuiram mas todos ficámos muito mais descansados...
"Olhos que não vêem, coração que não sente" , como diz o Outro.
E pronto, uma vez esclarecida a pequena dúvida, resta-me desejar-vos bom fim-de-semana. Por mim, garanto que o vou ter! Cá por coisas. Contos largos. Mas lá um pouco mais para diante vos contarei. Yep!
... E já me esquecia, mas emendo já a mão: o envio de hoje, dedico-o aos Bombeiros lusos, tantas vezes a contas com a gandulice societária de gente que nem sequer lhes dá os materiais de que precisam para fazerem o seu trabalho meritório.
Abrqs do
n.
De decreto em decreto

03 junho 2010
Uma aventura na escola












