02 fevereiro 2011

Sobre uma notícia das 8 da manhã de hoje...

... enviou-me Nicolau Saião o texto bem como a ilustração seguintes:

Nicolau Saião, As mortes exemplares

DO ALENTEJO PROFUNDO 1 - AS MORTES EXEMPLARES

Os números aí estão, insofismáveis, com a dureza e a naturalidade próprias da amarga verdade: o distrito de Portalegre é a segunda região da Europa com mais elevada percentagem de suicídios. Só é ultrapassada por Beja, essoutra região desprotegida de Portugal. Números divulgados pela Associação de Estudos específicos, corroborados anteriormente por organismos da União Europeia, abrem o pano de um triste cenário para quem tem o hábito de ler periódicos d’aquém e d’além-mar.

E aí está a região chave do nordeste alentejano, mais uma vez, a ter o lamentável privilégio de se ver citada por razões negativas.

Razões? São muitas, desde o recalcamento psicológico-sexual propiciado pela pressão duma religião mal-assimilada e nos limites da medievalidade até aos preconceitos provindos duma vida de relação atabafante e mesquinha, com o espectro da debilidade económica e da falta de meios sempre no horizonte: onde o comércio e a indústria não conseguem ir além da ronceirice requentada, só quebrada pela prosperidade das grandes superfícies, onde se encara frequentemente como cultura a efectivação de acções para entreter e lançar poeira nos olhos; e se tenta colonizar os espíritos mediante sessões que não deixam resíduo, que nada criam e nada proporcionam de durável, buscando transfigurar medíocres boas-bocas em “génios por via administrativa”…

Onde os que se rebelam contra a impostura são em geral marginalizados e substituídos por gente sem talento e frequentemente sem ética.

Onde o turismo, apesar das encenações a que alguns se entregam para “deitar milho aos pombos”, alcandorando-se quiçá a prebendas, não anda nem desanda. Ou antes, sarabanda…

Que o perímetro desta região está de facto doente, eivado de neuroses sociais onde aflora o “discreto” desprezo pelo cidadão por parte de organismos de segurança, violências oficiais subterrâneas e desvigamentos socio-económicos, infelizmente já o sabíamos. Agora aí está preto-no-branco, para nosso desgosto, nossa vergonha - e falta dela nuns tantos.

Mas que fazer quando organismos médicos são entidades persistentemente anquilosadas, nalguns casos até com gritantes fracturas no seu existir? Quando as ditas "forças vivas" olham mais para o umbigo que para o bem-estar dos cidadãos a quem por vezes hostilizam, quando não vergam o pescoço à canga com que habitualmente tentam jungi-los? Quando certas entidades espirituais-clericais avalizam a ignorância e substituem o esclarecimento e a autêntica vivência religiosa por actuações visando a permanência de teimas e de escleroses, mais de cunho beato-falso que filho do legítimo cristianismo digno do século em que estamos?

Diz o ditado que “o pior cego é aquele que não quer ver”. Mas o pior mesmo, segundo creio, é o que tenta que os outros não vejam.

Pela minha parte acrescentarei que, mais que aos obstinados, a culpa de situações assim cabe aos que tentam substituir-se à vida clara, ao interesse dos concidadãos - para continuarem a seroar nas suas confortáveis posições extáticas, oportunistas e sectárias ainda que à custa de um ambiente ilegítimo e suicidário.

Que o “Deus das pequenas coisas”, como dizia Arundhati Roy, nos ajude neste período tão especial de andanças e veraneios …bastante gélidos.

6 comentários:

Anónimo disse...

E muito mais poderia eu dizer e por minha vez, o Nicolau tem razão, quero aqui copiar uma informação publicada no jornal de referencia diário Público, sabem quantas pessoas o candidato Fernando Nobre encontrou na rua principal da cidade quando foi lá fazer campanha? Sete.
Não me enganei, sete. E há domingos em que parece um deserto,
até à missa cada vez vai menos pessoal, está linda a açorda.

Meira

Joaquim Simões disse...

Meira:
Conheço mal Portalegre, mas conheço bem o que se passa em Beja.
Um desgosto.

Nausícaa, São Paulo, Brasil disse...

Caros Joaquim Simões e Nicolau Saião,

Senti a fisgada como um peixe a debater-se fora d'água. Permitam-me, então:

A partir de informações da Wikipedia, eu não vou perguntar-vos a quem pertence o grande megafone utilizado pela senhora Arundhati Roy.

E, a partir dos estudos que venho realizando nas obras do Padre Gabriele Amorth, eu posso afirmar que também conheço "o deus das pequenas coisas", também conheço "nossa senhora de uma forma geral" - dito por um grande comentarista na tv brasileira.

Aquelas pequenas coisas que convem fazer, por exemplo, quando Jesus informa que para exorcizar determinado tipo de demônio necessita-se de orações e jejum.

E para combater na arena política, deve-se recitar o Rosário diariamente, como solicitiou Nossa Senhora em Fátima.

Apesar do "Príncipe deste mundo" e suas "legiões", a Igreja de sempre - e não apenas a medieval - oferece armas para bem combatê-lo. E eu gostaria que os homens da Igreja lutassem verdadeiramente pelos pobres, especialmente pelos pobres de espírito.

Anónimo disse...

EU SE FOSSE AO NICOLAU NÃO ME IMPORTAVA MAIS COM PORTALEGRE. aCHO E JÁ LHE DISSE QUE ESTÁ A PERDER CERA COM UMA RUIM DEFUNTA.pOR MIM FALO QUE DESDE QUE SAÍ DAÍ FOI O MELHOR QUE EU FIZ ALI, SÓ SE PERDE TEMPO É GASTADEIRO DE SABÃO LAVAR ORELHAS A BURROS.
F.SOUZA

Anónimo disse...

Um comentário fraternal e breve: a Nausicaa a minha cordialidade activa.
A F.Souza, que calculo seja o Ferreira de Souza do antigo "Maurizio's", é o seguinte: apesar do meu "distanciamento social/presencial" desta cidade hoje votada ao atraso sistemático e à corrupção ética mais evidente, (pese à sua beleza principalmente devido à sua situação geográfica privilegiada) a verdade é que dependo/sou tocado do/pelo ambiente daqui, assim como os meus. E se sou, como a maioria da população, prejudicado pelos que gerem, mal, a urbe, há um imperativo moral de procurar melhorar este ambiente negativo.
Nomeadamente através da crítica frontal e fundamentada.
E também amarga e algo angustiada, mas isso é uma outra história...
ns

Joaquim Simões disse...

Nausícaa:
Lutar pelos pobres de espírito é que é lutar verdadeiramente contra a pobreza, porque só se se tem garantia de fazer bem aquilo que se conhece. Quando o espírito não conhece, o resultado é quase sempre mau ou, pelo menos de duração duvidosa.
Um amigo meu disse, muitos anos atrás, que "Revolução cultural é um pleonasmo, não há outra". O resto não passa de meras substituições de uns poderes por outros, mas sem um fundamento real e firme, próprio de cegos que conduzem outros.