03 setembro 2010

Ainda a propósito de uma cerimónia muçulmana

Zawahiri e Bin Laden

José Gonsalo inseriu, no Fiel Inimigo, o vídeo Cerimónia em Viena, a partir do post que eu publicara no dia anterior. Hoje, é a minha vez de transcrever aqui um texto seu, resultante de uma reflexão motivada por um comentário a esse mesmo vídeo (clicar aqui, para ver o post e aqui, para ver os comentários ao vídeo).

A Jihad inicia-se após a Hégira, em 625 d.C., e traduz-se, para começar, na conquista pelos exércitos islâmicos, sob comando árabe, do Médio Oriente e do Norte de África. Oitenta e seis anos depois, em 711 d.C., esses exércitos entram na Península Ibérica, dominando-a, na sua quase totalidade, no decurso das duas décadas seguintes, sendo a sua passagem para além dos Pirinéus travada, já em solo Franco, na batalha de Poitiers, em 732 d.C.. Todo este processo, realizado a ferro e fogo dura, pois, cento e sete anos.

Só em 1095, passados mais de três séculos e meio, é que terá lugar a primeira Cruzada, com o intuito de devolver à cristandade o acesso aos lugares santos do Cristianismo, entretanto usurpados pelo Islamismo tanto a cristãos como a judeus. A última delas, a quinta, durará quatro anos, entre 1217 e 1221, e o que resultará do conjunto de todas elas, nesse intervalo de cento e vinte e seis anos, não será sequer o domínio europeu da zona, quanto mais a reconquista da área da África do Norte, toda ela cristã antes da imposição, por via armada, do Islão.

A conquista islâmica dos territórios norte-africanos e europeus nada tem a ver com a devolução do que quer que fosse a que os árabes tivessem direito. Nem mesmo podem alegar, para tal, qualquer ameaça vinda da Europa da época. Os europeus, bárbaros em emergência, ocupados em guerras que definissem os seus novos territórios, decorrentes da derrocada do Império Romano do Ocidente, tinham mais em que pensar do que no Médio Oriente. Os exércitos islâmicos assenhorearam-se, em nome da salvação pela verdadeira religião ou a pretexto dela, do que não era seu. Só não se apoderaram do que, por fim, não lhe permitiram e foi preciso rechaçá-los, numa luta que, no caso ibérico, durou até 1492, isto é, em contas redondas, oito séculos.

Perdidas as veleidades de se tornarem numa outra versão da antiga Roma imperial, unificada, política e administrativamente, pelos princípios do Alcorão, procuraram sufocar a Europa através do impedimento à livre circulação de bens e de ideias existente, desde a Antiguidade, entre o Ocidente e o Oriente, nomeadamente entre a Europa e a Índia, base da fertilidade das civilizações grega e romana e de todas as restantes que se haviam desenvolvido em torno do Mediterrâneo. O seu declínio, comercial e militar, começou, de vez, com a chegada dos portugueses a Calecut e, posteriormente, com o aparecimento e o estabelecimento de holandeses, franceses e ingleses por todo o Oriente.

A partir do século XVIII, com a Revolução Industrial, acentuou-se cada vez mais a decadência de uma civilização em que o saber se tornou prisioneiro das cadeias de uma teologia incomparavelmente mais limitadora do que o Cristianismo alguma vez fora. O desenvolvimento dos conhecimentos técnico-científicos transportou o Ocidente para o plano de uma outra humanidade, enquanto os árabes, excepção feita aos tradicionais tiranetes assassinos com poder de compra que os dominavam, estiolaram entre o cavalo, o camelo e o burro, presos de impérios orientais que se faziam e desfaziam como sempre aconteceu desde há três milénios. Até que, por fim, inevitavelmente, sobretudo a partir do último quartel do século XIX e até ao final da II Guerra Mundial, surgiram os ingleses e os franceses. Era o fracasso final do povo eleito, o povo guiado pela palavra do único Deus, Allah, revelada ao terceiro e, determinadamente, o último dos profetas, Muhammad. O fracasso da tarefa que se propusera a si próprio e em que assentara a sua identidade. Ou reagia, ou estaria condenado para toda Eternidade.

Ao contrário do que é dito no Evangelho, onde a vingança é sinónimo de degradação espiritual, o Alcorão entende-a como legítima sem, no entanto, a definir (o que levanta muitas e interessantes questões). Porém, a vingança, perspecyivada por uma cultura como a árabe, repressiva e agressiva, na qual a dissimulação e hipocrisia são confundidas com uma das quatro virtudes cardeais tradicionais, a Prudência, torna-se no conceito que alimenta, fundamentando-o, um ressentimento venenoso. Esse ressentimento assumirá, assim, para que o povo de Deus não perca a face perante o Criador e alcance o Paraíso, a seguinte forma teológica: os Ocidentais têm por eles as forças do Mal, perdemos esta batalha, mas a força de Allah, que está desde sempre em nós, alcançá-los-á, no final; teremos que o derrotar definitivamente, aos impuros, vencendo-os-os e submetendo-os às leis do Alcorão. A nossa vingança é a vingança de Allah. Utilizaremos os seus conhecimentos contra eles, as forças do Mal virar-se-ão contra ele próprio e assim será destruído.

Este não é, evidentemente, o espírito de todos, senão de uns quantos, que, no entanto, são a parte verdadeiramente activa, como se tem visto. Os restantes oscilam entre um islamismo passivo, mais ou menos consciente de si mesmo, que demonstra esse ressentimento através da resistência “cultural”, encerrando-se, no estrangeiro, em comunidades fechadas e, no seu próprio país, na lei islâmica como fundamento das leis nacionais; e, evidentemente, o islamismo-da-boca-prafora, como plano de defesa de interesses mais ou menos instituídos e confessáveis (no que, aliás, são semelhantes a inúmeros exemplares do mesmo tipo, espalhados pelo planeta, residentes em diferentes religiões e ideologias).

Dizer, pois, como o faz, no seu comentário, um anónimo, que a Jihad constitui o reverso da medalha das Cruzadas, indicia pura ignorância ou cartilha política de conveniência ideológico-partidária, acriticamente papagueada. Porque, atendendo ao que se passou, só a afirmação oposta poderia fazer sentido. As Cruzadas e os Cruzados não foram mais do que a resposta tardia a algo que cujo começo foi da iniciativa e da responsabilidade dos árabes e do “seu” Islão. Dos crimes e das crueldades, ninguém ficaria impune num julgamento imparcial. Trazê-las à baila como argumento revela, da parte dos seus dirigentes, as sinuosidades propagandísticas dos seus planos. Com efeito, se a moral tivesse a ver alguma coisa com os factos que a humanidade produz como história sua, os árabes deveriam, por este motivo, manter-se num silêncio envergonhado, com tanto maior razão para tal quanto a política do punhal fratricida que, desde sempre, inclusive no seu apogeu, grassou entre eles, não desapareceu ou sequer se atenuou.

01 setembro 2010

Deixei de ler o Expresso...


... vão para aí uns trinta anos. E quando, ocasionalmente, em casa de um ou outro amigo, lhe passo os olhos por cima, mais sinto justificada a minha aversão. Ora vejam bem esta, que recolhi via Fiel Inimigo.

30 agosto 2010

Efeito "bola de neve"

Agora que voltei e fiquei a saber que a sra. Ministra da Educação decidiu arrasar de vez com o que restava do ensino nocturno, acabando com o ensino secundário por módulos capitalizáveis, aqui deixo algo, cuja autoria desconheço, que me foi enviado por email.

14 agosto 2010

Aaaahhh!!!


Volto daqui a duas semanas.

