
14 maio 2010
O dilema

13 maio 2010
O deputado de uma República de grande craveira

11 maio 2010
Só mais uma

Esta fábula é fantástica! Serve para aqueles que se sentem seguros na actual crise mundial.
O que é ruim para alguém é ruim para todos... Será?
"Um rato, olhando pelo buraco na parede, vê o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote.
Pensou logo no tipo de comida que haveria ali.
Ao descobrir que era uma ratoeira ficou aterrorizado. Correu ao pátio da fazenda advertindo a todos:
- Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira na casa!!
A galinha disse:
- Desculpe-me Sr. Rato, eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me incomoda.
O rato foi até ao porco e disse:
- Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira!
- Desculpe-me Sr. Rato, disse o porco, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser orar.
Fique tranquilo que o Sr. Será lembrado nas minhas orações...
O rato dirigiu-se à vaca. E ela lhe disse:
- O quê? Uma ratoeira? Por acaso estou em perigo? Acho que não!
Então o rato voltou para casa abatido, para encarar a ratoeira...
Naquela noite ouviu-se um barulho, como o da ratoeira pegando sua vítima.
A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia pego. No escuro, ela não viu que a ratoeira havia pego a cauda de uma cobra venenosa. E a cobra picou a mulher...
O fazendeiro levou a esposa imediatamente ao hospital. Ela voltou com febre. Todo mundo sabe que para alimentar alguém com febre, nada melhor que uma canja de galinha. O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal, (matou a galinha).
Como a doença da mulher continuava, os amigos e vizinhos vieram visitá-la...
Para alimentá-los, o fazendeiro matou o porco.
A mulher não melhorou e acabou morrendo.
Muita gente veio para o funeral. O fazendeiro então sacrificou a vaca, para alimentar todo aquele povo.
Moral da História:
Não tem. Se fosse no estrangeiro tinha, mas em Portugal não tem.
Só o que me ocorre é que os ministros, incluindo o primeiro da fila, deviam ler isto.Assim como os actores de teatro, os fotógrafos e os hortelões (isto é para disfarçar).
Mas duvido que percebessem - e se percebessem não diziam, os safadinhos.
Não importa, que se f... a taça.
06 maio 2010
Do silêncio

