08 outubro 2010

Notícias da Holanda e da Europa


Ainda segundo o PÚBLICO do passado domingo, na mesma página 15 de onde retirei a notícia que esteve origem do texto que ontem aqui publiquei, finalizando uma outra, cujo cabeçalho é "Democratas-cristãos holandeses dão luz verde ao novo Governo", pode ler-se:

«A medida mais popular do programa de governo da nova coligação é o investimento de 1000 milhões de euros em cuidados para idosos, seguindo-se o fim do abono de família para quem tem filhos a viver fora da Europa e o reforço da polícia com 2500 agentes.

Outras medidas que estão a ser bem recebidas são a introdução de uma pena mínima para crimes graves, a retirada da nacionalidade holandesa aos imigrantes que cometem crimes graves e a instauração cidadania temporária de cinco anos para quem se queira naturalizar holandês. De acordo com o programa deste Governo apoiado por Wilders, será proibida a burqa».

O partido de Wilders, Partido da Liberdade, tem registado constantes subidas nas sondagens por se assumir como anti-islamista. A pátria da liberdade de pensamento em que a Holanda se tornou a partir do século XVII; o país que serviu de refúgio político a tantos daqueles de que hoje a Europa se orgulha pelo património cultural, filosófico e científico que nos legaram; a terra da tolerância religiosa que acolheu os judeus ibéricos, expulsos pelos reis católicos de Espanha e por D. Manuel I, de Portugal; a cultura que permitiu desenvolverem-se no seu interior as culturas alternativas e as contra-culturas que fertilizaram, ao espalharem-se por todo o mundo, as mudanças que, a esse nível, quase todo o planeta experimentou a partir dos anos 60 do século XX, alterando a nossa forma de estar na vida - esse laboratório social europeu com quatro séculos de actividade, pelos vistos, fartou-se. Fartou-se e, em nome da continuidade da sua identidade de cultura aberta, começa a fechar-se às culturas fascizantes e obscurantistas que dizem agir em nome da defesa dos princípios de uma religião, bem ao parasitismo descarado e à violência intimidatória que, disfarçada de emigração, chega à Europa, vinda de todos os lados.

Não foi o humanismo europeu, de que todos nos devemos orgulhar, quem provocou esta triste situação. Foram o humanismo apatetado, em ligação com o oportunismo político, os responsáveis por este estado de coisas. Saibamos reagir a tempo de não vermos, por necessidade, a Europa transformada, a breve trecho, numa fortaleza e nós, de novo, dentro dela, como os nossos antepassados de há mil anos atrás.

13 comentários:

Nausícaa, São Paulo, Brasil disse...

Caríssimo, eu vim aqui conferir a publicação de meu comentário, e depara-me com esse novo bom texto.

Eu não sei ao certo o que quereis dizer com "humanismo apatetado", mas somado ao oportunismo político, forma-se conceitos a se meditar em meus estudos, ainda frívolos, sobre a crise dentro da Igreja Católica, em Roma, no último século.

Parece-me que um excesso de democracia - um paradoxo, não? Dito de outra maneira, o despertar e o acesso de mais pessoas às decisões gerou esses impasses a que estão expostas as nações e instituições afetando-as gravemente.

Anónimo disse...

Muito bem. É isso. E os que ainda não perceberam que Wilders diz o que faz falta dizer - não à chantagem islamofascista, não ao fascismo vermelho travestido de progressista (e que até se arroga o descaramento de exaltar a Coreia do Norte, onde as torturas e os fusilamentos são diários)- então ou são tolos ou apenas cínicos em último grau. Repugnantes, como todos os hipócritas prontos para nos saltarem à garganta.

Isaltino Caramalho

Joaquim Simões disse...