12 agosto 2010

Ricardo Araújo Pereira no seu melhor


Revista Visão, hoje:

Portugal é fogo que arde sem se prever

É todos os anos a mesma coisa: chega o verão e começam os incêndios, os jornalistas fazem reportagens em direto à frente das chamas, os bombeiros queixam-se da falta de meios, os comentadores perguntam como é possível que ninguém se tenha lembrado de limpar as florestas e há sempre um parvo que assinala que é todos os anos a mesma coisa. Cada um tem a sua função nesta farsa - e a minha, pelos vistos, é esta.
O aspeto mais intrigante dos incêndios de verão é a aparente surpresa com que acolhemos um fenómeno que é recorrente e pontual. Não há nada mais previsível do que os fogos em agosto, e no entanto continuam a abrir telejornais. Todos os anos Portugal escorrega na mesma casca de banana, e é sempre notícia. Trata-se de uma tradição que sobressalta.
Toda a gente está preparada para a Volta a Portugal em Bicicleta, mas ninguém espera a Volta a Portugal em Carro de Bombeiros, que decorre todos os verões exatamente na mesma altura. Imagino que, nas redações, os jornalistas tenham uma minuta com o modelo da reportagem e as questões que é preciso colocar a populares, bombeiros e ao ministro da Administração Interna. No final de julho, tiram a minuta da gaveta e dirigem-se para onde houver labaredas. O espetador tem a sensação de estar a ver sempre o mesmo jornalista, o mesmo bombeiro, e o mesmo ministro da Administração Interna. Não são reportagens, é uma peça de teatro. E está em cartaz há mais tempo que Te Mostrar em Londres.
JORNALISTA: Estamos aqui em [colocar nome da localidade], onde um violento incêndio está a consumir a floresta e começa a ameaçar algumas casas. Comigo tenho o comandante [nome do bombeiro]. Sr. comandante, qual é o ponto da situação?
BOMBEIRO: Olhe, com os meios que temos estamos a fazer o melhor possível. O batalhão é pequeno e, além disso, precisávamos de mais dois camiões cisterna e dava-nos jeito um helicóptero.
JORNALISTA: Aproveito então para falar com o ministro da tutela, que também tenho junto a mim. Sr. ministro, o que é que está a ser feito para prevenir este desastre?
MINISTRO: Disse desastre? Costuma ser flagelo.
JORNALISTA: Tem razão. Desastre é para as cheias. Peço desculpa. O que é que está a ser feito para prevenir este flagelo?
MINISTRO: Estamos a trabalhar no sentido de criar condições que permitam promover um esforço muito sério com vista a desenvolver mecanismos que conduzam ao reforço das infraestruturas. E recordo que a área ardida este ano é menor que a do ano passado.
JORNALISTA: Obrigado, sr. ministro. Adeus e até para o ano no mesmo sítio e à mesma hora.
E depois cai o pano. Os atores recolhem aos bastidores e a plateia boceja. O incêndio continua a queimar tudo, incluindo o papel onde os responsáveis apontaram que, para o ano, é mesmo necessário limpar as matas. Os únicos metros quadrados que não ardem são aqueles em que as estações de televisão montam o tripé para o jornalista entrevistar os bombeiros e o ministro. O resto costuma desaparecer, até porque Portugal parece ser um país que tem mais pirómanos por metro quadrado do que árvores. A vida também está difícil para eles. A quantidade de pirómanos residentes em território nacional sugere que, no nosso país, aquela máxima sobre a plena realização pessoal foi ligeiramente adaptada. Aqui, ao que parece, só tem uma vida verdadeiramente completa o cidadão que tiver um filho, escrever um livro e queimar uma árvore.

10 agosto 2010

Conhecem?



António Simões na Bienal de Poesia de Silves 2008.

07 agosto 2010

Em coisas como estas é que se pode apreciar...


... as diferentes perspectivas sobre o serviço público e a governação. Uns já foram para o Quénia, outros estão na Suíça...

04 agosto 2010

Um ministro determinado...


... não precisa de fingir que é democrático nem sequer bem-educado. Só precisa de dizer que está bem informado.
E nem Salazar, se fosse vivo, se atreveria a duvidar de tal. Como diria o chefe do bando, perdão! da banda: Eróc faltava...!

03 agosto 2010

Exemplar!


(Ignoro quem seja o autor da foto)

Do país que somos, do país que temos (a ordem dos factores é arbitrária).

30 julho 2010

23 julho 2010

Ah!...


... grande Eduardo! E que extraordinário trabalho de informação e afirmação este homem tem estado a fazer diariamente no seu blog, substituindo-se àquilo que deveria ser parte das funções das entidades públicas de um país civilizado!
Passem por lá diariamente, olhem que vale a pena.
Até já.

20 julho 2010

Um miado com piada

16 julho 2010

Volto na terça

09 julho 2010

Mais uma...


... deliciosa missiva de Nicolau Saião:

Eu até sou um tipo afável - como dizia o filósofo... - mas não percebo nada de futebol. Ou seja, nunca poderia acertar numa só previsão que fosse, em termos de bola mundial - ao contrário do polvo (creio que sabem do que se trata, o polvo das previsões num aquário de algures) que, contudo, parece que terá como destino ir acabar em apaladado arroz malandrinho.
É assim que cá (lá) se tratam as pitonisas modernas? Isto diz bem do respeito que por lá (cá) se tem pelo sagrado - e há algo mais sagrado do que um vigoroso derby?
Mas da minha pouca sabença filosófico-religiosa (há lá coisa mais religadora do que um belo golo, depois de uma jogada inesquecível!) sempre saberei, talvez, isto: que independentemente do aproveitamento que o Zapatero (o nome deste tipo, tão real politik, sempre me fez farnicoques) e sus diversos muchachos vão fazer, os nuestros manos que andam entre as quatro linhas mostraram até agora pelo menos isto: que um pouco de trabalho e de garra, caldeada por uma certa sensatez, sempre dá bom resultado. Seja na bola ou na vida societária, vulgo países, que dantes eram nações e hoje se parecem mais com involuntárias associações de consumidores. (E vá lá que inda se vai tendo para consumir alguma coisa, não é como naquela loja romena do tempo dos amanhãs que cantavam onde só havia, como mostraram as inúmeras agências noticiosas de todo o lado, ossos de suíno e de vaca para fazer/dar gostinho a sopa...). Adiante.
Ou seja: polvo por polvo prefiro, mesmo distanciado, o da bola. Clarificando melhor: o das previsões. O do arroz malandrinho, coitado dele, que merecia pela ajuda que deu a distrair as gentes, acabar de velhice num zoológico. Mas a tolice e a superstição - mesmo engraçadas - têm razões que a razão desconhece...
Dedico o envio de hoje aos espanhóis, ao povo espanhol que me habituei a estimar. E que, tal como os portugueses de bem, não alinham com polvos (dos outros, está de ver!).
O abrqs proverbial e nominal do vosso
ns