04 maio 2010
Intervalo forçado

Como já se deverá ter percebido, os impedimentos a que eu torne aqui com a regularidade que desejaria voltar a manter têm sido mais que muitos. Embora já não se devam (uff!) a problemas de saúde, não deixam de me retirar demasiado tempo para o fazer. Divulgo, entretanto, um e-mail que me foi enviado por um amigo, professor do Ensino Secundário, no qual se dá conta de uma participação feita por uma sua colega, de uma escola do Norte do país. Para que conste.
PARTICIPAÇÃO DISCIPLINAR MUITO GRAVE
Professora agredida: Leonídia Marinho
Grupo Disciplinar: 10º B - Filosofia
Agressor:
Contextualização:
Dia vinte e seis de Março de 2010. Último dia de aulas. Às 14 horas dirigi-me à sala 15 no Pavilhão A para dar a aula de Área de Integração à turma 10º DG do Curso Profissional de Design Gráfico. Propus aos alunos a ida à exposição no Polivalente e à Feira do Livro, actividades a decorrer no âmbito dos dias da ESE. A grande maioria dos elementos da turma concordou, com excepção de três ou quatro elementos que queriam permanecer dentro da sala de aula sozinhos. Deixar que os alunos fiquem sozinhos na sala de aula sem a presença do professor é algo que não está previsto no Regulamento Interno da Escola pelo que, perante a resistência dos alunos que não manifestavam qualquer interesse nas actividades supracitadas decidi que ficaríamos todos na sala com a seguinte tarefa: cada aluno deveria produzir um texto subordinado ao tema "A socialização" o qual me deveria ser entregue no final da aula. Será preciso dizer qual a reacção dos alunos? Apenas poderei afirmar que os alunos desta turma resistem sempre pela negativa a qualquer trabalho porque a escola é, na sua perspectiva, um espaço de divertimento mais do que um espaço de trabalho. Digamos que é uma Escola a fingir onde TUDO É PERMITIDO!
É muito fácil não ter problemas com os alunos. Basta concordar com eles e obedecer aos seus caprichos. Esta não é, para mim, uma solução apaziguadora do meu estado de espírito. Antes pelo contrário. A seriedade é uma bússola que sempre me orientou mas tenho que confessar, não raras vezes, sinto imensas dificuldades em estimular o apetite pelo saber a alunos que têm por este um desprezo absoluto. As generalizações são abusivas. Neste caso, não se trata de uma generalização abusiva mas de uma verdade inquestionável. Permitam-me um desabafo: os Cursos Profissionais são o maior embuste da actual Política Educativa. Acabar com estes cursos? Não me parece a solução. Alterem-se as regras.
Factos ocorridos na sala de aula:
Primeiro Facto: Dei início à aula não sem antes solicitar aos alunos que se acomodassem nos seus lugares. Todos o fizeram exceptuando o aluno ***********, que fez questão de se sentar em cima da mesa com a intenção manifesta de boicotar a aula e de desafiar a autoridade da professora.
Dei ordem ao aluno para que se sentasse devidamente e este fez questão de que eu o olhasse com atenção para verificar que ele, ***********, já estava efectivamente sentado e ainda que eu não concordasse com a sua forma peculiar de se sentar no contexto de sala de aula, seria assim que ele continuaria: sentado em cima da mesa. Por três vezes insisti para que o aluno se acomodasse correctamente e por três vezes o aluno resistiu a esta ordem.
Reacção da maioria dos elementos da turma: Risada geral.
Reacção do aluno *********: Olhar de agradecimento dirigido aos colegas porque afinal a sua "ousadia" foi reconhecida e aplaudida.
Reacção da professora: sensação de impotência e quebra súbita da auto-estima.
Senti este primeiro momento de desautorização como uma forma que o aluno, instalado na sua arrogância, encontrou de me tentar humilhar para não se sentir humilhado.
Como diria Gandhi, "O que mais me impressiona nos fracos, é que eles precisam de humilhar os outros, para se sentirem fortes..."
Saliento que neste primeiro momento da aula a humilhação não me atingiu a alma embora essa fosse manifestamente a intenção do aluno.
Segundo Facto: Dei ordem de expulsão da sala de aula ao aluno **********, com falta disciplinar. O aluno recusou sair da sala e manteve-se sentado em cima da mesa com uma postura de "herói" que nenhum professor tem o direito de derrubar sob pena de ter que assumir as consequências físicas que a imposição da sua autoridade poderá acarretar.
Nem sempre um professor age ou reage da forma mais correcta quando é confrontado com situações de indisciplina na sala de aula. Deveria eu saber fazê-lo? Talvez! Afinal, a normalização da indisciplina é um facto que ninguém poderá negar. Deveria ter chamado o Director da Escola para expulsar o aluno da sala de aula? Talvez...mas não o fiz. Tenho a certeza de que se tivesse sido essa a minha opção a minha fragilidade ficaria mais exposta e doravante a minha autoridade ficaria arruinada.
Dirigi-me ao aluno e conduzi-o eu própria, pelo braço, até à porta para que abandonasse a sala. O aluno afastou-me com violência e fez questão de se despedir de uma forma tremendamente singular: colocou os seus dedos na boca e em jeito de despedida absolutamente desprezível, atirou-me um beijo que fez questão de me acertar na face com a palma da mão. Dito de uma forma muito simples e SEM VERGONHA: Fui vítima de agressão. Pela primeira vez em aproximadamente vinte anos de serviço.
Intensidade Física da agressão: Média (sem marcas).
Intensidade Psicológica e Moral da agressão: Muito Forte.
Reacção dos alunos: Riso Nervoso.
Reacção do aluno **********: Ódio visível no olhar.
Reacção da professora: Humilhação.
Ainda que eu saiba que a humilhação é fruto da arrogância e que os arrogantes nada mais são do que pessoas com complexos de inferioridade que usam a humilhação para não serem humilhados, o que eu senti no momento da agressão foi uma espécie de visita tão incómoda quanto desesperante. Acreditem: a visita da humilhação não é nada agradável e só quem já a sentiu na alma pode compreender a minha linguagem.
Terceiro Facto: O aluno preparava-se para fugir da sala depois de me ter agredido e, conforme o Regulamento Interno determina, todos os alunos que são expulsos da sala de aula terão que ser conduzidos até ao GAAF, Gabinete de Apoio ao Aluno e à Família. Para o efeito, chamei, sem êxito, a funcionária do Pavilhão A, que não me conseguiu ouvir por se encontrar no rés-do-chão. Enquanto tal, não larguei o aluno para que ele não fugisse da escola (embora lhe fosse difícil fazê-lo porque os portões da escola estão fechados).
Mais uma vez, o aluno agrediu-me, desta vez, com maior violência, sacudindo-me os braços para se libertar e depois de conseguir o seu objectivo, começou a imitar os movimentos típicos de um pugilista para me intimidar. Esta situação ocorreu já fora da sala de aula, no corredor do último piso do Pavilhão A.
Reacção dos alunos (que entretanto saíram da sala para assistir à cena lamentável de humilhação de uma professora no exercício das suas funções): Risada geral.
Reacção do aluno ********: Entregou-se à funcionária que entretanto se apercebeu da ocorrência.
Reacção da Professora: Revolta e Dor contidas que só o olhar de um aluno mais atento ou mais sensível conseguiria descodificar. Porque, acreditem: dei a aula no tempo que me restou com uma máscara de coragem que só caiu quando a aula terminou e sem que nenhum aluno se apercebesse. Entretanto, a funcionária bateu à porta para me informar que o aluno queria entrar na aula para me pedir desculpa pelo seu comportamento "exemplar".
Diz-se que um pedido de desculpas engrandece as partes: quem o pede e quem o aceita. Não aceitei este pedido por considerar que, fazendo-o, estaria a pactuar com um sistema em que os professores são constantemente diabolizados, desprestigiados e ameaçados na sua integridade física e moral. Em última análise, a liberdade não se aliena. O aluno escolheu o seu comportamento. O aluno deverá assumir as consequências do comportamento que escolheu e deverá responder por ele. É preciso PUNIR quem deve ser punido. E punir em conformidade com a gravidade de cada situação. A situação relatada é muito grave e deverá ser punida severamente. Sou suspeita por estar a propor uma pena severa? Não! Estou simplesmente a pedir que se faça justiça.
Vamos ser sérios. Vamos ser solidários. Vamos lutar por uma Escola Decente.
Ps: Este caso já foi participado na Polícia e seguirá para Tribunal.
Ermesinde, 30 de Março de 2010
A Professora _________________________
30 abril 2010
25 abril 2010
Da realidade do poder (3)

