23 março 2011

A propósito do Bahrein


Luís Dolhnikoff teve a gentileza de me enviar um seu artigo, inédito, para eventual publicação neste blog. Transcrevo-o integralmente de seguida, fazendo-o acompanhar pelos meus agradecimentos e pela devida chamada de atenção para um tema de tanta importância como aquele de que o texto trata.


BAHREIN, O UMBIGO INFLAMADO DO MUNDO

1. O que está em jogo no Bahrein

Há algumas semanas, conversando com uma historiadora, previ a invasão saudita do Bahrein, recém-concretizada. Infelizmente, não documentei minha previsão, mas isso não é o mais importante. O importante é compreender como essa previsão foi possível: a invasão era inevitável. Além disso, esclarece algumas das principais questões em jogo no Oriente Médio em particular e no mundo árabe em geral.

O Bahrein é uma pequena ilha no golfo Pérsico. O golfo Pérsico, por sua vez, é um verdadeiro lago cujas margens pertencem, em sentido horário a partir do sudeste, a Omã, aos Emirados Árabes, à Arábia Saudita, ao Qatar, ao Bahrein, ao Kuwait, ao Iraque e, finalmente, já na margem oriental, ao Irã. A peculiaridade desse “lago” é que se abre, através do golfo de Omã, para o mar da Arábia e o oceano Índico, e daí para a Ásia, e contornando a “bota” da Península Árabe, a oeste, para o Mar Vermelho, e daí para o canal de Suez e o Mediterrâneo. Em suma, a maior parte do petróleo do mundo converge para o golfo Pérsico antes de se espalhar para o resto do planeta.

Outra peculiaridade do golfo Pérsico é possuir quatro “portas”. A primeira, entre o Bahrein e o literal iraniano. A segunda, entre o Qatar e o litoral iraniano. A terceira, entre os Emirados Árabes e o litoral iraniano. A quarta, entre Omã e o litoral iraniano.

As particularidades do Bahrein são, por sua vez, duas: localizar-se na primeira “porta” do golfo, ou seja, na primeira passagem a ser cruzada pelos petroleiros de saída. A segunda particularidade é ter uma maioria xiita – porém um governo sunita.

Quando previ, naquela conversa, que a Arábia Saudita invadiria o Bahrein, raciocinei por exclusão. No grande tsunami político que ora varre os governos autocráticos e/ou monárquicos árabes, o Bahrein é o único caso a também envolver, diretamente, a questão sectária. Pois como a maioria da população da ilha é xiita, e a minoria, que detém o poder, é sunita, contestar e afinal derrubar o governo implica em trocar um governo sunita por um xiita.

O resultado seria que a primeira “porta” de saída do golfo Pérsico, a passagem entre o Bahrein e o litoral do Irã, se tornaria uma “porta” xiita. Os xiitas, portanto, deteriam potencialmente as chaves do mercado mundial de petróleo.

Ocorre que uma das diferenças fundamentais entre o sunismo e o xiismo está no fato de o segundo defender doutrinariamente a ligação entre religião e política (enquanto no sunismo essa ligação é possível mas não necessária). Isso significa que um eventual governo xiita no Bahrein será provavelmente uma teocracia – muito mais provavelmente do que nos demais países árabes. O golfo Pérsico não apenas seria controlado por teocracias xiitas (a do Bahrein de um lado, a do Irã do outro), como seria controlado por Estados ideológicos.

2. O que não está mais em jogo no Bahrein

Estados são movidos, como regra, por interesses, não por valores (incluindo seus próprios valores ideológicos). Chamo a esses Estados “normais” de Estados políticos. Existem, porém, ainda que como exceções, Estados ideológicos. Os Estados ideológicos se distinguem dos Estados políticos por serem movidos por seus interesses tanto quanto por seus valores (que não são necessariamente, sequer como regra, positivos). Para efeito de comparação, a URSS era um estado ideológico, enquanto a Rússia é um estado político; o III Reich era um estado ideológico, enquanto a República Federal da Alemanha é um estado político; a China de Mao era um estado ideológico, enquanto a China atual é um estado político. A diferença prática é que os Estados ideológicos não seguem, ou seguem ainda menos, a racionalidade política. Hitler manteve parte importante do sistema ferroviário alemão operando para alimentar a máquina de morte dos campos de extermínio até os últimos dias da guerra, apesar do próprio esforço de guerra e da derrota iminente; Mao Tse Tung destruiu a economia chinesa (e matou milhões de chineses) duas vezes, primeiro com seu Grande Salto, depois com a Revolução Cultural. O mundo não pode, e não irá, conviver com um golfo Pérsico ideológico.