08 julho 2010

Santana Castilho, no PÚBLICO


A solidez de um livro, segundo Sobrinho Simões

O livro de Maria de Lurdes Rodrigues é um relatório burocrático sobre as suas tenebrosas medidas de política educativa
No livro que acaba de lançar, Maria de Lurdes Rodrigues cita Max Weber para justificar a sua acção política, movida, diz ela, pela "ética das convicções". Atentem, generosas leitoras e leitores, ao naco de prosa que a ex-ministra escolhe para caracterizar quem tem vocação para a política (no caso, ela própria):
"... Só quem está certo de não desanimar quando ... o mundo se mostra demasiado estúpido ou demasiado abjecto para o que ... tem a oferecer ... tem vocação para a política ..." (in
A Escola Pública Pode Fazer A Diferença, p. 18)
Freud ensinou-nos que nenhuma palavra ou pensamento acontecem por acidente. Uma coisa são os erros comuns, outra, os actos falhados. É falhado o acto que leva Maria de Lurdes Rodrigues a citar, assim, Weber, para justificar a sua acção política. E fez tudo o que fez, confessou-nos no circo do lançamento, com grande alegria, qual pirómana que se baba de prazer ante as cinzas da escola pública que deixou.
Eis as entranhas de uma coisa que não é pessoa, que não tem alma, e que não aguenta mais que 18 páginas para dizer, de modo obsceno, o que pensa dos que esmagou com sofrimento.
O livro é híbrido e frio, como a autora. É um relatório factual e burocrático sobre as suas tenebrosas medidas de política educativa. A excepção a este registo está na introdução, um arremedo ensaísta de alguém que chegou a ministra sem nunca ter percebido o que é uma escola e para que serve um sistema de ensino. Permitam-me duas notas factuais a este propósito e a mero título ilustrativo:

1. A autora introduz, como grande tema de debate sobre políticas educativas, o nível de conhecimentos adquiridos na escola. Interroga-nos assim: "... Os adultos que fizeram a quarta classe da instrução primária no tempo dos nossos avós sabiam mais do que os jovens que hoje concluem o 9.º ano? ..." (obra citada, p. 11). A questão é intelectualmente pouco honesta. Porque compara quatro anos de escolaridade com nove. Porque é formulada por alguém que contribuiu definitivamente para que não se possam hoje comparar resultados escolares, coisa que, apesar das dificuldades, se podia fazer na época a que alude.
2. A ex-ministra diz que não fez uma reforma da educação, que tão-só concebeu e aplicou medidas. Se é surpreendente o conceito ("reforma" foi palavra-chave citada até à exaustão na vigência do Governo que integrou), entra em delírio surrealista quando escreve (p. 15): "... Não se pode considerar que o conjunto das medidas configurem uma reforma da educação, porque de facto não foi introduzida uma mudança nos princípios de funcionamento do sistema educativo, ou uma mudança na sua estrutura e organização ...". Não mudou princípios de funcionamento do sistema educativo, nem mudou a sua estrutura e organização? E os estúpidos somos nós? Enxergue-se e tenha decoro.

Segue-se o Diário da República narrado aos papalvos por 20 euros e 19 cêntimos. Registam-se apoios, listam-se colaboradoras e colaboradores e referem-se reuniões. Nenhuma dúvida, nenhum apreço pelo contraditório que lhe foi oposto, muito menos qualquer riqueza dialéctica. Um deserto, numa imensa auto-estrada de propaganda.
Ao longo dos últimos cinco anos, fundamentei nesta coluna de opinião a oposição a cada uma das 24 medidas que o livro distingue, pelo que tão-só recordo as mais emblemáticas das que a autora refere: a aberração pedagógica e social, que nacionalizou crianças e legitimou a escravização dos pais, baptizada como "escola a tempo inteiro"; o logro do ensino profissional (Maria de Lurdes fala de 28.000 alunos em 2005, para dizer que os quadruplicou em 2009. Mas conta mal.
No ano lectivo de 2004-05 tinha 92.102 alunos no conjunto dos cursos que ofereciam formação profissional); a demagogia de prolongar para 12 anos o ensino obrigatório (na Europa a 27 só cinco países foram por aí) sub-repticiamente sustentada pela grosseira manipulação estatística que lhe permite afirmar que no ensino secundário temos um professor para cada 8,4 alunos (p. 90), pasmem quantos conhecem a realidade; a insistência no criminoso abandono de milhares de crianças com necessidades educativas especiais, por via da decantada aplicação da Classificação Internacional de Funcionalidade; a engenharia financeira e administrativa (depois veremos aonde nos conduzirá), que está a transferir para a propriedade de uma empresa privada, por enquanto detida pelo Estado, todo o património edificado; e, "the last, but not the least", a fraude pedagógica imensa que dá pelo nome de Novas Oportunidades, forma de diplomar a ignorância na hora, gerando injustiça e semeando ilusões.
Na cerimónia do lançamento do livro que acabo, sumariamente, de analisar, Sobrinho Simões, um cientista de grande gabarito e um homem de muitos méritos, referiu-o como "o mais sólido" que leu até hoje. Quem dedicou a vida a combater o cancro com o rigor da ciência não podia, estou seguro, afirmar o que afirmou, se tivesse analisado a produção técnica e legislativa que sustenta a racionalidade do livro que elogiou. Mas a vida actual é assim. Muitos sucumbem, adaptando-se a esta sociedade doente. Continuo felizmente de saúde. Por isso choro quando vejo cair os melhores.

04 julho 2010

Do interesse...


... em salvar o mundo ou "A petrolífera verde e as suas bactérias amestradas" (com vénia ao RioD'Oiro, do Fiel Inimigo).

02 julho 2010

Acho que não é preciso muito mais...


... para se perceber, por este exemplo, onde se encontra a principal causa do crescente número de erros que têm vindo a acontecer. Quem utilizou regularmente os serviços dos hospitais desde há cinco anos tem, aliás, uma muito clara percepção da situação.
O estratagema que o "governo" usa para disfarçar a raiz do problema que criou, é, como sempre, instaurar um clima de suspeição pública generalizada sobre as competências e o profissionalismo dos envolvidos, nomeando ou fazendo nomear comissões de inquérito e de acompanhamento de processos, com o consequente clima de tensão, medo e crispação entre todos, que em nada contribui para qualquer melhoria de desempenho, antes para a degradação do mesmo. Dividir para melhor distrair a população da sua atroz incompetência, dividir para mais eficazmente impor o domínio de um grupo sobre os restantes cidadãos, tem sido, aliás, o procedimento preferido e corrente de "governantes" que, na prática, negam o seu próprio país e a função para que foram eleitos.
Sabe-o quem trabalha na saúde, sabe-o quem trabalha no ensino, sabe-o... sabe Deus!

30 junho 2010

Do absurdo e do sinistro



Mais uma vez, num telejornal. Mais uma vez, o espanto. Mais uma vez, se alguma coisa ainda me pudesse espantar neste país.
Numa instituição de ensino pré-escolar. No Restelo. Uma actividade para crianças na média geral dos quatro anos de idade. Um Projecto Pedagógico de Intervenção Paisagística. Objectivo?
Levá-las a saber como plantar flores, arbustos, alfaces... Saber como cuidar daquilo que se plantou, o que fazer, em que devida altura...
Ensinar às crianças tudo isto deveria fazer parte do ensino obrigatório. Ensinavam-no antigamente muitos avós aos seus netos. Muitos pais. Muitos seus familiares. Por acharem que fazia parte do estojo de sobrevivência, por necessidade económica, para alargamento de horizontes e desenvolvimento intelectual, como forma de educação cívica através do trabalho, como forma de abertura à noção de poesia...
Coisas que "as mais avançadas pedagogias" ao serviço do Estado, menosprezaram, no seu incremento e na sua implementação dos novos obscurantismos. Os dos cegos que conduzem outros. Mas, mesmo começando já a haver sinais do início da sua agonia, o ferrete com que distorceram a educação das mais recentes gerações mantém-se nos mais simples aspectos das coisas mais simples.
Projecto Pedagógico de Intervenção Paisagística...! Haverá melhor e maior sinal do carácter medíocre e bimbo, tosco e mistificador, massificador e desumanizante, absurdo e repressor do ensino em Portugal do que ouvir pronunciar o nome desta disciplina pela boca das crianças? O simples nome de uma disciplina escolar basta para que se revele, subtil e sinistramente, o estado a que tudo chegou.