E isso fez-me lembrar, a propósito do tema que tenho vindo a abordar aos poucos, de dois casos que, já agora, acrescentarei aos anteriores.
Em primeiro lugar, recordo-me de uma conversa telefónica que tive com uma figura que foi e se mantém como um ícone maior do chamado “espírito de Abril”, seja lá o que for que se queira significar com isso. Já o tinha encontrado a seguir ao 1º de Maio e voltei a falar com ele cerca de três anos depois, desta vez, como disse, ao telefone, enquanto representante de uma instituição. Falei, melhor, falou durante cerca de uma hora. Falou do desengano quanto ao espírito daqueles em torno de cujas potenciais virtudes construíra a sua visão do mundo e desenvolvera a correspondente acção. Falou da sua indignação perante o persistente e arreigado rasteirismo de horizontes, do egoísmo arrogante e estreito. Numa explosão de amargura e nojo proporcional à sua dimensão e empenhamento. Ouvi-o e concordei. Afinal, também eu me ia apercebendo do mesmo.
Se, a mim, um estranho, me disse tudo isto, o que não terá dito aos que com ele conviviam? E a tantos outros, para lá deles? A imagem transmitida pela comunicação social e pelos arautos da área política em que se situava, porém, não dava conta do que lhe ia passando na alma e no ânimo, bem pelo contrário. A não ser tempos mais tarde, quando, sarcástico e demolidor, disse algo em público que irritou, ao pôr em causa, a hipocrisia medíocre que o rodeava. Irritou, mas, é claro, apenas por um bocadinho e sem que alguém caísse em fazer demasiado alarido disso - que os enfants térribles, afinal, até dão jeito, para fingir que alguma coisa se passa e que é tudo gente séria. No fim, como é costume, as suas palavras reverteram, como seria de esperar, no reforço da imagem que servia - e continua a servir - a uns quantos.
O que seria de esperar que eu ouvisse, pelo meu lado, se reproduzisse essa conversa de há 33 anos? Quantas acusações de mentiroso, difamador e denegridor da sua figura não me seriam feitas? E de quanto disso não se aproveitariam os mesmos cuja menoridade ele abominava, “denunciando” mais um “ataque aos verdadeiros valores” e da prova que esse mesmo ataque, em si, constituiria da “justeza” das suas posições e da sua (deles) “luta”? Pois não são eles os únicos que, verdadeiramente, “fazem e farão a História”?
Em segundo lugar, lembrei-me de uma história que o meu pai me contou sobre um seu amigo e nosso vizinho, cujo cunhado fazia parte de um grupo de portugueses, misteriosamente desaparecidos em África durante a guerra nas “províncias ultramarinas”. Apesar dos esforços das famílias para serem informados da natureza do que ocorrera bem com da sorte dos desaparecidos ou, pelo menos, do seu possível paradeiro, nada conseguiram obter quer por parte das autoridades do regime quer pela das instâncias privadas a que recorreram.
Não me recordo exactamente de quando, mas, salvo erro, aproximadamente pela mesma altura em que teve lugar a conversa a que me referi, um jornalista de grande destaque, antes e depois do 25 de Abril, alguém que teve uma enorme importância para mim e para a minha geração, mas sobretudo no período anterior a essa data, pelo espírito crítico com que estruturava o que escrevia, publicou um conjunto de artigos com carácter de investigação sobre esse caso, ocorrido anos atrás. Artigos em que o cunhado do nosso vizinho era apresentado como cérebro organizador e protagonista maior do que teria ocorrido.
Entre espantado (o cunhado não seria especialmente dotado para comandar o que quer que fosse) e esperançoso, o amigo do meu pai telefonou para o jornal, pediu para falar com o jornalista, Identificou-se e pediu-lhe que o recebesse, no sentido de obter maiores informações e esclarecimentos sobre tudo aquilo que sucedera, ao seu familiar e aos restantes. O jornalista convidou-o então a ter uma conversa em sua casa, de preferência à redacção, o que, como seria de esperar, mais deixou na expectativa e na ansiedade o nosso vizinho. Indignação, no entanto, foi o que apenas trouxe do que ouviu. É que o jornalista - cujas posições políticas, com o 25 de Abril, se haviam tornado rapidamente para além de firmes - lhe confessou que a investigação que realizara ia no sentido de aproveitar umas quantas pistas que lhe pareciam justificativas de muitas das suas convicções e perspectivas e que quanto ao cunhado do vizinho, bem… tinha-o posto naquele papel para «compor um pouco a história». Apresentava as maiores desculpas pelo que fizera, mas pedia compreensão quanto ao sucedido e que, por favor, não transformasse o assunto em motivo para polémica pública ou processos judiciais. Julgo recordar-me que lhe prometeu refazer a imagem do cunhado e suponho (suponho!) que lhe tenha dito também, dado o silêncio mantidos posteriormente pelo amigo do meu pai, que utilizaria a sua posição e conhecimentos para lhe ir dando quaisquer novidades que viessem a surgir.
O cunhado do nosso vizinho e os seus companheiros nunca mais foram vistos. O vizinho morreu. Seguiu-se-lhe o meu pai. O jornalista foi o último, sem que, tanto quanto eu saiba, haja visto o seu prestígio beliscado e posta em dúvida, sob qualquer aspecto, a seriedade e o rigor a que, como toda a gente o sabia, habituara os seus leitores em matéria de investigação.
E a História viu-se mais composta.
24 abril 2010
Da realidade do poder (2)