Isso vai muito além do que as pequenas mentes maniqueístas do economicismo vulgar afirmam, ou seja, que tudo se explica pelo petróleo, isto é, pelo alto consumo dos EUA. Um golfo Pérsico ideológico é um problema para os EUA, mas também para a Europa, a China, o Japão e, na verdade, para todo o mundo, pois implica tirar a geopolítica local do campo da racionalidade dos Estados políticos para mergulhá-la no pântano da irracionalidade dos Estados ideológicos. Isto é, em si, um fator de enorme desconfiança, logo, de aumento de preços. O que afeta o conjunto da economia mundial.

Mas para além da desconfiança, Estados ideológicos são problemáticos de fato (o que aliás está na origem da desconfiança), levando, constantemente, a situações de crise e/ou de conflito, o que só piora o mesmo quadro.

Mas se o Bahrein tem uma maioria xiita, e se essa maioria está nas ruas, reivindicando o fim do governo monárquico sunita, no contexto das atuais revoltas árabes, o que fazer?

Os EUA têm no Bahrein a sede de sua poderosa Quinta Frota. Seria porém inimaginável, hoje, que as forças norte-americanas deixassem suas bases ali para impedir a formação de um governo xiita. O mesmo não se aplica às forças armadas sauditas – que estão virtualmente tão próximas quanto as da Quinta Frota, pois o Bahrein é uma ilha ao largo da Arábia Saudita, à qual se liga por uma ponte. Se o exército saudita entra no Bahrein chamado pelo governo, é muito mais difícil questionar a intervenção. Trata-se de árabes e muçulmanos reprimindo muçulmanos e árabes, e não ocidentais, muito menos americanos. Além disso, como o governo saudita é monárquico e autocrático, não responde senão a si mesmo. Como o mundo não pode, e por isso não irá, conviver com um Bahrein xiita, mas como o governo local, minoritário, está ameaçado pela revolta popular, a última, única e melhor opção é uma intervenção saudita. Daí eu tê-la previsto naquela conversa.

Hillary Clinton condenou, em termos não particularmente veementes, a invasão saudita do Bahrein. É jogo de cena. Silenciar seria apoiar, e apoiar seria pôr-se contra as massas árabes. E não há como justificar politicamente a defesa das revoltas tunisiana, egípcia, líbia etc., mas defender a repressão, principalmente externa, da revolta bareiniana. Portanto, nem silêncio nem defesa, mas condenação. Porém uma condenação “para os árabes verem”. Os sauditas, com o aval do próprio governo do Bahrein e dos demais países do golfo, ficarão ali enquanto for necessário.

Mas, então, a revolta popular no Bahrein, ao contrário da tunisiana e da egípcia, e apesar delas, está fadada ao fracasso? Provavelmente sim. Apenas os simplistas imaginaram que as revoltas árabes envolvem simplesmente ditadura versus democracia, opressão versus liberdade, injustiça versus justiça e outras dicotomias ideais. No caso do Bahrein, envolve também uma disputa sectária entre sunitas e xiitas. Como, aliás, é o caso crônico do Líbano, que por isso mesmo não consegue sair de um perpétuo estado de pré-guerra civil.

O Bahrein é, ao mesmo tempo, um ponto central e um ponto de virada nas atuais revoltas árabes, ainda mais do que a Líbia. A questão líbia é evidentemente maior, nos dois sentidos, maior e mais evidente, mas não tão central. Se a Líbia é igualmente vital no mercado mundial de petróleo, não pela quantidade de sua produção, mas pela qualidade de seu petróleo, e se em termos geopolíticos é a chave para conter uma imigração em massa de africanos para a Europa, além de em termos políticos ser fundamental para conter a expansão da teocracia islâmica no norte da África, tem um impasse solucionável. O problema líbio, ao menos no quadro das revoltas árabes, resume-se à força militar de Muamar Kadafi. Uma vez que o Ocidente saia de sua indecisão e resolva apoiar os rebeldes, haverá a transição líbia como houve a tunisiana e a egípcia (o que em si não garante nada além do fim da atual autocracia). O caso do Bahrein é diferente: a transição da monarquia autocrática para qualquer outra forma de governo, inclusive uma monarquia constitucional, acaba de ser abortada. As mudanças dependerão, agora, da derrota da revolta. Ou seja, acontecerão quando e se os governos do Bahrein e da Arábia Saudita julgarem que podem controlá-las. Caso contrário, seriam afinal controladas pelo Irã.

O caso do Bahrein demonstra algumas coisas. Uma delas, que as ilusões de que os países árabes estão ou estarão em breve migrando para governos democráticos não passam disso, ilusões. Tanto quanto os desdobramentos finais do acidente nuclear de Fukushima, os desdobramentos finais do abalo sísmico político no mundo árabe são inteiramente imprevisíveis. E podem ir desde um alarme injustificado até a verdadeira tragédia. Ou não ir para lugar algum, como no Bahrein, o pequeno grande paradoxo geopolítico da enorme incógnita das revoltas árabes.