28 junho 2010

Voyeurismo socialista?


Fui ontem surpreendido - se é que alguma coisa ainda me pode surpreender neste país e neste governo - com a notícia surgida no telejornal a que eu assistia, segundo a qual será obrigatório responder, no próximo censo populacional, à pergunta sobre qual a "orientação" sexual do "censado".
Demorei uns segundos a voltar a fechar a boca. O mesmo Estado que se recusou, noutro censo, realizado anos atrás, a incluir uma utilíssima e indispensável pergunta sobre o tipo e o grau de deficiência ou deficiências dos cidadãos, é o mesmo que agora pretende devassar a vida pessoal e a intimidade daqueles que, supostamente, deveria servir e proteger.
Por acaso, a minha "orientação" é a mais comumente instituída, sou um heterossexual impenitente. Mas afirmo, desde já, que me recusarei a responder à pergunta. Sejam quais forem as consequências que isso me acarretar. E que incitarei os meus concidadãos a fazê-lo.
Como diria uma conhecida personagem política, por acaso o sr. primeiro-ministro: "Era o que faltava...!". Era o que nos faltava, um Estado voyeur...!

27 junho 2010

Só mais um dia...


Volto amanhã. Deixo aqui entretanto, um poema de Armindo Rodrigues, hoje tão esquecido, mesmo pelos seus camaradas de partido, apostados em Saramago. O poeta que, como dizia David Mourão-Ferreira era "um carro de combate carregado de flores".
LIBERDADE
Ser livre é querer ir e ter um rumo
e ir sem medo,
mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
transformar o fumo
do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,
só ver portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar teimosamente do caminho
sonhos de sol
com fúrias de raiz.
É estar atado, amordaçado, em sangue, exausto
e, mesmo assim,
só de pensar gritar
gritar
e só de pensar ir
ir e chegar ao fim.
Nota
Não sei porquê, mas a grafia do poema não sai correcta no post. O poema tem duas estrofes, a segunda das quais começa em "É estar atado, ....).
As minhas desculpas.

26 junho 2010

23 junho 2010

Pois é...


... a "coisa" não tem andado fácil. Nem para terminar um textículo que, como já disse atrás, alinhavei vai para duas semanas, tenho tido disponibilidade. Mas voltarei no domingo. Palavra de escuteiro.
Até lá.

18 junho 2010

Nicolau Saião, hoje, no TriploV



Da hipocrisia como uma das Belas Artes

Morreu Saramago e, como sempre, os habituais hipócritas ou interesseiros, vêm-lhe festejar o cadáver. Nunca o apreciaram, mas dizem-se pesarosos. É o habitual. Eu também nunca o apreciei - quer como escritor, quer como pessoa. Como escritor, a despeito dos galardões, achei-o sempre limitado. Como pessoa era envinagrado e pedante (leiam-se as memórias do comunista, mas consistente, Orlando Neves, um dos melhores poetas lusos, e ficar-se-á esclarecido sobre a personagem). Mas nunca o ofendi, como muitos que agora fingem desgosto. Outros, por dever militante, tentam forçá-lo a prestar um último serviço... à "causa". Chamam-lhe homem livre. De facto, foi um estalinista, um apreciador de ditadores (quem esqueceu o elogio a Fidel e a Stalin, que segundo ele foi um homem de pulso?) e um homem de obediências cegas.
Mas era um ser humano, que merecia que não lhe babujassem o cadáver com fingimentos.

17 junho 2010

Viva a toda a gente!



Era, de facto, para ter recomeçado na 2ª feira, escrevinhei um post e tudo. Mas, uma vez mais, a minha disponibilidade foi-se em poucas horas e manter-se-á ausente até ao próximo sábado. Domingo, estarei de volta.
Até lá, fiquem com aquela que é, para mim, uma das grandes canções (embora das menos conhecidas) de Djavan.

10 junho 2010

Volto na segunda-feira, mas...


... deixo aqui, entretanto, um pequeno texto de Chesterton, numa tradução do meu caro Nicolau Saião.

O que achei nas algibeiras

Uma única vez, no decorrer da minha vida, fui ao bolso de um fulano e, de certezinha por distracção, acontece que esse bolso era o meu…
Com propriedade o acto pode descrever-se dessa forma, no mínimo, porque ao tirar coisas das algibeiras fui sentindo as emoções do gatuno: a total ignorância sobre o que ia achar e uma curiosa excitação pelo que ia encontrando…
Estava bem fechadinho num autocarro de terceira e a viagem ia ser longa. Caía a tarde e, no exterior, a terra e o céu eram tão monótonos como uma tela na qual o pincel molhado da chuva houvesse imprimido uma descolorida melancolia. Não levava comigo nem jornais nem livros. Nas paredes do veículo não havia nenhum cartaz de publicidade sobre o qual pudesse efectuar um estudo apurado – isto porque qualquer acervo de palavras impressas é suficiente para me sugerir as infindáveis complexidades do humano engenho mental. Assim, por exemplo, quando me encontro frente às palavras “Sabão Sol” fico capaz de esgotar todos os aspectos do culto solar, de Apolo e da poesia do verão, antes de entrar no assunto propriamente dito e menos transcendente do sabão…
Mas no compartimento que ocupava não se viam nem imagens nem palavras em que pudesse deter o olhar, nada havia para além da inexpressiva madeira, no interior e, lá fora, a paisagem coberta de humidade
Ora, sempre me tenho negado com energia a admitir que haja coisas que não possuam qualquer interesse. Assim sendo, pus-me a olhar os encaixes das tábuas das paredes e dos assentos, meditando profundamente no empolgante tema que é a madeira. E no exacto momento em que começava a entender porque é que Jesus Cristo fora carpinteiro e não pedreiro ou mesmo padeiro, vieram-me de repente à ideia as minhas algibeiras. Sem disso ter consciência, carregava comigo um tesouro desconhecido! Aquelas ninharias que sempre se trazem distribuídas por todo o corpo, por aqui e por ali. E comecei a tirar coisas dos bolsos.
O que primeiro de lá saiu foram uns quantos bilhetes de eléctrico da carreira de Battersea, os quais me deram de imediato o material impresso de que estava a precisar: no verso de cada um deles lia-se um curto mas incisivo ensaio científico sobre certas pílulas medicinais. Dada a minha modesta condição económica desse tempo, os ditos bilhetes de eléctrico podiam considerar-se como uma minúscula mas selecta biblioteca científica. Continuasse eu a viajar daquela forma mais alguns meses – o que, na época, era muito de admitir – e estaria dentro em breve mergulhado com empenho numa polémica sobre os defeitos e as virtudes das pílulas, armando réplicas e tréplicas ora contra ora a favor, baseado nos dados que os bilhetes me facultavam.
Depois tirei do bolso um canivete. Um canivete, digamo-lo desde já, é objecto que só por si faz jus a um volume considerável de meditações morais. Pois a faca é um elemento típico de uma das primaciais origens práticas em que assenta, como sobre curtos e grossos pilares, a civilização humana. Os metais, o mistério daquilo a que chamamos ferro e aço, levaram-me a uma espécie de sonho arrebatado. Mediante a fantasia penetrei no âmago de bosques húmidos e escuros onde o homem primitivo topou, entre outras pedras, com esse estranho calhau. Vi-me no meio de uma escaramuça violenta e vaga, na qual os machados e os facalhões de sílex se quebravam, se estilhaçavam contra algo de novo que reluzia e que um dos furiosos combatentes empunhava. Escutei todos os martelos malhando em todas as bigornas do mundo; vi todas as espadas das guerras feudais e todas as engrenagens da batalha industrial.
Porque a faca é apenas uma espada curta; e o canivete é uma espada oculta. Abri-o – e pus-me a contemplar essa língua luzente e temível a que se dá o nome de lâmina; e concebi que talvez ela fosse o símbolo da mais antiga necessidade do homem…Mas no momento seguinte percebi que me enganara., pois o objecto que logo após me saiu do bolso era uma caixa de fósforos. Visionei então o fogo, que ainda é mais poderoso do que o aço; a chama, essa antiga coisa feminina e feroz, que todos amamos mas em que não ousamos tocar…
Veio a seguir um bocado de giz; e vi nele a arte toda, os murais de todos os tempos e de todos os lugares. Depois extraí do bolso uma moedinha de parco valor; e nela vi não só a efígie do nosso próprio imperador mas também a soma de todos os governos e da ordem, desde que o mundo é mundo.
Mas falta-me espaço para arrolar agora a lista completa de objectos que, num longo e esplêndido corrupio de símbolos poéticos, continuou a escorrer-me das algibeiras.
Uma coisa, contudo, posso assegurar-vos: nelas não consegui achar o bilhete do autocarro…