Sendo alguém de relativa notoriedade pública, consultei os jornais do dia seguinte ao do falecimento, para ver em que termos a sua morte era anunciada. Imagine-se o meu espanto quando li uma notícia na qual os únicos elementos biográficos verdadeiros eram o nome (mesmo assim, com uma gralha ortográfica) e a idade. Tudo o mais – TUDO! - era, por completo, estapafúrdio e delirante.
Telefonei para os jornais, que se desculparam com a agência Lusa. Liguei para a Lusa, que lamentou o sucedido e pediu compreensão. Mas não foi feita nenhuma emenda nos jornais posteriores. Suponho, por isso, que qualquer historiador que venha a debruçar-se sobre ele e a sua obra, hoje esquecida e, em enorme medida, por publicar, ficará bastante confuso se tomar a sério os órgãos de comunicação.
Há pouco tempo, num blogue que se pretende sério, encontrei uma referência biográfica de calibre igual ao anterior, relativa a um poeta português também meu conhecido. Enviei um e-mail ao responsável pelo blogue, esclarecendo-o em que medida os dados que recolhera são incorrectos. Não alterou nada nem sequer me respondeu.
Mais ou menos pela mesma altura em que faleceu o primeiro destes meus dois amigos, suicidou-se uma minha conhecida e vizinha, a contas com uma depressão agravada por factores de paranóia, saltando do 7º andar em que vivia. De novo os jornais foram pródigos em imaginação e miseráveis em realidade quanto aos motivos que a levaram a fazê-lo.
Frequentava eu nesse período, com alguma regularidade, um café onde costumava ver um fulano com ar pouco recomendável para o meu gosto, aquilo a que se costuma chamar o típico “mete-nojo”, pose de chulo com pastor alemão pela trela, para dar estatuto. Por lá continuou a pavonear-se, depois de eu ter mudado de residência. Dois ou três anos, soube que tinha morrido. Como?
Segundo a versão que, por o ter observado, me pareceu de maior confiança (a de um familiar meu), ter-se-á envolvido com alguém cujo marido era pouco liberal e que o “picou” como forma de aviso. O ferimento não parecia ter grande importância, pelo que o homem não achou necessário ir ao hospital, mas estava enganado e acabou por morrer.
A versão dos órgãos de comunicação, contudo, foi bastante diferente. O título de um dos jornais era qualquer coisa assim como “Corajoso cidadão morre vítima de gangue de droga” e contava a história de um candidato a justiceiro solitário, assassinado por um conjunto organizado de meliantes que ele vinha a investigar por conta própria.
Poderia acrescentar aqui outros casos do meu conhecimento mais ou menos directo, como, por exemplo o de uma escola à volta da qual foram feitas, há já alguns anos, reportagens e reportagens, por toda comunicação social, sobre casos gravíssimos nela ocorridos. A base de todo este imbróglio teve, no entanto, por base o depoimento de uma docente que passava longos períodos de atestado por desequilíbrio mental e de uma aluna que desejava viver uma telenovela. A verdade dos factos foi investigada pelo ME e tudo voltou ao seu lugar, mas a Comunicação já não estava interessada nessa coisa comezinha da verdade e, portanto, a escola continuou (não sei se ainda continua) a ser uma escola menos aconselhada pela “opinião pública”.
E por aí fora.
19 abril 2010
Da realidade do poder (1)

Lembrei-me deste episódio anteontem, enquanto esperava a minha vez numa repartição pública, ouvindo alguém falar ao meu lado sobre o que se passara consigo e a sua família, no decorrer de uma deslocação à Jamaica.
Em primeiro lugar, não puderam sair do hotel durante três dias, devido à realização de eleições. Porque era perigoso, disseram aos turistas; se o fizessem, não se responsabilizariam pela sua segurança. Finalmente, no quarto dia foram autorizados a passear, mas na condição de não usarem vestuário verde ou cor-de-laranja, para evitarem incidentes com quaisquer ânimos ainda exaltados.
Uma noite, após terem passado durante o dia por algumas praias e visitado a terra natal de Bob Marley, ao regressarem ao quarto onde, a conselho dos guias, haviam deixado os telemóveis, verificaram, espantados, que estes registavam trinta chamadas não atendidas, feitas por familiares, em Portugal. Ligaram-lhes, apreensivos com o que poderia ter estar na origem de um tal frenesi. Entre lágrimas e expressões de alívio, disseram-lhes as pobres criaturas que nos noticiários dos canais de televisão portugueses passavam notícias aterradoras sobre um furacão que devastara tudo por onde passara, Jamaica incluída, acompanhadas das respectivas imagens de devastação e tragédia, pelo que tentaram saber se algo de grave os teria eventualmente atingido. Incrédulos, os nossos turistas (choviam telefonemas para os portugueses) deram-lhes conta de que nenhum furacão passara pela ilha, e que aquele a que se referiam se dirigira para norte, em direcção a Cuba, mas que acabara por não causar estragos. Quanto às imagens, bem… talvez tivessem ido buscá-las à RTP Memória.
16 abril 2010
13 abril 2010
Pague-se qualquer valor pela transferência!!!
Num país onde o futebol manda na política e onde há cada vez menos jogadores nacionais, sugiro que se faça uma vaquinha entre todos os cidadãos para reforçar a Assembleia da República com esta deputada, de modo a podermos alimentar a esperança de algum dia ainda podermos sair vitoriosos das eleições.
12 abril 2010
Em "concorrência" com o Blue Breve
Eurico Moura e Rafael Pereira têm feito um excelente trabalho de divulgação de boa música, em especial na área do jazz, no blog Blue Breve (que ainda não acrescentei aos favoritos). Deixo hoje aqui, também eu, o que consegui encontrar no youtube de Emílio Robalo, pianista de um trio, Araripa, que, nos anos 70, teve um breve, mas importantíssimo, papel na afirmação do jazz em Portugal. Os outros elementos do grupo eram o contrabaixista José Eduardo e o baterista João Heitor.
Até amanhã.
09 abril 2010
La leye del mercado

Até estou já bem de saúde

01 abril 2010
Coincidências...