Nausícaa:
Embora a quantidade e a qualidade variem, geralmente, em sentido inverso, nem sempre isso é uma fatalidade. Todos temos a experiência de, por vezes, haver grupos de trabalho numerosos que funcionam extremamente bem, enquanto outros, menos numerosos e com menores complexidades para resolver, falham por completo.
Não me parece, portanto, que seja um problema de mais fácil acesso de uns quantos às tomadas de decisão que perverte a democracia, mas o que se estabelece, cultural e individualmente, que ela seja. Nem sequer passa, a meu ver, pelo estabelecimento de regras e leis, a humanidade não melhorou o seu procedimento pelo facto de Kant haver determinado as três leis universais da ética. Trata-se antes de que se entranhe na educação que nos muda em seres humanos a frase de Santo Agostinho: "Ama a Deus e faz o que quiseres". Porque quem ama a Deus, ama o próximo como a si mesmo. E vice-versa.

Joaquim Simões disse...

Isaltino:

Eu não diria melhor, Caramalho!

Nausícaa, São Paulo, Brasil disse...

Concordo convosco.

Mas, digo-vos, é duro aguentar a gozação para cima dos paulistas que elegeram com mais de um milhão e trezentos mil votos um palhaço chamado Tiririca, quando nem o Tibunal Superior Eleitoral, nem tv-rádio-jornal, explicou para a população que um bando de vigaristas, aproveitando-se uma brecha da lei eleitoral, escolheu uma celebridade para puxar votos e eleger-se esses mesmos vigaristas pelo quoeficiente eleitoral, além da maldita "proporcionalidade" estabelecida durante a "ditadura" militar.

Democracia de massa mantem-se com o que é de fato: demagogia que está ultimamente devastando finanças de nações.

Santo Agostinho fala para indivíduos. Para o coletivo, ainda não se conseguiu inventar melhor sistema que o medieval: caridade em saúde e educação nas mãos da Igreja; segurança nas mãos do rei; propriedade da terra e produção partilhadas. Hoje, esse sistema é impossível, eu sei, a exemplo da bela ficção de Chesterton, "A vosta de Dom Quixote". Já a prosperidade britânica é fato, mas sem ética ou moral alguma.

Joaquim Simões disse...

Nausícaa:
Se o sistema medieval fosse assim tão mais adequado não teria sofrido os abalos que o derrubaram pouco a pouco. Visto à distância, parecer-nos-á mais harmonioso sob certos aspectos, mas nenhuma das ordens sociais que referiu tornavam as tarefas a que se diziam destinadas na sua única actividade nem as realizavam com o altruísmo que fazia parte da retórica oficial. Aliás, o mesmo Chesterton cuja posição citou a esse respeito, era extremamente crítico e duro em relação à nobreza e à realeza. Chesterton - para mim, um dos exemplos maiores de inteligência e carácter - desprezava profundamente a nobreza, tanto a medieval como a do seu tempo e exprime-o frontalmente em diferentes obras.
No sistema medieval, o camponês era fortemente explorado e socialmente oprimido, daí as jacqueries que se multiplicaram pela Europa, assaltando, pilhando, assassinando - não foi só o Robin Hood... E, sabe, como alguns aspectos dessa medievalidade se prolongaram para além do termo oficial que os historiadores lhe marcaram (1456), eu ainda os encontrei, amenizados, na vila alentejana de onde a minha família é originária, no início da segunda metade do século XX. Mesmo criança, havia aspectos que eu, embora não compreendendo, intuía como inaceitáveis.
Com sabe, temos que distinguir o Cristianismo - corpo doutrinal e filosófico, fonte de interpretações e aprofundamentos intelectuais e vivenciais permanentes - de cristandade - humanidade histórica e sociologicamente determinada, com as correspondentes interpretações e práticas, individuais e institucionais do Cristianismo. E também a acção da Igreja esteve longe de ser exemplar e desinteressada, com predominância do plano espiritual - di-lo Chesterton igualmente e digo-o eu, porque "a carne é fraca".
Vista de longe e sem os preconceitos obscurantistas a seu respeito que disseminaram determinados objectivos políticos, a Idade Média é refrescante em relação ao obscurantismo de hoje; mas sem a erigirmos em Idade de Ouro, que nunca foi e que esteve muito longe de ser.
Mas, olhe, deu-me uma ideia para fazer um textozinho sobre o tema. De qualquer maneira, não para já, que o trabalho é muito e o tempo escasseia.
Uma vez mais, bem-vinda.

Joaquim Simões disse...
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