09 junho 2010

04 junho 2010

Uma carta de Nicolau Saião


Caros/as confrades

Os tempos, de repente, aqueceram - e juro que não me refiro às perrices político-sociais em que certos cavalheiros e certas obscuras irmandades têm mergulhado o país para melhor nos envinagrarem, rapando-nos harmoniosamente as algibiras.
Hoje refiro-me mesmo ao Verão.
Então aqui, pelo Alentejo, tem sido de atabafar.
" - Mas o que é que este quererá, hoje com esta conversa sobre o Tempo e o Clima?" - perguntará ali o confrade/a confradesa do canto, que é atilado/a e indagador/a?
Não, não é por isso, pelo que ressalta das palavras de Marco Aurélio ("Os que não têm nada para dizer, quando se encontram ou falam do tempo ou do clima...ou dos anos em que eram meninos"). Que eu até tinha coisas para dizer. Muitas coisas. Mas se me ponho a desbobinar, deixando a voz ao correr da pena...lembrando-me por exemplo daquele senhor que o povão começou por estimar, depois - pelas suas arteirices velhacas passou a detestar...e agora, mercê das suas videirices, acaba por desprezar (o que há dias, a propósito do anúncio de apoio a uma candidatura, achou que era um erro por ser fala prematura - colocando assim a ética política, com a hipocrisia que lhe é própria, ao nível apenas do timing...), se me ponho dizia a desbobinar, correrei o risco de vos aborrecer por encher muito o discurso.
Queria ressaltar, apenas, que deveremos entrar em breve na oficial (!?) época dos fogos!
E assistiremos, decerto, a muitas reportagens galvanizantes nas TVs - se acaso o nosso premier, com a inteligencia pragmática que se lhe conhece e o robusto bom senso de "animal político" como se auto-designou numa feliz tipificação, não der indicações de silêncio nas fileiras, para não alarmar as consciências já de si alavarintadas das lusas gentes. Como fez no ano transacto, em que os fogos não diminuiram mas todos ficámos muito mais descansados...
"Olhos que não vêem, coração que não sente" , como diz o Outro.
E pronto, uma vez esclarecida a pequena dúvida, resta-me desejar-vos bom fim-de-semana. Por mim, garanto que o vou ter! Cá por coisas. Contos largos. Mas lá um pouco mais para diante vos contarei. Yep!
... E já me esquecia, mas emendo já a mão: o envio de hoje, dedico-o aos Bombeiros lusos, tantas vezes a contas com a gandulice societária de gente que nem sequer lhes dá os materiais de que precisam para fazerem o seu trabalho meritório.
Abrqs do
n.

O mesmo Nicolau Saião de quem poderão ler Flauta de Pan, se clicarem aqui.
Até já.

De decreto em decreto


O Governo (o termo mantém-se, por comodidade de designação) vai, pouco a pouco, prosseguindo na tarefa em que se empenhou do apodrecimento definitivo do sistema de ensino português. Agora, os alunos retidos no 8º ano e com mais de 15 anos poderão transitar directamente para o 10º ano, se tiverem êxito num conjunto de exames que deverão realizar.
Os professores, como qualquer pessoa de bom-senso, atendendo às características que esses alunos apresentam na sua quase totalidade, têm as maiores dúvidas (?) em que eles o consigam. Dizem-no retoricamente, é claro. Porque sabem que, na devida altura, mesmo que os exames sejam exames reais, algo em que, evidentemente, ninguém acredita, surgirão ordens de serviço "orientadoras", lembrando a necessidade de uma "compreensão facilitadora do processo de ensino-aprendizagem", algo cuja não-observância indicará a menor competência profissional ou o "carácter retrógrado, elitista e desactualizado" do docente, com as respectivas consequências. Desde logo por parte do CE, que terá que apresentar números (eleitorais) ao ME.
Pidescos, sinistros, com a arrogância própria da irresponsabilidade e do oportunismo político, Sócrates e o seu grupo vão desagregando o país. De decreto em decreto.
Até à vitória final?

03 junho 2010

Uma aventura na escola


Ontem, numa escola dos arredores de Lisboa:
Um aluno cara-pálida procura separar três colegas africanos-de-segunda-geração que lutam, no pátio, por causa de uma anterior luta, no pátio, das respectivas namoradas.
Hoje, na mesma escola:
Um grupo de sete indivíduos africanos-de-segunda-geração invade as instalações, agride uma funcionária, procura o aluno referido e espanca-o violentamente.
Os colegas, amedrontados, não reagem.
O aluno cara-pálida é salvo de um muito provável homicídio por um conjunto de professores e alguns amigos de diferentes colorações, que o protege, fazendo uma barreira à sua volta.
Os agressores eram amigos de um dos três outros colegas que ele separara no dia anterior e que não gostou da intromissão.
O aluno cara-pálida foi assistido no hospital e recusa-se a fazer queixa, por medo de represálias.
O CE da escola, logo se verá, não haja, além de represálias dos mesmos (que já ameaçaram quem falou em divulgar o caso), inquéritos à segurança do estabelecimento por parte ME.
Os alunos obtiveram excelentes ensinamentos sobre o que deverá vir a ser o seu comportamento como cidadãos portugueses.
É esta a verdadeira escola, uma escola portuguesa que prepara para sociedade portuguesa.
Uma escola para sobreviventes de uma sociedade para sobreviventes.
Na qual, perante um outro caso de agressão ocorrido há pouco tempo, um aluno que nada tinha a ver com o que sucedera, passou junto do colega caído e o pontapeou também. E que, interpelado por um companheiro, espantado com a sua atitude, respondeu:"'Tão...! Se é para bater, é para bater...".