28 março 2010
Pois...

I
A minha saudade, disse o velho, é como um sonho
e o meu sonho, por seu turno, faz aparecer o vento.
Nos meus antigos rastos há um vestígio que não reconheço
de coisas que toquei ao acaso e que eram simples como uma planta
ressequida e posta junto ao meu leito
(Leito onde não repousei
onde eram exíguas as presenças da morte
onde havia pássaros como em gaiolas familiares
com estranhos roteiros e silhuetas
tal qual os passos que alguém deixa
inscritos na terra húmida
ou nos ladrilhos do chão duma casa devastada).
No primeiro andar daquele prédio além
sente-se tenuemente um vago odor de corpos
de gente vestida como para uma festa
que não chegará nunca (bonecos de porcelana quebrados
e cobertos de pó, ao lado
de um copo sujo de café) - assim o velho, agora definitivamente desperto
continuou, como se as palavras existissem -
O fogo e o suor geram nas suas entranhas o momento
de andar por estas ruas como por país conquistado.
O orvalho é como uma gota de vinho sobre o tampo da mesa
e não há por detrás nem espírito nem melancolia. Era já noite quando alguém
andrajoso foi pé ante pé junto da porta
a segunda porta, onde os retratos reluzem
entre os breves fulgores da aurora.
II
Abre-te ao meu desgosto, acolhe
em tuas mãos sarcasmo e incerteza. É necessário
saber que o horizonte nestas montras
é o mesmo que paira sobre esqueletos e corpos vivos
- o horizonte impreciso aonde o sol
traça como que a linha já desfeita
dum rosto, frutos, mistérios. Que esta manhã, ao menos
oferte a quem a busca
outras recordações.
O vento está em ti como um soluço
As ramadas das árvores, no parque
são como a geometria que esquecêmos
de diferentes lugares, de quartos que habitámos
e que vivem em nós como sementes
crescendo no negrume. Ficaremos aqui
nas veredas percorridas em silêncio
olhando ao longe pinhais e nuvens errantes
retocadas a lápis, vagamente
como laranjais ao crepúsculo
E mil bocas serão a nossa boca
além do muro de pedra onde a nossa mão repousou
ou apenas ficou por um minuto
como dedos dobrados
sobre amarfanhados tecidos. Como a escrita
de alguém já morto já transformado em nome. Ninguém
semeou o trigo que comeste
o pão já ressequido, já esquecido
em momentos de febre ou de amargura
em horas abandonadas, sobrepostas
e em repouso e de novo abandonadas
- imagem que incansavelmente se procura
em pessoas e coisas, em instantes
perdidos para sempre. Refaz de novo o tempo
que humildemente foi
raiz, montanha o vácuo.
III
Convosco se divide não apenas a alegria
mas também o que perdura em quanto se acha
e é pequeno ou talvez iluminado -
a fruta devorada em tempo vário
ou apenas tabaco, fina ardósia
da memória deposta em estranhos dias
alheias algibeiras. Chorando
ora na manhã, ora na noite
(a noite e a manhã palavras
que nada dizem, nada significam
entre ilha e ilha
onde as flores de acanto equivalem perfumes mais terrenos
Maderas del Oriente brise de soie palmolive)
gemendo
se não vinha a frase mais certeira
- um tanto ao norte um tanto ao sul -
do teu para o meu rosto. Mansamente
ali rejuvenesce a nossa voz
Sob os ramos da casa, junto à triste
lembrança olhada a medo, mal rompera
a luz cruzada na colina.
Mãe
ou pai -
em todo o caso pessoas que não esquecem
agora que sussurra contra o leme
este vago Oceano -
iria ser, de brancos cabelos tecendo
ora a ternura ora um fino tédio. Garatujas
numa pedra ou numa parede suja
Momentos que gravaram dentro em nós
se este afinal dizer não é algo excessivo
na saleta em penumbra ante as imagens que dançam
pranto, riso, ciúme ou fria chuva.
IV
Esta foi a casa que sempre procurei
Nela coloquei minha memória, os livros, duas camisas
velhas Nela irei aguardar os símbolos zodiacais
visitas de família, um gato. Sem veredas em torno
- sem vento, inda p’ra mais, que a vela enfune -
acharei no Inverno seu perfil
de manhã solitária, enevoada
pela figura cujos passos soam
como que pressentidos. Aqui e ali porei
resíduos de conversas, a sombra da mão
dum cadáver que vi na infância - primeiro cadáver
como uma ferida fumegante, corpo morto farol
de incontáveis navegações -
tronco ou cabeça, sovaco, perna, pé
que nunca pude esquecer
E luzes, luzes como reflexos numa janela fechada
(No páteo, entre os cavalos de Heliodoro
Manuel da Silva Pericão os lençóis ondulavam
porque era sua Mãe estalajadeira
também servia refeições para fora)
solene, tumultuosa, às vezes aberta
para as meninas verem a procissão
dos que a Creta voltavam os que aprendiam a morrer
quem sabe por vezes numa auto-estrada
E será como um grande mundo atravessando os minutos
de par a par, perenemente reconhecível.
Aqui e ali um bicho um coelho, um retrato
de um primo montado num burro, um banco de madeira
perdido há muitos anos e de repente o som dum objecto partindo-se
sozinho, e em meu redor nem sonhos nem temor.
No quarto mais sombrio, ou seja
mais tranquilo
entre a espada que protegeu as minhas treze viagens
e um boneco de pano oferta da TWA
um odor bem diferente: as velhas flores do quintal abandonado
e uma cadeira com cadernos em cima, um som de água repentino.
Vale dizer: aqueles que à beira do Outono morrem
têm, presume-se, a tarefa facilitada -
quietude, doce lembrança para anos de fome
mágoa, página tão profunda, tão maneirinha
silêncio, bússola para todos os instantes
Serenas companhias envolvendo a nossa fadiga
presenças que o nosso amor forçou a adormecer.
O pasmo há-de envolver as ramagens em torno das paredes
há-de, no tecto, brilhar qualquer coisa fugidia.
Há-de haver, ao largo de Corinto, um som de sino rachado.
A noite, a noite que é fria, que fende com seu lume profundo
há-de encontrar-me algures, com velhas palavras caindo
como flocos de neve ora azuis, ora vermelhos.
26 março 2010
Promessas, leva-as...