3. O que ainda está em jogo no Bahrein

O Irã, ecoando Hillary Clinton, também condenou, e com mais veemência, a invasão saudita do Bahrein. Não, imagino, porque esteja preocupado com a morte no nascedouro da democracia bareiniana, mas porque está preocupado com a morte no nascedouro da teocracia xiita bareiniana.

O Irã é o maior país xiita, a Arábia Saudita, o mais importante país sunita (ainda que não o maior; este é a Indonésia, enquanto o maior país árabe é o Egito). Ambos estão frente à frente no golfo Pérsico. A revolta popular no Bahrein, ao ser também uma revolta xiita, era do interesse do Irã, enquanto a derrota da revolta, que é uma vitória do governo sunita, é obviamente do interesse da Arábia Saudita.

Já a democracia árabe em geral e a bareiniana em particular provavelmente não perdem nada, pois uma revolta xiita apoiada pelo Irã, apesar de envolver a maioria oprimida, aponta para a substituição de uma ditadura por outra, como aliás aconteceu no próprio Irã, com a troca da ditadura do xá pela ditadura dos aiatolás.

Mas se a Arábia Saudita ganha e se a democracia árabe não perde, perde o Irã. Como, então, reagirá?

Apesar do irracionalismo característico dos Estados ideológicos, eles raramente chegam à irracionalidade completa do suicídio político. O governo iraniano pode desafiar o mundo com seu programa nuclear mais do que suspeito (apesar de toda inocência útil do governo Lula), seu presidente pode fazer discursos políticos irracionais e obscenos, negando o Holocausto e pedindo a destruição de Israel (logo, o genocídio de sua população), eles podem apoiar com palavras as revoltas populares árabes e reprimir pela força sua própria oposição popular (com o devido apoio do governo Lula), mas não irão invadir o Bahrein para se contrapor ao exército saudita.

O Irã se limitará, portanto, ao que é possível e pouco arriscado. Assim, usará seus instrumentos de sempre, o Hamas na Faixa de Gaza e o Hizbolá no Líbano, para dar mais uma volta momentânea no parafuso da instabilidade regional, o que não é do interesse do conservador, em todos os sentidos, governo saudita. Assim, deve-se assistir, proximamente, ou a declarações provocativas ou a atos de agressão vindos dos dois grupos terroristas, seja dentro do Líbano ou contra Israel. Ao mesmo tempo, tratará de tentar manter viva a resistência no Bahrein.

A Arábia Saudita é, de certa forma, um grande Bahrein às avessas. Uma vasta maioria sunita, representada pela casa real, governa sobre uma minoria xiita. O aumento da instabilidade regional, principalmente envolvendo diretamente questões sectárias, é na verdade um pesadelo particular para o governo saudita. O Irã fará tudo para alimentar esse pesadelo. Felizmente, para o governo saudita, esse tudo não é muito.

O que nos leva a outro paradoxo. Pois o governo saudita é um dos mais condenáveis do mundo. Na verdade, é no mínimo tão condenável quanto o do Irã, do qual é uma espécie de alma gêmea. Na prática, a Arábia Saudita é uma teocracia islâmica de tipo sunita, enquanto o Irã é, de fato, uma teocracia de tipo xiita. Se o clero não governa diretamente na Arábia Saudita, nem por isso as leis deixam de ser as da shariá, o código islâmico. Ali, como no Irã, mulheres são subcidadãos, gays são condenáveis à morte, não há liberdade de reunião, de expressão, de culto etc. A vitória sunita no Bahrein não é, afinal de contas, melhor do que uma vitória xiita. Enfim, se o Irã perde, o mundo nada ganha.

2 comentários:

Anónimo disse...

DEPREENDO QUE ESTE ARTICULISTA É BRASILEIRO, NÃO SERÁ?
PERCEBO AGORA PORQUE É QUE NÃO LIA COISAS DELE NO PUBLICO OU EXPRESSO OU OUTROS. tINHA FICADO ADMIRADO ANTERIORMENTE, AGORA ENTENDO, ELE ESCREVE EM JORNAIS DAQUELE PAÍS QUE DEIAM ACESSO DE LEITURA NA REDE?

laroca

Joaquim Simões disse...

Laroca:

Os textos de Luís Dolhnikoff são publicados regularmente na revista on-line Sibila.
Não sei se, de momento, ele colabora na imprensa do seu país. Mas lamento que nenhum jornal português o conte entre os seus colaboradores.