25 maio 2010

24 maio 2010

Da satisfação e do orgulho


Passou, há pouco, no telejornal da SIC, uma notícia que, enquanto português, me encheu de satisfação e de orgulho. Tal como pudemos ouver na peça jornalística, no Parque Biológico de Gaia, uma lontra bébé vive, desde o seu nascimento, há seis meses, dentro da casa de banho destinada a quem tem deficiências físicas, por inexistência de estruturas que a acomodem. Enorme exemplo de grandeza de alma, este!
A solução poderá passar por enviá-la para Espanha, logo que atinja a maioridade, quer dizer, logo que saiba caçar e prover autonomamente à sua existência, disse-se ainda. Pelo que agradeço desde já, em nome de toda a nação, aos nossos irmãos do outro lado da fronteira a hospitalidade demonstrada. E prometo, se tal estiver ao meu alcance, pagar-lhes com uma barrigada de riso, pedindo ao primeiro-ministro que faça aquele seu número apalhaçado do discurso para espanhóis, durante a passagem de tutoria do animal - ele é lá capaz de desperdiçar uma ocasião dessas, só para relembrar a importância do TGV...!
Suponho, além disso, que as autoridades nacionais estarão, como sempre, alerta e vigilantes, não permitindo o incentivo ou o desenvolvimento de perversas e antinaturais tendências pedófilas e zoófilas entre a sã população lusa, logo interditando a utilização das referidas instalações a quem visite o Parque. E que, assim, dando, desta maneira, um sinal da inexistência de indícios de perigo de extinção real dos deficientes portugueses, os devolvam à natureza no que há de mais simples, que é a satisfação de se aliviarem, ecologicamente, em pleno Parque, atrás das árvores, dos arbustos, ou até mesmo, como acontece, frequente e nem sempre discretamente, na selva urbana, dos bancos de jardim ou numa qualquer esquina ou recanto escondido.
Os cidadãos nacionais portadores de (os que carregam a) deficência, que fiquem, além e apesar disso, satisfeitos pela generosidade que demonstraram, albergando maternalmente a lontra, que ganhem ânimo ao saberem que todos temos os olhos postos neles, que são cidadãos úteis, para o país e para o planeta. Assim, quando virmos um nosso compatriota mijando envergonhadamente num canto qualquer, portugueses!, tragamo-lo para a luz e façamo-lo mijar orgulhosamente, com um repuxo maior do que o do menino de Bruxelas, do tamanho da homenagem que se pode fazer ao dever cumprido!
E ao enorme orgulho de se ser português no ano da Graça de 2010!

21 maio 2010

Salve-se quem puder!


1975...


... revisitado em 2010.

Mea culpa seguido da devida reparação


Por vezes, não tenho tempo para abrir os e-mails que me enviam. Passo pela caixa, registo que me enviaram coisas novas, penso em vê-las mais tarde... mas, depois, continuo sem tempo, a memória falha-me, enfim...! Com tudo isto, estou em falta com muita gente (o José Travassos Valdez, por exemplo, que o diga, enviou-me material para um tema interessantíssimo, que ainda não pude explorar devidamente nem, por isso, pô-lo aqui à discussão), nem sempre respondo aos comentários, há textos que me enviam que perdem actualidade. Ontem, dei com este, que me enviou o meu caríssimo Nicolau Saião há quase três semanas. Subscrevo-o. Aqui fica.

No Fórum do jornal Público, o senhor Doutor Passos Coelho, augusto actual líder do PSD – que muitos vêem como o primeiro-ministro que ele apreciaria vir a ser (uma espécie de Sócrates 2) – afirmou que o problema de Portugal é ser calaceiro. Daí decorreram diversas intervenções. Porque hoje é domingo, esta foi a minha.

"O Espelhismo

Um dos comentaristas deste espaço diz que o problema são os portugueses...
E eu diria: sim os que têm "governado", na verdade dominado, os portugueses! Explico-me já: tenho estado em diversos países, onde há portugueses emigrados. E são em geral respeitados como bons trabalhadores e pessoas de bem. Creio que isto é conhecido. Mesmo em Portugal, acho que é uma desfaçatez, perante este povo que tem sofrido e, nos momentos difíceis, afinal salvo a nação com o seu esforço, chamar-se-lhe calaceiro. Eu diria então: calaceiro é o senhor, ou seja - a classe política a que o senhor pertence, esta classe política ardilosa, oportunista e passa-culpas que nos continua a amofinar e a ofender. E Você tem a memória curta, pelo que se nota: não certificou que foi no tempo de Cavaco, com a retórica de Cavaco, que se radicaram ilusões de fartura no Povo? Esse Cavaco que pelos vistos o senhor admira? Com Sócrates estivemos e continuamos aviados... com a complacência de Cavaco.
Parece-me que consigo não ficaremos melhor. E ainda a procissão vai no adro.
Haja deus! "

20 maio 2010

Da hipocrisia e da indignação


Tenho familiares que vivem, sempre viveram, no interior do país. Agricultores. Com algumas terras próprias, que herdaram, e arrendatários de mais duas, uma delas a, pelo menos, 50km da povoação onde residem. Levantam-se diariamente às cinco da manhã. Multiplicam-se em tarefas. Voltam a casa tarde. Nunca antes das sete e, no Verão, às nove, nove e meia.
Faço-lhes uma visita anual, que às vezes se prolonga por dois ou três dias. Conheço bem a vila, desde a infância, passava lá parte das férias. Outrora próspera, dinâmica; hoje, letárgica. Não se distingue, nesse aspecto das restantes que a rodeiam.
Os meus familiares e mais uns quantos, poucos, vão mantendo alguma da actividade que lhe deu a desaparecida prosperidade. Outros, combinam essas actividades ou mesmo os ofícios que aprenderam com um emprego na cidade mais próxima. Muitos deles são amigos que me ficaram, os amigos do puto da cidade que me falavam de vivências, para mim estranhas, mas emocionantes.
A vila tem, como todas têm, o seu largo principal, a antiga terra batida agora transformada em jardim. Os cafés, o restaurantes, o banco, uma ou duas lojas em torno dele, o centro de trabalho de um partido político. E, no meio de muitas mais, a casa dos meus familiares.
De cada vez que os visito, vejo, sentada nos bancos, à sombra das árvores, ao balcão ou às mesas dos cafés, quase sempre com uma garrafa de cerveja na mão, gente, sempre a mesma, que parece eternizar-se, indolentemente, viscosamente, por ali. Nas conversas que vou mantendo com esses meus familiares, dão-me eles conta da dificuldade que têm, durante os períodos de maior afluência de trabalho, em conseguir encontrar pessoal para as tarefas indispensáveis. Ali, não o encontram e vêem-se obrigados a procurá-lo nas vilas vizinhas, onde também não é fácil recrutá-lo. Mesmo pagando bastante acima do que seria razoável.
E, em voz baixa, dizem-me, apontando disfarçadamente para os bancos do jardim e para dentro do café: "Estás a vê-los, ali? Não fazem mais nada o dia todo. Levantam-se, daí a bocadinho vêm para o café, bebem umas cervejas, depois vão almoçar, dormem a sesta, voltam para aqui e é isto a vida deles. Ofereço-lhes trabalho, mas qual trabalho!, têm ali o rendimento garantido estão-se c... A vida deles é estarem sentados, a beber cerveja. Ou deitados. E elas, é a mesma coisa. E, se fores aí pelas outras vilas, a coisa é a mesma, é a mesma desgraça. E o que é que a gente há-de fazer...?".
Curiosamente, um amigo meu, homem de convictas perspectivas de esquerda, que comprou uma casa para passar os fins-de-semana em pleno Alentejo, desabafava noutro dia comigo, num natural tom de incomodidade, que não percebia o que via quando passava lá alguns dias da semana: gente que parecia fazer do estar no café uma profissão, num marasmo que a ele, que subiu a pulso na vida, lhe parecia indigno. E o pedreiro que me fez obras recentemente cá em casa, falou-me, indignado, dos que, lá na terra, tinham vida semelhante. E...

Estupidez, teimosia, arrogância provinciana...


... interesses intocáveis... Ou tudo ao mesmo tempo?
E uma máscara de aparente inocência aflorando como por acaso, com cada vez maior frequência...

18 maio 2010

Ou há moral...