21 março 2010
No Dia Mundial da Poesia
Quadro de Paul DelvauxSobre a planura as suas asas espraiando
o anjo vigia e guarda.
À noite as águas silenciosas da laguna
reflectem-lhe o dorso, curvado sobre as
árvores frias.
Mãos invisíveis tecem-lhe nos cabelos
segredos antigos
que os homens esqueceram há muito
ou nunca sequer souberam
E parte, por sobre as nuvens
recortadas a luz ardente.
Irremediavelmente, parte.
Da poesia
António Aleixo20 março 2010
18.000

17 março 2010
16 março 2010
Os santos demagogos, perdão!, pedagogos

11 março 2010
07 março 2010
04 março 2010
José Manuel Capêlo

À BEIRA DO MÊS DE MARÇO
Combináramos de antemão por carta, pois nem sequer se sonhava com telemóveis ou mensagens interactivas, essa jornada em que iríamos passar uma considerável parte do resto do dia num pequeno restaurante ao Bairro Alto, amparados por uns comes-e-bebes de bom porte que foram uma espécie de enquadramento para uma conversa algo rabelaisiana: gostava de comer e de beber, o autor de “Fala do Homem Sozinho”, de “Rostos e Sombras”, de “O incontável horizonte”, falava profusamente na sua voz bem timbrada e era de simpatia rápida. Não estaria mal entre goliardos, entre joviais companheiros num banquete onde houvesse iguarias e poesia entremeadas. Complexo e claramente fantasista, tinha projectos que uns se concretizariam e outros ficariam apenas esboçados. O que, perante alguns menos contentáveis o feriu frequentemente, pois o seu fundo imaginativo era por vezes atraiçoado por uma veloz mudança de cenários, que o metiam – soube-o depois - em andanças um pouco menos que rocambolescas.
Mas era aberto e comunicativo, expansivo e poeta bastante para nos cativar e, mesmo, permitir-nos passar por alto certo pendor baloiçante de alguma navegação sua.
Devido a essa simpatia mútua logo com generosidade me convidou a participar na noite seguinte, para conversarmos e dizermos poemas, num programa de rádio que tinha numa das localidades da Grande Lisboa. Aboletou-me em sua casa e entre o petiscar afável da cozinha britânica (estava consorciado, nessa época, com uma senhora inglesa) em que nos compaginámos, contou-me estórias movimentadas que colhera nos sete céus e nos catorze continentes devido à sua profissão de comissário de bordo da TAP. Todo ele esfuziava e, si non è vero è bene trovato, mostrou-me um filme bastante conhecido (O Bom, o Mau e o Vilão de Sérgio Leone) em que entrara como figurante (médico militar nas cenas após uma escaramuça da Guerra da Secessão) junto a Clint Eastwood, Lee van Cleef e Eli Walach.
O programa a que me levou estava bem estruturado, era aliciante e ele conduziu a emissão de uma forma competente e que me permitiu excursionar com certo desembaraço por coisas do Alentejo, da noite circundante, da escrita e, em suma, da aventura de viver.
Devido a isso, num repente e suscitado pela sua figura bem recortada, criei a partir do seu aspecto físico (com a sua agradada aquiescência) o meu personagem Doutor José Jagodes, o misto de pensador-pirata que alguns dias depois apareceria em “O Distrito de Portalegre” na sua primeira “aventura”, “O Jagodes em Espanha”.
Em princípios de 88, telefonou-me e convidou-me a participar numa antologia que teria o título de “Palavras – sete poetas portugueses contemporâneos”. Como as coisas da edição, ontem como hoje segundo julgo saber, não eram fáceis, o colectivo acertara esportular uma quantia que minorasse os custos. Como eu nessa época, devido a circunstâncias do meu erário de pai de família andava ligeiramente descapitalizado, informei-o de que não me seria possível abrir os cordões à bolsa, ficando com pena minha fora das suas deles cogitações. Ele disse-me que iria ver…
E o livro veio de facto a lume, com um prefácio de João Rui de Sousa - que na altura só conhecia de nome - que me era muito favorável. Soube então que a minha parte a pagara ele do seu bolso.
O lançamento foi numa conhecida livraria da capital, com galeria de pintura anexa e chão de empedrado como nas ruas finas. E se aludo a isto com pormenor é porque se verificou nesse evento uma situação que tenho por razoavelmente curiosa, pouco abonatória da minha proverbial distracção e que muito divertiu o nosso Capêlo que com senso de humor me xingou cordialmente durante todo o jantar que se seguiu, num entreposto do Bairro Alto em que também me fizeram cantar para poderem aquilatar dos meus hoje já diminuídos dotes vocais…
Sentados na mesa dos oradores, acompanhados do actor-declamador João D’Ávila que iria ter o encargo de dizer o acervo de poemas escolhidos, eu tive a sensação de que diversos membros da assistência que enchia completamente o salão os conhecia de algum lado que não divisei, a princípio, perfeitamente.
E o evento seguiu seu curso, com agrado geral e aplausos – e recordo que no final e antes dos autógrafos um dos membros da assistência, também ele poeta (Paulo Brito e Abreu), me veio simpaticamente cumprimentar e exprimir-me o seu apreço sincero.
E a dada altura, já o nosso Capêlo me propiciara a companhia de um copo de tinto pundonoroso e aconselhara provasse uns panadinhos muito salubres, aproximou-se de mim uma senhora alta, com aspecto cordial e franco, que me disse: “Importa-se…? É para mim e para o meu marido”. “Com todo o gosto minha Senhora – retorqui eu imediatamente. E logo a seguir: “Pode fazer a fineza de me dizer o seu nome e o de seu esposo?”.
A senhora olhou-me um pouco intrigada. Deve, acho eu, ter pensado: “Estes poetas…são todos uns despassarados de marca…” ou qualquer coisa pelo estilo. Mas, com delicadeza, acrescentou de pronto: “Ora então ponha, faz favor: Maria e Aníbal…!”.
E foi então, estimulado por uma discreta cotoveladazinha nas costas dada pelo Capêlo, que se me fez luz...
As pessoas que eu parecia conhecer de qualquer lado eram políticos colunáveis: secretários de Estado, um que outro ministro, deputados e membros de formações partidárias. E a senhora…já adivinharam…era a Senhora de Cavaco Silva, que na altura estava primeiro-ministro. E devia-se a presença, solidária, de todos eles à circunstância de um dos antologiados ser Fernando Tavares Rodrigues, na época director-geral da Informação e figura destacada do PSD...!
Soube recentemente que JMC, numa sequência a que o seu interesse pela História e o Mito o levava, escrevera uma obra que me dizem de gabarito sobre o universo templário luso. A sua poesia, que fui encontrando enquanto participante-conviva em diversas publicações ou a constante em livros que ciclicamente me fazia chegar, tem uma estrutura discursiva e apaixonada de bom quilate. Ele era um intenso, mas caldeava essa característica por uma feitura sabedora, o que lhe permitia fazer excursionar a sua escrita de maneira consequente e muitas vezes com uma indubitável alta qualidade. E se por vezes se deixava enredar por uma certa deambulação declamatória, creio que o devia ao seu excesso de vitalidade, pois naquela época era vigoroso e ainda não tivera de abandonar, por mando dos esculápios, conforme me foi dito, as saborosas refeições e o corolário de um cigarro ou um charuto reconfortante.
À beira do mês de Março, quase no fim de Fevereiro, um AVC fulminante levou-o para outros espaços aos 64 anos, ao José Manuel Capelo, poeta, viajante dos céus, albicastrense de gema e sonhador de inspirações várias.
Saúdo-o com um evohé fraternal e sentido.
03 março 2010
27 fevereiro 2010
Agora, a sério...!