Recebido por e-mail
Clara Pinto Correia expõe os seus orgasmos, e nada acontece; Bruna Real posa despida numa revista e logo é acusada de… causar alarmismo social !!!
A Clara Pinto Correia, figura pública, professora universitária com uma carreira académica reconhecida, expõe fotos suas em pleno orgasmo numa galeria de exposições lisboeta, e nada lhe acontece. A Bruna Real, transmontana de 27 anos feitos, professora do ensino básico em Torre de D. Chama, posa despida em revista da especialidade, e cai-lhe em cima a Vereadora e a Autarquia de Mirandela, e é expulsa do seu emprego de professora sob a acusação de causar alarmismo social.
Situações análogas recebem tratamentos diferentes.
E porquê?
Provavelmente porque o erotismo do povo é muito mais subversivo que o erotismo das elites…
No primeiro caso, o erotismo popular é perigoso e ameaça a moral, constituindo um potencial motivo de subversão libidinosa popular que pode desviar as «massas» para caminhos que não são os desejados pela cultura dominante.No segundo caso, o erotismo das elites já passa por socialmente aceitável, e até é convertido em arte.
Melhor objecto de estudo para a sociologia não poderia haver ... Um bom dia para todos!...
Já agora, cliquem no endereço de onde retirei a foto. Delicioso!
Nota: Devo dizer que a minha perspectiva sobre o assunto, bem como sobre as semelhanças e as diferenças entre os dois casos, é, em boa medida, diferente da que é expressa no texto que me enviaram. Mas achei por bem transcrevê-lo, na medida em que constitui um bom ponto de partida para uma avaliação mais lata e aprofundada. Alguém quer começar?

15 maio 2010

A poesia do acto falhado


Há pouco, no telejornal da 2, Mário Soares, respondendo a uma jornalista: «Oh, minha senhora, lembra-se, com certeza, daquele soneto do Camões que diz "Mudam-se os tempos, mudam-se as verdades..."»
Um verdadeiro hino a Freud...

14 maio 2010

O dilema


Segundo o sr. dr. Francisco Assis, a propósito do que disse Pedro Passos Coelho, «um político não deve pedir desculpa». Ele, se pedisse desculpa, seria para se demitir. O que «poderia pedir era compreensão» - a exemplo do que fez, aliás, o sr. Ministro das Finanças.
Quem votou nele e, deste modo, realizou um acto político correspondente a um direito e à consequente responsabilidade, deverá, assim, pedir desculpa ou compreensão por esse acto?

13 maio 2010

O deputado de uma República de grande craveira


O deputado Ricardo Rodrigues, «uma pessoa cordata», nas palavras do dr. Mário Soares, e «um deputado de grande craveira, de que o país necessita», segundo o dr. Francisco Assis, viu o processo relativo à subtracção que fez dos gravadores pertencentes aos jornalistas da revista Visão, ser arquivado pela Assembleia da República (supomos que os haja , entretanto, devolvido, coisa em que esteve renitente nos dias que se seguiram à sua «acção impensada»).
Esperamos, por isso, vê-lo de volta à Comissão de Inquérito sobre o "Caso TVI", onde vem a distinguir-se como um dos mais denodados defensores do Governo.
Fazendo, é claro, votos - para maior segurança de quem lá preste esclarecimentos, bem como dos seus colegas de comissão, de outros partidos - para que o seu alfaiate não lhe tenha, impensadamente, feito bolsos de dimensões superiores ao normal, nas calças que leve vestidas...

11 maio 2010

Só mais uma


Este texto foi-me enviado por e-mail. E aqui fica, para proveito de quem passe.

LIÇÃO DO RATINHO

Esta fábula é fantástica! Serve para aqueles que se sentem seguros na actual crise mundial.
O que é ruim para alguém é ruim para todos... Será?

"Um rato, olhando pelo buraco na parede, vê o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote.
Pensou logo no tipo de comida que haveria ali.
Ao descobrir que era uma ratoeira ficou aterrorizado. Correu ao pátio da fazenda advertindo a todos:
- Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira na casa!!
A galinha disse:
- Desculpe-me Sr. Rato, eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me incomoda.
O rato foi até ao porco e disse:
- Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira!
- Desculpe-me Sr. Rato, disse o porco, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser orar.
Fique tranquilo que o Sr. Será lembrado nas minhas orações...
O rato dirigiu-se à vaca. E ela lhe disse:
- O quê? Uma ratoeira? Por acaso estou em perigo? Acho que não!
Então o rato voltou para casa abatido, para encarar a ratoeira...
Naquela noite ouviu-se um barulho, como o da ratoeira pegando sua vítima.
A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia pego. No escuro, ela não viu que a ratoeira havia pego a cauda de uma cobra venenosa. E a cobra picou a mulher...
O fazendeiro levou a esposa imediatamente ao hospital. Ela voltou com febre. Todo mundo sabe que para alimentar alguém com febre, nada melhor que uma canja de galinha. O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal, (matou a galinha).
Como a doença da mulher continuava, os amigos e vizinhos vieram visitá-la...
Para alimentá-los, o fazendeiro matou o porco.
A mulher não melhorou e acabou morrendo.
Muita gente veio para o funeral. O fazendeiro então sacrificou a vaca, para alimentar todo aquele povo.

Moral da História:

Não tem. Se fosse no estrangeiro tinha, mas em Portugal não tem.
Só o que me ocorre é que os ministros, incluindo o primeiro da fila, deviam ler isto.Assim como os actores de teatro, os fotógrafos e os hortelões (isto é para disfarçar).
Mas duvido que percebessem - e se percebessem não diziam, os safadinhos.
Não importa, que se f... a taça.

Nuno Reis Amaral

Mas, antes, ainda esta...

... que alguém deixou, ontem, numa caixa de comentários do Fiel Inimigo.

Volto na quinta. Sem falta :)


06 maio 2010

Do silêncio


Ontem, pelo fim da tarde, conversava eu com um familiar meu, minado pela doença de Alzheimer. Nem sempre reconhece já os netos e, noutro dia, não sabia que casa era aquela, a casa em que vive há mais de quarenta anos.
- Tenho que ir visitar a minha tia M., - diz-me - há muito tempo que não sei nada dela. Vive num lar, sabe disso, não sabe? O marido matou-se, que não aguentava a vida que levava, desde que ela foi para o lar. Coitado! Ai! Mas faz-me uma impressão ir lá vê-la...! Aquilo faz-me uma impressão...! Não conhece ninguém! Mas, a mim, parece que ainda me vai conhecendo. Quando cheguei ao pé dela, disse-me: "Vens buscar-me, vens buscar-me?". Coitada! Acho que ninguém merece isto, estas coisas assim, acho que ninguém merece.
E todo o silêncio do mundo veio ter comigo.

04 maio 2010

Intervalo forçado


Como já se deverá ter percebido, os impedimentos a que eu torne aqui com a regularidade que desejaria voltar a manter têm sido mais que muitos. Embora já não se devam (uff!) a problemas de saúde, não deixam de me retirar demasiado tempo para o fazer. Divulgo, entretanto, um e-mail que me foi enviado por um amigo, professor do Ensino Secundário, no qual se dá conta de uma participação feita por uma sua colega, de uma escola do Norte do país. Para que conste.

PARTICIPAÇÃO DISCIPLINAR MUITO GRAVE

Professora agredida: Leonídia Marinho
Grupo Disciplinar: 10º B - Filosofia
Agressor:

Contextualização:

Dia vinte e seis de Março de 2010. Último dia de aulas. Às 14 horas dirigi-me à sala 15 no Pavilhão A para dar a aula de Área de Integração à turma 10º DG do Curso Profissional de Design Gráfico. Propus aos alunos a ida à exposição no Polivalente e à Feira do Livro, actividades a decorrer no âmbito dos dias da ESE. A grande maioria dos elementos da turma concordou, com excepção de três ou quatro elementos que queriam permanecer dentro da sala de aula sozinhos. Deixar que os alunos fiquem sozinhos na sala de aula sem a presença do professor é algo que não está previsto no Regulamento Interno da Escola pelo que, perante a resistência dos alunos que não manifestavam qualquer interesse nas actividades supracitadas decidi que ficaríamos todos na sala com a seguinte tarefa: cada aluno deveria produzir um texto subordinado ao tema "A socialização" o qual me deveria ser entregue no final da aula. Será preciso dizer qual a reacção dos alunos? Apenas poderei afirmar que os alunos desta turma resistem sempre pela negativa a qualquer trabalho porque a escola é, na sua perspectiva, um espaço de divertimento mais do que um espaço de trabalho. Digamos que é uma Escola a fingir onde TUDO É PERMITIDO!
É muito fácil não ter problemas com os alunos. Basta concordar com eles e obedecer aos seus caprichos. Esta não é, para mim, uma solução apaziguadora do meu estado de espírito. Antes pelo contrário. A seriedade é uma bússola que sempre me orientou mas tenho que confessar, não raras vezes, sinto imensas dificuldades em estimular o apetite pelo saber a alunos que têm por este um desprezo absoluto. As generalizações são abusivas. Neste caso, não se trata de uma generalização abusiva mas de uma verdade inquestionável. Permitam-me um desabafo: os Cursos Profissionais são o maior embuste da actual Política Educativa. Acabar com estes cursos? Não me parece a solução. Alterem-se as regras.

Factos ocorridos na sala de aula:

Primeiro Facto: Dei início à aula não sem antes solicitar aos alunos que se acomodassem nos seus lugares. Todos o fizeram exceptuando o aluno ***********, que fez questão de se sentar em cima da mesa com a intenção manifesta de boicotar a aula e de desafiar a autoridade da professora.
Dei ordem ao aluno para que se sentasse devidamente e este fez questão de que eu o olhasse com atenção para verificar que ele, ***********, já estava efectivamente sentado e ainda que eu não concordasse com a sua forma peculiar de se sentar no contexto de sala de aula, seria assim que ele continuaria: sentado em cima da mesa. Por três vezes insisti para que o aluno se acomodasse correctamente e por três vezes o aluno resistiu a esta ordem.
Reacção da maioria dos elementos da turma: Risada geral.
Reacção do aluno *********: Olhar de agradecimento dirigido aos colegas porque afinal a sua "ousadia" foi reconhecida e aplaudida.
Reacção da professora: sensação de impotência e quebra súbita da auto-estima.
Senti este primeiro momento de desautorização como uma forma que o aluno, instalado na sua arrogância, encontrou de me tentar humilhar para não se sentir humilhado.
Como diria Gandhi, "O que mais me impressiona nos fracos, é que eles precisam de humilhar os outros, para se sentirem fortes..."
Saliento que neste primeiro momento da aula a humilhação não me atingiu a alma embora essa fosse manifestamente a intenção do aluno.

Segundo Facto: Dei ordem de expulsão da sala de aula ao aluno **********, com falta disciplinar. O aluno recusou sair da sala e manteve-se sentado em cima da mesa com uma postura de "herói" que nenhum professor tem o direito de derrubar sob pena de ter que assumir as consequências físicas que a imposição da sua autoridade poderá acarretar.
Nem sempre um professor age ou reage da forma mais correcta quando é confrontado com situações de indisciplina na sala de aula. Deveria eu saber fazê-lo? Talvez! Afinal, a normalização da indisciplina é um facto que ninguém poderá negar. Deveria ter chamado o Director da Escola para expulsar o aluno da sala de aula? Talvez...mas não o fiz. Tenho a certeza de que se tivesse sido essa a minha opção a minha fragilidade ficaria mais exposta e doravante a minha autoridade ficaria arruinada.
Dirigi-me ao aluno e conduzi-o eu própria, pelo braço, até à porta para que abandonasse a sala. O aluno afastou-me com violência e fez questão de se despedir de uma forma tremendamente singular: colocou os seus dedos na boca e em jeito de despedida absolutamente desprezível, atirou-me um beijo que fez questão de me acertar na face com a palma da mão. Dito de uma forma muito simples e SEM VERGONHA: Fui vítima de agressão. Pela primeira vez em aproximadamente vinte anos de serviço.
Intensidade Física da agressão: Média (sem marcas).
Intensidade Psicológica e Moral da agressão: Muito Forte.
Reacção dos alunos: Riso Nervoso.
Reacção do aluno **********: Ódio visível no olhar.
Reacção da professora: Humilhação.
Ainda que eu saiba que a humilhação é fruto da arrogância e que os arrogantes nada mais são do que pessoas com complexos de inferioridade que usam a humilhação para não serem humilhados, o que eu senti no momento da agressão foi uma espécie de visita tão incómoda quanto desesperante. Acreditem: a visita da humilhação não é nada agradável e só quem já a sentiu na alma pode compreender a minha linguagem.
Terceiro Facto: O aluno preparava-se para fugir da sala depois de me ter agredido e, conforme o Regulamento Interno determina, todos os alunos que são expulsos da sala de aula terão que ser conduzidos até ao GAAF, Gabinete de Apoio ao Aluno e à Família. Para o efeito, chamei, sem êxito, a funcionária do Pavilhão A, que não me conseguiu ouvir por se encontrar no rés-do-chão. Enquanto tal, não larguei o aluno para que ele não fugisse da escola (embora lhe fosse difícil fazê-lo porque os portões da escola estão fechados).
Mais uma vez, o aluno agrediu-me, desta vez, com maior violência, sacudindo-me os braços para se libertar e depois de conseguir o seu objectivo, começou a imitar os movimentos típicos de um pugilista para me intimidar. Esta situação ocorreu já fora da sala de aula, no corredor do último piso do Pavilhão A.
Reacção dos alunos (que entretanto saíram da sala para assistir à cena lamentável de humilhação de uma professora no exercício das suas funções): Risada geral.
Reacção do aluno ********: Entregou-se à funcionária que entretanto se apercebeu da ocorrência.
Reacção da Professora: Revolta e Dor contidas que só o olhar de um aluno mais atento ou mais sensível conseguiria descodificar. Porque, acreditem: dei a aula no tempo que me restou com uma máscara de coragem que só caiu quando a aula terminou e sem que nenhum aluno se apercebesse. Entretanto, a funcionária bateu à porta para me informar que o aluno queria entrar na aula para me pedir desculpa pelo seu comportamento "exemplar".
Diz-se que um pedido de desculpas engrandece as partes: quem o pede e quem o aceita. Não aceitei este pedido por considerar que, fazendo-o, estaria a pactuar com um sistema em que os professores são constantemente diabolizados, desprestigiados e ameaçados na sua integridade física e moral. Em última análise, a liberdade não se aliena. O aluno escolheu o seu comportamento. O aluno deverá assumir as consequências do comportamento que escolheu e deverá responder por ele. É preciso PUNIR quem deve ser punido. E punir em conformidade com a gravidade de cada situação. A situação relatada é muito grave e deverá ser punida severamente. Sou suspeita por estar a propor uma pena severa? Não! Estou simplesmente a pedir que se faça justiça.
Vamos ser sérios. Vamos ser solidários. Vamos lutar por uma Escola Decente.
Ps: Este caso já foi participado na Polícia e seguirá para Tribunal.
Ermesinde, 30 de Março de 2010

A Professora _________________________

30 abril 2010

Volto amanhã