23 fevereiro 2010
A quem interesse

18 fevereiro 2010
Toca a acordar!

16 fevereiro 2010
Do carácter da UE

13 fevereiro 2010
Em falta

As coisas multiplicam-se
muito mais que as pessoas. Só elas
possuem o segredo de tranquilamente jazer
entre as ervas, as águas, as ruínas
ausentes e presentes. A sua pele
é mais fina que a casca dos minutos
e contudo, sob o lume e o vento
sob a terra em que os passos já não soam
ou no deserto violento das palavras
as coisas repousam
ou, subitamente iluminadas
gritam e falam-nos com movimentos graves
adejando como estranhos pássaros nocturnos
ou como trémulos animais interditos.
As coisas
sofrem
elas sofrem como se existissem noutra esfera
próxima de nós
como uma Lua oculta, como um peixe fantasma
como uma flor solitária numa casa abandonada
como um gato que no sono se agita pleno de medo
As coisas
minúsculas, gigantescas, iguaizinhas a nós
ensanguentadas pelo nosso terror e a nossa cólera
sob as nossas mãos
entre os nossos cabelos
repousando junto a nós quando dormimos
calmas como o ruído dum comboio numa cidade matutina
As coisas
respirando devagarinho nas nossas memórias
andando junto às nossas recordações como se fossem
um elefante, um rato, um cão fiel
feitas de barro, as coisas
de madeira ou de cera, de vidro ou de cimento
feitas de cristal e de platina, de celulóide
do fresco celofane, de aço e de papel
pobres coisas num rés-do-cão amontoadas
esquecidas como um trapo manchado
livres e belas
nosso testamento, papiro para milénios a vir
As coisas
sempre atentas, sempre dormindo esperando o despertar
o silencio luminoso
As coisas
nossas irmãs de mundo, nossas filhas, nosso sinal perfeito
neste universo que é o nosso resumido encontro
com a sua
eternidade acontecida.
12 fevereiro 2010
O trambolho

11 fevereiro 2010
07 fevereiro 2010
Maquiavel...
Sebastián de Covarrubias, A Inveja (século XVI)... deve estar a roer-se, por não poder ter dado uma entrevista como esta (via Fiel Inimigo)...
02 fevereiro 2010
Do nojo (2)

A liberdade é a coexistência de modelos e não a imposição de um em concreto.
Ao longo de mais de 30 anos de carreira jornalística - e nesse particular sou mais antigo do que o Mário - não me lembro de um cronista ser dispensado depois de a crónica estar pronta a ir para a oficina. E o que isto significa é que os limites da liberdade estão mais apertados do que nunca.
Tenho o director do JN, José Leite Pereira, na conta de um bom profissional e de um homem independente e sério. É jornalista há muitos mais anos do que eu, tem uma experiência considerável. Não creio que ele se impressione com uma crítica a Sócrates, como não creio que ele exigisse gratuitamente a Mário Crespo uma confirmação independente de fontes. Provavelmente, não o faz (nenhum de nós o faz) quando, em vez de Sócrates, está um outro cidadão qualquer em causa.
Porém, no caso do primeiro-ministro as palavras são relevantes, já que proferidas por quem tem a responsabilidade do poder executivo neste país. É certo que a conversa pode ser considerada privada, mas é igualmente certo que o bom-nome de Mário Crespo foi atacado de forma pública, ou jamais seria ouvida por circunstantes que nada tinham a ver com a conversa.
O que se passa, então?
Posso tentar avançar uma explicação: Mário Crespo tornou-se incómodo para Sócrates (e até para Cavaco, que denunciou em algumas crónicas), e a sua incomodidade estava a deixar o próprio José Leite Pereira numa situação difícil. Por isso o director do JN recorreu a um excessivo escrúpulo jornalístico para resolver a questão. E decidiu não publicar a crónica.
Não posso condenar José Leite Pereira, não é do meu timbre julgar os outros. Apenas posso dizer que este é o panorama da nossa Comunicação Social: Grupos que dependem do poder do Governo, patrões que pressionam directores e editores até à exaustão, cronistas afastados por serem incómodos e uma multidão de lambe-botas que, prudentemente se cala ou arranja eufemismos para tratar a questão.
Tenho em comum com Mário Crespo o facto de trabalharmos num grupo onde nada disto acontece (felizmente não será o único). Talvez não estejamos inteiramente preparados para o mundo 'lá fora', onde as palavras têm de ser medidas, onde não se pode escrever preto no branco, como aqui faço, que Sócrates é o pior primeiro-ministro no que respeita à Comunicação Social; o único que telefona e berra com jornalistas, directores, com quem pode. O único em que nestes mais de 30 anos que levo de vida jornalística, se preocupa doentiamente com o que dizem dele, em vez de mostrar grandeza e fair-play com o que de errado e certo propaga a Comunicação Social.
Lamento dizê-lo, tanto mais que é nosso primeiro-ministro e seguramente tem trabalhado muito e o melhor que sabe.
Mas é a verdade, e num momento destes a verdade não se pode esconder.
01 fevereiro 2010
Do nojo (1)

O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa.
Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”. Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal.
Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o.
Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”. É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos.
Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados.
Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre.
Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009.
O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu.
O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”.
O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”.
Foi-se o “problema” que era o Director do Público.
Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu.
Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada.
Nota: Artigo originalmente redigido para ser publicado hoje (1/2/2010) na imprensa.
O comentário possível

28 janeiro 2010
O pelintra pródigo

A notícia vem no DN: o Governo português comprometeu-se a emprestar a Angola até 200 milhões de dólares. Para isso, apesar da dívida externa do país ultrapassar já os 100% do PIB (e com as agências de “rating” a anunciar, em face disso, o aumento das taxas de juro da remuneração da dívida), o Governo irá contrair um (mais um) empréstimo. A boa notícia é que o mais certo é que parte desses milhões, ao menos a das “comissões” e das “contrapartidas”, acabe por voltar a penates, seja através das empresas e dos negócios do costume, seja em artigos de “griffe” como relógios de ouro Rolex e Patek Philippe, pulseiras Dior e H. Stern, roupas Ermenegildo Zegna e até… casacos de peles, comprados nas lojas de luxo de Lisboa sem olhar a preços. De facto, as elites do regime angolano constituem hoje, segundo uma notícia publicada pelo “Expresso” em finais de 2009, 30% do mercado de luxo português. Que isso nos sirva de conforto, aos pelintras contribuintes portugueses, quando pagarmos a escandalosa factura dos 200 milhões. Porque, como diria o gondoleiro de “Morte em Veneza”, haveremos de pagá-la.
23 janeiro 2010
22 janeiro 2010
De uma esquerda contra-corrente

"Afirmo a existência do direito a ter pai e mãe, o direito a possuir uma filiação. Os avatares históricos podem privar-nos do pai ou da mãe, podem fazer com que tenhamos pais adoptivos. O que não se pode fazer é programar órfãos. Não há o direito de se preparar o nascimento de um ser que será privado de pai ou de mãe, como se estes fossem simples aditamentos supérfluos. Creio que a nossa origem simbólica de uma dupla filiação masculina e feminina, e o apaixonamento ligado a essa dupla filiação, nos cria um imaginário que ninguém tem o direito de pôr de lado."
18 janeiro 2010
Por motivos diferentes...

11 janeiro 2010
03 janeiro 2010
Do tempo

todos lo saben – es el modelo y arquetipo de aquél… Leemos en el Timeo de Platón que el tiempo es una imagen móvil de la eternidad; y ello es apenas un acorde que
a ninguno distrae de la convicción de que la eternidad es una imágen hecha com substancia de tiempo.Una de las oscuridades, no la más árdua pero no la menos
hermosa, es la que impide precisar la dirección del tiempo. Que fluye del pasado hacia el porvenir es la creencia común, pero no es más ilógica la contraria, la fijada en
el verso español por Miguel de Unamuno:
Nocturno el rio de las horas fluye desde su manantial , que es el mañana eterno… »








